Ovídio: da arte de amar à arte de esquecer



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OVÍDIO: DA ARTE DE AMAR À ARTE DE ESQUECER

A partir do conceito de amor enquanto arte que se aprende, o presente ensaio pretende mostrar como o poeta Ovídio compreende essa arte em duas de suas obras, A Arte de Amar e Remédios para o Amor. Para isso analisaremos as duas obras de forma linear na tentativa de fazer uma leitura do que o autor compreende por arte de amar e arte de esquecer.



Ovídio
Publius Ovidios Naso, mais conhecido entre os latinos simplesmente como Ovídio, nasceu em Sulmona, ao norte de Roma em 20 de março de 43 a.C., foi obrigado a exilar-se de Roma em 8 d.C. por ordem de Augusto. Morreu em 17 d.C. em Tomos, atual Constança na Romênia. De família rica, estudou retórica e gramática, mas dedicou-se posteriormente com todas as forças a poesia, sua paixão. De todos os poetas líricos do tempo de Augusto, Ovídio é, sem duvida, o que mais nos encanta por sua versatilidade, ironia, mundanidade, elegância e irreverência.

Poeta cuja obra atravessou inúmeras gerações, suas obras foram modelares para poetas latinos, medievais e para o humanismo renascentista. Ovídio é, sem sombra de duvida, um poeta do amor, do corpo e da felicidade. Amor profano e demasiadamente humano.

Ovídio tratou o amor de forma excêntrica para o seu tempo. Como uma arte. Não a arte do sentir, que seria impossível, mas a arte de seduzir que tem por meta fundamental o prazer pelos caminhos da liberdade.

Suas obras mais notáveis são: Amores, As Heróides, As Metamorfoses, A Arte de Amar, Remédios para o Amor e Os Produtos de Beleza para o Rosto da Mulher.



A Arte de Amar

A Arte de Amar (Ars Amatoria) está dividida em três livros escritos em dísticos elegíacos. É uma obra repleta de metáforas, metonímias, alusões e apóstrofes. No preâmbulo desse primeiro livro, primeiro parágrafo, Ovídio diz:
Se houver algum homem comum a quem a arte do amor seja desconhecida, que ele leia este poema e que, conhecendo-a através de sua leitura, ame. É a arte com que a vela e o remo são manejados que permite às naus navegarem rapidamente, a arte que permite às carruagens correrem ligeiras: a arte deve governar o amor. (OVÍDIO, 2001, p. 17).
Nesse primeiro livro o poeta fala da sedução. A mulher é, conscientemente, um animal caçado, o homem um caçador e freqüentemente mal dissimulador:
Antes de tudo, que o seu espírito esteja persuadido de que todas as mulheres podem ser presas: você as prenderá; estenda apenas as redes. Os pássaros se calarão na primavera, no verão as cigarras, o cão de Menale fugirá diante da lebre, antes que a mulher resista perante as solicitações carinhosas de um homem. Ela mesma, que você poderá acreditar não querer, quererá. O amor culpado é agradável ao homem; e também a mulher: o homem dissimula mal, a mulher esconde melhor. (OVÍDIO, 2001, p. 47).
Ovídio nos mostra que nessa caça, verdadeiro jogo de sedução, onde há estratégias mínimas e máximas, há lugar para a simulação e dissimulação constantes. Mas o fingidor pode ser vitima do seu próprio hábito.

O que Ovídio nos diz acerca do hábito nos lembra, em certa medida, o filósofo grego Aristóteles, para o qual nós somos aquilo que fazemos repetidas vezes. Aristóteles disse:


Pelos atos que praticamos em nossas relações com outras pessoas, tornamos-nos justos ou injustos; pelo que fazemos em situações perigosas e pelo hábito de sentir medo ou de sentir confiança, tornamo-nos corajosos ou covardes. (ARISTÓTELES, 2007, p. 41).
Ovídio mostra-nos o imperativo irremediável do hábito na construção do ser. Diz o poeta: “Acontece com freqüência, que aquele que finge amar comece a amar realmente, muitas vezes se torna realidade aquilo que no principio ele fingia sentir” (OVÍDIO, 2001, p. 41). E noutro lugar diz que, “o amor, ainda jovem e pouco seguro de si, se fortifica com o uso; alimente-o bem, e, com o tempo, ele se tornará sólido” (OVÍDIO, 2001, p. 63).

Mas será que as mesmas táticas de sedução são aplicáveis em todas as mulheres? Será que essa arte funciona com todas?

No final do primeiro livro está uma nova arma: “Acabarei aqui, mas as mulheres não têm os mesmos sentimentos, ao contrario; você encontrara mil almas diferentes; para conquistá-las empregue mil meios” (OVÍDIO, 2001, p. 47).

No segundo livro Ovídio fala do amante. E procura mostrar ao amante como manter o amor da amada, como diz: “Não basta que meus versos tenham trazido aquela que você ama; minha arte o fez prendê-la, minha arte deve conservá-la” (OVÍDIO, 2001, p. 49). Esse segundo livro, mais que os outros dois, é impressionantemente didático. Nele, Ovídio propõe alguns métodos que podem preservar o amor. Ser amável, perseverante, condescendente, permanecer em perpétua admiração pela amada, dar provas de dedicação, ignorar as infidelidades, elogiar até os defeitos da amada, são alguns dos métodos, indicados pelo poeta, para manter o amor conquistado. É a arte que faz a duração do amor.

Nesses tempos hiper-modernos, onde os relacionamentos relâmpagos se repetem ao inumerável, podemos aprender com Ovídio que a arte de amar não é apenas o jogo da sedução, da conquista e do entretenimento, mas também é a arte da duração, da permanência.

No terceiro livro temos o poeta falando da mulher para a mulher. “Vou ensinar às mulheres como elas se farão amadas” (OVÍDIO, 2001, p. 81). Não é só a mulher como objeto de caça e amor que o homem quer ter sob seus domínios que interessa o poeta. A personagem feminina também o interessa não como parceira passiva no jogo da sedução, mas também como aluna que pode aprender e utilizar a arte de amar para sua própria satisfação e prazer.

Ovídio diz:
Enquanto Vênus me inspira, procurem aqui lições, ó mulheres! Eu falo para mulheres a quem o pudor, as leis e condição autorizam aproveitá-las.Desde já pensem na velhice que virá: assim, não deixem passar nenhum momento sem aproveitá-lo. Enquanto puderem, estando ainda na primavera da vida, divirtam-se; os anos passam como a água que corre; a onda que passou na sua frente não voltará mais de onde ela veio; assim também a hora que passou não pode mais retornar. É preciso aproveitar sua idade; ela foge rapidamente e, por mais feliz que ela seja, será menos feliz do que aquela que a precedeu. (OVÍDIO, 2001, p. 82).
A primeira lição determinante que o poeta dá à suas alunas é: aproveitem a vida a cada momento; não deixem o tempo passar; o melhor momento para aproveitar é agora.

Nesse terceiro livro, com o qual o poeta termina sua obra, há muitos conselhos para as mulheres seduzirem os homens e tê-los também sob seu domínio.A luta de forças, nesse caso, pode ser inevitável, mas o amor é uma arte e para cada situação conflituosa há uma nova estratégia.

O cuidado de si, o penteado, a roupa, a voz, não ocultar seus encantos, as cartas de amor, evitar certas categorias de homens, desconfiar das amigas, são alguns dos conselhos dado por Ovídio para que a mulher seja amada por muito tempo.

Para concluir seu livro Ovídio diz: “Meu folguedo chega ao fim: é hora de descer do carro sob o jugo do qual os cisnes deixaram seu colo. Como outrora os homens, que agora as mulheres, minhas alunas, escrevam sobre seus troféus: Ovídio foi nosso mestre” (OVÍDIO, 2001, p. 113).

Poeta do amor erótico, dos jogos de sedução, das estratégias amorosas, Ovídio nos mostra em A Arte de Amar o amor sob perspectiva didática, o amor como uma arte a ser aprendida, como um jogo com suas regras instáveis. Diferente do amor no judaísmo e no cristianismo primitivo com seus pressupostos assentados na subjetividade, na renúncia de si mesmo para o bem do próximo e de si mesmo, o amor em Ovídio é uma arte na qual o pecado e seus derivados são insignificantes.

A Arte de Esquecer
Outra obra ovídiana, estritamente relacionada à Arte de Amar é Os Remédios para o Amor.

Não sabemos exatamente o que tenha levado Ovídio a escrever essa obra. As conjecturas podem ser muitas. No entanto, de acordo com Zélia Cardoso (1989), em A Literatura Latina, “Um pouco depois da publicação de A Arte de Amar, e talvez para responder a criticas formuladas em relação ao poema, Ovídio oferece aos leitores romanos Os Remédios para o Amor”.(p. 80).

Partindo dessa possibilidade, podemos e devemos encarar Os Remédios para o amor como obra irmã de A Arte de Amar. Aquela como conseqüência dessa.

Ainda, falando sobre Os Remédios para o Amor, Zélia Cardoso diz que “o texto é perpassado de um leve tom irônico e retrata, mais uma vez, a frivolidade e a inconseqüência de uma faixa expressiva da sociedade de Roma”. (CARDOSO, 1989, p. 80).

No inicio do livro afirma o poeta:
Se um amante arde por um objeto que lhe agrada amar e que o retribui, que aproveite sua felicidade e entregue seu barco aos ventos favoráveis. Mas se houver quem, por infelicidade, suporte a dominação de uma amante indigna de seu amor, para se salvar, procure a ajuda de minha arte. (OVÍDIO, 2001, p. 117).
Ovídio, como lemos, não propõe a sua arte de curar a qualquer tipo de amor, mas àquele amor infeliz, sem reciprocidade e escravizador. Se o amante se agrada do seu objeto de amor, deve permanecer nesse amor e gozá-lo.

Ao contrario daqueles que tentam encontrar em Remédios para o Amor uma justificativa para tratar o amor como um mal em si mesmo do qual é necessário libertar-se, Ovídio nos aponta, também, um amor que deve durar: o amor que se sustenta na reciprocidade, na satisfação mutua.

Ovídio convida seus alunos e alunas a aprenderem a arte de curar-se do amor:
Venham as minhas aulas, jovens enganados, que no amor só encontraram decepções. Aquele que os ensinou a amar os ensinará como se curar. A mesma mão lhes trará a ferida e o remédio. A terra produz ao mesmo tempo plantas saudáveis e plantas nocivas, e muitas vezes a urtiga está ao lado da rosa. (OVÍDIO, 2001, p. 118-119).
O objetivo dessas aulas é “apagar uma chama cruel e libertar os corações de uma vergonhosa escravidão”. (OVÍDIO, 2001, p. 119).

Mas quais são afinal os remédios que o poeta indica para curar-se do amor? Se o amor é uma doença, qual a sua cura, o prognostico?

Ovídio aponta alguns caminhos para a cura, são eles: cortar o mal pela raiz; procurar uma vida ativa; dedicar-se a agricultura, caça e pesca; não ocupar o mesmo espaço que o objeto amado; praticar a magia; pensar continuamente nos defeitos da amada; não se contentar com um amor; fingir frieza; pensar nos tormento que experimentou; evitar tudo que pode reacender o amor; não guardar rancor; comparar o objeto de amor a objetos mais belos; etc.

Mas, embora Ovídio mostre os remédios para curar-se do amor, ele mesmo pergunta: Esses remédios são realmente eficazes? E o mesmo responde: “Talvez alguém diga que são remédios fracos e eles o são realmente. Mas aqueles, que isolados, não tem poder, reunidos são eficazes”. (OVÍDIO, 2001, p. 134).

Se, contudo, o amante, praticando todos os conselhos dados, não conseguir libertar-se e curar-se do amor?

O poeta responde como se segue:


Já que os caracteres variam ao infinito, variemos nossos meios: para mil tipos de doenças, mil tipos de remédios. Há corpos em que o ferro afiado não consegue curar completamente; muitos encontraram auxilio no suco das plantas. Você é muito fraco; não consegue se afastar, seus grilhões o seguram e o cruel Amor mantém o seu pé sobre sua garganta. Pare de lutar; os ventos soprando nas velas conduzirão seu barco; que seu remo siga a onda que o leva. É preciso acalmar esta sede que o queima e faz sofrer. Estou de acordo. Quero que de agora em diante você beba no meu rio. Mas beba até mesmo alem do que seu estomago pedir; até eu sua garganta esteja cheia e até que a água seja regurgitada. Desfrute de sua amiga sem parar, sem obstáculo; que ela preencha suas noites e seus dias. Procure a saciedade. A saciedade é também uma forma de cura. Mesmo quando você acreditar que pode ficar sem sua amiga, fique até que você esteja bem saciado, até que a fartura carregue o amor, que você esteja enjoado da casa e não queira mais ficar ali.(OVÍDIO, 2001, 138-139).
Curar o amor pela saciedade, o excesso, o esgotamento, a presença da amada elevada à sexagésima potência, a proximidade suicida, o enjôo, talvez seja alguns dos remédios mais excêntricos apresentados pelo poeta, uma vez que em todos os medicamentos anteriores a regra fundamental era a distância. Nesse texto, pelo que se pode apreender, o amor morre também pela saciedade do amante.

Para concluir, Ovídio diz:


Eis minha obra terminada; enfeitem com guirlandas meu navio cansado. Chegamos ao porto onde eu queria atracar. Mais tarde, ao poeta sagrado rendam as ações de graças que lhe são devidas, mulheres e homens curados por meus versos. (OVÍDIO, 2001, p. 150).
Considerações Finais
Podemos considerar a partir do que foi exposto, que a arte de amar de Ovídio apresenta o amor sob duas dimensões opostas sem, no entanto, uma excluir a outra. E vemos também que a arte de amar ovídiana tem por finalidade, única e exclusivamente, a auto-satisfação do amante, sem interesses transcendentais e cuja realização se dá através da arte, do jogo, da sedução.

Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Pietro Nassetti. São Paulo. Martin Claret, 2007.

CARDOSO, Z. de A., A Literatura Latina. Porto Alegre. Mercado Aberto, 1989.



OVÍDIO. A Arte de Amar. Porto Alegre. L&PM Pocket, 2001.





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