Ovelhas Negras



Baixar 0.54 Mb.
Página1/8
Encontro09.05.2018
Tamanho0.54 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8




CAIO FERNANDO ABREU




OVELHAS NEGRAS
(De 1962 a1995)

Coleção L&PM Pocket, vol. 283


Primeira edição na Coleção L&PM Pocket: novembro de 2002

Capa; Ivan Pinheiro Machado
Revisão; Renato Deitas e Já Saldanha
Produção; L&PM Editores

ISBN 85.254.1186-8

A162o Abreu, Caio Fernando, 1948-1996
Ovelhas negras / Caio Fernando Abreu. -- Porto Aleere; L&PM. 2002.
240 p. ; 18 cm -- (Coleção L&PM Pocket)

1. Ficção brasileira-Contos. 1. Título. II. Série.

CDD 869.931 CDU 869.0(81)-34

Catalogação elaborada por Izabel Á. Merlo, CRB 10/329


Caio Fernando Abreu, 2002
Todos os direitos desta edição reservados à L&PM Editores
Pwto Alegre: Rua Comendador Coruja, 314, loja 9 - 90220-180 Floresta - RS / Fone; (Oxx5l) 3225.5777
informações e pedidos; info@lpm.com.br
www.lpm.com.br
Impresso no Brasil
Verão de 2005

Introdução
Nunca pertenci àquele tipo histérico de escritor que rasga e joga fora. Ao contrário, guardo sempre as várias versões de um texto, da frase em guardanapo de bar à impressão no computador. Será falta de rigor? Pouco me importa. Graças a essa obsessão foi que nasceu Ovelhas negras, livro que se fez por si durante 33 anos. De 1962 até 1995, dos 14 aos 46 anos, da fronteira com a Argentina à Europa.
Não consigo senti-lo — embora talvez venha a ser acusado disso, pois escritores brasileiros geralmente são acusados, não criticados — como reles fundo-de-gaveta, mas sim como uma espécie de autobiografia ficcional, uma seleta de textos que acabaram ficando fora de livros individuais. Alguns, proibidos pela censura militarista; outros, por mim mesmo, que os condenei por obscenos, cruéis, jovens, herméticos, etc.; outros ainda simplesmente não se enquadram na unidade temática ou/e formal que sempre ambicionei em meus livros de contos. Eram e são textos marginais, bastardos, deserdados. Ervas daninhas, talvez, que foi aliás um dos títulos que imaginei.

Foram às vezes publicados em antologias, revistas, jornais, edições alternativas. Mas grande parte é de inéditos relegados a empoeiradas pastas dispersas por várias cidades, e que só agora — como pastor eficiente que me pretendo — consegui reunir. Cada conto tem seu “o conto do conto”, freqüentemente mais maluco que o próprio, e essas histórias também entram em forma de miniprefácios. A ordem é quase cronológica, mas não rigorosa: alguns tinham a mesma alma, embora de tempos diversos, e foram agrupados na mesma, digamos, enfermaria. Eram cerca de seiscentas páginas e cem textos, material para uns três rebanhos... O que ficou foi o Para que me pareceu “melhor”, mas esse melhor” por vezes é o “pior” — como a arqueológica novela A maldição dos Saint-Marie, melodrama escrito aos quatorze anos. Claro: há autocomplacências, vanguardismos, juvenflias, delírios lisérgicos, peças-de-museu. Mas jamais o assumiria se, como às minhas outras ovelhas brancas publicadas, não fosse eu capaz de defendê-lo com unhas e dentes contra os lobos maus do bom-gostismo cnstituído e estéril. Remexendo, e com alergia a pó, as dezenas de pastas em frangalhos, nunca tive tão clara certeza de que criar é literalmente arrancar com esforço bruto algo informe do Kaos. Confesso que ambos me seduzem


o Kaos e o in ou disforme. Afinal, como Rita E para Lee, sempre dediquei um carinho todo especial pelas Gil Veloso, mais negras das ovelhas. anjo da guarda
(O Autor-Pastor)1995
Sumário
I-CH’IEN

A maldição dos Saint-Marie

O príncipe Sapo

A visita


Introdução ao passo da guanxuma

Loucura, chiclete & som

Sagrados laços

Por uma tarde de junho

De várias cores, retalhos
Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão.”
(Clarice Lispector: A Legião Estrangeira)
II—K’AN

Lixo e purpurina

Creme de alface

Mas apenas e antigamente guirlandas sobre o poço

Antípodas

Noites de Santa Tereza

Triângulo em cravo e flauta doce

Red roses for a blue lady

O escolhido
III—KÊN

Venha comigo para o reino das ondinas

Anotações sobre um amor urbano

A hora do aço

Uma história confusa

Sob o céu de Saigon

Onírico

Metâmeros




  1. Aperda

  2. Sobre o vulcão

  3. Depois de agosto

CH’IEN
“Aparece uma revoada de dragões sem cabeça.”

(I CHING, O Livro das Mutações)


A maldição dos Saint-Mari

Para Ilone Madalena Dri Almeida, minha primeira leitora.

No ginásio, em Santiago, tive a sorte de ter um professor de Português muito bom José Cavalcanti Jr. Certa vez ele realizou um concurso de romances, e este meu foi o vencedor. Foi em 1962, eu tinha 13 ou 14 anos. O sucesso foi enorme: as meninas faziam fila para ler (só havia uma cópia, escrita em caderno Avante com caneta Parker 51). É evidente que a história cheia de clichês, influenciada por radionovelas, fotonovelas e melodramas mambembes do Circo- Teatro Serelepe, não presta, mas talvez possa render algumas risadas. Anos mais tarde, foi a base para Luiz Arthur Nunes e eu escrevermos a peça teatral A maldição do Vale Negro. Não mudei absolutamente nada do original: a graça aqui, creio, está justamente no tosco e no tolo.


CAPÍTULO 1
Adriana estava sentada em uma poltrona, folheando um livro sem muito interesse. Suas roupas eram modestas, mas não pobres, tinha longos cabelos negros que nunca prendia e seus olhos também eram negros, dando-lhe uma expressão triste que jamais se apagava, nem mesmo quando ela sorria. Subitamente, uma batida à porta. Adriana assustou-se, mas logo levantou correndo para abrir, não sem antes arrumar os cabelos com as delicadas mãos.

Boa-noite, Adriana — disse o homem a quem a jovem atendeu.

— Oh, Fernando! — falou ela, com sua voz quente e vibrante. — Fernando, tenho tanta coisa para contar...

O homem entrou. Estava ricamente vestido, mas seu rosto era vulgar. Tinha a testa muito larga, contrastando com os olhos miúdos e vivos que examinavam a moça com avidez. Adriana fê-lo sentar e, tomando as mãos dele entre as suas, levou-as à boca, roçando-as suavemente com os lábios.

— Querido — ela disse comovida —, há mais uma estrela no céu, há mais um anjinho aos pés da ‘Virgem Maria...

— Que significa isso, Adriana? — perguntou Fernando, com o largo sobrecenho franzido. A moça, surpreendida com a reação, não conseguiu falar e fez um quase imperceptível aceno com a cabeça. Por fim conseguiu balbuciar timidamente algumas palavras.

— S-sim, Fernando... Agora poderemos nos casar e... então nós iremos viver no seu castelo, Fernando... no castelo de Saint-Marie... nós e nosso filhinho...

Fernando, furioso, deu-lhe um empurrão gritando:

— Idiota! Você pensava que eu, o senhor de Saint-Mame, iria casar-me com você? Com você, uma zinha qualquer? Mulheres iguais a você, Adriana, encontram-se aos montes em qualquer lugar, mulheres que com um gesto oferecem-se a qualquer homem!

Adriana estava em pé. Sua aparência tão doce transformara-se em uma máscara onde se estampavam simultaneamente o ódio, o desespero e o desprezo. Levantando a cabeça, ela olhou fixamente para Fernando e em voz rouca, entrecortada pelas lágrimas, gritou-lhe:

— E homens iguais a você, Fernando de SaintMarie, não se encontram todos os dias. Homens que em sua suja alma não têm um pingo de moral, uma gota de honra nem de dignidade. Homens que não pensam nas mulheres puras e honradas que sacrificam-lhes toda a sua pureza para que eles satisfaçam os seus desejos sexuais, desejos de bestas. E depois de saciados não hesitam em abandonar uma pessoa que sofreu todos os seus sofrimentos, deixando também o sangue de seu sangue, a carne de sua carne que germinou no ventre de quem o amou. Você, Fernando, estava num alto pedestal. Por você eu abandonei tudo, mas agora o pedestal caiu e o ídolo caiu ao chão esfacelando-se.

Cinicamente, o homem contemplava Adriana. Por fim levantou-se, furioso com as últimas palavras da jovem e, dando-lhe uma violenta bofetada, atirou- a ao chão.

— Prostituta! — gritou. — Prostituta é a palavra que serve para você, Adriana!

Em seguida tirou algumas notas da carteira e atirou-as no rosto de Adriana, lavado em sangue e lágrimas.

— Infeliz! — gritou a moça. — Hei de vingar-me, e minha vingança será terrível, Fernando de Saint-Marie. Hei de ving...

Com um gemido, Adriana perdeu os sentidos. Fernando apanhou o chapéu e o sobretudo e saiu assobiando.

Pouco depois, a moça voltou a si do desmaio e arrastando-se penosamente pelo tapete manchado de sangue conseguiu chegar a uma mesinha, sobre a qual estava uma imagem da Virgem com Jesus ao colo. Erguendo o belo rosto para a imagem, Adriana juntou as mãos pálidas e rogou:

— Virgem Santíssima, o que mais quero na vida é que meu filho nasça. Por favor, Senhora, deixe-o nascer... deixe-o nascer...

E proferindo essas palavras caiu novamente des maiada.

CAPÍTULO II
Ali, nas montanhosas escarpas dos Pirineus, erguia-se o imponente castelo Saint-Marie, nome que também designava a família possuidora do castelo. À frente do casarão havia uma alameda que, descendo as escarpas dos Pirineus, encontrava a estrada que levava até um pequeno povoado. Dos lados e atrás do castelo existiam terríveis precipícios e, alguns quilômetros depois, um regatozinho onde as lavadeiras trabalhavam.

Vamos encontrar Fernando de Saint-Marie, o futuro proprietário do castelo, subindo pela alameda que conduzia à morada. Neste instante ele batia à porta com a pesada e severa aldrava em forma de cabeça de leão.

Uma criadinha apressou-se a abrir. Fernando entregou-lhe o sobretudo, o chapéu, e entrou na imponente mansão. Logo à frente da porta havia uma escadaria que, mais acima, dividia-se em duas. O futuro senhor de Saint-Marie subiu essas escadas com passadas fortes, que retumbavam no silêncio do castelo. Tomou a escada da direita e subiu até um amplo living onde se encontravam cinco pessoas.
Uma delas era a Senhora Ilsa de Saint-Marie, mulher de sessenta anos, de fisionomia bondosa e acolhedora. A outra era Eleonora, parente longínqua da fami’lia e que há quatro anos vivia ali, desde que completara quinze anos. Era uma jovem magra, assustada, mas não era feia. Tinha cabelos louros presos num coque e dois olhos enormes e azuis. A outra pessoa na sala, além do avô de Fernando e do mordomo Jacques, era a governanta Amália, uma mulher orgulhosa e vaidosa e que, apesar de ter mais de quarenta anos, nunca se casara, por isso tornando-se amarga e triste. Foi ela quem criou Fernando desde que este nasceu.
Dona Ilsa de Saint-Marie virou-se para o filho com a fisionomia alegre. Com dificuldade levantou- se da poltrona para beijar Fernando:

— E então — perguntou —, como foi seu passeio? — Mas sem dar tempo ao moço de responder, continuou: — Não sei por que esses passeios noturnos, nunca gostei deles. Você sabe, meu filho, que não somos vistos com bons olhos na vila...

— Deixe o rapaz sossegado, Dona Ilsa! — exclamou Amália. — Ele já é um homem, sabe o que faz!

Fernando estava alheio a essas conversas. Lembrava das palavras de Adriana ao sair da casa dela.

Eleonora, noiva de Fernando, amava-o muito, mas ao mesmo tempo sentia certo medo dele. Agora estava triste, pois o rapaz não lhe dirigira um olhar sequer desde que chegara. Adiantou-se intimidada, tomou a mão da Senhora Ilsa e levou-a aos lábios.

— Até logo, titia — disse. — Vou para meus aposentos, se me permite.


A velha Senhora de Saint-Marie tinha um sorriso malicioso nos lábios quando perguntou:

— Já, Eleonora? Não vai conversar um pouco com seu noivo? Ou será que vocês estão brigados?

A tímida jovem murmurou um trêmulo não e saiu quase correndo da sala.

— E você, Amália — continuou Dona Ilsa —, já encontrou a moça que precisava para ajudá-la no serviço?

— Não — foi a seca resposta da governanta. — Mas mandei avisar no povoado.

Fernando avançou e, dando um beijo na enrugada face da mãe, disse:

— Vou seguir o exemplo de Eleonora, mãe. Também vou deitar-me. Estou muito cansado.

Fernando retirou-se. E Amália fez o mesmo, seguida pela Senhora Ilsa e pelo mordomo que empurrava a cadeira de rodas do Senhor de Saint-Marie.


O silêncio caiu sobre o castelo de Saint-Marie.

CAPÍTULO III
Em seus aposentos, Fernando tinha os pensamentos voltados para Adriana:

— “O que pensará ela fazer? Qual será a sua vingança? Ah, mas eu não deveria estar receando alguma coisa da parte de uma mulherzinha vulgar e inculta, apesar de muito bela... Mais bela que minha noiva Eleonora...”

Esse último pensamento de Fernando ocorreu-lhe sem que o quisesse. Mas, na verdade, não se podia comparar a beleza de Adriana à de Eleonora. Uma era ardente, sensual, um verdadeiro vulcão prestes a explodir; a outra, tímida, frágil e delicada. Duas mulheres totalmente opostas uma da outra.
— “E se ela contar à minha mãe que eu, o futuro Senhor de Saint-Marie, sou o pai de seu filho?”

Perto dali, Eleonora tinha seus pensamentos voltados para Fernando. Abraçada ao macio travesseiro, imaginava por que motivo o jovem não retribuía seu amor:

— “Será que ele ama outra, meu Deus? Mas quem, quem poderia ser? Fernando quase não sai do castelo, passa os dias trancado no escritório. E quando sai” — pensava ela com amargura — “...quando sai não se digna a lançar-me um olhar, um gesto, um nada. E eu... eu o amo tanto, tanto... Daria a minha vida para vê-lo feliz...” E enterrando a loura cabeça no travesseiro, ela começou a soluçar baixinho, deixando as lágrimas correrem livremente. Por fim, receando que a cruel Amália a ouvisse, silenciou e adormeceu.

Lá embaixo, no povoado, Adriana tinha pensamentos muito diferentes dos da doce Eleonora:

— “Fernando odeia-me... e eu também o odeio. Não sei como pude entregar minha virgindade a um homem mau que só tem pensamentos voltados para o dinheiro. Preciso vingar-me, preciso fazê-lo sofrer tudo o que estou sofrendo... Sei que Amália, a governanta do castelo, andou pela vila anunciando que necessitava de uma ajudante. Pois bem, eu me empregarei no castelo até que meu filho nasça e então me vingarei de você, Fernando de Saint-Marie. Você há de pagar bem caro o que me fez!” E Adriana cerrou com ódio os punhos. Quando os abriu, tinha as mãos crispadas e no rosto uma expressão de fúria. Foi com dificuldade que conseguiu acalmar-se para poder dormir.
Mas voltemos ao castelo de Saint-Marie, justamente no momento em que um grito horrendo feriu os ares. Passos ressoaram pelos corredores. Era Amália dirigindo-se ao quarto de Eleonora, de onde partira o grito. Entrou e deparou com a moça sentada na cama, com uma expressão de horror no rosto.

— Que aconteceu? — perguntou a governanta.

— Foram eles — respondeu Eleonora com uma expressão de loucura — ... foram os fantasmas... eu os vi... ali, na janela... vultos brancos movimentando-se no ar...

— Essa é a maldição que pesa sobre nós, os SaintMarie — disse a voz da Senhora Ilsa, que acabara de entrar.

Eleonora rompeu a chorar e, enquanto Dona lisa a consolava, Amália falou com desprezo:

— Maldição, fantasmas... Fantasmas não existem, minha cara Eleonora. Você sonhou. Ou então...

Notando a pausa feita pela governanta, a Senhora Ilsa procurou completar, perguntando friamente:

— ... ou então o quê, Amália?

— Ou então Eleonora está enlouquecendo — concluiu Amália, saindo do aposento.

Eleonora levantou a cabeça e disse quase gri tando:

— Eu sei que não sou louca! Eu os vi... Ali, ali... Eram brancos... sim, muito brancos... e dançavam...

Dona Ilsa encostou a mão na testa da jovem. Estava quente, sim, muito quente. Mas a bondosa senhora não se assustou, e ali permaneceu embalando a pobre moça até que ela dormisse e então, na ponta dos pés, apagou a luz e retirou-se para seus aposentos. E a noite cheia de mistérios e segredos envolveu o castelo até o romper de um novo dia.



CAPÍTULO IV
A manhã já chegou àquela região da França. O dia amanheceu tão bonito que parecia quase impossível existirem ódios naquela linda região. No povoado, as donas de casa já andavam pelas ruas carregando sacolas, todas cumprimentando-se alegremente. Longe da vila, na fonte, as lavadeiras trabalhavam enquanto cantarolavam canções regionais. Quase todos estavam contentes. Somente no imponente castelo dos Saint-Marie é que parecia não haver uma janela ou porta abertas que pudessem permitir a entrada da felicidade.

No castelo, todos já estavam em pé, à exceção do idoso Senhor Danilo de Saint-Marie, que era paraiftico e não se encontrava disposto a levantar-se.


No saguão da morada, a orgulhosa governanta Amália conversava com uma jovem totalmente vestida de preto. Era Adriana.

— Então? — perguntou a governanta. — Você sabe o que tem a fazer aqui?

— Não, senhora — respondeu Adriana. — Apenas sei que desejava uma ajudante, não sei o que tenho a fazer.

— Não é muita cousa. Apenas fiscalizar o trabalho das criadas e servir o café da Senhora lisa, do Senhor Danilo, de Eleonora e de Fernando.


— Adriana não se mostrou nervosa nem mesmo quando ouviu Amália dizer o nome de Fernando. Ela imaginava o que faria o rapaz quando a visse.
— E então? Aceita? Além de seu salário, terá casa e comida.

— Oh, sim, senhora. Permita que eu me retire para ir ao povoado buscar minhas roupas?

A governanta fez um gesto indiferente, e Adriana retirou-se. Amália não simpatizara com a moça, e não procurou esconder isso. Pouco depois a Senhora lisa entrou no recinto acompanhada de Eleonora. Seu rosto estava alegre e, sacudindo no ar um envelope, disse à governanta:

— Amália, imagine o que diz aqui! George acabou seus estudos e vem morar conosco, não é maravilhoso?

Amália não concordava, ela nunca gostara de George, o outro filho de Dona Ilsa. Sempre mostrara clara preferência por Fernando.

Eleonora ainda não conhecia George, por isso mostrava-se animada. Sua paiidez habitual quase a abandonara. Mas fingindo mostrar-se interessada, Amália indagou:

— E quando ele chega?

— Hoje mesmo, Amália — respondeu a Senhora Ilsa. — Após o meio-dia. Não esqueça de arrumar o quarto dele. A propósito, já conseguiu a ajudante?

— Sim. É jovem ainda e muito bonita, por isso creio que não goste de trabalhar.

A Senhora Ilsa ergueu uma sobrancelha, ela conhecia Amália há quase vinte anos e notou que esta não simpatizara com Adriana. Sabia que teria que suportar intrigas e mentiras da parte da governanta para que se zangasse com a moça.


Eleonora pensava em seu noivo. Sabia que ele estava trancado no escritório, como sempre, de onde só sairia para o almoço, mas mesmo assim perguntou, timidamente:

— E... Fernando?

— Ora — foi a resposta impertinente de Amália — está no escritório. Onde mais poderia estar, minha cara Eleonora?

A jovem corou, baixando os olhos, e a governanta deu um sorriso maldoso. Ela considerava Fernando quase como propriedade sua, e não admitia que lhe tomassem seu afeto. Ficou alguns instantes parada e depois, pedindo licença, saiu dali.

A Senhora Ilsa e Eleonora também se retiraram para o jardim e o saguão ficou vazio.

Em seu escritório, no meio de uma papelada, Fernando escrevia nervosamente. Ele procurava concentrar-se no trabalho sem conseguir, seu pensamento fugia para Adriana. Levantou-se e passeou de um lado para outro fumando, fumando incessantemente, depois chegou à janela e ficou a olhar para fora. Assim permaneceu algum tempo, até que um carro parou no jardim e prendeu-lhe a atenção. De dentro do carro desceu uma moça morena, vestida de preto.

Os olhos de Fernando não conseguiam acreditar no que viam, mas era verdade, a terrível verdade. Aquela moça é Adriana! Fernando sentiu-se cambalear e precisou sentar. Passou a mão pela testa e sentiu o suor escorrendo-lhe pelo rosto.

CAPÍTULO V
Adriana caminhava rapidamente pelos longos corredores do castelo, nas mãos uma pequena valise onde estavam guardadas suas poucas roupas. Neste momento, ela passava justamente pelo escritório de Fernando quando a porta se abriu.

— Adriana — disse Fernando, agarrando a jovem pelo braço. — Adriana, o que é que você está fazendo aqui?

A moça assustou-se, mas recobrou a calma e fitou friamente aquele homem. Deu um safanão no braço e disse:

— Estou empregada aqui, Fernando, e aqui ficarei até o meu filho nascer.


Adriana deu uma entonação especial às três últimas palavras, e gozou com o desespero de Fernando.

— Mas você.., você não vai... — gaguejou ele. — Não, Fernando. Não vou contar nada à sua mãe. Por enquanto, não. E agora largue-me, tenho o que fazer.

E a moça, com um gesto de desprezo, retirou- se caminhando de cabeça erguida.

As horas passaram-se. No grande salão, todos, menos o Senhor Danilo de Saint-Marie, estavam reunidos para o almoço. Adriana servia a mesa. A Senhora Ilsa mostrava-se muito excitada, pois George poderia chegar a qualquer momento. Subitamente uma batida na porta fez a Senhora levantar-se.

— É George, eu sei! Meu coração diz que é ele! — Dona Ilsa fez questão de abrir ela mesma a porta. Ali estava parado umjovem moreno, alto, vestido com cuidado, e seus olhos inteligentes tinham um tom esverdeado. Dona Ilsa abriu a pesada porta e o rapaz atirou-se nos seus braços.
Depois ele cumprimentou Amália, Fernando, Eleonora e... Adriana. Nestas duas últimas, o seu olhar parou, ele não as conhecia. Eleonora estendeu-lhe a mão e disse:

— Eu sou Eleonora, George.

O jovem beijou-lhe a mão, mas seus olhos não se desviaram de Adriana.

— Quem é essa moça? — perguntou.

— Oh — Amália apontou Adriana —, é a minha nova ajudante. Começou a trabalhar hoje. George sorriu para Adriana, simpatizara com ela. A moça retribuiu-lhe o gesto, sorrindo timidamente.

E ficariam ali a fitar-se se Dona lisa não os interrompesse.

— Venha, George — disse ela —, você deve estar cansado. Vamos até o seu quarto.

Adriana ficou parada, seu coração batendo descompassadamente. Sentia algo que não podia definir, como uma vontade louca de correr, de olhar o céu, o sol, as flores. Mas a fria Amália interrompeu os seus pensamentos perguntando:

— Adriana, você não vai servir Fernando?

A moça estremeceu e pegou uma vasilha. Fernando notara como ela ficou impressionada com o seu irmão, e uma onda de ciúme, de ódio, de rancor invadiu-lhe o coração. Sim, ele não conseguia esconder seus sentimentos: Fernando amava Adriana.

A tarde passou sem novidades até a hora dojantar, quando todos voltaram a reunir-se em volta da mesa.

— E George? — perguntou Amália.

— George está muito cansado — respondeu a Senhora lisa. — Ele ficou em seus aposentos. Adriana vai levar-lhe o jantar.

Adriana estremeceu, mas pegou uma bandeja e, subindo as escadas, bateu à porta do quarto do rapaz.

— Entre — disse ele.

Adriana entrou. O rapaz estava deitado lendo um livro, mas, ao vê-la, passou a mão pelos cabelos e colocou o livro sobre a mesinha de cabeceira.

— Vim trazer-lhe a janta, senhor George.

A moça colocou a bandeja sobre a mesa. Ao fazer isso, seus olhos encontraram-se com os de George. Este, sentando-se na cama, perguntou:

— Por que está tremendo, Adriana?

— Por nada — disse ela nervosamente. — Sou uma tola.

— Sabe que é muito bonita?

Adriana corou, mas nada respondeu e, abrindo a porta, saiu do quarto. Seu coração voltara a florir: Adriana sentia que encontrara o seu verdadeiro amor


e estava feliz. Ela amava George como nunca tinha amado ninguém. Era um sentimento puro, calmo, belo, muito diferente da violenta paixão que sentira por Fernando.


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal