Pacto de Prazer



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PACTO DE PRAZER

(Dream Job, Hot Boss)

Robyn Grady



Trabalhar na agência de publicidade mais quente de Sidney era o sonho de Serena Stevens. Agora, ela terá uma nova realidade: atender a conta de um cliente super importante. É sua grande chance para alavancar sua carreira— ou estagná-la...

E nada como um diretor sexy e sério para complicar ainda mais a situação. David Miles, dono da Miles Advertising, provoca suspiros em todas as funcionárias ao andar pelos corredores. Mas dentro da sala de reuniões, ele só pensa em negócios! Até que David passa a se interessar em discutir mais a fundo a campanha com Serena. Afinal, pode ser que haja uma oportunidade interessante a ser explorada...

É impossível resistir ao charme de David. E agora Serena se encontra em uma encruzilhada: carreira versus amor, emprego dos sonhos versus marido ideal. Resta somente uma questão a ser respondida: o que uma garota deve fazer numa situação desse porte?




Digitalização: Simone R.

Revisão: Cleo Almeida
Querida leitora,
Serena Stevens estava mais do que satisfeita com seu trabalho. Afinal, poucas pessoas conseguem como primeiro emprego um trampolim tão bom para o sucesso: ser gerente de contas na Miles Advertising, em Sidney. E trabalhar para David Miles!... O talentoso, arrojado, imponente, divertido, sensual, gostoso... ops!... David Miles. E agora, apenas alguns meses após ser contratada, sua dedicação e seu dinamismo lhe valeram a oportunidade de trabalhar no projeto mais importante da agência. E diretamente com ele! Mas... será que Serena está vendo coisas? Ou há mesmo um clima no ar?...

Equipe Editorial Harlequin Books

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte, por quaisquer meios.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Título original: DREAM JOB, HOT BOSS

Copyright 2007 by Robyn Grady

Originalmente publicado em 2007 por Mills & Boon Sensual (Temptation).

Concepção de capa: núcleo

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração Eletrônica:

INGRAFOTO

Tel: (55 XX 21) 2224-0003

Impressão:

RR DONNELLEY

Tel.: (55 XX 11) 2148-3500

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Aos cuidados de Virgínia Rivera



virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

CAPÍTULO UM

"Pare de bobagem. Encare o medo e, por Deus, não desista", pensou.

Decidida, Serena Stevens engoliu em seco, ergueu a mão trêmula e quase, quase bateu na porta imponente do escritório do chefe. Por que a intimação para vê-la logo cedo? Seria coincidência que hoje fosse o último dia do período de experiência?

Há três meses, David Miles, presidente da agência Miles Advertising em Austrália, concedeu a Serena a sua primeira oportunidade de verdade. Aos 24 anos, formada em marketing, mas sem nenhuma experiência, Serena ficou empolgada.

Porém, será que o sr. Miles andava insatisfeito com o seu desempenho como gerente de contas? E se ele empertigasse aqueles ombros impressionantes, franzisse as sobrancelhas negras e a encarasse com uma expressão aborrecida? Será que ele pretendia anunciar um rebaixamento?

Serena sentiu um embrulho no estômago.

Demissão, nem pensar!

Acima de tudo, Serena queria provar seu valor. Não foi nada agradável crescer com o apelido srta. Futuro Deprimente. Gordinha, tímida, um diagnóstico tardio de dislexia... a época da escola foi mais para se esquecer que para se lembrar. Ela agradecia a Deus pelo senso de humor. Mas, afinal, as aulas particulares, os livros de auto-ajuda, os cursos de etiqueta e a perseverança compensaram. Agora o céu era o limite!

Sydney, com a animação típica de uma grande metrópole e um clima de férias, sempre seria o seu verdadeiro lar. Porém, na adolescência, Serena se sentia tão oprimida pelo excesso de peso e pela dificuldade de aprendizagem— sem contar o pai, que criticava cada decisão dela— que jurou se libertar e realizar todo o seu potencial.

Londres, Paris, Nova York. Nada e nem ninguém a deteriam. Serena empinou o queixo. Mas, primeiro, o mais urgente. Serena não só gostava desse emprego como também precisava dele. Além de pagar as contas, ser gerente de contas era um passo importante na escalada até o topo.

Secou as palmas úmidas na saia branca de jérsei, cruzou os dedos e tornou a bater. A porta se abriu. Muito nervosa, Serena sorriu e disse a primeira bobagem que lhe passou pela cabeça.

— O senhor me chamou?

O sr. Miles aguçou os profundos olhos azuis antes de gesticular para que ela entrasse.

— Srta. Stevens. Obrigado por vir tão depressa. Exibindo um dos punhos decorados com um par de abotoaduras de ônix, ele indicou a cadeira em frente à mesa. Envergonhada, Serena sentou. David Miles— milionário, gostosão, todo-poderoso— contornou a mesa sinuosa, ajeitando a gravata escarlate que realçava a camisa branca.

— Curiosa para saber por que mandei chamá-la? Será que ela viu nuvens de trovoada se formando por trás daqueles cílios de ébano? Serena conteve um suspiro. Era inútil disfarçar. Se o sr. Miles pretendia demiti-la, era melhor saber logo.

Com o coração disparado, Serena observou conforme ele se acomodava na cadeira presidente.

— Más notícias?

Um músculo contraiu no maxilar anguloso.

— Por um lado, Serena, as notícias são ruins. Mas, por outro, são ótimas.

Serena soltou a respiração. Nenhuma calamidade, então.

— Desde que eu não acabe numa fila de desempregados, tudo bem.

Ela não tinha certeza, mas aquela contração dos lábios dele pareceu um sorriso.

— Você ouviu falar que ganhamos a conta do Hits?

— O novo programa de vídeo musical?

Óbvio. Todo mundo dizia que seria o maior acontecimento da televisão desde "American Idol".

— Você também sabe que contratei Jezz McQade para planejar e comandar a campanha.

Sim, ela sabia, e por isso lera algumas matérias sobre as inúmeras conquistas profissionais da moça.

— Jezz McQade é a melhor. Na minha opinião, qualquer mulher que consegue subir de vocalista de uma banda dos anos de 1980 para brilhante estrategista de publicidade é um fenômeno. Este ano ela trabalhou nos Estados Unidos, supervisionando videoclipes de artistas famosos.

Aparentemente satisfeito com a resposta, David anuiu.

— Como eu disse, também temos más notícias. Jezz chegou ontem à noite de Los Angeles. Hoje de manhã ela escorregou no piso de azulejo molhado do banheiro.

Serena se encolheu.

— Ela está bem?

— Quebrou a perna, a tíbia. Um bocado grave, receio. Recebi um telefonema do hospital. Ela calcula que voltará em sete semanas, talvez oito— mas não sem a ajuda de analgésicos e muletas.

Que horror. Mas por que contar isso a ela? Será que Jezz McQade precisava de uma garota de recados?

O sr. Miles cruzou os braços sobre o peito largo e marchou até uma fileira de placas de prêmio prateadas, penduradas na parede do canto.

— Tenho vários funcionários experientes que poderiam substituir Jezz até ela voltar a andar. Uma, em particular, mataria para chefiar essa conta.

Um nome surgiu na mente de Serena.

— Rachel Bragg.

Em grandes empresas, conflitos de ego e inveja são comuns. Um gerente de recursos humanos fora contratado para resolver essas diferenças. Mas Rachel...

Serena estremeceu.

Basta dizer que ela era uma megera de primeira grandeza. E Serena não era a única que pensava assim.

— Rachel zela pela própria posição. Entretanto, estou mais do que ciente dos defeitos dela. Rachel é uma excelente gerente de contas, mas não é a pessoa mais fácil de se lidar.

"Excelente gerente de contas? Ah, claro", pensou. Ela já escutara essa antes. Da boca da própria Rachel.

David sorriu e seus olhos brilharam como prismas azuis refletindo o mar.

— Sabe, você realmente possui traços expressivos, srta. Stevens. Tomara que não jogue pôquer.

Serena sorriu.

— Traços expressivos. Meu professor de teatro do segundo grau costumava dizer isso. Já perdi a conta do número de vezes que precisei demonstrar aos meus colegas de classe alegria, ressentimento e, a minha grande favorita, cara de pateta.— Serena fez uma careta que incluía enfiar os dedos nos cantos da boca. Quando David riu, ela tirou as mãos.— Pelo menos eu era boa em alguma coisa.

Serena sentiu um calafrio.

"Sua linguaruda! Por que parar por aqui? Por que não mostrar a ele o álbum de fotos da escola, com os óculos de fundo de garrafa e tudo mais?", pensou com raiva.

Mas David Miles nem reparou na gafe. Em vez disso, colocou as mãos nos bolsos da calça preta, cortada por algum gênio, e caminhou até a janela.

— Após discutirmos essa manhã, Jezz e eu concordamos que a pessoa certa não só deve ter noção de como as coisas funcionam por aqui, mas também ser capaz de dar um visual original e um entusiasmo natural para esse produto. Alguém que tenha afinidade com a cultura pop, que entenda de pesquisas e tenha idéias diferentes para promover o programa e as suas celebridades.— David a encarou.— Alguém como você.

O queixo de Serena caiu.— Eu?

— Sim, Serena. Eu quero você.

David tomou-lhe as mãos para ajudá-la a levantar. Com as pernas bambas, Serena tomou fôlego.

— Não sei o que dizer. Exceto que... Você não se arrependerá, sr. Miles. Prometo.

Quando aqueles olhos incríveis lhe sorriram, Serena sentiu um perfume de sândalo, sabonete e ardor másculo, tudo misturado.

— David— ele pediu.— Já é hora de me chamar de David.

Certo. Lógico. Ela poderia fazer isso. Assim que conseguisse superar aquela sensação maluca. Nada se comparava àquilo. Nem mesmo receber o primeiro lugar pelo ensaio de formatura, "Porque e como pretendo ser bem-sucedida", diante dos pais e da escola inteira. Foi um pesadelo escrever aquele texto. Mas isso! Era uma dádiva inesperada dos céus.

Embora o seu 1,60m de altura não fosse páreo para bem mais de 1,80m, Serena se empertigou ao máximo.

— Quando você quer que eu comece? Agora? Ontem? E não se preocupe com a minha dedicação, sr. Miles. Sou totalmente sua, 110%. Finais de semana. Serões. Nenhum sacrifício é grande demais.

David soltou as mãos dela e se afastou. Serena baixou a cabeça e tamborilou os dedos, exibindo as unhas francesinhas. Opa. Os dedos estavam formigando.

— Serena, venha até aqui. Gostaria de lhe mostrar uma coisa.

Ela ergueu o olhar. Sobre um aparador de madeira polida, a fileira de prêmios publicitários reluziu. David estava de costas para ela, de braços cruzados, o algodão branco imaculado da camisa amoldado aos ombros largos. O corpo dela transbordava calor. Esqueça os prêmios. Ele era impressionante. A determinação. Aquela voz de chocolate derretido com pimenta. Melhor ainda, ele acreditava nela. Isso significava mais do que qualquer coisa. Droga, se ela estivesse procurando a alma gêmea, David Miles era o candidato perfeito.

Ainda bem que não estava. Procurando, isto é. Não agora, não neste ano, tampouco essa década, talvez nem na próxima. A carreira. A viagem. A liberdade. Alcançar as estrelas. E essa promoção significava que ela estava no caminho certo.

— Vê isso?

Agora ao lado dele— sândalo, sabonete, calor— Serena avançou um passo. Mesmo de lentes de contato, porém:

— Eu não vejo nada.

— Exato.— David se abaixou e abriu uma das quatro portas do aparador.

Enquanto ele revirava tudo lá dentro, Serena aproveitou para espiar aquela calça feita sob medida esticada na coxas— pura rocha, assim como os braços.

Depois de apanhar um volumoso caderno espiral, David levantou e folheou as páginas.

O perfil dele era impressionante. Nariz reto, queixo estilo hollywoodiano, uma pequena cicatriz interrompendo o arco da sobrancelha...

O olhar de Serena divagou mais para baixo.

E um peito de tirar o chapéu. Muito atraente, como ela jamais notara em qualquer outro homem. Devia ser aquela coisa do "homem mais velho". Não dizem que eles são mais sensuais, inteligentes e, de certo modo, perigosos? Não que ela devesse pensar no chefe daquela maneira. Mesmo se estivesse olhando. Pois não estava.

— Este gráfico— ele apontou— resume a trajetória da agência, os clientes e impostos. É aqui que nós começamos.— Deslizou o dedo pelo papel.— E é aqui que estamos agora.

Serena olhou e ajeitou uma mecha dos cabelos louros atrás da orelha. A primeira vista, as linhas vermelhas e amarelas indicavam um desempenho extraordinário no mercado. Exceto...

— O que aconteceu aqui?— Serena tocou uma área próxima ao início, onde os valores atingiam um pico alarmante.

Mal teve tempo de tirar os dedos antes que David fechasse o livro.

— Um erro de cálculo. Nunca mais se repetiu. E não tornará a se repetir.

David largou o livro, depois se sentou sobre a mesa, cruzando as pernas musculosas. As mãos grandes e bronzeadas caíram entre as pernas abertas, enquanto o olhar cativou o dela.

— Serei honesto com você, Serena. Não necessito de uma campanha bem-feita, preciso que ela seja excepcionalmente boa. Preciso do primeiro lugar na premiação para preencher este espaço. Os patrocinadores internacionais de Hits garantiram que, se ganharmos o ouro com a conta deles este ano, ficamos com todos os outros produtos do grupo, um lucro astronômico. Caso contrário... levarão seus produtos para os nossos concorrentes, e muitos outros os seguirão. A reputação da Miles Advertising— a minha reputação— ficaria arruinada.

Serena começou a assimilar a gravidade da situação. Essa era a chance pela qual esperava. O seu trampolim para um futuro empolgante. O estômago embrulhou.

Porém, considerando todos os fatos, isso parecia meio grande demais. Serena já enfrentara desafios antes, mas esse não envolvia apenas ela. O seu desempenho afetaria outras pessoas, sobretudo o presidente da empresa, o chefe. E se ela fracassasse?

— Tudo bem se eu entrar em pânico?

David riu e aquele som a consolou, apesar do sorriso dela continuar hesitante.

— Não há nada de errado em sentir medo. É natural. Alguns dizem que é até necessário. Desde que você consiga atingir as metas, aprender a se adaptar e fazer o que deve ser feito.

"Encare o medo, não desista", assentiu Serena. Claro que ele tinha razão.

— Eu continuarei totalmente envolvido e Jezz está pronta a organizar tudo da cama, mas...

Serena concluiu a frase.

— Vocês dependem de mim.

— Você está pronta? "Mais pronta do que nunca", considerou.

Ansiosa para começar, Serena levantou. Algo estalou sob o seu pé. Ela e David olharam para baixo. Ela se curvou primeiro para apanhar...

— Um avião de papel?— Serena espiou cada canto do imenso escritório... o bar de granito e inox, a mesa colossal, depois a cadeira de couro negro.— Você tem um filho escondido por aqui em algum lugar?

— Nem aqui. Nem em lugar nenhum.

Serena segurou o avião amassado e o arremessou.

— Funciona melhor se você segurar mais perto da ponta.

Serena observou o aviãozinho, depois o homem sofisticado empoleirado na mesa. Devia estar enganada.

— Quer dizer que é seu?

David clamou a sua propriedade.

— Só se você já enjoou dele. Após umas duas modificações no modelo cobra, fiquei um bocado satisfeito com a performance deste. Excelente facilidade para planar. Não sei quanto à aterrissagem.

Colecionar títulos, contratos, antigüidades, puro-sangue... mas aviões de papel? Serena soltou uma risadinha.

— O que é tão engraçado? Não é como se eu usasse lingerie feminina nos fins de semana.— David examinou a gaivota.— Esse é um legítimo e saudável passatempo de garoto.

— Exato. E um passatempo de garoto. E você é...— Serena mordeu a língua. "Linguaruda Stevens ataca outra vez!", pensou.

— Você pretendia dizer velho?

Ela mentiu.

— Lógico que não!

Com uma elegância felina, David desceu da mesa e a encarou.

— Tudo bem. Eu tenho noção da diferença de idade. Devo parecer um ancião com 32 anos.

"Ancião? Ou 'pegável'?", disse a si mesma. Serena desviou o olhar para a ponta do dedo, que desenhava o número oito no tampo da mesa.

— É que você parece tão dedicado e viciado em trabalho. Nunca imaginei você... nunca pensei em você como...

— Divertido?— Com um toque maroto sob o queixo dela, David a obrigou a encará-lo.— Pelo menos, não nos dias em que preciso da minha bengala.

Serena fitou-o nos olhos joviais quando os dedos roçaram o maxilar. Foi a deixa para sentir mais arrepios. Só que agora eles se alastraram pelo pescoço, o abdome, os seios.

— Eu não disse isso.

— Mas queria.

— Uma bengala jamais me passou pela cabeça.

— Dentadura, então?

Droga. Agora os olhos de David riam para ela.

— Eu apenas quis dizer que pensei que você "só vivia para o trabalho".

E guardava idêntica opinião sobre si mesma. Serena tinha uma montanha pessoal para escalar. Pouco tempo de lazer, uma escolha que não a incomodava. Nada mesmo.

— Contudo, ninguém pode passar todos os minutos do dia trabalhando— acrescentou ela.— Se a gente não pára às vezes, acaba caindo duro no chão. Ou, então, explodindo.

David franziu a testa, como se nunca houvesse pensado assim. Como se aquilo fizesse todo o sentido do mundo. Como se... Serena tocasse uma parte muito íntima dele.

Um arrepio percorreu a pele de Serena.

Mais calafrios? Será que David chegou mais perto? De repente, aqueles ombros largos pareceram ainda maiores.

Serena recuou.

— Todo mundo precisa de uma válvula de escape para aliviar a tensão. Um hobby, como pintura ou ioga. Eu colecionava selos.— David se mostrou intrigado.— Essa é outra história. O problema é que, agora, pensando melhor, fazer aviões não é tão esquisito. De qualquer maneira, você provavelmente tem milhares de outros passatempos.

"Hum, melhor calar a boca agora, Serena", ordenou-se.

Mas ela sempre tagarelava quando ficava nervosa, e David a deixou mais nervosa do que nunca. Sem falar uma palavra. Só olhando. E respirando. Um pouquinho ofegante demais. Era ela.

Curioso, David baixou o olhar para os lábios de Serena.

— Sabe, existe uma outra coisa que adoro fazer para relaxar.— Um sorriso contraiu a boca e os olhos tornaram a se fundir com os dela.— Não sabia que se chama isso de passatempo.

Naquele momento, a distância entre os dois definitivamente diminuiu. Antes, talvez fosse imaginação, mas agora David deu um passo na sua direção. Dois.

— O quê?— Serena engoliu em seco.— Do que você chamaria, então?— O olhar de David acariciou o seu pescoço.— Bem, não é nada semelhante a colecionar selos.

— Não parece selos?— Por dentro, Serena derreteu. Tentou disfarçar.— Cartas? Tênis, talvez?

Jogar Twister pelado?

O que se aproximava muito mais. Será que ela estava imaginando a resposta que brilhava nos olhos dele? Será que o palpite é que a diversão dele começava com S?

Quando David se aproximou um pouquinho mais— calor, muito, muito calor— Serena sentiu os dedos dos pés encolherem.

Aquele olhar penetrante sondou o dela.

— Você quer descobrir, Serena? Tentar fazer algo que jamais sonhou fazer comigo?

Minha nossa! Será que tinha esse direito? Será que David estava perguntando se ela queria que ele chegasse mais perto? Enlaçasse os braços na sua cintura e a beijasse até aquela aflição deliciosa na parte inferior do corpo se tornar insuportável?

Claro, David era sexy, naturalmente. Inteligente e charmoso, aliás. Mas será que ela queria dar aquele passo irreversível e, talvez, ficar nua com o chefe? Isso não estava nos seus planos. Quem suspeitaria que David sentia atração por ela?

— Isso foi um não?— O sorriso de David pareceu malicioso.— Ou sim?

Com os joelhos trêmulos, Serena soltou um "talvez". E se sentiu uma devassa, embora meio aliviada.

O hálito tépido de David soprava o seu cabelo, enquanto o olhar dele perscrutava o seu rosto.

— Prometo que a idade não afeta a minha performance. Na verdade, a experiência faz toda a diferença neste departamento.

O coração disparou. A mente flutuava. Tudo formigava. Isso estava acontecendo mesmo? Serena deu um sorriso tímido.

— Acho que só há um meio de descobrir. David estava quase em cima dela.

— Exato.

Serena derreteu quando um braço musculoso se estendeu e... se desviou dela?

Após se esquivar, David resmungou um pedido de desculpas. Algo— um painel?— se abriu a suas costas. Ele se virou e mostrou um punhado de...

— Dardos?— Serena se virou, com o coração aos saltos.

— E um alvo.— David se pôs a ajeitar três grupos de setas pretas e vermelhas.— Quando aluguei o prédio, eu deixei o alvo preso na parede durante a primeira semana. Você me fez ver que devia tirá-lo mais vezes.— Ofereceu-lhe os dardos.— Quer jogar?

"Puxa, eu pensei mesmo que sim. Mas...", pensou.

A lava que ardia no seu corpo inteiro esfriou quando o chão novamente se tornou sólido a seus pés. Sentindo-se tola, e determinada a guardar isso para si, Serena balançou a cabeça.

— Obrigada, mas eu, bem, acho que é melhor voltar para a minha mesa e colocar tudo em ordem.

— Parece uma idéia sensata. Conversamos mais tarde. Quando David tocou as costas de Serena para acompanhá-la até a porta, ela petrificou. Hoje o déficit entre a vida celibatária e a fantasia pregou uma peça e tanto na sua imaginação. Estremeceu ao pensar na cena que visualizou, quando preliminares eram a última coisa na cabeça de David. Sem dúvida, na opinião dele e na dos colegas, ela seria rebaixada para "patética garota apaixonada", em vez de "eficiente mulher de carreira". Ficaria atenta para não se enganar de novo.

Os dois pararam diante da porta aberta. Voltando a bancar a funcionária, onde era o seu lugar, Serena concluiu a reunião de maneira apropriada.

— Obrigada pela oportunidade, sr. Miles.— Preferiu não apertar a mão dele para evitar o contato físico.

— Chame-me David, lembra?

— Farei um trabalho fantástico com essa conta. Você jamais desejará se livrar de mim.

Mas, claro, logo Jezz McQade estaria de volta. E quanto aos planos para o exterior? Nada de esquecer o objetivo máximo.

— Jamais me livrar de você?— David trincou o maxilar.— Serena, receio que você esteja certa.

Será que a Mona Lisa tinha um irmão? Podia-se ler uma dúzia de emoções diferentes na expressão dele... confiança, ansiedade, luxúria.

Quando a porta fechou, Serena passou por Tilda, a simpática secretária de David que cruzou os dedos e colocou os enormes óculos de aros redondos de volta no nariz. Serena retribuiu o aceno, cantarolando. Ela descobrira três, ou melhor, quatro coisas importantes hoje.

Primeira. Afinal alguém lhe dava valor para realmente levá-la a sério. Após anos tolerando o pai obsessivo, que controlava cada decisão dela, esse foi um passo monumental.

Segunda. Ela não tinha o menor interesse por dardos.

Terceira. Gostando ou não, os ombros de David Miles a deixavam excitada.

Quarta. Agora, mais do que nunca, não podia se dar ao luxo de se distrair. Definitivamente, não por causa de um relacionamento. Era evidente que precisava de alguma forma de alívio— algo breve, porém satisfatório. Ela não era "oferecida"; nunca foi. Porém, nesta altura da vida, será que devia cogitar uma aventura sexual sem compromisso?

Uma idéia absurda lhe ocorreu.

E David?

David voltou para a mesa e apanhou o avião de papel, sem parar de pensar na srta. Stevens. A inteligente, divertida e sexy srta. Stevens.

Sentiu um aperto no peito.

Esqueça o sexy. Esqueça o que acabou de acontecer assim que a conversa profissional se transformou em flerte. Quando, com a cabeça na própria calça— e na dela— ele quase tomou a linda loura de olhos grandes nos braços. Ele precisava se concentrar. Não em impulsos escusos, mas na sobrevivência da empresa, que significava manter o cliente mais influente satisfeito.

Ele precisava ganhar aquele prêmio importante para a campanha do Hits, ou a sua reputação e uma década de trabalho duro não valeriam nada. Também devia se mudar para o Alasca. Não podia correr o risco de baixar a guarda ao fantasiar com uma funcionária. Ainda mais depois do que Serena deixou escapar quando assinara o contrato três meses antes.

Amassando o avião com força, David se dirigiu à janela com vista para a cidade, perfeita com o porto vibrante, salpicado de velas multicoloridas e barcos movimentados. Sydney deveria ser a sua base, uma fonte de energia. Mas Serena pretendia embarcar no primeiro avião rumo à fama e à fortuna, logo que tivesse a chance. Não que ambição fosse uma coisa ruim. Ele admirava qualquer pessoa com o desejo de perseguir um sonho. A motivação foi um grande motivo pelo qual julgara Serena tão encantadora. Porém, ela o afetava de outras maneiras, e aí estava o perigo. Acaso Serena acabasse nos seus braços— e na sua cama— ela teria razão: seria muito difícil deixá-la ir embora. Mas não pretendia se envolver e, mesmo que isso talvez desapontasse a ingênua Serena, ele não se sacrificava mais. Não em relação aos assuntos do coração, pelo menos.

David misturou trabalho e prazer uma vez, o que lhe custara tudo, inclusive o orgulho. Agora nada, principalmente a atração sexual, interferia no seu julgamento. Um mínimo de distância e dois pés firmes no chão funcionavam muito melhor.

Após contemplar o límpido céu azul— o crepúsculo flamejava sobre as conchas da Opera House— David afundou na cadeira.

Por melhor que fossem a aparência e o perfume da srta. Stevens, ela não era uma candidata para a sua vida pessoal. Contudo, em relação à crise atual no trabalho, talvez ela fosse a resposta para as suas preces. A ambição de Serena, aquele desejo ardente de abrir as asas e voar, era o ingrediente exato que ele precisava... com uma ressalva.

Dado o seu entusiasmo, talvez ela tentasse subir alto demais, além do razoável. Então, infelizmente, ele não teria escolha...

David atirou o avião pela janela e voltou para a mesa.

Precisaria cortá-la da conta.





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