Padre Huberto Bruening



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Padre Huberto Bruening



Padre Huberto Bruening

Abelha Jandaíra

2a Edição –

FUNDAÇÃO GUIMARÃES DUQUE


FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO

COLEÇÃO MOSSOROENSE


Série “C” – Volume 1189 – Abril de 2001

Professor Antonio Gonzaga Chimbinho

Prefeitura Municipal de Mossoró

Fundação Municipal de Cultura

Gráfica do Deputado Frederico Rosado

Abelha Jandaíra


FVR/CM, Série “C” – Volume 1188 – Março de 2001




Ficha Técnica:
Digitação e diagramação:

Caio César Muniz




Revisão:
José Romero Araújo Cardoso


Capa:
Rogério Dias


Impressão:

Chaguinha




Acabamento:

Josafá das Chagas Pinheiro

E-mail: fvrcm@uol.com.br

Visite nossa home-page e assine o livro de visitas:

www.colecaomossoroense.org

Hino do Apicultor Brasileiro
Letra: Agenor N. Marques

Música: José Acácio Santana



Abelha e flores são associadas

E Deus Abençoou tal união

Pra dar perenidade à natureza

E ao homem dar semente, mel e pão.
Refrão
Zum-zum de abelha é palma de platéia,

Nas matas e jardins em floração.

Zum-zum de abelha é onomatopéia,

Trabalho ordeiro feito em mutirão:


O néctar que ela suga de mil flores

E os pólens coloridos que semeia,

São beijos que retornam como frutos

E em doce mel nos favos da colmeia.


Prolífera rainha é soberana

De unida, ordeira e alada multidão.

O aroma que ela exala é como imã,

Fator e sintonia de união.

A humilde abelha e a fausta natureza

Celebram seu consórcio com amor.

Mil beijos de uma abelha em tantas flores

São frutos mil nas mãos do apicultor.



Itinerário da Apicultura
Apicultura é não só ciência, parte da zootecnia, é também a arte de criar ou cultivar abelhas para auferir lucros. Situa-se entre as mais lucrativas atividades pecuárias. Economiza tempo e espaço e até ração. A exploração apícola pelo homem se perde nas origens da humanidade. Começou como meleiro, ladrão e comilão, explorando as abelhas, sem fornecer-lhe nem trato nem casa. Assim foi na Ásia e na África e no resto do mundo, não fazia colmeias nem quadros, nem adotava apicultura mobilista.

O Brasil recebeu abelhas da Europa, primeiro a alemã, escura, trazida pelos colonos alemães lá pelo ano de 1839. Depois foi trazida a Apis mellifera ligustica L., a italiana, da Ligúria, pela década de 1870. Meu amigo gaúcho Bruno Schirmer me presenteou com uma fotografia duma centrífuga em que se lê: “A primeira centrífuga para apicultura da América do Sul, (e) talvez a primeira do mundo, feita em 1858. Pelo Sr. Frederico Augusto Hennemann em Rio Pardo, Rio Grande do Sul”.

Dizem alguns que a carnica A mellifera carnica P, da Áustria, chegou juntamente com a alemã. De fato, antes da importação ou introdução da Adansonii apicultores do Rio Grande do Sul e Santa Catarina conheciam tais abelhas pelos matos, entre eles Nicolau, meu irmão.
AfricanaApis mellifera adansonii Latreille. No 32o Congresso Internacional da Apimondia, outubro de 1989, Rio de Janeiro, foi oficialmente rebatizada como Apis mellifera scutellata por sugestão de Ruttner, Friedrich, austríaco (15 de abril de 1914). Quem sabe latim não gostou, pois apis não usa potes nem tigelas... Foi trazida da África pelo paulista o prof. Warwick Estevão Kerr, em 1956, cruzada com a italiana em São Paulo, donde se espalhou pelo Brasil, chegando ao Rio Grande do Norte em 1966, alguns anos depois da italiana.

Esta entrou em Mossoró através de apicultores de Aracati, os irmãos Maristas. Deu-se então uma verdadeira confusão de abelhas e gente... a pior das pororocas... a apicultura de Mossoró morreu logo depois de nascer. A 26 de agosto de 1968 foi fundado o Primeiro Clube Apícola, com 17 sócios, mas teve vida curta. O impacto foi violento demais. Não só pereceram as abelhas italianas, senão também muitas indígenas, sobretudo nossas jandaíras M subnitida Ducke. Morreu abelha muita, muita galinha, filhotes de papagaios, criação, cães, ovinos, eqüinos e até gente. Só quem presenciou faz idéia. Foi a destruição total da apicultura e meia-destruição da meliponicultura. Só após 30 anos ressurgiu das cinzas a doce alada Fênix.

Estamos em 1990, a alguns passos do terceiro milênio. Pergunto: qual a situação da apicultura e da meliponicultura da região de Mossoró e do Nordeste? A primeira cresce lentamente e a segunda decresce rapidamente: infelizmente para as duas, pois sem pasto apícola não haverá mel. O desmatamento é selvagem, a agricultura irracional, gerando a desertificação, o emprego de agrotóxicos exagerado e descontrolado, reflorestamento não se faz... ora, onde só se tira e não se bota, se acaba. Daqui a uns anos, nem mesmo a apicultura mobilista ou itinerante, de caminhão, será mais válida. Teremos saturação de abelhas em deserto... Quando entrou no Brasil, começou pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, subiu para o Paraná, São Paulo, Rio, Bahia e já vai imperando no Piauí, o Eldorado de muita gente... Desde eras multisseculares se sabe que “Natura horret saltus” – A natureza detesta saltos... não queima etapas. Dias e noites, estações e fases da lua se alternam regularmente. Quem é o homem para mexer naquilo de que não entende? Nossa geração passará à História como demolidora da natureza, destruidora da vida, fabricante de inseticidas, herbicidas, desfolhantes, poluintes, ou poluentes, porque o próprio homem é homicida, sobretudo o homem ocidental, ou seja, do lado em que o sol cai... perece, morre... Parece que se mudou do lado orgânico para o inorgânico. Faz o que o macaco deixou de fazer: quebrar o que está ao seu alcance... destruir com dentes e munhecas. Tem razão, já é ir(+)racional, que não tem razão. E o ostenta na cara: sem fronte... com cabelo até os sobrolhos. Aliás é moderno esconder a fronte com melenas e madeixas espessas e gordurosas e brilhosas. Pode calhar ao símio, ao homem não. Relevem-me a digressão.

Podemos afirmar que nunca se praticou meliponicultura no Nordeste, pelo menos a racional ou metódica. Sempre houve mais jandaíras que nordestinos, mais casas de abelhas indígenas que casas de aborígenes. Hoje a situação é exatamente oposta. E pior ainda: o meleiro está destruindo as derradeiras casas – umburanas e catingueiras – que ainda restam pelo sertão. Nada escapa à sanha de carvoeiros, caçadores de mel, caçadores de “madeira”, etc. Até o raríssimo cumaru é cortado e serrado em fatias – sem cerne ainda – para fabricar caixas de empacotar melão. E a umburana é desfiada para cepilho... Nossas abelhas estão fadadas à extinção, mais cedo que se pensa. Sem casa para morar, quem é que trabalha? Se ao menos cuidassem os homens de repor, de replantar e reflorestar... ou ainda: se parassem de destruir... A terra mesma se reveste, recupera e recobre. Sempre pergunto aos meleiros: por que vocês, quando tiram o mel nos matos, destroem a árvore e a abelha? Ninguém mata a vaca para tirar o leite... nem mata a galinha para colher o ovo... Tenho a impressão que o homem ao abandonar o campo, perde a sensibilidade. Vira máquina... ferro... asfalto... eletrodoméstico... defunto!





Minha Experiência Com Jandaíra de 1960 a 1990
A 9 de agosto de 1959 o 3o bispo de Mossoró, D. Eliseu Simões Mendes, benzia a pedra fundamental da primeira Casa Paroquial S. Cura d’Ars da Paróquia de Santa Luzia. Um ano depois Monsenhor Luiz Motta benzia a casa pronta. No dia 14 de agosto de 1960 o cura da catedral P. Huberto Bruening fixava nela residência. Seu primeiro visitante e hóspede foi uma pequena e mansa família que se alojou no centenário tamarindeiro, família de insetos himenópteros, meliponídios, muito amigos do homem, nossas conhecidas jandaíras Mellipona Favosa Subnitida Ducke. Foi este um aviso do céu, já que veio pelos ares.

Depois deste, vem outro sinal: o casal Pedro F. Ribeiro e D. Maria Consuêlo se mudou da Rua Coronel Gurgel para a Meira e Sá e pediram que eu guardasse um cortiço de jandaíras até terminarem a mudança. E nunca mais reclamaram os bichinhos. O pedreiro Seu Nô (Clidenor), do Alto dos Macacos, andou apalpando a caixinha e disse: “tão gorda”. E se ofereceu para “despescar” o mel. Ao presenciar eu aquela maneira rústica e sebosa de extrair mel por essas bandas, acendeu-se em mim o desejo de eu mesmo presidir ou fazer. Como não temos manual sobre o assunto, fui interrogando a um e outro, observando, e fabriquei um cortiço de umburana, “o pau de abeia”. Juntei teoria com prática, que é o método da Legião de Maria. Só não me conformava com o sistema de bater pregos em cortiço povoado, nem o com o tal do batoque ou torno na parte inferior, em vez de posterior. Também não admitia a umburana como madeira exclusiva. Adotei pois dobradiças em lugar de pregos, verdade é que eram de couro e ganchinhos de arame em lugar de aldravas de metal. Tudo primitivo, mas funcional e prático. Acrescentei taliscas na tampa, a fim de escurecer o interior e poupar mão-de-obra às operárias. Por último introduzi uma segunda tampa, de vidro, sob a de madeira. Num cortiço de 80 centímetro cabiam 5 vidros.

No sertão do Nordeste as jandaíras são só despescadas, não tratadas. As caixas, ou ficam baloiçando em dois cabrestos de arame ou ficam amontoadas desordenadamente em cima de um taipal ou parede. Resolvi levantar um ranchinho ou cavalete com telhado para abrigar as fazedoras de mel, tão apreciado. Bem que merecem. O ranchinho ou abrigo, chamado meliponário quando coletivo, não deve ter mais de dois andares ou prateleiras, pois as abelhas preferem trabalhar na horizontal e não na vertical. O meu tinha três camadas de caixas, cinco por metro linear, o que é apertado. Em outubro de 1963 eu já possuía 60 cortiços. E como me comprazia em contemplar aquele povinho alado a trabalhar de sol a sol, sem malandro, sem vagabundo, sem greve, sem décimo terceiro mês, sem feriado, nem encolhido nem esticado!

Em maio de 1967 eu possuía um total de 120 cortiços, sendo 60 deles de pinho de primeira: araucária brasileira. Obra do mestre Otávio Luiz de Lima. Atingiram a idade de Cristo, 33 anos, em perfeito estado de conservação. Em fins de 1966 o meliponário “Santo Huberto” foi transferido para a Fazenda São João, propriedade do amigo Dr. Tarcísio de Vasconcelos Maia. Ano fatídico, que assinala a chegada ao Nordeste da Apis mellifera adansonii, posteriormente rebatizada de scutellata, por Ruttner. Essa “cascavel de asas” desde 1804 era conhecida por Latreille, mas diz um tal J. R. Bichos que em 1759 o francês Michel Adanson já a conhecia, daí chamar-se adansonii. Tem pois três pais, coisa esdrúxula. No 32o Congresso Internacional de Apimondia, no Rio, 1989, ficou definitivamente acertado o nome de Apis mellifera scutellata fixado por Ruttner em 1975. Quem a introduziu no Brasil foi o professor Dr. Warwick E. Kerr, renomado geneticista, em 1956. Pormenores se encontram à página 26 da Revista “Apicultura e Polinização”, ano VI, nº 34.

Após essa digressão recuemos ao ano de 1961, de rigoroso inverno com grandes cheias. O inverno principiou em novembro de 1960, com chuvas tropicais intermitentes e as jandaíras começaram a enxamear incentivadas pelas revoadas das tanajuras e dos cupins. Muitas famílias aproveitam a situação tão convidativa e abandonam sua casa para habitar outra. Geralmente se trata de famílias decrépitas, fracas, quase extintas. Todo mundo cai na folia e procura acasalar-se quem pode. É a vez dos zangões, arranjam emprego também: aliciar, trazer e fecundar princezinhas. Nessa entre-safra de fato muitas “largam”, isto é, abandonam a casa, mas para fundar outra. Espetáculo digno de se observar e admirar. É um “fervet opus” divertido. Essa é a oportunidade para multiplicar as famílias, na entrada do inverno, não do meio para o fim. A razão é óbvia: se o inverno dura apenas 3 meses e o ciclo evolutivo da jandaíra dura 45 dias, não vale a pena principiar um núcleo quando a florada vai para o fim. Elas contam com a seguinte seqüência cronológica: intensificar a postura 45 dias antes da primeira chuva, aproveitar o tempo integral, dia e noite, armazenar mel e samborá (pólen), ao máximo, até romper os potes e derramar o mel em que se afogam. Sabemos que só as abelhas robustas fazem mel. Se não há chuva, não haverá flores, sem flores não haverá nem mel, nem pólen. É bom não ignorar que as jandaíras submetem a procriação ao alimento, ou seja, nunca mais prole que pão, para ninguém morrer de fome. E o número de filhos é determinado pelas operárias, não pela mãe-viúva, viúva antes de ser mãe. Ela só põe o ovo no prato, em cima do alimento, e o prato é também berço e casa, em que nasce, se metamorfoseia; é a cela ou célula. A enxameação mais agitada e forte que já vi começou em novembro de 1960 e se prolongou até maio de 1961. O solo ficou coberto de abelhas, a maioria morta, outras estrebuchando em estertores de agonia, que quer dizer combate.

Estamos em 1961, época em que através dos Maristas de Aracati a abelha italiana Apis mellifera ligustica aparece por essas bandas, ao passo que a africana só chega em 1966. Há muito mel, tanto de apis como de melipona. O caboclo se anima. Foi um ano de bastante mel de jandaíra aqui na cidade; em 1977 foi na Fazenda São João. Nas horas vagas me extasio a contemplar o reboliço das abelhas para eleger rainhas. Ninguém fica parado. Cresce rapidamente a multidão pela chegada de sempre mais abelhas da vizinhança. Noivas só são mortas dentro do cortiço onde é travado o concurso real. Trucidam até meia dúzia por hora. Na Colônia Agrícola durante 2 meses todas as pretendentes ao trono foram eliminadas sumariamente: não fizeram família nem mel, só carnaval e forrobodó; e eram 26 núcleos fortes. É bom lembrar que em 30 anos nenhuma candidata minha foi aceita, nem em família órfã durante 5 messes. Caprichos de insetos alados e danados. Eles sabem porque fazem.

Durante seis anos foi assim que mantive meu meliponário dentro do quintal da casa paroquial, sem problema de africanas, nem poluição, apenas de fome no final dos anos. Depois resolvi alimentá-las. Uma vez houve problema com irapuá, Trigona crucipes. Das lagartixas me defendia com a surdinha Winchester de 16 tiros. Bem depressa descobri como livrar-me de importunos gatos, urubus, lagartixas e cães.

1967
O meliponário já se encontra na fazenda São João, a 6 km da cidade, região bem própria para coleta de néctar. Entretanto desde meados de 1966 as terríveis africanas já haviam chegado ao Nordeste. A primeira amostra me foi trazida da serra de São Miguel pelo amigo Manuel Gurgel. Conduzi-a comigo até o sul e foi constatado que era a tal. Acabou-se sossego no povo das abelhas indígenas do Nordeste. Foi aquela confusão, que todos sentimos – todos, bichos e homens. Nem filhote de papagaio em oco de toco de aroeira escapou, ninguém foi poupado, nem boi, nem galinha.

Levaram-se 10 anos para deslocar-se de São Paulo ao Rio Grande do Norte, mas vieram, e brabas. Para extrair mel arriscava-se a vida. Fiz uma barraca de bramante, mas passavam por baixo. Ainda não se usava portas e janelas teladas. O recurso era despescar os cortiços de jandaíras durante a noite, pois pelas 4:30 as africanas já começavam a roncar por entre flores de algaroba. Como alimentar as indígenas? Depois eu conto. A 24 de janeiro de 1967 desabou a primeira chuva e em fevereiro o inverno está pegado. Em julho já se podia tirar muito mel das 120 caixas. Em 1966 colhi 100 litros, em 1967 só 56 e em 1968, nada de mel. Em novembro começo a corresponder-me com o professor W. E. Kerr.

(...)
Entra em cena as africanas, já com 6 meses de Nordeste. Fazem das suas, e nós das nossas. Tomam conta do sertão. Desaparecem as amarelas italianas. Em dezembro as jandaíras se tornam muito agressivas e nervosas: são capazes de enxotar o importuno até 50 metros de distância. Dia 26 sobem os bordos dos potes velhos, ajeitam e envernizam enquanto a rainha intensifica a postura dia e noite, porquanto não há tempo a perder: a chuva se avizinha. A 29 desaba chuva e a 3 de março de 1968 o inverno está pegado.

1968
Entrei em 1968 com 120 núcleos, sendo 4 partenogênicos. Há 3 modos de fundar núcleos:


  1. O natural, único adotado pelas jandaíras, a saber, introdução de princesa ou noiva volante;




  1. Pela cria, como o sertanejo faz;




  1. Pela introdução de rainha poedeira ou adulta. Esse último elas não apreciam, pois quem casará com viúva se tem tanta donzela para escolher? E neste ano não querem rainha velha; não matam, apenas respeitam, sem aproveitar. Depois a substituem misteriosamente.

Até 20 de janeiro continuam valentes e brabas. Tempo de entrevero, namoro, carnaval e passeata. As chuvas vão amiudando, alegrando tudo que é vivo. Às 19h de 3 de março o inverno está assegurado, consoante as previsões delas com 45 dias de antecipação. Desde 27 de fevereiro arribaram por aqui as “tesouras” da família dos tiranídeos, Muscivora tyrannus L para avisar que aqui está bom. Fogem do frio do sul, onde nidificam no verão. – O mandacaru se “esbalda” e exaure em enormes flores alvas, que só abrem de noite e fenecem no dia seguinte. Nascem pássaros, sempre menos numerosos. Os cupins do chão e dos cumpinzeiros, abocanhados pelos sapos e passarinhos. De dia as borboletas cruzam os ares, pela manhã rumo as nascente, à tarde em direção ao poente, sempre em direção ao sol. Já mariposas e morcegos tomam direção oposta. Chove todo mês de março, tanto que a 12 já sangra a cisterna da casa paroquial. Dia 20 aparece um dos melhores sinais de boa safra de mel: mofo nos potes. Outro igualmente bom: piolhinhos menores que cafifas, passeando em cima dos favos novos. Chegam as mutucas na última semana de março: ninguém, nem o boi, consegue permanecer na capoeira do mermeleiro, cuja flor disputam abelhas, moscas, vespas, alguns pássaros, jandaíras, muriçocas etc.

E as jandaíras ficam mais valentes; é preciso introduzir a máscara ou véu de tule preto, ou filó. Não há quem agüente mordida de milhares de insetos duma vez só, da cabeça aos pés. O pior é nos cantos dos olhos, narinas, e até na língua, se houver chance. Algumas fotos batidas pelo franciscano alemão Raul Selbach provam isto. Antes de terminar março, o pluviômetro assinala 330 mm. Rareiam as chuvas em abril (choveu a 1, 5, 13, 14, 22, 24, 25, 26, 28, 29). Em maio tivemos chuvas a 5, 7, 8, 9, 16, 17, 28, 30. – Em meados de abril 10 cortiços estão pesados ou gordos. No fim de maio fiz uma experiência que abortou: exterminei 30 rainhas para lucrar melhores. De fato após 30 dias estavam 30 novas, porém não houve mel. Devia ter feito no começo do inverno, a tal da substituição. Em junho as abelhas estão valentes e diligentes; trabalham nervosamente das 14 às 17 horas para aproveitar determinada espécie de flores que secretam néctar nessas horas. A cor do mel é âmbar, lindo e saboroso. A 24 já não há mel, as chuvas rareiam, as africanas ou mestiças importunam demais, esfaimadas seque estão. É preciso esconder-se debaixo de empanada de bramante para mexer com as jandaíras.

Vou testando novo modelo de cortiço: vertical, tipo lanterna. Cedi 10 a José Duarte dos 140 que estavam ativos. Em agosto as abelhinhas são poucas e magras, sinal de bom inverno para o ano seguinte, assim diz o caboclo.

A 26 de agosto fundamos o Clube Apícola de Mossoró com 17 sócios-fundadores. Evolou-se depois de alguns anos, pois a africanizada supõe técnica nova, bem mais sofisticada. Em setembro aroeira, juazeiro, angico, cumaru e outras árvores florescem. Em outubro o cumaru já está bageado. A 18 a tão esperada barra falhou... mas os serradores ou serra-paus cortam muitos galhos de algaroba para depositar seus ovos. No dia 28 aparecem sinais de inverno para 1969. Envio amostras de flores regionais melíferas para Celle, Alemanha. Em novembro funcionam 132 núcleos horizontais e 15 verticais, novo modelo. Passei demão de tinta em todas as caixas. Depois foram fotografadas, 21 de novembro de 1968 – Destruí um gigantesco ninho de irapuá, transportado por dois homens em calão. Em dezembro coaxam sapos, raspam pererecas, zunem ventos, o céu se cobre de nuvens escuras, chove na segunda quinzena. Dos 120 núcleos, 30 largaram, bom sinal de renovação de rainhas.


1969
A região de Patu está mais chovida. Aproveitei janeiro para visitar a Cachoeira de Paulo Afonso com P. Henrique Spitz e P. José Kruza MSF, quais reis-magos, sem coroa nem camelos, bebendo exclusivamente água de coco e cervaja, para evitar contaminação.

Durante todo mês de janeiro houve chuviscos e chuvas mais fortes. a 25 saem dos ninhos filhotes de galo de campina, açude toma água, saúvas fazem vôo nupcial, 200 flores enfeitam o mandacarú, contra 130 do ano passado. Transcrevo ipsis litteris algumas linhas redigidas em 1969:


Fevereiro: a postura prossegue boa. Às 18h do dia 6 muito relâmpago no sertão. Dia 7, bombas às 23h pela cassação do Lobo Mau (A. Alves). Dia 8, desde às 9h, sopra vento nordeste, atmosfera de cinza ou poeira. Ontem, calor! Hoje, mais calor! Dia 9, domingo, denso véu pardo-cinzento cobre o anil. Calor intenso, sem vento. Dia 10, continua o céu encoberto. Trovejou às 12h, e choveu no sertão. Jandaíras em grande atividade, prometendo mel em 30 dias. Aparecem as “tesourinhas”, prenúncio de inverno pegado, aliás sinal. No ano passado apareceram a 27 de fevereiro, e o inverno pegou mesmo a 3 de março. Já destruí 6 ninhos de irapuá. Muita formiga preta, sob a tampa das caixas. As jandaíras estão preguiçosas.
Março: Foi mês aziago, pelo menos no final. Decresce visivelmente o número de africanas como de jandaíras, não obstante chuvas freqüentes e regulares. Incrível a anotação que segue: às 23h temos chuva de tanajuras. A 31 chove 30 mm.
Em Abril: tentei dispor os cortiços em direção alternadas; não prestou. Durante o ano todo só colhi 15 litros de mel. Chuvas não faltaram, nem flores. Mistério de abelhas.

Até 25 de Maio não há enxameação, nem rainhas novas.

Em Junho as jandaíras devoraram o pouco mel arrecadado.

De 8 a 11 de junho esteve entre nós o tio Hugo, i. é, Hugo Muxfeldt, o apicultor gaúcho. Fez palestras na Escola Superior de Agricultura. Colégio Diocesano Santa Luzia, e Ginásio Sagrado Coração de Maria. Visitou apiários da região e meu meliponário Santo Huberto. No fim do mês aparecem as importunas mosquinhas dos forídios, imbatíveis, a não ser por família fortíssima. Surgem leves indícios de enxameação; por sinal no quintal da casa paroquial foram fundados 2 núcleos à moda silvestre, a melhor. Em Julho tivemos chuvas esparsas.

De 1o a 8 de Agosto participei em Munique RFA do 22o Congresso Internacional da Apimondia, às minhas custas. Parti a 10 de julho e regressei a 25 de agosto. Gastei 3 contos na VARIG (vários alemães reunidos e 1 gaúcho, ou iludiram 1 gaúcho). Levei amostras de abelhas e mel. Como os alemães se interessam por abelhas!

Visitei a Fazenda Nova Olinda, de Enéas Negreiros – CE a 6 de setembro, onde vi um papagaio cego, com 47 anos. Trouxe uma jandaíra da Fazenda Veneza, de Pedro Fernandes; abelha bem maior e mais valente. Em outubro e novembro nada digno de nota ocorreu. Vou lidando com jatis, tubibas, remelas T plebeia plebeia, moça-branca. Em Dezembro, dia 3, ribomba o 1o trovão. Dia 15 começam timidamente a enxamear. Já queimei 12 ninhos de irapuá, perigosos concorrentes. Só depois de muitos sacrifícios consegui situar mosquito-remela, a menor das abelhinhas. Na Fazenda Veneza terríveis formigas pretas, de bunda volumosa, destruíram meus 3 cortiços suspensos duma oiticica.



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