Palestras sobre o inferno



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AS "PALESTRAS SOBRE O INFERNO"

de Marcelino Champagnat
No quadro dos "Documentos" dispomos de alguns escritos do Fundador. Este número dos "Cadernos Maristas" apresenta as "Palestras sobre o inferno" de M.Champagnat. A austeridade do assunto, a repetição das mesmas frases de uma palestra outra, o seu inacabamento, os anexos são outros tantos inconvenientes capazes de aborrecer o leitor e impedi-lo de tirar todo o proveito que viria com o melhor conhecimento do autor. Por essa razão, penso que a apresentação mais ampla desses textos não seria inútil. Explico, de imediato, que apenas tenho em vista aqui estritamente as quatro palestras sobre o inferno oferecidas neste caderno.
Sem querer apresentar um estudo exaustivo desses textos, minha intenção apenas fazer uma exposição detalhada, depois examinar-lhes a redação, o que me permitir apanhar melhor o pensamento do autor e alguns traços de sua fisionomia espiritual.
APRESENTAÇÃO DOS TEXTOS
As semelhanças entre os quatro textos impõem-se por si. São manifestamente quatro versões de um mesmo texto, mas não sob a forma de ensaios ou de esboços para atingir um texto final. Trata-se de outros tantos textos prontos a serem utilizados. claro que foram redigidos pelo mesmo autor, como o demonstra a escrita mas, indubitavelmente, em épocas diversas e para auditórios diferentes, o que fica comprovado pelas variações e pelos numerosos anexos. Bastar então chamar a atenção sobre certos pontos particularmente dignos de interesse.
Apanhado geral
Os quatro textos levam o título:"Palestras sobre o inferno" e não sermões, nem instruções. Ser necessário ver nisso uma intenção bem determinada da parte do autor? possível que tenha desejado não revestir de certa solenidade com que, muitas vezes, se envolve esse tema para que assumisse um tom mais familiar e procurasse antes convencer do que causar medo. Ver-se-á, a seguir, na expressão "simples exposição", nas exortações que encerram as diversas partes, que as suposições desta natureza não são inteiramente gratuitas.
As quatro palestras trazem, no início, a citação do Evangelho de S.Mateus, anunciando j a semelhança dos desenvolvimentos que vão seguir, porque apenas irão detalhar os aspectos dessa sentença de reprovação.Eqüivale dizer também que os planos são absolutamente idênticos: o afastamento de Deus, a pena do fogo, a eternidade do inferno. O desenvolvimento desses três pontos, que não ser sempre acabado, formar o corpo das palestras.

O plano não varia de uma palestra para a outra. As mesmas frases seguem-se na mesma ordem e são at as interpelações:"meus irmãos" ("m.f.") que se encontram sempre no mesmo lugar. Acontece muitas vezes que, sob a inspiração do momento, o autor alonga o final de um ou outro ponto, acrescentando assim variantes ao texto primitivo. Ser necessário dizer que essas variantes dão a cada texto sua característica própria e refletem, sem dúvida, o auditório a quem a palestra se destina.

Esta última observação visa também os diferentes textos que se encontram na seqüência dos corpos de três palestras. São frases isoladas, o mais das vezes, parágrafos de comprimento variável, sem seqüência lógica. Sem dúvida alguma, esses textos foram acrescidos mais tarde, tirados de uma obra ou inspirados por uma leitura.

Diversas razões militam a favor desta hipótese. Na palestra 134.04 encontramos um final seguido de três parágrafos que não se concatenam. Por outro lado, acontece que um ou outro desses textos se encontra no fim da palestra e integrado na outra, como se o que tinha sido inicialmente uma nota tivesse sido recuperado para revestir o corpo da palestra. Outra prova ainda o fato de que na versão 134.02 achamos parágrafos numerados 1,2,3,4. Ora, claro que o parágrafo 1 se relaciona com o primeiro ponto da palestra, o parágrafo 2 com o segundo ponto e assim por diante, o que demonstra bem que se trata de notas que não fazem parte da palestra propriamente dita. Enfim, algumas dessas passagens apresentam grafia diferente daquela do texto precedente e, portanto, não foram escritas ao mesmo tempo do que ele.

A presença desses anexos d às "Palestras", tomadas em seu conjunto, um aspecto heterogêneo que demonstra que devem ser consideradas não como palestras acabadas, que o pregador apenas tinha que ler no púlpito, mas como esboços mais ou menos elaborados para guiar o orador e fornecer-lhe a formulação segura da doutrina. Da! a particularidade de cada texto, o que obriga a tom -los individualmente. Farei isso na ordem que o caderno os apresenta, designando-os pelo último algarismo de sua quota: 4,2,5,3
Texto N' 4
O texto N' 4 é, sem dúvida, o mais acabado dos quatro. quase idêntico aos três outros at depois do parágrafo:"Reflitam...". Esse parágrafo, em lugar de concluir, inicia uma longa exortação para não arriscar-se às penas do inferno. Dada a amplidão dessa última exposição, por que não consider -la como um quarto ponto, embora não esteja anunciado no prólogo? A palestra termina depois por um convite do Senhor:"Vinde benditos de meu Pai,...e o sinal da cruz.

As poucas linhas que seguem at ao rodap da página do manuscrito, apenas contêm evocações de idéias que se encontram desenvolvidas nas outras palestras:"Conheço-os...;São minhas vítimas...;Escutem a voz dos antepassados...;Os que diziam querer salvar-se...; Somos cruelmente atormentados...;Pode-se colher..." Depois, em baixo da página do manuscrito, achamos a nota referente ao bispo de Mende que, sem dúvida, nada tem que ver com o texto (1).

A página seguinte retoma um tema evocado no parágrafo precedente:"Conheço-os..." uma prosopopéia colocada na boca do demônio para permitir ser mais direto e mais pertinente possível. Apresenta contudo uma inabilidade na exortação para mudar de vida para não se tornarem "minhas vítimas", porque qual a empresa que faria publicidade para convidar o cliente a não servir-se dela? Como quer que seja, esse estilo teatral não deveria desagradar a M.Champagnat. Se for verdade, como o afirma o Ir.Silvestre, que o Fundador "tinha o talento, conforme as pessoas com quem tratava, de dar voz um tom firme, enérgico e mesmo terrível que atemorizava o auditório," imagina-se o efeito que poderia produzir essa tirada. Termina com a imagem vulgar dos animais rebolando-se na lama.

O último anexo contém uma primeira frase em que se entremeiam muitas idéias, o que faz com que o próprio autor a rejeite. Retoma-o depois, retendo apenas a última idéia sobre a qual enxerta uma recapitulação dos três pontos da palestra. Isso permite-lhe a conclusão conforme as regras, mas no mesmo estilo severo dos anexos, muito diferente daquele da primeira peroração que termina a palestra propriamente dita.


Esse texto, tomado em seu conjunto, pode então ter duas apresentações diferentes conforme o pregador se serve dos anexos ou os deixa de lado, caso queira mostrar-se pastor ou justiceiro, testemunha de um Deus de misericórdia ou de um Deus vingador, enfim, conduzir o rebanho pela doçura ou pelo receio.
Texto N' 2
O texto N' 2, pelo fato de conter, além do tronco comum, a maior parte das idéias consignadas nos anexos dos outros o mais completo, embora amputado da peroração propriamente dita. Três passagens cujas duas primeiras apenas se encontram lá, dão-lhe um tom mais elevado.A primeira, exatamente no começo do primeiro ponto, levanta o problema teológico da existência do inferno, sem discuti-lo porém, nem resolv-lo. Pode-se perguntar por que M. Champagnat sente a necessidade de abordar aqui esse problema? Encontra-se perante um auditório mais culto que o da paróquia? possível, se nos detivermos na segunda passagem própria dessa palestra, a saber, aquela que menciona o martírio de São Lourenço, patrono da paróquia, afirmando claramente com isso que se acha em lugar diferente ao da igreja de Santo Andéol de La Valla (2). A terceira passagem enfim, pelo final do segundo ponto, completa a listagem dos tormentos do inferno pela imobilidade dos seres, incapazes de mover-se para aliviar os tormentos.

Notar-se- que a longa prosopopéia que achamos no anexo ao texto anterior, acha-se integrada neste. As razões para fazer dela um quarto ponto, apresentadas a propósito do texto precedente, aqui são reforçadas pelo fato de que este parágrafo, tratando de outra coisa do que a eternidade das penas, não se liga ao terceiro ponto.

Se bem que a peroração se encontre no final, os parágrafos antecedentes, a partir daqui, podem ser considerados como anexos. Com efeito, o primeiro contendo diversas idéias justapostas não pode fazer parte do desenvolvimento. antes um esboço de pensamentos muito realistas, razão por que sem dúvida o autor o riscou.

Os quatro parágrafos seguintes, enumerados, parecem ser, como j disse, complementos referentes aos diversos pontos da palestra.

Segue-se um longo trecho evocando um ou outro dos condenados que pode completar a prosopopéia dos demônios, ou mesmo substitu!-la.Tem a vantagem de terminar com uma luz de esperança, permitindo de inserir a peroração final que se encontra num parágrafo mais afastado.

Aquilo que o separa foi finalmente riscado pelo autor. Apresenta-se também como um aglomerado de idéias com uma lacuna no meio. Com efeito, são dois parágrafos, um na frente, o outro no verso, de uma folha cuja metade inferior foi arrancada. Devido a isso, a frase do verso não tem nexo com aquela inacabada da frente e fica incomprensível:"Zombando de vocês, os insultarei."

A conclusão que se pode tirar da apresentação deste texto N' 2 não difere em nada daquela que sugere o texto precedente. Sem dúvida, o desenvolvimento dos três pontos demonstra alguma elaboração, mesmo certa apresentação. O resto, pelo contrário, deixa a impressão de confusão, apesar dos dois longos parágrafos: a prosopopéia dos demônios e a evocação dos condenados, que cada um desenvolve todo um tema.Mas um orador menos embaraçado com a palavra do que com a escrita, encontra a! elementos para comover seu auditório.
Texto N' 5
O texto N' 5,(3) o mais curto, pelo menos na aparência, est redigido em tom pastoral.Não h anexos, mas caracteriza-se pela ultrapassagem do quadro no qual os outros se mantêm.

A partir do fim da primeira alínea, na tradução da citação latina, o autor insere uma idéia que não est na citação:"Não os conheço mais", mas que empresta da condenação das virgens imprudentes, parece j anunciar o plano da conferência. Vem uma segunda alínea, seguida também de um desenvolvimento a respeito da eternidade das penas que tira qualquer esperança ao infeliz.

Mesma prolixidade na transição em que a tradução do texto latino frisa a interpretação.

A primeira parte desse texto apresenta uma lacuna. A segunda frase est inacabada:" o que pode distra!-lo disso é...", ao passo que a seguinte começa pelo imperativo:"Olhem...", sem ter dado a conhecer o interlocutor. De fato, com relação aos outros textos em que todas as frases deste se encontram, falta qui uma longa passagem.No manuscrito, a lacuna corresponde passagem de uma página para uma outra ímpar. Não resta dúvida, portanto, que falta uma folha, isto é, duas páginas.

Encontram-se novamente divergências no final do primeiro ponto. A exortação, que geralmente conclui cada ponto, aqui est revestida de idéias encontradas pela primeira vez: o pecado mortal e os pecados veniais reiterados que fazem perder a Deus e são castigados pelo inferno; portanto, necessário buscar a Deus enquanto a gente est aqui em baixo porque, no inferno, não se pode mais.

De tom completamente diferente a segunda metade do segundo ponto. A! M.Champagnat gosta de detalhar os sofrimentos de que o inferno pródigo. "o escolho fatal para onde conduzem as delícias deste mundo", as plagas "onde vêm naufragar os prazeres funestos". A seguir termina, como na palestra N' 4, recomendando mudar de vida.

A terceira parte é, palavra por palavra, a mesma coisa que no N' 4 at citação do profeta Habacuc e termina bruscamente pela pergunta:"Mas que lições nos quer dar?". Ser que foi intencionalmente que M.Champagnat terminou assim sua palestra com uma interrogação? O fato de encontrar-se no rodap de uma página par pode deixar supor que faltaria uma folha que corresponderia omitida no começo.Então, o número de folhas entre as duas inexistentes deveria ser normalmente par, o que não o caso. Por isso, com a carência de dados, apenas poderiam ser feitas conjecturas inúteis. forçoso, por conseguinte, tomar o texto como é.
Texto N' 3
O texto N' 3 não difere do N' 5 senão por leves variantes que vão aumentando at exortação que termina a segunda parte do último. Quanto ao texto N' 3, sem se preocupar com a terceira parte, que tinha anunciado, deriva para desenvolvimentos longos, por vezes, idéias originais, mas que não se concatenam de forma alguma entre si. muito difícil dizer onde a palestra propriamente dita se detém e o que pode ser considerado como anexos. O manuscrito mostra pelo menos, através da mudança de caligrafia, que os textos a partir do parágrafo:"Enfim, meus irmãos,..." at ao final, não foi redigido no mesmo dia que o precedente.
A originalidade deste texto reside no tom claramente positivo. Longe de se comprazer em descrever os horrores do inferno, o pregador insiste na maneira de viver aqui em baixo para evitar de ser infeliz no outro mundo.

Com reminiscências de textos que j conhecemos, M.Champagnat mostra como se comportariam os réprobos, se pudessem sair do lugar de seu suplício. As três alíneas seguintes, cujas duas primeiras são numeradas, lembram,exceto a segunda, idéias que se encontram nos outros textos. Sem dúvida, são reflexões posteriores para revestir tal ou tal passagem da palestra, sem que o ponto de inserção esteja marcado.

O último parágrado enfim, cujo início foi primeiramente riscado, retomado num desenvolvimento mais amplo, encontra-se com algumas variantes, no texto N' 4.Com ele termina-se aqui a palestra, o que mostra bem que não parte integrante, porque não tem, em absoluto, a forma de conclusão.

Ao término da apresentação desses textos, a observação geral a fazer que devem ser tomados por aquilo que são na realidade. No pensamento do autor, apenas foram redigidos para ele pessoalmente. Ora, não se sentindo de forma alguma embaraçado pela palavra espontânea, não tinha necessidade de redigir os sermões de maneira apenas de ter que l-los no púlpito. Além disso, queria sentir-se perto do povo e falar como o povo. Portanto, fazer literatura, compor belas frases estava bem longe de suas preocupações. O que pretendia era ser claro, fazer-se compreender pelos ouvintes e cativar-lhes a atenção. O texto devia servir de guia no desenvolvimento, na memória das idéias, fornecer-lhe o enunciado justo da doutrina. Por falta de tempo, sem dúvida, e também de dons oratórios, M.Champagnat não se preocupou em compor textos no sentido preciso do termo.

Da! se segue, e também de seu espírito mais intuitivo que dedutivo, que as frases não estão ligadas entre si. Mesmo nas cartas, e, em conseqüência mais elaboradas, essa característica de seu estilo manifesta.
A REDAÇÃO
Os textos que acabam de ser apresentados, considerados em seu conjunto, nos colocam várias interrogações. Embora não seja possível respond-las, não vai sem interesse nem proveito examin -las.
As cópias.
Como não deixar de inquirir, em primeiro lugar, sobre a presença de quatro cópias do mesmo texto. De uma parte, provável que este assunto M.Champagnat o tenha tratado mais de quatro vezes. De outro lado, os anexos não demonstram que o mesmo texto pudesse servir diversas vezes e em circunstâncias diferentes. Se esta maneira de ver for boa, por que não ter-se contentado sempre com o mesmo texto de base que poderia enriquecer medida de suas palestras?

Sem pretender responder pergunta, apresentarei duas observações, fruto de laboriosas pesquisas a esse respeito.

Em Roma, possuímos nos Arquivos dois volumosos dossiês contendo os textos de sermões, instruções, meditações que proviriam da paróquia de La Valla. Entre os sermões, quatro tratam do inferno dos quais três escritos pela mesma mão e se repetem da mesma maneira do que os de M.Champagnat. O primeiro mais desenvolvido, o segundo expurgado de certas passagens que, no primeiro, servem antes de enchimento e o terceiro incompleto, pois a metade das folhas previstas ficaram vazias. Ignoro infelizmente tudo a respeito do autor desses sermões. necessário precisar que não se assemelham em nada aos de nosso Fundador. Pode-se perguntar assim mesmo se o encontro de dois textos semelhantes puro acaso ou se trata de uma prática comum entre os pregadores de então. Pode-se reter pelo menos que o caso de M.Champagnat não único.

Em segundo lugar, pergunto-me se esse fato não tem qualquer relacionamento com a recomendação do Padre Colin de escrever sempre os sermões. Num capítulo da "Doutrina espiritual, virtudes e espírito do venerável J.Cl.Colin" anoto as obrigações seguintes:"Escrevamos com cuidado nossas instruções..." (p.66);" Faço questão mais do que nunca de que a gente se instrua e que não se pregue sem ter escrito e aprendido." (p.67);"Quero proibir aos jovens para que nada digam no púlpito sem t-lo escrito...Quero...que escrevam seus sermões; se necessário, o recomendarei em virtude da santa obediência." (p.80). Trata-se aqui, com certeza, de uma ordem salutar aos pregadores de missões, mas implica isso de recopiar diversas vezes o mesmo texto devido a algumas variantes?

Outra explicação possível poderia ser a seguinte. Depois de uma primeira redação, em conseqüência de leituras ou reflexões, M.Champagnat se teria contentado primeiramente em acrescentar parágrafos, deixando para mais tarde de retomar o todo e fazer um texto contínuo. Essa ocasião tendo-se apresentado, recopiou o texto integrando as notas acrescentadas. Em breve novas idéias se apresentaram que novamente anotou em seguida. Da! nova necessidade de colocar tudo devidamente, talvez por ocasião de uma missão que precisava pregar em outra paróquia. Depois o mesmo cenário se reproduz, mas desta vez o tempo para acabar lhe faltou, ou então, tomado pela inspiração do momento, deixou-se levar ao correr da pena esquecendo o plano primitivo. de fato compreensível que se tenha contentado com três tentativas. Esta hipótese supõe de sua parte um cuidado de exatidão, de um trabalho devidamente acabado. Aliás,por atitudes que dele conhecemos deixam-nos entrever essa peculiaridade de seu caráter, mas quem pode dizer que seja a causa da presença dessas quatro cópias?
As variantes
Deixando, portanto, aberta a questão, pode-se também ver com maior detalhe as divergências entre os textos que parecem se repetir. A apresentação tipográfica desta edição quereria justamente colocar em relevo essas divergências. São elas efeito de uma distração? São, pelo contrário desejadas para nuançar diferentemente o conjunto? Numa ou em outra hipótese refletem as disposições do momento, quer tenham sido queridas, em razão das circunstâncias, ou quer sejam a emergência de um estado psicológico. Em conseqüência, não são nunca negligenciáveis.

A título de exemplo, tomo uma passagem que se acha nas palestras 2 e 3. Escolho cientemente esses dois textos porque estão duas vezes em anexo, e, por conseguinte, não devem ter o mesmo valor dos que fazem parte do corpo da palestra. Por isso, mesmo as variantes me parecem significativas, como se pode julgar:


2 3

Permitam-me,prezados irmãos, Seja-me permitido para a

instrução de um grande número

dos que me ouvem,

de tirar desse lugar de horror... de tirar dessas chamas...

os escravos do vício infame... os escravos do vício...

os infames viciados os infames viciados

do pecado sórdido da impureza... do sórdido pecado da impureza

de suas ações vergonhosas... de suas más ações...

ouvidos ouvidos

que vocês mesmos mancharam.... que vocês mesmos sujaram...

que lançam o fogo que lançam o fogo

e o enxofre ardente... e o enxofre fervendo...

Mas escutem também, pecadores, Mas escutem também

seus gritos lancinantes seus gritos lancinantes

e cheios de lamentos,

porque contra vocês, porque contra vocês,

infelizes escravos do pecado... miseráveis impudicos...

na espantosa desgraça... na desgraça...
Não parece duvidoso que as palavras: infame,lamentável, espantoso acrescidas versão 2, o mesmo acontecendo com "lugar de horror" em lugar de "chamas", "ações vergonhosas" por "ações más" tenham sido voluntariamente escolhidas para impressionar mais. A variante da primeira frase j significativa:"permitam-me, prezados irmãos, para sua instrução..." em lugar da expressão:"Que me seja permitido para a instrução de um grande número dos que me ouvem..." A versão 2 não mais direta, mais pessoal, mais próxima do auditório? A outra, pelo contrário, mais polida, mais distante, para um auditório que se deve poupar. Deduzo deste exemplo que as palestras de que nos ocupamos foram compostas para auditórios diferentes e que refletem um pouco a opinião que o pregador se tinha formado dele. Além disso, se esses textos foram copiados de outros autores, foi com certa liberdade que deixa margem bastante grande em que a personalidade do copista pode-se exprimir. Outro exemplo ser talvez mais explícito ainda sob este ponto de vista:
2 4

Enquanto se envergonham Enquanto se envergonham

vocês mesmos em seu coração

ao verem-se tão sórdidos dessas torpezas

e de ter o coração tão perverso de que se tornaram culpados.

tão corrompido como o seu.

Os próprios animais Viram talvez os animais

não chegam talvez aos

aos excessos aos quais... rebolar-se no lodo da

da impureza como vocês

fazem de h anos.

(Que confissões,

que comunhões!)

Confessem aqui que enrubecem

de suas sujidades!
Dizer, com certeza, qual o texto primitivo difícil apesar das hipóteses em favor do N' 4, embora se ignore o que escondem os pontos de suspensão do N' 2. De qualquer maneira, as divergências são grandes, o que coloca de novo as questões das fontes que desejo abordar agora.

As fontes


necessário precisar, inicialmente, alguns pontos a fim de colocar o problema em termos mais claros. Esta pesquisa não tem por objetivo a simples curiosidade intelectual, nem poder apreciar as capacidades do autor. Positivamente, tento ver o que M. Champagnat reteve e o que não reteve da fonte, depois sua maneira de tirar partido dessa colheita, tanto quanto isso se manifesta em sua personalidade.

Ademais, ao falar na utilização das fontes, necessário não confundir o fato de copiar trechos inteiros de um autor com o fato de deixar-se guiar por ele, e inspirar-se nele, mesmo se, ao fazer isso, expressões retidas na memória venham espontaneamente ao correr da pena. Esta segunda alternativa encontra-se ordinariamente nos pregadores, notadamente nos sermões sobre o inferno. As idéias dos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, São Gregório, Santo Hilário de Poitiers, São Bernardo e outros são amplamente exploradas, embora fosse a título de convencer. Raros são os pregadores que não recorram a tais autoridades.

M.Champagnat, segundo o que afirma, não fez exceção. Ser necessário ir mais além at dizer que copia trechos inteiros? difícil prov -lo pelos textos que nos ocupam e minha resposta seria antes negativa.

Entre os numerosos sermões ou meditações que pude consultar, encontrei o plano das "Palestras" num só, não impresso, o quarto dos "Sermões de La Valla" mencionados acima. Cito a apresentação desse plano para fazer ver ao mesmo tempo as semelhanças e as diferenças.

"O que o inferno então? ou se preferirem, meus irmãos, o que então um condenado ao inferno? uma vítima infeliz da cólera de Deus, da onipotência de Deus e, se puder falar assim da eternidade de Deus. O que faz a cólera de Deus? Ela o afasta, o separa de seu soberano bem. Que faz a onipotência de Deus? Serve-se de tudo para seu suplício, para isso faz at milagres, d ao fogo um poder que ultrapassa sua força e seu poder ordinário. Que permite a eternidade de Deus? Tira-lhe toda a esperança para o futuro, não mais retorno, não mais paz. Tais são as verdades sobre as quais lhes peço, prezados irmãos, de fazer hoje algumas reflexões."

Os sermões que pude consultar desenvolvem amplamente os dois últimos pontos, mas os raros que tratam do primeiro não o fazem nunca como um ponto a parte, salvo esse em que o texto se detém no meio do segundo ponto. Ser anterior ou posterior às "Palestras" de M.Champagnat? Existe uma influência num sentido ou outro entre os dois? impossível dizer, porquanto a identidade do lugar a única indicação. Muito mais do que cotejar este texto com o que nos ocupa, o amplo desenvolvimento do primeiro ponto antes os afasta, pelo menos pela forma do conteúdo. Julgue-se isso pela resumo que segue:

Primeira reflexão:

- O homem quer ser feliz; o mundo o engana fazendo-lhe ver uma felicidade falsa;

- Na morte, começa a ver claro, a ver seu fim, a conhecer a Deus, e a compreender o erro do mundo;

- A alma lança-se para Deus com ímpeto, mas obstáculos a detém, mão invisível a repele:

Ela vos procura,Senhor, e vós fugis; ela se aproxima de vós e vos afastais."

- difícil fazer compreender a cristãos a desgraça de uma alma separada de Deus, - seria necessário para isso dar-lhes a conhecer Deus;

- A alma pecadora para quem o mundo o único horizonte não pode compreender o que Deus; compreend-lo- somente depois da morte e então quer projetar-se para Ele, mas repelida: vejam as virgens imprudentes; então são gritos desesperados da alma rejeitada por sua própria culpa;

- Raiva, cólera, lamentos inúteis: a alma quereria desaparecer, mas impossível, apenas lhe resta sofrer.

Pode-se perguntar se M.Champagnat não teria copiado este sermão, se o tivesse tido sob os olhos.

Por outra parte, nos numerosos sermões que li sobre o inferno, não encontrei nenhuma passagem que se possa dizer que tenha copiado.A comparação de seu texto com os que são publicados, deixa antes a impressão de que os deveria achar por demais intelectuais, e pouco ao alcance da gente do campo, pouco suceptíveis de entrar numa conversa direta com ela. Minhas pesquisas, não certamente exaustivas, permitem-me pelos menos asseverar que M.Champagnat não segue o caminho mais comum na maneira de desenvolver o tema do inferno.

Por outro lado, suas idéias parecem muitas vezes ser o eco de obras que consultou, leu e meditou. Sem querer aqui fazer uma revista detalhada de cada frase, limito-me a algumas amostras que falam por si.

Massillon, com certeza, o inspirou para compor o primeiro ponto. Sua biblioteca continha a coleção das "Obras" cuja página 2 da capa do primeiro volume leva a inscrição:"A M.Champagnat". No sermão para "a quinta-feira da segunda semana da quaresma sobre o "Mau rico" o grande orador descreve, num primeiro ponto, a parábola do Evangelho, em Lucas, 16,19-31, depois, no segundo ponto, as penas que o mau rico sofre no inferno. Contrariamente a muitos outros autores, fala da separação de Deus numa longa passagem que M.Champagnat deve ter achado de seu gosto como se pode constatar:

Massillon Champagnat
Não sentimos aqui em baixo Não podemos nesta vida

o ardor do amor natural compreender a grandeza

que a alma tem para com Deus; desse tormento...

porque os falsos bens que nos Estamos aqui em baixo como num

cercam e que tomamos sono em que o espírito vive

como o bem verdadeiro, sempre ocupado por fantasmas.

ou a ocupam ou a partilham. O verdadeiro bem para o qual

somos feitos nos aparece de

longe...

Mas a alma separada do corpo Representemo-nos,irmãos, uma ah! todos esses fantasmas que a alma no instante da morte, absorviam desaparecerão, todos esses fantasmas que a

todos esses apegos estranhos divertiam desapareceram,

perecerão; a venda fatal ergue-se, a luz

brilha perante os olhos.

apenas poder amar seu Deus, Deus apresenta-se em toda sua

porque ninguém mais do que Ele beleza e tudo o que tem de

saber que amável. atraente.

Todas as inclinações, todas as V então que não feita

luzes, todos os desejos, senão para Ele, que não pode

todos os movimentos, todo o ser gozar a paz senão nele.

se volver para esse amor único; Sente-se irresistivelmente

tudo a levará, tudo a atraída.

a precipitará, se ouso diz-lo,

para o seio de seu Deus,

e o peso de sua iniqüidade Mais ela se esforça para unir-se

a far sem cessar recair a seu Deus, mais obstáculos

sobre si mesma: encontra...

eternamente forçada a tomar Sim, em vão que se esforçar

impulso para o céu,

eternamente repelida um braço onipotente a repele

para o abismo, sem cessar.

e mais infeliz em não poder A alma est sem cessar atraída

cessar de amar, e sentir os por tudo o que Deus tem de

efeitos terríveis da justiça amável e de perfeito e repulsa

e da vingança por tudo o que o ódio e a

de quem ela ama. a indignação de um Deus têm

de mais espantoso.

Que destino horrível!

o seio da glória estar sempre Veja, o que perdeu

aberto aos olhos desses infelizes ao olhar o céu

sem cessar dir-se-ão:Eis o reino e os prazeres de que gozam

que nos estava preparado; eis a os eleitos, ouça os admiráveis

sorte que nos esperava; eis as concertos que alegram a corte

promessas que nos foram feitas celeste. o que lhe teria dado

eis o Senhor, o único amável, em recompensa pelas boas obras,

o único poderoso, o único mas voc apenas fez obras das

misericordioso, o único imortal trevas, ser privado desse

para quem tínhamos sido criados. bem.

A isso renunciamos por um sonho, Eu devia ser sua recompensa,

por prazeres que duraram apenas mas visto que não quis me

um instante! obedecer, não serei seu Deus.


Outras expressões do mesmo sermão encontram ressonância em nosso pregador:

- "Dores que devem acabar não estão nunca sem consolação, e a esperança uma suave ocupação para os infelizes."

- "Sabe-se que os fornicadores, os ímpios, os usurpadores dos bens alheios não terão parte em meio reino."

Para descrever o mau rico, o orador diz:"Todos os dias comia bem,...além disso a comida era opípara e farta...mas não se acrescenta que houvessem excessos ou bacanais; que os libertinos e os ímpios fossem seus convivas; que conversas dissolutas condimentassem essas refeições; não est marcado que ao sair daí, corresse aos espetáculos profanos, para ocupar seus lazeres e repousar das fadigas após uma boa refeição."

No que se refere pena dos sentidos de que Massillon quase não fala, foi descrita a porfia por diversos pregadores. Pode-se dizer que em face deles, as "Palestras" são apenas um pálido reflexo. Malgrado algumas frases que hoje nos chocam, M.Champagnat mantém-se meia distância das acumulações excessivas de tantos "missionários", com certeza, conhecidos dele. Aquele, no entanto, com quem se sentia mais próximo parece ser Santo Afonso de Liguori. Eis alguns trechos da:"Preparação morte ou Considerações das máximas eternas" que encontram eco nas "Palestras".

- (A existência do inferno) " uma verdade atestada por Deus num grande número de passagens da Escritura. (308)

- "Mesmo na terra, a dor causada pelo fogo o maior dos suplícios. O fogo do inferno porém tão forte que, em comparação, o da terra, segundo Santo Agostinho, apenas uma pintura." (299)

- " a cólera de Deus que acende esse fogo vingador." (299)

- "O fogo da terra aparece como uma sombra ao lado daquele do inferno." (295) - "(O condenado) estar num abismo de fogo; não verá, não tocará, não respirar senão fogo; o fogo ser seu elemento." (299)

- "O fogo não lhes tira a vida, diz São Bernardo; vivem como em seu elemento." (308)

- "Enquanto o pecador viver, pode sempre esperar, mas depois da morte, se morrer em pecado, não haver mais esperança para ele." (311)

Encontra-se igualmente em Duquesne: "O Evangelho meditado e distribuído para todos os dias do ano", tomo 2, meditação CXLVII: Do inferno, trechos em que M.Champagnat poderia ter-se inspirado:

- "Um homem queimado vivo um espetáculo horrível cuja vista não pode ser suportada; contudo, apenas sofre durante alguns instantes e a morte logo o liberta desse tormento." (401)

- "Negar a eternidade, não destru!-la, importa merec-la e garanti-la, porque de outra forma, negar-se-ia ao mesmo tempo Jesus Cristo, seu Evangelho e sua Igreja." (405)

- "A eternidade do inferno mete ao cúmulo a infelicidade dos réprobos." (404)

- "Se uma das infelizes vítimas do inferno pudesse voltar terra, encontraria alguma coisa difícil no exercício da virtude e na prática constante de todas as suas obrigações?" (406)

claro, possível que exista um intermediário que se inspirou dessas fontes e que M.Champagnat apenas teria copiado, mas não foi ainda descoberto e a hipótese parece fraca tendo em vista o estilo bem particular das "Palestras".

A propósito da prosopopéia do demônio:"Conheço-os..." pode-se muito bem perguntar se a forma e o fundo vêm mesmo de M.Champagnat ou se copiou de outrem. O fundo pode ser inspirado, mas não copiado tal e qual, devido ao erro de lógica que assinalei. Quanto forma oratória que consiste em fazer falar os demônios ou os condenados não rara nesse gênero de sermões. Os "sermões de La Valla", j mencionados, contêm um trecho que se aproxima bastante quanto forma, mas não quanto ao conteúdo.

"Que me seja dado poder evocar aqui alguns desse infelizes culpados...Ímpios e libertinos que diriam a alguns: Vocês zombam da religião e dos que a praticam, fazíamos como vocês, tratávamos como quimeras tudo o que diziam a respeito do inferno e de seus rigores e eis que ardemos nessas chamas: crucior in hac flamma!...

Homens sensuais e voluptuosos, diriam a outros: Como vocês, procuramos satisfazer nossas paixões, vejam como estamos pagando caro os prazeres passageiros...

E vocês profanadores dos santos mistérios, diriam a terceiros: Como vocês, outrora crucificamos J.C..."
Um estudo mais a fundo descobrirá, sem dúvida, outras correspondências, mas as que acabam de ver, bastarão, sem dúvida, para dizer, guisa de conclusão, que M.Champagnat, como todos os pregadores de missões dessa época, achava-se num ambiente de idéias, fórmulas e meios entre os quais podia respigar a seu gosto. Não h dúvida que preparou os sermões pela leitura e a meditação, tomando nota dos trechos que lhe permitiram compar -los mesmo por escrito, em primeiro lugar, mais ou menos bem, mas sobretudo no púlpito onde sua palavra expressava melhor seu ardor apostólico. Quer dizer que suas "Palestras sobre o inferno", amplamente inspiradas nos autores de seu tempo, guardam assim mesmo certa originalidade que convém examinar.
O CONTEÚDO
Em nível de idéias, M.Champagnat não traz nada de novo. Aliás não o objetivo do pregador dar uma amostra de pensamentos novos, mas de procurar convencer da doutrina comum a fim de incitar os fiéis a coloc -la em prática na vida concreta de todos os dias. Ora, ao ler as quatro versões dessas "Palestras sobre o inferno", constata-se que abrangem um número bastante restrito de idéias, sempre as mesmas, formando um domínio fechado do qual não tenta transpor os limites. aí,contudo, que se encontram imagens originais de uma precisão surpreendente.

O corpo das "Palestras", isto é, geralmente os dois primeiros terços dos textos, manifesta um esforço de redação. A exemplo dos grandes oradores, o quadro nitidamente respeitado: a introdução que anuncia os diferentes pontos, at ao apelo atenção, seguido de uma invocação marial e da Ave-Maria. Em seguida, os três pontos claramente marcados por uma nova chamada explícita. O autor demonstra assim espírito de exatidão que, por exemplo, não se encontra no Cura de Ars que não deixa nunca aparecer as estruturas.M.Champagnat, pelo contrário, faz disso o arcabouço de suas palestras.

Em sua maneira de conceber um sermão bem feito, os três pontos devem seguir-se na ordem crescente de intensidade. Como porém apresentou no primeiro "o tormento mais terrível", trata no segundo do castigo "que muito mais capaz de causar impressão" para culminar com o terceiro com "os tormentos...ainda mais desesperadores". Além disso, impõe-se uma ordem no desenvolvimento de cada ponto, mas nem sempre conseguindo permanecer dentro do esquema, como uma análise mais detalhada vai demonstrar.

O primeiro ponto na versão mais completa, começa pelo problema da existência do inferno, mas apenas para lembrar que um cristão o deve ter resolvido pela fé. Depois, aborda a pena da condenação pela negativa a fim de dar maior relevo afirmação que o suplício mais "terrível dos condenados" cujo crime de ter rejeitado a Deus durante a vida e o suplício de ter que passar sem ele agora durante toda a eternidade. O que segue tende a pôr em evidência a verdade dessa proposição que ser dita novamente no final para concluir. Não estamos convencidos porque aqui em baixo não podemos compreender senão vagamente o que Deus para nós, mas após a morte, Deus nos aparecer claramente como nosso bem supremo.Então, longe de rejeitar a Deus, nossa única aspiração ser a de possu!-lo. É, contudo, o que livremente escolhemos na terra que se cumprirá:Deus nos rejeitará. O condenado ver-se-á, portanto, irremediavelmente frustrado em seu único desejo e nada mais poder distra!-lo do remorso que não cessar de atorment -lo.

Sem dúvida, para convencer necessário seguir um caminho mais longo, apresentar sucessivamente diversas considerações. Por falta de domínio suficiente da língua, aqui as frases se justapõem mais do que se concatenam. Contêm, ao mesmo tempo, a premissa e a conclusão do raciocínio, o que necessita voltar para trás.

Acontece também que o encadeamento das idéias se interrompe por incisos, como a imagem de um membro deslocado, o exemplo de São Lourenço, a observação a respeito do mérito. Ao considerar de mais perto essas ilustrações deixam entrever o fundo do pensamento.

O exemplo do sofrimento causado pela luxação de um membro mais do que uma imagem banal pela qual se deduz que no inferno "a alma como que deslocada porque est fora de seu centro". Contrariamente a muitos pregadores que, neste caso, se limitam a sublinhar o amor de Deus para torn -lo desejável, M.Champagnat, por essa evocação do "centro" vai mais longe. O membro deslocado, fora de seu lugar natural inútil. O mesmo acontece com a alma "fora de seu centro", que lhe d sentido, fica despedaçada pela paixão inútil de seu ser imortal. Com efeito, o desejo mais profundo, mais veemente da pessoa humana de ser, de identificar-se com o Ser.Mas essa identificação não concedida, não pode ser realizada senão pela pessoa, por seus atos totalmente livres e responsáveis, conformes natureza, isto é, capazes de realizar seu futuro. Ora, se essa pessoa toma consciência, na morte, que ela falhou voluntariamente seu fim, a razão de ser de sua existência e que não mais possível mudar coisa alguma, não serão para ela um inferno essas chamas inextinguíveis que queimarão, esses vermes que sem cessar a roerão?

Embora a cem léguas de tal formulação, M.Champagnat parece ter entrevisto de maneira análoga, mas partindo do amor de Deus, a realidade do inferno. Sua intimidade profunda com Deus fazia-lhe compreender que não nada sem Deus, que o ser humano não pode realizar-se senão no amor de Deus. Da! a convicção transmitida aqui "o tormento mais terrível dos condenados" reside "na privação de Deus.Como, por trás das palavras que emprega, as expressões tais que:possuir a Deus; ser privado de Deus; não sou mais seu Deus, que repete diversas vezes, não adivinhar que para ele Deus tudo, que ser separado, repelido, seria para ele um castigo insuportável?

Na mesma ordem est a reflexão concernente ao mérito que insere também no primeiro ponto. Se, segundo ele, o conhecimento direto de Deus nos tirasse a possibilidade de merecer, que associa o mérito não ao castigo, mas livre escolha da pessoa.O mérito é, com efeito, o aumento de nosso ser por nossos atos meritórios no sentido de nosso futuro.Deus, ao nos criar racionais e livres, quis que fôssemos nós mesmos os artífices de nosso futuro, realizável somente por nossos atos feitos em plena consciência e liberdade.Ora, se conhecêssemos a Deus tal como é, isto é, como nosso sumo bem, como nosso valor supremo, nossa escolha voltar-se-ia necessariamente para ele, pelo contrário, não tendo pela f senão um conhecimento indireto e parcial, não ser mais estimado subjetivamente como valor preponderante em relação aos outros, da! que a alternativa ser possível.Neste caso somente, podemos ser plenamente responsáveis por nosso destino, livremente escolhido, e seremos os artífices de nossa felicidade ou desgraça eterna. Sem pretender emprestar a nosso Fundador todas estas reflexões, queria simplesmente mostrar a realidade e a profundidade dessa frase que ele reteve, quer venha dele próprio ou de um outro, porque expressa sua própria concepção.

O segundo ponto, embora menos árduo, não também muito bem ordenado. As idéias parecem sobrepor-se uma sobre as outras, em lugar de uma seqüência lógica. A intenção, no entanto, de seguir uma certa progressão deixa-se adivinhar.

Como num tratado de teologia, o autor apóia-se, em primeiro lugar, na Escritura e nos Padres da Igreja notando que falam de "um fogo real e miraculoso que encerra todos os suplícios", o que lhe permite evocar toda a sorte de dores físicas, neste ponto que anuncia tratar do fogo. Duas partes que se articulam na expressão:"aprofundemos este pensamento". Na primeira, tenta fazer compreender o que o fogo do inferno e na segunda, os sofrimentos suportados pelos réprobos.

A primeira parte começa por afirmar que o fogo natural causa os sofrimentos mais terríveis, mas logo seguidos da morte. A fim de d -lo a entender procede por etapas: em primeiro lugar o fogo de uma fogueira sobre a qual o condenado deve ser queimado vivo (notar-se- a descrição minuciosa dos preparativos); depois o fogo de uma fornalha onde se fundem o vidro ou o ferro e cada vez volta idéia de que a vítima apenas sofre durante um instante.

O que seria, então, se por milagre de Deus a vida se mantivesse para que a vítima sofra todo um dia a fogueira, que permaneça na fornalha "como um peixe na água?". E, no entanto, esses sofrimentos ainda não são nada comparados com os do inferno, porque lá, por um segundo milagre, o fogo atormenta tanto a alma como todos os sentidos do corpo: a vista, o ouvido e, além disso, numa terrível imobilidade. Sem temer passar por blasfemo, explica essa diferença entre o fogo natural e o do inferno pela cólera vingadora de Deus que apenas puniu o Egito com o dedo, mas no inferno o faz com todo seu poder com efeitos tais que "nunca os homens, por mais cruéis que tenham sido, nada inventaram de semelhante".

necessário dizer, de imediato, que todas essas imagens são descritas com mais pormenores ainda por eminentes pregadores. A originalidade de M.Champagnat reside no fato de não ter retido senão um número reduzido dessas mil crueldades, umas mais subtis que as outras, aparecidas em profusão na literatura piedosa. Faz uma alusão furtiva às considerações reputadas teológicas sobre a natureza desse fogo tão material como imaterial, que arde sem consumir os corpos e as almas.Não fala da cólera e da vingança de Deus senão com discrição porque não esquece que a misericórida e a bondade de Deus são infinitas.

Não menos sóbrio aparece no terceiro ponto ao tratar da eternidade do inferno sem demorar-se, como tantos outros, nessa matemática dos séculos e dos milênios que se acrescentam e se multiplicam.Numa estrutura semelhante do segundo ponto, o pregador começa pelas provas da Escritura, e, em seguida, se contenta a demonstrar, por uma parte, que o inferno não comporta nenhum alívio, nem mesmo o de acabar, fosse depois de uma multidão de séculos, e, por outra parte, que est sempre no começo.
Manifestamente,M.Champagnat não se sente vontade nessas considerações mais ou menos abstratas e prefere temas mais em relação com a vida dos fiéis. assim que não demora em fazer uma aplicação prática das doutrinas sem recear de estender-se, por vezes, mais demoradamente do que uma conclusão comporta. Sem desvios, profliga os vícios mais notórios, como a falta de pureza de costumes e a impiedade manifestada na profanação dos domingos e na negligência dos sacramentos.

As duas passagens j assinaladas: a prosopopéia dos demônios e a intervenção dos condenados, são sobre este assunto as mais típicas.Que as tenha composto ele mesmo ou copiado de outrem aqui importa menos do que o fato de t-las empregado diversas vezes. Colocando de lado o tom tetral, que não é, sem dúvida, desagradável a M.Champagnat, esses textos interpelam diretamente os ouvintes que deviam sentir-se de alguma forma indicados a dedo.O que acaba de ouvir esta advertência:"Conheço-os,...vocês que ao sair deste santo lugar correm aos bares..."ousaria ainda tomar um aperitivo no caf da vila antes de ir para casa almoçar? Tal outra pecadora não estaria horrorizada pela descrição tão realista desse condenado "com o rosto coberto de imundícies", com as mãos "esfoladas e em chamas" que lança pelos olhos, narinas e boca "o fogo e o enxofre ardente em grossas labaredas"? Outras imagens menos macabras, como "os horrores das guerras, as pestes, as fomes, as chuvas de pedra, as inundações, os terremotos", são ainda mais concretas para fazer compreender às pessoas do campo o poder de Deus.

De ordem muito diversa a imagem, não menos terrena, da relação entre a semente e o fruto que M.Champagnat cita mais de uma vez num dos textos.Tema comum na Escritura que sublinha a responsabilidade da pessoa em relação com seu destino.

Sem talvez dar-se conta, em todo o caso sem diz-lo,une assim o tema do primeiro ponto: o céu que Deus apresenta como recompensa das boas obras. Teria sido fácil deduzir disso que a intervenção de Deus faz-se pelas leis que deu natureza, deixando pessoa a inteira responsabilidade da recompensa como do castigo pelo qual não se tem necessidade de fazer intervir nem a cólera,nem a vingança de Todo-Poderoso. A ambiência da época porém estava ainda muito longe de deixar-se imbuir por esta antropologia. Apesar disso, com certeza, não faltavam Igreja pregadores, mais apóstolos do que teóricos, que, sem dúvida, não teriam dificuldade em aceitar isso, tal como M.Champagnat mais propenso a socorrer do que a condenar. exatamente o que sobressai dos trechos das palestras 3 e 5 em que o cuidado de curar suprime o de meter medo. "Oh! cristãos, se os réprobos...tivessem o tempo,...haveria uma vida bastante rigorosa para eles!...Miseráveis que somos, talvez tenhamos merecido mil vezes o inferno e não pensamos em fazer penitência!" Esta última observação em que o pregador também entra em cena, mostra a ausência de qualquer pretensão nele de se considerar menos um mestre do que um companheiro de caminhada, desejoso de reunir os viandantes num passo comum para a salvação.


CONCLUSÃO
Talvez seja essa imagem a que reflete melhor a personalidade de M.Champagnat. Do exame de suas "Palestras sobre o inferno" pode-se, em primeiro lugar, reter que não possuía o talento literário. verdade, assim mesmo, que ordena o texto conforme um plano que depois segue fielmente, segundo o que aprendeu no seminário, sem dúvida.O desenvolvimento, por outra parte, parece feito de frases ou de expressões de empréstimo, não tem esse rigor, se bem que se encontrem casualmente fórmulas felizes e alguma eloqüência.

Se a isso acrescentarmos o fato de ter copiado quatro vezes o mesmo texto, pode-se fazer dele a imagem do homem consciencioso, cuidadoso da ordem, da exatidão e de um trabalho bem feito.Um trabalhador que não recusa a tarefa, que não recua perante as dificuldades. De seu dom de pregador, com entonações variadas, sustentadas pelo gesto amplo, os depoimentos feitos por ocasião do processo de beatificação, não faltam.

No plano espiritual, descobre-se um pastor que não se aferra, sem dúvida, por demais seriamente quando prega, mesmo com ardor, sobre as crueldades ditadas pelas convenções, mas que não recusa nenhuma tarefa tradicionalmente imposta por sua função. Porque, no fundo, ele próprio estimulado por um amor ardente a Cristo e aos irmãos. Oriundo do campo, menos brilhante do lado da inteligência pura do que por uma experiência clarividente, sente-se elemento do povo e apenas ambiciona ficar com ele a fim de agir como fermento.

Ir.Paul Sester.

(1) - Apesar do interesse das indicações de data (3 de agosto de 1817) e do lugar (São Pedro de Saint-Chamond), esta nota nos deixa perplexo.Não julgo que seja a indicação da proveniência do texto que precede e ainda menos daquele que segue. Ao estar no rodap da página, esta nota não pode querer indicar de onde provém o texto da página seguinte. Indica ela a proveniência do texto que precede? Isso justificaria o desalinhavado dessas frases que, no entanto, tendo em conta a escrita, não parecem ter sido proferidas enquanto o orador falava. De outra parte, a própria nota misteriosa. O começo:"Vós o" que se encontra diversas vezes em M.Champagnat, o início da invocação:"Vós o sabeis, meu Deus..." de que, pelo que entendo, se servia para pôr em andamento a pena. Isso significaria que a nota e o quanto a precede foi redigido em épocas diferentes. Além disso, como explicar a repetição:" que recebi de Dom de Mende; - Dada pelo bispo de Mende..."? Enfim a palavra:"Mariana", guisa de assinatura, escrita pela mesma mão do que o restante, não necessariamente o nome do bispo de Mende, porque, por um lado, não se veria muito bem que figure no fim e não depois do título Dom; por outro lado, o bispo de Mende, em 1817, era Dom Estêvão Maurel de Mons e não acho, em todo o século 20, nenhum bispo na França com o nome "Mariana".
(2) - Presumo que se trata da paróquia de São Lourenço de Agny pelas razões seguintes. De uma parte, sabe-se, segundo o Padre Lagniet, que M.Champagnat pregava missões (OM.III,p.776). De outra parte, não esquisito que encaminhe três postulantes de São Lourenço de Agny Madre São Jos (Cartas de M.C. Nº25)? Como pode ter conhecido essas jovens senão através de uma permanência nessa paróquia? Por fim, de notar que o coadjutor da paróquia em questão, Pe.Fontbonne, vai a l'Hermitage, em 01.12.1830,"sem que se tenha outras informações a respeito das circunstâncias que o orientaram para a Sociedade de Maria" (OM.IV, p.281).Desse conjunto de coincidências deduzo que provável que M.Champagnat tenha pregado uma missão nessa paróquia,inclusive um sermão sobre o inferno.
(3) - As duas palestras 134.03 e 134.05 estão escritas em duas folhas absolutamente similares. Eram folhas duplas (uma grande folha dobrada em duas pelo meio), reunidas em folheto ou caderno, sem capa. As primeiras e as últimas, força do manuseio, destacaram-se e apresentam-se como folhas isoladas. Ora, como não trazem nem número de página, nem cabeçalho, e que diversas páginas contêm parágrafos isolados, difícil dizer com clareza quais são as que pertencem primeira ou segunda dessas palestras. Pode muito bem ter acontecido, por ocasião de manipulações, que tenham sido trocadas, tão bem que não possível estabelecer a última parte dos dois textos com certeza, porque, segundo me parece, as dúvidas persistem sobre este assunto.



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