Para uma Pedagogia da Verdade e da Aquisição de Conhecimento



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Resumo
A dialética complexa do conceito de Verdade e a Aquisição de Conhecimento e Cultura tem, para educadores e pedagogos preocupados com a fundamentação filosófica de sua função social, uma centralidade que a imerge no debate contemporâneo entre pós-modernistas, funcionalistas e marxistas. O conceito de verdade tem sofrido toda uma relativização pragmatista que procura envolvê-lo na bruma pós-moderna da desconsideração de uma visão sistêmica. As diversas interpretações e respostas dadas à questão “O que é a verdade?” tornam esse debate contemporâneo não apenas necessário, mas, acima de tudo incontornável aos educadores. Numa época em que a tendência forte, na filosofia contemporânea, “exige” a renegação do conceito de totalidade e a relativização de toda forma de abordá-la. Tal debate contingencia e suporta o arsenal categorial e temático da filosofia como apropriação da realidade e do desenvolvimento do pensamento científico que se desenrola nos diversos níveis do conhecimento. O conceito de verdade está na alma da teoria materialista do conhecimento, uma das correntes em diálogo/disputa, pilar de sua epistemologia e gnosiologia. O progresso e o desenvolvimento do pensamento simbólico consiste, precipuamente, em superar as contradições entre realidade espontaneamente vivenciada e sua apreensão, sua representação social. A consciência, enquanto reflexo do real, não é uma intuição simples progressivamente explicativa, mas expressa uma contradição entre a materialidade do real e sua apropriação sensível e codificada, esta a defesa a ser feita no conceito de verdade. O presente ensaio visa trazer elementos conceituais e nexos lógicos ao debate, a partir de um ângulo de visão determinado, apoiando-se em textos de Marx e Engels, procurando delimitar o conceito e interrelacioná-lo à aquisição de conhecimento e cultura, a partir de suas contradições e ilações, que sublinham o papel ativo e basal do conceito de verdade.


Palavras-Chave: conhecimento, cultura, epistemologia, verdade.

Introdução


Conta uma antiga lenda vietnamita que no princípio o homem era um animal como qualquer outro, não era humano. Um dia, uma camponesa, ao abrir um gomo de bambu, encontra dentro dele uma semente. Ao comê-la adquire o domínio sobre os usos do bambu, adquire conhecimento. O domínio das técnicas de uso do bambu estava na base da construção material e produtiva das antigas comunidades vietnamitas.

Para os povos que habitavam a região de Ga Lai, há quase quatro mil anos, é o conhecimento que humaniza o homem, e o conhecimento é descoberta. É o uso do bambu e sua semente que semeia o conhecimento que humaniza o homem – o conhecimento é humanizador.

Um velho conto chinês, que data do ano 1600 a.C., narra a história de um pescador das nascentes do rio Iangtsé que, ao pescar uma linda carpa, não pôde matá-la. Ele a coloca viva no oco de uma árvore, com um pouco de água, e se retira para voltar no dia seguinte e decidir o que fazer. Outros pescadores a encontram, e não sabendo como ela pôde ter ido parar ali, julgam que ela nasceu da árvore. A árvore se torna sagrada aos pescadores. O pescador que a havia encontrado tenta explicar que foi ele que a colocou lá. Mas os pescadores já não podem acreditar e procuram difamá-lo como louco. Quando se perde o elo que liga o conhecimento à realidade, este se torna falso. As causas da perda desse elo são sempre sociais.

Um poeta asteca de Cuauhtemóc, do séc. XIV, pré-colombiano, escreveu um singelo poema, com versos rimados, sobre uma folha vagando ao vento, que mesmo depois de percorrer grandes distâncias e estar totalmente seca, ainda traz consigo as características que permitem identificar sua origem: a qual tipo de árvore pertenceu. Para o povo asteca, a conexão que une conhecimento e realidade não pode ser totalmente perdida.

Numa de suas fábulas mais conhecidas, Esopo conta como um lobo dizia estar sendo prejudicado por um carneiro ao beber da água de um riacho. O lobo acusa o carneiro de sujar a água que aquele bebia. O carneiro se defende dizendo que está bebendo abaixo do lugar em que o lobo está, portanto não pode sujar sua água, que corre rio abaixo e não volta para trás. O contra-argumento do lobo é devorar o cordeiro. Esopo, que era escravo, relaciona nesta fábula verdade e poder. O poder impõe sua verdade, desligando-a dos fatos e da realidade, camuflando sua origem material.

Numa belíssima passagem de sua obra teatral ‘Galileu’, o teatrólogo alemão Bertolt Brecht coloca na boca de seu personagem-título, réu da Santa Inquisição, as seguintes palavras, pronunciadas pelo cientista italiano ao ouvir a sentença condenatória do Tribunal do Santo Ofício: “A verdade é filha do tempo, não da autoridade”.

As semelhanças entre o infortúnio do pescador chinês e o julgamento de Galileu são grandes. Contesta-se a verdade quando ela não corresponde aos interesses de um grupo social. Alguém já disse uma vez, que, se o Teorema de Pitágoras contrariasse os interesses de algum grupo social, esse grupo social contestaria a validade do Teorema.

A distância entre verdade proclamada e interesses objetivos pode ser grande: Voltaire, o filósofo francês que escreveu algumas das mais belas páginas em louvor à Liberdade, ficou rico negociando com o tráfico negreiro escravocrata no Atlântico. David Ricardo, o brilhante economista inglês que desenvolveu o conhecimento sobre a relação entre o homem e a produção, afirmando que a riqueza, o desenvolvimento e o progresso social são frutos exclusivamente do Trabalho Humano, enriqueceu especulando com o preço do trigo na Bolsa de valores londrina.

A Verdade, e consequentemente o seu conceito, muda, mas não ao sabor dos interesses pessoais ou de grupos como afirmam os pragmatistas. Muda quando o mundo, a vida, muda.
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Para uma Pedagogia da Verdade e da Aquisição de Conhecimento

Educadores e os Conceitos Filosófico de Verdade e Cultura
Tentando relacionarmo-nos com o mundo, sentimos a necessidade de ter critérios que nos ajudem a compreendê-lo, encontrar a verdade, distingui-la do erro. Em nossa prática cotidiana necessitamos do saber que reflita com a máxima precisão e plenitude a realidade, o mundo objetivo, tal como é, independentemente da consciência humana e de nossas atitudes. Desde a antiguidade, amadurece a idéia de que a Verdade é o saber que corresponde à realidade. Esse saber se cristaliza no homem como Conhecimento. E o conhecimento se acumula em Cultura.

Esses conceitos se interrelacionam e se imbricam de modo indivisível. A Cultura pode ser conceituada como o conjunto de valores materiais e espirituais criados pela humanidade ao longo de sua história. A Cultura é um fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determinada etapa histórica: progresso, técnica, experiência de produção e de trabalho, instrução, educação, ciência, literatura, arte, filosofia, moral etc. e as instituições que lhe correspondem. Entre os índices mais importantes do nível cultural em determinada etapa histórica, está o grau de utilização dos aperfeiçoamentos técnicos e dos descobrimentos científicos na produção social, o nível cultural e técnico da sociedade, a amplitude e profundidade, o grau de generalização da difusão da instrução, da literatura e das artes na população.

As atitudes intelectuais do homem são função das condições de vida material da sociedade, do caráter do regime social e político. Nenhuma cultura é imutável, a cultura é um fenômeno histórico que se desenvolve continuamente, quando as condições materiais e sociais que a permitem existir estão postas, estão maduras. Toda nova cultura está umbilicalmente ligada à cultura que lhe precede. Por outro lado toda a cultura existente influi e permanece como herança da cultura posterior.

Numa sociedade de classes antagônicas, a cultura espiritual é uma cultura de classes. A cultura dominante é a cultura da classe dominante. A cultura, ao desenvolver-se como conseqüência das contradições sociais, torna-se instrumento de luta de classes. As diversas classes sociais utilizam os meios culturais como a educação, a escola, a ciência, os meios de comunicação, as artes etc. para perseguir seus objetivos.

À medida que as nações aparecem e se desenvolvem, a cultura adquire caráter nacional e desenvolve-se sob formas nacionais. Tais formas são a linguagem nacional, as características nacionais, as tradições, o modo de vida etc. O modo de vida, um dos aspectos mais relevantes no conceito de cultura nacional, é a expressão dos costumes que se formam historicamente em um povo, sobre a base das relações sociais e familiares próprias desse povo, hábitos, costumes, tradições, ritos, modo de criação das condições de vida, tais como arquitetura, vestuário, culinária.

Na medida em que a ordem social evoluciona e cambia, operam-se transformações no modo de vida social e individual dos homens. Como conseqüência da luta de classes, as transformações e revoluções sociais operam a destruição do antigo regime social e a instauração do novo, provocando necessariamente a substituição de uma cultura caduca por uma nova cultura, mais avançada e progressista, superior.

No capitalismo, as culturas nacionais se dividem internamente. Ao lado da cultura dominante, burguesa por seu conteúdo, cada cultura inclui elementos democráticos e anti-capitalistas, pois, no interior de cada nação, as condições de existência das classes sociais engendram necessariamente uma ideologia antagônica à dominante.

A Educação pode ser compreendida como um processo sistemático de transmissão da cultura. Está ligada ao aparelho de Estado, que lhe orienta as formas, limites e abrangência. O Estado define o que, como e onde os indivíduos ensinarão e serão educados. A Educação está a cargo de toda a sociedade, a família, as instituições, a Escola, a atividade profissional. Os educadores são um dos elementos transmissores da cultura, não definem seu conteúdo ou essência. Essas funções são prerrogativas mantidas como exclusivas, embora não visíveis, pela classe dominante.

Têm papel educativo as instituições de ensino, os meios de comunicação, as igrejas, os sindicatos e todas as demais instituições sociais. Sua função moderna nuclear é a formação comum do homem, sua preparação para o trabalho e sua instrução e especialização profissional, além do papel vital de transmissora da ideologia dominante.

A capacitação para o comando, para a manutenção dos domínios de classe, também função da educação, não se generaliza, mas é mantida privada e seletiva, aos gestores e herdeiros dos grupos dominantes. A materialidade central da educação é a Escola, em sentido latto, entendida como a instituição que congrega os meios de transmissão e generalização da cultura técnica e social. Controlando o acesso à verdade e à cultura.

A Ideologia é o sistema de opiniões, de idéias e de conceitos professados por uma classe social. As opiniões políticas, a filosofia, a arte e a religião são formas de ideologia. Toda ideologia é o reflexo da existência social, do sistema econômico e produtivo em dado momento. Na sociedade de classes, a ideologia é uma ideologia de classes, e expressa e defende os interesses de tal ou qual classe social. Numa sociedade de classes, não pode existir uma ideologia afastada, isenta dos interesses classistas, à margem ou acima das classes sociais. Todos nós, saibamos ou não, queiramos ou não, somos levados a agir socialmente de acordo com nossos conceitos sociais, nossa ideologia. A ideologia exerce um papel enorme nas sociedades de classes, na história e no desenvolvimento dessas sociedades, como principal elemento de controle social.

As diversas concepções existentes da possibilidade de se conhecer a realidade efetivamente existente geram as mais diversas propostas metodológicas e pedagógicas. As raízes fundamentais, ontológicas, dessas concepções assentam-se nas diversas concepções filosóficas presentes nas sociedades. A verdade, como aquisição quantitativa e qualitativa do objeto de conhecimento, é passível de comprovação, pela própria prática da qual é oriunda. O conhecimento, assim posto, é, portanto dialético, contraditório, pois, dialeticamente, toda unidade é composta de contrários em luta.

Na complexidade filosófica contemporânea, onde escolas filosóficas brotam como cogumelos à sombra das copas, e murcham aos primeiros raios do sol, as concepções filosóficas que se põem a conceituar as relações entre verdade, conhecimento, realidade e cognoscibilidade, contam-se em escala industrial.

Nascida do contraste e da crítica às diversas correntes idealistas, e às inumeráveis variações sobre os temas, Karl Marx, em comunhão com Friedrich Engels, elaboram, ao longo de sua vasta obra, uma proposta filosófica onde o conhecimento da realidade, do efetivamente existente, em suas dimensões singulares e universais, torna-se imprescindível às relações entre os homens e as sociedades e entre estes e a natureza.

Desde os primeiros trabalhos investigativos de que dispomos dos dois autores alemães, encontram-se as inconciliáveis distâncias entre o pensamento filosófico especulativo e a linha argumentativa e gnóstica de Marx e Engels, incluídos aí seus pressupostos metodológicos.

Para o marxismo, desde sua juventude filosófica, a realidade objetiva, o objeto do conhecimento, se diferencia ontologicamente do sujeito. Cabe à subjetividade capturar o real, apreendê-lo, sem que, para isso, se identifique com ou se subsuma nele. A função filosófica que cabe à subjetividade é extrair do mundo objetivo todo o conhecimento necessário à reprodução social e ao desenvolvimento. Em sua produção filosófica, em texto de maturidade intelectual, os Grundrisse, Marx trata de como a subjetividade se apropria do real, gnosiologicamente. Nos estudos da Economia Política, Marx afirma que, ao se utilizar o conceito de População sem determinar seus elementos constitutivos, este não passaria de uma abstração vazia de significado real, órfã de realidade, carente de determinações indispensáveis ao conhecimento do objeto, sua apropriação pela consciência humana. Nesse processo de determinação e decomposição, particularização, que resgata a qualidade de concreto ao objeto, este “aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o verdadeiro ponto de partidai.

Para Marx, e para o marxismo em geral, o processo de conhecimento do mundo objetivo, do imediatamente dado, em contato com a subjetividade, o contato entre consciência e realidade objetiva, traz o real, ao ser representado na consciência, decomposto num contínuo processo de análise e analogia com o já conhecido, para alcançar, via “abstrações cada vez mais tênues”, os conceitos mais simples, entendidos como um passo a caminho das “generalizações determinadas, ou seja, delimitadas no conteúdo e na extensão”ii. O trânsito do concreto ao abstrato.

Ao contrário, a partir dos conceitos determinados e aprovados pelo critério da prática, constituídos em verdade e em conhecimento, num movimento de retorno, no trânsito do abstrato ao concreto, num processo de síntese, a recuperação do objeto concreto possibilita sua reprodução pelo caminho do pensamento. Esse método, em duas vias, de ida e volta, é “manifestamente, o método científico correto”, segundo o Marx dos Grundrisseiii, evidenciando o papel da subjetividade na captura da realidade.

O mundo objetivo é composto de uma infinidade de mediações, encadeadas entre a singularidade e a universalidade. A consciência, como elemento ativo no processo de reprodução social, intermédio entre o ser e o objeto acumula o conhecimento das situações reais, das singularidades e generalizações, do modo em que se constitui o mundo, a realidade objetiva.

O papel social do Trabalho, da prática, enquanto síntese da teleologia e da causalidade, torna o homem capaz de gerar o novo, e, portanto, de assumir um domínio cada vez mais completo, complexo e profundo da realidade, do próprio homem,da sociedade e da natureza. O Trabalho, assim determinado, é uma necessidade, impõe ao sujeito uma captação sempre mais precisa da objetividade e, consequentemente, uma expressão sempre mais exata, verdadeira, que recolha precisa e inequivocamente as determinações específicas do objeto de que se trata, mas abarcando ao mesmo tempo as conexões, relações, etc., imprescindíveis para a execução do processo de trabalho.

O trabalho, na concepção de Marx, é o momento da objetivação de uma prévia-ideação, uma teleologia, orientada à modificação da materialidade existente na esfera natural e social, sua causalidade, fruto do nexo decisivo da esfera gnosiológica para o trabalho humano.

A realidade objetiva, como, aliás, tudo, não é estática, seu movimento contínuo a transforma, impondo necessariamente sempre novos desafios à subjetividade humana e à aquisição de conhecimento, da relação entre consciência e realidade, exigindo que o processo de conhecimento se renove também constantemente, a partir do contato com o objeto, com a realidade imediatamente dada, objetiva. O desconhecido sempre se renova, como a visão do horizonte que se alarga ao nos aproximarmos dela, o desconhecido - permanente elemento a se determinar - ao se colocar como problema à consciência carente de determinações, em resposta às demandas concretas, é perseguido e alcançado, síntese que se renome em tese, num fluxo ininterrupto e infinito. Faz-se necessário, então, que o desconhecido, a realidade em sua complexidade, seja analiticamente decomposto, relacionado a categorias já conhecidas, para que a subjetividade, descobrindo as suas mediações, possa identificar suas regularidades e alcançar as leis que o regem, particulares e gerais. Não pode haver o domínio imediato do novo, do desconhecido. A necessidade social da sobrevivência e desenvolvimento das sociedades e do homem, torna inevitável, nem sempre inadiável, o enfrentamento do real, a procura por suas determinações e causalidades, essência e constituição.

Processo gnosiológico contínuo, baseada no conhecimento já consolidado pelo critério seletivo da prática - a verdade tem sua solução na prática humana, não sendo um problema teórico, embora seja necessária sua teorização - adquirido na vivência histórico-social do sujeito, a consciência escolhe as possibilidades de investigação sugeridas pelo objeto, por exemplo, por sua forma ou por sua semelhança com o já conhecido, e busca as alternativas que viabilizem sua análise, compreensão, identificação, classificação, diferenciação. É um ato de crescente abstração, um movimento do particular ao geral, do singular ao universal, do concreto ao abstrato, a consciência tem na abstração o locus da negação do imediatamente singular. A abstração, como instrumento do conhecer, nega dialeticamente a unicidade singular, a singularidade do objeto investigado, num crescente processo de generalização e determinação. As noções e regularidades propiciadas pela investigação e análise, pela busca da verdade, são organizadas, selecionadas, continuamente superadas, no percurso das mediações gnósticas. A homogeneização simplificadora do real leva a uma visão deformada, superficial da realidade objetiva.

O desenvolvimento das generalizações deve sempre levar em conta a multiplicidade de características intrínsecas ao objeto de estudo, sua singularidade enquanto objeto, apresentando-se como problema. Um sem-número de generalizações se apresentam: nem todas levam à aproximação do concreto pelo pensamento. O critério da prática, paralelo a todas as etapas da busca do conhecimento, é um separador entre a obtenção da verdade objetiva e o erro, o engano. A existência do erro, nem sempre percebido pela subjetividade, deve ser testado através da mediação da práxis social, na objetivação do trabalho que se torna, assim, o ato probatório, o critério da verdade, da realização final de um acertado processo de abstração e de especificação das noções formuladas.

A maior parte dos filósofos, de vários matizes, estima que a finalidade do conhecimento é chegar à verdade. Resultando que reconhecem que a verdade existe. Em concordância com os princípios que cada filósofo adota, essa verdade será objetiva ou não. A verdade somente adquire seu caráter, enquanto lhe é própria a objetividade. Ou seja, seu conteúdo integra a realidade objetiva, independente da consciência, que a verdade a reflita em forma adequada, como verdades objetivas, seu conteúdo retirado da realidade objetiva, do mundo que existe independentemente da consciência.

Ao reconhecer a objetividade da verdade, o saber, a relação de interiorização da realidade na consciência do homem, tem um conteúdo que independe do sujeito, não depende nem do homem nem da humanidade. Na verdade objetiva se reflete a relação complexa e contraditória entre sujeito e objeto. De um lado, a verdade é subjetiva, pois é uma forma de atividade humana. Por outro lado, é objetiva, pois seu conteúdo não depende nem do homem nem da humanidade.

Não existe nenhum saber, e, portanto nenhuma verdade, que seja independente da atividade prática do homem. A verdade objetiva não é algo estático, inerte ou imutável. É um processo que inclui diversos estados qualitativos. Ou seja, tem história.

Numa visão gnóstica, o homem é capaz, em princípio, de conhecer qualquer fenômeno, mas, em sua prática, esta capacidade se faz no processo de desenvolvimento histórico infinito da sociedade. Contraditória e dialeticamente, cada resultado do saber humano é incondicionalmente verdadeiro - é soberano - enquanto é um momento do processo de conhecimento da realidade objetiva, e não é soberano, como ato individual, porque possui seus limites, que se conformam e dependem do nível de desenvolvimento do conhecimento. O progresso da ciência segue o caminho da refutação das distintas afirmações que pretendiam ter caráter soberano e absoluto, mas que eram verdades somente dentro de certos limites: o tempo torna relativas verdades que foram postas como absolutas em seu tempo.

A teoria científica se reveste às vezes de conteúdo não verdadeiro, ilusório, que se descobre com a marcha contínua do conhecimento e o progresso da prática. Reconhecendo a relatividade do conhecimento, historicamente determinado, cujos limites se movem continuamente em direção à ampliação e aprofundamento da verdade objetiva. Devido à fluidez e mobilidade de tudo o que existe, incluindo o conhecimento.

Por outro lado, reconhecer a verdade objetiva significa admitir a verdade absoluta. A verdade absoluta existe, no sentido de que em nosso saber objetivo e verdadeiro existem pontos que não são refutados pelo desenvolvimento sucessivo da ciência, mas que adquire novo conteúdo objetivo. Em cada momento histórico concreto, nosso saber é relativo e a ele condicionado, pois não reflete completa e plenamente a realidade objetiva. Assim, só é verdade dentro de certos limites que se estreitam e se dilatam no curso do desenvolvimento do conhecimento. A verdade objetiva é o processo de movimento do conhecimento de uma fase a outra, na qual o saber se faz de conteúdo sacado da realidade objetiva. A verdade é sempre o resultado da união contraditória entre o relativo e o absoluto. A prática é o seu critério. É na prática humana que esta se confirma, se expande, se aprofunda ou se refuta. “O problema de se ao pensamento se lhe pode atribuir uma verdade objetiva não é um problema teórico, mas um problema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade e o poderio, a terrenalidade de seu pensamentoiv

É a mudança do conhecimento do homem sobre o mundo e a mudança do mundo que mudam a verdade sobre ele.
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Conclusão

O modo de funcionamento do processo de aquisição de conhecimento, de busca e alcance da verdade, do conhecimento do real, para o materialismo dialético, não significa que o real tenha como momento primário a consciência, o pensamento. Esta se coloca como secundária, reflexa, posterior à realidade objetiva.

A investigação e o conhecimento humanos, ao tratar da singularidade, ao projetá-la na generalização abstratizante, ao percorrer o campo das mediações como portadores das determinações próprias ao objeto, ao retornar a ele, são manifestação abstrato-subjetiva de como o mundo, exterior e independente da consciência, se comporta. São manifestação da verdade. O objeto investigado é real, é dado no e pertence ao mundo real, mesmo em sociedade, onde, através do trabalho, a ação consciente do sujeito pode gerar, e efetivamente gera, objetividades antes inexistentes na natureza não humanizada, intocada. A consciência, para o marxismo enquanto epistemologia, depende da realidade circundante, é fruto e consequência dela. O contrário não se dá. A contraposição e a vinculação dialética entre o imediato como objeto investigado e a mediação da consciência existem também objetivamente, independem da consciência.

O processo de conhecimento, infinito e eterno enquanto existir o homem, empreendido pela subjetividade, enfrenta-se, num primeiro momento, com a realidade ainda não conhecida, mas, cognoscível, deparando-se inicialmente com uma representação caótica do todo, com a realidade não conscientizada.

Em seguida, caminha na direção da generalização e vai afastando-se daquele estado primário, até encontrar as primeiras regularidades que permitem atingir os conceitos definidores mais simples, num movimento do concreto ao abstrato. Da criação da formulação e seu teste em confronto com a realidade, com a prática.

Essas determinações conduzem à reprodução do concreto, à síntese, constituindo-se num caminho de volta ao objeto. O antes oculto torna-se seu contrário, num ato dinâmico de negação. O objeto investigado, a realidade em sua fração analisada, é isolado abstratamente de sua materialidade imediata e definida em conceitos cada vez mais altos e elaborados – num processo de abstração continuada. Essa reflexão, cujo impulso originário vem da própria realidade exterior, imediata, leva ao movimento de retorno ao concreto, pensado e imbuído das mediações necessárias à sua generalidade determinada. A próxima etapa no caminho do conhecimento aprofundado da realidade é a síntese das múltiplas determinações, o caminho de volta ao concreto pensado.

A abstração passa a negar-se, ao alcançar um nível de generalização, retornando como síntese ao concreto, fazendo com que o conhecimento percorra o campo de mediações entre a singularidade e a universalidade, na reaproximação ao concreto, seja “delimitando o universal, seja expandindo o singular”, utilizando as abordagens e conceitos de Lukácsv. O ponto de chegada torna-se novo ponto de partida, mas não um retorno, sim uma ampliação, ad infinitum, não mais uma representação caótica do todo, mas uma rica totalidade de determinações, bem como a identificação, pelo conhecimento, das múltiplas e diversas relações da realidade em sua totalidade. Todo conhecimento é determinado por condicionantes histórico-sociais que delimitam e conformam as abstrações – e sua a efetividade prática -.

Todo conhecimento é social, coletivo, humano. Não há conhecimento fora e além do homem, não há conhecimento troglodita, todo conhecimento é histórico e superável, ampliável e dinâmico.

Rio de Janeiro, 02 de setembro de 2010.





i0 As traduções dos textos originais em italiano e espanhol são de minha responsabilidade (NA).

 MARX, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economía Política: Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 1973, pág. 21. Em espanhol.

ii MARX, K. Idem, Ibdem, pág. 62 e seguintes.

iii MARX, K., idem, ibidem, pág. 21.

iv MARX, Karl, Tesis sobre Feuerbach, México: Ed. Grijalbo, 1967. Em espanhol.

v LUKÁCS, G., Per una Ontologia dell’Essere Sociale. Roma: Ed. Riuniti, 1976-81, págs. 206 e seguintes. Em italiano.

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Bibliografia




  1. LUKÁCS, G. Estetica. 4 Volumes. Barcelona: Grijalbo, 1967.

  2. LUKÁCS, G. Per una Ontologia dell’Essere Sociale. Roma: Ed. Riuniti, 1976-1981.

  3. MARX, K. Elementos Fundamentales para la Crítica de la Economía Política: Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 1973.

  4. MARX, Carlos, ENGELS, Federico. La Sagrada Família. México: Grijalbo, 1960.

  5. MARX, Karl, Tesis sobre Feuerbach, México: Ed. Grijalbo, 1967.



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