Pat Conroy o príncipe das maréS



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Pat Conroy
O PRÍNCIPE DAS MARÉS
Tradução de Elizabeth Larrabure Costa Corrêa
Edições BestBolso

2008
Este livro é dedicado, com amor e gratidão, a Lenore; a meus filhos, Jessica, Melissa, Megan e Susannah, todas Conroy; a Gregory e Emily Fleischer; a meus irmãos e irmãs, Carol, Michael, Kathleen, James, Timothy e Thomas; a meu pai, coronel da reserva Donald Conroy, sempre grande, sempre Santini; e à memória de minha mãe, Peg, a extraordinária mulher que construiu e inspirou esta família.




Agradecimentos
Devo a muitas pessoas por sua generosidade e apoio enquanto es­crevia este livro. Meu padrasto, o capitão da Marinha americana John Egan, cuidou de mim e de minha família com imenso amor ao longo do tempo em que nossa mãe sofria com a leucemia. Turner e Mary Ball me permitiram usar sua casa na montanha por longos períodos enquanto escrevia. James Landon e Al Campbell também me cederam a chave de sua casa na montanha em Highlands, Carolina do Norte. O juiz Alex Sanders, o mais bem-nascido na Carolina do Sul, contou-me muitas das histórias incluídas neste livro, nós dois sentados na casa de Joe e Emily Cumming em Tate Mountain. Julia Bridges digitou o livro com prazer. Nan Talese é uma editora esplêndida e uma mulher de beleza incomum. E Sarah Flynn foi soberba. Julian Bach é meu agente literário e um dos homens mais refinados que já conheci. A Houghton Mifflin, minha editora, é uma família. Barbara Conroy é ótima advogada e mãe exemplar para nossos filhos. Cliff Graubert, da Old New York Book Shop, é maravilhoso. Derril Randel é extraordinaria­mente corajoso. Obrigado também a Dent Acree, Peggy Houghton e William Sherrill. Tive uma vida de sorte com relação a amizades. Agradeço aos meus amigos em Atlanta, em Roma, e àqueles entre as duas cidades. Um grande abraço para todos, chegarei a seus nomes numa próxima oportunidade.
Prólogo
Meu fraco é a geografia. Ela é também meu refúgio, meu porto de escala.

Cresci vagarosamente, junto às marés e aos pântanos de Colleton; meus braços eram bronzeados e fortes por causa do trabalho no barco de pesca de camarões sob o intenso calor da Carolina do Sul. Por ser um Wingo, comecei a trabalhar assim que aprendi a andar; aos 5 anos, conse­guia apanhar siris com perfeição. Aos 7, já havia matado meu primeiro veado e, aos 9, punha regularmente comida na mesa de minha família.

Nasci e fui criado em uma ilha da costa da Carolina e trago o sol da região, com seus tons de ouro escuro, em minhas costas e ombros. Passei dias felizes de minha infância nos canais, navegando um barquinho entre os bancos de areia e sua multidão silenciosa de ostras expostas, na superfície marrom durante a maré baixa. Conhecia pelo nome todos os pescadores de camarão e eles também me conheciam e tocavam suas buzinas quando passavam por mim no rio.

Aos 10 anos, matei uma águia apenas por prazer, pela singularida­de do ato, apesar da beleza divina e radiante de seu vôo solitário sobre os cardumes de peixes. Foi a única coisa desconhecida que matei. De­pois de meu pai ter me batido por transgredir a lei e matar a última águia do condado de Colleton, obrigou-me a fazer uma fogueira, cozi­nhar o pássaro e comer sua carne enquanto as lágrimas rolavam por meu rosto. Em seguida, ele me levou ao xerife Benson, que me trancou em uma cela por mais de uma hora. Meu pai juntou as penas e fez um cocar grosseiro que eu deveria usar na escola. Ele acreditava na expiação do pecado. Usei o cocar durante várias semanas, até que começou a se desintegrar pena por pena. Aquelas penas deixavam um rastro pelos corredores da escola, como se eu fosse um anjo desacreditado que estivesse na muda.



  • Nunca mate nada que seja raro - dissera meu pai.

  • Foi sorte eu não ter matado um elefante - respondi.

  • Você teria comido uma refeição gigantesca.

Meu pai não permitia que se cometessem crimes contra a nature­za. Apesar de eu ter caçado outra vez, todas as águias estão perfeita­mente a salvo de mim.

Foi minha mãe quem me ensinou a mentalidade sulista em suas formas mais delicadas e íntimas. Acreditava nos sonhos das flores e dos animais. Quando éramos pequenos, antes de ir para a cama à noi­te, ela nos revelava, com sua voz de contar histórias, que os salmões sonhavam com desfiladeiros nas montanhas e com o rosto marrom dos ursos pardos pairando sobre a correnteza límpida. As cobras, dizia ela, sonhavam enterrar os dentes na canela dos caçadores. As águias-pescadoras tinham sonhos com longos mergulhos em câmara lenta sobre os arenques. Havia as asas cruéis das corujas nos pesadelos dos arminhos, a aproximação dos lobos cinzentos a favor do vento no si­lêncio da noite do alce.

Nunca soubemos, no entanto, quais eram seus sonhos, porque minha mãe nos mantinha na ignorância de sua própria vida interior. Sabíamos que as abelhas sonham com rosas, que as rosas sonham com mãos pálidas de floristas e que as aranhas sonham com mariposas presas em suas teias prateadas. Como seus filhos, éramos os adminis­tradores de seus deslumbrantes vôos da imaginação, mas não sabía­mos o que sonham as mães.

Todos os dias, ela nos levava para a floresta ou ao jardim e inven­tava nomes para qualquer animal ou flor por que passávamos. Uma borboleta-rainha se tornou uma "beijadora de orquídeas"; um campo de narcisos no mês de abril tornou-se o "baile das moças de chapeuzinho". Com sua atenção minha mãe transformava uma cami­nhada pela ilha numa viagem de pura descoberta. Seus olhos eram nossas chaves para o palácio da natureza.

Minha família morava esplendidamente isolada na ilha Melrose, numa pequena casa branca que meu avô ajudara a construir. Era volta­da para o canal da ilha e dela se podia avistar a cidade de Colleton, rio abaixo, com suas mansões brancas assentadas como peças de xadrez sobre o charco. A ilha Melrose era um pedaço de terra com o formato de um losango, com uma área de 480 hectares, cercada nos quatro lados por rios salgados e pequenas enseadas. A região onde cresci era um ar­quipélago fértil e semi-tropical que, gradualmente, subjugava o oceano, para grande surpresa do continente que se seguia. Melrose era apenas uma entre as sessenta ilhas do condado de Colleton. Na extremidade oriental do arquipélago há seis ilhas moldadas pela luta diária com o Atlântico. As outras ilhas, como Melrose, cobertas por vastas extensões de pântanos, eram os santuários verdes onde o camarão branco e o rosa vinham na época da desova. Quando chegavam, meu pai e outros ho­mens como ele os esperavam com seus belos barcos.

Aos 8 anos, ajudei meu pai a construir a pequena ponte de madei­ra ligando nossa vida a uma estreita trilha suspensa ao longo do pân­tano, que chegava até a ilha St. Anne, muito maior do que a nossa e que, por sua vez, estava ligada à cidade de Colleton por uma longa ponte levadiça de aço que cruzava o rio. Meu pai levava cinco minutos para dirigir a caminhonete de nossa casa até a ponte de madeira, e mais dez minutos para chegar à cidade de Colleton.

Antes de construirmos a ponte, em 1953, minha mãe nos levava para a escola usando um barco. Mesmo que o tempo estivesse muito ruim, ela nos levava pela manhã e nos esperava no embarcadouro pú­blico toda tarde. Ir para Colleton de barco sempre seria uma viagem mais rápida que de caminhão. Aqueles anos em que ela nos levou à escola por água fizeram de minha mãe um dos melhores pilotos de barcos pequenos que já vi; mas, uma vez construída a ponte, ela raramente voltou a entrar no barco. A ponte apenas nos ligava à nossa cidade; porém, ligava minha mãe ao mundo além da ilha Melrose, tão incrivelmente cheio de promessas.

Melrose era o único bem da família de meu pai, um clã impetuo­so mas sem sorte, cujo declínio, depois da Guerra Civil, foi rápido, certo e provavelmente inevitável. Meu tataravô, Winston Shadrach Wingo, comandou uma bateria sob as ordens do general Beauregard, que atacou o forte Sumter. Acabou como indigente no Lar do Soldado Confederado, em Charleston, recusando-se a falar com ianques, fos­sem homens ou mulheres, até o dia de sua morte. Ele ganhara a ilha Melrose num jogo de atirar ferraduras, quase no fim da vida, e a ilha, selvagem e malárica, passara por três gerações de Wingo decadentes até chegar, finalmente, às mãos de meu pai. Meu avô estava cansado de possuí-la e meu pai era o único Wingo disposto a pagar os impostos federais e estaduais para mantê-la fora das mãos do governo. Mas aquele jogo de atirar ferraduras assumiu grandes dimensões na histó­ria da família e sempre honraríamos Winston Shadrach Wingo como nosso primeiro atleta digno de menção.

Não sei, entretanto, quando meu pai e minha mãe começaram sua longa e deprimente guerra particular. A maioria das brigas era como um jogo em que as almas de seus filhos serviam como bandeiras capturadas em campos de batalhas. Nenhum dos dois jamais pensou no dano potencial em que incorriam ao lutar usando algo tão frágil e ainda não formado como é a vida de uma criança. Ainda creio que nos amavam profundamente, mas, como muitos pais, seu amor mostrou-se a coisa mais letal a seu respeito. Sob muitos pontos de vista eram tão extraordinários que as coisas boas que nos passavam quase igualavam a devastação descarregada de maneira tão impensada.

Eu era o filho de uma mulher linda e desejei seu carinho até mui­tos anos depois que ela sentiu já não ter mais a obrigação de fazê-lo. Mas vou louvá-la pelo resto da vida por ter me ensinado a procurar o encanto da natureza em todas as suas formas e desenhos fabulosos. Foi minha mãe quem me ensinou a amar as lanternas dos pescadores na noite estrelada e a revoada dos pelicanos marrons pairando sobre a arrebentação ondulada ao alvorecer. Foi ela que me fez perceber o for­mato perfeito das estrelas do mar; as formas do linguado marcadas na areia, como silhuetas de mulheres nos camafeus; o navio naufragado perto da ponte de Colleton, que vibrava com o burburinho das lontras marinhas. Minha mãe via o mundo através de um deslumbrante pris­ma de pura imaginação. Lila Wingo podia pegar uma filha ainda em estado bruto e moldá-la numa poetisa ou numa psicótica. Com os filhos, era mais delicada e as conseqüências demoravam mais tempo para aparecer. Preservou para mim os fenômenos multiformes de minha vida como criança, as imagens e naturezas-mortas visíveis através da janela exuberante do tempo. Reinou como uma verdadeira rainha na estranha fantasia de um filho que a venerava. Não obstante, não posso perdoá-la por não ter me contado sobre o sonho que a con­fortou durante minha infância, o sonho que causou a ruína de minha família e a morte de um de nós.


Filho de uma linda mulher, eu também era filho de um pescador de camarões apaixonado pela forma dos barcos. Cresci como um meni­no do rio, com o cheiro do pântano salgado dominando meu sono. No verão, meu irmão, minha irmã e eu trabalhávamos como ajudan­tes aprendizes no barco de meu pai. Nada me dava mais prazer que a visão da frota de barcos camaroneiros saindo antes do nascer do sol para seu encontro marcado com os cardumes fervilhantes de camarões que faziam sua arremetida veloz pela maré iluminada nas pri­meiras luzes da manhã. Meu pai tomava café preto enquanto ficava postado em frente ao leme do barco e escutava as vozes com forte sotaque dos outros capitães conversando entre si. Suas roupas cheira­vam a camarão. E não havia nada que a água e o sabão ou as mãos de minha mãe pudessem fazer para mudar isso. Quando trabalhava mui­to, o cheiro mudava, com o suor misturado ao cheiro do camarão, transformando-se em algo diferente e maravilhoso. Quando pequeno, eu encostava o nariz na camisa de meu pai e ele cheirava a algo rico e quente. Se Henry Wingo não fosse um homem violento, creio que teria sido um pai magnífico.

Numa noite clara de verão, quando éramos muito pequenos e o ar úmido pairava como musgo sobre as terras baixas, meus irmãos e eu não conseguíamos dormir. Mamãe nos levou para fora da casa, Savannah e eu com resfriado de verão e Luke com brotoejas, e anda­mos rio abaixo até o embarcadouro.

"Tenho uma surpresa para os meus queridos", disse mamãe en­quanto observávamos as toninhas se dirigirem para o Atlântico pelas águas paradas e metálicas. Nós nos sentamos na beira do em­barcadouro flutuante e esticamos as pernas, tentando tocar a água com os pés. "Há algo que quero que vocês vejam. Algo que vai ajudá- los a dormir. Olhem para lá, crianças." E ela apontou para o hori­zonte, a leste.

Estava cada vez mais escuro naquela longa noite sulista, e, de re­pente, no ponto exato que seu dedo indicara, a lua surgiu como uma testa de ouro acima do horizonte, saindo de nuvens filigranadas e re­pletas de luz que descansavam no céu como véus protetores. Atrás de nós, o sol se punha, numa retirada simultânea, e o rio pareceu em chamas, em um silencioso duelo de ouro... A nova lua que subia mara­vilhosa, o ouro já exausto do crepúsculo extinguindo-se em direção ao oeste, aquela era a antiga dança dos dias nos pântanos da Carolina, a empolgante morte dos dias perante os olhos das crianças, até que o sol desaparecesse, deixando como sua última marca uma faixa de ouro que passava pelo topo dos carvalhos à beira d'água. Em seguida, a lua se elevava rapidamente, como um pássaro erguido da água, das árvores, das ilhas e subia muito alto - dourada, amarela, amarelo-pálido, prata esmaecida, prata luminosa, para depois se tornar algo miraculoso, imaculado, superior à prata, uma cor possível apenas nas noites sulistas.

Ficamos pasmados perante aquela lua que nossa mãe fizera surgir das águas. Quando a lua atingiu seu tom mais profundo de prata, mi­nha irmã, Savannah, apesar de ter apenas 3 anos, gritou para nossa mãe e para nós, para o rio e a lua:

"Oh, mamãe, faça isso de novo!" E essa se tornou minha primeira recordação.

Passamos nossos primeiros anos nos maravilhando com a mu­lher adorável que nos contava os sonhos das garças, que podia convo­car luas, banir sóis para o oeste e chamar um novo sol na manhã seguinte, vindo de um ponto além das montanhas do Atlântico. Ciên­cia não era algo que interessasse a Lila Wingo, mas a natureza era uma paixão.

Para descrever nossa infância nas terras baixas da Carolina do Sul, eu precisaria levar o leitor ao pântano em um dia de primavera, fazer voar a grande garça azul, dispersar as aves quando nos afundássemos até os joelhos no barro, abrir uma ostra com um canivete para que ele pudesse comê-la ali mesmo e dizer: "Esse sabor é o da minha infân­cia." Eu diria: "Respire fundo..." E o leitor respiraria e se recordaria daquele cheiro para o resto da vida, o aroma arrojado e fecundo do pântano, apurado e sensual, o cheiro do Sul no calor, como o do leite fresco, do sêmen, do vinho derramado, todos perfumados com água do mar. Minha alma se alimenta como um cordeiro no pasto da beleza das marés voltadas para o interior.

Sou um patriota de uma geografia singular neste planeta, falo de minha terra com religiosidade, tenho orgulho de sua paisagem. Ando cautelosamente pelo tráfego das cidades, sempre de sobreaviso e com agilidade, porque meu coração pertence aos pântanos. O menino que ainda existe em mim leva consigo as recordações daqueles dias em que tirava os caranguejos do rio Colleton antes do amanhecer, dias em que fui moldado pela vida no rio, parte criança, parte sacristão das marés.

Certa vez, enquanto tomávamos sol numa praia deserta próxima a Colleton, Savannah gritou para que Luke e eu olhássemos para o mar. Berrava e apontava para um baleal que emergira como um ban­do desorientado. Surgiram ao nosso redor, passaram por nós, até que quarenta baleias, escuras e brilhantes como couro, prostraram-se na praia, encalhadas e condenadas.

Durante horas, andamos entre os animais que morriam, falando com eles em gritos de criança, encorajando-os a voltar para o mar. Éramos tão pequenos e elas eram tão lindas... Vistas a distância, pare­ciam sapatos pretos de gigantes. Sussurramos para elas, tiramos a areia que se acumulava em seus respiradouros, jogamos água do mar sobre elas e as exortamos a sobreviver, por nós. Tinham vindo do mar misteriosamente, gloriosamente, e nós, crianças, conversamos com elas, de mamífero para mamífero, em cânticos atordoados e afli­tos de crianças pouco acostumadas com a morte voluntária. Ficamos com elas por todo o dia, tentando fazê-las voltar ao mar, empurrando suas enormes nadadeiras, até que o cansaço e o silêncio chegaram com a escuridão. Ficamos com elas quando começaram a morrer, uma a uma. Afagamos as cabeças imensas e rezamos enquanto as al­mas das baleias deixavam os grandes corpos negros, movendo-se como gaivotas pela noite, rumo ao mar, onde mergulhavam em dire­ção à luz do mundo.

Anos mais tarde, quando falávamos de nossa infância, aquilo pa­recia parte elegia, parte pesadelo. Quando minha irmã escreveu os livros que a tornaram famosa, os jornalistas começaram a lhe fazer perguntas sobre a infância. Então ela se inclinava para trás, afastava os cabelos dos olhos, ficava séria e dizia: "Quando eu era criança, andava com meus irmãos nas costas dos golfinhos e das baleias." É claro que não havia golfinhos, mas, para minha irmã, eles existiam. Foi esse o modo que ela escolheu de se lembrar de tudo aquilo, de celebrar, de esquecer o que não lhe agradava.

Mas não existe mágica nos pesadelos. Sempre foi difícil para mim encarar a verdade a respeito de minha infância porque isso requer compromisso de explorar os contornos e as feições de uma história que eu preferiria esquecer. Durante muitos anos, não precisei enfren­tar a demonologia de minha juventude; escolhi simplesmente não enfrentá-la e encontrei consolo na delicada arte do esquecimento, um refúgio nas frias e arrogantes trevas da inconsciência. Mas fui levado de volta à história de minha família e aos insucessos de minha própria vida adulta por um único telefonema.

Gostaria de não ter uma história para contar. Fingi por muito tempo que minha infância não existira. Fui obrigado a prendê-la com força no peito. Não podia deixá-la sair. Segui o terrível exemplo de minha mãe. Possuir ou não uma recordação é um ato de vontade. Optei por não tê-la. Por causa da necessidade de amar minha mãe e meu pai, com toda a sua imperfeição e sua ultrajante humanidade, não podia me permitir chamar-lhes a atenção diretamente sobre as crueldades cometidas contra todos nós. Não podia responsabilizá-los ou culpá-los por crimes que não puderam evitar. Eles também ti­nham uma história - uma história que eu recordava com ternura e dor, que me fazia perdoar suas transgressões contra os próprios filhos. Em família, não há crimes fora do alcance do perdão.

Visitei Savannah em um hospital para doentes mentais em Nova York depois de sua segunda tentativa de suicídio. Inclinei-me para dar-lhe dois beijos no rosto, ao estilo europeu. Em seguida, fitando seus olhos exaustos, fiz-lhe a série de perguntas que sempre fazia de­pois de uma longa separação.

- Como foi sua vida familiar, Savannah? - Eu fingia estar fazendo uma entrevista.



  • Hiroshima - murmurou ela.

  • E como tem sido sua vida desde que deixou o seio amoroso e tolerante de sua família protetora e unida?

  • Nagasaki - respondeu, com um sorriso amargo no rosto.

  • Você é uma poetisa, Savannah. Compare sua família a um na­vio - sugeri, observando-a.

  • O Titanic.

  • Dê o nome do poema que escreveu em homenagem a sua família.

  • "A história de Auschwitz". - E nós dois rimos.

  • Agora, vamos a uma pergunta importante. - Inclinei-me para sussurrar suavemente em seu ouvido: - Qual é a pessoa que você mais ama neste mundo?

Savannah levantou a cabeça do travesseiro. Seus olhos azuis bri­lharam com intensidade e convicção quando abriu os lábios pálidos e rachados para falar.

  • Amo meu irmão Tom Wingo. Meu irmão gêmeo. E quem é que meu irmão mais ama neste mundo?

Segurando sua mão, eu disse:

  • Também amo mais o Tom.

  • Não responda errado novamente, espertinho - murmurou ela, cansada.

Olhei dentro de seus olhos e segurei sua cabeça entre as mãos e, com a voz entrecortada e as lágrimas rolando pelo rosto, quase des­moronei ao suspirar:

  • Amo minha irmã, a grande Savannah Wingo, nascida em Colleton, Carolina do Sul.

  • Abrace-me, Tom. Bem apertado.

Essas eram as senhas de nossas vidas.

O século XX não foi fácil de se tolerar. Entrei em cena na metade de uma guerra civil mundial, no assustador amanhecer da Era Atômi­ca. Cresci na Carolina do Sul, um homem branco sulista, bem treina­do e talentoso em meu ódio pelos negros, quando o movimento pelos direitos civis me pegou de surpresa, indefeso fora das barricadas, e provou que eu era mau e estava errado. Mas eu era um menino de opinião e sensibilidade, suscetível à injustiça; esforcei-me muito para mudar e ter um papel, pequeno e insignificante, naquele movimento - e, bem depressa, sentia-me incrivelmente orgulhoso de mim mes­mo. Mais tarde, encontrei-me marchando em um programa só para brancos, só para homens, do ROTC, o Corpo de Treinamento dos Oficiais da Reserva, na faculdade - fui cuspido por manifestantes a favor da paz que se sentiram ofendidos por meu uniforme. Eu me tornaria, eventualmente, um daqueles manifestantes, mas nunca cus­pi em ninguém de quem discordasse. Pensava que iria completar tranqüilamente meus 30 anos, sendo um homem contemplativo, cuja filosofia era humana e irredutível, quando o movimento de libertação feminina me pegou de surpresa no meio das avenidas e me encontrei do outro lado das barricadas mais uma vez. Parecia incorporar tudo o que havia de errado com o século XX.

Foi minha irmã quem me forçou a encontrar o meu século e quem, finalmente, me libertara para enfrentar a realidade daqueles dias à beira do rio. Eu vivera nas partes rasas durante muito tempo e ela me conduziu suavemente para as águas mais profundas, onde to­dos os esqueletos, os destroços e cascos de navios esperavam por mi­nha inspeção hesitante.

A verdade é a seguinte: coisas aconteceram com minha família, coisas extraordinárias. Conheço famílias que vivem seus destinos sem que nada de interessante lhes aconteça. Sempre as invejei. Os Wingo foram uma família que o destino testou mil vezes e deixou indefesa, humilhada e desonrada. Mas nós também adquirimos força nos cam­pos de batalha, e essa força fez com que quase todos sobrevivêssemos à descida das Fúrias. A não ser que o leitor acredite em Savannah; ela afirma que nenhum Wingo sobreviveu.



Vou lhe contar minha história. Sem omitir nada. Prometo.
1
Eram cinco horas da tarde quando o telefone tocou em minha casa na ilha Sullivan, Carolina do Sul. Minha mulher, Sallie, e eu havíamos acabado de sentar para tomar um drinque na varanda, de onde se avistava o porto de Charleston e o Atlântico. Sallie foi atender ao tele­fone e eu gritei:

  • Seja quem for, não estou em casa.

  • É sua mãe - disse Sallie, voltando do telefone.

  • Diga que eu morri - implorei. - Por favor, diga que morri na semana passada e que você esteve muito ocupada para avisar.

  • Fale com ela, por favor. Ela diz que é urgente.

  • Ela sempre diz isso. Nunca é urgente quando ela diz que é.

  • Desta vez deve ser. Ela está chorando.

  • É normal minha mãe chorar. Não lembro um dia em que não tenha chorado.

  • Ela está esperando, Tom.

Enquanto me levantava para atender ao telefone, minha mulher disse:

  • Seja gentil, Tom. Você nunca é muito gentil quando fala com sua mãe.

  • Odeio minha mãe, Sallie. Por que você tenta acabar com os pequenos prazeres que tenho na vida?

  • Escute apenas a sua Sallie e seja bem gentil.

  • Se ela disser que quer vir passar a noite aqui eu me divórcio. Não é nada pessoal, mas é você que está me fazendo atender ao telefone.

  • Alô, querida mamãe - eu disse alegremente, sabendo que mi­nha bravata insincera nunca a enganara.

  • Tenho uma notícia ruim para você, Tom - disse ela.

  • E desde quando nossa família produz alguma coisa além disso?

  • São notícias bem ruins. Trágicas.

  • Não posso esperar para ouvir.

  • Não quero contar por telefone. Posso ir até aí?

  • Se quiser.

  • Só quero se você quiser que eu vá.

  • Você disse que queria vir. Não falei que queria que viesse.

  • Por que você quer me magoar numa hora dessas?

  • Não sei que tipo de hora é esta. Você não me disse o que há de errado. Não quero magoá-la. Venha para cá e poderemos mostrar nossas presas por algum tempo. - Desliguei o telefone e gritei a plenos pulmões: - Divórcio!

Enquanto esperava por minha mãe, observei minhas três filhas juntarem conchas em frente à casa. Tinham 10, 9 e 7 anos, duas meni­nas de cabelos castanhos divididas por uma loira, cuja idade, altura e beleza sempre me surpreenderam; eu podia tirar a medida de minha própria decadência por seu alegre desenvolvimento. Podia-se acredi­tar no nascimento de deusas ao observar o vento passando por seus cabelos e suas pequenas mãos fazendo delicados gestos simultâneos para tirá-los dos olhos, enquanto suas risadas irrompiam com as ondas. Jennifer chamou as outras duas ao levantar uma concha de for­mato especial para vê-la melhor. Levantei-me e fui até a cerca na qual um vizinho havia parado para conversar com elas.

  • Sr. Brighton - chamei -, o senhor poderia se certificar de que as meninas não fumem ervas na praia novamente?

As meninas olharam para mim, acenaram despedindo-se do sr. Brighton e correram pelas dunas para voltar para casa. Depositaram suas coleções de conchas sobre a mesa em que estava meu drinque.

  • Pai - disse Jennifer, a mais velha -, você sempre nos deixa en­vergonhadas na frente de estranhos.

  • Achamos um caramujo - berrou Chandler, a mais nova. - Está vivo.

  • Sim, está vivo - eu disse, revirando a concha em minhas mãos. - Podemos comê-lo no jantar esta noite.

  • Péssimo, pai - disse Lucy. - Grande refeição. Caramujo.

  • Não - discordou a menor. - Vou levá-lo de volta para a praia e colocá-lo na água. Imaginem o medo que ele deve estar sentindo ao ouvir que vocês querem comê-lo.

  • Oh, Chandler - disse Jennifer. - Isso é ridículo. Caramujos não falam nossa língua.

  • Como é que você sabe? - desafiou Lucy. - Você não sabe tudo. Não é a rainha do mundo.

  • Sim - concordei. - Você não é a rainha do mundo.

  • Gostaria de ter dois irmãos - disse Jennifer.

  • E nós gostaríamos de ter um irmão mais velho - respondeu Lucy, naquela adorável raiva das loiras.

  • Você vai matar esse caramujo feio, pai? - indagou Jennifer. - Chandler ficaria louca.

  • Não, vou levá-lo de volta para a praia. Não suportaria se Chandler me chamasse de assassino. Todas para o colo do paizinho!

As três meninas ajeitaram com indiferença seus bumbuns perfei­tos sobre minhas pernas e beijei cada uma delas no pescoço e na nuca.

  • Este é o último ano em que podemos fazer isso, meninas. Vocês estão ficando imensas.

  • Imensas? Eu certamente não estou ficando imensa, pai - corri­giu Jennifer.

  • Me chame de paizinho.

  • Só nenês chamam os pais assim.

  • Então eu também não vou chamar você de paizinho - disse Chandler.

  • Eu gosto de ser chamado desse jeito. Faz com que me sinta ado­rado. Meninas, vou lhes fazer uma pergunta e quero que respondam com sinceridade. Não escondam seus sentimentos do paizinho, digam apenas o que sentem no fundo do coração.

Jennifer girou os olhos e protestou:

  • Não, pai, esse jogo outra vez!

  • Quem é o maior ser humano que já encontramos neste mundo?

  • Mamãe - respondeu rapidamente Lucy, sorrindo com malícia para o pai.

  • Quase certo - repliquei. - Vamos tentar de novo. Pensem na pessoa mais esplêndida, mais maravilhosa que conhecem. A resposta tem que brotar espontaneamente em seus lábios.

  • Você! - gritou Chandler.

  • Um anjo. Um anjo puro e inteligente! O que você quer, Chandler? Dinheiro? Jóias? Peles? Ações? Pode pedir o que quiser, querida, e seu adorável paizinho conseguirá para você.

  • Não quero que você mate o caramujo.

  • Matar o caramujo! Vou mandá-lo para a faculdade e introduzi-lo nos negócios.

  • Pai - disse Jennifer -, estamos ficando muito velhas para brin­car conosco desse jeito. Você está começando a nos envergonhar na frente de nossos amigos.

  • Quais amigos?

  • Johnny.

  • Aquele cretininho mascador de chicletes, cheio de espinhas e com a boca aberta como um idiota?

  • É meu namorado - disse Jennifer, com orgulho.

  • Ele é um horror, Jennifer - completou Lucy.

  • É bem melhor do que aquele anão que você chama de namora­do - Jennifer respondeu rapidamente.

  • Eu lhes avisei sobre os meninos. São todos odiosos, têm a men­te suja, são pequenos depravados selvagens que fazem coisas desagra­dáveis como urinar nos arbustos e meter o dedo no nariz.

  • Você já foi menino um dia - disse Lucy. - Ah! Vocês imaginam papai como um menino? Que piada!

  • Eu era diferente. Um príncipe. Um raio de luar. Mas não vou interferir em sua vida amorosa, Jennifer. Você me conhece, não vou ser um pai cansativo que nunca está satisfeito com os rapazes que as filhas trazem para casa. Não pretendo interferir. É sua escolha e sua vida. Podem se casar com quem quiserem, meninas, assim que termi­narem o curso de medicina.

  • Não quero ir para a faculdade de medicina - disse Lucy. - Vocês sabiam que a mamãe tem que pôr o dedo no traseiro das pessoas? Que­ro ser uma poetisa, como Savannah.

  • Então, casamento depois que seu primeiro livro de poesias seja publicado. Eu me comprometo. Não sou um homem inflexível.

  • Posso me casar na hora que quiser - disse Lucy, com teimosia. - Não vou pedir sua permissão. Serei uma mulher adulta.

  • Esse é o espírito da coisa, Lucy - aplaudi. - Não escutem nada que seus pais disserem. Essa é a única regra de vida que eu quero que vocês tenham na cabeça e sigam.

  • Eu não quis dizer isso. Você só fala por falar, paizinho - disse Chandler enquanto colocava a cabeça sob meu queixo. - Quer dizer, pai - corrigiu-se ela.

  • Lembre-se do que eu lhes contei. Ninguém me disse esse tipo de coisa quando eu era criança - falei com seriedade. - Os pais foram postos na terra com o único propósito de desgraçar a vida dos filhos. Essa é uma das mais importantes leis de Deus. Agora, escutem. O pa­pel de vocês é fazer sua mãe e eu acreditarmos que estão fazendo e pensando tudo o que queremos. Mas, na verdade, não estarão. Estarão tendo seus próprios pensamentos e saindo em aventuras secretas. Por­que sua mãe e eu estaremos fodendo vocês.

  • Como vocês fodem conosco? - perguntou Jennifer.

  • Ele nos envergonha na frente de nossos amigos - sugeriu Lucy.

  • Eu não faço isso. Mas sei que estamos fodendo com vocês um pouquinho a cada dia. Se soubéssemos como fazemos isso, poderíamos parar. Não iríamos fazer de novo porque adoramos vocês. Mas somos pais e não podemos evitar. E nossa função foder com vocês. Entendem?

  • Não - responderam as três em coro.

  • Ótimo - eu disse, tomando um gole do meu drinque. - Não se espera que nos entendam. Nós somos seus inimigos. Espera-se que vocês empreendam uma guerrilha contra nós.

  • Não somos gorilas - disse Lucy, afetadamente. - Somos garotinhas.

Sallie retornou à varanda, usando um vestido cor de creme e san­dálias combinando. Suas longas pernas estavam bronzeadas e eram muito bonitas.

  • Interrompo alguma conferência do dr. Spock, o pediatra mais famoso do mundo? - disse ela, sorrindo para as crianças.

  • Papai nos disse que somos gorilas - explicou Chandler, saindo de meu colo e indo sentar-se no da mãe.

  • Coloquei um pouco de ordem na casa por causa de sua mãe - disse Sallie, acendendo um cigarro.

  • Você vai morrer de câncer se continuar fumando isso, mãe - disse Jennifer. - Vai se engasgar com o próprio sangue. Aprendemos isso na escola.

  • Chega de escola para vocês - disse Sallie, soltando a fumaça.

  • Por que você arrumou a casa? - perguntei.

  • Porque detesto a maneira como sua mãe olha para minha casa quando vem aqui. Parece que tem vontade de vacinar as meninas con­tra tifo quando vê a desordem na cozinha.

  • É apenas inveja porque você é médica e ela parou os estudos de­pois de vencer um jogo de soletrar na terceira série. De maneira que você não precisa arrumar a casa a cada vez que ela vem espalhar a peste. Basta queimar a mobília e vaporizar desinfetante quando ela vai embora.

  • Você é um pouco duro com sua mãe, Tom. Ela está apenas ten­tando ser novamente uma boa mãe, a seu modo - disse Sallie, exami­nando os cabelos de Chandler.

  • Por que você não gosta da vovó, pai? - perguntou Jennifer.

  • Quem disse que eu não gosto da vovó?

Lucy continuou:

  • Sim, pai, por que você sempre grita "Não estou em casa" quan­do ela telefona?

  • É por pura proteção, meu amor. Você sabe como um baiacu infla o corpo quando está em perigo? Bem, é a mesma coisa quando a vovó telefona. Eu inflo o corpo e grito que não estou em casa. Funcio­naria perfeitamente, mas sua mãe sempre me trai.

  • Por que você não quer que ela saiba que está aqui, paizinho? - perguntou Chandler.

  • Porque, se ela souber, terei que falar com ela e, quando falo, lembro-me da infância e eu odiava minha infância. Preferia ter sido um baiacu.

  • Será que nós vamos gritar "Não estou em casa" quando formos adultas e você nos telefonar?

  • Claro - disse, com mais veemência do que pretendia. - Porque, nessa época, estarei fazendo com que se sintam mal dizendo "Por que eu nunca te vejo, querida?" ou "Fiz alguma coisa errada, querida?" ou "Meu aniversário foi na quinta-feira passada" ou "Vou fazer um trans­plante de coração na próxima terça-feira" ou "Você poderia ao menos vir tirar o pó do pulmão de aço?" Depois que vocês crescerem e me deixarem, meu único dever neste mundo será o de fazer vocês se sen­tirem culpadas. Tentarei arruinar suas vidas.

  • Papai acha que sabe tudo - disse Lucy a Sallie, e as outras duas acenaram, concordando.

  • O que é isso? Críticas de minhas próprias crianças? Meu pró­prio sangue e minha carne percebendo imperfeições em meu caráter? Eu tolero tudo, menos críticas, Lucy.

  • Todos os nossos amigos pensam que papai é louco, mãe - com­pletou Lucy. - Você age como se espera que uma mãe aja. Mas papai não age como os outros pais.

  • Então, finalmente, chegou aquele momento pavoroso em que minhas filhas se voltam contra mim e acabam comigo! Se aqui fosse a Rússia, elas me levariam às autoridades comunistas e eu estaria em uma mina de sal na Sibéria, congelando meu rabo.

  • Ele disse uma palavra feia, mãe - disse Lucy.

  • Sim, querida, eu ouvi.

  • Cabo - falei rapidamente. - O cabo do meu guarda-chuva está quebrado.

  • O cabo do guarda-chuva está sempre quebrado quando ele diz aquela palavra.

  • Neste exato momento, minha mãe está atravessando a ponte Shem Creek. Nenhum pássaro canta no planeta quando minha mãe está a caminho.

  • Tente ser gentil, Tom - disse Sallie com voz enlouquecedoramente profissional. - Não deixe que ela o tire do sério.

Resmunguei, bebendo com vontade.

  • Meu Deus, gostaria de saber o que ela quer. Ela só vem aqui quando pode arruinar minha vida de algum modo. Ela é perita em vidas arruinadas. Poderia fazer conferências sobre o assunto. Disse que tem más notícias. Quando minha família tem más notícias, é sem­pre algo terrível, bíblico, saído diretamente do Livro de Jó.

  • Pelo menos admita que sua mãe está tentando ser sua amiga novamente.

  • Admito. Ela está tentando - disse, com cansaço. - Eu gostava mais dela quando não tentava, quando era um monstro arrependido.

  • O que há para o jantar hoje, Tom? - perguntou Sallie, mudan­do de assunto. - Alguma coisa está cheirando maravilhosamente.

  • Isso é pão fresco. Para o jantar, pesquei alguns linguados e os recheei com carne de siri e camarões. Há também uma salada de espi­nafre fresco e abobrinhas e cebolinhas passadas na manteiga.

  • Maravilhoso - disse ela. - Eu não deveria estar bebendo isto. Vou ficar de plantão esta noite.

  • Eu preferiria frango frito - disse Lucy. - Vamos até a lanchonete?

  • Por que você cozinha, pai? - perguntou Jennifer, subitamente. - O sr. Brighton dá risada quando fala a respeito de você fazer o jantar para mamãe.

  • Sim - completou Lucy -, ele diz que é porque a mamãe ganha duas vezes mais dinheiro que você.

  • Aquele filho-da-mãe - Sallie murmurou entre os dentes forte­mente cerrados.

  • Isso não é verdade - disse eu. - Faço o jantar porque sua mãe ganha cinco ou seis vezes mais que eu.

  • Lembrem-se, meninas, foi seu pai quem me colocou na facul­dade de medicina. E não o magoe novamente, Lucy - advertiu Sallie. - Vocês não precisam repetir tudo o que o sr. Brighton diz. Seu pai e eu tentamos partilhar as tarefas domésticas.

  • Todas as mães que eu conheço cozinham para suas famílias - disse Lucy com atrevimento, considerando a amargura que se alojara nos olhos cinzentos de Sallie. - Exceto você.

  • Eu lhe disse, Sallie - falei, olhando os cabelos de Jennifer. - Se você criar seus filhos no Sul, produzirá sulistas. E um sulista é um dos tolos que Deus pôs no mundo.

  • Nós somos sulistas e não somos tolos - retrucou Sallie.

  • Aberrações, querida. Acontecem uma ou duas vezes por geração.

  • Meninas, subam e vão se lavar. Lila deve chegar logo.

  • Por que ela não gosta que nós a chamemos de vovó? - Lucy perguntou.

  • Porque isso a faz se sentir velha. Agora, andem - respondeu Sallie, forçando as meninas a entrar.

Ao voltar, Sallie inclinou-se e roçou levemente os lábios em mi­nha testa.

  • Sinto muito que Lucy tenha dito aquilo. Ela é tão convencional.

  • Não me incomoda, querida. Juro que não. Você sabe que eu ado­ro o papel de mártir, quanto vicejo em uma atmosfera de autopiedade. Pobrezinho do Tom Wingo, limpando prataria enquanto sua mulher descobre uma cura para o câncer. É triste ver Tom Wingo fazendo um suflê perfeito enquanto sua mulher fatura 100 mil dólares por ano. Nós sabíamos que isso iria acontecer, Sallie. Conversamos a esse respeito.

  • Ainda assim não gosto nem um pouco disso. Não confio nesse ego de macho pavoneando-se dentro de você. Sei que vai magoá-lo. Faz com que me sinta culpada como o diabo, pois eu sei que as meni­nas não entendem por que não estou em casa com biscoitos e leite quando chegam da escola.

  • Mas elas têm orgulho porque a mãe é médica.

  • Mas não parecem se orgulhar porque você é professor e técnico de esportes, Tom.

  • Era, Sallie. Passado. Fui despedido, lembra? Eu também não me orgulho disso, de modo que não podemos realmente culpá-las. Oh! Deus, é o carro da minha mãe que estou ouvindo parar lá na entrada? Posso tomar três Valium, doutora?

  • Preciso deles para mim, Tom. Lembre-se: terei que agüentar a inspeção de sua mãe pela casa antes que ela parta para cima de você.

  • A bebida não está ajudando - resmunguei. - Por que a bebida falha na hora em que deveria entorpecer meus sentidos, quando eu mais preciso dela? Devo convidar minha mãe para jantar?

  • Claro, mas você sabe que ela não vai ficar.

  • Ótimo, então vou convidá-la.

  • Seja gentil com ela, Tom. Ela parece estar triste e desesperada para ser sua amiga.

  • Amizade e maternidade não são compatíveis.

  • Você acha que suas filhas vão pensar assim?

  • Não, nossas filhas vão apenas odiar o pai. Você já percebeu como elas estão fartas do meu senso de humor? E a mais velha tem apenas 10 anos! Preciso desenvolver alguns hábitos diferentes.

  • Eu gosto de seus hábitos, Tom. Acho que são muito divertidos. Essa é uma das razões por que me casei com você. Sabia que passaría­mos boa parte do tempo dando risada.

  • Deus abençoe você, doutora. Está bem, eis aí minha mãe. Você poderia atar um pouco de alho em volta de meu pescoço e trazer um crucifixo?

  • Silêncio, Tom, ela pode ouvir.

Minha mãe apareceu à porta, imaculadamente vestida e pentea­da, e seu perfume chegou à varanda vários segundos antes dela. Minha mãe sempre se conduzia como se estivesse se aproximando dos apo­sentos de uma rainha. Era tão bem-feita como um iate - linhas sim­ples, eficiente, cara. Sempre foi bonita demais para ser minha mãe, e houve uma época em minha vida em que as pessoas pensavam que eu fosse seu marido. Não posso nem dizer quanto ela adorava aquele tempo.

  • Ah, então vocês estão aqui - disse minha mãe. - Como vão, meus queridos?

Ela nos beijou. Estava alegre, mas as más notícias transpareciam em seus olhos.

  • Cada vez que a vejo, você está mais linda, Sallie. Concorda, Tom?

  • Claro que sim, mãe. E você também - respondi, reprimindo um resmungo. Minha mãe conseguia me fazer dizer futilidades que jorravam como uma cascata incessante.

  • Muito obrigada, Tom. Você é muito gentil em dizer isso à sua velha mãe.

  • Minha velha mãe tem o mais belo corpo de toda a Carolina do Sul - repliquei, contando minha segunda futilidade.

  • Bem, posso lhe dizer que trabalho duro para isso. Os homens não sabem como as mulheres sofrem para manter essa aparência jo­vem, não é mesmo, Sallie?

  • Realmente não sabem.

  • Você engordou de novo, Tom - ela percebeu, alegremente.

  • Vocês, mulheres, não sabem o que os homens têm de fazer para se tornarem uns gordos de merda.

  • Olhe, Tom, eu não disse isso com sentido de crítica - replicou minha mãe, com voz magoada e santarrona. - Se você é tão sensível assim, não falarei mais. Esse peso extra lhe fica bem. Você sempre pa­rece mais bonito com o rosto mais cheio. Mas eu não vim aqui hoje para discutir. Tenho algumas más notícias. Posso me sentar?

  • É claro, Lila. Vou lhe preparar um drinque - disse Sallie.

  • Um gim-tônica, querida. Com algumas gotas de limão, se tiver.

  • Onde estão as crianças, Tom? Não quero que elas ouçam.

  • Estão lá em cima - disse, olhando para o pôr-do-sol, esperando.

  • Savannah tentou se matar novamente.

  • Oh, Deus! - disse Sallie, que entrava naquele momento. - Quando?

  • Parece que foi na semana passada. Eles não têm certeza. Estava desmaiada quando a encontraram. Ela saiu do estado de coma, mas...

  • Mas o quê? - murmurei.

  • Mas está naquele estado idiota em que fica toda vez que precisa de atenção.

  • Isso é chamado interlúdio psicótico, mãe.

  • Savannah alega que é psicótica - ela respondeu, rispidamente. - Mas não é uma verdadeira psicótica, tenho certeza.

Antes que eu pudesse responder, Sallie interrompeu com uma pergunta:

  • Onde ela está, Lila?

  • Em um hospital psiquiátrico de Nova York. Bellevue ou algum nome assim. Está anotado em minha casa. Não posso imaginar. Uma médica me telefonou. Uma doutora como você, Sallie, só que é psi­quiatra. Tenho certeza de que não conseguiu se virar em nenhum ou­tro campo da medicina, mas, cada um na sua, eu sempre digo.

  • Eu quase segui carreira como psiquiatra - disse Sallie.

  • Bem, certamente dá um grande prazer ver mocinhas se saindo tão bem em suas profissões. Eu não tive esse tipo de oportunidade quando era jovem. Em todo caso, essa mulher me telefonou para dar a trágica notícia.

  • Como foi que ela tentou, mãe? - disse, procurando me conter. Sentia que estava perdendo o controle.

  • Cortou os pulsos novamente, Tom - minha mãe falou, come­çando a chorar. - Por que ela gosta de fazer essas coisas comigo? Já não sofri o suficiente?

  • Ela fez isso para si mesma, mãe.

  • Vou buscar seu drinque, Lila - disse Sallie, ao entrar.

Minha mãe secou as lágrimas com um lenço que tirou da bolsa.

Em seguida, disse:



  • Acho que a doutora é judia. Tem um daqueles nomes impossí­veis de se pronunciar. Talvez Aaron a conheça.

  • Aaron é da Carolina do Sul, mãe. Só por ser judeu não significa que conheça todos os judeus do país.

  • Mas ele poderia descobrir alguma coisa a respeito dela. Para saber se é boa. A família de Aaron é muito bem informada.

  • Se ela for judia, é certo que a família de Aaron deve ter um arquivo a seu respeito.

  • Não precisa ser sarcástico comigo, Tom. Como acha que me sinto? Como acha que me sinto quando meus filhos fazem essas coisas terríveis? Sinto-me uma fracassada. Você não imagina como as boas pessoas da sociedade me olham quando descobrem quem sou.

  • Você vai para Nova York?

  • Não, não posso ir, Tom. É uma época muito difícil para mim. Vamos dar um jantar no sábado, que está planejado há meses. E a despesa então! Tenho certeza de que Savannah está em boas mãos e não há nada que possamos fazer.

  • Estar lá é algo que podemos fazer, mãe. Você nunca percebeu isso.

  • Falei à psiquiatra que você poderia ir - minha mãe disse, espe­rançosa.

  • Claro que eu vou.

  • Você está sem emprego e será fácil para você ir.

  • Meu emprego é procurar emprego.

  • Você devia ter aceitado aquela vaga de corretor de seguros. Essa é minha opinião, apesar de você não ter pedido meu conselho.

  • Como é que você soube disso?

  • Sallie me contou.

  • Contou?

  • Ela está preocupada com você. Todos estamos, Tom. Não se pode esperar que ela o sustente para o resto da vida.

  • Ela também lhe disse isso?

  • Não. Só estou dizendo o que eu sei. Você precisa encarar os fatos. Nunca mais vai conseguir ensinar ou treinar novamente na Carolina do Sul. Precisa começar tudo de novo, abrir caminho desde o início, pôr à prova com algum empregador interessado em lhe dar uma chance.

  • Você fala como se eu nunca na vida tivesse trabalhado, mãe - disse, cansado e precisando fugir dos olhos dela, querendo que o sol se pusesse com mais rapidez, necessitando da escuridão.

  • Faz um bocado de tempo que você não tem emprego - insistiu ela. - E uma mulher não respeita um homem que não ajuda a trazer comida para casa, isso eu lhe garanto. Sallie tem sido um anjo, mas não se pode esperar que ela ganhe todo o dinheiro de que vocês preci­sam enquanto você fica aqui sentado, meditando nessa varanda.

  • Já pedi emprego mais de setenta vezes.

  • Meu marido pode lhe arranjar um. Ele já se ofereceu para colocá-lo nos negócios.

  • Você sabe que não posso aceitar ajuda de seu marido. Você, pelo menos, entende isso.

  • Certamente não - minha mãe estava quase gritando. - Por que eu deveria entender? Ele vê sua família sofrer porque você não pode tirar sua bunda gorda dessa cadeira e sair para procurar um emprego. Meu marido quer fazer isso para ajudar Sallie e as meninas, não por você. Não quer que elas sofram mais do que já sofreram. Está disposto a ajudá-lo, mesmo sabendo quanto você o odeia.

  • Estou contente por ele saber quanto o odeio!

Sallie voltou à varanda com o drinque de minha mãe e um novo para mim. Tive vontade de jogar fora a bebida e comer o copo.

  • Tom estava me dizendo quanto me odeia e a tudo o que eu defendo.

  • Errado. Eu simplesmente disse, sob grande provocação, que odeio seu marido. Você trouxe o assunto à baila.

  • Eu trouxe à baila o assunto de seu desemprego. Já faz mais de um ano, Tom, e isso é tempo suficiente para que um homem com sua capacidade arranje alguma coisa, qualquer coisa. Você não acha emba­raçoso para Sallie sustentar um homem bem crescidinho com todos os membros perfeitos?

  • Agora chega, Lila - disse Sallie, com raiva. - Você não tem o direito de me usar para magoar Tom.

  • Estou tentando ajudá-lo, você não vê?

  • Não. Não desse modo, Lila.

  • Preciso ir a Nova York amanhã, Sallie - disse eu.

  • Claro que sim.

  • Você vai dizer a Savannah quanto eu a amo, não é, Tom?

  • Claro, mãe.

  • Sei que ela está contra mim tanto quanto você - lamuriou-se ela.

  • Nós não estamos contra você.

  • Claro que estão. Pensa que não sinto seu desprezo por mim? Acha que não sei quanto vocês odeiam o fato de que finalmente sou feliz? Vocês adoravam quando eu era infeliz e vivia com seu pai.

  • Nós não adorávamos aquilo, mãe. Tivemos uma infância terrí­vel, que nos jogou muito bem numa vida adulta terrível.

  • Parem, por favor - implorou Sallie. - Parem de magoar um ao outro.

  • Eu sei o que é ser casada com um macho Wingo, Sallie. Eu sei o que você está passando.

  • Mãe, você precisa vir me visitar com mais freqüência. Na ver­dade, andei sentindo um minuto ou dois de felicidade antes de você chegar.

Sallie ordenou:

  • Quero que isso termine, e já! Precisamos pensar em como aju­dar Savannah.

  • Já fiz por ela tudo que podia - disse minha mãe. - O que quer que ela faça, vai jogar a culpa em mim.

  • Savannah é uma mulher doente - Sallie argumentou, suave­mente. -Você sabe disso, Lila.

Minha mãe se animou ao ouvir isso, passou o copo para a mão esquerda e se inclinou para falar com Sallie.

  • Você é uma profissional, Sallie. Sabe que tenho lido um bocado sobre psicose ultimamente. Os maiores pesquisadores descobriram que é um desequilíbrio químico que não tem nada a ver com hereditariedade ou ambiente.

  • Tem havido um bocado de desequilíbrio químico em nossa fa­mília, mãe! - disse, sem conseguir controlar a fúria.

  • Alguns médicos afirmam que é falta de sal no organismo.

  • Ouvi falar algo a esse respeito, Lila - Sallie concordou, gentilmente.

  • Sal! - gritei. - Vou levar para Savannah um pacote de sal e fazer com que ela o coma com uma colher. Se é apenas de sal que ela precisa, vou colocá-la numa dieta que vai fazer com que se pareça com a mu­lher de Lot.

  • Estou apenas citando o que os grandes pesquisadores dizem. Se você quer se divertir à custa de sua mãe, esteja à vontade, Tom. Sei que sou um alvo fácil, uma velha que sacrificou os melhores anos de sua vida pelos filhos.

  • Mãe, por que você não se emprega como engarrafadora de cul­pa? Poderíamos vendê-la a todos os pais americanos que ainda não do­minam a fundo a arte de fazer os filhos se sentirem uma merda o tempo todo. Você certamente seria uma vencedora com essa patente nas mãos.

  • E então talvez você tivesse afinal um emprego, filho - disse ela com frieza, enquanto se levantava da cadeira. - Por favor, telefone de­pois que visitar Savannah. Você pode inverter as acusações.

  • Por que não fica para jantar, Lila? Você ainda nem viu as meni­nas - disse Sallie.

  • Virei quando Tom estiver em Nova York. Quero levar as meni­nas até a ilha Pawleys para passarem umas semanas. Se você não se incomodar, é claro.

  • Seria ótimo.

  • Até logo, filho. Tome conta de sua irmã.

  • Até logo, mãe - respondi e me levantei para beijá-la. - Sem­pre tomei.

APÓS O JANTAR, Sallie e eu ajudamos as meninas e se prepararem para dormir e, em seguida, fomos dar uma caminhada na praia. Andamos em direção ao farol, descalços e pisando na água. Sallie segurava minha mão, e eu, distraído e preocupado, percebi quanto tempo fazia desde que eu a tinha tocado, desde que me aproximara dela como amante, amigo ou um semelhante. Meu corpo não se sentia como um instru­mento do amor ou da paixão havia muito tempo; passara como que amortecido por um inverno de insensibilidade, quando todas as ilusões e sonhos dos meus 20 anos haviam definhado e morrido. Eu ainda não tinha força interior para sonhar novos sonhos; estava ocupado demais chorando a morte dos antigos sonhos e pensando em como sobreviver sem eles. Estava certo de poder substituí-los de algum modo, mas não tinha certeza de poder restaurar seu esplendor ou seu encantamento. Assim, por muitos meses, não atendi às necessidades de minha mulher, só lhe fiz algum tipo de carinho quando ela se aproximou e se moveu como um gato sob minhas mãos. Eu não correspondi quando ela esfre­gou a perna nua contra a minha ou quando colocou a mão em minha coxa, deitados solitários durante noites insones. Meu corpo sempre me traiu quando a mente esteve irrequieta ou sofrendo.

Sallie se aninhou em mim e, juntos, nós nos inclinamos contra o vento de verão enquanto as ondas se quebravam em torno de nossos pés. A constelação de Órion, o caçador, de cinturão e armado, seguia pelos céus acima de nós na noite estrelada e sem lua.

Sallie disse apertando minha mão:



  • Tom, converse comigo. Diga o que está pensando. Você está se tornando calado novamente e parece que não consigo mais alcançá-lo.

  • Estou tentando descobrir como arruinei minha vida - disse eu a Órion. - Quero saber o momento exato em que foi predeterminado que eu levasse uma vida infeliz e arrastasse todos os que amo para o fundo.

  • Você tem algo valioso pelo qual lutar, algo que merece uma luta. Parece que você está se entregando, Tom. Seu passado está nos magoando.

  • Veja, a Ursa Maior - disse, apontando com indiferença.

  • Não ligo a mínima para a Ursa Maior. Não estou conversando sobre isso e não quero que você mude de assunto. Você nem sabe di­reito como mudar de assunto.

  • Por que será que tudo o que minha mãe diz, cada sílaba, cada fonema insincero, me deixa puto da vida? Por que não consigo ignorá-la, Sallie? Por que não fico quieto quando ela vem? Se eu não reagisse, ela não poderia me ferir. Sei que ela me ama de todo o coração. Mas nós simplesmente nos sentamos, magoamos e destruímos um ao ou­tro. Quando ela se vai, nós dois temos as mãos cobertas de sangue. Ela chora e eu bebo; e então ela bebe. Você tenta interceder e nós ignora­mos você, e nos ressentimos por ter tentado. É como se estivéssemos em uma peça de teatro monstruosa na qual ela e eu nos revezássemos, crucificando um ao outro. Não é culpa dela e nem minha.

  • Ela só quer que você encontre um emprego e que seja feliz - disse Sallie.

  • Eu também quero isso, desesperadamente. A verdade é que estou numa luta terrível para descobrir alguém que queira me empregar. Há dezenas de cartas sobre as quais não lhe contei. Todas muito educadas. Todas dizendo a mesma coisa. Todas intoleravelmente humilhantes.

  • Você poderia ter aceito o emprego com seguros.

  • Sim, poderia. Mas não era um emprego com seguros. Eu teria me tornado um cobrador de seguros, batendo nas portas das cabanas dos meeiros na ilha Edisto, cobrando centavos de negros pobres que pagam um seguro para terem um enterro decente.

Sallie apertou novamente minha mão.

  • Teria sido um começo, Tom. Teria sido melhor do que ficar sentado em casa recortando receitas culinárias das revistas. Você esta­ria fazendo alguma coisa para se salvar.

Magoado, respondi:

  • Estive pensando. Não perdi meu tempo.

  • Não quero que isso seja uma crítica, Tom, mas...

  • Todas as vezes que você usa essa frase memorável, Sallie - inter­rompi você faz uma crítica contundente. Mas vá em frente. Depois de passar por minha mãe, sou capaz de agüentar uma cavalaria de hunos com seus elefantes.

  • Não, isto não é uma crítica. Quero que soe de maneira afetuo­sa. Você tem tido tanta auto-piedade, tem sido tão analítico e tão amar­gurado desde o que aconteceu com Luke! Tente esquecer o que aconteceu e continuar a partir deste ponto, deste momento. A vida não acabou, Tom. Só uma parte dela. Você precisa descobrir o que vai ser a parte seguinte.

Andamos em silêncio por vários minutos, na solidão desagradável que às vezes visita os casais nos momentos mais impróprios. Aquela não era uma sensação nova para mim; eu tinha um talento ilimitado para transformar as almas que me amavam em estranhos.

Tentei restabelecer meu contato com Sallie.



  • Ainda não consegui descobrir nada. Não entendo por que me odeio mais que a qualquer outra pessoa neste mundo. Não faz senti­do. Mesmo que minha mãe e meu pai fossem monstros, eu deveria ter sentido respeito por mim mesmo, como se sente por um sobreviven­te. Eu deveria ao menos ter saído de tudo aquilo como uma pessoa honesta. Mas sou a pessoa mais desonesta que já vi. Nunca sei com exatidão como me sinto a respeito das coisas. Sempre há algo secreto escondido de mim.

  • Você não precisa saber a verdade absoluta. Ninguém precisa. Você só precisa saber o suficiente para seguir em frente.

  • Não, Sallie - disse, parando com a água nos pés e virando-a para mim com as mãos em seus ombros. - Isso foi o que eu fiz antes. Segui em frente com uma parte da verdade e ela me alcançou. Vamos embora da Carolina do Sul. Vamos sair daqui. Jamais vou encontrar um emprego neste estado. Existem pessoas demais que conhecem o nome Wingo e não gostam do que ele representa.

Sallie abaixou o olhar e segurou minhas mãos. Mas fitou direto os meus olhos quando disse:

  • Não quero sair de Charleston. Tenho um emprego maravilho­so, adoro nossa casa e nossos amigos. Por que você quer jogar fora até mesmo as coisas boas?

  • Porque já deixaram de ser boas para mim, porque não acredito mais em minha vida aqui.

  • Mas eu acredito na minha.

  • E você ganha dinheiro - disse eu, envergonhado pela amargura que ouvi em minha voz, pelo orgulho de macho que transparecia em cada palavra. - Sinto muito. Realmente sinto. Não quero ir a Nova York. Nem mesmo quero ver Savannah. Estou furioso, absolutamente furioso com ela por ter tentado outra vez. Estou com raiva por ela ser louca e por permitirem que seja tão louca quanto quer. Invejo sua loucura.

Mas sei que ela espera que eu esteja lá quando começar a se partir em pedaços. É como uma velha dança e conheço todos os passos.

  • Então não vá - disse Sallie, escapando novamente.

  • Tenho que ir. Sei disso. Esse é o único papel que eu represento bem. O herói do momento. O galante cavaleiro. O sir Galahad desem­pregado. É o grande defeito de todos os Wingo. Exceto minha mãe. Ela dá jantares planejados com meses de antecedência e não pode ser in­comodada com as tentativas de suicídio de seus filhos.

  • Você culpa seus pais por tantas coisas, Tom. Em que ponto as coisas começam a ser responsabilidade sua? Em que ponto você dirige sua vida com as próprias mãos? Em que ponto começa a aceitar a cul­pa ou o crédito por suas próprias ações?

  • Não sei, Sallie. Não consigo descobrir. Não sei qual é o signifi­cado das coisas.

Ela se virou e recomeçou a andar pela praia.

  • Isso está nos magoando, Tom.

  • Eu sei - admiti, tentando alcançá-la. Tomei sua mão e a apertei, mas não senti nenhum movimento por parte dela. - Para minha sur­presa, não sou um bom marido. Um dia pensei que seria excelente. Charmoso, sensível, amoroso e atento a todas as necessidades de mi­nha esposa. Sinto muito, Sallie. Faz tempo que não sou bom para você. Isso é uma fonte de dor para mim. Quero ser melhor. E sou tão frio, tão reservado! Juro que serei melhor assim que sairmos deste Estado.

  • Não vou sair deste Estado - disse ela, com decisão. - Sou perfei­tamente feliz vivendo aqui. Este é o meu lar, o lugar ao qual eu pertenço.

  • O que você está dizendo, Sallie?

  • Estou dizendo que o que faz você feliz necessariamente não me faz feliz. E que também estou pensando nas coisas. Tentando entender o que se passa entre nós. Não parece mais tão bom.

  • Sallie, esta é uma péssima hora para dizer isso.

  • As coisas não são mais as mesmas entre nós desde Luke.

  • Nada mais continuou igual - respondi.

  • Há algo que você se esqueceu de fazer a respeito de Luke, Tom.

  • O que foi?

  • Você se esqueceu de chorar.

Meu olhar passou pela praia, em direção ao farol. Em seguida, voltou pelo porto, até as luzes da ilha James.

Sallie continuou:



  • Não há um estatuto de limites em sua tristeza. Ela é impenetrá­vel. Você me colocou completamente de lado na sua vida.

  • Você se importa se mudarmos de assunto? - perguntei, sentin­do uma ponta de desprezo em minha voz.

  • O assunto somos nós. O assunto é saber se você parou de me amar, Tom.

  • Mas eu acabo de saber que minha irmã tentou se matar! - gritei.

  • Não. Você acaba de saber que sua mulher acha que você não a ama mais - ela respondeu com firmeza.

  • O que você quer que eu diga? - perguntei, sentindo sua neces­sidade de alcançar um lugar intocável dentro de mim.

Ela estava quase em lágrimas quando disse:

  • As palavras são simples. Tente isso: "Eu te amo, Sallie, e não poderia viver um único dia sem você."

Mas havia algo em seus olhos e em sua voz que tentava dar um recado muito mais triste. Então eu disse:

  • Há mais alguma coisa.

Sallie começou a chorar suavemente e havia desespero e traição em sua voz.

  • Não é mais alguma coisa, Tom, é mais alguém.

  • Meu Deus! - gritei para as luzes da ilha das Palmas. - Primeiro Savannah e agora isso!

Foi quando Sallie disse atrás de mim:

  • Esta é a primeira vez que você olha para mim em muitos me­ses. Preciso dizer que estou tendo um caso para que meu maldito marido perceba que estou viva.

  • Oh, Deus... Sallie, não, por favor - sussurrei, cambaleando e afastando-me dela.

  • Eu ia lhe contar quando fosse a hora certa. Detesto ter que falar neste momento, mas você vai embora amanhã.

  • Eu não vou. Não posso ir embora desse jeito.

  • Quero que você vá, Tom. Quero que você perceba como estou levando isso a sério. Posso até estar fazendo isso para te magoar. Não tenho certeza.

  • Posso perguntar quem é?

  • Não, ainda não.

  • Prometo não fazer nada desagradável ou selvagem. Pelo menos até voltar de Nova York. Eu gostaria de saber.

  • É o dr. Cleveland.

  • Ah, não! Aquele imbecil metido e intolerável? Pelo amor de Deus, Sallie, ele anda de motocicleta e fuma cachimbo. Um maldito cachimbo todo fresco!

  • Ele é melhor do que aquela animadora de torcidas de segunda classe com quem você teve um casinho - respondeu ela, furiosa.

  • Eu sabia que você ia dizer isso. Sabia que aquela imbecil metida a sedutora voltaria para assombrar minha vida até o fim dos meus dias. Sinto muito por aquilo, Sallie. Fui um idiota. Idiota. Idiota.

  • Aquilo me magoou mais do que você possa pensar.

  • Eu implorei que me perdoasse, Sallie. Estou implorando de novo. Fiz aquilo, e só Deus sabe como sofri, e prometi de joelhos que nunca mais o faria.

  • Agora você não precisa mais manter a promessa. O dr. Cleveland também está apaixonado por mim.

  • Bem, ótimo para o doutor Cleveland. O doutor Cleveland já con­tou à sra. Cleveland, aquele triste pilar apático de nossa comunidade?

  • Não, ainda não. Está esperando a hora certa. Queremos ter cer­teza, para não magoar ninguém sem necessidade.

  • Que pessoas tão generosas! Deixe-me fazer uma pergunta, Sallie. Quando seu bipe toca durante a noite e você é chamada ao hos­pital para uma daquelas inumeráveis emergenciazinhas, você também não vai inspecionar o cachimbo do bom médico?

  • Essa pergunta é revoltante, Tom, e você sabe disso.

  • Quero saber se vocês fazem esse tipo de uso do bipe, o mais sagrado, o mais odioso símbolo da imbecilidade do médico nos Estados Unidos.

  • Sim! - gritou ela. - Fizemos isso umas duas vezes, quando não havia outro jeito. E o faria novamente se não houvesse outro jeito.

Senti um desejo irresistível de bater nela. Como o fantasma de um pai violento que voltasse para dominar meu sangue, senti esse impul­so de poder alojar-se em meu coração. Cerrei os punhos e, por um momento, lutei com todas as forças contra o homem que eu fora con­dicionado a ser. Controlei-me e mandei meu pai para o exílio nova­mente. Relaxei os punhos, respirei fundo e gritei:

  • É porque estou ficando gordo, Sallie? Por favor, diga que é isso. Ou será porque estou ficando careca? Ou talvez seja porque eu lhe disse que tenho o pênis pequeno? Sou um dos poucos homens deste país com coragem suficiente para admitir que tem o pinto pe­queno. Eu só lhe disse isso porque você sempre se sentiu mal por ter os seios pequenos.

  • Meus seios não são tão pequenos.

  • Nem o meu pobre e difamado pênis.

Fiquei surpreso quando Sallie riu. Havia algo puro em seu senso de humor que ela não podia controlar sequer nos momentos mais sérios de sua vida. Sua risada era intimamente ligada à sua generosida­de, e não podia ser dominada.

  • Está vendo, ainda há esperança, Sallie. Você ainda me acha di­vertido e eu sei, por acaso, que a última vez que o dr. Cleveland riu foi logo depois que Woodrow Wilson foi eleito, em 1913.

  • Ele só é 11 anos mais velho do que nós.

  • Hã! Outra geração! Odeio velhos que andam de motocicleta. Odeio jovens que andam de motocicleta.

Na defensiva, Sallie disse:

  • Ele é um aficionado. Só coleciona motocicletas inglesas.

  • Por favor, poupe-me dos detalhes. Não me diga que está me deixando por um homem que coleciona cachimbos cheios de frescura e motocicletas inglesas. Eu me sentiria muito melhor se você me dei­xasse por um homem tatuado de circo, um comedor de fogo ou um anão que anda de monociclo.

  • Eu não disse que estava deixando você, Tom. Disse que estava pensando nisso. Encontrei alguém que me acha maravilhosa.

  • Você é maravilhosa - choraminguei.

  • Não vamos mais discutir esta noite, Tom. Já foi bastante difícil lhe contar e não estou querendo aumentar seus problemas.

  • Ah! - disse, com uma risada amarga. - Uma insignificância, meu bem.

Não falamos mais nada por um longo tempo. Então, Sallie rom­peu o silêncio:

  • Vou voltar para casa para dar um beijo de boa-noite nas meni­nas. Você quer vir?

  • Mais tarde. Vou ficar aqui mais um pouco. Preciso pensar em tudo isso.

  • Não sei o que aconteceu. Não sei o que aconteceu com o luta­dor com quem me casei - disse Sallie, com ternura.

  • Sim, você sabe. Aconteceu Luke.

Subitamente, ela me abraçou e beijou meu pescoço, mas, no auge da minha honradez, eu era um escravo do ego masculino; com a reti­dão patriarcal do macho desprezado, não pude retribuir o beijo ou recobrar a importância daquele momento de encanto. Sallie se voltou e continuou andando em direção à casa.

Comecei a correr pela praia. No início, estava controlado, pacien­te, mas, em seguida, forcei-me até correr como um louco, suando muito e ofegando. Se pudesse fazer o corpo sofrer, não sentiria a alma se despedaçar.

Enquanto corria, refleti sobre o triste declínio da carne. Lutei para aumentar a velocidade e lembrei que, no passado, fora o quarterback mais veloz da Carolina do Sul. Loiro e com muita vitali­dade, eu vinha do fundo do campo com os jogadores de linha avan­çando em minha direção num êxtase em câmera lenta, enquanto os contornava e ia de encontro aos gritos da multidão para, em seguida, abaixar a cabeça e me deslumbrar com os movimentos instintivos latentes em algum lugar ágil e doce dentro de mim. Mas nunca cho­rei ao correr nos jogos da escola. Agora, eu corria pesadamente, desesperadamente, para longe de uma esposa que havia arranjado um amante porque eu fracassara como amante; para longe de uma irmã que gostava de mexer com lâminas; para longe de uma mãe que não entendia a terrível história entre mães e filhos. Corria para longe daquela história, pensei - daquela pequena fatia amarga e ultra­jante da história americana que era minha própria vida -, ou para uma nova fase dela. Diminuí a velocidade, exausto e suando muito. Comecei a caminhar para minha casa.



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