Paul Gibier Análise das Coisas



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Capítulo II


Encadeamento geral das coisas. – A ciência dos antigos era vasta e profunda, como o demonstram as descobertas modernas. – Razão pela qual eles não a divulgavam. – Da necessidade de elevar o pensamento para fazer uma idéia mais justa das coisas. – O que o autor entende por zona lúcida. – Princípio e conseqüências da independência do absoluto. – Opinião de Laplace. – Materialização da energia. – A origem dos mundos. – Formação dos sóis, dos planetas. – Idéias de Laplace sobre a pluralidade dos mundos habitados. – Fim dos mundos. – A noite de Brama. – Que fica sendo a consciência do homem entre as ruínas do Universo? – O homem, célula do Grande Ser. – Velocidade de translação das estrelas chamadas fixas.

O leitor não deve ficar surpreendido se, antes de abordar o estudo do homem e a análise de sua essência, o autor julga dever dar uma idéia do grande Todo, no qual cada molécula, cada átomo dos que já tratamos, estão, desde o grão de areia até os sóis imensos, ligados, encadeados uns aos outros por laços cujos fios são invisíveis aos olhos do corpo, mas que o pensamento adivinha e concebe.

Neste estudo das coisas, os antigos são nossos mestres, não podemos negar-lhes esta justiça. As descobertas da ciência moderna não nos vão cada dia pondo à altura de entendermos claramente muitas passagens desses escritos, cujo sentido as gerações precedentes mal podiam entrever? A análise espectral, por exemplo, mostrando-nos a analogia de composição existente entre as estrelas – esses sóis que iluminam e vivificam miríades de terras – e nosso Sol; esta mesma análise permitindo-nos palpar, por assim dizer, a identidade de composição deste último e da Terra, cuja origem indica ao mesmo tempo, não nos dá ela a explicação dos versos de Lysis, discípulo de Pitágoras, conhecidos pelo nome de versos dourados dos pitagóricos:

Saberás, se o quiser o céu, que a natureza
é semelhante em tudo e a mesma em toda parte?

Precisamos, pois, por meio das luzes da ciência moderna, tratar de esclarecer-nos sobre os símbolos hieroglíficos da ciência antiga, os quais nos foram conservados. Por que razão todos os antigos escritores sagrados – pagãos, judeus-cristãos, etc. – empregaram tanto cuidado e unanimidade em repetir que “Deus fez o homem à sua imagem”, ou que “o homem é um microcosmo” – o que, sob o ponto de vista hermético, significa exatamente a mesma coisa? É que a maior parte desses escritores, versados em uma ciência que, sem dúvida, os homens vulgares ainda não merecem conhecer, haviam surpreendido a analogia de composição do homem e do Universo; haviam aprendido experimentalmente que os elementos da “tétrade sagrada” se encontram no homem. Eles não tinham esperado F. Bacon para inventar o método experimental, mas não divulgavam a todo mundo os segredos que arrancavam à Natureza: sagrado para eles, significava aquilo que o vulgo não devia saber; como, porém, não quisessem que ficassem perdidas as suas descobertas, assinalaram-nas em expressões obscuras, velaram-nas sob figuras simbólicas que servissem de guia à memória de seus discípulos, ou provocassem a atenção do observador não vulgar e bom, em cuja inteligência eles devessem reviver um dia.

Não, para compreender-se a essência da vida não é inútil fazer-se o exame comparado do Universo e do homem, do macrocosmo e do microcosmo.

E depois, só podemos ter concepções claras das coisas elevando nossa alma acima das operações ordinárias do pensamento, de onde nascem, quase sempre, os preconceitos, as idéias errôneas, as ilusões a respeito do que nos cerca. É mister libertarmos, embora momentaneamente, o nosso espírito do quadro estreito da vida cotidiana, a cujas exíguas dimensões ele tende a amoldar-se. A concepção da natureza do homem é daquelas.



* * *

Spinoza diz que devemos encarar as coisas sob um caráter de eternidade. Irei mais longe: sustento ser conveniente que nos habituemos a considerar tudo em relação com o espaço e o tempo, com a imensidade e a eternidade. Quão minúsculos nos apareceriam grandes acontecimentos e altas situações, se os sujeitássemos ao cálculo desta regra de proporção? Mas, é esta uma operação que não está ao alcance de toda gente; non licet omnibus...

Outra condição que importa também não desprezar é a de curar-se o homem desse orgulho que acompanha inevitavelmente uma má educação científica e uma instrução especializada, incompleta, como são tão freqüentes em nossos dias. Pessoas muito esclarecidas em um pontinho especial dos conhecimentos humanos julgam poder decidir arbitrariamente sobre todas as coisas e repelem sistematicamente toda novidade que lhe choque as idéias, quase sempre por este único motivo – que em geral não confessam – que se aquilo fosse verdade, elas não podiam ignorar! Por minha parte, encontrei freqüentemente esse gênero de basófia entre homens cuja instrução e estudos deveriam preservá-los dessa deplorável enfermidade moral, se não tivessem sido especialistas, escravos da sua especialidade. É sinal de inferioridade relativa uma pessoa julgar-se superior!

Enfim, o número de inteligências que sofrem de lacunas é maior do que se julga geralmente. Do mesmo modo que determinados indivíduos são totalmente refratários ao estudo da música, das matemáticas, etc., a outros muitos estão interditas certas investigações do pensamento. Uns, que se distinguiram nesta ou naquela classe de ocupações: na medicina ou na mercearia, na literatura ou na arte de fabricar panos, segundo toda a probabilidade, teriam lastimosamente falhado se houvessem escolhido – como outros tantos que abarrotam o mundo – uma carreira situada fora do que chamarei a zona lúcida, à semelhança da ação dos refletores que, durante a noite, transmitem a luz a uma zona de feixes luminosos, fora dos quais só há sombra e incerteza.

Coisas existem que não estão ao alcance da concepção de certas inteligências: estão fora de sua zona lúcida.

É inútil insistir mais: algum crítico mal disposto poderia reconhecer-se nestas observações e acusar-me, em represália, de haver escolhido um assunto fora da minha própria zona. Queiram os deuses preservar-me de semelhante infelicidade!...



* * *

Desembaraçado o nosso pensamento das profundezas atômicas da matéria, onde esteve engolfado, se o transportarmos ao espaço e considerarmos o macrocosmo na imensidade, veremos que a comparação da molécula com a nebulosa é racional. Ignoramos as leis dos movimentos moleculares, e se estamos mais familiarizados com as que governam os planetas do nosso sistema, igualmente desconhecemos as leis dos movimentos estelares. Mas, nada nos inibe de supor que, atendendo à lei da independência do absoluto, os movimentos da molécula, como a concebemos, sejam comparáveis aos das estrelas e seus planetas, subentendendo-se que as proporções do tempo de evolução da molécula devem ser reduzidas às do espaço em que ela evolui. E se existissem seres inteligentes sobre estas pequenas massas, planetas “interatômicos” possuindo dimensões proporcionadas à sua “terra”, estes seres não perceberiam os tão rápidos movimentos dela, como nós não percebemos os da nossa, que nos arrasta, entretanto, através do espaço com uma velocidade aproximada de 30 quilômetros por segundo; sua vida, que seria tão curta como o mais rápido pensamento, correria, talvez, em ocupações relativamente tão numerosas e tão longas como as nossas, senão igualmente fúteis como em regra geral; achariam o tempo tão longo como nós, e o seu orgulho pela grandeza de suas obras não seria, sem dúvida, inferior em coisa alguma ao dos homens... o que seria muito legítimo.

Esse princípio da independência do absoluto foi distintamente percebido por Laplace, como o prova este trecho da sua Exposição do sistema do mundo:

“Uma de suas propriedades notáveis, a da atração – escreve ele –, é que se as dimensões de todos os corpos do Universo, suas distâncias mútuas e velocidades crescessem ou decrescessem proporcionalmente, descreveriam curvas inteiramente semelhantes às que descrevem, de modo que o Universo ofereceria sempre a mesma aparência aos seus observadores. Estas aparências são, por conseguinte, independentes do movimento absoluto que possa haver no espaço. A simplicidade das leis da Natureza não nos permite, pois, observar e conhecer senão as relações.”

Interroguemos agora estas outras moléculas do infinito, as estrelas, os sóis azuis, brancos, negros (que, sem dúvida, existem, mas estão apagados; os planetas são parcelas de sóis resfriados), os sóis vermelhos, as estrelas amarelas, constelações nebulosas, vias-lácteas – que são aglomerações de estrelas – e entre elas nosso sol, separadas somente por distância de alguns milhões de léguas: eis por que observadas da Terra elas se confundem. Perguntai-lhes como se formaram.

Considerai os cometas, dir-nos-ão esses gigantes dos campos celestes, que nada mais são além de “matéria cósmica”, que se busca e se acumula para, mais tarde, em um ponto do infinito, formar um novo mundo solar. Nesse estado, a energia, tomando a forma de átomos para se confederar em moléculas, ainda não saiu completamente do estado potencial; mas, basta que um ponto se materialize, e todas as moléculas novas irão precipitar-se sobre este ponto; e a energia, encontrando-se sob sua nova forma – a matéria –, passará ao estado dinâmico. Multiplicar-se-ão as chuvas de moléculas; os pontos de energia materializada precipitar-se-ão uns sobre os outros, desenvolvendo tal quantidade de calor a ponto de se volatilizarem; e assim se formam os sóis que giram nos céus. Destes sois em fusão, escapam-se massas anulares volatilizadas, que esfriam no espaço onde se vão perder. Perder-se não é o termo, porque elas são retidas pela atração – ou segundo Newton – “quam ego attractionem appello” (o que denomino atração), pela atração do seu sol, cujos planetas ficam sendo. Eis o que nos dirão as estrelas.

É assim “que a gravidade, por um vasto e lento processo de cristalização, cujo progresso nas profundezas do espaço o astrônomo contempla com emoção, devia condensar, pouco a pouco, a matéria então prodigiosamente dilatada e confeccioná-la em sistemas estelares, solares e planetários”. (E. Jouffret.)

Acrescentemos agora que a vida existe sempre em todos os períodos sobre os sóis e seus planetas, e que afinal se adapta ao meio. Será lícito supor que a vida não possa manifestar-se neste ou naquele planeta, porque é mais frio ou mais quente que o nosso, mais próximo ou mais afastado do seu sol? Vejamos a resposta:

“O Sol, fazendo viver, pela ação benéfica de sua luz e calor, os animais e as plantas que enchem a Terra, deve analogamente produzir efeitos semelhantes sobre os outros planetas; porque não é natural pensar-se que a matéria, cuja atividade vemos desenvolver-se de tantos modos, seja estéril sobre um planeta tão grande como Júpiter, que tem, como o globo terrestre, seus dias, noites e anos, e sobre o qual os observadores notam mudanças que indicam forças muito ativas. Entretanto, seria dar demasiada extensão à analogia, concluir por isso a semelhança entre os habitantes dos planetas e os habitantes da Terra. O homem, feito para a temperatura de que goza e para o elemento que respira, não poderia, segundo toda a aparência, viver em outros planetas. Mas, não existirá neles uma infinidade de organizações relativas às diversas constituições dos globos do Universo? Se a única diferença dos elementos e dos climas põe tanta variedade nas produções terrestres, quanto mais devem diferir as dos diversos planetas e seus satélites? A imaginação mais ativa não pode fazer uma idéia delas; mas a sua existência é muito verossímil.” (Laplace, Essai sur les Probabilités.)

Depois que a Ciência nos fez assistir à formação dos sistemas, à gênese dos mundos, seja-nos permitido perguntar-lhe para que todo esse movimento, toda essa agitação! Dou ainda a palavra aos mais autorizados na questão. Diz E. Jouffret:

“Segundo um cálculo de Helmholtz, o sistema solar não possui mais que 454ª parte da energia transformável, que ele possuía no estado de nebulosa. Embora esse resíduo constitua ainda provisão, cuja enormidade nos confunde o entendimento, ela será um dia consumida também. Mais tarde, a transformação terá lugar no Universo inteiro e, por fim, estabelecer-se-á um equilíbrio geral de temperatura, como de pressão.

A energia não será mais, então, suscetível de transformação. Não será mais o nada uma palavra privada de sentido, nem será a imobilidade propriamente dita, porquanto a mesma soma de energia subsistirá, sempre, sob a forma de movimentos atômicos; mas será a ausência de todo o movimento sensível, de toda a diferença e de toda a tendência, isto é, a morte absoluta.

Os planetas não mais circularão em torno dos sóis extintos. Produzir-se-ão aglomerações sucessivas, tendo desenvolvido de cada vez um imenso calor 3 e podendo recomeçar um período vital mais ou menos longo; tendo criado sistemas solares cada vez mais gigantescos, porém menos numerosos; tendo finalmente chegado a tudo reunir em uma única massa, que, depois de haver girado muito tempo sobre si mesma, acabará por tornar-se imóvel relativamente ao espaço ambiente; massa daí em diante homogênea, insensível, da qual nada perturbará mais o medonho repouso.

Tal é, admitida a permanência das leis que regem hoje a Natureza e, segundo o raciocínio, o estado a que há de chegar o Universo...

Laplace, enganado pelo cálculo, não suspeitou esse desmoronamento final.”

* * *

E o anjo... jurou que não haveria mais tempo algum d’ora em diante.

(Apocalipse, 10: 5-6)

Tal é o destino do mundo: como todo ser que vive passou pelo estado embrionário, teve sua infância, adolescência e maturidade; a decrepitude da velhice já começou.

Tais são, pelo menos, as conclusões da ciência moderna com o conhecimento dos dois elementos “que estão colocados nos dois ângulos inferiores do triângulo”, quero dizer: a matéria e a força, ou energia.

Fato curioso: os bramas e os pandits (sábios filósofos do Oriente) possuem há milhares de anos uma cosmogonia idêntica: em sua linguagem simbólica denominam eles esse “desmoronamento final” das esferas, esta parada do Universo no ponto morto, “a noite de Brama”, a noite durante cujos inúmeros séculos, depois de haver reabsorvido tudo em si, os deuses juntamente com as coisas, “o Antigo dos dias” repousa, contemplando-se em seu Parabrahm Eterno.

Que fica sendo o homem no meio dos destroços de astros, volatilizando-se ao choque uns dos outros? Que fica sendo a consciência do ser e que sorte vai ser a sua? A Ciência ainda se não ocupa disso, mas forçosamente vai ser levada ao estudo destas coisas, porque as manifestações da consciência, no além-da-vida, começam a chamar-nos a atenção, a reclamar o nosso exame.

* * *

O homem aí está, pobre ser finito, no meio do espaço sem limites, quer em largura, quer em profundidade ou em todas as direções; fraco quando treme, mas tão forte como o mundo, quando o compreende e se resigna a ser uma célula do Grande Ser! Pode ele, limitado, conceber o que não tem limites; observa, há milhares de anos, estrelas que não parecem mudar de lugar; as figuras da esfera celeste permanecem as mesmas... e todavia os instrumentos inventados pelo seu gênio permitem-lhe calcular, por exemplo, que as estrelas chamadas fixas se afastam ou se aproximam dele com a velocidade de 20, 30, 35 e mais quilômetros por segundo! Dez, vinte, trinta vezes mais rápidas que uma bala ao sair do cano de uma espingarda. Assim Sírius, entre outros, que, situado a 39 trilhões de léguas da Terra, afasta-se dela na razão de 700.000 léguas por dia, como o demonstra a análise espectroscópica desse sol.

E o homem aprende a não se admirar: o Espírito dilata-se-lhe até esses mundos inacessíveis à vista vulgar. Visita-os em pensamento durante o tempo de um relâmpago. Torna a entrar em si mesmo e, conseguindo não conceber o louco orgulho por essa gloriosa ascensão, torna-se deus ele próprio!

Pode também saber os riscos que corre como emanação material do planeta, sobre o qual percorre vertiginosamente o espaço: isto não poderá perturbá-lo, se ele conhecer... Mas não antecipemos. Voltemos à superfície da esfera terrestre, procuremos aí o microcosmo e vejamos o que a ciência moderna ensina a seu respeito.




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