Paul Gibier Análise das Coisas



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Parte Segunda

Estudo do Microcosmo

Capítulo I


Resumo dos conhecimentos sobre nós mesmos, que a fisiologia nos tem dado até hoje no ponto de vista psíquico. – Doutrina físico-química. – Doutrina animista, vitalista. – Doutrina materialista moderna. – Opinião de Claude Bernard sobre a matéria viva. – Opinião de diferentes médicos, sábios, etc. – A vida, a inteligência, são simples propriedades da matéria? – Vida orgânica, animal, intelectual. – Marcha do influxo nervoso. – Velocidade da onda nervosa nos nervos. – A patologia mostra que nem a vontade, nem a consciência tem sede exclusiva em um ou outro hemisfério cerebral. – Opiniões modernas sobre as propriedades das células nervosas. – As idéias serão apenas minúsculas descargas elétricas produzidas pelas células nervosas? – Papel do método positivo.

Não entra no plano deste estudo fazer o histórico das diversas teorias emitidas a respeito dos fenômenos que presidem à conservação das funções da matéria organizada, isto é, à vida. Suponho que as doutrinas físico-químicas, animista, vitalista ou stahlista, etc., são conhecidas do leitor. Recordemos que, de uma parte, uns não queriam ver na vida senão um conjunto particular de fenômenos regidos pelas leis da Física e da Química, ao passo que outros, os animistas, consideravam-na como a manifestação onipotente da alma (Stahl) ou de um arqueu inferior (Basile Valentin, Van Helmont, etc.). Esta coisa imaterial, segundo os animistas, é o grande deus ex machina da vida; é ela que fiscaliza o bom funcionamento das células, preside às secreções e regula, em uma palavra, todos os atos da vida orgânica, a inteligência ou parte intelectual da alma, conservando-se acima do todo.

Apesar das tendências materialistas da nossa época, não foram adotadas as idéias quimiátricas dos antigos materialistas que confundiam a Biologia com a Química e a Física, mas apegaram-se a uma hipótese quase eclética, que me não parece destinada a satisfazer por muito tempo, mesmo aos espíritos menos exigentes. A vida, disseram em resumo, é uma propriedade particular da matéria organizada, contanto que esta última esteja colocada em certas condições favoráveis. A vida apenas representaria, assim, uma qualidade especial da matéria, quando ela está “organizada”, do mesmo modo que o volume, o peso, etc., são propriedades da matéria em geral.

Entretanto, Claude Bernard, o maior fisiologista do século, disse que de si própria a matéria organizada, mesmo a matéria viva, é inerte, “no sentido de que ela deve ser considerada como desprovida de toda a espontaneidade”. Mas, acrescenta ele, esta matéria viva pode entrar em atividade e manifestar suas propriedades especiais de vida sob a influência de uma excitação, porque a matéria é “irritável”.

Se admitirmos, com o ilustre e pranteado fisiologista do Colégio de França e do Museu de História Natural, que a matéria viva seja inerte quando não irritada, ao passo que manifesta suas propriedades particulares sob a influência de uma excitação, ficamos autorizados a emitir a hipótese de poder existir um agente excitante da matéria viva fora e talvez independente dela. E se esse agente de irritação, isto é, de vida, existe fora da matéria, não podemos dizer que a vida, ou o que produz as manifestações da vida, tal como os nossos sentidos no-la mostram, seja uma propriedade da substância organizada e viva?

Mas, exprimir-se alguém por esta forma não será fazer jogo de palavras? Não poderíamos opor a Claude Bernard suas próprias experiências? Não teríamos o direito de objetar que se a matéria organizada e viva fosse inerte, se precisasse de excitante exterior para manifestar suas propriedades, ninguém compreenderia como a célula hepática continua, de acordo com sua demonstração, a segregar açúcar muito tempo depois de o fígado ser separado do corpo? Veremos mais longe como, por meio das luzes da ciência nova, que não despreza as descobertas anteriores, chegaremos a uma solução satisfatória.

Acabam de ser esboçadas, muito rapidamente, as principais teorias emitidas sobre a vida. Veremos em seguida quais são as idéias chamadas científicas que reinam geralmente em nossos dias sobre a inteligência.

Devo dizer que nem sempre encontrei idéias bem claras entre os sábios (médicos, fisiologistas, biologistas, etc.), aos quais nunca deixei de interrogar sobre o assunto, cada vez que me era possível provocar ocasião para isso.

Alguns, principalmente na Alemanha, não hesitaram em responder-me que, na sua opinião, a vida e mesmo a inteligência não passam de propriedades da matéria, a qual, aperfeiçoando sua organização sob as leis da evolução (Hæckel), tende a produzir fenômenos (que denominamos vitais) cada vez mais complexos. Estas leis, em dado momento, devem ter-se organizado ou polarizado, caso seja preferida esta expressão, da maneira pela qual as observamos presentemente, sobre este ponto do espaço; e isso de modo completamente arbitrário, se considerarmos somente o ponto de partida, a origem do estado atual, porque ele seria apenas a conseqüência de outros estados anteriores.

Em França, muitos médicos distintos, principalmente um ilustre patologista dos centros nervosos, deram-me respostas análogas; porém o maior número de sábios aos quais me dirigi, responderam-me de modo a provar-me que o aferro às suas especialidades não lhes dava tempo de meditar e fazer escolha de uma opinião sobre esse ponto. Aconteceu a mesma coisa em Espanha, na ilha de Cuba, onde não faltam homens cultos, e na América do Norte.

Mas, indo diretamente ao fato e resumindo: nas Ciências, hoje, a tendência dominante está em considerar a vida e a inteligência como manifestações, ou, antes, como propriedades da matéria viva; propriedades essencialmente transitórias, como a própria substância que, de alguma sorte, as segregasse: “O cérebro segrega o pensamento como o rim segrega a urina”, disse um profundo pensador germânico!

Todavia, apresso-me a dizer que se tal é a opinião mais espalhada entre os que parecem ter opinião, uma minoria imponente que professa, quer in petto, quer abertamente, opiniões espiritualistas variadas, ou, antes, sem preocupação de discussões físico-metafísicas, embalando-se em uma dúvida indiferente ou imóvel, repete com Montaigne: “Que sei eu?”

Acrescentarei que uma reviravolta sensível se vai operando, e não temo afirmar que o movimento espiritualista se acentua progressivamente, máxime na parte esclarecida da moderna geração. Depois da publicação da minha obra sobre os fenômenos psíquicos, ser-me-á, talvez, lícito dizer a propósito desse movimento: Cujus pars parva fui?

* * *

Sem pretender expor em poucas linhas as aquisições da análise e da observação psicológica, vou, não obstante, tratar de mostrar sumariamente os dados da ciência positiva sobre as principais funções psiconervosas, na medida necessária aos fins do presente trabalho.

As funções do sistema nervoso na conservação da vida orgânica são ainda muito obscuras. Se a anatomia e a histologia do aparelho ganglionar estão bem estudadas, o mesmo não se pode dizer da sua fisiologia. Evidentemente, o papel do sistema nervoso na vida orgânica é dos mais importantes; mas, qual o papel representado pelas diferentes partes desse sistema? Os gânglios simpáticos são centros ou somente aparelhos de reforço, de suprimento?... O que há de certo é que o grande simpático, agente principal incontestado da vida vegetativa, transmite muito rapidamente à periferia as impressões centrais que agitam o órgão da inteligência; exemplo, para citar só um fato: a rapidez com que nossos rostos se cobrem de rubor ou de palidez, segundo a natureza e a força das impressões recebidas. Neste caso, os nervos simpáticos entram em jogo, após excitação recebida do centro intelectual, dilatando ou contraindo as arteríolas da face.

As experiências de sugestão hipnótica, em que se vê, por exemplo, a idéia sugerida de um vesicatório produzir uma bolha de serosidade, no ponto designado da pele do sugestionado, mostram sob uma nova luz a estreita intimidade que une o sistema nervoso central da ideação aos nervos da vida orgânica; mas, se atualmente a ciência vulgar é incapaz de mostrar-nos outra coisa além de certo número de efeitos nos atos da vida orgânica, não dá neste, como em outros muitos casos, nem um só porque ou uma só causa primitiva.

Sob o ponto de vista animal, entre os agentes vitais ou excitadores da matéria viva, conseguiu-se de algum modo analisar o que determina o fenômeno do movimento consciente voluntário, que tomarei para exemplo. Assim, pelo fato de dobrar um dedo, sabemos, ou, antes, presumimos que o primeiro tempo deste ato tem lugar na camada cortical das células pardas, da parte anterior dos lóbulos cerebrais (volição). As células nervosas da camada cortical enviam a excitação através das fibras brancas da coroa radiante (fibras cruzando-se em diversos sentidos em grande parte do corpo caloso) aos núcleos centrais do hemisfério oposto; estes, pelas fibras centrífugas, ou por um movimento retrógrado, se assim preferirmos, reenviam o influxo às células da substância parda e das circunvoluções, no ponto de localização correspondente aos movimentos do membro superior (terço superior da circunvolução frontal ascendente, e metade anterior do lóbulo paracentral, sobre a cesura de Rolando). Deste último ponto, o fluido nervoso, que deve excitar as fibras musculares do antebraço a entrarem em contração, repassa sem dúvida pelos núcleos centrais, para daí descer à medula alongada, à medula espinhal e aos nervos do plexo braquial, até aos músculos flexores colocados no antebraço, e do qual um feixe, contraindo-se, produz a flexão do dedo que procuramos mover.

A experiência permitiu a Helmholtz calcular a velocidade do fluido de que falei há pouco, concluindo que a corrente nervosa, ou a onda vibratória nervosa, percorre os nervos com uma velocidade de 20 a 30 metros por segundo. Em outros termos, uma excitação produzida à origem de um nervo motor, se este tivesse o comprimento de 30 metros, gastaria um segundo para fazer contrair os músculos situados na outra extremidade deste nervo. O mesmo sucederia, fica entendido, com um nervo sensitivo; somente a onda ou corrente nervosa seguiria marcha inversa, isto é, centrípeta. Como se vê, é uma velocidade pouco considerável, principalmente comparada à da eletricidade.

O que parece indicar que os diferentes movimentos da energia nervosa, neste caso particular, devem seguir o trajeto que descrevi no cérebro, partindo de um centro volitivo, é que um homem atacado de uma paralisia da metade do corpo (hemiplegia), embora seja incapaz de fazer agir os centros motores cerebrais destruídos, possui ainda a faculdade de querer o movimento dos membros que, embalde, ele se esforça por produzir. Este fato permite supor que a vontade tem sua sede independente, e que não se acha localizada mais especialmente em um hemisfério central do que em outro. O mesmo acontece com a consciência.

* * *

Os órgãos centrais do cérebro seriam – sempre de acordo com a teoria atual – não os instrumentos de uma inteligência operando por seu intermédio, porém órgãos aptos por si mesmos, pelo simples efeito de sua nutrição e sem excitamento que lhes seja externo, à emissão de forças que operam sobre as fibras. É o que designamos sob o nome de automatismo dos centros nervosos. Quanto aos “fenômenos denominados da vontade, sem dúvida não passam de uma forma complicada de atos reflexos”. A memória seria apenas um efeito do “poder que possuem os glóbulos nervosos de conservar certas excitações e deixá-las manifestar-se em dado momento”.

Vê-se, pela análise da teoria que acabamos de ler, teoria encontrada no livro de fisiologia mais popular entre estudantes de medicina,4 que a inteligência e suas manifestações são implicitamente consideradas como propriedades da matéria organizada, sob forma de células nervosas.

Estas células nervosas, segundo Rosenthal, são dotadas, no ponto de vista de suas funções, de quatro propriedades:

1º) podem ser espontaneamente a sede de uma auto-excitação, isto é, sem intervenção de causas exteriores;

2º) podem transmitir a excitação a outra célula nervosa, a que se acham ligadas por fibras igualmente nervosas (substância branca);

3º) podem perceber uma excitação e transformá-la em sensação;

4º) são capazes de suprimir uma excitação existente.

A estas quatro propriedades, um jovem filósofo e literato cubano, o Sr. Varona, acrescenta uma quinta, que pode ser considerada uma amplificação da primeira de Rosenthal: “os glóbulos nervosos são aptos a renovar espontaneamente, ou por causas puramente internas, uma sensação percebida anteriormente”.

As idéias seriam combinações destas propriedades e compor-se-iam unicamente de elementos sensitivos e motores. E todas as sensações, idéias e pensamentos seriam apenas movimentos produzidos no seio da substância nervosa, movimentos de ordem elétrica, provenientes das fracas descargas dos elementos motores e sensoriais do substrato anatômico (Hughlings Jackson). As experiências de Du Bois-Raymond sobre a intervenção da eletricidade nos fenômenos nervosos parecem apoiar esta engenhosa teoria.

Não podemos desconhecer que os fenômenos psíquicos secundários aos atos de compreensão, de concepção ou de volição, se passam como se fossem produzidos por uma força elétrica; todavia, convém observar que, se a corrente nervosa, percorrendo os nervos, determina – pelo fato de uma modificação molecular hipotética – uma mudança de direção na agulha de um galvanômetro ultra-sensível, ela não se comporta, entretanto, ao menos no ponto de vista da velocidade, como uma corrente elétrica ordinária. Mas, esta questão é, quando muito, secundária, porque supondo-se conhecida a corrente centrípeta ou centrífuga que segue os cordões nervosos, não creio que as teorias, de que tanto trato de dar neste momento uma idéia, possam satisfazer plenamente, mesmo aos seus próprios defensores atuais, no que diz respeito à causa primária interior dos fenômenos psíquicos.

Mostram-nos bem, neste aparelho suposto elétrico, a campainha e seu mecanismo, o tímpano e o martelo, a mola e o eletroímã; dissecamos, passando pela pilha cérebro-espinhal, os fios condutores semelhantes aos cilindros-eixos metálicos, que são isolados nos aparelhos como se fossem com a nevrilema de seda ou de goma; podemos ouvir o som dado pelo aparelho e mesmo sentir o fluido, mas não percebemos o dedo invisível que faz o contato e fecha a corrente, graças ao qual a máquina funciona.

Por mais cuidado que empreguemos no exame do sistema nervoso e particularmente do cérebro, nada vem apoiar as teorias diversas, imaginadas em favor da matéria ou do espírito. Isto o precitado Sr. Varona observa em seu notável trabalho. Diz ele:

“Contemplando esta massa globulosa, tão cheia de anfractuosidades, sulcada por cesuras diversas, do peso de duas a três libras, parda em alguns lugares, esbranquiçada em outros, experimentei sempre a maior impressão de espanto possível. Pareceu-me ver o grande enigma da psicologia surgir diante de mim e sob a mais viva luz mostrou-se-me a vaidade do homem em todas as soluções.

A fisiologia não me faz descobrir, neste grande centro, nem outros tecidos, nem outros elementos, ou funções além das já conhecidas. Tudo quanto o exame mais minucioso faz realçar é uma diferença de estrutura pouco importante em si mesma. É, entretanto, o mundo maravilhoso da inteligência e da imaginação, as grandezas e as misérias do sentimento, os heroísmos e os desfalecimentos da vontade: tudo o que constitui o homem, tudo que eleva e avilta ao mesmo tempo a Humanidade, tudo está ali!” 5

Terminarei este capítulo por estas considerações filosóficas, que resumem o sentimento de um distinto psicólogo da escola positivista. Aqui não é lugar de analisar e discutir a doutrina positiva atual e as opiniões de seus defensores, dos quais intencionalmente só cito um dos mais jovens, se bem que muitos documentos soberbos merecessem examinados. Direi somente que, se há motivo de orgulho para o espírito humano, é o de ver-se a que altura de sentimentos, a que penetração de vistas chegaram homens a quem, para guiar-se no labirinto inextricável da fisiologia cerebral, faltou até há pouco tempo o fio de Ariadne da grande experimentação psicológica. Mas uma era nova começa; os espíritos, preparados pelo método positivo, vão poder avançar muito mais seguramente do que nos tempos passados, sobre o terreno verdadeiramente psicológico que solicita novamente as nossas investigações. Alguns positivistas retardatários resistirão, ainda durante algum tempo, mas o positivismo em corpo seguirá bom rumo, agora que foi desbravado o terreno.

Cada qual, a seu modo, desempenha o seu papel no concerto das coisas; aquele, por exemplo, que despende um talento consciencioso em sustentar uma doutrina errônea é, as vezes, um simples agente inconsciente dos desígnios da Providência; em vez de ocultar a verdade, como parecia fazê-lo, suas obras servem, muitas vezes, a preparar-lhe as veredas e assegurar-lhe o triunfo.



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