Paul Gibier Análise das Coisas



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Capítulo II


Papel futuro da fisiologia experimental no estudo da essência da vida, do éter vital. – O fisiologista-psicólogo deverá prosseguir neste estudo até depois da morte. – Matéria e energia admitidas como dois elementos constitutivos distintos do Universo. – Se no Universo só há matéria e energia, a consciência deve extinguir-se com a morte, esta derradeira função do corpo. – Há um terceiro elemento ou princípio. – Antigüidade do materialismo como do espiritualismo. – Opinião de Salomão, de Moisés, das seitas budistas orientais. – Passagem das Ruínas de Volney. – Panteísmo. – Nirvana. – O nada. – Causas que produzem o desacordo entre os filósofos. – Todos entender-se-ão um dia, ao menos sobre as idéias primordiais, graças à ciência experimental.

Vimos no capítulo precedente que, até ao presente, os estudos fisiológicos clássicos nada ensinaram sobre a natureza real da vida. Chegaram os tempos em que o fisiologista-psicólogo, possuindo já uma base séria de conhecimentos positivos, deve imprimir às suas pesquisas uma direção mais audaciosa. Abandonando o campo da vida limitada pela morte, terá que analisar este último fenômeno, esta derradeira função do corpo, e experimentalmente estudar, como os hierofantes antigos, seus predecessores e mestres nessa matéria, as propriedades do éter vital, do akasa nervoso. Mas, antes de ir mais longe neste assunto, que trataremos de aprofundar juntos, permita-nos o leitor coloquemos diante de seus olhos algumas notas e reflexões preliminares, indispensáveis.

Se aceitarmos as conclusões naturais da teoria segundo a qual as manifestações da vida em geral, e as da inteligência em particular, são apenas o modo de ação de certas propriedades da matéria organizada, devemos admitir que no momento da morte tudo volta ao nada, esse nirvana do materialismo.

Aceitando, com a ciência moderna, que, assim como a matéria, outro ser real, estudado sob o nome de energia, constitui um elemento do Universo,6 nem por isso se modificam os resultados da análise. Com efeito, se nos apegarmos à existência exclusiva da matéria, cujas propriedades variariam com seus aspectos e diferentes grupamentos moleculares, admitiremos que no momento da morte as propriedades da substância organizada desaparecem, ao mesmo tempo em que sobrevém esta mudança de estado caracterizado pela cessação da vida: a matéria organizada, viva, atingindo como matéria o seu mais alto grau evolutivo de complexidade, é subitamente arrastada – novo rochedo de Sísifo – sobre o declive que ela acaba de galgar, e onde descreve uma curva descendente, de mais em mais rápida, para o estado inorgânico do qual partiu. Nesses períodos sucessivos suas propriedades modificam-se, com as mudanças de estado, sobre o ciclo eterno figurado no Ouroboras simbólico dos antigos sábios.

Mas, teremos avançado muito para a solução do problema, se admitirmos a existência autônoma da energia “como ser real, elemento constitutivo do Universo”? Assim não penso; a energia coexiste ao lado da matéria, admita-se. Como a matéria, que, do estado cósmico ou radiante (W. Crookes) passa às formas gasosa, líquida, sólida e às suas combinações infinitas, a energia torna-se luz, movimento, calor, magnetismo, eletricidade, conforme o modo pelo qual opera sobre a matéria ou une-se a ela. Associada à substância organizada, a energia se transformaria em vida, em inteligência, etc. E do mesmo modo que a matéria em movimento tende ao repouso, em conseqüência do que se chama em mecânica a degradação da energia, e perde sua energia dinâmica, do mesmo modo a matéria organizada e viva, sob a influência de uma lei análoga à da degradação, perderia, por sua vez, a energia dinâmica, isto é, vital, que, assim como o elemento motor do qual acabamos de falar, voltaria ao grande reservatório comum da energia potencial para onde, como já vimos, tendem, “no fim dos tempos”, todas as forças do Universo: seria sempre o aniquilamento imediato para a consciência; seria, como se diz ainda – sem saber exatamente porquê – o regresso ao Inconsciente.7

Peço ao leitor que preste toda a atenção ao que precede, porque ulteriormente havemos de prosseguir no estudo desta questão. O leitor verá que se pudermos conceber, a rigor, que a matéria e a energia sejam em sua origem uma coisa só, os fenômenos psíquicos, sobre os quais chamarei sua atenção, forçam-nos a reconhecer um terceiro princípio que, juntando-se à dualidade matéria-energia, dá uma das formas desta trindade, aliás encontrada na base de todos os sistemas religiosos esotéricos, isto é, científicos, da antiguidade. Em todas as épocas, como em nossos dias, esta trindade tem sido consciente ou inconscientemente revestida de símbolos variados, pelos que têm representado papel de mediadores entre o céu e a terra. E assim é que a Natureza tem sido oferecida à adoração dos homens.

Já prevejo as objeções que me serão opostas; serei, sem dúvida, acusado de copiar Pitágoras e seu mestre Ferecyda, a quem Heródoto, em frases veladas, e Cícero sem reservas, censuram pelo plágio dos sistemas indo-egípcios e por se apropriarem deles. Sobre este ponto, peço ao leitor atenda ao que está escrito na introdução deste livro.

Ademais, será objeção séria dizer: “Isto não é novo?”. As doutrinas materialistas, hoje em voga sob o nome de mecanicismo ou de positivismo, que quase todas conduzem ao niilismo, são por acaso tão novas? Não, decerto: todas essas diferentes doutrinas são tão velhas umas quanto as outras. Não seria um pensamento niilista que inspirava Salomão quando este escrevia: “Quem sabe se o espírito do homem sobe a regiões superiores? Quanto a mim, meditando a respeito da condição dos homens, vi que ela era a mesma dos animais. Seu fim é o mesmo; o homem morre como o animal; o que resta de um é igual ao que resta do outro; tudo é nada.” (Eclesiastes, 3: 17 e seguintes.)

Esta parece ter sido também a opinião de Moisés, porque nos escritos que a crítica moderna lhe atribui não se descobre menção alguma da alma como entidade sobrevivente à destruição do corpo.

Da parte de Salomão, esta dúvida – porquanto ele se exprime como quem duvida – nada tem que possa surpreender: apesar da sua reputação de sabedoria, o filho de David parece não ser precisamente um adepto da “sabedoria” antiga. Entretanto é natural admirarmos o ver Moisés, que era um hierofante dos templos de Tebas e Heliópolis, guardar silêncio nesse ponto. Um homem dessa envergadura deve evidentemente ter sido levado por uma razão superior para assim proceder; e não serei eu quem ouse criticar os atos desse gênio verdadeiramente divino, que soube dirigir e manter, como se ela estivesse presa em suas mãos, uma turba de bárbaros, escória de uma populaça que era expulsa do Egito em época de grande miséria no país, então sobrecarregado de estrangeiros, segundo refere Diodoro da Sicília, livro XXXIV e XL, e que fez dessa turba um corpo de nação cuja longevidade, com as instituições que ele lhe impôs, ainda assombra o mundo depois de muitos milhares de anos.

Se formos mais longe, para o Oriente, encontraremos a destruição, o aniquilamento das partes do todo, apresentados sob um aspecto mais atraente e desejável, sob o nome de Nirvana. A Igreja budista, principalmente a do Sul, parece haver adotado por credo, a acreditar-se nos que conversaram com o papa Sumangala – estas palavras atribuídas a Buda, e que Volney, em suas Ruínas, põe na boca de sábios religiosos, chineses e siameses:

“Eis a doutrina interior que Fot (Buda), no seu leito de morte, revelou pessoalmente a seus discípulos:

Todas estas opiniões teológicas – disse ele – não passam de quimeras; todas estas narrativas da Natureza dos deuses, de seus atos, de suas vidas, são apenas alegorias, emblemas mitológicos, sob os quais se escondem idéias engenhosas de moral e o conhecimento das operações da Natureza, no jogo dos elementos e na marcha dos astros.

A verdade é que tudo se reduz ao nada; que tudo é ilusão, aparência, sonho; que a metempsicose moral não é mais que o sentido figurado da metempsicose física, desse movimento sucessivo, pelo qual os elementos de um mesmo corpo, que não perecem, passam, quando ele se dissolve, para outros meios e formam outras combinações. A alma não é mais que o princípio vital, resultante das propriedades da matéria (isto foi escrito em 1820, 7ª edição) e do jogo de elementos existentes no corpo, onde elas criam um movimento espontâneo. Supor que este produto do jogo dos órgãos, nascido com eles, adormecido com eles, subsiste quando os órgãos não mais existem, é um romance talvez agradável, mas realmente quimérico, fruto de imaginação iludida. O próprio Deus não é senão o princípio motor, a força oculta espalhada nos seres, a soma de suas leis e propriedades, o princípio animador, em outras palavras, a alma do Universo, a qual, em razão da infinita variedade de suas relações e operações, considerada ora como simples e ora como múltipla, agora como ativa e logo como passiva, apresentou sempre ao espírito humano um enigma insolúvel. Tudo quanto ele pode compreender de mais claro, nisto, é que a matéria não perece nunca; que ela possui essencialmente propriedades pelas quais o mundo é regido como um ser vivo e organizado; que o conhecimento dessas leis, em relação ao homem, é o que constitui a sabedoria; que a virtude e o mérito residem na observância delas, e o mal, o pecado, o vício, em sua ignorância e infração; que a felicidade e a infelicidade resultam delas, pela mesma necessidade que faz as coisas pesadas descerem e as coisas leves subirem, e por uma fatalidade de causas e de efeitos cuja cadeia vai do último átomo até aos mais elevados astros. Eis o que foi revelado no leito de morte pelo nosso Buda-Sidarta Guatama.”

Sabemos hoje, de boa fonte, que a doutrina tão brilhantemente enunciada, e em tão poucas frases, constitui o hermetismo de numerosas seitas orientais; mas julgo não me enganar dizendo que Volney, nesta magnífica tirada, descobriu seus próprios sentimentos. Seja como for, as concepções, bem como as expressões, são exatamente as mesmas encontradas hoje na exposição de doutrinas filosóficas, que certos homens modernos imaginam talvez ter inventado.

Sem falar dos filósofos gregos, eu poderia escrever um volume inteiro de citações semelhantes, provando a remota antiguidade das doutrinas materialistas: cumpre-me porém ser breve.

O aniquilamento com que, no fim de contas, as diferentes filosofias ou teosofias fazem fechar mais ou menos cedo, ou tarde, o destino da consciência humana é uma conseqüência do Panteísmo, aonde vai ter quem começa a raciocinar, tomando por base e por guias não os sentimentos de ocasião, mas os dados científicos, positivos e estabelecidos.

Não devemos repelir uma teoria só porque ela é contrária às nossas aspirações: as coisas nem sempre correm na medida dos nossos desejos. Exemplos: Nós nunca desejamos adoecer, e sofremos; não queremos envelhecer, e caímos na decrepitude; não desejamos absolutamente morrer, e nenhum de nós escapa absolutamente da morte; e assim por diante. E se, como pensava Candide, tudo no fim dá certo..., talvez seja necessário e bom que todas estas contrariedades nos sucedam, bem como outras que desejaríamos poder evitar! Lembro-me que, quando eu era menino, irritava-me se me diziam que meu avô não tinha sido sempre velho e coberto de cãs, e que um dia eu seria como ele, “se Deus me desse vida”.

O Panteísmo era a grande doutrina hermética dos antigos laboratórios e institutos (templos). Acreditando em Strabão, eis, a esse respeito, quais eram as idéias de Moisés, de quem falei mais acima. Segundo o citado geógrafo grego, o grande legislador hebreu professava o puro Panteísmo. Além disso, teria ele escrito – se é que escreveu – “Deus fez o homem à sua imagem” se isto não tivesse acontecido? Strabão diz isto (Georg., livro XVI):

“Moisés, que foi um dos sacerdotes egípcios, ensinou que era um erro monstruoso representar a divindade sob a forma de animais, como o faziam os egípcios, ou sob traços humanos, como é costume de gregos e africanos. Só é divindade – dizia ele – o que compõe o céu, a Terra e todos os seres, o que chamamos mundo, a universalidade das coisas, a Natureza... Eis por que Moisés quis que essa divindade fosse adorada sem emblemas e sob sua própria natureza.”

Vergílio também disse:

“O Espírito conserva a vida dos seres, e a alma do mundo, espalhada em seus vastos membros, agita sua massa (mens agitat molem) e constitui um corpo imenso.”



* * *

Fica, pois, provado que espíritos profundos e sutis, cujo gênio em nada é inferior aos pensadores modernos, discutiram entre si os mesmos pontos obscuros, sobre os quais ainda hoje se discute, e isto pela mesma razão imanente: os filósofos de todas as épocas observaram que, desde o momento em que os homens discutem sobre objetos colocados fora do alcance de seus sentidos, cada um deles julga desses objetos segundo seus caprichos, ou tendências do seu espírito, ou ainda, como se costuma dizer, com o sentimento próprio; ao passo que acabam sempre chegando a um acordo em suas apreciações, quando observam coisas que podem ser submetidas aos seus sentidos. Mas a Ciência tem progredido; maravilhosas descobertas vieram à luz, instrumentos admiráveis e preciosos permitir-nos-ão empreender, com a certeza da ciência experimental, estudos que nossos avós, exceto raras iniciativas, não podiam abordar senão com auxílio do método a priori.

Os filósofos não estarão longe de modificar e identificar as suas opiniões, no dia em que puserem em evidência e estudarem, com seus sentidos e instrumentos, o terceiro princípio a que mais acima aludi – ou, pelo menos, suas manifestações – o terceiro termo do trinômio do qual já estudam duas expressões sob os nomes de matéria e energia.

Neste momento, veremos – o que à primeira vista parece paradoxal – que espiritualistas e materialistas, buscando honestamente, embora por caminhos diversos, descobrir a verdade, não estão longe de se entenderem, como parece, em princípio. Assim sucede com os trabalhadores que perfuram os túneis. Vão, divididos em duas turmas, atacando cada qual um dos flancos opostos da montanha; um dia encontrar-se-ão em determinado ponto, do mesmo modo que as seitas filosóficas, mesmo antagonistas, ficarão, pela queda do véu que as separa, reunidas em uma comunhão de idéias primordiais e fecundas.

Veremos, na continuação deste trabalho, que esta opinião se apóia em outras bases que não em um romance, talvez agradável, mas realmente quimérico, da imaginação iludida.



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