Paul Gibier Análise das Coisas



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Parte Terceira

Perquirição do terceiro elemento
do Universo e do homem

Capítulo I


Estudo comparado do microcosmo e do macrocosmo. – Dois elementos similares incontestados num e noutro. – A matéria do corpo humano é a mesma matéria ambiente. – Somos os netos do Sol. – As forças do corpo humano são emprestadas da energia universal. – Relativamente à matéria e à energia o homem é eterno. – Método para a pesquisa do terceiro elemento pelo raciocínio. – É em si mesmo que o homem acha a explicação do Universo. – Existe inteligência no mundo. – Inteligência. – Energia. – Matéria. – Um dilema insuperável. – Argumentos tirados das lesões cerebrais em favor das idéias materialistas. – Argumentos especiosos. – Só a experimentação pode produzir o acordo. – Haverá provas materiais da existência da alma?

Depois de apresentado um quadro resumido da constituição do Universo e do homem, segundo os dados da ciência vulgar, chegou o momento de fazermos um estudo comparado do Cosmos, no Universo e no homem, para procurarmos as semelhanças ou as analogias que podem ser encontradas num e noutro.

Vimos que no macrocosmo há duas coisas nas quais se reconhece uma existência incontestável, a saber: a matéria e a energia, mesmo admitido que a primeira nada mais seja do que uma aparência, ou antes, uma emanação da segunda.

De outro lado, no homem, os fisiologistas da escola atual, que mostram não prestar atenção ao que precede, não quiseram ver nas manifestações da vida, e até da inteligência, senão propriedades da matéria.

Importa antes de tudo fixar um ponto: está bem demonstrado que a matéria componente do corpo humano é absolutamente a mesma matéria ambiente: nenhum elemento químico se encontra no corpo do homem, que não exista no solo que nos alimenta, no “limo” que nos formou. Conforme disse mais acima: o corpo do homem é uma emanação material do planeta, onde ele, homem, faz a travessia do espaço.8 Como exigirmos que essa matéria se comporte de modo diferente da outra e tenha propriedades distintas?

Deve-se estabelecer, em princípio, que os movimentos executados pelo homem, seu calor animal, a circulação do sangue e fluido nervoso, as vibrações da matéria cerebral, etc., não são absolutamente propriedades da matéria de que ele é formado, porém modos da energia universal, manifestando-se segundo os fins da vida, por intermédio da matéria agenciada molecularmente, de uma forma especial para esse fim.

A causa foi tomada pelo objeto, como se havia tomado o Sol pelo satélite, o luminar da Terra: e seria mais justo dizer-se: a matéria é uma propriedade da energia, do que afirmar o contrário.

Verificamos, por conseguinte, no homem, microcosmo, exatamente o que todos estão de acordo em reconhecer no macrocosmo, isto é, matéria e energia, apresentando-se ambos sob formas variadas.

Poderíamos prolongar esta análise e mostrar que, em matéria e em energia, o homem é imortal e mesmo eterno, porque é formado de matéria e de força, podendo ambas experimentar transformações em sua aparência, mas permanecendo sempre as mesmas em sua essência.

Apressemo-nos, porém, em dizer que se o homem fosse todo ele força e matéria, sua personalidade não subsistiria por mais tempo do que a combinação desses dois elementos, porque nenhum deles é ele.



* * *

Entretanto o homem, o filósofo, elevando-se acima dos objetos materiais para melhor dominá-los, mergulha o pensamento na extensão infinita para aí procurar a solução de dois mistérios: o mistério do mundo e o mistério que ele mesmo é. Contempla a abóbada celeste e os astros; considera ansiosamente o Universo onde, átomo, ele está perdido. Para que nada o perturbe, procura abstração de tudo quanto aprendeu até então.

Um fato lhe impressiona imediatamente o olhar: existe alguma coisa; esta alguma coisa é a matéria.

Um segundo fato lhe atrai quase logo a atenção: essa matéria move-se. Mas, logo o homem percebe que ela não se move por uma virtude própria, visto como é inerte, e que, sendo assim, não pode mover-se; o exame mostra-lhe que esse movimento, todas as suas conseqüências e transformações, são manifestações da energia.

Depois de ter verificado que tudo, até este ponto do exame, se reduz a mostrar dois princípios aos quais podem ser referidos todos os fenômenos de que ele é testemunha, o homem detém-se espantado e desiludido. A energia pode dar-lhe a razão da existência da matéria; mas, que é a energia e donde vem, que encerra ela?

Em vão ele dirige longamente seu olhar para os mundos, os quais continuam majestosamente trilhando o caminho que uma sábia e invisível mão parece ter-lhes traçado nos céus. Desespera de nada aprender desse grande Universo solene, mudo para ele, e, todavia, animado. Por mais que interrogue as estrelas, a Lua e o Sol e os planetas, todos esses gigantes das profundezas inabordáveis permanecem surdos à sua voz.

Então, só resta ao homem regressar à sua própria natureza, auscultar o seu viver e analisar-se a si mesmo.

Vê, em si, a princípio, um corpo feito de matéria emprestada da matéria ambiente: esse corpo emprestado não lhe pertence, pois que deve ser privado dele um dia; restitui-lo-á à Terra, da qual o recebeu e o formara, no dia do vencimento da letra, que chegará inevitavelmente a cada qual por sua vez. Quanto mais ele se analisa, mais acha a sua matéria semelhante à outra.

Depois, ainda encontra em si, sob aspectos tão variados como os da matéria, essa energia, cujos efeitos viu nas coisas que o cercam.

Até aí, compreende que é feito de matéria e de energia universais; mas, como foi que ele compreendeu todas essas coisas? com o auxílio da matéria, com o da energia, ou com o de ambas? Mas, então, a matéria e a energia universais seriam, porventura, inteligentes?

Vendo os efeitos da morte e a inércia de um cadáver, ele deduz do fato que a matéria insulada não compreende nem pensa.

Analisando as variedades de energias e vendo que elas não servem senão para entreter as funções da matéria organizada, ou para executar as ordens da vontade consciente e inteligente, concluiu daí haver compreendido o que queria compreender, com alguma coisa que não é nem a sua matéria nem a energia, e dá a isso o nome de inteligência.

Conhecendo sua própria natureza, o filósofo prossegue logicamente do conhecido ao ignoto e diz consigo mesmo que, sendo a sua matéria e energia tiradas da ordem universal, a inteligência deve ter a mesma origem: adivinhou o terceiro elemento do Universo; viu e compreendeu que, simultaneamente com a matéria e com a energia, existe a inteligência do mundo.

O homem sentiu que, para ter uma idéia do Universo, era mister se estudasse e se compreendesse; porque não podemos penetrar a essência do mundo pelo que dele vemos, do mesmo modo que seria impossível, a um ser dotado de inteligência como nós, compreender o homem, se as suas dimensões só lhe permitissem estudar uma porção microscópica do mesmo; por exemplo: alguns glóbulos do sangue que circula em um vaso capilar.



* * *

De fato, não podemos sair deste dilema: ou há uma inteligência única no Universo, uma inteligência donde emanam numerosas inteligências limitadas, como a matéria em objetividades limitadas emana da energia, que por sua vez procede de um princípio superior; ou então a matéria e a energia são dotadas de inteligência. Por que, pois, somente a matéria, que compõe o cérebro do homem, fabricaria inteligência? Não existirá, na substância universal, qualquer outra matéria tão própria a produzir idéias, como a pequena massa de polpa gordurenta e fosfatada, que compõe a parte intelectual do nosso cérebro? Estabelecer esta questão é, de algum modo, resolvê-la.

Um dos grandes argumentos de batalha dos que só querem ver nas manifestações intelectuais um simples produto de não sei que acaso, autor de um agenciamento caprichoso da matéria organizada do cérebro, consiste no seguinte: o homem mais brilhantemente dotado de qualidades de espírito pode tornar-se um bruto, vivendo unicamente da vida vegetativa, em conseqüência de uma simples pancada na cabeça, ou após uma intoxicação, lesão apoplética ou outra qualquer, da substância cerebral. E dizem: “Vede a vossa inteligência e a vossa alma; basta a ruptura de uma pequena artéria ou que ela se oblitere em qualquer ponto do encéfalo, para que o orador mais eloqüente fique afásico, isto é, mudo, e o homem mais espirituoso fique idiota e repulsivo! Não está aí uma prova suficiente de ser a inteligência uma simples propriedade da matéria, pois que, quando esta fica lesada, nada mais existe?...”

Não, isso não é prova suficiente. Se usarmos de um processo, de que nos utilizaremos ainda nas necessidades da demonstração, e se supusermos conhecidas a existência da inteligência independente, será evidentíssimo que, se para determinado fim, ela se une à matéria, dedicadamente grupada, finalmente organizada, como é a substância que compõe o cérebro, uma perturbação mais ou menos pronunciada se dará em suas manifestações, desde o instante em que essa matéria sofra uma desorganização qualquer.

Confesso, todavia, que fora da experimentação os argumentos de razões contrárias não valem uns mais que os outros, do ponto de vista rigorosamente científico. Podemos dizer ainda, por exemplo: negar “a alma”, porque ela não funciona mais, quando a matéria que lhe serve às manifestações está doente ou destruída, é como negar a existência do vapor, quando, depois de um acidente na caldeira ou no cilindro, a máquina pára. Ou também: o melhor dos artistas não poderia dar nenhuma idéia do seu talento, se tocasse um violão ao qual faltassem cordas, ou um piano cujas escalas estivessem incompletas, etc. Mas é mister reconhecer que, neste caso, como em muitas outras circunstâncias, comparação não é razão.

Nem materialistas, nem espiritualistas se convenceram mutuamente, apesar da sutileza de seus argumentos, apesar da superioridade de inteligência e do desejo sincero da verdade, que são reconhecidos nuns e noutros. E isto sempre pela mesma razão... não nos podemos entender – e muitas vezes mesmo após longo exame – senão a respeito de objetos que caem e, de alguma forma, ficam sob nossos sentidos.

Sendo assim, como pudestes afirmar que os filósofos chegariam um dia a ficar de acordo neste ponto – dir-me-ão talvez – porque é principalmente da questão da existência da “alma” que quisestes falar, questão primordial entre todas? A resposta será bem clara.

Podemos ter provas materiais da existência da alma.

Esse fato não deixa dúvida alguma no meu espírito: a Ciência poderá estudar, doravante, quando quiser, o terceiro elemento constitutivo do macrocosmo, como estuda os outros dois elementos, que ela compreenderá então muito melhor, isto é, a matéria e a energia.

É o que vamos demonstrar.



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