Paul Gibier Análise das Coisas



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Capítulo II

Fisiologia transcendente


Exame retrospectivo. – Existência comaterial e abmaterial da inteligência. – A inteligência independe da matéria. – Os fenômenos denominados espiritualistas apóiam essa tese. – Ainda não conhecemos muitas coisas. – Não há saber sem trabalho. – Diferença entre o que pensa e o que não reflete sobre coisa alguma. – A hora da apreciação científica. – Ela soou para cada coisa a seu tempo. – Leito de Procusto das idéias e dos fatos. – Já se passou o tempo em que se devia primeiro provar a existência dos fatos psíquicos. – Não faltam investigadores inteligentes e instruídos; logo, já não há necessidade de procurar convencer, principalmente os que não querem ver, para não ficarem convencidos.

No momento de examinar o valor de certos fenômenos psíquicos observados no homem sob o ponto de vista da demonstração que empreendi, convido o leitor a fazer uma curta pausa e lançar um olhar para trás. Agora que chegamos a este ponto da análise das coisas, cujo ensaio havemos tentado, podemos abranger, num lance de vista geral, os vastos campos que acabamos de percorrer e sobre cujas fronteiras passamos sem tempo de lhe investigar o interior. Sendo possível, completaremos este exame algum dia. Com esse intuito, já observei que o presente trabalho não tem a pretensão de tratar a fundo do assunto que nos ocupa. Toda a ambição de quem escreve estas linhas consiste em tentar fazer pensar, seguindo, nisto, o conselho do autor do Espírito das Leis.9

Sim, tentar fazer que pensem é o que desejo, esperando possa este livrinho cair, um dia, como a boa semente do Evangelho, em terreno bem preparado. Eis por que eu quis ser breve, sabendo, antes de tudo, que os livros volumosos são pouco lidos em nossa época de vapor e eletricidade. E depois, finalmente, como disse Paul-Louis Courrier, não é preciso muitas páginas para dizer-se as melhores coisas.

Mas, como propus há pouco, passemos em revista, nalgumas linhas, os pontos tão rapidamente percorridos.

Nesta análise, em primeiro lugar, estudamos sumariamente o macrocosmo. Lançando um olhar sobre nosso planeta, antes de deixá-lo, começamos nosso estudo do Universo animado, partindo do átomo incompreendido para nos lançarmos no espaço em busca da formação e do fim dos mundos.

Depois, na segunda parte deste trabalho, procurei dar uma idéia do microcosmo, mostrando, primeiro que tudo, as opiniões das principais escolas sobre sua constituição. Vimos que o homem, assim como o mundo, encerra certos princípios: primeiramente a matéria e a energia. Isso nos conduziu a examinar comparativamente o Universo e o homem num terceiro livro.

Nesta terceira parte, reconhecemos que, além da matéria e da força, existe a inteligência no mundo, como no ser humano, a menos que se admita seja uma só substância, caso a inteligência fosse unicamente um produto da matéria, isto é, seja a substância cerebral do homem a única matéria, no Universo inteiro, capaz de produzir o que denominamos fenômenos intelectuais.

Resta-me, agora que o raciocínio nos permitiu reconhecer o que denominei o terceiro princípio ou elemento, tanto no macrocosmo como no homem; resta-me, digo, mostrar esse terceiro princípio do homem, princípio livre e independente, aliás, o primeiro em importância. Talvez me seja permitido fazer entrever a persistência desse elemento, isto é, da inteligência consciente sobrevivendo à decomposição da matéria, à qual se achou momentaneamente unida, sob as aparências do corpo humano. Em outros termos: mostrar a possibilidade da existência abmaterial da inteligência, depois da sua existência comaterial; tal é o fim a que me proponho.

É uma empresa audaciosa, mas não temerária: hoje nada mais tenho que arriscar, porque depois de haver feito, no intuito de começar esta demonstração, um livro que foi lançado no índex, tanto em Paris como em Roma, que raio posso eu temer, doravante, exceto os raios do céu? Este, até ao presente, parece nunca ter dado importância à opinião, nem à religião daqueles a quem fere, deixando ao céu, sem dúvida, o cuidado de “reconhecer os seus”; mas os homens, estes, escolhem e... enganam-se, o que é pior, porque, por tendência, condenam e ferem mais vezes o justo do que o injusto.10

Não desejaria que enxergassem algum azedume no que precede, porque não existe nenhum em meu espírito, e perdôo de coração aos que se julgaram bastante puros para me lançarem a primeira pedra: a verdade, cuja aurora se aproxima, será a minha vingadora, e o que me encanta é que ela brilhará tanto para os seus detratores quanto para os amigos da véspera. Os verdadeiros justos que a defenderam, quando havia perigo em fazê-lo, de novo se recolherão à sombra, esquecidos das injúrias recebidas por ela, e sem reclamarem “as honras depois de haverem sofrido os trabalhos”. As honras serão, sem dúvida, para os que, depois de a haverem repelido outrora, batizarem-na com algum novo nome latino, quando a tiverem, enfim, reconhecido.

A verdade é esta: A inteligência existe fora da matéria, tal como nós a concebemos ordinariamente; e declarando, mais uma vez, que não sou um modern spiritualist, afirmo que todos os fenômenos denominados espiritualistas, pondo de parte a teoria do mesmo nome, são absolutamente reais, o que não quer dizer seja impossível a simulação dos mesmos, até certo ponto. Esses fenômenos chegam, pois, em apoio da minha tese, e é o que espero demonstrar.

Não importa! Será “grande vergonha” para muitos sábios atuais a sua obstinação em desconhecerem um fato tão capital, o qual, especialmente há um quarto de século, se apresenta continuamente ao seu exame. O castigo desses homens será no fim da sua carreira, terem a convicção de que erraram a vocação e que, pretensos sábios, morreram ignorando a coisa mais importante que lhes fora dado conhecer. Mas, paciência, ainda uma vez; a geração que cresce carecerá, indubitavelmente, de ser contida, tão forte a reação há de chegar. E nós, a quem desprezais, senhores, nessa hora, defender-vos-emos contra o desprezo dos vossos sucessores. “Perdoai-lhes – diremos como o supliciado do Gólgota –, eles não sabiam o que faziam.” Não podiam sabê-lo, e entre os motivos confessáveis que os desculpam, há este: que os negócios pequeninos da vida ordinária, da sua existência vulgar, estavam muito perto dos seus olhos; de modo que, ocupando-lhe todo o campo visual, impediam esses pobres míopes de ver as reais e grandes coisas que estão além. Simples questão de ótica.



* * *

Hoje, ninguém ousaria dizer que não nos resta nenhuma grande descoberta a fazer, apesar do estado atual da Ciência. Em períodos anteriores ao nosso, houve homens que, contemplando o estado dos conhecimentos do seu tempo, ousaram declarar que não supunham ser possível atingir-se um grau de civilização ou de ciência mais elevado. Mas hoje, que mais temos estudado, visto como o caráter próprio do verdadeiro saber é tornar-nos conscientes da ignorância relativa do homem, não ouviremos dizer: “non plus ultra”, porém sim: “excelsior”?

Não vos esqueçais, entretanto, ó geração nova, de que ides entrar, cheia de ardor, nesta carreira onde, se louros gloriosos vos aguardam, não podereis colhê-los para ornar vossa fronte, sem lutas e sem perigos. Porque da nova ciência bem se pode dizer que está cercada de penhascos abruptos.

Ardua vallatur duris sapientia scrupis.

Não insistirei mais nesse assunto por agora, reservando-me para indicar mais tarde os perigos que podemos correr no estudo dos fenômenos de que falei acima: experto crede Roberto.



* * *

Vi e estudei centenas de fatos de tal forma convincentes, que se eu não conhecera o espírito dos sábios de profissão, ficaria admirado de não estarmos mais adiantados em Psicologia. Lendo os trabalhos recentes em que essas questões são tratadas de maneira muito inconsiderada, sinto-me tentado a exclamar a cada instante: Quem foi, ó deuses poderosos! que colocou esta espessa faixa de matéria sobre os olhos dos mortais, para que eles confundam continuamente a realidade com a ilusão e a mentira?

Convenho que observai coisas que poucos homens têm tido oportunidade de ver; mas foi porque, despertada a minha atenção por um fato dos mais simples, quis saber e gastei tempo em procurar.

Não há bem que não custe desgostos, nem saber sem o tributo do trabalho. Como disse Schopenhauer, já citado: a verdade não há de vir saltar-nos ao pescoço. É mister procurar, é preciso pensar.

Pensar! Ah! eis a dificuldade: quem não reflete, acha perfeitamente natural tudo o que tem costume de ver; nasce, vive, depois morre sem haver perguntado a si mesmo porque existe alguma coisa. Ao contrário, perturba-o o menor incidente que se não pareça com os da sua existência banal. Não acontece assim com o que pensa, pois o menor inseto, o mais insignificante raminho de erva, a mínima célula do vegetal ou do corpo dos animais são o objeto da sua meditação e admiração. Estas duas espécies de indivíduos são encontradas tanto nas profissões liberais quanto entre os simples pedreiros.

* * *

O que se passou até hoje no mundo científico, a respeito dos fatos de que quero falar – fatos de “sonambulismo lúcido”, de vista a distância, de transmissão de pensamento e de fenomenologia “espiritualista” – lembra-me a história daquele microscópio que foi apresentado ao papa Leão X em princípios do século XVI (1520). O instrumento foi considerado como muito curioso, capaz de divertir um amador, mas a ninguém ocorreu a idéia de tirar dele o partido que só devia ser conhecido 300 anos mais tarde. O que chamarei “a hora da apreciação científica” não tinha soado.

Peço respeitosamente permissão aos srs. membros dos Institutos e das Academias para anunciar-lhes que a hora da apreciação soou para os fenômenos estudados nesta Análise das Coisas, apesar do ardor que foi empregado em atrasar o relógio. E tenho o desgosto de acrescentar que, se não for em seu favor, será, a seu pesar, talvez contra eles, que a apreciação se fará. Chegou a hora, que tem sua vez para cada descoberta: é uma lei cuja aplicação vai de novo realizar-se.

* * *

O passado encerra muitos fatos instrutivos: acaso todas as grandes descobertas não encontraram oposição tanto mais viva quanto mais chocavam as idéias admitidas? Sede prudentes em vossas negações a priori. Mas não, a história, digam o que quiserem, não parece instruir os homens; assim, há três anos fiz uma observação que considero interessante, e é a seguinte: na casa de um editor parisiense, apareceram três livros com pequenos intervalos. O primeiro tratava de sugestão hipnótica, o segundo de sugestão mental e o terceiro de fenômenos espiritualistas. Esses livros tinham por autores três eruditos, três médicos. Quando o primeiro livro apareceu, encontrou no mundo científico numerosos incrédulos, que, aliás, penso estarem quase todos convertidos hoje. Nesse livro, que continha a exposição de experiências de hipnotismo muito curiosas, o autor não admitia a sugestão mental, que era sustentada, com provas em seu apoio, pelo autor do segundo livro. Mas este último, por sua vez, concluía por uma tirada de lamentação sobre a perda, para a Ciência, de um colega que se constituíra conscientemente o defensor dos fenômenos espíritas, por não ter adivinhado que estes fenômenos são apenas uma variedade da sugestão mental, onde o inconsciente do médium desempenha o papel de protagonista! Nada direi do terceiro livro, no qual o autor talvez não se tenha mostrado sempre melhor crítico do que seus colegas, e isto por motivos que o leitor adivinhará.

Esta observação mostra bem a tendência do espírito humano: cada um de nós fez seu papel – que achamos muito bom, naturalmente! – e tudo que não se ajusta nele é esquartejado ou acutilado; verdadeiro leito de Procusto das idéias dos outros, e dos fatos que são de todos.

Termino estas observações pedindo ao leitor que nelas não veja mau humor algum: apenas consigno os fatos.



* * *

Nas páginas seguintes, não relatarei nenhuma experiência nova, se bem que desde a publicação do meu último livro tenha assistido a muitas sessões curiosas e observado grande número de fenômenos interessantes, para só falar disto. De sorte que me parece fastidioso hoje procurar demonstrar os elementos, os pequenos fatos que, presentemente, a meu ver, só apresentam um interesse muito medíocre, e não desejo perder tempo voltando ao assunto. Era como se me pedissem para ensinar o alfabeto em uma escola de aldeia. E depois, já se foi o tempo em que era indispensável provar-se primeiro a existência do fenômeno psíquico. Como hoje não faltam os investigadores inteligentes e instruídos, não há, absolutamente, necessidade de convencer os que dizem: “Eu nem que visse acreditaria!” Encontrei muitos destes. Estes simplórios acharão sempre alguma coisa a respigar no campo da Psicologia, quando se decidirem, pede claudo, a seguir o movimento irresistível que se produziu e cuja torrente vai arrastar e submergir a filosofia moderna.

Por conseqüência, para o estudo da questão ab ovo, convido o leitor não iniciado a ler o meu trabalho precedente.11

Estudemos agora a natureza das coisas no homem.




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