Paul Gibier Análise das Coisas



Baixar 401.69 Kb.
Página8/13
Encontro13.06.2018
Tamanho401.69 Kb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13

Capítulo III


A geração do homem é uma ação microscópica. – Ela é um simples fato, mas um grande fato. – Hipóteses sobre a preexistência e a não-preexistência do espírito ao corpo. – A hipótese da formação simultânea do espírito e do corpo é injusta. – Ninguém percebe mais a energia que a inteligência: só lhes percebemos os efeitos. – Como demonstrar a independência do espírito? – Supor conhecida uma incógnita. – Uma parte das faculdades do espírito está imobilizada em funções inferiores às da inteligência. – Mecanismo da ação do espírito sobre as células nervosas. – Polizoísmo de Durand de Gros. – Fatos estabelecendo que o espírito pode receber comunicações por vias diferentes do comum dos órgãos. – Sonhos.

Dois elementos microscópicos: uma célula munida de uma espécie de cílio vibrátil, elemento masculino, e outra célula de forma globulosa, elemento feminino, encontram-se: dois pontos quase matemáticos e o homem é procriado.

A célula globulosa transforma-se imediatamente, ela enxerta-se e segmenta-se em multidão de outras células, que virão a ser os órgãos do corpo humano.

Esse encontro de duas células, provenientes de dois seres diferentes, formando um terceiro ser, é um grande fato.

Em torno desse fato vão acumular-se a matéria e a energia.

Mas, admitindo-se a existência como sendo a universalidade da inteligência, irá esta “soprar” sobre a matéria ao mesmo tempo e, da mesma forma que esta última, acumular energia?

Ou então, louvando-nos nas escolas egípcia, caldéia, hindu, onde se inspiraram Pitágoras, os neoplatônicos, os cabalistas, os teósofos e mesmo os “espíritos” dos espíritas modernos, admitiremos que o Espírito é preexistente e já habitou muitos corpos, já viveu muitas vidas?

No primeiro caso, o Espírito, desligando-se gradualmente da inteligência impessoal, aliar-se-ia à energia e à matéria em maior ou menor proporção, segundo o valor e a capacidade do recipiente cerebral. A personalidade grupar-se-ia em redor do grande fato de que falei mais acima, variando individualmente e ao acaso, guiada arbitrariamente (eu ia dizer injustamente) em sua formação pela hereditariedade, pelo atavismo, pela condição social, pelo meio, pela educação e mil outras circunstâncias causais que não criamos e que concorrem para nos atenuar a responsabilidade pessoal em tão larga medida.

Os que sustentam não existir o acaso, não admitiriam esta hipótese e prefeririam com certeza adotar a segunda: preexistência da inteligência emanada e personificada, vivendo alternadamente em estados comateriais e abmateriais. A desigualdade da sorte dos homens poderia, assim, ser explicada pelos méritos e deméritos anteriores. Mas, sendo o espírito preexistente, em que momento esse glóbulo intelectual, virtualmente dotado de todas as suas potencialidades futuras, se uniu à matéria-energia? Seria após a segmentação completa do óvulo, a formação distinta das diferentes folhas blastodérmicas, estando o cérebro assim localizado em seus elementos formadores? Não se fará a união progressivamente? Em todo caso, muito tempo antes do nascimento começaria essa “espiritualização” da matéria. O Espírito, assim recolhido em sua tríplice prisão de carne, “flutuaria sobre as águas”, durante três vezes três ciclos lunares, mais ou menos antes de aparecer à luz do dia.

* * *

Seja como for, eis o homem feito; estudemo-lo.

Desse homem, o que se percebe à primeira vista – como no exame do macrocosmo – é a matéria, isto é, o seu corpo. Esse corpo move-se sob a ação de várias forças provenientes da energia. Ninguém percebe essa força, como ninguém percebe a que anima o mundo: apenas lhe vemos os efeitos. Dá-se o mesmo com a inteligência. É conhecido algum efeito sem causa?

Por minha parte, tenho alguma razão para pensar que o espírito consciente de sua individualidade preexiste à matéria do corpo, mas não julgo ser agora tempo de expor essas coisas.12 Supondo mesmo que assim não aconteça e que a inteligência individualizada se forme ao mesmo tempo em que a matéria for atraindo os elementos da inteligência impersonificada – trata-se de demonstrar que, uma vez formada, essa inteligência individualizada é, até certo ponto, independente da matéria nervosa, durante a vida, e que persiste após o desaparecimento do corpo.

Bem sei que para muitos homens instruídos, nos quais apenas quero apoiar-me, esta demonstração experimental já não precisa ser feita. E não falo dos crentes, mas dos homens que sabem e só confiam na razão, fiscalizando as provas fornecidas pelos sentidos. Mas, não é para eles que eu escrevo, e a forma deste trabalho, tenho a certeza, não lhes deixará dúvidas a esse respeito.

A quem ainda não teve tempo ou ocasião de adquirir estes conhecimentos, peço fazer-me uma concessão: vamos como na álgebra, e para facilitar as nossas operações, supor conhecida uma incógnita. Assim, admitamos a alma, o espírito, a inteligência, ou qualquer que seja o nome dado a essa entidade chamada espiritual. Suponhamos a sua existência, depois examinemos, nessa hipótese, o seu papel no ser humano.

No estado ordinário, o espírito, intimamente incorporado à matéria, pode ser considerado privado de grande parte das suas faculdades superiores. Algumas destas faculdades são, por assim dizer, alienadas em proveito de certas funções que elas devem desempenhar sobre o plano anímico, instintivo e vegetativo do ser comaterial.

Deixamos, de alguma sorte, de estar dentro de nós mesmos: o espírito não tem mais comunicações diretas com o mundo exterior; está, além disso, freqüentemente mal servido de órgãos. É o que explica o fato de certos indivíduos sonambúlicos serem muito mais “lúcidos” no estado hipnótico, que é um estado abmaterial incipiente, um começo de desprendimento desta melhor parte de nós mesmos, que nestes últimos tempos denominaram o inconsciente.

Como quer que seja, o espírito disponível normalmente para as funções intelectuais serve-se, do melhor modo que pode, da energia existente no estado de equilíbrio incessantemente instável nos órgãos das manifestações da inteligência. Vou explicar-me: quanto menos estável quimicamente é um corpo composto, menos forte é a influência, a força necessária para produzir uma modificação em sua composição. A substância que forma as células cerebrais está nestas condições. A força fluídica criada pela célula cerebral é de natureza particular, lembrando por certos aspectos, como vimos acima, o fluido elétrico. Para produzir este fluido – o fluido nervoso – excitador que levará as ordens da vontade aos órgãos periféricos, a célula precisa ser, por assim dizer, polarizada em uma certa direção. E como o espírito por si mesmo não pode operar sobre a matéria, e para esse fim é obrigado a recorrer à energia, a sua ação é facilitada pela natureza de uma substância de composição constantemente variável, como a matéria organizada, e agenciada de modo a produzir, sob o mínimo de influência, à semelhança de um torpedo microscópico, uma pequena descarga de fluido nervoso, que seguirá uma direção determinada e sempre a mesma, no estado normal.

Seria mister o gênio de um Hœne Wronski para reduzir toda essa parolice a uma fórmula clara e precisa (para os iniciados), da nova língua matemática que ele inaugurou em nosso século; porque tudo isso redunda em dizer, resumindo, que o espírito opera sobre a matéria organizada por meio da energia anímica.

Deixei compreender que uma parte das faculdades do espírito era imobilizada em funções inferiores às da inteligência (nutrição celular, circulação do sangue e da onda nervosa permanente, funções reflexas, instintos, etc.). Essas faculdades são utilizadas na excitação dos diferentes centros em aparência automotores: cerebrais, do cerebelo, do bulbo, medulares e simpáticos, cujas independências relativas, postas mais em evidência por certos estados patológicos ou psíquicos, fez dizer que o homem era um composto de distintos eus, coordenados hierarquicamente, porém tendo cada um em si os caracteres e os atributos essenciais do animal individual. Esta concepção, a que seu autor, Durand de Gros (Dr. Philips), observador muito profundo, deu o nome de Polizoísmo, foi principalmente inspirada a esse sábio por delicadíssimas experiências de hipnotismo e de sugestão, que ele observou como filósofo e, ao mesmo tempo, como médico.

Se admitirmos a independência de um princípio intelectual, podemos conceber a razão pela qual, ficando destruída, alterada ou doente uma parte da substância cerebral, não pode o espírito operar sobre esta parte desaparecida, sem transmitir por seu intermédio as ordens de sua vontade aos órgãos excitados ordinariamente pelas células-torpedos, desde então alteradas ou mortas. Mas, em muitos casos de lesões cerebrais, havendo sobrevivência, um suprimento mais ou menos perfeito se estabelece e podemos admitir, então, que o espírito exerce a vontade sobre outros centros (memória, palavra, movimentos, etc.), e transmite suas ordens por caminho afastado, indireto, em uma palavra, desacostumado. Isto acontece principalmente quando a destruição dos órgãos cerebrais se produz lentamente. Os casos de afasia curada, persistindo a lesão da circunvolução de Brocá; a integridade das funções de toda natureza, apesar da atrofia de um hemisfério cerebral, são fatos que não alteram em coisa alguma a tese que apresento.



* * *

Até aqui ainda não apareceu nenhuma boa razão para se admitir sem debate a existência do espírito independente; e os argumentos que podem ser tirados do que precede têm sido mais de uma vez apresentados com maiores desenvolvimentos e esforços, no intuito de convencerem. Se os adiantei, foi apenas por espírito de método, porque conto muito mais com a experimentação do que com o raciocínio simples ou discussão sem fatos. Os fatos psíquicos vão, com efeito, dar-nos demonstração mais completa. Apresentá-los-ei, quando possível, por ordem de intensidade, de alguma sorte crescente, permita-se-me a expressão.

Examinemos, em primeiro lugar, o caso em que o espírito, em circunstâncias quase normais, percebe a existência de acontecimentos afastados no espaço. Por exemplo, durante os sonhos. Todos já temos ouvido repetidas narrativas de sonhos que são como a cópia de um acontecimento atual, ou mesmo futuro; mas deixo de parte a questão do futuro. Poderia, extraindo de diferentes autores, citar numerosos exemplos nesse sentido. Cingir-me-ei a alguns casos que são da minha observação pessoal.

Eis os fatos: Uma senhora de minhas relações contou-me muitas vezes que, na idade de vinte anos, quando morava em A..., teve um sonho, cuja personagem principal era um jovem que a pretendia em casamento. A fisionomia desse homem, que ela absolutamente não conhecia, inspirava-lhe desconfiança, e então a senhora tratava de evitá-lo. Despertando-se, havia conservado esse sonho bem presente na memória, como aliás sucede à maior parte dos seus sonhos, segundo disse.

Até aqui nada há de extraordinário; mas, de manhã, tendo saído de casa, a moça seguia por uma rua pouco freqüentada, que conduzia ao porto, quando subitamente viu, à porta de uma cervejaria, o mesmo jovem do sonho, de pé, olhando-a. Vivamente surpreendida, foi-lhe preciso grande esforço para não cair sem sentidos.

Obtendo-se informações do proprietário da cervejaria, que mantinha relações com a família da moça, o jovem recém-chegado de além-mar à cidade, aonde vinha pela primeira vez, havia desembarcado naquela manhã mesmo e estava hospedado na cervejaria de um seu parente, com quem vinha associar-se. Mais tarde, o moço em questão, tendo ouvido, sem dúvida, falar do sonho do qual por esta forma ele teria recebido uma sugestão indireta, pediu a moça em casamento: mas, sugestionada do seu lado pelo sonho, pois impressionava-se sempre que via o dono da cervejaria, ela recusou-lhe os galanteios.

Os fatos desse gênero são tão numerosos que já decerto ninguém pode mais repetir continuamente esta palavra ridícula: “coincidência”, que só tem a vantagem de dispensar-nos de melhor explicação. Essa vantagem, devemos convir, nem foi feita para satisfazer-nos, nem nós estamos dispostos a contentar-nos com ela. Veremos a propósito do sonambulismo que explicação podemos dar a esse fenômeno.

Noutra ocasião, uma pessoa de minha família teve um sonho, que me parece bastante interessante para merecer citado. Em 1886, dava eu passos no intuito de obter para um dos meus amigos uma colocação de diretor de escola especial. Meu protegido era um homem de mérito, muito entendido na sua especialidade, como ficou provado pelos serviços por ele depois prestados. Tudo ia bem; tínhamos o apoio de quase todos os chefes do ministério de que dependia a escola em questão, amparava-nos até a boa-vontade do ministro, ao qual o candidato tinha sido recomendado por dois ou três deputados amigos meus. Em suma, só esperávamos a publicidade da nomeação pelo jornal l’Officiel, quando certa manhã recebi carta de uma parenta que habitava na província e era muito íntima da mulher do meu candidato. No fim dessa carta, dizia-me ela: “Mandai-me alguma notícia sobre M. X...; a noite passada, durante um sonho, estive muito aborrecida, porque ele havia sido malsucedido na sua pretensão junto ao ministro...”

Acabava de ler esta frase, sem dar-lhe a mínima importância, quando me anunciaram o mesmo amigo, que entrou quase logo no meu gabinete de trabalho, de semblante consternado. Vinha mostrar-me uma carta do ministério, na qual o informavam de que a sua candidatura não era admitida no lugar então vago, mas podia mantê-la para a vaga próxima. Em resumo, era um codilho completo. Mostrei a carta a M. X..., que ficou admiradíssimo.

Felizmente, após o exame dos títulos dos diferentes candidatos, foi revogada a decisão e M. X... é hoje um dos diretores que melhor satisfazem à Administração.

Ainda coincidência? Talvez, mas devemos convir que se apresenta muitas vezes essa importuna coincidência.

Enfim, para terminar estes exemplos de acontecimentos percebidos em sonhos e cujas narrativas recolhi diretamente, vou referir o seguinte, que provaria não existir a distância para o Espírito, se fosse demonstrado ser ele quem percebe as coisas durante os sonhos, ou pelo menos certos sonhos, que habitualmente distinguimos muito bem dos outros, por motivos que não sabemos explicar, porém sentimos. Eis uma observação colhida em casa de uma família norte-americana onde costumo estar, desde que habito em New York, uma noite quase em cada semana.

Um dos filhos de M. J... estava na Alemanha para terminar os estudos na Universidade de Tubingue, em 1871. A família, em New York, acabava de receber boas notícias dele, quando, uma noite, a Sra. J..., a mãe, acordou chorando, em conseqüência de um sonho no qual vira o filho em grande perigo de vida. Presa de ansiedade, depois de ter feito luz, pensava ela nos meios de obter prontas notícias de tão grande distância, quando viu entrar no quarto a filha, a menina J.., que vinha, igualmente em prantos, contar-lhe haver visto em sonho o irmão na mais crítica situação; mãe e filha haviam tido simultaneamente o mesmo sonho, que, segundo me asseguraram, nada poderia ter provocado pela conversação da véspera. O mais interessante, talvez, é que M. J... filho estava realmente muito doente, à mesma hora, em Tubingue. Felizmente, a mocidade de M. J... triunfou e ele pôde voltar ao seio da família.

Devemos aceitar a opinião teosófica, segundo a qual o Espírito desprender-se-ia em parte, do corpo durante o sono e poderia desse modo receber a impressão das coisas, cujas vibrações o éter repercute?




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   13


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal