Paul Gibier Análise das Coisas



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Capítulo IV


Ignorância geral acerca do hipnotismo. – Se todos soubessem servir-se desse estado, obteriam resultados extraordinários. – Mas há perigo em experimentar na atual ignorância das leis que regem os diferentes princípios constituintes do homem. – Força emitida pelo corpo humano sob a influência da vontade e operando a distância. – Experiências de transmissão de pensamentos, de vista a distância. – Diferentes estados ou graus da hipnose. – Esses estados não são mais que fases do caminho gradual que leva ao desdobramento da pessoa. – Teoria da vista, da audição, etc., a distância – Phantasms of the Living. – Observação igualmente interessante e instrutiva do desdobramento da pessoa.

Formam uma grande maioria os que, médicos ou não, se ocupam de hipnotismo e desconhecem o poderoso meio de investigação psíquica ao seu alcance.

Com o hipnotismo, ou antes, com o hipnomagnetismo e a sugestão auxiliados por outros agentes externos ou internos, pode-se chegar a resultados absolutamente extraordinários. Isto não sucede com todos os indivíduos hipnotizáveis sem regime dietético, mas, bem entendido, procurando-se determinadas condições. Por dietética entendo não somente um regime alimentar especial e conhecido, mas também um método particular para respirar, dormir, pensar e... amar. Como não entra nos planos desta obra indicar os processos a pôr em prática, abster-me-ei de dizer mais sobre o assunto. Direi apenas que hipnotizadores e magnetizadores possuem igualmente em suas mãos um instrumento terrível, freqüentemente uma faca de dois gumes, da qual, felizmente, quase sempre, eles não sabem servir-se. Por isso, se bem que as minhas observações sejam, fora de dúvida, das mais importantes, só citarei um pequeno número delas e, ainda assim, pedirei ao leitor permissão para não entrar em detalhes concernentes ao adestramento dos indivíduos.

Os que praticam o hipnotismo em seus semelhantes geralmente não solicitam autorização alguma da pessoa que hipnotizam. Isto provém de que eles não conhecem todas as conseqüências do ato, refiro-me mesmo a uma simples experiência, se bem que haveria ainda algumas reservas a fazer quando o pseudo-sono é provocado com um fim terapêutico. Mas lembremo-nos bem disto: quando bem conhecido o hipnomagnetismo, ninguém mais colocará uma pessoa sob sua influência sem haver obtido dela uma autorização consciente para tal fim. A esse propósito, devo dizer que os raros iniciados nos mistérios de Ceres Hipnotite sentem-se inflamados de indignação e inteiramente tomados de compaixão quando vêem, nos dias que correm, os cartazes multicores de um professor de charlatanismo qualquer anunciando, oficialmente autorizado, uma sessão de magnetismo na sala de um café qualquer: a inconsciência protegendo os inconscientes! Isto equivale a pôr dinamite na mão de uma criança.

Seja como for, o hipnomagnetismo pode servir-nos como um dos meios próprios para ser evidenciada a independência, ou, se preferimos, a ação fora da pessoa humana:

1º) de uma força particular, forma elevada da energia;

2º) de uma inteligência que, em certos casos, dirige essa força.

Examinemos primeiro, em uma sessão de hipnomagnetismo, o indivíduo ativo, o operador.

Mesmo sem intenção, este último influencia o indivíduo passivo, em maior ou menor escala, por meio de uma força que irradia de si, qual uma espécie de aura, que não é outra coisa senão a onda vibratória da sua força anímica, emitida sob o império da vontade, do seu pensamento de agir, e agindo ao mesmo tempo que a palavra e a atitude, ao sugestionar a seu modo o indivíduo passivo. A existência dessa força, desse fluido, como ainda se diz, é conhecida desde tempos imemoriais; e a obra do Dr. Baréty não deixa dúvida alguma a respeito da sua realidade.13 Para edificação pessoal, repeti com êxito certas experiências do Dr. Baréty sobre indivíduo dos mais sensíveis, embora fosse ele antes dotado de disposições para os fenômenos de ordem intelectual.

Não me demorarei em falar, a propósito da sugestão, dessas cenas que encontramos narradas longamente em livros que de há muito se publicam sobre hipnotismo; tudo já é demasiado simples e faria, se me demorasse nelas, que o presente trabalho parecesse antes uma espécie de anacronismo, porquanto brevemente esses fatos vão tornar-se assunto clássico elementar. Ademais, nesses fenômenos primitivos, não há quase nada a tirar para a demonstração que me proponho fazer, embora sirvam para mostrar a facilidade com que o espírito humano pode ser iludido quando se acha no começo de um certo estado.

Hoje está provado, para quem estuda a questão, haver uma força que, podendo muito facilmente ser posta em evidência, se desprende e opera a distância, segundo a vontade do indivíduo ativo, isto é, do operador, ou ainda, quando se trata de um passivo, sob a influência de uma ordem sugerida ou ocorrida espontaneamente durante um estado passivo, quer consciente quer inconsciente. Por exemplo, pode-se, com certos indivíduos hipnotizáveis, fazer a experiência de Horácio Pelletier, porque, segundo sei, ela foi feita por esse experimentador, pela primeira vez, em condições razoáveis (suum cuique). Colocando-se um, ou, antes, muitos indivíduos sensitivos com a mão acima de um vaso contendo água, se lhes dermos ordem (sugestão) de fazer mover o líquido como se ele fervesse, e sem contato, podemos, com paciência e tempo – limitado no máximo a meia hora em cada sessão – ver a água enrugar-se primeiro, depois mover-se em diversos lugares como se ao nadar um peixinho a agitasse, finalmente chegar a ferver, até o ponto de sair do recipiente e transbordar. É um fenômeno que os faquires da Índia determinam facilmente, só com a sua presença, ou pela simples “imposição das mãos” acima do líquido. O Dr. Pelletier, que me escreveu muitas vezes a respeito desse curioso fato, nunca me informou se os indivíduos se queixam às vezes de incômodo nos braços e nas mãos, durante a posição; é uma observação que fiz nas minhas experiências. Essa mesma sensação dolorosa é acusada pelos que produzem a escrita direta nas ardósias.

Mas, esses fatos são de pequena relevância e não podem servir à demonstração que me proponho fazer: a transmissão do pensamento é mais útil. Com esse intuito, experimentei sobre indivíduos sensíveis à ação a distância, ao que se denominou recentemente sugestão mental;14 por exemplo: uma prova que tentei muitas vezes, consistia em dizer a um indivíduo adormecido: “Despertai quando sentirdes que eu quero despertar-vos”; e punha-me a redigir a observação da sessão que acabava de ter com a pessoa assim hipnomagnetizada. Abrigava-me por detrás de uma pilha de livros, no intuito do indivíduo, que via apesar de uma espessa faixa sobre os olhos, nada perceber no meu rosto, que o prevenisse do desejo de acordá-lo.

Em determinado momento, ora no meio, ora no fim da redação das minhas notas, eu pensava em querer que o indivíduo despertasse; se era quando tinha acabado de escrever, continuava, entretanto, fazendo mover a pena sobre o papel, traçando palavras quaisquer, como: “Quero que despertes, desperta!”; ou frases sem relação com o caso, e o despertar não tardava mais de 40 a 60 segundos.

Outras vezes, quando obtinha o despertar, punha-me a escrever, e então queria que a hipnose se produzisse. Quando essa experiência era bem sucedida, era-o apenas parcialmente, porque ouvia logo dizer: “Por que procurais fazer-me dormir de novo?” E então o indivíduo se erguia, movia-se e empregava ao mesmo tempo um meio que eu lhe havia ensinado para resistir ao sono magnético, no caso de quererem adormecê-lo contra a sua vontade.

Não obstante seu interesse, não insistirei mais sobre esses fatos, que o leitor pode estudar nos tratados especiais escritos a respeito. A explicação que se pode dar será fácil de ser deduzida da teoria, exposta neste trabalho mesmo, sobre a constituição do ser humano. Ademais, o seu valor como fato, em apoio da minha tese, é muito relativo, e apresso-me a apresentar outros exemplos mais convincentes. Chegou o momento, com efeito, de examinarmos mais particularmente os casos nos quais a independência do invisível e sua ação fora dos limites do corpo físico são muito mais manifestas.

* * *

Os indivíduos comuns, com os quais é estudado o pseudo-sono hipnótico, passam por diferentes fases, que se não sucedem sempre tão regularmente como descrevem os autores. Entretanto, essas fases ou estados desdobram-se comumente na ordem seguinte:

1º) estado de fascinação (Liébault), ou de credulidade (de Rochas);

2º) estado cataléptico;

3º) estado sonambúlico;

4º) estado letárgico.

São, por assim dizer, os estados clássicos obtidos com a sugestão ou a fixação do olhar, isolados ou combinados.

Empregando-se outros meios e, entre eles, a dietética a que aludo mais acima, assim como os passes magnéticos e a vontade firme e tão exteriorizada quanto possível, o que só se obtém após exercício, adquire-se depressa a prova de que os estados supra-enumerados são apenas um caminho que leva ao estado de desdobramento, não da personalidade, mas da pessoa. Esse estado, que se pode produzir quase de improviso, uma vez que os indivíduos se tenham habituado a ele, é, no começo, precedido de um quinto estado que sucede ao quarto – o letárgico. Este quinto estado é conhecido de certos magnetizadores e designado por eles sob o nome de sonambulismo lúcido. Um sexto estado poderia ser qualificado de extático. Finalmente, produz-se o que denomino o estado de desdobramento. Neste último, o aspecto do indivíduo pode variar, segundo a pessoa. Alguns ficam mergulhados num estado de morte aparente; outros permanecem como petrificados, guardam os olhos inteiramente abertos e têm as pupilas desmedidamente dilatadas e fixas. Estes últimos falam algumas vezes sobre assuntos, coisas e cenas que parecem existir ao longe. Muitas vezes, pode-se verificar que nada há de verdadeiro naquilo que contam, ou então, que há erro de tempo e lugar; outras vezes, ao contrário, verifica-se que tudo é absolutamente exato, mesmo no caso de o fato visto produzir-se a muitas léguas de distância! Esse estado podia ser denominado êxtase falante.

Os que ficam mergulhados num estado de morte aparente lembram-se raramente, de maneira espontânea, daquilo que experimentaram.

Haveria perigo em levar mais longe este último estádio; e acrescento que é arriscado deixar o indivíduo por muito tempo nele. O estado que sucederia, com efeito, seria o desdobramento completo e definitivo. O Espírito, rompendo o fio anímico que o liga ao corpo, depois de haver atraído para fora uma grande quantidade de energia vital, ficaria libertado para sempre, talvez a seu benefício, mas com profundo e terrível embaraço do experimentador demasiado temerário, que se tivesse aventurado sem direção nessas paragens inexploradas e cheias de escolhos.

Mas, quando a operação é conduzida por mão segura, eis o que se observa: o indivíduo, depois de passar rapidamente pelos diferentes estados supramencionados, começa o seu desdobramento. O Espírito desprende-se, ao mesmo tempo que uma certa quantidade de energia vital ou anímica, e fica em comunicação com as coisas exteriores. A princípio o desprendimento consiste em uma simples irradiação em torno do corpo; e é então que os indivíduos lêem com a mão, com a fronte, com o epigástrio, com os pés, etc. Em outras palavras, os “orifícios da lanterna” não são somente os olhos, os ouvidos ou os outros órgãos dos sentidos, mas também o sentido único abre caminho através de todos os poros da pessoa. Então, já não há mais cérebro para a percepção ou para o pensamento, mas uma e outro podem estar em toda parte. Nesse estado, o indivíduo já pode, por meio do éter ambiente, cujas vibrações lhe fazem vibrar uníssono o éter anímico exteriorizado, já pode, digo, compreender uma multidão de fatos passados, presentes e – ouso dizê-lo – futuros.

Não quero insistir nessas coisas mais do que convém, como também não me esforçarei por acumular provas em seu apoio. Essas provas estão feitas para grande número de sábios ou de conhecedores; e já que o dia de amanhã há de fornecer tantas e tantas provas, não aumentarei este ensaio com páginas que, desde agora, considero supérfluas. Todavia, no caso que, em nome de não sei que ciência monopolizada e fácil de assustar-se, venham objetar-me serem esses dados anticientíficos, farei notar que Laplace, sendo o mais positivo dos sábios da sua época, parece haver entrevisto a possibilidade da previsão do futuro, como se pode julgar por este extrato da sua Théorie analitique des Probabilités. Escreve ele na sua Introdução:

“Uma inteligência que por um instante dado conhecesse todas as forças animadoras da Natureza e a situação respectiva dos seres que a compõem, se também fosse bastante vasta para submeter esses dados à análise, abarcaria na mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do Universo e os do mais leve átomo: nada lhe seria incerto e o futuro, como o passado, estariam presentes aos seus olhos.

Analisemos o pensamento de Laplace. Se bem penetrarmos o sentido do que precede, veremos que esse grande e profundo astrônomo e matemático, que repelia a “hipótese” de um Deus pessoal,15 concebia o Universo exatamente como todos os grandes panteístas; e de modo algum combatia a idéia da presença da Inteligência inefável, nem tampouco a da Energia (anima mundi), no conjunto das coisas. Ele sabia que, uma vez produzida uma vibração, se podia não só admitir que as causas dela existem desde todo o tempo no passado, mas, também, que tal vibração estava inscrita para sempre no futuro, onde a inteligência, de que ele fala, poderia prevê-la por meio do conhecimento exato das vibrações passadas e presentes, cuja conseqüência forçada ela será no futuro.

E, conforme escreveu um sábio matemático moderno, que já tive ocasião de citar, “esta conclusão não é aplicável somente às vibrações luminosas que nascem na superfície dos corpos, ou à fraquíssima profundidade, mas também às vibrações de toda espécie, que se produzem na sua massa; aquelas, por exemplo, que os nossos mais secretos pensamentos imprimem às moléculas de que o cérebro se compõe: todos esses movimentos o Universo inteiro os sente e conserva”.16

Haverá necessidade de acrescentar que, desde o momento em que uma inteligência se desliga bastante da matéria onde está provisoriamente encarcerada, a ponto de receber a impressão das vibrações transmitidas pelo éter, será lícito conceber que lhe seja possível perceber, de modo mais ou menos claro, as modificações impressas nesse “fluido” universal pelos acontecimentos externos, inclusive os pensamentos, os quais, em outros, dão movimento “às moléculas de que se compõe nosso cérebro”? Assim, ficam explicadas a “sugestão mental”, a transmissão de pensamento e a violência, tanto quanto a audição a distância.

Penso não ser inútil insistir no fato de ser mesmo o menor grau de hipnose um começo de desdobramento, que, a princípio, é de alguma sorte todo interno. O espírito e a energia anímica concentram-se no interior e abandonam a periferia, em certa medida, pelo menos. Por isso, vemos o primeiro estado de hipnomagnetismo assinalar-se por anestesia da pele e das mucosas. Foi assim que pude, em senhoras muito nervosas atacadas de náuseas incoercíveis, fazer exames prolongados e dos mais complexos, introduzir um instrumento até debaixo das cordas vocais, sem provocar nenhum reflexo, desde que as referidas senhoras estivessem hipnomagnetizadas.

E logo nos primeiros momentos do pseudo-sono, em alguns indivíduos produz-se a abmaterialização, e então se efetua também, por concomitância, a expansão externa do sensorium verdadeiro, do sentido único.

Recentemente, em New York, numa primeira sessão de hipnose, pude obter de um moço, cujas pálpebras estavam fechadas sobre os globos oculares fixos, por contração dos músculos motores dos olhos, para cima e para dentro, como sempre, pude obter que ele me dissesse a cor de dois objetos, duas folhas de papel colocadas na parte superior da sua cabeça. Uma dessas folhas era branca, a outra azul.

O indivíduo estava de costas para a minha secretária, de cuja gaveta eu tirava esses objetos sem fazê-los passar por diante do seu rosto. Na segunda sessão, coloquei meu relógio igualmente sobre a parte superior da sua cabeça. Depois de alguns segundos de hesitação, disse-me ele a hora exata. Conhecendo a faculdade que têm os hipnotizados de possuir, em geral, a noção do tempo, eu tinha recuado o ponteiro de vinte minutos. Ao fim de alguns dias, esse moço lia do mesmo modo que a senhora, cuja observação já citei antes.

Essas experiências começam a revelar-nos fatos mais importantes: provam, pelo menos, que a sensação é independente do sentido especial por meio do qual ela é normalmente transmitida: o nihil in intellectu quod non prius fuerit in sensu, de Zenon (de Citium) e de Aristóteles, já pode ser discutido sobre outras bases.

Embora tenha resolvido não dar neste trabalho lugar preponderante às minhas experiências, vou citar, entretanto, uma que fiz em Paris, em abril de 1887 e que repeti muitas vezes, uma delas diante de uns quarenta amigos, homens cépticos, em reunião especial de um grêmio ao qual pertenço; esse grêmio compõe-se de médicos, engenheiros, literatos e diversos homens de ciência, em cuja presença, alguns dias antes, o Sr. Yves Guyot, hoje ministro das obras públicas, havia feito uma conferência sobre a supressão dos direitos de barreira.

Eis em que consistiu essa experiência, cuja narrativa foi publicada em um jornal provinciano,17 ao qual foi dirigida por um dos assistentes:

“O indivíduo (sujet) era uma moça de seus vinte anos, de origem judaica. Desde que adormeceu, e num estado intermediário de abmaterialização, que não era letargia, nem sonambulismo, nem ainda o êxtase falante, porém antes o que os magnetizadores de profissão denominam sonambulismo lúcido, coloquei um rolo de algodão sobre cada um de seus olhos, mais uma toalha espessa e larga ou um pano atado por detrás da nuca. À primeira vez que tentei a experiência de que vou falar, fiquei muito admirado do êxito; devo dizer que, então, eu ainda não tinha a experiência que me deram, posteriormente, séries de observações e, devo acrescentá-lo também, estudos sérios e contínuos sobre a questão.

Tomei, à minha biblioteca, o primeiro livro que me caiu nas mãos, abri-o ao acaso, por sobre a cabeça da moça, sem olhar, com a capa voltada para cima, enquanto segurava o texto impresso a dois centímetros mais ou menos dos cabelos da hipnomagnetizada. Ordenei-lhe ler a primeira linha da página que estava à sua esquerda e, após um momento de demora, disse ela: “Ah! sim, estou vendo; esperai”. Depois continuou: “A identidade conduz ainda à unidade, porque se a alma...” Deteve-se e disse ainda: “Não posso mais, basta; isto me fatiga.” Acedi ao seu desejo, sem insistir; virei o livro, que era de filosofia, e a primeira linha, exceto duas palavras, tinha perfeitamente sido vista e lida pelo invisível abmaterializado da adormecida.18

Fazendo traçar sobre o pavimento, por terceiro, uma palavra qualquer, com um pedaço de giz, conduzida de um aposento vizinho, com os olhos tapados, a mesma moça lia, sem jamais se enganar, a palavra escrita, contanto que tivesse os pés sobre ela; e acrescentava sempre alguma reflexão perfeitamente justa, por exemplo: “Como está mal escrito... está às avessas” e voltava-se; ou ainda: “Olhai! é o nome de fulano, com um risco por baixo!” Quando era conduzida – com os olhos tapados e chumaçados, como acima referi – por sobre a palavra escrita no chão, era andando de costas, e conservava a cabeça erguida em posição um pouco forçada, que permitia aos assistentes verificarem a impossibilidade em que estaria, mesmo acordada, de ver sob a venda.”

Muitos outros fatos desse gênero poderia narrar, mas devemos saber limitar-nos à tarefa que nos impusemos. Quis somente demonstrar que o sensus internum podia, em momento e condições dadas, entrar diretamente em relação com o mundo exterior, sem se servir dos canais a que está sujeito em tempo de vida ordinária. Isto já nos não permitirá admitir a existência da inteligência independente da matéria que lhe serve às manifestações do estado comaterial19

* * *

Falei anteriormente de sonhos que sentimos de maneira diversa da dos outros sonhos, e durante os quais podemos ver pessoas ou lugares desconhecidos de nós e que depois chegamos a reconhecer. Existem estados diferentes do sonho que se produz durante o sono normal, ou que principiou normalmente. Embora esses estados se apresentem raras vezes espontaneamente, sem exercício prévio, nem por isso deixam de existir; e a quem tem curiosidade pelas coisas da Natureza e quiser instruir-se na questão, recomendo o livro publicado por E. Gurney, F. Myers e F. Podmore, em Londres, sobre os fantasmas dos vivos (Phantasms of the Living).

Pessoalmente, possuo muitos fatos desta categoria: um, entre todos, no qual a fotografia de um “fantasma de um vivo” deixou provas permanentes do fenômeno e outro no qual obtive os mais circunstanciados pormenores da própria boca da pessoa a quem o “acidente” ocorreu.

Depois da publicação do meu livro sobre O Espiritismo, recebi de todos os lados inúmeros documentos mais ou menos importantes, assim como esse trabalho provocou igualmente cartas e visitas pessoais de muitos que me pediram esclarecimentos sobre este ou aquele incidente de sua vida, que eles não sabiam explicar.

Eis uma dessas observações:

“M. H... é um jovem alto, louro, de uns trinta anos, filho de pai escocês e mãe russa. É um artista gravador de talento. Seu pai foi dotado de faculdades “mediúnicas” muito poderosas. Sua mãe foi igualmente médium. Conquanto nascido em um meio espiritualista, ele jamais se ocupara de Espiritismo e nunca houvera experimentado nada de anormal, até o momento em que sofreu aquilo que apelidou de “acidente” e a respeito do qual veio consultar-me, em princípios de 1887.

“Há poucos dias – disse-me ele –, entrava eu em casa, pelas 10 horas da noite, quando subitamente se apoderou de mim um sentimento de prostração estranha, que eu não compreendia. Decidido, entretanto, a não me deitar imediatamente, acendi a lâmpada e coloquei-a sobre a mesa de cabeceira, perto do leito. Apanhei um charuto, acendi-o, aspirei algumas fumaças, depois estendi-me numa espreguiçadeira.

“No momento em que indolentemente me virava de costas, para encostar a cabeça na almofada do sofá, senti que andavam à volta os objetos próximos, experimentei como que um atordoamento, um vácuo; depois, de repente, achei-me transportado ao meio do quarto. Surpreendido por esse deslocamento, do qual não tinha consciência, olhei em torno de mim, e meu espanto aumentou muito mais.

“A princípio, dei comigo estendido no sofá, suavemente, sem rigidez, apenas tendo a mão esquerda acima de mim, estando o cotovelo apoiado, e segurava o charuto aceso, cujo lume aparecia na penumbra produzida pelo abajur da lâmpada. A primeira idéia que tive foi que havia, sem dúvida, adormecido, e experimentava o resultado de um sonho. Entretanto, reconhecia que nunca sentira coisa semelhante e que me parecesse tão intensamente a realidade. Direi mais: tinha a impressão de que jamais havia estado tão deveras na realidade. Compreendendo que se não tratava de um sonho, o segundo pensamento que acudiu, de súbito, à minha imaginação, foi de haver morrido. E, ao mesmo tempo, lembrei-me de ter ouvido dizer que há Espíritos, e pensei que eu mesmo me tornara Espírito. Tudo quanto podia saber sobre esse assunto desenrolou-se longamente, mas em menos tempo do que é preciso para lembrá-lo em minha vida interior. Lembro-me perfeitamente de ter sido assaltado, então, por uma espécie de ansiedade e pesar por coisas inacabadas; a minha vida apareceu-me qual uma profissão de fé.

“Aproximei-me de mim, ou, antes, do meu corpo, ou do que acreditava ser já o meu cadáver. Um espetáculo, que não compreendi logo, me atraiu a atenção: contemplei-me respirando, porém vi mais o interior do meu peito, e dentro dele o coração batia lentamente em débeis palpitações, mas com regularidade. Via meu sangue, de um vermelho de fogo, correndo nas artérias. Nesse momento compreendi que devia ter tido uma síncope de caráter particular, a menos que as pessoas sob a ação de uma síncope, pensava à parte, se esqueçam de tudo quanto lhes ocorra durante o desmaio. Então receei perder a lembrança quando voltasse a mim...

“Sentindo-me mais animado, olhei ao redor, perguntando a mim mesmo até quando ia isso durar; depois, não fiz mais caso do meu corpo, do outro eu, que continuava a repousar. Via a lâmpada continuando a alumiar silenciosamente, pensei que ela estava muito perto do meu leito e podia incendiar-lhe o cortinado; segurei no botão, isto é, na chave de torcida para apagá-la, porém, ainda aí encontrei novo motivo de surpresa! Sentia perfeitamente o botão com a roseta, percebia, por assim dizer, cada uma das suas moléculas, mas, embora desse voltas com os dedos, estes executavam sozinhos o movimento, e debalde procurava mover o botão.

“Então examinei-me a mim mesmo e vi que, embora minha mão pudesse passar através do corpo, eu o sentia perfeitamente, e ele me pareceu vestido de branco, se neste ponto a memória me não falha. Depois, coloquei-me diante do espelho, em frente da chaminé. Em vez de ver minha imagem no espelho, reparei que a vista parecia estender-se sem estorvo, e apareceram-me, primeiro, a parede, depois a parte posterior dos quadros e dos móveis que existiam na casa do vizinho e, finalmente, o interior do seu quarto. Notei a falta de luz nesses aposentos que a vista devassava e divulguei claramente um raio de claridade, que, partindo do meu epigástrio, iluminava os objetos.

“Ocorreu-me a idéia de penetrar na casa do vizinho, a quem não conhecia e que estava ausente de Paris naquele momento. Apenas pensava em visitar a primeira sala, quando aí me achei conduzido. Como? Nada sei; mas julgo que varei a parede tão facilmente quanto a vista a penetrava. Logo me encontrei em casa do vizinho, pela primeira vez na minha vida. Examinei os quartos, gravei seu aspecto na memória, dirigi-me a uma biblioteca onde notei com todo o cuidado muitos títulos de obras colocadas sobre uma prateleira à altura de meus olhos.

“Para mudar de lugar, bastava-me querer e, sem esforço, achava-me imediatamente onde desejava ir.

“Desse momento em diante, as minhas reminiscências são muito vagas; sei que andei por longe, muito longe, pela Itália, creio, mas não posso contar como empreguei o tempo. Foi como se, não tendo mais ação sobre mim mesmo, não sendo mais senhor das minhas idéias, andasse transportado de uma a outra parte, carregado para onde meu pensamento se dirigisse. Ainda não tinha recuperado a consciência; o pensamento se me dispersava antes que eu pudesse apanhá-lo; a imaginação, naquela ocasião, levava a casa consigo.

“O que posso acrescentar, concluindo, é que acordei às cinco horas da manhã, no meu sofá rígido, frio, segurando ainda a ponta do charuto entre os dedos. A lâmpada apagara-se, enfumaçando o tubo. Atirei-me à cama sem poder dormir e fui sacudido por um calafrio. Finalmente, conciliei o sono e quando despertei era dia claro.

“Por meio de um inocente estratagema, no mesmo dia induzi o porteiro da casa a ir examinar no aposento vizinho se tudo estava em ordem; e, subindo com ele, pude encontrar os móveis, os quadros vistos por mim, assim como os títulos dos livros que houvera atentamente observado durante a noite precedente.

“Evitei com cuidado falar disso a qualquer pessoa, não querendo passar por maluco ou alucinado...”

Terminando a narrativa, M. H. acrescentou:

“Que pensais disso, doutor?”

Na época em que M. H. me deu conta desse “acidente”, eu já sabia que as coisas podem ocorrer como ele contou; e já conhecia, em parte, as razões; entretanto, encarei bem de frente o meu interlocutor, para ver se ele tinha a intenção de mistificar-me. Ele estava muito sério e parecia bem preocupado com o que lhe havia sucedido. Expliquei-lhe então que, segundo toda a probabilidade, era ele dotado de faculdades realmente extraordinárias e só dele dependia desenvolvê-las. Indiquei-lhe, nesse intuito, um regime a observar, que ele prometeu seguir rigorosamente, e marcamos para a quinzena seguinte uma entrevista. Ele compareceu, mas vinha anunciar-me que estava em vésperas de casar-se e não podia consagrar-se a outras experiências que não fossem as da vida conjugal, coisa que, sabemos, é desfavorável à obtenção das faculdades de abmaterialização autônoma.

Creio que o caso precedente, referido sem preâmbulos a um homem ignorante dos princípios da nova psicologia, cujos elementos neste livro indicamos, caso tão interessante por diversas faces, seria recebido com a maior reserva, para não dizer a máxima desconfiança. Não posso fazer mais do que é possível; procure o leitor convencer-se, vendo por si mesmo; não lhe peço que creia. Expus o fato que me foi contado sem o mínimo acréscimo. Será ele verdadeiro? Como fato particular, não posso ter certeza científica; sei apenas que, genericamente, pode ser verdadeiro.

Ademais, como já o escrevi, lembro ao leitor o livro dos Srs. Gurney, Myers e Podmore – Phantasms of the Living –; aí encontrareis numerosas observações análogas à precedente.

Esses fatos são raros, subentenda-se. Se fossem vulgares, ninguém escreveria livros a esse respeito: em qualquer situação, não provocariam pasmo. Os fatos existem e provam que, mesmo em vida, o homem pode assistir, por assim dizer, à separação, ao desdobramento dos seus diferentes princípios. Vão eles servir-nos, sem nenhuma dúvida, de guias quando encetarmos o estudo do homem considerado no além da vida.

Se aconselhei a leitura de Phantasms of the Living, é porque desejaria que o leitor aprendesse a não se admirar; porquanto vamos ver brevemente coisas mais extraordinárias ainda e a admiração, como o medo, seu irmão, é má conselheira. O livro de erudição e experimentação do Cel. de Rochas é de leitura muito instrutiva e prepara bem o espírito a conceber a existência de forças poderosas “não definidas”, ao lado das que conhecemos aproximadamente por seus efeitos cotidianos. Recomendo insistentemente essa leitura aos que conseguirem obter o livro na Biblioteca Nacional, porque, pelos mesmos motivos que guiavam os sábios da antiguidade, o distinto membro da Escola Politécnica não quis que o seu livro estivesse ao alcance de todas as mãos; só fez publicar um pequeno número de exemplares, de preço relativamente elevado.20

* * *

Mais de vinte anos após a descoberta da composição do ar, por Lavoisier, o químico Prietsley, que não era absolutamente uma mediocridade, estava ainda, segundo parece, aferrado à teoria do flogístico imaginada por Stahl. Hoje, depois das brilhantes descobertas de Pasteur e dos trabalhos de centenas de discípulos e partidários seus, muitos médicos e cirurgiões não admitem a existência dos micróbios.

Convém acrescentar que estes são os que vivem, como se costuma dizer, daquilo que aprenderam uma vez. Não querendo ter o trabalho de estudar, de experimentar e, para resumir tudo em uma palavra, de ver, procuram a desculpa da sua ignorância em um cepticismo de ruim quilate e acham mais fácil negar a priori do que trabalhar para instruírem-se.

Acontece o mesmo com os fenômenos sobre os quais me apóio para demonstrar a existência, a independência, a sobrevivência de um princípio intelectual consciente, do homem.

Podem objetar-me que a existência dos fenômenos, aos quais me refiro para provar a do princípio em questão, não está provada e que é mister, antes de tudo, demonstrá-la. Responderei que já fiz essa demonstração, que não fui o primeiro nem o único, antecedido de muitos sábios dos mais honrados e dos menos contestados. Por fim, não tenho a pretensão de obrigar quem é propositadamente cego a enxergar à força.

Tanto pior para quem teimar em fechar os olhos.




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