Paulo Freire



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MEMÓRIAS DE PAULO FREIRE: A SÍNTESE DO MENINO E DO HOMEM NO INTELECTUAL
Franciele Clara Peloso*

Ercília Maria Angeli Teixeira de Paulo

Mestrado em Educação

Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG

Bolsista da Capes*

franciele_clara@yahoo.com.br


Resumo

Este ensaio contextualiza a história do educador Paulo Freire, apresentando as suas memórias de infância, de adolescência, de juventude e idade adulta, no intuito de sublinhar a importância que cada momento representa ter na construção do seu pensamento. Paulo Freire ficou conhecido como filósofo e teórico da Educação pelo mundo todo, sua marca registrada: não separar a teoria da prática. Ousou sustentar que o oprimido é sujeito da transformação de sua realidade, isso quando consciente de sua capacidade de agir e refletir sobre si e sobre o seu estar no mundo. Acreditou que o processo em que e como as coisas se dão era muito mais interessante do que o produto em si. Reconheceu que a educação é essencialmente um ato de conhecimento e de conscientização e que, por si só, não leva uma sociedade a se libertar da opressão, mas também acreditou que a educação podia melhorar a condição humana, pois a entendia como parte de uma totalidade política e social, e que podia contribuir para o que considerava ser a “vocação ontológica da espécie humana”: a humanização. Assim, através de revisão de literatura a respeito da vida de Paulo Freire em suas próprias obras e, também, em algumas biografias, escritas por outros autores, foi possível realizar um levantamento sobre a sua história e as influências de sua infância, bem como da sua adolescência, da sua juventude e idade adulta como questões fundantes para a construção do seu pensamento. Nesse sentido, a vida de Paulo Freire reflete a busca coerente, de tornar mais claras, as ligações entre política e educação, resultando em uma pedagogia ética para a transformação social, causa a que dedicou boa parte de sua vida, de seus estudos, de suas lutas.


Palavras-chave: Paulo Freire, memórias, história de vida.

Introdução

Em um estado do nordeste do Brasil no início do século XX, nasceu Paulo Freire, um menino conectivo1, um adolescente que sofreu a dor da fome, um homem que travou uma luta política e pedagógica para libertação dos seres humanos. Assim, através de revisão de literatura a respeito da vida de Paulo Freire nas obras: Sobre Educação (Diálogos) (1982); Medo e Ousadia: o cotidiano do professor (1986); Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido (1992); Pedagogia da Autonomia (1996); Pedagogia dos sonhos possíveis (2001); Aprendendo com a própria história II (2002); Cartas a Cristina (2003); A importância do ato de ler (2006); À sombra desta mangueira (2006), Essa escola chamada vida (2007); foi possível realizar um levantamento sobre a sua história e as influências da infância de Paulo Freire, bem como da sua adolescência, da sua juventude e idade adulta como questões fundantes para a construção do seu pensamento.

Para a realização desse levantamento consultamos, também, algumas biografias, escritas por outros autores, sobre Paulo Freire, são elas: Convite à leitura de Paulo Freire, escrita por Moacir Gadotti (1989); Paulo Freire: uma biobibliografia, organizada por Moacir Gadotti com a colaboração de Ana Maria Araújo Freire, Ângela Antunes Ciseski, Carlos Alberto Torres, Francisco Gutiérrez, Heinz-Peter Gerhardt, José Eustáquio Romão e Paulo Roberto Padilha (1996) e Paulo Freire, o menino que lia o mundo: uma história de pessoas, de letras e de palavras, por Carlos Rodrigues Brandão (2005). Porém, enfatizamos que nos apoiamos principalmente nas memórias do próprio Paulo Freire, presentes em suas obras, sobre os momentos de sua vida para, de certa forma, recontar a sua história.

Assim, na seqüência, estaremos contando a história de Paulo Freire, apresentando as suas memórias de infância, de adolescência, de juventude e idade adulta, bem como sublinhando a importância que cada momento representa ter na construção do seu pensamento. Ressaltamos que em muitos momentos, usaremos os seus próprios depoimentos, uma vez que os percebemos encharcados de significados, de emoções e de afetos, os quais não podem ser ignorados no entendimento da vida e da obra do referido educador.

Pode-se dizer que o trabalho e a obra de Paulo Freire são uma espécie de percurso de idas e vindas de sua vida. Para tanto esse texto não se caracteriza por ser uma corrente de lembranças e sim pelo esforço de retomar as memórias de Paulo Freire no presente histórico, como memórias reais, marcadas na pele, memórias das conquistas, das resistências, das necessidades angustiadamente vividas, de coerência entre teoria e prática que influenciaram na construção do seu pensamento como educador.
A Infância e a adolescência pobre de um menino que em tenra idade já pensava que o mundo teria de ser mudado
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 21 de setembro de 1921. Nasceu e passou a sua infância no Recife, Pernambuco, uma região marcada pela pobreza, no Nordeste do Brasil. Filho de Joaquim Temístocles Freire, rio–grandense-do-norte e de Edeltrudes Neves Freire, pernambucana. O mais moço de seis filhos, dos quais dois morreram antes que ele nascesse. O nome foi escolha de seu pai, no entanto a pessoa responsável pelo cartório, a qual fez o registro de Paulo cometeu um equívoco ao invés de Re-gu-lus, registrou-o como Reglus e, por isso, desde muito cedo foi chamado somente Paulo Freire (GADOTTI, 1989).

Freire nos conta em sua obra Sobre Educação (Diálogos) (1982), que seus pais eram marcados por uma cultura patriarcal e machista a qual caracteriza o Nordeste brasileiro no final do século XIX e início do século XX. No entanto, testemunha que seus pais tinham uma compreensão bastante ´moderna´ para o momento histórico em que viviam. Seu pai era dez anos mais velho que sua mãe, ambos de classe média, diz ele que é provável que tenham tido experiências escolares bastante semelhantes. Seu pai chegou a completar o ginásio, falava francês fluentemente e dominava muito bem a língua portuguesa, era sargento do Exército, sua mãe era bordadeira. Destaca que sua educação inicial aconteceu através de práticas de formação, de educação, do uso da liberdade, da criatividade, do respeito e da tolerância regadas de disciplina, que não era autoritarismo. Fala de seus pais em tom de respeito amoroso. “Meu pai”, diz ele:


Era um homem que tinha certas virtudes que um militar pode e deve desenvolver, como por exemplo, o senso da disciplina que ele jamais converteu em autoritarismo [...] Era um militar, mas não um autoritário; ele tinha autoridade, fazia a sua autoridade legítima. Mas jamais exacerbou essa autoridade. Isto batia muito com a forma de ser da minha mãe, que era inclusive, muito meiga e muito mansa, nesse sentido, mais que ele. Ele era também muito afetivo, extrovertido na sua afetividade... (FREIRE 1982; p. 18-19).
É possível perceber que na cotidianidade da educação de Paulo Freire existe uma coerência entre o agir de seus pais. Pode-se dizer que o excerto anterior deixa transparecer o que mais tarde ele viria a chamar de tensão entre a autoridade e a liberdade. Escreve ele, em sua obra, Pedagogia da Autonomia (1996, p. 118) que o limite está para a liberdade; “quanto mais criticamente a liberdade assume o limite necessário tanto mais autoridade tem ela”. A disciplina caracteriza-se como “a relação harmoniosa entre os pólos contraditórios, que são a autoridade a liberdade” (FREIRE 1982; p. 18). Relata que seu pai viveu sempre essa harmonia na contradição entre a sua autoridade e a liberdade de seus filhos e que teve papel fundamental em sua busca. Conta, ainda, que foi exatamente vivendo muito bem a sua liberdade em face da autoridade de seus pais, que indiscutivelmente começou a constituir sua autoridade de pai. Diz: “no fundo, minha autoridade de pai se gerou na minha liberdade de filho em relação contraditória com a autoridade de meu pai e de minha mãe” (FREIRE 1982; p. 19).
Meu pai teve um papel importante na minha busca. Afetivo, inteligente, aberto, jamais se negou a ouvir-nos em nossa curiosidade. Fazia, com minha mãe, um casal harmonioso, cuja unidade não significava, contudo, a nivelação dela a ele nem a dele a ela. O testemunho que nos deram foi sempre o da compreensão, jamais o da intolerância. Católica ela, espírita ele, respeitaram-se em suas opções. Com eles aprendi, desde cedo, o diálogo. Nunca me senti temeroso ao perguntar e não me lembro de haver sido punido ou simplesmente advertido por discordar. (FREIRE, 2003, p. 55).
Freire relata em sua obra A importância do ato de ler (2006), num esforço de retomada da infância distante, que viveu no bairro de Casa Amarela, Estrada do Encanamento, 724; descreve todo o contexto físico e geográfico em que viveu a sua infância e qual o significado que atribui a isso. Tal relato fica detalhadamente explícito, de forma bastante poética, no seguinte texto:
Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe -, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros - o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sábia -, na dança das copas das árvores soprando por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos, as águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas, dos jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada, o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. A relação entre estas cores, o desenvolvimento do fruto, a sua resistência à nossa manipulação e o seu gosto...Daquele contexto faziam parte igualmente os animais: os gatos da família, a sua maneira manhosa de enroscar-se nas pernas da gente, o seu miado, de suplicia ou de raiva; Joli, o velho cachorro negro de meu pai, o seu mau humor toda a vez que um dos gatos incautamente se aproximava demasiado do lugar em que se achava comendo e era – “estado” -desportivamente perseguia, acuava e matava um dos muitos timbus responsáveis pelo sumiço de gordas galinhas de minha avó. (FREIRE, 2006; p. 12-13).

Paulo Freire relata que nesse contexto, na sua época, as pessoas se reuniam em rodas de conversa para contar histórias, destaca a importância da oralidade que ali se desenvolvia, bem como o saber que se construía e passava de geração para geração. Conta ele que a maioria das histórias o levava a ter medo das almas penadas, medo que só pôde ser desmistificado a partir do conhecimento e compreensão de seu mundo. Ressalta também, da importância que esse momento representou na sua vida, e a contribuição que teve para suas reflexões. Para melhor expressar o afirmado:


Daquele contexto – o do meu mundo imediato – fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar. No esforço de re-tomar a infância distante, a que já me referi, buscando a compreensão do meu ato de ler o mundo particular em que me movia, permitam-me repetir, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. E algo que me parece importante, no contexto geral de que venho falando, emerge agora insinuando a sua presença no corpo dessas reflexões. Me refiro ao meu medo das almas penadas cuja presença entre nós era permanente objeto das conversas dos mais velhos, no tempo de minha infância. As almas penadas precisavam da escuridão ou da semi-escuridão para aparecer, das formas mais diversas – gemendo a dor de suas culpas, gargalhando zombeteiramente, pedindo orações ou indicando esconderijos de botijas. Ora, até possivelmente os meus sete anos, o bairro do Recife onde nasci era iluminado por lampiões que se perfilavam, com certa dignidade, pelas ruas. Lampiões elegantes que, ao cair da noite, se “davam” à vara mágica de seus acendedores. Eu costumava acompanhar, do portão de minha casa, de longe, a figura magra do “acendedor de lampiões” de minha rua, que vinha vindo, andar ritmado, vara iluminadora ao ombro, de lampião a lampião, dando luz à rua. Uma luz precária, mais precária do que a que tínhamos dentro de casa. Uma luz muito mais tomada pelas sombras do que iluminadora delas. Não havia melhor clima para peraltices das almas do que aquele. Me lembro das noites em que, envolvido no meu próprio medo, esperava que o tempo passasse, que a noite se fosse, que a madrugada semiclareada viesse chegando, trazendo com ela o canto dos passarinhos “manhecedores”. Os meus temores noturnos terminaram por me aguçar, nas manhãs abertas, a percepção de um sem-número de ruídos que se perdiam na claridade e na algazarra dos dias e que eram misteriosamente sublinhados no silêncio fundo das noites. Na medida, porém, em que me fui tornando íntimo do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na “leitura” que dele ia fazendo, os meus temores iam diminuindo (FREIRE, 2006; p. 14-15).
Ele conta que foi alfabetizado no chão do quintal de sua casa, à sombra das mangueiras, com palavras do seu mundo de criança, diz: “o chão foi o meu quadro-negro; gravetos o meu giz” (FREIRE 1982; p. 18). Testifica que foi alfabetizado por seus pais e que sua experiência de diálogo começou com eles e com o testemunho deles.

Em suas palavras:



... eles me alfabetizaram partindo de palavra minhas, palavras da minha infância, palavras da minha prática como criança, da minha experiência, e não das palavras deles [...] Eu me lembro exatamente [...] lembro exatamente... das duas mangueiras... no meio das quais meu pai me pendurava a rede... me lembro daquele pedaço de alguns metros que possibilitavam o ir e vir da rede, e que tinha uma área assim bem limpa no chão. Minha mãe costumava sentar ao lado, numa cadeira de vime... meu pai balançava-se... Eu tenho no ouvido ainda o ranger, com atrito, da rede... Não que eles tivessem feito daquele espaço a escola minha. E isto é que eu acho formidável: a informação e a formação que me iam dando se davam num espaço informal, que não era o escolar, e me preparavam para este, posteriormente (FREIRE, 1982; p. 14-15).
Com efeito, é possível perceber que a Educação que Paulo Freire recebeu de seus pais, desde a infância, se caracteriza por apresentar aspectos educativos desenvolvidos dialogicamente2 e com muito afeto. Ao que parece era um tratamento que permitia a curiosidade, a autonomia, a liberdade, mas, ao mesmo tempo, entendido a partir de valores como o respeito e a responsabilidade. É possível que o contexto da educação experienciado em sua infância o tenha influenciado, de forma significativa e particular, durante toda a sua vida. Vale lembrar que o que o movia durante toda a sua trajetória era a curiosidade de menino, a qual ele diz nunca ter deixado morrer. É o que explicita nos textos a seguir:
... é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do meu mundo imediato, sem que tal compreensão tivesse significado malquerenças ao que ele tinha de encantadoramente misterioso, que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra. A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era que se estivesse dando supostamente a ele (FREIRE, 2006; p. 15).
Eu acho que uma das coisas melhores que eu tenho feito na minha vida, melhor que os livros que escrevi, foi não deixar morrer o menino que não pude ser o menino que eu fui, em mim (...) Sexagenário, tenho sete anos; sexagenário, eu tenho quinze anos; sexagenário, amo a onda do mar, adoro ver a neve caindo, parece até alienação. Algum companheiro meu de esquerda estará dizendo: Paulo está irremediavelmente perdido. E eu diria a meu hipotético companheiro de esquerda: Eu estou achado, precisamente porque me perco olhando a neve cair. Sexagenário, eu tenho 25 anos. Depois de ter perdido uma mulher que amei estrondosamente, eu começo a amar estrondosamente de novo, sem nenhum sentido de culpa. E isso também é pedagógico. (FREIRE, 2001, p. 101)
Pode-se dizer que Freire foi o pré-escolar, como ele mesmo conta em uma de suas obras, livre... despretensioso. Assim, quando entrou na escola, a primeira escola “formal” de sua vida, já estava alfabetizado. Sua primeira escola não era pública, mas particular; conta que ao chegar à escolhinha da professora Eunice Vasconcelos já sabia ler e escrever e que lá continuou e aprofundou o trabalho iniciado por seus pais relata, ainda, que com ela, a professora Eunice, a leitura da palavra foi a leitura da “palavramundo”3. Conta que freqüentou essa escola por volta de um ano e pouco, com a mesma professora, e o que o marcou na passagem por ela e com ela foi uma atividade que costumeiramente chamavam de “formar sentenças”, conta que esse exercício o agradava muito, pois era significativo, mostrava a concretude das palavras que formavam frases, as quais descreviam e significavam algo (GADOTTI, 1989).

Paulo Freire diz que teve uma infância feliz, apesar das dificuldades que começou a viver, sobretudo a partir de seus oito e nove anos. As dificuldades a quais se refere são reflexos da grande crise de 1929, a qual obrigou que sua família se mudasse, quando ele tinha dez anos, para Jaboatão, cidade próxima ao Recife. Em relação à mudança para Jaboatão Freire descreve que foi uma experiência difícil, de ruptura:


Mais do que qualquer outra coisa me percebia como se estivesse sendo expelido, jogado fora de minha própria segurança. Sentia um medo diferente, até então não experimentado, me envolver. Era como se estivesse morrendo um pouco. Hoje sei. Vivia na verdade, naquele instante, a segunda experiência de exílio semiconsciente. A primeira fora a de minha chegada ao mundo assim que deixei a segurança do útero de minha mãe. Os dois caminhões que meu pai contratara para o transporte de nossos teréns chegaram cedo. Os carregadores começaram em seguida a sua faina a que eu assistia calado, de um canto do estreito terraço da velha casa, sem obstaculizar o seu vai-e-vem apresado. Um a um vi saírem os móveis [...]. Mas não era somente a casa que ia se esvaziando. Era eu também, ali parado, calado, no canto do terraço de onde só me movi para entrar na boléia de um dos caminhões com meu pai, também calado. Já dentro do caminhão, que começava a marchar lentamente, ele olhou, pela última vez, o jardim de minha mãe que tantas vezes defendera da agressividade das formigas. Olhou apenas, sem dizer palavra como sem dizer palavra esteve durante quase todo o percurso entre o Recife e Jaboatão, naquela época, uma viagem. (FREIRE, 2003; p. 64-66).
Em Jaboatão, um novo mundo se apresentou para o menino Paulo Freire, o qual teve a oportunidade de jogar pelada nos campos de futebol, tinha amigos de diferentes classes, se encontrava com meninos e meninas, filhos e filhas de camponeses e operários, pessoas que moravam em morros, córregos e muitos outros lugares. Diria ele mais tarde:
... mesmo quando não tivesse ainda, pela própria idade, percebido que estava já me preparando para algo que comecei a fazer mais adiante no campo da Educação Popular, foram importantes as experiências de que participei na adolescência, com meninos camponeses, com meninos urbanos, filhos de operários, com meninos que moravam em córregos, morros, numa época em que vivíamos um pouco longe do Recife. A experiência com eles foi me fazendo habituar com uma forma diferente de pensar e de se expressar, que era exatamente a sintaxe popular, a linguagem popular, a cuja expressão mais rigorosa me dedico hoje como educador popular. Todo o momento daquela experiência me preparava, em muitos aspectos, pela convivência com os tipos de amigos que eu tinha, para, mais adiante, homem moço ainda, me reencontrar com trabalhadores... (FREIRE; BETTO, 2007; p. 07-08).
Foi, também, em Jaboatão que terminou o curso primário e foi surpreendido com a morte de seu pai aos treze anos. Num esforço de retomar o momento da perda vivido, Freire busca em sua memória as lembranças deixadas por esse momento e assim o descreve:
Trinta e um de outubro de 1934. Pôr-de-sol de um domingo de céu azul. Já fazia quatro dias que meu pai, com uma aneurisma abdominal que vinha se rompendo, sofria intensamente e se aproximava inapelavelmente da morte. Até nós, os mais jovens, pressentíamos o fim contra o qual nada podíamos. Minha mãe dificilmente se afastava do quarto em que ele se achava. Sentada junto a sua cabeceira, acariciava sua testa e inventava assuntos, cheia de fé e esperança. Esperança em que ele se restabeleceria em breve para continuar a povoar seus dias de encanto e de ternura. Esperança que, naquele domingo, era reforçada pela melhora marcante que meu pai experimentava. A sabedoria popular deu um nome a esta prova de bem-estar que os doentes terminais costumam ter: visita da saúde. É a última experiência de vida em que o doente como que se despede da esperança, da alegria de sentir as coisas, de ver e ouvir os seus e a seus amigos. Sente isso tudo, goza tudo isso, não como se soubesse estar próximo de tudo isso deixar. Pelo contrário, ninguém prova a visita da saúde como anúncio de morte, mas como sinal de vida, até os que observam nos que a sofrem. Me lembro da alegria fantástica, indescritível, que vivi naquele domingo de outubro de 1934. Cada vez que vinha ao quarto me sentia acalentado. Deitado na cama, sereno, sem dor, o pai sorria e brincava comigo. Minha mãe ao lado, carinhosa, terna, dizia algo que exteriorizava sua quase paz em face da melhora dele. Fora traída, como todos nós, pela falsidade da visita da saúde. Quando voltei ao quarto entre dezessete e dezessete horas e trinta minutos da tarde vi meu pai, ao esforçar-se para sentar-se na cama, gritar de dor, a face retorcida, tombar para trás agonizante. Nunca tinha visto ninguém morrer, mas tinha a certeza, ali, de que meu pai estava morrendo. Uma sensação de pânico misturado com saudade antecipada, um vazio enorme, uma dor indizível tomaram meu ser e eu me senti perdido. Alguém me tirou do quarto e me levou para um outro canto da casa de onde ouvi, cada vez mais fracos, os gemidos finais com que meu pai se despedia do mundo. Esses últimos momentos de sua vida, as contorções de sua face, os gemidos de dor, tudo isso se acha fixado, em mim, na memória de meu corpo, com a nitidez com que o peixe fossilizado se incorpora à pedra. (FREIRE, 2003, p. 105-106).
Freire relata que com a morte do pai, ´a coisa piorou´ (FREIRE, 1982; p. 20). Em suas palavras, com emoção singular, expressa ele:
Ao lado do vazio afetivo que a morte de meu pai nos deixou, seu desaparecimento significou também o agravamento de nossa situação. De um lado, a ausência do chefe da família; do outro, a diminuição drástica na parca aposentadoria que meu pai recebia, reduzida à pensão que minha mãe passou a receber como sua viúva. Uma insignificância realmente. Só entre 1935 e 1936 houve uma real melhora com a participação efetiva de Armando, meu irmão mais velho, que conseguira um trabalho na Prefeitura Municipal do Recife; de Stela, que recebeu seu diploma de professora do primeiro grau e começara a trabalhar e de Temístocles, que andava o dia inteiro no Recife fazendo mandados para um escritório comercial. (FREIRE, 2003, p. 107-108).
Assim, com uma pensão muito pequena, a família voltou para o Recife. Com muitas dificuldades financeiras, seus estudos primários foram adiados. Então, sua mãe começou a buscar uma bolsa de estudos e a conseguiu no Colégio Oswaldo Cruz, cujo diretor Aluízio Araújo fez uma única exigência, que ele fosse dedicado aos estudos. Só entrou no ginásio, atualmente sexto ano do Ensino Fundamental, com dezesseis anos, quando seus colegas deveriam ter onze ou doze anos. Ao relatar esse episódio de sua história ele o descreve da seguinte maneira:
Eu consegui fazer, Deus sabe como, o primeiro ano de ginásio com 16 anos. Idade com que meus colegas de geração, cujos pais tinham dinheiro, já estavam entrando na faculdade. Fiz esse primeiro ano de ginásio num desses colégios privados, em Recife; em Jaboatão só havia escola primária. Mas, minha mãe não tinha condições de continuar pagando a mensalidade e, então, foi uma verdadeira maratona para conseguir um colégio que me recebesse com bolsa de estudos. Finalmente ela encontrou o Colégio Oswaldo Cruz e o dono desse colégio, Aluízio Araújo, que fora antes seminarista, casado com uma mulher extraordinária, a quem eu quero um imenso bem, resolveu atender o pedido de minha mãe. Eu me lembro que ela chegou em casa radiante e disse: “Olha, a única exigência que o Dr. Aluízio fez é que você fosse estudioso. Eu, poxa, eu gostava muito de estudar e fui para o Colégio Oswaldo Cruz...(FREIRE, Revista Ensaio, nº14, p. 05. In Brandão, 2005, p. 28).
Ao entrar nesse Colégio, Freire se depara com outra realidade. Passa a conviver com meninos e meninas, em sua maioria, bem vestidos, bem alimentos e, além disso, meninos e meninas que detinham maior patrimônio econômico e, de certa forma, cultural e intelectual em suas casas. Frente a esse contexto ele revela que fazia uma leitura completamente negativa de sua aparência e também de sua capacidade intelectual, conta que era bastante alto e magro, tinha a sensação de ser um adolescente feio. Revela, ainda, que tinha medo de fazer perguntas em sala de aula, por ser mais velho, senti-se no encargo de expor questões melhor elaboradas que os demais e, por esse motivo, calava-se. Em seu depoimento, carregado de emoção e esperança, ele escreve:
Me lembro assim, de tão longe, de momentos um pouco dramáticos em que, em certo sentido, quase que eu rejeitava o meu próprio corpo, a minha própria forma, porque eu a achava demasiado angulosa e feia. E isso poderia ter descambado, inclusive, para uma série de conseqüências graves, numa etapa difícil da adolescência, e ter me arrombado com uma baita crise aí, que finalmente não deu. Mas fui capaz de dar a volta sobre isso. Mas isso me levava a não fazer perguntas. Então, timidamente, eu me aproximava de alguns professores, com quem eu estabelecia uma melhor relação, e aí a eles diretamente eu fazia perguntas. Ou os visitava, às vezes. (FREIRE, 1982, p. 92).
Essa fase da vida de Paulo Freire pode ser entendida como uma fase de descobertas, de leitura e entendimento das relações sociais. A sua fase de infância e adolescência não o poupou dos sofrimentos e das dores do mundo e, as tramas de que fez parte nessa mesma infância, testemunha ele, serviram na compreensão das injustiças sociais, no apontamento de caminhos e na descoberta de valores. Diz ainda, que desde a infância a discriminação o irritava e a partir dessa irritação, procurava entender, entre outras coisas, porque ele não comia e outros comiam e, a partir daí, se preparava para as desigualdades sociais e começava a perceber que o mundo precisava ser mudado e seu espírito crítico já começava a se destacar, isso porque a experiência o ensinou a relação entre classe social e conhecimento (FREIRE; SHOR, 1986; p. 40).

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