Pensar o ser e o agir em o homem duplicado



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PENSAR O SER E O AGIR EM O HOMEM DUPLICADO
Madalena Aparecida Machado

(doutoranda em Ciência da Literatura, Teoria Literária, UFRJ)

“Toda a gente sabe que nenhum homem pode ser exactamente igual a outro num mundo em que se fabricam máquinas para acordar.”

Resumo: O homem duplicado (2002) de José Saramago narra a vida de Tertuliano Máximo Afonso que é o homem à procura de respostas para o caso insólito em que está inserido. Pensar o ser e o agir neste livro conduz o leitor aos labirintos da sensibilidade humana esquecida em meio às ocupações. Da igualdade retirada nas diferenças, o fundamento unificador da existência do personagem, possibilita a interpretação em termos do homem agir em função da própria compreensão.

Este texto intenta colocar-se à escuta da narrativa de José Saramago no romance O homem duplicado (2002) a fim de discutir as possibilidades que o homem tem de se fazer. A trama inicia-se com a vida de Tertuliano Máximo Afonso, um professor de História. Sujeito comum, sem grandes expectativas, vive sozinho em seu apartamento, é pacífico, dócil e submisso. Entediado, um dia recebe do colega professor de Matemática, a sugestão de assistir a fita do filme Quem porfia mata a caça. Neste filme, Tertuliano repara num personagem secundário que mais tarde descobre ser Daniel Santa-Clara, nome artístico do ator António Claro, uma cópia idêntica sua. O professor arma toda uma situação para encontrar o ator e comparar-se a este, conduzido pelo senso comum que no romance atua como um personagem, Tertuliano se vê num impasse e se mostra o homem portador da dificuldade de se apropriar do que lhe é próprio.

Chama atenção no romance o fato de que o protagonista é identificado por todo o livro pelo nome de Tertuliano Máximo Afonso. A insistência no nome completo vem a ser a marca de uma aparente clareza, domínio de si mesmo, bem ao contrário de outros romances do escritor, como Ensaio sobre a cegueira (1995) em que os personagens são conhecidos não por seus nomes mas pela função ou algum atributo: o médico, o policial, o velho da venda preta, a rapariga dos óculos escuros, etc. Já em O homem duplicado, o que parece ser a inteireza do personagem se desfaz quando o nome completo não leva ao conhecimento do homem. Tertuliano no dicionário latino-português vem de TERTULLIANUS,I, s. pr. M. lact..: Tertulliano, natural de Carthago, escriptor ecclesiastico e MAXIMUS, I, s. Cic. Virg. Maximo, por appelido cunctador, que fez parar as victorias de Annibal. Portanto, há indícios de que o personagem de Saramago apresentará ações meritórias, de destaque ao longo do texto. No romance, primeiro ele observa as piadas com seu nome, as ironias, depois se enxerga um homem que está em busca de algo, o que se configura uma inquietação interior. Talvez ele, um professor de História ignorado em suas opiniões na escola, anda em busca de uma sensibilidade esquecida em meio à humanidade repleta de respostas prontas. Daí podemos retirar a grandeza do protagonista.

O tempo da procura que marca a trajetória do personagem é cíclico, como a mostrar que a procura do homem por si mesmo não tem fim. Marcado pela solidão que só é driblada pela leitura interminável de um “estudo das antigas civilizações mesopotâmicas” (SARAMAGO, 2002: p. 18), Tertuliano oferece a compreensão do homem em busca do que lhe é destinado e se mostra vacilante, por vezes omisso, como constata o narrador: “Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente.” (2002: p. 11).

A presença humana no texto abre caminho para uma interpretação permeada pela tensão da identidade de diferenças. Isto se notarmos que entre Tertuliano e António, o mesmo, a igualdade presente na aparência, entreabre-se para a diferença no modo de ser e agir. Assim, os questionamentos de ambos dão origem ao “fundamento unificador de sua possibilidade existencial.” (HEIDEGGER, 2001: p. 150).

Pensar e experienciar o homem como ser e não-ser, propenso ao agir e não-agir leva-nos por vezes à estranheza, já que na de-mora junto às coisas, no silêncio e vazio de sua vida, percebemos contradições: Tertuliano vive à beira da depressão, quer encontrar o seu duplo mas tem medo de se identificar; quer enfrentar o desconhecido mas receia o resultado. Em pequenas coisas como o dilema entre sair ou comer, joga a sorte ao acaso. No romance, temos: “como as coisas sempre estão, todas elas, a isso não podem escapar, é a fatalidade que as governa, parece que faz parte da sua invencível natureza das coisas.” (SARAMAGO, 2002: p. 18). Se as coisas estão dadas à fatalidade, porque querer saber seu desfecho antes da hora? Controlar os passos do outro, ajudará a conhecer o eu? Da vida rotineira de um professor do ensino secundário e de um ator coadjuvante, que interesse pode haver em se notar qual dos dois é o duplicado? Ao escutarmos quem são Tertuliano e António, estas e outras dúvidas surgem quando estamos no rastro de um sentido que se faz em cada passo da busca. Na diversidade da vida em que os dois são apresentados no livro, o choque do mesmo é inevitável: “Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo, o que ali estava não era verdade, não podia ser verdade, qualquer pessoa equilibrada por acaso ali presente o tranqüilizaria.” (2002: p. 23). Por que o espanto se o que busca é a si mesmo? Não quererá ver a si como o outro?

O protagonista de O homem duplicado reflete a imagem de um pensamento aberto que num descuidar/cuidar de si mesmo completo pelo outro – António Claro – é aquele que é no modo humano. Em que condições este ser de liminaridade abre espaço para o senso comum agir? Por que ao tratar do homem duplicado, Tertuliano não vai buscar resposta na ciência, na engenharia genética? Por que ele quer encontrar o homem, razão de sua inquietação e não a explicação para o fato inusitado? Qual a razão do protagonista insistir num diálogo, num jogo de se mostrar/esconder com António Claro? A barba e o bigode postiços trocados entre ambos em ocasiões diferentes, será a máscara que esconde a essência e revela uma plenitude de ousadia em querer saber, descobrir e perceber a incompletude disto. Desta forma temos: “Quanto mais te disfarçares, mas te parecerás a ti próprio.” (SARAMAGO, 2002: p. 157). Há alguma coisa não vivida, a troca de experiências entre Tertuliano e António, leva o primeiro a sair da cautela aconselhada pelo senso comum e a arriscar algo por si próprio, demonstrando com isso que o homem se faz na medida em que adquire consciência de trazer em si o seu ser.

À semelhança da distância separadora existente entre aquilo que somos e a proximidade caracterizadora das coisas, para Tertuliano Máximo Afonso, encontrar-se com António Claro é juntar na igualdade a diferença. Que diferença é esta se se trata de duplicados? É presunção, é orgulho, superioridade ou medo, a vontade de saber quem nasceu primeiro? Este “algo que, por si mesmo toca e atinge o homem.” (2002, p. 153) revela-se no encontro dos personagens que pode vir a ser a reunião, o recolher, numa unidade as diferenças, já que estamos tratando do homem duplicado.

A procura por si mesmo de Tertuliano e depois de António envolve um recolhimento profundo bem como um processo de transformação. O romance de José Saramago não nos confidencia quem é o homem duplicado; o mistério já no título permanece durante a narrativa por mais insistente que seja o aparecimento do nome completo de Tertuliano Máximo Afonso, ao contrário, fica sempre no ar a pergunta, o que o próprio ser designa? A cura, o cuidado que ele mesmo se vê obrigado a ter em relação a saber quem é, o leva a se entender como ente uma vez que se faz enquanto está sendo, indo além do que o senso comum dita em relação ao certo e errado.

Por mínima que seja, a experienciação da diferença presente em Tertuliano e António, faz de cada um ser homem na abertura para o extraordinário da vida porque eles são “este estranhíssimo, singular, assombroso e nunca antes visto caso do homem duplicado, o inimaginável convertido em realidade, o absurdo conciliado com a razão”, (SARAMAGO, 2002: p. 167). Pela vida, vivências de ambos encontramos a dimensão com que se medem e são. Por isso o mistério? O que vem ao encontro deles a fim de ser tomado como medida? É o desconhecido? A estranheza de seu caso? Desta, pode-se entrever a proximidade que os explica? A narrativa deixa um rastro de interrogações e o homem jogado entre marasmo e ousadia vai se construindo a passos frouxos ou entusiasmados por saber quem seja. Isto é característico da produção literária de José Saramago ao colocar na mão do homem a decisão do seu destino. Temos um exemplo disto já observando o título de algumas obras: O evangelho segundo Jesus Cristo, O ano da morte de Ricardo Reis, O homem duplicado, etc. Neste, o homem encontra-se nos interstícios, suscita curiosidade, como na observação de Maria da Paz, namorada de Tertuliano: “o que te cerra a boca é outra coisa, Quê, Uma dúvida, uma angústia, um temor,(...)” (2002: p. 169) do quê, não se sabe. Da maneira que o conhecemos desde o início do romance, ele é repleto de solidão, esta, marca o compasso de uma espera: pelo encontro com o ator desconhecido; a resposta da carta com o endereço do artista; com a mulher de António Claro; a troca definitiva de lugar entre o ator e o professor. Entretanto, observamos pela ambigüidade do comportamento do homem duplicado, um agir na perspectiva que representa sua essência, algo dele e de seu duplo está sempre a escapar de nossa compreensão. Já que foi ele, Tertuliano Máximo Afonso quem descobriu o fato insólito da duplicidade, o mais provável é ser ele o “original” e o outro a cópia. No entanto, o contrário, gera preocupação, desassossego. É o homem no limiar da inquietação sobre sua origem, por isso a busca por respostas.

Semelhante a um espelho que se repete, dá-se o encontro de Tertuliano e António numa atmosfera de dúvida entre a “imagem virtual daquele que se olha ao espelho, A imagem real daquele que do espelho o olha” (SARAMAGO, 2002: p. 182) e se pergunta: quem sou? Tertuliano levanta a questão de que sendo ambos iguais, o mais provável é morrerem no mesmo instante. Então as dúvidas surgem: será que realmente viveram? O que nos remete ao mito de Narciso quando sabemos que ele era filho da ninfa Liríope e de Cefiso, rio da Fócida. O adivinho Tirésias predissera a seus pais que Narciso viveria enquanto não se visse. Um dia em que passeava no bosque, deteve-se à beira de uma fonte onde percebeu sua imagem. Enamorou-se por sua aparência e, não se cansando de contemplar seu rosto na água límpida, consumiu-se de amor à beira dessa fonte. Insensivelmente, enraizou-se na relva banhada por ela e toda a sua pessoa transformou-se na flor que tem seu nome. No romance, Tertuliano não vive até a descoberta do duplicado, não atenta para as questões da existência, está perdido entre o nada e o vazio de sua rotina. Quando se vê na imagem do outro, a obsessão não se enraíza por si mesmo mas por saber-se original.

Na narrativa, vemos que a morada do homem indica mais que seu espaço próprio é a aventura ética ao construir a imagem de si mesmo. O fato desta de-mora começa com Tertuliano, ao descobrir ser o duplicado e se aprofunda com António, o provável “original”. Este não se abala de incício com o telefonema, entretanto, aquilo o incomoda a ponto de afirmar sobre o outro: “(...) apenas exprimiu uma dúvida, uma suposição, como se estivesse a interrogar-se a si mesmo, (...) Quem é este homem, (...) nada [sei], nem do que é, nem do que quer,(...)” (SARAMAGO, 2002: p. 181). Desta forma, o encontro dos dois é visto por António como uma espécie de pressentimento, à maneira de “uma porta fechada, atrás de outra porta fechada,” (2002: p. 182) a anunciar um desencobrimento possível em meio a um velamento provável.

Daniel Santa-Clara/António Claro casado com Helena, traz no nome uma possibilidade de compreensão do homem pois prenuncia clareza, claridade, luz, perspectiva ofuscada pelo seu comportamento vingativo, mesquinho e ambicioso em relação a Tertuliano Máximo Afonso cujo nome apresenta indícios de grandeza, conquistas, valentia e contudo, se mostra fraco, covarde ao se omitir na carta e na “disputa” por Maria da Paz. Estas constatações nos levam a questionamentos sobre o porquê ser ele o duplicado? A História da civilização que ele ensina e quer fazê-lo de forma invertida, seria a história do homem que se faz tateando sentidos possíveis? Se ele é o duplicado, que importância terá sua vida após esta descoberta se é o outro quem ocupa a evidência?

A relação entre os homens, este ininterrupto estar errante e a caminho, faz da produção romanesca de José Saramago uma abertura para pensarmos a essência do homem, suas contradições, enfim, tentar novas interpretações pois a proximidade de uma provável resposta encaminha à permanência do que muda. Com isso, nas pegadas de Tertuliano Máximo Afonso, percebemos que a questão do sentido do ser passa por uma angústia, esta advém quando ele se abre para a própria interpretação. Por esse motivo, no romance, à medida que o professor descobre a existência de António, passa a se ocupar dele, do encontro, das expectativas . Isto também ocorre com o ator quando não o vemos mais falar, agir em torno de seus filmes, dessa forma, ambos saem daquilo de Heidegger chama de “mundo das ocupações” a fim de se voltarem para “aquilo com que a angústia se angustia [,] é o ser-no-mundo como tal.” (2001: p. 249). Enquanto António Claro em princípio pensa tirar proveito da semelhança com Tertuliano, ao se encontrarem fica na incerteza de como agir. Ver o outro como aquilo que não é, debater-se na discussão do eu, usar subterfúgios com intuito de “ser-livre para a liberdade de assumir e escolher a si mesmo.” (2001: p. 252). Este não se sentir à vontade consigo mesmo que observamos em O homem duplicado, sintetiza uma ânsia na tentativa de suprimir o outro, como aquele que não se deseja ver. Embora os encontros aconteçam, a decisão de que um deles não pode continuar a existir, lança expectativas em torno de quem será o escolhido.

É notório em Tertuliano suas atitudes temerosas, não assumir a noiva, depois fazê-lo; não protestar contra a decisão de António em dormir com ela, por intimidação física; por vingança ir dormir com Helena. Diante disto e pelas revelações ao longo da narrativa, sabemos que ele é o duplicado, o esperado seria ele desaparecer, mas não é o que ocorre. A singularidade do personagem, o retirar-se que seria sua decadência, revela traços de propriedade e impropriedade de seu ser, uma vez que o homem se faz na incompletude. Numa encruzilhada – saber da existência de outro igual a si – Tertuliano Máximo Afonso vê que “o próprio dele inclina-se mais para o lado da melancolia, do ensimesmamento, de uma exagerada consciência da transitoriedade da vida, de uma incurável perplexidade perante os autênticos labirintos cretenses que são as relações humanas.” (SARAMAGO, 2002: p. 203-204). E do que fez de si mesmo até aquela altura da vida, encontra-se mais perdido ainda por saber-se o duplicado. Quem então é o original? Este vazio em que se vê lançado, o cuidado com a vida assumido depois do conhecimento fatal de sua existência, o faz ser em condições e limites que ele experimenta em cada passo rumo ao desconhecido. Por isso, afirma: “Estive com ele, e agora não sei quem sou.” (2002: p. 210). Surge o medo, o silêncio, uma verdade que se anuncia no futuro completada pelo nada; existências incertas, quando no encontro decisivo, Tertuliano sobe os “quatro degraus da escada de acesso, parou no limiar” (2002: p. 213) demonstrando o limite intransponível pois depende do passo do outro, do abrir-se dando margem a interpretações várias, do agir alheio a fim de marcar a cadência explicativa de sua existência, sendo ele o duplicado e António, o original. Se ele era a cópia por toda a vida, o que fez de seu até então? Quando no rosto de António Claro desenha-se a estupefacção, anuncia-se a busca de si mesmo, daquele que deu origem ao duplicado. A franqueza, a maldade, a inocência e descaro caem por terra, abrindo-se como “o que se mostra em si mesmo” (2002: p. 281) numa proximidade que traz em si as diferenças. Para António, o próprio conhecimento passa por uma descoberta que realiza seu ser e este desvela e vela ao mesmo tempo pois não se enxerga no espelho que é Tertuliano.

Entre os dois a questão passa a ser: “o que irá acontecer depois disto?” (2002: p. 214) quando os olhares se cruzam e no mesmo instante se desviam, temos uma imagem que se recusa identificação, tão insuportável a perspectiva de reconhecimento. Os sentimentos então se misturam entre humilhação e perda como se um “tivesse roubado alguma coisa à identidade própria do outro.” (2002: p. 217). Fica em suspenso uma compreensão da existência em ambos os personagens “como um poder-ser que compreende, e onde está em jogo seu próprio ser.” (HEIDEGGER, 2001: p. 11). Mesmo na constatação de que um homem igual a outro, nenhuma relevância tem para a humanidade, isto faz com que Tertuliano entreveja seu fim com uma identidade pessoal, absoluta e exclusiva sem a sombra de António Claro, já que este nasceu primeiro, o lógico é também morrer primeiro.

Na perspectiva de existência marcada por um poder-ser próprio, Tertuliano se vê a todo instante desafiado pelo senso comum. Ora para agir sem ficar levantando questões, deixar o desconhecido como é, ou seja, resignar-se e se juntar a opinião corrente, tendo por suporte o tom de advertência do homem prudente; adiar o enfrentamento dos dilemas da vida, tais como levar em frente a história dos duplicados, que aos olhos do senso comum, querer uma resposta é uma estupidez; afastar-se do homem que não lhe fez falta até aquele momento e não o fará no futuro; permanecer com as coisas como estão; também é próprio do senso comum, incitar desejos de vingança visto como algo eminentemente humano; aconselhar cautela para se evitar a tragédia final da história do homem duplicado. Isto tudo no entanto, que desemboca no equilíbrio almejado pelo senso comum, é desfeito porque longe do costume de simplificar as coisas, a diversidade da vida se impõe a Tertuliano e o força a agir pois se vê um ser humano sabendo-se errado. Então se pergunta: “Que é ser um erro?” (SARAMAGO, 2002: p. 29) Aos poucos ele se percebe com vontades e o simples da sua história passa a ser a “indecisão, a incerteza, a irresolução, (...)” (2002: p. 32).

No horizonte do tempo em que se inscreve o projeto de um sentido do ser tanto para Tertuliano quanto para António e o caso do homem duplicado, há experienciações cuja totalidade fica pendente já que conviver no mesmo mundo para ambos, exige por um lado, conhecer o outro, por outro, “abandonar qualquer coisa” (2002: p. 83). Como se nota no livro, Tertuliano Máximo Afonso sempre teve muito cuidado com a vida (2002: p. 86), rotineira, usual, comum, após o conhecimento do caso dos dois homens iguais de que ele é parte, se percebe portador de uma energia paradoxal própria da alma humana a fim de se entender. Podemos denominar esta atitude de um voltar-se para si que engloba o outro, a conseqüente diversidade que brota da situação, faz Tertuliano reconhecer “que o novelo do espírito humano tem muitas e variadas pontas,” (2002: p. 96). Buscar a constituição existencial de alguma forma tem o modo de ser daquilo que está aí – ele próprio e seu cuidado com a vida, agora o essencial – e aquilo que está por vir: António e sua existência incógnita. Que sentido eclode desta percepção?

Até se descobrir duplicado, Tertuliano recusa-se a perceber sabedoria nas emoções. Ser-se homem no entanto, fez-lhe lembrar que sua vida era mais do que ele temia: “alvo das partidas de mau gosto” (2002: p. 120). E a confusão de sentimentos que o personagem experimenta expressa o mistério em que ele está imerso. Ao pensar nas contradições da vida, o professor de História contudo, constata que o “homem não havia mudado, o homem era o mesmo.” (2002: p. 43). Embora o que observamos com Tertuliano é o modo de colocação de sua problemática existencial, semelhante ao caos de uma ordem a decifrar. Ciente desta possibilidade, o duplicado se encontra na angústia, lançado na vida para ser-no-mundo abafado pela cotidianidade.

As imagens da estrada, do Abismo – sempre grafado com maiúsculo – são muito presentes no caminho do protagonista de O homem duplicado. Ele é “confuso, enredador de labirintos e perdido neles” (...) que por vezes fala “de um caminho que deixara de ter princípio” (2002: p. 290) como a revelar as razões do destino humano que lhe são próprias. O cuidado que antes era nítido e simples passa a reclamar uma compreensão determinada por disposições. Dessa forma, podemos afirmar que Tertuliano passa a existir, pois “projeta-se para poder se compreender no ser de um ente assim desentranhado” como demonstra Martin Heidegger (2001: p. 46). Por agir assim, arriscando algo por contra própria, Tertuliano de repente encontra-se num mar de dúvidas, não sabe o que é, quem é, só sabe que o que dura toda a vida é a vida, sendo o resto sempre precário, instável e fugidio, por isso seus passos, seu caminhar é trôpego.

O protagonista que sempre foi identificado como Tertuliano Máximo Afonso, que se sabia único e exclusivo no mundo aos trinta e oito anos de idade, num instante se vê distinto do que era antes. No disfarce de António Claro, ele aparece diferente mas é como “se tivesse tornado mais ele mesmo” (SARAMAGO, 2002: p. 164) tal a sensação de força que surge da barba e do bigode. Então a solidão, o sossego e o recolhimento da vida anterior tomarão outro rumo. A imagem nova, clandestina, que possivelmente o fará acordar de uma letargia existencial para ser ele mesmo, também provocará perturbações em António Claro que era Daniel Santa-Clara e depois António Claro, o original. Este, para evitar curiosidades desnecessárias, no encontro de ambos, também se disfarçará de Tertuliano. Num jogo de trocas de identidade, cópia e original se misturam como a retratar que ninguém está isento de si mesmo na busca de um “ponto de equilíbrio que exista entre ter sido e continuar a ser,” (2002: p. 299).

Daniel Santa Clara, o ator que se disfarça de Tertuliano Máximo Afonso com o propósito de se encontrar com Maria da Paz, a noiva do professor, por motivo de vingança devido a inquietação provocada pelo duplicado; bem como Tertuliano que por despique toma o lugar de António Claro e passa noite com sua esposa Helena, perfazem um percurso existencial em que a abertura para o ser só pode ocorrer quando eles se dão a possibilidade. Estas atitudes nos fazem abrir para questões como a da liberdade. Até que ponto pode-se ser segundo uma singularidade? Quando nos tornamos nós mesmos? Sendo o outro, chega-se a ser propriamente dito? Quem origina quem? A segurança de um, a incerteza do outro, completam uma vida, a vida do homem feita de indefinições que beira o limiar da existência. O homem perdido entre o que foi, a impossibilidade de ser no futuro, é alguém que vislumbra uma saída em meio ao labirinto em que se encontra: saber quem é. Vigora a estranheza nos personagens. “O inimaginável convertido em realidade,” (2002: p. 167) é a proposição existencial em que se debatem os protagonistas de O homem duplicado. O interessante é que eles adquirem consciência que o mais difícil ainda estava por vir quando uma decisão era inevitável. Assumir um lugar na vida? Qual seria? Continuar a ser o que eram mesmo depois de saberem do duplicado?

Na gigantesca metrópole em que vivem, numa espécie de duplicação tanto horizontal quanto vertical de um labirinto, eles não habitam no sentido essencial do ser, de produzir deixando aparecer aquilo que são. O que faz lembrar o anônimo sr. José, perdido no labirinto da Conservatória Geral em meio a Todos os nomes. Por isso é que os dois encontros decisivos para o caso dos duplicados ocorre fora da cidade, num deserto, no campo. A casa envolta por castanheiros antigos tem um ar de abandono, é descrita como um sítio solitário, ideal para pessoas contemplativas. Nos encontros, estão sempre abertas a cancela e a porta, mas fechadas as janelas como a anunciar um dizer que se cala, provocado pelo interesse maior no escondido que no visível.

Tertuliano Máximo Afonso ao entrar na vida de António Claro e Helena, em suas cabeças, o faz à semelhança de uma interrogação que não se explica, levando-os a fugir da “normalidade”, pois começam a se questionar. O ator que sonha em ser de primeira fila, passa a se disfarçar no outro que não é. Quando morre com a identidade de Tertuliano (e sua atitude irresoluta?) perante a vida, deixa ao professor seu nome, sua existência, porém, ele “continua a ser a mesma pessoa” (...) (2002: p. 300) que não aceita seus defeitos, se escondendo na vida do outro. Assume ser quem não é, embora externe que terá de descobrir outra vida para si, não o faz. Este algo a compreender, implica entendimento, vontade ou sentimento no homem Tertuliano que fica encoberto pela nova vida do ator cujo fingimento continua. A possibilidade de se colocar em ação na escuta de quem é, leva o personagem mais uma vez à angústia, porque o ser-no-mundo agora se reconhece como um eu que nem sempre está sendo no mundo.

O Tertuliano que morre aos olhos do mundo e António que vive aparentemente, movem-se “à beira do tempo” que “voltou para trás” ao receber o telefonema de um homem que se diz semelhante a ele. Isto vem demonstrar que o homem e sua existência, estando a caminho numa estrada que desaparecera, pode muitas vezes encontrar pela frente o Abismo quando se vê que “há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.” (SARAMAGO, 2002: p. 60), com isso, a compreensão de si está projetada em função de um ser aberto. Singularidade perdida em meio ao nada? Por isso o homem é duplicado como quer José Saramago?

BIBLIOGRAFIA:

(Textos trabalhados no curso “Arte e Contemporaneidade” – Doutorado/UFRJ – 1º

semestre de 2004, elaborados pelo professor)

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