Pensei em escrever um livro, como todo mundo pensa, nessa vontade de se eternizar que é natural da condição humana, depois de ouvir de uma jovem que algumas pessoas pensam tanto em se eternizar enquanto vivos que saem da vida nessa busca



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FFragmentos de VidaFF - Hérbat Spencer B. Meira.


Prefácio.

Diz-nos Bachelard, cientista e poeta, que os homens podem ser diurnos ou noturnos, solares ou lunares. Completos, entretanto, ao que se deduz de sua obra, somente os que são os dois ao mesmo tempo.
Qual seria a diferença entre um e outro?
Talvez ele soubesse, mas não o disse diretamente. Mas de uma forma sutil deixou-nos entrever a misteriosa dialética entre razão e sensibilidade, ciência e poesia, noite e dia.
Assim o é.
Um homem completo é essa dialética de opostos aparentes e complementares, uma síntese heracliteana que faz-nos vislumbrar o verdadeiro sentido do poema de Fernando Pessoa, quando nos diz para sermos inteiros:
“Assim (como) em cada lago a lua toda

Brilha, por que alta vive.”
Razão e Sensibilidade, Noite e Dia, Ciência e Poesia.
Hérbat Spencer é um homem assim, inteiro, completo, bachelardiano, e como nele o continente e o conteúdo se confundem, isto não é um prefácio, mas uma apresentação.
Dele, todos conhecemos a obra da razão, sua própria vida de homem público - vasto acervo elaborado com talento e persistência ao longo dos anos, para o respeito e admiração de muitos.
Não há por que se admirar de tanto, de sua competência na Procuradoria Geral do Estado, seu talento como Professor Universitário ou brilho enquanto Advogado.
Dele, o que se nos desponta aos olhos é uma circunstância, algo que deflui naturalmente de uma personalidade construída e temperada na luta que sua coragem de viver plenamente as próprias convicções tornou tão intensa.
O puro resultado da obstinada construção do próprio destino - essa escolha em ser o concreto que doma o rio, não a folha que a correnteza leva.
Mas não conhecíamos, senão “en passant”, a obra da sensibilidade. A obra permanente, íntima, noturna... Quando, por exemplo, ouvíamo-lo no Júri, dando aulas, ou mesmo em instantes mágicos de pura prestidigitação verbal, ao nos enredar e envolver contando uma estória, descrevendo uma cena, narrando um romance!
Agora, e a partir desta obra, os que não o conheciam poderão apreendê-lo por inteiro: noite e dia, ciência e poesia, razão e sensibilidade.
E compreender e dar razão ao prefaciador.


Honório de Medeiros.



Você pode estar começando a pensar, isto é um livro de memórias? Lições de Vida? Síntese de Obras? Espécie de esquetes, para usar uma linguagem de teatro? Sim. Esquetes de Vida. Histórias e Emoções que prometi dar aos outros, tirando de cada uma delas as lições que os ajudassem a viver melhor, a escapar de certas ciladas em que caí, porque, entre os quatorze e dezoito anos, estive no que vou, para simplificar, chamar de Seminário, (1) e, ao sair, prometi isso a Deus. Até porque, aprendi com Gibran Kalil Gibran, n’O Profeta, de que já falei, que caminhamos como numa procissão, e aquele que tropeça e cai peca menos que aquele que antes dele vira a pedra e não a retirou do caminho ou não avisou aos que vinham depois dele.
Martin Luther King, numa de suas mais belas e bem inspiradas afirmativas disse:
A humanidade sofre mais pela omissão pecaminosa dos bons que pela ação insidiosa dos maus.”

Essa frase nos convoca para a responsabilidade que temos de amostrar a pedra no caminho aos que vêm atrás de nós, e evitar que nela tropecem. E mais que isso, a assumir as atitudes que a consciência e a bondade inerentes ao ser humano lhe apontar assumir, mesmo que soframos um pouco, ou um tanto, ou muito. Mas é preferível sofrer com dignidade, tendo cumprido os papéis que as circunstâncias nos impuseram cumprir, do que nos omitir, simplesmente, para não sofrer, e nos sentirmos indignos dessa condição humana, e nos sentirmos, mesmo que somente nós saibamos, acanhados de nós mesmos a cada espelho que nos reflita.
Eu era, pois, “seminarista” gratuito. Havia aqueles que pagavam, e outros, mais ricos que pagavam por sua vocação e por mais uma ou duas. Nós, os gratuitos, sabíamos que não podíamos falhar. Quanto aos outros, era-se mais indulgente em suas falhas, embora talvez fossem conosco também, mas temíamos ser expulsos, se falhássemos. Por isso, o Monsenhor Manuel Palmeira, hoje Bispo em Pernambuco, quando me indicou ao Irmão Francisco, chamado de “recrutador”, à minha resposta de que não pretendia ser religioso, me aconselhou:
- “Vá, isso é um chamado, é um convite de Deus. E o convite de Deus se revela de várias formas; a Pedro, foi expresso: “Deixa de pescar peixes e vinde comigo para sermos pescadores de almas”; a Paulo, o autor de tão significativas epístolas da Igreja Católica, o convite foi diverso; a ti foi assim. Pagarás a tua estada a “preço de juventude”, pois terás que ser exemplo. E, se concluíres que não deves ficar, sairás melhor preparado para a vida e estavas em casa de teu Pai.”
Somente muito tempo depois vim a saber o que significava pagar a estada a “preço de juventude”. É o preço de ver alguém e não poder flertar, como se dizia na época, de não poder dançar com alguém, de não poder ir a festas e programas típicos dos jovens livres de então. Era um preço altíssimo!
Certa vez, entretanto, quando o nosso coral cantava numa determina solenidade religiosa, frente a nós, cantava o coral de noviças de uma outra Congregação. Perdoe, Senhor, mas o rostinho daquela noviça, quase em frente a mim, e o meu, tinham, ambos, a boca para cantar “Regina Coeli laetare, aleluia...” mas os nossos olhos, ali, naqueles instantes, nós nos demos reciprocamente: os meus, eram dela; os dela, eram meus.
Nunca mais nos vimos, mas registro aqui o pecado daquela manhã. Era a inadimplência, ou não cumprimento da obrigação de pagamento do preço de juventude. Perdoe, Senhor, aquela circunstância, como outras em que cedi, eram maiores que eu!
Aqui, contando tudo, vou me expor, especialmente na cidade onde moro, mas terei sempre o cuidado de suavizar ou apimentar a realidade, como disse Ullman, não porque também acredite que a realidade não é digna de interesse, mas porque preciso, como que emoldurando um quadro, destacar o essencial de cada experiência, como lição de vida, e deixar ao leitor o direito de completar as cenas, as imagens, ou as identificações e ligações de identificados a fatos, por simples questão de respeito ou homenagem aos vivos, ou, quem sabe, mortos, que andam se mostrando “muito vivos” por ai.
Certo dia, veio visitar a sede da nossa Província Religiosa Marista - que ficava no Seminário - o Irmão Geral. Espécie de “Papa” da Congregação, que, se não me engano, era Chileno, mas o seu nome a sua imagem de virtudes, nunca esqueci: Irmão Rueda (ou Rhueda)!
E veja um fragmento do seu discurso na chamada Direção Espiritual que fez para todos nós dali, se é que consigo redizê-lo com o tricô perfeito das palavras que o fez então:

Decidam, meus filhos, e logo, o que querem ser na vida. Não envidem esforços em diferentes direções, porque o pato decidiu nadar, voar e andar. Nada mal, sobre as águas, carcomido nas patas pelas piranhas que não percebe; voa mal, baixo e batendo nas árvores de mais folhagem, e anda balouçante, cambaleando. Se queres nadar, faças como o salmão, que é veloz e quase inatingível pelos outros nadadores; se queres andar, faças como o Corcel, cavalo veloz e de galope firme; e se queres voar, faças como o colibri, o beija-flor, que voa tão bem que paira no ar.”


Na verdade o Irmão Rueda resumia, com simplicidade, um dos princípios da chamada Lógica Provisória ou Cartesiana, que notabilizou René Descartes no “Discurso do Método”, ao firmá-la em quatro princípios, que, pelos motivos a seguir expressos, lhe apresento desdobrando-os em cinco princípios:
Primeiro, precisamos escolher um objetivo na vida para persegui-lo e envidar, em seu favor, todos os esforços. Como se estivéssemos perdidos numa floresta, e, não tendo a menor orientação por qual direção será melhor sair dela, escolhêssemos uma a ermo, ao acaso. E aí, deveríamos seguir, sempre, nessa direção, porque mesmo que fosse a mais distante, afinal sairíamos da floresta. Entretanto, se a cada desilusão, mudássemos a rota, poderíamos acabar a vida zigzagueando dentro da floresta, perdidos;
Segundo, que para realizar as obras mais complexas, ou compreender o mais complicado, começássemos, sempre, pelo mais simples, como se para construir um prédio, não nos preocupássemos, de imediato, com o telhado, com o acabamento, com os custos totais da obra, ou com tudo aquilo que nos assustasse para iniciar. Mas, que começássemos pelo terreno, pelos tijolos, pela massa, e teríamos mais chances do que aqueles que de tão obstinados com o fim, não iniciam nada;
Terceiro, que em cada ambiente e em cada povo nos comportássemos de modo a ser como um deles, pois a condição gregária do homem exige concessões de comportamento para que sejamos aceitos em cada grupo. E se impossível, que procurássemos viver em ambientes, grupos humanos, sociedades enfim, aos quais menos concessões tivéssemos que fazer, para facilitar a condição de nossa felicidade;
Quarto, que evitássemos fazer promessas, são perdas de liberdade. As circunstâncias do dia da promessa nem sempre são as mesmas do dia do cumprimento;
Quinto (e aqui eu presto uma homenagem a René Descartes, declarando que não acredito que ele pensasse assim, mas, como estava numa sociedade muito liberal e oportunista, talvez para obedecer ao terceiro princípio, - por isso é parte dele, aqui destacada propositadamente - afirmou essa parte final da terceira base de sua lógica, que considero incompatível com a condição humana, que, afinal, é a busca da perfeição. Então, acho que, por isso, chamou sua lógica de Lógica Provisória. Quando a definitivasse, mudaria esse absurdo), o de que é melhor errar com todos, do que acertar sozinho.
Afinal, é a René Descartes que se deve a forma de elaboração, organização, classificação e transmissão dos conhecimentos científicos. É o método cartesiano, esse de estudar as ciências mediante o aprendizado de conceitos, classificações e divisões... partindo-se, sempre, do entendimento da parte, para alcançar o conhecimento do todo.
Nesta década, os que se ocupam da educação temos procurado modificar o método cartesiano. Hoje, sabemos que, simplesmente invertê-lo, também não seria o método ideal, para a necessidade de conhecimento holístico. O ideal não seria, pois, o contrário, estudar o todo e depois as partes.
Mas, ver, perceber, enfrentar o todo, e, aí sim, estudar cada parte até a compreensão de cada parte e do todo.
O ensino passa, nesta década, especialmente em razão do desenvolvimento da informática, daquela condição de prestação e transmissão de informações, para a exemplificação e recomendação de comportamentos que dêem a cada profissional a necessária formação para lidar com as informações e as tarefas inerentes a cada ciência.
Certa professora que tive, em 1968, exatamente no segundo semestre, pois saí do Seminário no final do primeiro semestre de 1968, ao completar, em 29 de maio, dezoito anos, numa carta que me fez, revelava, já, há trinta anos, essa preocupação com a formação profissional e humanística dos alunos.
Bem, ela era de absoluta vanguarda intelectualmente. Havia estudado em Paris, ensinava francês. Como eu chegara do Seminário com o francês em dia, capaz de ler, escrever e falar medianamente, fui logo, por ela, destacado, pois os colegas do currículo comum dos então Colégios Estaduais, sabiam, naturalmente, menos francês que eu.
Mas G. (vou chamá-la de G. pois foi assim que assinou a carta manuscrita que me mandou) era vanguarda em tudo: como intelectual, como gente, com o bailado do andar, com o volume de voz que usava, com a dicção com que falava, com a delicadeza e a elegância dos vestidos, a simplicidade bonita dos “scarpans” (aqueles sapatinhos baixos que têm uma espécie de decote sobre o rosto do pé).
Apaixonei-me por ela. Eu estava como peixe fora d’água, naquela época: tinha aprendido noções de Grego, Italiano e Espanhol, Literatura Portuguesa e Francesa, francês (medianamente), Filosofia, Sociologia, enfim, não encontrava, nas moças da minha idade, o diálogo dos companheiros, dos parceiros, dos amantes. Esses, falam sobre as mesmas coisas. Por isso, são cúmplices, têm que ser.
Eu, apaixonado, comecei a jactar sobre ela, e especialmente contra seus olhos, o meu olhar. No dia em que percebi que ela relaxara um nada os olhos de ver e os usara para me olhar, fiz-lhe uma carta, que não sei se a tem, ainda hoje, como tenho a sua.
Na carta, declarei-me apaixonado torridamente, disse-lhe que tinha plena consciência das dificuldades que iríamos enfrentar se ela correspondesse ao meu sentimento, pela diferença de idade inaceitável na época, eu com dezoito e ela com uns trinta a trinta e dois, e, para facilitar as coisa, acabei por lhe pedir que, se me aceitasse, trouxesse, na próxima aula, um lápis preto à mão.
Bastaria aquele gesto simples, do restante, do espoucar do Champanhe, do encontro, do afago, do caminho delicado e doce que se percorre, um em direção ao outro, quando se amam, eu me encarregaria.
Aula seguinte G. adentra à sala sem o lápis à mão. Entendi logo, desiludidamente, que perdera G. Que ela não me queria! Tive aquela sensação, quando a vi sem o lápis, que se tem marcando uma cartela de bingo, e aguardando o anúncio do número vinte e sete, mas o que se disse foi o número oito, e um grito de alguém: bingo! Aquela absoluta sensação de perda absoluta. Acabrunhei-me.
Meio da aula (ela costumava ensinar caminhando), G. passa perto de minha carteira e deixa, discretamente, um envelope com o texto que transcrevo a seguir e que não entendi, ou porque, desiludido, não li os últimos parágrafos, ou porque estava bloqueado pela idéia de que só o lápis era positivo e a sua ausência era negativa.
Li a carta, acho que não até o final, guardei, e nunca mais a olhei. Ela deve ter ficado sem entender minha abstração ou aquela minha viagem até hoje para o terreno das indisponibilidades, por que a resposta, nos últimos parágrafos, era positiva.
Não sei, hoje, onde anda e vive, sei e sonho e desejo que esteja bem como eu a faria estar.
Mas saiba, G., se você por acaso ler este livro, somente há treze anos atrás, quando fazia a mudança do meu escritório de uma sala de edifício, para a casa em que está até hoje, ao encontrar sua carta e ler, não entendi apenas os noventa por cento do texto que me ensinavam a responsabilidade do professor em classe de assegurar a todos os alunos a resposta às suas expectativas científicas e o exemplo às suas expectativas humanas, entendi, também, tarde demais, o parágrafo final.

H.


Sim, guardar um gesto espontâneo, quando nele existe alguma comunicação. Os gestos, por mais simples que sejam, são lindos, nesta simplicidade sem exigência.
As pessoas esquecem e não dão importância aos gestos. É o mundo em que a gente vive. Procuramos, incessantemente, uma comunicação humana que tenha um sentido e só encontramos feições vazias e sofridas e cansadas de procurar no nada.
Como podem atingir os outros? Conhecê-los na sua integridade? Valorizá-los como pessoas? E, enfim, viver sempre em busca de um amanhã lindo?
Quando enfrentamos um grupo de pessoas, uma classe, temos uma grande responsabilidade, não só profissional, como também humana. São seres que esperam tudo de nós, alguns sensíveis, outros apáticos, mas estão lá. Por isso, precisamos vê-los como pessoas e despertar-lhes para o sentido das coisas. Há muita gente dormindo, H. E você, sinto que não. Tem muito a fazer, a dar, tem toda uma vontade de comunicar o que sente, e isso é muito importante.
O seu gesto foi algo surpreendente, e por ter sido inesperado, marcou profundamente. E isso me leva a crer, dia a dia, que existem ainda pessoas no nosso mundo capazes de sentir, de ver o que os outros não vêem. E, finalmente, de construir um mundo, de conduzir pessoas, de abrir caminhos.
Sei que você é capaz e sei que será responsável por aquilo que você escolheu.

G.”

Claro, temos que ter a informação, a partir dos conceitos, da teoria que a embasa, mas temos que ter a visão do todo, a visão holística do mundo, e formação humana para o adequado comportamento e operacionalidade dos conhecimentos científicos.
A propósito de conceito, aprendi que “conceito é o retalho ideal entre as possibilidades lógicas, de modo a que, o conhecimento do retalho, como de um tecido, possa nos dar condições de identificar o tecido por inteiro.” Se eu não me engano, foi o Professor Celso Antônio Bandeira de Mello, um dos maiores autores de Direito Administrativo, que isso afirmou, ele, que tece as palavras com tal facilidade e lhaneza que tem o direito de dizer “quando o constituinte bordou o artigo tal da Constituição o fez com o intento de...”
Ao retirarem de nossos programas de ensino as noções de Grego, pelo menos o estudo dos seus radicais, prefixos e sufixos, e conhecimento básico do Latim, dificultaram muito o nosso aprendizado. Porque, afinal, a linguagem é o veículo da informação, do conhecimento humano. E se soubéssemos que cadeira vem de cadere, cair, quedar-se, teríamos mais facilmente o entendimento desse móvel. Se soubéssemos que tanos é fogo em Grego, e que o “a” ajuntado a essa palavra dá a idéia de ausência de fogo, entenderíamos imediatamente quando nos dissessem, numa loja fina, que têm a bolsa em negro, em vermelho, em marrom e em atanado. Saberíamos, logo, que era ao natural ou em couro sem fogo, ou em couro cru.
Lá no Seminário, era comum, quase todo mês, uma peça, uma representação qualquer, um recital de que participávamos como atores, declamadores e platéia, pois éramos mais de trezentos. E a propósito dessa coisa de nos serem retiradas as noções de Grego e o Latim, lembrei-me de um texto que escrevi, na época, e que foi aceito para apresentação no recital da Semana da Pátria. Era um monólogo em que Tiradentes reclamava de lhe haverem retirado a cabeça justamente por defender a Liberdade. E ele, angustiado, gritava: “Como posso defender a liberdade se me retiram a cabeça?” Era uma espécie de sátira muito atrevida para 1967.
A apresentação do monólogo foi muito aplaudida, mas hoje, vendo o texto, nem o transcrevo aqui, de tão singelo. O sucesso se deveu, só hoje tenho certeza, muito mais à idéia de Irmão Emmanuel de colocar-me no palco com as vestes brancas de Joaquim José da Silva Xavier, mas com um capuz negro e o pano de fundo da cena também em negro, o que me deixava declamando, literalmente sem cabeça.
Havia um colega, chamado Mota, que escrevia uma coluna no mural do Seminário, O Pasárgada, e ele registrou com muita espirituosidade: “O Irmão Hérbat perdeu a cabeça, mas achou o sucesso”. Ele era espirituosíssimo, e um dia, tão rigoroso era o Seminário em disciplina, que ele sofreu severa admoestação porque, no intervalo entre uma cena e outra de um desses espetáculos, entrou pelos bastidores, e, entreabrindo as cortinas, bradou: “Daqui a pouco teremos Elizabeth Taylor, Robert Taylor e seu irmão Pen!”. Foi uma algazarra!
Ali tudo era muito simples, mas tudo era muito requintado. Fazia-se milagres com as coisas baratas ou gratuitas. Tínhamos votos de castidade, obediência e pobreza.
Nunca se apagará da minha memória a Noite de Natal em que o Irmão Emmanuel elaborou várias árvores de Natal com aqueles tubos em que as lojas enrolam os tecidos, fixados, um sobre o outro, numa espécie de arpão com base, tendo sido os tubos cortados numa proporção em que a base era inteira e, à medida em que eram os outros superpostos, cada um era menor até o mínimo e último.
Aquilo, singelo, pintado de branco, umas planas, outras feitas espirais, com apenas uma dessas bolas de Natal em cada ponta de cada tubo, distribuídas por todo o corredor central de onde se derramava a grande escadaria de acesso, com a música natalina tocada em harpa e a ceia simples, punha a alma da gente passeando nos corredores do céu!
Muitas vezes confundimos o luxo com a elegância. O luxo nem sempre é elegante, e a elegância quase nunca carece de luxo. Com simplicidade, uma jarrinha de vidro com água, um “cabernet” nacional, e um queijinho do coalho e duas taças, de vidro ou cristal, sobre qualquer mezinha redonda forrada com uma toalhinha limpa, um par romântico, e que se ame, pode se sentir, numa espécie de viagem abstracionista, a bordo do restaurante do TGV francês no rumo Paris-Genève, ou do ICE alemão entre Munique e Frankfurt, ou num daqueles requintados cafés da linda Paris.
E se essa cena for numa noite de lua cheia, sobre um gramado de um sitiozinho qualquer, podem viajar pro céu!
Para essas viagens d’alma, aprenda a conviver com o vinho branco bem gelado, comece pelos mais suaves, esses alemães das garrafas azuis, de uvas muito hidratadas, e, depois vá caminhando aos poucos para os mais secos, menos enfarosos, até assumir a grandeza dos tintos, iniciando-se pelos “Sauvignon”, depois os “Merlot”, rumo aos “Cabernet”, para chegar ao sabor seco e denso dum “Valpolicella”, da Casa Bola ou de outra.




O vinho tanto é bom para os momentos tristes, quanto para os de alegria. E, mais adiante, faça como os franceses, misture uma porção de Crème de Cassis, de Bourdier, Dijon, ou de Marie Brizard, para duas porções de vinho branco e seco, bem gelado, e se delicie com o que eles chamam de Kir. E mais adiante, - é uma viagem a enologia - faça a mesma proporção entre o Cassis e o Champanhe, (e não a Champanhe, como dizem às vezes) primeiro com os suaves, depois, com os secos, que chamam “brut”, para sorver um Kir Royal.
O Champanhe é um vinho espumante, que, a rigor, produziu-se, primeiro, na Itália, com a denominação, que ainda usam, de Lambrusco. Depois, os franceses o produziram na Região de Champangne, e esse nome se popularizou. O vinho não embriaga tanto quanto as outras bebidas, e além de fazer bem à saúde, é saboroso e entorpece um pouco. Mas tudo, afinal, iniciou no Império Romano.
Certa vez, estava em Paris com minha mulher, e, depois de muitas andanças, (eu, viajando, acordo cedo e só deito para amar e dormir, exausto. Por isso, não faço questão de hotéis de luxo, nem tenho riqueza para tal) passando pela Place du Tertre, Montmarte, onde os artistas ficam fazendo a crayon o retrato das pessoas, ou pintando, ou em recorte, fomos almoçar num restaurantezinho simples, e conversávamos, em português, naturalmente.
Final do almoço, eu não sou dado a sobremesas, guloseimas doces, ela, sim, adorava, pedimos uma dessas gelatinas que encobria um cacho de amora, e era tão bonito o efeito visual do prato que ela me pediu para que solicitasse, em Francês, ao garçom, uma colherinha, pois aquela, grande que ele pôs, de sopa, dilaceraria, de uma vez, o que ela preferia degustar em pequenas porções.
Eu tinha sofrido uma admoestação danada do recepcionista do hotel simples em que estávamos, por lhe haver pedido, dois travesseiros a mais, usando a palavra “travesseur”. Ele me disse: como “travesseur”? O senhor não está num cinco estrelas, aqui só temos “oreiller”. Ou seja, travesseur é aquele rolo que atravessa as camas dos hotéis de luxo, de um ao outro lado. Oreiller é esse que conhecemos, retangular ou quadrado.
Com receio de outro carão (2), ainda disse à minha mulher: “eu não sei exatamente se existe a palavra colherinha. Mas vou arriscar com “petite cuiller””. Era isso mesmo, não têm outra expressão, e ele me trouxe a colherinha para a satisfação dela.
À mesa vizinha, um senhor elegante, com uma senhora e u’a moça, tendo ouvido tudo, surpreendeu-nos:
- “Tu és de onde bichin?”
- “Sou de Natal, Rio Grande do Norte.” (Na verdade eu sou paraibano, de Esperança, mas para cá vim aos vinte e um anos e aqui nasceram meus filhos, e aqui vivi o amor, e ainda recebi o título de cidadão norte-rio-grandense, então, sempre simplifico: Sou de Natal)
- “P’ra você ver, esse povo eram os gauleses. Se não fosse Catarina de Médici vir casar com o Rei de França, ainda hoje comeriam com as mãos...”
Conversamos ainda um pouco e acabamos por saber que esse cearense é de Crateús, tem apartamento em Les Halles, em Paris, e casa em Firenze. Cantou, simplesmente, a trilha sonora de Laços de Ternura, entre outras. E ainda nos levou a uma igrejinha por trás da Sacre-Coeur, a Saint Jean Baptiste, cujo ambiente do coral tem a forma proposital de garganta, com eco perfeito, e cantou, sem que soubessem que era ele, pois entre os dentes, quase como um ventríloquo, toda a Regina Coeli, a meu pedido.
De fato, os franceses são assim. Em Genève, que a rigor é o mesmo povo, fala a mesma língua e tem os mesmos hábitos, pedi, em outra viagem, duas maçãs para minha mulher. Expus as moedas à mão e disse, apenas, “eu quero duas maçãs, as mais vermelhas, por favor”.
Eu não tenho facilidade de entender o francês quando é falado rapidamente, mas aquele homem me ralhou de modo tão áspero ao meu simples pedido, que entendi tudo:
- “Como as mais vermelhas? Porque as mais vermelhas? Não vê que são da mesma classe e do mesmo preço?
- “Desculpe-me, acho que não falo bem o seu idioma e devo ter dito algo errado”.
- “Não senhor, o senhor fala muito bem, sabe muito bem o que diz, é porque deseja tirar o melhor proveito das maçãs que o próximo cliente ou das que sobrarão comigo. Se fossem de classes diferentes, eu as teria distribuído em montes e preços diferentes!”
Fiquei tão apavorado que lhe disse:
- “Desculpe-me, mais uma vez, e, então, dê-me as mais verdes...”
Ele sorriu e me entregou duas maçãs bem vermelhinhas.
Minha filha mais velha estava conosco, numa viagem em que faríamos o aniversário dela na Costa Azul. A viagem entre Avingnon e Nice, era de trem. Estávamos já sentados em cadeiras não reservadas, porque, para reservar o lugar no trem, paga-se cerca de vinte por cento a mais, e como viajo, sempre, em baixa estação, que é frio lá, há cadeiras livres em abundância.
Ocorreu, porém, de um jovem senhor, trinta e cinco a quarenta anos, esbelto, conferir, à porta de nossa cabine, o número de reserva da cadeira que uma senhora idosa e gorda ocupava frente a nós. Conferiu, reconferiu, e disse, em tom grave:
- Perdão, madame, esta cadeira é minha!”
A senhora desculpou-se, levantou-se, pegou sua bagagem em duas idas e vindas, e ele acomodou-se tranqüilamente, sem ajudá-la em nada.
Minha menina não aceitou aquilo. Ele não podia fazer isso com aquela senhora! Havia tantas cadeiras vagas, papai...
Minha filha, aqui, se é mais sincero. Nós, num caso desses, nos acanharíamos de pedir o lugar que reservamos, mas ficaríamos, no corredor, comentando com cada pessoa que conhecêssemos, que tínhamos pago a reserva de uma cadeira e que “aquela velha gorda se apoderou dela”. Eles, não.
Gosto deles!
Mas falávamos de luxo. Assim como confundimos o luxo e o nobre, gastamos muitas vezes riquezas quando poderíamos realizar as mesmas coisas, modicamente, gastando apenas fortunas.
Hospedar-se em Paris, por exemplo, num hotel da Saint Honoré, pode lhe custar duas vezes ou mais o preço de hotel igual, com os mesmos agrados, se você trocar aquela Rua famosa, perto da Ópera, pela Landru Rholan, segunda ou terceira transversal do Boulevard Diderot, que se abre à frente da Gare de Lyon, um bairro simples, e que tem um hotelzinho, logo o segundo prédio à direita daquela Rua, chamado Jules Cèzar. TV a cores, calefação, banho e ducha, café continental. Quarenta dólares mais ou menos.
A propósito, no Boulevard Diderot há um restaurante simples, mas muito requintado, chamado “Mandarin Diderot”, que é operacionalizado por toda a família. Lá, se você pedir um “canard au laqué”, uma jarra de vinho da casa, e uma água mineral com gás “Bardiot”, fechando o jantar com uma sobremesa que eles chamam “Dessert au Feu”, você terá tido uma festa, especialmente se estiver com a pessoa amada. Cinqüenta dólares!
A “dessert au Feu”, a sobremesa ao fogo, é um sorvete seco, encoberto com castanhas assadas picadinhas, molhadas com um pouco de Cointreau, que eles incendeiam, imediatamente, e lá vem o garçom em direção à sua mesa com aquela festa de fogo azul à mão e o cheiro de castanha assada misturado ao odor cítrico no ar. Vale a pena. Afinal, a gente se alimenta, também, com os olhos!



Quando escrevi a primeira edição deste livro, chamei-o de “Resolvi Contar Tudo”, com o sub-título “Dessert au Feu”. Agora, mantive o sub-título, mas dei-lhe o nome de Vivendo a Vida, inspirando-me no que me disseram os primeiros leitores.
Em Lisboa, tanto pode você ficar no Ritz, ao entorno da Av. Marquês de Pombal, gastando muitas vezes mais que se escolher o Don Alfonso Henrique, à esquerda da Fonte Luminosa, ao entorno da Almirante Reis, paralela da Marquês de Pombal, ao custo perto de quarenta dólares, e com quase todos os requintes necessários aos afortunados.
E se você aluga um desses carros populares, pode estar, a qualquer momento, na Praça do Rocio, na Alfama, às margens do Tejo vendo a Ponte Vinte e Cinco d’Abril e os Cascáis do outro lado, ou descer às margens do Rio Tejo, passando pelo Mosteiro dos Gerônimos, até o Estoril, espécie de “Costa Azul” dos portugueses, e assistir, no Cassino, um espetáculo tão bom quanto a Zarzuela que se vê em Madri, ou uma das Revistas de Pigale, no Molin Rouge.
Antes de entrar para o teatro, peça uma Água das Pedras Salgadas que só eles têm lá. É uma água de fonte com gás natural e um gostinho salobro de nunca esquecer.
Há certos homens, como certas mulheres, que não respeitam a presença de sua esposa ou esposo, e os expõem ao ridículo, quando, num show, numa peça, numa cena, aparece alguém desnudo, chamando à atenção. A ninguém agrada isso. Claro, você pode achar alguém bonito, além da pessoa amada, o que você não deve, é “esquecer” que está com ela ou com ele e fazer aquela cena de exaltação ao mito, à atriz ou ao ator que ingressa estonteando em cena. É, para mim, no mínimo, deselegante.
Num espetáculo do Estoril, “Dali”. Era uma homenagem a Salvador Dali, uma espécie de revista de sua vida e obra. Músicas, danças, e, afinal, telas, suas obras de pintura expostas em abundância, com uma cantora descendo do alto do palco numa cegonha, cantando “Hello Dolly”, que ela trocava, propositadamente, por “Hello Dali”.
Ao final do espetáculo, ao fundo do placo, entre as demais telas e lufadas de gelo seco, uma tela se destacava: U’a mulher desnuda, de costas, com uma écharpe entre os braços envolvendo-lhe parte do dorso e as nádegas. Mexeu-se. Sussurros! É viva! Alguns vibraram mesmo ao acanhamento de suas mulheres.
Após a última nota do show, a imagem se revela viva e vira-se: um travesti! Vingança das mulheres!
Quando viajar, nunca esqueça de comprar um Eurailpass. Esse “passe” lhe assegura, pelo preço de três viagens, algo em torno de trezentos e noventa dólares, o direito de viajar quinze dias seguidos ou dez alternados, de onde quiser para onde sonhar. Sair, por exemplo, de Madri a Genève, no Talgo; de Genève a Avingnon, num TGV, de lá a Nice, Mônaco, Cannes, e depois Impéria, San Remo, em suma, descer pela Costa Azul, e depois pela Costa dei Fiori, passando por Pisa, Firenze, Roma e Veneza, até Brindisi, com direito ao translado pelo Mar Adriático, que dura uma noitada no Barco, amanhecendo em Patras, distante de Atenas somente uma hora de taxi, uma Mercedez-Benz, que lhe cobrarão mais, e que, entretanto, aceitarão levá-lo à Capital da Sabedoria, por cem dólares.
A propósito de Veneza, hospedar-se lá é sempre muito caro. São palacetes sobre as águas, todo o transporte é aquático, e o ideal, portanto, é se hospedar em Murano, a dez minutos de trem de Veneza, onde, no Hotel Bolônia, por exemplo, você paga em torno de cem dólares e tem os luxos de um cinco estrelas. De manhã, pega o trem com o Eurailpass e vai para Veneza. Dormir, em Murano. Truques de quem teve sempre fortuna, mas nunca teve, nem quis, riqueza.
E se você tiver a chance de tomar um trem austríaco em Viena, e atravessar todo o Tirol rumo a Insbruc, para sentir-se deslizando numa planície alva de gelo, ou a oportunidade de fazer o trecho Munique/Frankfurt no ICE alemão, você verá quanto delicado e belo é o ambiente interior desse maior concorrente do TGV francês (Train Grand Vitesse) o ICE (Inter City Express) ou do AVE espanhol (Alta Velocidad Espanhola), para não falar no mais singelo, desses velozes, o Pendolin italiano. Evite jantar ou almoçar nos restaurantes desses trens. É caríssimo. Leve um lanche, ou queijos e vinho para a sua cabine, e ao restaurante vá apenas para uma água mineral com gás, um pequeno vinho tinto Malcom Supèrier, uma fotografia e uma continha salgada.
A gente confunde luxo com elegância, com nobreza, mas nem sempre esses conceitos têm correspondência na vida real. Dia desses, chego na Universidade Federal para a aula e encontro na lousa:
Sois toujour un poète, meme en prose.” Charles Baudelaire”, em “Mon Coeur Mis a Nu”.
Mas a gente sabe o que encontra nas portas dos banheiros daquela mesma Universidade. Pois bem, o nobre é alguém simples ter lido Baudelaire, autor de Flores do Mal, de Correspondência, um dos mais belos poemas da história da poesia humana, e ao limpar o quadro, deixar esse registro para nos abrir a alma na hora da aula.
O vulgar é aquele que escreve as pornografias, é aquele que fala pornofonias, mesmo quando quer ser agradável, por despreparo ou vulgaridade, e que não sabe dizer “Olha amigo, o seu filho é a sua cara, talhada e esculpida”. Mas diz aquele absurdo que me recuso a transcrever aqui.
Por ser um dos sonetos que mais me impressionou, além de A Carolina, de Machado de Assis, que, consoante o desenvolvimento dos temas, se couber, dar-lhe-ei mais adiante, transcrevo o original francês e a tradução de Jamil Almansur Hadad, em As Flores do Mal, de “Correspondances”, de Charles Beaudelaire, e você perceberá a arte com que ele confunde ou compara personalidades e perfumes, a simbologia como razão e meio de comunicação da própria condição humana, entre si, e com a Natureza:
Correspondances
La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles:
L’homme y passe à travers des forêts des symboles

Qui l’observent avec des regards familiers.
Comme de longs échos que de loin se confondent

Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,

Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.
Il est des parfums frais comme des chair d’enfants,

Doux comme les hautbois, verts comme les praires;

Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,
Ayant l’expansion des choses infinies,

Comme l’ambre, les musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.”

OU

A natureza é um templo onde vivos pilares



podem deixar ouvir confusas vozes: e estas

Fazem o homem passar através de florestas

De símbolos que o vêem com olhares familiares.
Como os ecos além confundem seus rumores

Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,

Tão vasta como a noite e como a claridade,

Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.
Perfumes frescos há, como carnes de criança

Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos

E outros ricos, triunfais e podres na fragrância
Que possuem a expansão do universo sem termos

Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso

Que cantam dos sentidos o transporte imenso.”



Fala-se muito sobre a origem das pessoas, buscando-se apenas no berço a garantia da qualidade do comportamento humano. O cientista chamaria o berço de genes, sedes do que se denomina hoje "minissatélites de identificação", seqüências que se repetem no DNA, e que chamam de “bandas de DNA”.
Catilina teria, certa feita, afrontado Cícero no Senado Romano, lembrando-lhe que o pai de Cícero lavava cavalos, e sua mãe, roupas, de seus pais, que eram nobres. Ao que Cícero teria respondido:
Catilina, tua família termina em ti, a minha, começa em mim.”
Porque a nobreza é externa, é exógena e é adquirida pela convivência, pela absorção de hábitos culturais de cada sociedade. É o polimento e o verniz dessa pedra original de cada um. E essa pedra traz os sinais característicos de higidez ou patologia psicossomática. É o natural do homem. A semente da planta, cuja formação, cujo ambiente, cuja educação, cujas lições e exemplos de seus pais, de seus amigos, de suas circunstâncias, a conduzirão a ser boa ou má planta.
A noite clara, para quem não foi educado para perceber que a claridade veio da lua, é vulgar. A noite iluminada por uma Lua imensa e bela para quem a percebe, porque o despertaram para tal, é nobre. Ficar pinoteando no mar e jogando água no outro é vulgar. Mas banhar-se nas águas com alguém que se ama, salpicando águas ao sol, como se brincando de fazer cristais, é nobre.

Tomar cachaça ou banho de mar, portanto, é vulgar ou nobre a partir do modo de fazer, do estilo, da maneira de exercitar a degustação ou o banho.
Ser nobre, pois, é direito comum aos ricos e pobres, como ser vulgar é desgraça que pode acontecer a ricos e pobres. Ser vulgar é cuspir na rua, na frente dos outros. Você já imaginou o Papa cuspindo? Mas ele cospe. A ninguém deixa ver, porque, ao Papa, como representante e referencial de Deus entre nós, impõe-se a obrigação de procurar parecer-se com Deus, o extrato absoluto da nobreza. O mais nobre dos seres. E Deus, Esse, efetivamente, nem cospe!
No Palácio de Versailles, o Palácio de Veraneio dos Reis da França, ouvi da Guia a seguinte história:
Como os senhores vêem o quarto do Rei e o da Rainha, embora afastados, ficam ambos na ala central, recebedores de toda a corrente de ar da grande avenida frontal, o que os torna gélidos em certa época do ano. O rei tinha, então, muito frio, mas o povo não podia conhecer essa "fraqueza" de Sua Majestade. (Imagine! Sentir frio, calor, ou ser presa de qualquer outro sentimento, para os Reis, entendem eles que a plebe pode pensar que se trata de fraqueza! Eles não conhecem a vida nem a plebe!) E assim o Senhor Rei era deixado, todas as noites, em seu quarto gelado, onde, à porta, se despedia dos auxiliares que o cercavam e dos quais recebia votos de boa noite. Imediatamente, enfiava-se por uma porta secreta que lhe dava um corredor a caminho de um quarto aconchegante e livre dessa corrente frontal de ar, à ala esquerda do Palácio. “A nobreza obriga”, concluiu a nossa entusiasmada contadora de histórias do Palácio Real de Versailles...
Ser nobre, pois, em muitas ocasiões, está sendo equivocadamente entendido como o dever de ser insensível, férreo, desalmado, sangue frio. Emocionar-se, entusiasmar-se, deslumbrar-se, tem sido, no mesmo equívoco, definido como atitude vulgar. Na verdade, querem matar a criança que há em cada um de nós.
Então, corramos todos, os últimos ainda capazes de sentir e amar, de sofrer frio ou sede, de ensinar como ensina Sidarta, de ir ao êxtase do encantamento pelo colorido rico das borboletas ou a piegas sensação de ternura do olhar puro, do afago suave, do beijo doce, do abraço emocionado, da lágrima. Corramos para gritar que não é vulgar desconfortar o corpo para apascentar a alma; que não é vulgar ficar emocionado ou contemplativo ante a dor ou a Natureza. Isso sim é nobre, mesmo que pobre, mesmo que feio, mesmo que velho, mesmo que mais perto do fim...
Vulgar é atravessar a vida sem ter polido os olhos para lhes assegurar o brilho da felicidade, ocupando o tempo inteiro em polir os ouros guardados em barras nos bancos de riquezas vãs. Vulgar é ver pobres e não socorrê-los, sob o argumento frio de que são fruto da nossa sociedade capitalista, conseqüência dos desequilíbrios sociais, ou frases assim, já vulgares, de nos irresponsabilizar.
Vulgar é ter nascido nobre e não ter usado os talentos desse berço. Ser nobre é, pois, um estado de espírito, um brilho nos olhos, uma leveza dos gestos e hábitos, ou mesmo o vigor quase estúpido, decantado de pura nobreza, se carente disso o momento. Ser nobre é tentar aperfeiçoar a vida.
Afinal, sentimento em relação a todos quantos amamos; emoções, e realização profissional são a verdadeira razão da vida. Só esse conjunto dá felicidade, e lhe amaneira, alivia. Escrevi, sobre essa liberação de presentes d’alma, sobre essa necessidade que a gente tem, quando ama, de acariciar, agradar, cuidar, proteger, zelar, estes versos:
DESPERDÍCIO
Não quero deixar de gastar todos os afetos,

De derramar em ti toda ternura,

De te dar cada afago, cada gesto,

De te encantar com todos os encantos,
De festejar-te a vida com todos os sorrisos,

De te levar com jeito a todos os prazeres,

E de te dar, enfim, de mim, tudo que eu tiver.
Passearemos também todos os passeios.

Correremos ainda todos os caminhos.

Dos banhos, nenhum ficará não tomado.

Os frutos degustados, as canções, os vinhos.
Da alma, mesmo rasgada, todas as emoções experimentadas.

Dos olhos, feitos fios de luz, todos os olhares.

Da boca, cada frase e cada beijo sussurrado.
Não vou levar comigo nada, além dessa lembrança.

Da doce saudade de tudo te haver dado.

Do ar aliviado de não ter pecado,

por minguar a vida. Mas por expandi-la.
Por ter sido o anfitrião que te serviu todos os pratos,

Que abriu o seu Solar prá todas as estrelas,

E que me pus a teus pés assim tão alto!
Quero chegar ao céu ou viajar da terra,

Livre de bagagem, de restos guardados,

Maneiro, suave, assim, descarregado,
Na certeza de não levar comigo, revoltado,

Um carinho de sobra, dos dedos um afago.

Prá não ser, por omissão, desperdiçado.



E mesmo que você sofra um pouco, se o amor se perder, se enfraquecer, e for embora, vale à pena, pois, como em My Way, (aquela melodia que notabilizou universalmente Frank Sinatra, tão conhecida e amada como New York, New York, Fascinação, Moon River, Luzes da Ribalta, Killing Me Softly, La Vie en Rose, Hymne a L’Amour ou La Foule, esta a mais bela, dessas três últimas de Edith Piaf.
Se você não ouviu todas essas músicas mencionadas, procure ouvir as que não conhece, são de gosto internacional e vão lhe enriquecer a alma, desde que você tenha amado. Acalentado pelas melodias, somente assim, você poderá dizer, como ninguém, em linguagem poética, os seus sentimentos:

NÃO FORAM VÃOS.
Não foram vãos, para mim, nossos momentos,

Eu os vivi tão intensamente, um a um,

Que os repetiria a todos, um por um.
Não sei se acreditaste em mim, nesses momentos.

Tive dúvidas de ti, em quase todos,

Por esse teu olhar perdido, vago,

De quem não diz o que sente, não sei porque!
Mas mesmo assim, nos que acreditei,

Naqueles poucos em que vi teu rosto em brilho,

Ainda agora, de pensar, me maravilho,

Por termos estado, neles, perto do céu!
E se escorregamos, pelo peso que nos cerca.

E se deixamos cair nossos corpos em plena terra,

Ninguém tira de nós esse passeio que fizemos!
Pode ser pueril essa minha crença duvidosa,

Pode ser inocente essa certeza sem saber,

Mas houve momentos, ainda agora, este,

Em que o céu andou perto de nós,

E nós sabemos, mesmo nessa dúvida do fim,

Que pelo menos o começo dele, nós tivemos.
Como um arco-íris que sentimos pelo olhar!

O que nos uniu, nos fez também partir...

Como coisa positiva e negativa, que junta e separa,
Pedaços de ti, em mim, encontro a cada caco,

Desse corpo em pedaços que estraçalhastes,

Pois nosso amor surgiu no meio desse ninho,

Em que estranho fiquei, o tempo todo,

E por mais que me ajeitasse, nunca me encaixei.



Que lições pode tirar de cada episódio, e quantas vezes a atividade profissional pode atrapalhar tanto a relação humana, pessoal, de amor, e de como as circunstâncias exógenas podem interferir na vida, isso é o que importa, para que, como na música antiga, tenha mais cuidados com o seu amor, cuide mais do seu bem, se você tem um bem de verdade!
Antes de se apaixonar, para não sofrer muito depois, procure ver quem é e o que faz a sua ou o seu pretendido. Se for viajante, daqueles que mais tempo fora de casa do que consigo passarão, se ocupado ou avarento, desses que não terá em você o par para o almoço, para o jantar, para o quedar da noite, mas que a vida só lhe dará o parceiro em instantes finais antes do sono, evite a relação, ou tente evitar, você vai ter os beijos a dar sem ter quem os receba; os abraços ficarão perdidos no vazio da sua espera.
Um amigo tinha uma mulher muito ocupada. Ele a amava muito, e ela amava a vida, queria vivê-la, e houve um tempo, em que teve que se afastar de suas ocupações tão absorventes por recomendação médica, e foram felizes. Mas, retornada às ocupações que a absorviam, e a um cerco humano de relações decorrentes da sua profissão, gente que nunca mais viram, de novo deles se acercou, e, como esponja, cada um levava dela um pouco, e cheguei a lamentar o drama do amigo, e escrever, depois de lhe ouvir o sofrimento do relato, mediante a promessa que ela lhe fazia de voltar à vida comum, imaginando duas mulheres: a que ficava com ele, de ocupações normais, e a que prometia ir embora, ocupada demais, para presenteá-lo, depois de ser por ele contratado para patrocinar a separação judicial:



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