Percursos do Jornalismo no Espírito Santo



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Percursos do Jornalismo no Espírito Santo



Correio da Victória, primeiro jornal capixaba: reminiscências de um lugar

Ruth Reis - ruthreis@escelsa.com.br

Profa. Dra. do Departamento de Comunicação Social da Ufes



  1. Introdução

Sobre o projeto de pesquisa em andamento


Desde a década de 1840 o Espírito Santo contribui para construção da trajetória da imprensa no país, que, em 2008, completa 200 anos de atividade. Nos seus quase 170 anos de existência, a imprensa e o jornalismo locais vêm cumprindo importante papel no desenvolvimento de uma experiência social, política, econômica e cultural, consolidando assim um projeto de sociedade que encontra nos fundamentos da democracia grega e na tecnologia as bases para o seu florescimento e consolidação.

Os registros do percurso realizado pela imprensa e pelo jornalismo no Espírito Santo estão dispersos e pouco sistematizados, o que resulta num enorme prejuízo para a memória e para construção e compreensão de uma identidade regional. A recuperação, análise e compreensão desta trajetória é um desafio que se impõe e exige a constituição das bases iniciais de um projeto que, certamente se prolongará e demandará ação de muitos outros pesquisadores.

No entanto o que se coloca neste momento como proposta é a realização de uma pesquisa que tenha como propósito identificar e analisar alguns dos principais produtos da imprensa local e o que eles representam em termos do discurso jornalístico que vem sendo construído ao longo da história. Os frutos deste esforço devem se materializar na forma de uma base de dados sobre a imprensa capixaba a sua disponibilização em meio digital (site). Num primeiro momento, pretende-se levantar o período mais remoto dos percursos da imprensa e do jornalismo no Espírito Santo perfazendo um lapso de tempo que começa na década de 1840 e segue até a de 1920. A razão da escolha deste período é dada pela existência de material bastante substancial ainda em condições de ser analisado e que vem caminhando rapidamente para a sua deterioração.

O esforço de recuperação de pelo menos parte da trajetória da imprensa e do jornalismo local pode ser justificado por diferentes motivos, entre os quais se destaca a necessidade de melhor conhecer e sistematizar informações referentes a uma esfera da nossa experiência que a cada dia ganha mais força na sociedade: a esfera midiática. Precursores de um complexo conjunto de equipamentos tecnológicos, institucionais e discursivos que hoje denominamos mídia (ou mídias), a imprensa e o jornalismo se desenvolveram como articuladores das narrativas que permitiram a existência ampliada da nossa cultura, sempre pronta para se expandir em busca do global e do universal.

Desde os seus primórdios, a mídia foi fundamental para que se viabilizasse aquele projeto de sociedade que latejava desde o século XVII cuja marca é a secularização, o antropocentramento, a retomada da autonomia política por meio da devolução a uma instância coletiva terrena, na forma de cidadãos, da condução dos destinos políticos.

Ao mesmo tempo, as forma de organização dos homens e dos processos produtivos, a ampliação dos ambientes urbanos, a expansão das redes de trocas, exigia a implantação destes sistemas de informação. A mídia tornou-se maquinaria necessária para estar neste mundo contribuindo para a viabilização de um projeto político-econômico e cultural que entrava em cena. O jornalismo é uma das formas de expressão desenvolvidas dentro deste ambiente, cuja finalidade é dar conta da tarefa de fazer circular a informação e dar condição para o saber-dizer dos homens dotados de autodeterminação. Ele atua como narrativa predominante de questões consideradas públicas cuja apreciação e julgamento fica entregue a esta instância coletiva, que se constitui como doxa.

O conhecimento e eventual análise das principais publicações da imprensa nos seus primeiros momentos permitirá conhecer a construção dos fundamentos do jornalismo no Estado, tanto no seu aspecto sociopolítico, quando discursivo. Trata-se também de verificar como os diversos jornais surgidos no transcurso desta já longa experiência enredam discursos acerca do mundo e das vivências num lugar que se institui como único e diferenciado, ao mesmo tempo em que contribuem para fazer convergir os valores universalistas que a nova forma de conduzir a sociedade reinaugurava.


  1. Metodologia.

Levantamento e organização de informações relativas a publicações periódicas no Espírito Santo desde a implantação da primeira tipografia até a década de 1920, o que será feito a partir de um inventário produzido pelo historiador Heráclito Amâncio Pereira e de pesquisa nos próprios periódicos ainda disponíveis no Arquivo Público e na Biblioteca Pública do Espírito Santo e na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

  1. Resultados esperados.

Início da implantação de uma base de dados a ser disponibilizada via Internet; melhoria do nível de informação sobre a trajetória da experiência da comunicação de massa, em especial do jornalismo, no ES; incentivo à criação de um projeto continuado de pesquisa sobre o jornalismo e suas práticas como articuladores socioculturais
II- Primeiros resultados

Correio da Victória, primeiro jornal capixaba:
reminiscências de um lugar

O que resta de material no campo da imprensa/jornalismo para permitir esta olhadela para trás e para dentro da identidade capixaba e do próprio jornalismo - sem as intenções documentais do historiador, apenas a curiosidade ágil do repórter - são inúmeras folhas, exemplares das primeiras experiências da imprensa capixaba, algumas quase em estado de deterioração, que podem ser encontradas na Biblioteca Pública e na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, onde há coleções de porte bastante razoável de títulos que fizeram história. No Arquivo Público do Estado do Espírito Santo é possível ter acesso à coleção em microfilme.

Escolher em meio a essa gama de opções desafia qualquer método de amostragem estatística. Prefiro deixá-los de lado, poupando a mim do trabalho vão e a meus eventuais leitores da enfadonha e sempre suspeita descrição dos critérios supostamente neutros adotados para fazer uma pesquisa. Vou direto ao mais antigo que encontro, o Correio da Victoria, confiando na seleção já feita pelo tempo, apanhando o que me cai às mãos, folheando uma seqüência de anos encontrada, entre 1856 e 1859, que compreende o acervo disponível na Biblioteca Pública Estadual. Chego a me entusiasmar com a preparação da província para a visita de Dom Pedro II, no final da década de 1850, mas eis que se acabam as edições disponíveis e fico sem saber o que chegou a ser feito com a verba remetida pela Coroa para tornar a permanência do imperador mais agradável em terra capixaba. A história se interrompe pela falta de exemplares já consumidos pelas péssimas condições em que são guardadas, situações que deixaria sem ação o cientista positivista ao ver sua amostra solapada por um golpe inclemente do tempo. Fico apenas com a decepção de não ter podido conhecer o restante da história, mas confiando que a garimpagem ainda pode oferecer alguma contribuição a um debate sobre a identidade do capixaba e um resgate da trajetória do jornalismo, formando-se assim uma compreensão que vai se reconstruindo com um pouco de imaginação e boa vontade.

Troco a grandiloqüência dos métodos ditos científicos que desejam assegurar a precisão e a neutralidade do pesquisador, oferecendo a garantia de uma verdade já dada nas silhuetas do próprio método, por uma máscara para me proteger contra a poeira que sai do papel amarelecido. Sento-me às surradas mesas da Biblioteca Pública, (gravadas com gilete e caneta) apenas para ler, com a curiosidade que já desenha toscamente o que se procura.

Vasculhar nas velhas e esfarelentas folhas do Correio da Victoria em busca de vestígios do retrato que a imprensa fazia do capixaba e dos contornos que assumia o jornalismo em seus momentos fundadores é tarefa que só pode ser desempenhada com espírito aberto e desarmado, permitindo-se vagar a esmo por entre as linhas e blocos de textos arrumados à moda do que permitia a concepção das artes gráficas de então e os recursos materiais da ainda reluzente typographia.


A- O primeiro jornal


Antes de ser instalada a primeira tipografia em terras capixabas, em 1840, 38 anos após a chegada ao Brasil daquele então revolucionário instrumento de difusão de idéias, a capitania já conhecia o “jornalismo” por meio de pasquins manuscritos que tiveram lá sua importância no movimento pela independência (Bittencourt, 1998).

O primeiro jornal impresso só circulou em 1841, após a instalação da tipografia, por iniciativa do alferes Aires Vieira e Albuquerque Tovar. De suas máquinas saiu O Estafeta1, jornal com pretensões limitadas a dar abrigo às ordens e atos oficiais do governo provincial. Apesar de desfrutar do monopólio de tal empreendimento e amplo amparo do governo, O Estafeta experimentou vida e morte logo no seu primeiro número.

Da edição que circulou em 1841, nada restou, a não ser a informação de Afonso Cláudio de que o jornal apresentava impressão de péssima qualidade e o lugar honroso de figurar na história local como precursor de uma série de outros títulos impressos que bailam ao ritmo das conjunturas e muito dizem da nossa própria experiência e existência (Bittencourt, 1998).

B- O segundo jornal


Depois d’O Estafeta, o Correio da Victoria é o primeiro jornal a circular efetivamente em território capixaba. Como não há outras informações que possam elucidar os motivos que levaram à derrocada precoce d’O Estafeta e ao intervalo de oito anos até o surgimento do Correio da Victoria, fico com a informação de Bittencourt (1998, p.70) de que se pode atribuir ao falecimento de Tovar e ao desenrolar vagaroso do seu inventário. Finalmente, em 1848, os herdeiros venderam a tipografia para Pedro Antônio Azeredo, que viria a ser o impressor e editor do Correio da Victoria (Bittencourt,1998) .

A primeira edição do Correio data de 17 de janeiro de 1849, - “em papel de linho azulado”, (Pereira, 1922, p.12). Também ele nasceu sob os auspícios do governo provincial. Os dois primeiros jornais do ES surgiam para dar suporte a um princípio que começava a se generalizar pelo Império e se espalhava pelas províncias: o da publicidade dos atos do poder público, sinal dos tempos que já indicavam a agonia que viria a acometer os poderes que buscavam sua legitimidade nos laços familiares e nos títulos nobiliárquicos. Esta obrigação já era prevista em lei provincial desde 1835, antes, portanto, da chegada da primeira tipografia, mas começou a se institucionalizar quase 15 anos depois.

O discurso da imprensa livre se fez ouvir na província do Espírito Santo logo no lançamento do seu primeiro título mais duradouro, mas é fácil hoje, a um distância segura e considerável, afirmar que a forma como ela se viabilizava, enlaçada ao poder estatal, não oferecia uma justa tradução de tal princípio. O vínculo do Correio da Victoria com o governo provincial está documentado num contrato firmado em 26 de setembro de 1947, quando era presidente da província João Lopes da Silva Couto, no qual, por 10 anos, o governo pagaria ao seu impressor a quantia de 10 mil réis por edição que circularia semanalmente, cabendo ao Correio divulgar os atos do poder provincial. Três meses após o início da sua circulação, a Comissão de Polícia da Assembléia Provincial também autorizou o Correio da Victoria a publicar os atos legislativos. Cedo o jornal conheceu a força dos financiadores e a retribuição que esperavam da ajuda de custo que lhe era oferecida. Já em 1850 se constatava inadimplência da província para com o jornal e se verificavam as primeiras reações a publicações que desagradavam aos deputados. (Pereira, 1922)

No dia 14 de março de 1849, quando ainda nem se tinham completado três meses de existência do Correio, a Assembléia Legislativa Provincial pediu ao presidente da Província a apreensão da edição de número 17, que acabara de circular, por considerar desabonador um artigo, que saíra numa seção ineditorial (espaço vendido para publicação de informação de terceiros). Menos por convicção política e mais por impossibilidade operacional, Azeredo, impressor e editor do jornal, respondeu que não poderia cumprir a ordem que fora exarada pelo presidente para que ele recolhesse o jornal em circulação, pois os exemplares já havia sido levados pelo estafeta para os seus diversos assinantes, inclusive de fora da província.

Prometeu, para sossego dos parlamentares, rever suas políticas editoriais e ser mais cuidadoso com os ineditoriais. A reprimenda deve ter se repetido, pois em 16 de abril de 1851, declarou o Correio da Victoria não aceitar “comuni­cados, correspondências, anúncios e outras publicações, contendo ofensas ou que pudessem gerar polêmicas inúteis” (Pereira, 1922, p.12). Ao iniciar o quarto ano de existência, o Correio reafirmou seus princípios de apoio à “Monarquia, à constituição e à liberdade”, seu compromisso com melhorias regionais e com a justiça social2.

Ao folhear as páginas do Correio da Victoria, é possível sentir o estranho efeito de proximidade e distanciamento que o contato com o velho jornal produz. Elas falam de um tempo longínquo como se ele, neste momento, se desenrolasse. Posso ver o centro de Vitória renascer nos pequenos fragmentos de textos, até mesmo no endereço da sede do jornal, situado à rua da Praça Nova, número 3, local onde podiam ser entregues correspondências e comunicados que seriam publicados ao preço de 80 réis por cada linha de 40 letras (“para os assinantes se fará razoável abatimento” (Correio da Victoria, 1856)

Não há registro de onde ficava a Rua da Praça Nova, mas me permito supor que de lá era possível avistar o cais do porto, situado em frente colégio jesuíta de São Tiago, construído nos primeiros anos em que os jesuítas chegaram ao ES ainda na década de 1550. Os limites da cidade de Vitória certamente ainda podiam ser alcançados pelo olhar de qualquer ponto em que o observador se colocasse.

C- Seções e personagens


O porto era personagem no jornalismo da época e desfrutava de espaço cativo nas duas edições semanais do Correio da Victoria, que registrava sempre sua movimentação de carga e passageiros, anunciando a chegada e a saída dos vapores. Tratava-se de um importante cordão de ligação da província com o restante do mundo, quando então o ES já havia superado os 24 mil habitantes encontrados em 1818 por Saint-Hilaire (1974), mas ainda não chegara aos 82.131 contados pelo primeiro Censo Nacional, realizado em 1872, quando a cidade de Vitória registrava 12.470 habitantes. (Bittencourt, 1998)

Os paquetes e iates eram contados e os visitantes listados em todas as edições do Correio que coincidiam com as chegadas e partidas. Além de lançar os nomes de todos os comandantes e da maioria dos seus passageiros3, o Correio se ocupava de divulgar detalhes dos seus calados e as cargas que transportavam, o que oferece uma boa idéia da movimentação de mercadorias na província, época em que a maioria dos produtos manufaturados consumidos era importada.

Outra seção permanente do Correio, razão e condição da sua existência, era a designada “Parte Official”, que ocupava o lugar mais nobre da publicação, o alto da primeira página, e se estendia, sempre que necessário às páginas seguintes. Nele se publicavam, na íntegra ou não, documentos do governo da província ou do Império, informando sobre procedimentos adotados que tanto podem ser de grande impacto para a província, quanto simples ocorrências administrativas sem maior importância4. No período pesquisado fica-se sabendo, ao ler a “Parte Official”, que a província enfrentou um surto de cólera, que os recursos médicos eram precários, mas esta defasagem era compensada pelo auxílio espiritual prestado pelos sacerdotes sempre a postos para atender aos que já não poderiam ser socorridos pelos médicos ou pelas misturas anticoléricas que eram anunciadas (com suas bulas publicadas) nos jornais da época.

Os conventos de São Francisco e do Carmo ganham vida novamente nas páginas do Correio da Victoria. Hoje, o primeiro tem o que restou da sua edificação tombada pelo patrimônio histórico, acolhendo em suas paredes largas de pedra apenas a congregação das Carmelitas Descalças e setores burocráticos da igreja católica. O segundo, usado atualmente por uma escola de ensino fundamental, fez do seu grande auditório um ponto de referência nos últimos anos da ditadura militar nas décadas de 1960 e 70, abrigando eventos como assembléias de professores em greve, debates, lançamentos de partidos políticos, movimento pela anistia, entre outros. Na época do Correio da Victoria, eles foram abrigo seguro para os doentes de cólera, embora nem todos de lá saíssem curados. Periodicamente, o jornal publicava um balanço dos “entrados”, “dos existentes em tratamento”, dos que estavam “em convalescença”, dos “curados” e “falecidos” (Correio da Victoria, 1856)5.

Na mesma “Parte Official” é possível redesenhar o mapa da província e seus principais povoados, freguesias e distritos (Viana, São Mateus, São João de Carapina, Nova Almeida, Itapemirim, Reritiba (hoje Anchieta), Vila do Espírito Santo (hoje município de Vila Velha). Também se extraem informações sobre a implantação de serviços públicos como os de educação, saúde e correios, e o modo como a vida se desenrolava. Sabe-se que o liceu ensinava francês, latim, música, geometria e filosofia e que havia apenas 23 escolas públicas primárias, que tiveram seus regimentos internos aprovado em 18/07/1859, pelo presidente da província Pedro Leão Vellozo.

Aduz-se também a estrutura das relações sociais e de poder de então. A incidência, na publicação, de narradores concentrada apenas nos homens brancos e de relevante status social, permite observar os segmentos que conseguiam figurar neste novo meio de exposição pública que se firmava na província. O período de duração do Correio coincide com o de substituição da mão de obra escrava, majoritariamente composta por negros6 e de uma ainda resistente, embora já pequena população indígena, quase toda ela derrotada pelo português colonizador que enfrentou aqui nações de tradição tupi-guarani, aymoré, aratu, Paraná-ubis e Una7.

Pouco se sabe sobre estes povos – indígenas e negros - ainda hoje, pois acabaram, ao longo da história, sendo confinados a um lugar comum e indiferenciado que designou os primeiros como selvagens de cultura pobre e sem preocupação com uma existência temporal e os segundos como mercadorias, cuja importância se restringia à sua condição de mão-de-obra de baixo custo para a agropecuária. Apesar dos esforços dos historiadores de recuperar a complexidade e diversidade das culturas destes povos, não há muitos vestígios que permitam viabilizar esta empreitada.

Os primeiros acenos de um projeto de imigração européia datam do final da época colonial, em 1813, com a chegada de famílias das ilhas de Açores (elas também se dirigiram, com apoio da Coroa, para o Rio de janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Porto Seguro) que se estabeleceram em Viana (atualmente um município da região da Grande Vitória). Outro registro das tentativas de colonização, desta vez na região do Rio Doce, rio que corta o ES ao norte, é o de um empreendimento particular (de João Felipe Calmon) que trouxe para a região 50 espanhóis das Canárias que se destinavam originalmente ao Rio da Prata, Argentina (bittencourt, 1998).

É na década de 1860 que se intensifica o projeto de fixação de imigrantes europeus com a fundação das colônias de Santa Isabel (163 prussianos), em 1847; quase 10 anos depois (27/02/1856), foi fundada a colônia de Santa Leopoldina (região serrana) e, em maio de 1856, a de Rio Novo (região sul). A migração italiana se intensifica a partir de 1875, com a chegada de Lombardos, Vênetos e Trentinos8.

Tanto os indígenas quanto negros e europeus, que constituem a base da formação do chamado povo capixaba, já figuram na imprensa da época, até 1853 resumida ao Correio da Victoria, na medida exata de sua inserção na sociedade e dos interesses econômicos do projeto de desenvolvimento de então. Ao contrário dos primeiros, os europeus merecem menções respeitosas. Relatam-se viagens realizadas pelas autoridades provinciais aos núcleos de colonização e os esforços de cada uma destas localidades por melhores dias.

Aos índios e negros restava apenas o direito de aparecer em notas marginais, na seção de “Correspondências”, que hoje denominaríamos classificados9, ou na “Parte Policial” da seção de “Declarações”, na qual se encontravam novamente informes de órgãos oficiais. Geralmente, as notas davam conta de fugas, sem fazer qualquer concessão à polidez ou ao humanitarismo quando se tratava de referi-los e descrevê-los10. Menção a qualquer qualidade dos negros só era encontrada nos anúncios que visavam ao comércio do “produto”, quando então eram enaltecidas a capacidade de trabalho e as condições de saúde do escravo11. Os índios não recebiam tratamento diferente, destacando-se, em geral, seu potencial de rebeldia e de luta12. Eles também eram freqüentemente mencionados nos textos que falavam da luta dos portugueses pelo domínio da terra e da dificuldade de conter sua resistência.

A primeira página da maioria das edições também reservava um terço do seu espaço inferior para a seção “Folhetim”, onde se publicavam os clássicos da literatura, fazendo assim suprir o vazio que a falta dos livros deixava13 para os letrados e inaugurando, também na imprensa local, um dos gêneros que acabou se tornando clássico no jornalismo e na literatura.

O jornal também mantinha a seção de Notícias diversas14 onde, novamente, se encontrava em maior parte, informações oficiais do estado, dando conta de remoções e nomeações de servidores e outras de igual importância. Eventualmente se encontravam informações outras, como a matéria que, sob o título Desastre, informava sobre a perda de uma remessa de edições do Correio da Victoria, devido a um acidente de canoa em São Mateus15.

No esforço de trazer para a província notícias do exterior, o Correio da Victoria divulga textos transcritos de outros jornais, menosprezando o atraso da divulgação. Atualidade, para o jornalismo de então, adquiria uma conotação temporal muito mais parcimoniosa e elástica, bastante diferente da vigente hoje, na era da instantaneidade. São encontradas comumente citações de jornais como o Monitor Campista, de Campos-RJ, do Jornal do Commercio/RJ (com destaque para textos produzidos em Paris16) e telex que dizia ter recebido de Buenos Aires, do Paraguai de Porto Alegre, Santa Catarina e Ouro Preto.

Era nestas seções que se podia saber do ocorrido fora das terras capixabas e também tomar conhecimento das referências que os outros faziam ao Espírito Santo. Já nesta época se pode observar uma inclinação a considerar a província uma terra de fracassos, embora se reconheça seu potencial natural de beleza e desenvolvimento econômico. Em geral tais análises se referenciavam em documentos oficiais, o que era previsível, uma vez que os principais levantamentos e indicadores eram tomados pelo estado17.

D- Discurso jornalístico


Na época do Correio da Victoria18, o jornalismo praticado ainda não tinha desenvolvido as artimanhas de sua linguagem atual, embora já ensaiasse os primeiros passos do seu discurso contemporâneo, centrado no discutível conceito de imparcialidade. Promessas nessa linha não faltavam. Havia um jornal que já em 1898 adotava o título O Imparcial, e uma dezena de outros títulos que se comprometiam com tal desafio nos seus projetos editoriais, anunciados em poucas linhas de texto, logo abaixo do título.

Trata-se de um tempo em que o jornalismo ainda não havia se constituído com a pujança de sua presença contemporânea. Não se colocava como um narrador stricto sensu, controlando todos os textos e as formas de narrar. Deixava que falassem outras vozes, preservando seus procedimentos de narração, em especial a do estado e de suas instituições. Contudo, também abria espaço para articulistas e correspondentes, que enviavam textos com os fatos ocorridos daqui e dali na província19. Eles eram dispostos em coluna contínua e a seqüência serpenteava do alto a baixo da página e novamente subia para o alto. Não havia preocupação em separar as seções graficamente, o que era uma prática na imprensa desta época, motivada pela estética predominante no jornalismo e pelos padrões tecnológicos disponíveis, embora já se pudessem encontrar jornais em cores e ilustrados em outras partes do mundo. Os textos destes artigos eram, na medida do possível, coloquiais, tendência que se confirmou contemporaneamente, mesmo que hoje seja quase impossível encontrar uma sentença sequer que não surpreenda pela construção de aparência formal e empolada para os padrões atuais.

O Correio da Vitoria persistiu até 1872, tendo por apenas um curto período de tempo situado entre 3 de julho e 18 de setembro de 1852 proclamado e usufruído de sua independência, ao ver rompido o contrato que mantinha com o governo da província para divulgação de matérias oficiais20. A partir de 18 de setembro de 1852, o Correio volta a dar divulgação aos atos da secretaria do governo, conseguindo assinar novo contrato em 30 de julho de 1853.

Um ano antes de encerrar suas atividades, o Correio da Victoria registrou a morte do seu criador, Pedro Antônio de Azeredo, que o conduzira até aquela data. Com sua morte, o jornal, a tipografia e o contrato com o governo foram assumidos por Joaquim Francisco Pinto Ribeiro e, em seguida, transferidos para Jacinto Escobar de Araújo.

Até 13 de janeiro de 1872 o Correio da Victoria foi bi-semanal, circulando às quartas-feiras e aos sábados. Depois passou a circular três vezes por semana (terças, quintas e sábados). A pequena tiragem fazia com que algumas edições esgotassem, obrigando o próprio Correio a recomprá-las para inteirar sua coleção ou a de particulares. Heráclito Pereira (1922) registra entre os colaboradores do Correio da Victoria os seguintes nomes: Rangel Sampaio, Emílio da Silva Coutinho, padre-mestre João Luiz da Fraga Loureiro, dr. Antônio Joaquim Rodrigues e dr. José Joaquim Rodrigues, que foi seu redator durante os anos de 1852 a 1854. Os impressores foram H.A. Binner, até 1871, Manoel dos Fogos Guararema, até 24 de maio de 1871 e, daí até a extinção, Miguel Pereira Gambôa.

E- Outros jornais


Desde 1853, o Correio da Victoria deixou de reinar absoluto na província e começou a dividir espaço com outras publicações. A primeira a tomar corpo foi A Regeneração, jornal que, entretanto, não se colocava como concorrente, pois era bimensal21. É considerado por Affonso Cláudio como primeiro jornal “verdadeiramente independente, sem ligações com o governo ou com agremiações partidárias” (A. Cláudio apud Oliveira, 1975) 22. A seguir muitos outros vieram, de diversos matizes e formatos, predominando as publicações que se dispunham a ser depositárias das manifestações políticas, econômicas e culturais. Publicações dedicadas especificamente à cultura eram menos numerosas. Mais raras ainda eram as que se ocupavam dos interesses étnicos, mas ainda assim era possível encontrá-las.

Em inventário da imprensa capixaba publicado em 1929, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Heráclito Amâncio Pereira contou 484 publicações periódicas que existiram entre a chegada da primeira tipografia, em 1840, até 1926, data em que encerrou sua pesquisa. Depois disso, não houve quem se dispusesse a fazer o mesmo esforço, sendo, portanto, este levantamento o de maior fôlego existente hoje sobre o conjunto que compõe a história da imprensa capixaba.

No período da campanha pela República, a província, e depois Estado do ES, pôde conhecer as correntes que se organizavam em torno destes dois projetos: um, conservador, propunha a continuidade da monarquia, outro liberal, defendia idéias republicanas. Já então havia se consolidado o esquema coronelista, fenômeno que grassou por todo o país, a partir da criação da Guarda Nacional23, tendo esta casta se tornado a principal articuladora do poder local. Dela saíam conservadores e liberais e, no interior dos dois segmentos, pipocavam divergências que se manifestavam nas disputas políticas e moldavam os interesses da época e seus produtos intelectuais. Os jornais, já numerosos nesta época, traduziam algumas destas diferentes visões.

No Espírito Santo, não é difícil perceber a supremacia do movimento republicano, que era representado na imprensa pelo jornal Província do Espírito Santo, fundado em março de 1882, depois rebatizado por um ano (a partir de 23 de novembro de 1889) para Diário do Espírito Santo e, finalmente, O Estado do Espírito Santo. Entre seus fundadores e principais redatores alguns viriam a ocupar cargos importantes, como o de governador do estado. A herança deste movimento e seu percurso posterior ainda estão presentes no cotidiano do Espírito Santo, onde podem ser encontrados, batizando ruas, municípios e prédios públicos muitos dos nomes que figuraram no expediente do jornal, como José de Mello Carvalho Muniz Freire - governador de 1892 a 1896 e de 1900 a 1904 - e Cleto Nunes Pereira (fundadores), Bernardino Monteiro, José Joaquim Pessanha Póvoa, Affonso Cláudio, J. P. Nolasco, Gama Rosa. Exemplo significativo são as avenidas Cleto Nunes e República que se cruzam, formando um dos vértices do Parque Moscoso, considerada uma das principais obras de Jerônimo Monteiro, governador que, nos primeiros anos da República, imprimiu um ritmo de modernidade e desenvolvimento ao estado. O conjunto que hoje conhecemos como região do Parque Moscoso se inspira nos bulevares e jardins parisienses, tendo se tornado, na época, área preferida para o recolhimento das famílias mais abastadas da capital.

Jerônimo Monteiro foi um dos coronéis que ocupou posição de maior destaque para a constituição do Espírito Santo como uma unidade com características próprias, diferenciada das demais da federação, mas igualada na sua aspiração de constituir-se como um estado moderno e conectado com o mundo. Gama atribui a ele o mérito de ter deflagrado o primeiro grande surto de valorização de uma cultura capixaba, tendo se ocupado de dar visibilidade e realidade aos símbolos oficiais que permitem a diferenciação do estado em relação aos restantes, tendo instituído o selo, o hino e as armas do Espírito Santo em 1909. Antes de sua posse, em 1908, cantava-se, nas cerimônias públicas, a Marseillaise, tradicional hino francês (Gama, 2001). Neste período, já tínhamos superado há muito os arroubos separatistas que surgiram antes da independência do Brasil em relação a Portugal e estávamos ocupados em tocar o projeto de nacionalidade que se tornava mais vigoroso nesta época, principalmente quando da proclamação da República.

Os jornais não só acompanhavam de perto a movimentação política como eram verdadeiros protagonistas das mudanças uma vez que já tinham importância na formação da opinião e na construção da legitimidade necessária aos projetos em debate. Ao mesmo tempo, se modelavam ao ritmo das mudanças tecnológicas, políticas e culturais e representavam um novo espaço de visibilidade, debate e exibição das diferentes correntes de pensamento e formas de organização que a sociedade adquiria.

A imprensa capixaba seguiu este percurso, que se tornou cada vez mais complexo e se desenvolveu concomitantemente ao amplo processo de mudanças que se deu no mundo. O século XX cumpriu, em termos tecnológicos, muito mais do que as promessas que fazia no início para o campo da imprensa e do jornalismo. A década de 1920 viu nascer duas publicações que viriam a se tornar importantes veículos em diferentes momentos do Espírito Santo: A revista Vida Capichaba, fundada em 1923, por Manoel Lopes Pimenta e Elpídio Pimentel e o jornal A Gazeta, fundado em 11 de setembro de 1928, por Thiers Vellozo. A primeira, por mais de 30 anos, deu cobertura à vida social e política do Espírito Santo, figurando como uma das publicações mais lidas do estado. A segunda, que começou como mero informativo para incrementar a venda de lotes urbanos em uma região de Vitória (Jardim Camburi), hoje é considerado o jornal de maior prestígio pelos leitores do estado. Em 1938, nasceu A Tribuna, o segundo jornal de abrangência estadual que se mantém em circulação até os dias atuais, apesar de ter sofrido interrupções. Com linha editorial mais popular, disputa mercado com a Gazeta.

As novas tecnologias, os novos modos de lidar com a informação, novas relações de poder e estratégias de empreender o jornalismo inaugurados durante o século XX fizeram com que sucumbisse a maioria das publicações de circulação aberta e ampla, provocando um afunilamento no número de jornais de amplo espectro e de circulação estadual. Estes se limitam a dois atualmente, pois conseguiram prosperar inserindo-se no novo modelo de comunicação.

Por outro lado, o crescimento de valores ligados ao público e ao visível fez com que se multiplicassem as publicações dirigidas, assinadas por entidades e empresas diversas da sociedade, constituindo este conjunto um amplo cenário onde são postos em exibição interesses empresariais, sindicais, populares, cumprindo funções diversas, mas todas convergindo para o mesmo paradigma: o da publicidade. Este processo também coloca no centro da cena a atividade de comunicação, seus meios e linguagens, suas estratégias narrativas e persuasivas, que são cada vez mais requeridos.

A trajetória feita pela imprensa capixaba não é diferente, no geral, da ocorrida no restante do país e do mundo, certamente que guardadas as proporções. Integrado a um projeto de ampliação do mundo ocidental, o Estado do Espírito Santo cumpre a função de constituir-se em lugar que se diferencia dos demais e busca aqui construir uma cultura que possa ser considerada própria. A configuração de singularidades abrigadas sob a estrutura do estado moderno não foi certamente uma opção, mas uma condição necessária para que, devagar, o mundo escorregasse para além das fronteiras que antes se limitavam à Europa. Substituir formas de solidariedade antes centradas na consangüinidade, ou nas etnias e religiões, por outras mais abrangentes e situadas ao abrigo do Estado, foi o caminho que precisou ser percorrido, para que se chegasse neste aqui-agora que coloca em questão uma série de convicções neste longo percurso consolidadas e propõe novas articulações e identidades.

A imprensa que emergiu em todo o país, trazida e apadrinhada pela Coroa, faz parte deste projeto e nele se inclui, permitindo a materialização de valores fundamentais à constituição de uma sociedade que se propõe racional e autogerida. Dos pilares da experiência grega se recolheu a possibilidade da vida democrática, cuja viabilidade exige a constituição de espaços de realização no qual possa emergir o debate e a chamada vontade coletiva. Na versão contemporânea - entendendo contemporâneo como uma experiência compreendida num largo lapso de tempo natural, mas compacto como tempo histórico - a imprensa ocupa papel de extrema importância na constituição da esfera coletiva para onde converge um conjunto grande de questões e temas destinados ao partilhamento, ao debate, à disputa e à legitimação.

Do Correio da Victoria, que não deixou registro e sua derradeira edição, assim como em diversos exemplos que podem ser recolhidos daqui e dali por tantos quantos tenham passado por experiência semelhante, se pode visualizar o modelo de sociedade que estava em gestão e quem eram seus participantes e não participantes. O modelo é o da cultura ocidental – racional, sedentária, universalista, autogerida - que coloca de lado os que dela não comungam e, na sua supremacia tecno-lógica, consegue dizimar o que lhe propõe uma oposição. Valores desconectados deste projeto, como o da existência em submissão à natureza, sem a guarda da razão, o desapego em relação ao lugar espacial, o nomadismo e o não compromisso com o progresso deveriam ser banidos para que não contaminassem as pretensões e desejos já estabelecidos desde sempre na cultura ocidental.

Mais do que expressar o modelo de uma vontade de ser, o Correio e, depois, os seus sucessores, constitui um fragmento material que se junta a outros já existentes e ainda por serem criados, do desejo fundador da expansão da cultura ocidental, expressão concreta de um projeto de existência, que se assenta na necessidade de construir a cada momento novos núcleos da civilização ocidental, capazes de se diferenciar de outras, por força das determinações históricas que se interpunham ao projeto.

4- Bibliografia.



Achiamé, Fernando, Qual Espírito Santo, disponível na internet via www.estacaocapixaba.com.br. Arquivo consultado em 2001.

Bittencourt, Gabriel, Historiografia Capixaba & Imprensa no Espírito Santo, Vitória, Edit, 1998

Oliveira, José Teixeira de, História do Espírito Santo, 2ª edição, Espírito Santo, Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975

PAIVA, Raquel (org), Ética, Cidadania e Imprensa, Rio de Janeiro, Mauad, 2002



Pereira, Heráclito Amâncio, A Imprensa do Espírito Santo, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico do ES, 1922

Saint-Hilaire, Auguste de, 1779-1853, Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Tradução de Milton Amado.Belo Horizonte, Itatiaia. Ed. da Universidade de São Paulo

Santaella, Lúcia, Comunicação e pesquisa, São Paulo, Hacker Editores, 2001

Santos Neves, Guilherme. Porque somos capixabas? Disponível na Internet via www. Estacaocapixaba.com.Br, Arquivo consultado em 2001

Tallon, Miguel Depes, História do Espírito Santo, Ensaio sobre suas formação econômica e histórica, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Vitória, 1999.

1 O Estafeta foi fundado por Alferes Ayres Vieira de Albuquerque Tovar, em 15 de setembro de 1840. A lei provincial que lhe dava o direito de veicular decisões do governo, recebendo para isso 10$000 rs, data de 23 de março de 1835. O jornal circularia duas vezes por semana, ficando o governo com 120 exemplares de cada número. Tinha como diretor das oficinas José Marcellino Pereira de Vasconcelos.

2Ao iniciar o quarto ano de publicidade, (o Correio) disse que mantinha “o dogma político ‘Monarquia, constituição e liberdade’ e de promover a defesa do oprimido, e censura ao opressor e ao crime, procurando vulgarizar os melhoramentos morais e materiais que se tenham feito em benefício da espécie humana, o engrandecimento desta terra... acompanhará a administração da província nos benefícios que lhe tiver de fazer, e mesmo lhe lembrará aquelas mais urgentes e exigidas precisões para o bem do povo: publicará em fim os atos do governo e daquelas repartições que se quiserem de suas colunas utilizar: é esta sua missão, é este o sacerdócio mais nobre e Sagrado da imprensa livre e ordeira - é esta a profissão de princípios que vem hoje fazer em público o Correio da Victoria- (nº. 3 de janeiro de 1852). - Termina franqueando suas colunas aos cultores das boas letras e prometendo invitar todas as forças para o engrandecimento da província”. (Pereira, 1922)

3 Correio da Victoria, Edição de 16 de março de 1859: seção: Registro do Porto: sahida dia 11: Campos, Hiate Boa União, 27 toneladas, com Leandro Francisco dos Santos e equipe, com carga de louça tendo como passageiro Henrique Pinto de Queiroz. Entrada dia 15, Rio de Janeiro, por Itapemirim, paquete a vapor “São Matheus”448 toneladas, carga de vários gêneros. Passageiros para esta cidade: Manoel Ferreira dos Passos Costa, Dona Maria da Conceição Barceta , um filho e uma escrava.

4 Lê-se na Parte Oficial da edição de 23/01/1856 do Correio da Victoria: Expediente do Ministério do Império, da secretaria de Governo, dando conta de atos diversos: Ao dr. Chefe de Polícia, comunicado para que para o distrito de Vianna se fez seguir o Dr. Cândido Joaquim da Silva, com os medicamentos mais precisos, assim como se darão outras providências a respeito da saúde pública”; Ao mesmo comunicando que se enviaram medicamentos e se fez seguir até a Vila do Espírito Santo um médico como requisitou o respectivo delegado. Ao vigário da vara para providências que esteja um sacerdote pronto a qualquer chamado que lhe for feito da enfermaria do Carmo para o fim de prestar aos enfermos socorros espirituais; A João de Freitas Magalhães para mandar pintar as portas, forro e janelas da igreja matriz da Vila do espírito Santo, como se obrigou no respectivo contrato para ser ordenado o pagamento que se requisita em ofício; A Francisco Coelho de Mello, agradecendo as duas moradas de casas que ofereceu na freguesia de Vianna para residência de médico e enfermeira, convindo que se entenda a respeito com a comissão sanitária daquele lugar.Ao vigário da freguesia de Queimado, aprovando que mande fazer uma estrada no lugar destinado para cemitério público.Ao Exmo sr. Ministro da Guerra, enviando os mapas da força da companhia fixa de caçadores e de pedestres da província., etc

5 Correio da Victoria, 26 d e janeiro de 1856: abaixo do mapa de entrada e saída de doentes do convento de São Francisco, lê-se a seguinte observação: “Vinte e dous doentes fallecidos chegarão a enfermaria em estado de não poderem mais tomar remédio; em muitos delles só se empregarão os recursos espirituais e os externos d’arte; e falleceram de 1/3 a 3 horas da entrada.”

6 Segundo Achiamé, de origem ioruba, fanti-axanti, eve, nupê, mandinga, hauçá, fulani, angola-congolês, moçambique, embora os historiadores tendam incluí-los numa só identidade, fato que o autor critica. Em Achiamé, Fernando, Qual espírito Santo, disponível na Internet via www.estacaocapixaba.com.br. Arquivo consultado em 2001.

7 Op cit nota anterior

8 Pedro Tabachi é sempre citado como personagem importante desta história. Foi ele o organizador de uma série de expedições que atraiu para o ES um grande contingente de italianos em busca de terra para o plantio.

9 Correio da Victoria, 26 de janeiro de 1856: “Procura-se para alugar uma mulher livre ou escrava para serviço interno e externo de uma casa de pequena família, não se olha o preço pela carência em que se está; quem estiver nestas circunstâncias dirija-se a esta typographia que se dirá quem precisa.”

10 Correio da Victoria, 12 de fevereiro de 1859, “Fugirão da chácara do Maruly, em São Christovão, n. 7 (na corte, dous escravos do Senador Alencar, um de nome Anacleto, crioulpo, cor retinta, baixo, pernas um pouco arqueadas, e tem 26 annos de idade; outro de nome João, pardo, é boleiro tem 40 annos de idade, estatura regular, é desdentado e tem uma cicatriz por cima de uma das sobrancelhas. O primeiro fugiu em 18 e o segundo em 30 de dezembro de 1858. Dá-se 50$000 de gratificação por cada um delles a quem nesta tyopographia der notícias certa, de maneira que possão ser aprehendidos, além de qualquer despeza, que satisfará promptamente ”.

11 Correio da Victoria, 16 de março de 1859: “vende-se uma escrava moça e sadia, de sabe lavar, cosinhar, e engomar alguma coisa; para informação n’esta typographia”.

12 Correio da Victoria, 31 de dezembro de 1855: Correspondência vinda do distrito de São Matheus: Comunica que foi encontrado cadáver de Antonio Justo, assassinado por indígenas que ainda errão em nossas matas”. O motivo seria “vingança, por ter Justo também assassinado dous entre elles””

13 É atribuída a José Marcelino Pereira de Vasconcelos a publicação, em 1856, do primeiro volume da primeira antologia local: o Jardim Poético ou coleção de poesias antigas e modernas, compostas por naturais da Província do Espírito Santo, em Vitória, na tipografia de Pedro Antônio d'Azeredo,. O segundo tomo sairia quatro anos depois, em 1860. Entre ambos, José Marcelino lançou, em 1858, o Ensaio Sobre a História e Estatística da Província do Espírito Santo. (GAMA, 2001)

14 COrreio da Victoria, 17 de janeiro de 1849, Circula quartas feiras e sábado, typographia Capitaniense, Editor: P. A de Azevedo. Dá informações sobre as partidas dos Correios ( para o Rio de Janeiro, Itapemirim, Benevente, Guarapary, São Matheus, Serra, Nova Almeida, sta. Cruz, Linhares, Barra de São Matheus e Minas Gerais), chegada e partida de navios e embarcações pelo porto de Vitória. Publica diálogos entre Heráclito e Demócrito; Variedades: “para o que não tiver cabimento em outra parte Correio da Victoria –“daremos a ler artigos de fundo, notícias da corte e juízo das obras públicas do império”

15 Correio da Victoria, 16 de março de 1859, Desastre: “Atravessando do pontal do norte para o sul na villa da Barra de São Matheus, o estafeta que conduzia a malla para esta cidade no dia 2 do corrente, virou-se a canoa, perdeu-se a malla, e escapou milagrosamente o estafeta e o canoeiro...”

16 Em 26/11, O Correio publica celebração ocorrido em Paris em comemoração ao encerramento da exposição universal de 1855, quando Napoleão, acompanhado da Imperatriz e rodeado de brilhante corte distribui recompensas para os expositores escolhido pelo júri.

17 Um longo artigo do Monitor Campos, assinado apenas por M., publicado no dia 17 de maio de 1856, trazia um destas abordagens, principiando com uma citação sem indicação de autoria que afirma: ”os logares são como os homens: há um certo condão. Uma certa fatalidade que os arrasta ao abysmo, no mesmo em que a aurora da ventura se lhe desponta risonha”. O redator comentava a posse de um novo presidente na província do ES e relatava uma série de dados históricos sobre a colonização e outros mais atuais, encontrados num relatório do Barão de Itapemirim, (ex-vice presidente da província) sobre a condição do ES na época. Sua atitude é de incredulidade pelo fato de a província não deslanchar, apesar das condições razoavelmente favoráveis que se apresentavam. Logo no primeiro parágrafo vaticina: “a província do Espírito Santo, ou capitania, segundo a gíria colonial, pode bem entrar na lista dos logares malfadados. A história das primeiras capitanias fundadas no Brasil apresenta a do ES como a das que mais dificilmente custara a conquistar os gentios. O nome de sua capital, Victoria, é disso uma prova”. Mais adiante afirma: “todas as províncias do Brasil, sacudindo o jugo colonial, tomarão mais ou menos maior impulso do que dantes: a do ES marcha com passos tão lentos que se tornarão quase imperceptíveis. Por um leve conhecimento que temos daquela província e à vista dos inúmeros recursos naturais que ella encerra, só a incúria só a incúria dos seus administradores pode-se attribuir o lastimoso atrazo em que permanece”.

18 Não há registros sobre a duração do Correio da Victoria.

19 Correio da Victoria, 31/12/1855. Correspondência de São Matheus (título). “principio esta dizendo-lhe que nos fora sorprehendente e sobre-maneira contristadora a leitura do Correio da Victoria que nos trouxe a deplorável noticia de se ter apresentado ahi com aspecto fulminante o tirribilissimo dragão asiático que, havido de victimas, invade desrespeitosamente até o lar da candida virtude, zombando desdenhosamente de todas as precauções humanas (...)”a correspondência segue em texto compacto e pede ao final da argumentação para conservar na cidade o médico Francisco Fenandes. Depois comunica o naufrágio do iate Conde de Thomas e em seguida o assassinato, por indígenas de Antonio Justo e a nomeação do Juiz Benigno Tavares de Oliveira. (“segundo dizem, suas qualidades são análogas ao nome, brinca), anuncia no parágrafo seguinte que as várzeas que circundam São Matheus estão “inundadas por uma medíocre cheia”. Finaliza dizendo: “São 8 horas da noite e pouca esperança tenho de que esta siga por este que chegou a pouco, pois as ordens da administração do correio são rigorosíssimas para que seja despedido o estafeta logo que chegar. Basta por hoje.”(não há assinatura).

20 Em editorial publicado na edição de 21 de julho de 1852, intiutlado “Nossa missão na iprensa”, afirma o Correio: “Vivemos até agora a vida do retiro e de separação, nossa penna, que toda devia dedicar à defesa dos princípios que por convicção adotamos, lentamente tratava destas questões de estado:nossas columnas sujeitas quase a uma “censura prévia” não podiam em si conter todos os pensamentos que livre ocupavam nossa inteligência: a um pequenos e acanhado círculo, a um “férreo contracto”, achava-se sujeita nossa imprensa, e o espírito quando igualmente sujeito, acanha suas idéias, serviliza suas opiniões e esteriliza sua inteligência...

Hoje devemos à Assembléia Provincial um único favor que talvez sem o querer e sem pensar o alcance de sua obra, ella nos concedeu: desembaraçou, desatou de nossos braços as cadeias pesadas que, por quase 4 annos nós carregamos, e nos constituiu “Imprensa Livre”. Dissolvendo ella o contracto assignado, deu-nos ocasião para discorrer livremente, para consignar em nossas columnas melhores pensamentos, para aplicar quaesquer escriptos, para discutir as nquestões d’interesse da província, para em fim proporcionar ao povo meios de defesa, e de garantia, quando perseguido por alguém, que no domínio das posições sociaes entender subjulgal-o e offendel-o, entendendo contar com o silêncio da imprensa, ella que não podia revelar estes arbítrios, estes desregramentos, estes excessos, e estas perseguições”



21 Há exemplares microfilmados no arquivo público do ES e na Biblioteca Nacional. A Regeneração, era editado em Vitória, de periodicidade bi-mensal e se apresentava como literário e imparcial, 17/12/1853 a 02//1856

22 Afonso Cláudio, em texto que resume a primeira fase do jornalismo espírito-santense, in Oliveira, José Teixeira de, História do Estado do Espírito Santo, 2 edição, Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975, página 329

23 Miguel Depes Tallon conta que o coronelismo se dá a partir de duas decisões da Regência, uma tomada em 31 de agosto de 1831, com a criação da Guarda Nacional nos moldes franceses, com a intenção de esvaziar politicamente o exército, que a partir de entoa começou a perder importância e a lei de Terras, de 1850, que facilitou a concentração da propriedade fundiária. “Com o passar dos anos os chefes locais assimilaram a Guarda, passando a adquirir patentes de coronéis, ou por compra ou por favor político. O fato é que o líder político local, normalmente um grande fazendeiro, um grande senhor de terras, acabava se tornando coronel da guarda. Honorificamente, os grandes fazendeiros passaram a ser, indiscriminadamente, chamados de “coronéis”, como se da Guarda fossem”.(Op cit.p. 75 e 76)





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