Perelandra



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PERELANDRA
TRILOGIA DE RANSOM, 2
C. S. Lewis
Digitalização: valadãobatistoni

Revisão: Juancarlito



www.portaldetonando.com.br/forumnovo/




para
ALGUMAS SENHORAS

que aqui

FALTAM


PREFÁCIO

Esta história pode ser lida sozinha, mas é também certa seqüência de Para Além do Planeta Silencioso no qual se apresenta um relato das aventuras de Ransom em Marte ou como os seus habitantes lhe chamam, Malacandra. Todos os personagens humanos deste livro são puramente fictícios e nenhum deles tem caráter alegórico.


C.S.L.

CAPÍTULO I

Ao deixar a estação e caminho-de-ferro de Worchester e ao meter-me às três milhas de caminho até à pequena casa de campo de Ransom, refletia eu que ninguém naquela plataforma tinha possibilidade de adivinhar a verdade sobre o homem que ia visitar. A charneca plana que se estendia na minha frente (pois a aldeia fica toda por detrás e a norte da estação) parecia uma charneca vulgar.. O céu sombrio das cinco horas era o mesmo que se pode ver em qualquer tarde de outono. As poucas casas e os grupos de árvores vermelhas ou amareladas não eram de forma alguma dignas de nota. Quem podia imaginar que, um pouco mais adiante nesta paisagem tranqüila, eu iria encontrar e apertar a mão a um homem que vivera, comera e bebera num mundo distante de Londres quarenta milhões de milhas, que vira esta Terra de onde ela parece um simples ponto de fogo verde e que falara cara a cara com uma criatura cuja vida começou antes de o nosso próprio planeta ser habitável?


Pois Ransom tinha encontrado outras coisas em Marte além dos marcianos. Encontrara as criaturas chamadas eldila, e especialmente o grande eldil, que é quem manda em Marte, ou, para usar a língua deles, que é o oyarsa de Malacandra. Os eldila são muito diferentes de quaisquer criaturas planetárias; o seu organismo físico, se lhe pode chamar organismo, é completamente diferente quer do humano quer do marciano. Não comem, não respiram, não têm filhos nem são atingidos pela morte natural, e nessa medida assemelham-se mais a minerais pensantes que a qualquer ser que pudéssemos reconhecer como animal. Embora apareçam em planetas e possa mesmo parecer aos nossos sentidos que por vezes neles reside, a precisa localização espacial de um eldil num dado momento apresenta grandes problemas. Eles próprios consideram o espaço (ou “Céu distante”) o seu verdadeiro habitat, e os planetas são para eles não mundos fechados mas apenas pontos móveis – talvez mesmo interrupções naquilo que nós conhecemos como Sistema Solar e eles como o Campo de Arbol.
Presentemente ia ter com Ransom em resposta a um telegrama que dizia: “Vem até cá quinta-feira, se possível. Negócios”. Calculei que espécie de negócio ele queria significar, e era por isso que continuava a dizer a mim próprio que seria perfeitamente delicioso passar uma noite com Ransom e ao mesmo tempo continuava a sentir que afinal não estava a apreciar a idéia tanto como deveria. O que me perturbava eram os eldila. Eu ainda podia habituar-me à idéia de que Ransom estivera em Marte... Mas ter-se encontrado com um eldil, ter falado com algo cuja vida parecia praticamente não terminar... Mesmo a viagem já era uma coisa complicada. Um homem que esteve num outro mundo não regressa de lá sem vir diferente. Não se pode por em palavras a diferença. Quando o homem é um amigo nosso, o caso pode tornar-se doloroso: a velha relação não é fácil de retomar. Mas muito pior era a minha crescente convicção, desde o regresso dele, os eldila não o deixavam em paz. Pequenas coisas na sua conversa, pequenos maneirismos, alusões acidentais que fazia e de que em seguida pedia desculpa, embaraçado, tudo sugeria que tinha companhia estranha; que havia... Vem, visitantes... Naquela casa de campo.
À medida que, vagarosamente caminhava pela estrada vazia e aberta que atravessa pelo meio dos baldios públicos de Worchester, tentava desfazer a sensação de mal-estar, analisando-a. De que tinha eu medo, afinal? Mal fiz a mim próprio esta pergunta, logo me arrependi, chocou-me verificar que tinha usado mentalmente a palavra “medo”. Até aí tentara fingir que apenas sentia aversão, ou embaraço, ou mesmo aborrecimento. Mas a singela palavra “medo” pusera as coisas a claro. Compreendia agora que minha emoção não era outra senão o Medo, nem mais nem menos. E compreendi que tinha medo de duas coisas – medo de, mais dia menos dia, eu próprio me encontrar com um eldil, e medo de “me ver metido naquilo”. Suponho que toda a gente sabe o que é este medo de “se ver metido em qualquer coisa”, o momento em que uma pessoa compreende que aquilo que tinha parecido meras especulações está a chegar ao ponto de fazê-lo entrar no Partido Comunista ou na Igreja de Cristo, a sensação de que uma porta se fechou com estrondo, conosco do lado de dentro. Era uma simples questão de pouca sorte. O próprio Ransom fora levado para Marte (ou Malacandra) contra sua vontade e quase por acidente. Contudo, estava ambos a ficar cada vez mais envolvidos naquilo que eu poderia descrever apenas como política interplanetária. Quanto ao meu intenso empenho em nunca ter qualquer contato com os eldila, não estou bem certo de poder fazer os leitores compreendê-lo. Era algo mais que tudo o que ouvira a respeito deles levava a ligar duas coisas que a mente de cada um de nós tem tendência a manter separada, e essa ligação produzia certo choque. Temos tendência a pensar acerca de inteligências não humanas em duas categorias distintas, que rotulamos respectivamente “científicas” e “sobrenaturais”. Numa certa disposição de espírito, pensamos nos marcianos do Sr. Wells (muito pouco parecidos com os verdadeiros naturais de Malacandra, diga-se de passagem) ou nos seus selenitas. Noutra disposição de espírito totalmente diferentes, divagamos sobre a possibilidade de existirem anjos, fantasmas, fadas e coisas assim. Mas no preciso momento em que somos obrigados a reconhecer uma criatura de qualquer destas classes como real, a distinção começa a tornar-se menos nítida: e quando se trata de uma criatura como um eldil, a distinção desaparece de todo. Estas coisas não eram animais nessa medida teriam de ser classificados no segundo grupo; mas possuíam certo veículo material cuja presença podia (em princípio) ser verificada cientificamente. Nessa medida pertenciam ao primeiro grupo. A distinção entre natural e sobrenatural de fato desaparecia; e depois de tal acontecer, dávamos conta do enorme conforto o que representara como tinha tornado mais leve o fardo de intolerável estranheza que este universo fez pesar sobre nós, ao fazer a divisão em duas partes e ao levar o nosso espírito a nunca pensar em ambas no mesmo contexto. Qual o preço que poderemos ter pago por este conforto, na forma de falsa segurança e conformada confusão de pensamento é outra questão.
Aqui está uma estrada comprida e monótona”, pensei para mim próprio. “Graças a Deus não trago nada comigo”. E então me lembrei com um sobressalto que devia trazer um saco, contendo as minhas coisas para passar a noite. Praguejei no meu íntimo. “Devo ter deixado o saco no comboio”. Será que me acreditam se disser que o meu impulso imediato foi voltar à estação e “fazer qualquer coisa para resolver o caso”? É claro que nada havia a fazer que não pudesse igualmente ser feito telefonando da casa de campo. O comboio, e com ele o meu saco, há esta hora já estava à milhas de distância.
Agora vejo as coisas com a mesma clareza com que os leitores o fazem. Mas no momento pareceu-me perfeitamente óbvio que devia inverter a marcha, e tinha realmente começado a andar para trás quando a razão ou a consciência despertaram e me puseram de novo a caminhar no sentido inicial. Nessa altura descobri mais claramente que antes quão pouco me apetecia fazê-lo. Era uma tarefa de tal modo pesada que me sentia como se estivesse a andar contra um vento forte; mas na realidade estava uma daquelas tardes calmas em que nem um raminho mexe e começava a cair um pouco de nevoeiro.
Quanto mais eu seguia, tanto mais impossível me parecia pensar no que quer que fosse enceto nestes eldila. Afinal de contas, que é que realmente Ransom sabia acerca deles? Segundo o seu próprio relato, os tipos que encontrara não visitam usualmente o nosso planeta ou apenas o começaram a fazer depois do seu regresso de Marte. Nós tínhamos os nossos próprios eldila, dizia ele, eldils telúricos, mas eram de uma espécie diferente e na sua maioria hostis para o homem. Essa era, de fato, a razão porque o nosso mundo estava impedido de comunicar com os outros planetas. Descreveu-nos como estando em estado de sítio, como sendo, na realidade, um território ocupado pelo inimigo, submetido por eldils que estavam em guerra tanto conosco como os eldils do “céu distante” ou “Espaço”. Como as bactérias a nível microscópico, também estes parasitas, que coabitam a nível macroscópico conosco, penetram de forma invisível em toda a nossa vida e constituem a explicação real daquela inclinação fatal que é a principal lição da história. Se tudo era verdade, então, é claro, devíamos acolher com satisfação o fato de eldila de uma espécie melhor terem finalmente passado à fronteira (fica, dizem eles, na órbita da Lua) e começado a visitar-nos. Assumindo sempre que o relato de Ransom estava correto.
Ocorreu-me uma idéia desagradável. Por que não estaria Ransom a ser tolo? Se alguma coisa vinda do espaço exterior estivesse a tentar invadir o nosso planeta, que melhor cortina de fumo poderia arranjar do que exatamente esta história de Ransom? Havia afinal a mais ligeira prova da existência dos supostamente maléficos eldils nesta nossa Terra? E se o meu amigo fosse a ponte involuntária, o Cavalo de Tróia, por meio do qual um possível invasor estivesse efetivamente a desembarcar em Tellus? E então, uma vez mais, tal como quando descobrira que não tinha o saco, voltou-me o impulso de não ir mais além.
— Volta para trás, volta para trás – murmurava-me ele — , manda-lhe um telegrama, diz-lhe que estavas doente, diz que vens noutra altura... Qualquer coisa. A força do sentimento deixou-me atônito. Fiquei imóvel por uns momentos dizendo a mim mesmo para não ser parvo, e quando finalmente retomei a marcha perguntava a mim próprio se isto poderia ser o princípio de um esgotamento nervoso. Mal esta idéia me ocorreu, tornou-se também numa nova razão para não visitar Ransom. Obviamente não me encontrava em condições para quaisquer “negócios” complicados, que era quase certeza aquilo a que o telegrama dele se referia. Eu não estava sequer em condições para passar um vulgar fim-de-semana fora de casa. O meu único caminho sensato era voltar imediatamente para trás e chegar a casa em segurança, antes que perdesse a memória ou ficasse histérico, e entregar-me nas mãos de um médico. Era pura loucura continuar.
Estava agora a chegar ao fim da charneca e descia uma pequena colina, com um Souto à minha esquerda e alguns edifícios industriais aparentemente desertos à minha direita. Ao fundo, a névoa do anoitecer era parcialmente espessa.
Começam por chamar-lhe esgotamento”, pensei. Não há uma doença mental qualquer, na qual os mais vulgares objetos se apresentam ao doente como incrivelmente ominosos?... Apresentam-se efetivamente como aquela fábrica abandonada se me apresenta agora a mim? Enormes bolbos de cimento, estranhos duendes de tijolo, fitavam-me, ameaçadores, por cima da erva seca e enfezada, picada de poças cinzentas e cruzada pelos restos de uma linha para vagonetas. Recordava-me as coisas que Ransom tinha visto no tal outro mundo: só que lá era pessoas. Longos gigantes, em forma de fuso, a quem chamam sorns. O que tornava as coisas piores é que os consideravam esplêndidas pessoas – muito melhores, na realidade, que a nossa própria raça. Sentia-se um deles! Como sabia que eu ele era mesmo tolo? Podia ser algo de pior... E de novo estaquei.
O leitor, que não conhece Ransom, não compreenderá como esta idéia era contrário a tudo o que é razoável. A parte racional da minha mente, mesmo nesse momento, sabia perfeitamente que, ainda que todo o universo fosse louco e hostil, Ransom era são de espírito, sólido de princípios e honesto. E foi esta parte da minha mente que, no fim de tudo, me fez prosseguir mas com uma relutância e uma dificuldade que dificilmente posso por em palavras. O que me permitia prosseguir era saber (cá bem dentro de mim) que a cada passo que dava ficava mais perto daquele meu amigo: mas o que sentia era que ia ficando mais perto daquele inimigo do traidor, do feiticeiro, do homem conluiado com “eles”... Caindo na armadilha de olhos abertos, como um tolo.
— Ao princípio chamam-lhe um esgotamento – dizia no meu íntimo e mandam-te para uma casa de saúde; mais tarde passam-te para um hospício.
Tinha já passado à fábrica e entrara no nevoeiro, onde estava muito frio. Então houve um instante o primeiro de completo terror e tive de morder os lábios para não gritar. Era apenas um gato que atravessara a estrada a correr, mas encontrava-me completamente enervado.
— Dentro em pouco hás de estar realmente aos gritos – disse ao meu atormentador interno, a correr de um lado para o outro aos gritos e sem ser capaz de parar.
Ao lado da estrada havia uma pequena casa vazia, com a maior parte das janelas fechadas com tábuas pregadas exceto uma delas que lembrava um olho aberto de um peixe morto. Peço que compreendam que em ocasiões normais a idéia de uma “casa assombrada” não tem para mim mais significado que para qualquer outra pessoa. Não tem mais; mas também não te menos. Naquele momento o que me veio à mente não era nada tão definido como a idéia de um fantasma. Era só a palavra “assombrada”. “Assombrado”... “Assombração”... Mas que força existe nas primeiras sílabas! Não haveria uma criança, que nunca ouvira antes a palavra e não sabia o que significava, de estremecer só devido ao som se, ao fim do dia, ouvisse uma pessoa mais velha dizer a outra: Essa casa está assombrada?
Por fim cheguei ao cruzamento junto à pequena capela da Igreja de Wesley onde tinha de virar á esquerda, sob as faias. Devia já estar a ver as luzes das janelas de Ransom ou já seriam horas de ocultação de luzes? O meu relógio tinha parado, e por isso não sabia. Estava bastante escuro mas isso podia ser devido ao nevoeiro e às árvores. Não era o escuro que me metia medo, quero que compreendam. Todos nós conhecemos ocasiões em que objetos inanimados parecem quase ter expressões faciais, e era da expressão deste pedaço de estrada que eu não gostava.
— Não é verdade !!! Dizia intimamente, que as pessoas que estão mesmo a ficar loucas nunca pensam que isso está a acontecer? Suponhamos que a insanidade mental tinha escolhido este preciso local para se manifestar? Nesse caso é claro que a negra hostilidade daquelas árvores gotejantes a expectativa horrível que causavam – seria apenas uma alucinação. Mas isso não melhorava em nada as coisas. Pensar que o espectro que estamos a ver é uma ilusão não lhe retira o terror: apenas acrescenta o terror suplementar da própria loucura e por cima disso, a conjectura terrível de que aqueles a quem os outros chamam loucos sejam afinal os únicos que vêem o mundo como ele realmente é.
Era isto que eu sentia em mim. Avancei cambaleante dentro do frio e da escuridão, meio convencido de que devia estar a entrar naquilo a que chamam Loucura. Mas a cada instante a minha opinião sobre sanidade mental ia mudando. Alguma vez teria sido mais que uma convenção um confortável par de antolhos, uma forma combinada de pensamentos cor-de-rosa, que excluíam da nossa vida todo o mistério e malevolência do universo que somos forçados a habitar? As coisas que começara a saber eram mais do que a “sanidade” admitiria; mas eu fora demasiado longe para as por de lado como irreais. Punha em dúvida a interpretação dele, ou a sua boa fé. Não duvidava da existência das coisas que ele encontrara em Marte – os Pfifltriggi, os Hrossa, e os Sorns – nem dos interplanetários eldila. Não punha em dúvida sequer a realidade de esse ser misterioso ao quais os eldila chamam Maleldil e ao qual parecem prestar tal obediência total que não tem comparação com a que qualquer ditador terráqueo pode impor. Sabia aquilo que Ransom pensava ser Maleldil.
Aquela era de certeza a casa de campo. As luzes estavam perfeitamente ocultas. Um pensamento infantil e lamentoso surgiu no meu espírito: por que é que ele não estava ao portão a receber-me? E um pensamento ainda mais infantil veio a seguir. Talvez estivesse no jardim à minha espera, escondido. Talvez para me assaltar pelas costas. Talvez eu viesse a ver uma figura que parecia Ransom, de pé e de costas para mim, e ao falar-lhe ela virava-se e mostrava um rosto que não era de todo humano...
Naturalmente não tenho desejo algum de me alargar sobre esta fase da minha história, o estado de espírito em que me encontrava era de molde a que o recorde com um sentimento de humilhação. Ter-lhe-ia passado por cima se não achasse que era preciso um relato qualquer dos meus pensamentos para a completa compreensão do que se segue e, talvez, algumas outras coisas. Em qualquer caso, não sou realmente capaz de descrever como cheguei à porta da frente da casa. De uma forma ou de outra, a despeito da repugnância e do desânimo que me puxavam para trás e de uma espécie de parede invisível de resistência que se erguia na minha frente, lutando para dar cada passo e quase soltando um grito quando um inofensivo raminho da sebe me tocou na cara, lá consegui passar o portão e subir o carreiro. E aí estava eu, batendo à porta, torcendo o puxador e clamando que me deixasse entrar, como se disso dependesse a minha vida.
Não houve resposta alguma nem um som, exceto o eco dos sons que eu próprio estava fazendo. Havia apenas qualquer coisa branca que tremelicava na aldrava da porta. Pensei, é claro, que era uma nota. Ao acender um fósforo para lê-la, descobri como as minhas mãos estavam a tremer, e quando o fósforo se extinguiu dei conta de como a noite se tinha tornado escura. Depois de várias tentativas, consegui ler.
Desculpa. Tive de ir a Cambridge. Não devo estar de volta antes do último comboio. Há que comer na despensa e a cama estão feitos no teu quarto habitual. Não me esperes para cear a não ser que te sintas para aí virado. E.R.
E de imediato o impulso para me retirar, que já me assaltara por diversas vezes, me acometia com uma espécie de violência demoníaca. Ali estava aberta a retirada, positivamente convidando-me. Aquela era a minha oportunidade. Se alguém esperava que eu entrasse naquela casa e lá ficassem sentadas sozinhas horas seguidas, estava bem enganado! Mas nessa altura, à medida que a idéia da viagem de volta começava a tomar forma no meu espírito, vacilei. O pensamento de me meter a caminho para atravessar de novo a avenida de faias (agora estava realmente escura) com esta casa por detrás de mim (tinha-se a sensação absurda de que ela podia seguir uma pessoa) não era atraente. E então algo de melhor, espero, me veio à mente um resto de sa­nidade e certa relutância em deixar ficar mal Ransom. Pelo menos podia experimentar a porta para ver se realmente não es­tava fechada. Assim fiz. E não estava. No instante Seguinte, nem sei bem como, dei comigo dentro de casa e com a porta fechada atrás de mim.

Estava muito escuro, e quente. Avancei uns passos às apalpa­delas, bati violentamente com a canela de encontro a qualquer coisa e caí. Fiquei sentado durante alguns segundos, esfregando a perna. Pensava conhecer bastante bem a disposição da entra­da/sala de estar de Ransom e não conseguia imaginar com que é que tinha ido chocar. Na altura apalpei o interior: do bolso, tirei os fósforos e tentei acender um deles. A cabeça do fósforo saltou. Pisei-a e inspirei para me certificar de que não ficara a arder na carpeta. Assim que inspirei fiquei ciente de um cheiro estranho na sala. Não conseguia, nem que a minha vida disso dependesse, descobrir qual era ele. Fazia uma diferença tão grande dos chei­ros domésticos vulgares como o de alguns produtos químicos, mas não era de forma alguma um gênero de cheiro químico. Acen­di então outro fósforo. Bruxuleou e apagou-se quase de seguida o que não deixava de ser natural, uma vez que estava sen­tado no tapete da porta e há poucas portas da frente que não dei­xem passar correntes de ar. Mesmo em casas mais bem construí­das que a casa de campo de Ransom. Nada vira exceto a palma da minha mão, em concha, na tentativa de proteger a chama. Obviamente tinha de me afastar da porta. Pus-me de pé camba­leante e fui apalpando o caminho. Encontrei logo um obstáculo ­algo macio e muito frio que se erguia pouco acima dos meus joe­lhos. Quando lhe toquei percebi que estava ali a origem do chei­ro. Deslizei pelo lado esquerdo e cheguei à extremidade. Parecia apresentar diversas superfícies e não conseguia. Idealizar a sua forma. Não era uma mesa, pois não tinha tampo. A minha mão deslizou ao longo do rebordo de uma espécie de muro baixo o polegar do lado de fora e os outros dedos do lado de dentro, no in­terior do espaço fechado. Se tivesse dado a sensação de madeira teria pensado que era um caixote grande. Mas não era madeira. Pensei por um momento que estava molhado; mas cedo resolvi que estava a confundir frio com umidade. Quando cheguei à ex­tremidade acendi o terceiro fósforo.

Vi qualquer coisa branca e semitransparente algo como ge­lo. Uma coisa grande, muito comprida, uma espécie de caixa, uma caixa aberta: e com uma forma inquietante que não reconheci imediatamente. Era suficientemente grande para se lhe meter um homem dentro. Então dei um passo à retaguarda, elevando mais o fósforo aceso para obter uma visão mais completa, e nos 16 mesmo instantes tropeçou em qualquer coisa atrás de mim. Dei por mim estendido no chão, na escuridão, não na carpeta mas em ci­ma da substância fria e com o cheiro esquisito. Quantas daque­las coisas infernais ali se encontravam?

Estava eu a preparar-me para me erguer de novo e ir procu­rar sistematicamente uma vela na sala quando ouvi pronunciar o nome de Ransom; e quase simultaneamente, mas sem o ser mesmo, vi a coisa que há tanto tempo temia ver. Ouvi pronunciar o nome de Ransom:mas não quereria dizer que ouvi uma voz pronunciá-lo. O som era completa e espantosamente diferente de uma voz. Era perfeitamente articulado: era até bastante belo, su­ponho. Mas era, se me faço entender, inorgânico. Sentimos a di­ferença entre vozes animais (incluindo as do animal humano) e todo o outro ruído de uma forma perfeitamente clara, imagina, embora seja difícil defini-Ia. O sangue e os pulmões e a cavi­dade quente e úmida da boca são de certa forma indicados em todas as vozes. Aqui não eram. As duas sílabas soavam mais como se fossem tocadas num instrumento em vez de faladas: e contudo também não pareciam mecânicas. Uma máquina é algo que fazemos com materiais naturais; Neste caso era antes como se rocha, cristal ou a luz se tivessem posto a falar. E atravessou­-me do peito ao baixo ventre, como o arrepio que nos percorre quando nos falha a mão ao escalar um penhasco.

Isso foi o que ouvi. O que eu vi era simplesmente uma haste ou pilar, muito tênue, de luz. Não penso que fizesse um círculo de luz quer no chão quer no teto, mas não estou seguro disso. Cer­tamente tinha uma capacidade muito reduzida para iluminar o que estava em volta. Até aqui, tudo bem. Mas tinha outras duas características que eram menos fáceis de aprender. Uma era a cor. Uma vez que eu via a coisa, obviamente tinha-a visto ou branca ou colorida; mas não há esforços de memória que me tra­gam a mais tênue idéia de qual era essa cor. Experimentei o azul, o ouro, o violeta, o vermelho, mas nenhum condizia. Como é que é possível ter uma sensação visual a qual logo a seguir e desde en­tão se torna impossível recordar, não tentarei explicar. A outra era ângulo que apresentava. Não fazia um ângulo reto com o pavimento. Mas assim que digo isto, tenho de acrescentar que es­ta forma de expressão é uma reconstrução posterior. O que se sentia realmente na altura era que a coluna de luz era vertical mas o chão é que não estava horizontal toda a sala parecia ter adornado como se estivesse a bordo de um navio. A impressão, produzida fosse como fosse, era de que esta criatura tinha como referência certa horizontal, certo sistema completo de referência, baseado fora da Terra, e que a sua simples presença impunha sobre mim esse sistema exótico e abolia o horizonte ter­restre.

Não tinha de todo dúvidas de que estava a ver um edil, e poucas dúvidas tinha de que estava a ver o arconte de Marte, o oyar­sa de Malacandra. E agora que a coisa acontecera já não me en­contrava numa condição de pânico abjeto. As minhas sensações eram, é verdade, de certa maneira muito desagradáveis. O fato de ser obviamente inorgânico o conhecimento de que a inteli­gência estava de alguma forma localizada neste cilindro homogêneo de luz mas não ligada a ele como a nossa consciência está li­gada ao cérebro e aos nervos era profundamente perturbador.1 Não se encaixava nas categorias que temos. A resposta que ordi­nariamente dirigimos a uma criatura viva e aquela que dirigimos a um objeto inanimado eram ambas igualmente inadequadas. Por outro lado, todas aquelas dúvidas que eu tinha antes de en­trar em casa sobre se estas criaturas eram amigas ou inimigas e se Rancem era um pioneiro ou um tolo tinham de momento desa­parecido. O meu temor era agora de outra natureza. Sentia-me, seguro de que a criatura era aquilo a que chamamos “boli”, mas não tinha a certeza de gostar da “bondade” tanto quanto supuse­ra. Isto é uma experiência verdadeiramente terrível. Enquanto aquilo que tememos é qualquer coisa má, podemos ainda ter es­perança de que os bons venham em nosso auxílio. Mas suponha­mos que, vencendo todas as dificuldades, chegamos aos bons e ve­rificamos que são aterradores também? Que tal se a própria co­mida se revelar exatamente aquilo que não, podemos comer, e o lar o lugar em que não podemos viver e a pessoa que nos confor­ta exatamente aquela que nos causa desconforto? Nesse caso, na verdade, não há salvação possível: foi jogada a última carta. Por um segundo ou dois fiquei quase nessas condições. Aqui estava finalmente um pedaço daquele mundo para lá do mundo, que eu sempre supusera que amava e desejava, ultrapassando obstácu­los e revelando-se aos meus sentidos: e não me agradava, queria que se fosse embora. Entre mim e ele queria toda a distância pos­sível, golfo, cortina, cobertor ou barreira. Mas não caí completamente no golfo.

Por estranho que pareça foi a própria sensação de desampa­ro que me salvou e serviu de apoio. Pois que agora eu estava obviamente “metido no caso”. A agonia acabara. A decisão se­guinte não me cabia a mim.

Então, como um ruído vindo de um mundo diferente, chegaram o abrir da porta e o som de botas no tapete de entrada e vi, em si­lhueta contra o cinzento da noite na porta aberta, a figura que re­. Conheci ser de Ransom. O falar que não era uma voz saiu outra vez da haste de luz: e Ransom, em vez de se mexer, ficou imóvel e respondeu-lhe. Ambas as frases eram numa linguagem polis­silábica estranha que eu não tinha ouvido antes. Não faço qual­ quer tentativa para desculpar os sentimentos que surgiram dentro de mim quando ouvi o som não humano que se dirigia ao meu amigo e o meu amigo a responder na língua não humana. Não tem, de fato, desculpa; mas se pensam que são improváveis em tal conjuntura, devo dizer-lhes simplesmente que não leram com muito proveito nem a história nem o próprio coração. Eram sen­timentos de ressentimento, horror e ciúme. Veio-me à cabeça bradar: “Deixa o teu parente em paz, meu mágico de um raio, e presta-me atenção”.

O que efetivamente disse foi:



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