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MARCELLO SALVAGGIO


PERSIFAL



PERSIFAL

Publicado pelo CLUBE DE AUTORES

(2011)
Primeira edição
(Caso goste do livro e possa e queira ajudar o autor, adquira-o pelo site do Clube de Autores, http://www.clubedeautores.com.br, ou entrando em contato com o próprio autor)


Um romance simbólico e fantástico, à moda da tradição arturiana, adicionando novos elementos à Lenda. Partem em busca do Santo Graal, além dos cavaleiros da távola redonda, membros da Ordem dos cavaleiros martinenses, um mago, uma freira às voltas com seres sobrenaturais, a feiticeira Morgana e uma acidental viajante do tempo proveniente do Brasil contemporâneo, entre outros. Haverá harmonia ou conflito quando seus caminhos e horas se cruzarem?

A finalidade desta obra é fazer refletir sobre o que efetivamente vale a pena na existência, se as aventuras temporárias que nos levam a obTER determinados tesouros ou o cálice que representa o SER, a vida que não se restringe às aparências, e sim se estende para uma satisfação íntima e verdadeira, a recusa em mentir para si mesmo. O Graal não é apenas um símbolo do cristianismo: trata-se de, entre outras coisas, uma metáfora universal para descrever o que cada um busca de mais profundo e sincero.
Boa leitura!

PRÓLOGO

A noite do suplício se prolongava a bordo do vagaroso carro das trevas. Apenas a constelação de Peixes brilhava no céu, à medida que Ele oferecia a si mesmo em sacrifício; os espinhos da coroa pareciam convergir para o interior, enquanto a cabeça apontava para o alto. As ferroadas das zombarias, calúnias, mal-entendidos e ofensas feriam a carne, mas não o que havia dentro e em volta dela; não há ponta que fure ou fira o mais valioso.

Pelo pescoço e pelo rosto, de olhos fechados, o sangue ainda escorria; os braços e os ombros continuavam suportando o peso do corpo, mas as mãos pregadas não respondiam mais. Na cruz, fincado de nu, com os tendões dando a impressão de rasgar-se, seu sereno não sucumbia à dor mais atroz.

- Você é duro de matar, homem...- Disse o último que permanecera naquele monte-caveira, um curioso soldado romano chamado Longinus, de costas largas, nariz chato, olhar de bandalho, tom gracejante e orelhas largas, atarracado e bem mais baixo do que o crucificado central.- Os ladrões aí do seu lado já morreram há algumas horas, mas não pense que eu não tenha me tocado que você continua respirando...

Com a respiração profunda e os cachos e a barba úmidos de sangue e suor, o rosto do Salvador assemelhava-se a uma flor que sabia que em breve seria colhida, mas que prosseguia em sua imperturbável talidade.

- Ouvi dizer que você se proclamou o rei do mundo! Os bárbaros sempre buscam um consolo para a própria miséria, mas quer saber? Você vai morrer e desaparecer, os deuses são tão egoístas quanto nós e não se interessam pelos mortais. Imagine só, dividir o Olimpo com um monte de pés-rapados! Eles ficam lá para sempre, isolados, e nós desaparecemos! Um Olimpo claro que não é o que fica na Grécia, porque já fizeram expedições e não encontraram nada por lá...Um Olimpo bem distante do nosso mundo...Imortalidade é distância. Nós estamos distantes e não temos sorte; já os deuses têm sorte por serem imortais, porque depois da morte não há nada! Ou alguém já teria voltado para contar como é. Ulisses, Enéas...Quem acredita em poetas? O mundo escreve em prosa.

Jesus, que permanecia em silêncio, inclinou a cabeça levemente para o lado.

- Para alguém tão resistente, você é muito calado. As palavras não vão acelerar a sua morte não, se resistiu até agora. O que me surpreende é quando dizem que você declarou ser o rei do mundo e filho de um deus único! Falava, falava...E agora não fala nada? Será que é porque está revoltado com a derrota, odiando a todos, tanto aos judeus quanto aos romanos? Não precisa odiar a nós...Não teríamos feito nada, não fossem os delírios de grandeza desta insuportável província rebelde! Ou por acaso é mesmo só um filho de carpinteiro ignorante, que nem latim fala? Olha, não sei se me entende, mas anacoretas malucos são muito comuns pelo império, e nós romanos não temos culpa de nada não, Pilatos até lavou as mãos; se quiser culpar alguém, culpe os judeus e o “deus único” que te abandonou.

- Entendo o que você diz...- O nazareno surpreendeu o soldado pusilânime, que recuou ante o inesperado.- Nenhuma língua através da qual o Meu Pai se manifeste me é estranha.- Jesus abrira os olhos molhados de sangue e lágrimas. Ainda assim, Longinus ficou paralisado com aquele olhar que raiava galáxias e abraçava todos os seres vivos. A pronúncia do latim era perfeita, uma linguagem simples, mas muito melhor do que a do soldado, mais limpa e polida do que a lâmina do gládio do mais caprichoso dos legionários, e sem corte. Ademais, a voz possuía a doçura do mel, a expressão de graciosidade de um pardal e a pele exalava, mesmo depois de todo o martírio, o perfume dos lírios do campo. Mesmo Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestira com a riqueza do Cristo...

- Está falando do seu papai do céu? Que belo pai, que deixa o filho morrer na cruz feito um criminoso! Jesus nazareno, rei dos judeus...- Zombou Longinus, recobrado do susto e certo de que aquele pobre coitado nada mais poderia fazer.

- São muitas as moradas da casa de meu pai. Um dia o seu coração compreenderá, e você estará livre.- Sorriu de uma maneira enigmática, que continha todo o sofrimento.

- Que absurdo!- O soldado bateu a lança no chão e balançou a cabeça.- Isso é palavrório!

- Seu coração, não a sua mente. Pai...- Levantou os olhos para o céu.- Agora está consumado.- Foram as derradeiras palavras; depois disso, sua cabeça caiu, cerrou os olhos e deu seu último suspiro. O próprio “rei dos judeus” mandara embora sua mãe Maria, seu discípulo João e sua companheira Madalena, ficando a sós com o pulha romano, que ficou paralisado por alguns instantes, até o eflúvio final, antes de indagar com ironia:

- Majestade?

Não obteve resposta. A respiração do crucificado cessara.

- É...Parece que nem você agüentou, filho de deus. Talvez se fosse Hércules ou Teseu...

Assoviando, Longinus caminhava entre as caveiras; relaxado, até ouvir alguns passos e sentir a aproximação de alguém, do qual de longe só conseguiu ver o grande lençol de linho que carregava.

- Alto lá!- O soldado pisou no manto vermelho que se encontrava no chão, em meio à poeira.

- Vim para pegar o corpo de Meu Senhor...- Disse o homem, de barba grande e alva, olhar insigne e trajes ricos, enrolando o lençol em um de seus braços.

- Até que entendo um pouco a veneração de uns gatos pingados por esse sujeito...- Longinus olhou para o corpo de Jesus, com a cabeça despencada, e depois se fixou no homem à sua frente.- Ele tinha porte e parecia falar bonito.

- Você nunca entenderia o amor que este homem, ou melhor, que este Filho do Homem e de Deus, espalhou entre os humildes e mesmo entre alguns orgulhosos como eu, que tiveram a oportunidade de encarar a própria posição no mundo sob um novo ponto de vista. Ele falava simples e é na simplicidade que se sentia o aroma de seu coração humano. Coração não compreendido pela insensatez dos homens, que se negam a ver o que há dentro de si mesmos, mas que será compensada pelo perdão e pela glória.

Longinus não se surpreendeu ao reconhecer outros soldados romanos subindo o Gólgota na direção das cruzes; isso já era esperado...O que não esperava era a presença daquele indivíduo.

- O meu nome é José de Arimatéia e obtive a permissão de Pilatos para recolher o corpo de Meu Senhor.

Os soldados quebraram as pernas dos crucificados ao lado de Jesus e os tiraram das cruzes. Quando foram retirar o nazareno...

- Vou verificar se ele está mesmo morto!- Longinus atravessou-lhe o lado com sua lança.

O sangue não jorrou de imediato. José de Arimatéia se lembrou das palavras de Jesus: “Este cálice é a nova aliança através do meu sangue, que é derramado por vocês”. Membro honrado do Sinédrio, lembrou-se do cálice que obtivera dos discípulos, com o qual o Cristo celebrara sua última ceia ao lado de seus prediletos. “Ele morreu por nós...Como pude me esquecer?”, pensou, e até os pêlos de sua barba se eriçaram.

Tirou de um dos bolsos de sua veste um cálice de madeira muito simples e rústico, e correu para a ferida que fora aberta pelo soldado. Só então o sangue escorreu, depositando-se naquele ventre.

- Não pode ser...- Os soldados estavam paralisados.

O sangue parou de escorrer quando o cálice ficou cheio e o céu clareou de repente, fazendo-se dia em plena noite; o sol cobriu a lua e durante alguns minutos luz e escuridão coincidiram.

- Por Júpiter!- Um dos romanos desmaiou.

Sem saber por que e como, Longinus largou sua lança, ajoelhou-se e não disse mais nada; seu rosto não dava grandes alardes, mas o arrebatamento era total...

No sol, José viu o rosto de Jesus, a maternalidade de Maria, a fé de João, a simplicidade encalistrada de Pedro, a graça de Madalena, a necessidade de Judas e o raiar de toda a humanidade.

Quando a noite voltou, o corpo do nazareno foi retirado pelos soldados em condições, enrolado no sudário e carregado por eles, ao passo que José tomou a responsabilidade de levar o cálice da Nova Aliança...
l
A casa de Jesus e Maria Madalena, para a qual o casal se transferira recentemente, encontrava-se em um dos mais modestos bairros de Jerusalém, de ruas formadas por pedras pesadas e sujas, que havia anos não conheciam os pés de um nobre ou de um sacerdote. As habitações pequenas e humildes, com apenas uma porta e poucas janelas; a do nazareno e de sua companheira era limpa por dentro e por fora, e lá ela varara a noite em uma cadeira dura, velando sozinha e aguardando que José de Arimatéia voltasse para confirmar o sepultamento.

Madalena era uma mulher muito graciosa, morena e de nariz arrebitado, olhos cor de azeviche, encorpada, que costumava usar vestidos de cores opacas e no colo um colar de brilho muito discreto. Predominava uma expressão de prudência e humildade, e sempre fora muito cuidadosa com a aparência; porém, após a morte de Jesus, seus cabelos clarearam e perderam um pouco do vigor, tornando-se quebradiços.

Valente, não adormecera durante a noite e a madrugada; contudo, o canto do galo despertou-a de um cochilo e coincidiu com três batidas na porta:

- Deve ser José!

Correu para abri-la. De fato, do outro lado estava o próspero amigo de Jesus, que deveras a admirava.

José, que não carregava mais nada, lembrou-se de como os beijos dos dois eram cheios de ternura e sentimento, e da indignação freqüente de Pedro...

- Por que ele conversa com tanta freqüência em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Ele a prefere a nós?- Indagara aquele homem baixo, moreno, de ombros estreitos, braços fortes e olhos cor de azeitona, com a seriedade em seu semblante irmanando-se a uma certa rusticidade, sem saber que Jesus acabara de entrar no quarto...

- Enquanto Eva estava com Adão, a morte não existia; quando retornarem um para o outro, a Vida tornará a vencer.

- Mestre! O senhor está aí?? Me perdoe!

Ajoelhou-se e cingiu as mãos ante a presença de Jesus e à vista de José, João e Tomé, que também estavam presentes.

- Levante-se, Pedro! É justamente por ser ignorante nos assuntos da Religião que o escolhi para liderar. Pois quem lidera deve aprender, não ensinar.

De volta àquele presente, José não se surpreendera com as olheiras e o rosto cansado e os cabelos desalinhados de Madalena, que se expressou por uma voz doce, mas que saiu enfraquecida:

- Entre, bom amigo!- Ela o recebeu com o máximo de calor humano que poderia ceder naquele momento.- Entre e me diga o que se fez do corpo de Jesus.

José entrou, sentou-se, bebeu água, e explicou que o corpo do Salvador fora recuperado por ele e dignamente colocado em seu túmulo.

- Isso me conforta um pouco. Hoje mesmo irei comprar aromas e bálsamos para embalsamá-lo.

- Eu não sei...Mas sinto que algo incomum ainda está para ocorrer.- Ele franziu a testa e mostrava um olhar desconfiado.

- Algum pressentimento?

- Jesus não pode ter morrido da mesma maneira que os dois vis crucificados ao seu lado. Um deles, Gestas, matava viajantes com a espada, prendia-os e deixava-os nus, pendurava mulheres pelos tornozelos, cortava seus seios e bebia o sangue; o outro, Dimas, conquanto favorecesse os pobres, assaltava os ricos em sua pousada, e não é justo furtar para dar, além do fato de ter deixado nua a filha de Caifás.

- Aquela Sara? Ela acusou Jesus de roubar os livros da Lei. Não acredito em nada do que ela alega, ainda que não a julgue.- Fez uma pausa, engoliu seco e logo voltou a falar:- José...- Quase murmurou.- Sou eu quem mais gostaria de ver Jesus vivo agora, mas sei que não adianta culpar os homens que foram executados ao lado dele e compará-los com qualquer outra pessoa. Não existem dois seres humanos iguais neste mundo! Deus nos ama tanto que nos fez únicos. Apesar de não aceitar uma morte dolorosa para um homem que veio para lavar nossos erros, não consigo julgar os outros e desejar uma morte mais sofrida, de acordo com o terrível crime que cometeram. Toda morte forçada pela “justiça” do homem é injusta! Pois o ser humano é falho...Não pode ter o direito de julgar seu semelhante.

- Como faríamos então? Deixaríamos soltos os criminosos?

- Fazer quem errou trabalhar e produzir para compensar seu delito é o correto; mas tirar a vida é tentar, de maneira falaz, se impor por meio do terror; a vida nos foi dada para ser celebrada e não sabemos quais os motivos que podem levar um homem a se tornar um criminoso! Não há nada que justifique a crueldade, e o trabalho é preferível ao sangue frio...Mas me diga, José: há algo além da sua indignação que aluda ao incomum? Apenas o fato de Jesus ser colocado entre “meros mortais” é extraordinário?

- Não, mulher. Veja este cálice...

José retirou do bolso de sua túnica vermelha o cálice da última ceia, com o qual colhera o sangue de Jesus na cruz. O recipiente estava seco.

- O que há de especial nele?

- Observe...

José fechou os olhos, orou com fé, e o sangue de Cristo começou a se materializar.

- Mas é incrível!- Madalena arregalou seus belos olhos.

- Isto é, para mim, o sinal de que ele irá voltar.

Madalena se encolheu em si mesma e se entregou ao choro.

- Madalena, minha amiga...Sei que as emoções do momento são fortes...- Colocou uma das mãos no ombro da mulher.

- Ele não morreu, José!- Ela levantou outra vez o rosto, agora molhado.- Ele ainda está entre nós!

José de Arimatéia conteve as lágrimas, mas não o sorriso.

- Despeja-se e troca-se a água, mas a jarra permanece...- Ela repetiu o que Jesus lhe dissera uma vez.

- O que vai fazer?

- Irei ver e cuidar do corpo dele e hoje e durante toda esta semana, até o sepultamento definitivo. Quando isso estiver encerrado, partirei com este cálice para muito longe, para protegê-lo de Roma e de Caifás!- Sua voz ressoava com uma força surpreendentemente renovada, enquanto enxugava as lágrimas e abismava José.

- Você...Tem certeza?- Ele gaguejou, hesitante.

- Nunca tive tanta certeza em toda a minha a vida!

Foi assim que José de Arimatéia, mesmo receoso de início, não hesitou em transmitir o cálice sagrado a Maria Madalena, que após a Ressurreição do Cristo partiu para o Oriente e nunca mais foi vista.





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