Planejamento urbano e turismo cultural em belo horizonte, brasil: espetacularizaçÃo da cultura e a produçÃo social das imagens urbanas pereira, Valnei



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PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO CULTURAL EM BELO HORIZONTE, BRASIL: ESPETACULARIZAÇÃO DA CULTURA E A PRODUÇÃO SOCIAL DAS IMAGENS URBANAS
PEREIRA, Valnei

Geógrafo (UFMG), Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Docente do Departamento de Geografia e da Escola Superior de Turismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), em Belo Horizonte, Brasil.



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E-mail: valnei.pereira@bol.com.br
1. MUTAÇÕES SUPERCONTEMPORÂNEAS: CLIVAGENS ENTRE ESPAÇO, TEMPO E CULTURA
Nos novos contextos espaciais da competição capitalista, as cidades, e sua cultura, são facilmente acionadas como complexos produtos, promovidos ou vendidos como mercadorias turísticas, para as quais são produzidos novos fetiches a partir da midiatização da experiência urbana que conduz, assim, à tendência a uma falsa possibilidade do existir coletivo, confundindo profundos desenraizamentos com possibilidades culturais reais.
O cotidiano, recriado por diretrizes racionais que não reconhecem os contornos imateriais dos diversos territórios que configuram o lugar e a cultura, deixam de ser os sustentáculos efetivos do turismo cultural. Assim novos significantes turísticos se colocam como possibilidade que não encontram expressão imediata na (i)materialidade em constante transformação, reacendendo desejos e recriando necessidades.
Estas referências apóiam a reflexão de processos de racionalização em curso no campo do planejamento urbano. A imagem da cidade ganha destaque por apresentar a atraente perspectiva da manipulação de desejos e valores na ação planejadora atualmente valorizada, a partir de linguagens e técnicas atualizadas de comunicação. Contexto onde o marketing e a publicidade passam a encadear, na política urbana, uma série de processos novos. A competição urbana, ao se inserir na escala internacional, instaura uma nova hierarquia de lugares, independente dos vários interesses em jogo. Ou seja, “as disputas internacionais atuais ocorrem de forma cada vez mais incisiva na face estratégica da captação de novas funções pelos espaços metropolitanos, verdadeiros epicentros de contradições sociais, e da imposição de homogeneidades técnicas que reduzem a qualidade, hoje igualmente estratégica, da cultura e do tecido histórico-social de cada lugar” (RIBEIRO, 1995:56).
Contraditoriamente, fala-se de pós-modernidade como a superação/ esgotamento possível de um momento histórico – o da própria modernidade - que sequer experenciamos em sua plenitude de sentidos e valores. Todavia, no campo da intervenção urbana global, mais conceitual que transformadora, as práticas de racionalização traduzem a insistência em fórmulas conservadoras e, porque não dizer, antidemocráticas de intervenção na realidade social, o que, invariavelmente, conduz a uma situação de exclusão, que obriga à busca de posturas alternativas de resistência: “o fato de que a produção limitada de racionalidade é associada a uma produção ampla de escassez conduz os atores que estão fora do círculo da racionalidade hegemônica à descoberta de sua exclusão e à busca de formas alternativas de racionalidade, indispensáveis à sua sobrevivência” (SANTOS, 1999:247).

Entendidas nesta perspectiva, a manutenção e a reprodução da injustiça e das desigualdades sociais apóiam-se na criação aparente de novas oportunidades sócio-econômicas ou de “paraísos urbanos” atraentes, onde a administração pública deveria planejar e arcar, antes de tudo, com os riscos dessa enganosa imagem. Afinal de contas, as pessoas, assim como as empresas, podem fazer escolhas locacionais mais vantajosas ou, para utilizar a expressão corrente, estratégicas. Entretanto, os administradores públicos deveriam reconhecer que as vantagens competitivas não podem ser usufruídas e apropriadas sem que suas conseqüências sócio-culturais sejam pesadas. Essa é uma estratégia autodestrutiva, como muito bem adverte ARANTES (2000: 29), ao afirmar que mesmo concebendo esses efeitos “a corrida rumo ao desastre continua”.


As cidades, cada vez mais refletidas com base em orientações internacionais para o planejamento urbano, têm sido promovidas para o empresário, o turista ou o cidadão (ASHWORTH and VOOGD,1991; COOKE, 1990 apud SÁNCHEZ), sendo buscada larga adesão social para os projetos de promoção urbana.
Nosso movimento reflexivo, assim, propõe um elo analítico entre imagem e a difusão de uma nova racionalidade em usos, atributos e qualidades do urbano. Neste sentido, a metrópole é entendida como a condensação/ articulação específica entre escalas espaciais, contendo espacialidades reinterpretadas por novos interesses, objetivos e necessidades que refletem tendências internacionais de racionalização de atividades e processos econômicos, com forte poder de manipulação do tecido sócio-cultural na construção de imagens emblemáticas que sintetizam ricas experiências e possibilidades para um efetivo turismo cultural. Elementos selecionados do cenário metropolitano articulam possibilidades variadas de alcance da adesão social a novos projetos econômicos, manifestos em diferentes contextos espaciais.

2. BELO HORIZONTE: SÍNTESES HISTÓRICAS REINTERPRADAS PELO PLANEJAMENTO URBANO
Do alto da Serra do Curral, formação montanhosa que marca o sítio urbano de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, avista-se uma silhueta formada por um grande número de edifícios onde, há pouco mais de 100 anos, em 1893, existia o pequeno povoado de Curral D’el Rei com aproximadamente 4000 habitantes, 180 edificações e 32 fazendas. Este pequeno arraial, em quatro anos, cedeu lugar à primeira grande cidade planejada do país, inaugurada em 12 de dezembro de 1897.
Idealizada em concepções de planejamento visionárias, com forte sedução pelo novo reificado, o movimento urbanístico começa pelo "Grupo de Minas" que, mais tarde, viria a constituir-se na Commissão Constructora1 da Nova Capital: políticos, expoentes da elite e intelectuais que, sob influência de Haussmann (Paris-FRA) e L'Enfant (Washington-EUA), criaram, na virada do século, uma ficção sintetizadora do moderno na convergência das Minas com os Sertões e os Planaltos brasileiros. Trata-se de um idílio pretensamente modernizado e projetado entre os parâmetros da última modernidade da época com o estilo de vida luso-provinciano preservado nas mofadas e barrocas referências das cidades históricas do ciclo das Minas e das fazendas.
Ao longo do século XX, uma série de inovações urbanísticas e culturais reafirmam a centralidade emblemática da cidade construída em torno de referências dos ideários do modernismo/ modernização. Além das intervenções a atualizações em usos do espaço urbano, mutações dinâmicas se processam em sua paisagem cultural, sintetizada em uma rica produção cultural e inovação em comportamentos e modismos que marcam a experiência urbana de Belo Horizonte e referenciam a produção de imagens urbanas, responsáveis por representações acerca dos circuitos turísticos.
Atualmente, essa trajetória tem sido empregada em nome de uma possível “vocação” contemporânea de Belo Horizonte relacionada ao turismo cultural e à recepção de eventos de porte internacional, entendendo a cultura, a indústria do comportamento (moda e música), os serviços especializados e a alta tecnologia como manifestações mais que “naturais” de uma metrópole onde o terciário avançado e o quaternário adquirem importância crescente em função da própria vida sócio-cultural2.
No plano internacional, grandes eventos de caráter cultural como os Festivais Internacionais de Teatro, Dança, Quadrinhos, Artes Cênicas, Cinema Latino-Americano, Letras e Poesia dos Países de Língua Portuguesa, Curta-metragens, Hip Hop, Rock Pop e os intercâmbios culturais com cidades européias e norte-americanas emblematizam a cultura na captura de possibilidades turísticas forjadas à experiência sintetizada em imagem. A paisagem urbana simplificada pela síntese da imagem transmuta-se em linguagem corrente, facilmente captável pelo senso comum, que é apropriado em nome de intenções estratégicas moldadas por novas tendências do planejamento urbano.
Essas complexidades, em constante (re)definição constituíram o roteiro para a evolução espacial que hoje é a terceira maior aglomeração urbana do país (cerca de 4,5 milhões de habitantes), centro geopolítico e administrativo da segunda maior concentração populacional e econômica nacional, e eixo nodal da maior rede urbana estadual brasileira. Em contradição com esta posição, Belo Horizonte é definida por estrangeiros que a visitam como “a maior cidade de que nunca ouviram falar do mundo”. Belo Horizonte, para parafrasear a Los Angeles de Mike Davis, "é tudo isso ao mesmo tempo agora" (DAVIS, 1996: 33).

3. PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO: DAS CONCEPÇÕES INTERNACIONAIS À EXPERIÊNCIA DE BELO HORIZONTE
Henri MINTZBERG (1994), teórico crítico das novas modalidades do planejamento urbano, ao citar perspicazmente Woody ALLEN3 em Shadows and Fog: “Eu estava em minha cama aconchegante, e de repente eu sou parte de um plano”, evoca bem a nova racionalidade do planejamento urbano e suas mediações com racionalizações em outros outros campos da vida urbana.
As tendências atuais do planejamento urbano e, particularmente, do inspirado no planejamento estratégico, enfatizam a cultura como emblema, utilizando-a como rótulo para obtenção de respaldos e adesões unânimes, que ocultam interesses e fins, estes efetivamente estratégicos. Na verdade, essa ênfase na perspectiva cultural, por parte do planejamento territorial, chamado de Cultural Turn (ARANTES, 2000), assume, agora claramente, uma orientação para o mercado: “o ‘tudo é cultura’ da era que parece ter se inaugurado nos idos dos anos de 1960 teria pois se transformado de vez naquilo que venho chamando de culturalismo de mercado”. (id ibidem, 2000: 16).
As sociedades urbanas tornaram-se mais matizadas, individualistas e internacionalmente sintonizadas com estilos de vida conscientes e inconstantes, orientados pela moda que parecem orientar novas racionalidades na produção de imagens urbanas e na consequente busca de alternativas ancoradas no turismo.
Sucintamente, os resultados desta nova atitude aparecem no denominado marketing da cidade ou city marketing, com uma longa história de uso nos Estados Unidos e que, a partir dos anos 80, adquire um conjunto mais largo de significados na Europa Ocidental. Para muitos analistas, o termo passou a significar promoção ou, até mesmo, competitividade da cidade como um todo (VAN GENT, 1984; PEELEN, 1987 apud ASHWORTH, 1990: 10).
Em um mercado urbano, o planejamento estaria, assim, inseparavelmente ligado ao city marketing, especialmente através da sua paisagem (i)material, que orienta a concepção das propostas de turismo cultural.
Em Belo Horizonte, apesar das conquistas e do aprendizado gerado pelos mecanismos democráticos de participação após a Constituição de 1988, com vários momentos políticos sensíveis a essa condição, as políticas atuais têm evidenciado traços bem característicos de intenções estratégicas que refletem, antes de tudo, uma participação social pouco significativa em decisões importantes relativas aos rumos e ao futuro da cidade.
Dentro dos mecanismos propostos para incorporação de um modelo de gestão mais democrática dos interesses municipais, as racionalizações e os interesses propalados por novos paradigmas de administração pública, como os apregoados pelo planejamento estratégico de cidades, parecem ter sido mais convincentes, e, portanto, mais fortemente considerados do que os problemas sociais que urgem em nossas cidades, como proposto por ARANTES (2000: 68):“(...) do ponto de vista de um país subdesenvolvido, há algumas coisas que não se pode deixar de lembrar. Assim, parece muito menos plausível que num tal contexto alguém minimamente responsável – para dizer o menos – possa imaginar um governo de cidade que se limite basicamente a agenciar negócios, muito menos que se sinta à vontade propondo uma corrida competitiva em que é muito óbvio que uns se dão bem na mesma medida em que outros se dão mal”.
A emergência, em Belo Horizonte, na construção da imagem urbana em torno de uma metrópole moderna que estimule a diversificada instalação de segmentos econômicos de ponta, traduz-se em um conjunto de diretrizes e para a economia municipal, sobretudo em torno da cultura e do turismo, ou em desdobramentos de suas potencialidades evidenciados na moda, ciência e tecnologia, design, esporte e lazer.
Esta atitude evidencia não só o desejo de melhoria do tecido urbanístico-arquitetônico da cidade como também a adesão a tendências internacionais em que a qualidade do espaço urbano encontra-se vinculada ao aumento da competitividade. Inserida nestes critérios, a revitalização urbana expressa mais do que o interesse na requalificação técnica e ambiental do espaço urbano, constituindo um instrumento com finalidades, antes de tudo, estratégicas: “(...) definir revitalização urbana como instrumento de planejamento urbano com o objetivo de conferir nova qualificação em determinada área urbana, para sua reinserção sustentada ao contexto urbano, por meio de um conjunto de ações jurídico-institucionais, sócio-econômico-culturais e físico-ambientais, com caráter multiinstitucional e multidisciplinar” (BELO HORIZONTE, 1999: 82).
O alcance de uma imagem de cidade empreendedora, com vocação voltada para o terciário e de pólo de negócios e serviços eficientes, constitui uma orientação emblemática para a intervenção urbana: “(...) construção e promoção da imagem de Belo Horizonte como pólo de negócios, comércio e serviço, indústrias de alta tecnologia, distritos industriais não poluentes, centro de excelência em educação e demais aspectos em que já é referência” (ibid: 75). Esta meta é reiterada, ainda, pelo “incentivo ao desenvolvimento do turismo receptivo, tanto no que se refere à implantação de equipamentos turísticos, como à criação de programas que visem o incremento do turismo de negócios, de eventos e de lazer no município”. (id ibidem: 74). Para a concretização deste objetivo são propostas soluções com base em “mecanismos” (estratégicos?) de planejamento, “(...) que transformem Belo Horizonte em centro convergente da economia local e regional e em agente articulador de intercâmbios nacionais e internacionais” (id ibidem: 74).
Assim, a consolidação e a promoção externa da imagem da cidade constitui uma das propostas mais destacadas pela Conferência, enquanto objetivo econômico estratégico: (...)“promover os recursos turísticos de Belo Horizonte nos mercados estadual, nacional e internacional” (id ibidem: 75). Trata-se de efetivar a inscrição internacional da cidade, de “(...) criar e manter sistema de informações e de publicações turísticas, nos moldes e nos parâmetros internacionais”. (id ibidem: 74). Com a mesma finalidade, observa-se a seleção de elementos para a construção da imagem sintética da cidade, em torno das idéias de sucesso e eficiência da administração pública, buscando-se a (...)“divulgação da cidade em relação aos aspectos em que já é destaque, como limpeza urbana, projeto de catadores de papel, etc” (id ibidem: 75). Da mesma forma, os indicadores sociais passam a ser alvo de estratégias, antes mesmo de serem vistos como subsídios para a conquista de objetivos sociais primordiais. Visa-se ao“(...) fortalecimento dos indicadores vinculados à imagem de uma cidade: nível de renda, assistência universitária, capacidade de administração e capitalização nos mercados de valores, índice de desenvolvimento humano (IDH): baixa taxa de analfabetismo, longevidade, etc” (id ibidem: 75).
Além dessas disposições, o município conta com um “escritório estratégico” que, desde 2000, vem articulando discussões em torno da confecção do Plano Estratégico da Cidade. Formalmente, a sua concepção não se encontra vinculada ao poder público, sendo sua composição dirigida, sobretudo, por segmentos empresariais, a mídia local e grupos de pesquisa, apesar da presença articuladora de dirigentes de órgãos públicos. A consultoria técnica para a elaboração do Plano foi contratada da famosa GFE ASSOCIATS de Barcelona que se constitui numa das principais disseminadoras da importância dos planos estratégicos de cidades, no Brasil e no mundo. Os trabalhos técnicos realizados até o momento se posicionaram no reconhecimento das potencialidades estratégicas do município e de sua capacidade de polarizar atividades econômicas ao nível metropolitano.
Nestes novos formatos assumidos pelo planejamento e a política urbana, as formas de participação social e envolvimento público nas decisões tendencialmente se fragmentam em meio a representações cambiantes da vida urbana, onde a contemplação passa a ser a maneira pela qual os indivíduos vêem perpetuados os seus desejos e carências: “a produção social da contemplação inclui a emergência de uma ação ampla de planejamento que permita a mobilização, a administração e o direcionamento de massas de recursos, mercadorias e pessoas. Este planejamento, que inclui a contínua absorção de novas tecnologias e instrumentos, permite a interligação entre os equipamentos específicos do setor e o consumo geral de espaços e mercadorias” (RIBEIRO, 1988: 270).

4. PLANEJAMENTO URBANO E TURISMO: CIDADE, COMUNICAÇÃO E CULTURA
Uma das características mais marcantes na execução de programas vinculados ao planejamento estratégico das cidades, no mundo inteiro, tem sido a forte referência, no discurso e na prática, às transformações e mobilizações dos espaços, paisagens e cultura urbanas, como requisito à conquista de confiabilidade por parte dos investidores turísticos. Esse é um traço que, particularmente, nos tem chamado a atenção, pois referenda a espetacularização emblemática dos espaços urbanos, evidenciando uma clara mudança na própria incorporação do espaço no planejamento urbano.
Baseada em vários autores (HARVEY, 1993; PRETECEILLE, 1990; SANTOS, 1988), DANTAS (1997:149 a 152), ao sintetizar o planejamento urbano a partir da década de 90, conclui que, na matriz anterior de planejamento (regulatório), “o espaço era visto como recurso a ser moldado com propósitos sociais” e, na versão atual, “(...) o espaço é entendido como dimensão independente e autônoma, a ser moldada segundo princípios estéticos”. Nesta última concepção, o espaço, reificado, adquire uma posição aparentemente mais importante por conter a capacidade autônoma de gerar resultados em/ por si.
Ao trazer o pensamento estratégico e empresarial para a esfera da administração urbana, consultores “estrategistas” difundem a proposta de que características da paisagem urbana devem ser utilizadas como um dos principais trunfos na competição por recursos e investimentos. Nessa leitura de cidade, comumente evocada e divulgada, as condições “desfavoráveis” da paisagem urbana, como favelas ou áreas degradadas, passam a ser alvo de propostas de “revitalização” meramente estética ou, pior que isso, expostas como “pontos de atração turística” (VAINER, 2000). Esta nova geração de urbanistas, que mais parecem ter saído de escolas de propaganda, lidam com a cidade reinventando, estrategicamente, “produtos-paisagem”, promovidos sob a forma de imagens: “pois é esta a simbiose de imagem e produto que caracteriza a cidade-empresa-cultural perseguida pela terceira geração urbanística” (ARANTES, 2000).
Neste sentido, as intervenções na paisagem urbana e a produção de imagens construídas e/ ou alteradas por processos comunicacionais, se reveste de forte intenção estratégica, mobilizando a cultura em busca de novas sincronicidades entre paisagem e imagem: “estes agentes modernizadores são responsáveis por uma crescente sincronicidade entre paisagem e imagem, ou seja, pela produção especializada de uma imagética que seleciona e difunde ângulos da realidade urbana. Assim, as fragmentações da vida social e da materialidade são re-lidas por novos processos de comunicação que hiperexpõem ou ocultam elementos significativos da paisagem urbana” (RIBEIRO, 1998a; 1998b). A modernização de espaços da cidade imediatamente conduz a uma modernização reciclada das imagens urbanas, com o poder de parecer atualizar a paisagem e conquistas novos valores estratégicos.
A construção de imagens, a partir do contato com a paisagem e o espaço geográficos, é inerente à vivência. Afinal, a vida social e o ambiente condicionam a conformação da experiência humana. Portanto, reconhece-se a importância das representações sobre a paisagem e a vida cultural como constituintes da identidade e como condição imprescindível para a consolidação da cidadania e do bem-estar coletivo. Acreditamos, nesta direção, que a utilização de mecanismos que modificam e interagem como mediadores nesta relação entre ação e representação, pode impedir mobilizações reais e criar oportunidades simuladas e, portanto, transformações aparentes da vida coletiva.
Considerando essas referências, a paisagem passa a ser entendida como uma categoria que pode ser historicamente contextualizada, ou seja “a paisagem é materialidade, formada por objetos materiais e não-materiais” (Santos, 1988: 71). Ou ainda nas palavras deste mesmo autor: “(...) a paisagem é a materialização de um instante da sociedade. Numa comparação ousada, a realidade de homens fixos, parados como numa fotografia, diferentemente do espaço, resultante do casamento da sociedade com a paisagem. O espaço contém o movimento (tempo)”. (ibid:1988: 72).
Neste sentido, de uma perspectiva existencial, a paisagem constitui-se na própria materialização imediata e momentânea da vida social externalizada, como nos disse Virgínia Woolf já em 1938: “embora vejamos o mundo, nós o vemos por diferentes olhos” (WOOLF, 1938: 22 apud McDOWELL, 1994).
A proliferação dessas inovações e crescente facilidade de circulação de imagens têm recolocado, tanto para a geografia cultural como para a antropologia e o turismo cultural, novas clivagens culturais, indicadas pela metáfora proposta pelo antropólogo James Clifford de “culturas itinerantes”. Esta parece ser a maneira mais apropriada de conceituar os novos elos entre o local, o regional e o global, confirmando o fato de que “(...) a análise cultural organiza seus objetos – sociedades, tradições, comunidades, identidades, em termos espaciais” (CLIFFORD, 1992:97 apud McDOWELL, 1994:182).
Para teóricos contemporâneos, assim, a comunicação é ponte indispensável na compreensão da vida urbana: “(...) interpretar a publicidade metropolitana, as suas escolhas comunicativas em nível da multiplicidade das linguagens, dos conteúdos e dos saltos metacomunicativos, talvez seja o objetivo fundamental para se decifrar os sistemas urbanos de orientação que fazem a moda” (CANEVACCI, 1997:184). Apoiando-nos na concepção destes autores (APPADURAI, 1990 apud CANEVACCI, 1997; CANEVACCI, 1997), podemos afirmar que as tecnologias de comunicação e informação, alterando e criando novas mediações entre experiências reais e virtuais, modificam apropriações do espaço. Percebe-se, assim, “que a percepção dos espectadores – e toda metrópole – é um repertório interconexo entre imagens midiatizadas que torna tênue a linha que deveria separar as imagens realistas das ficcionais” (CANEVACCI, 1997:45).
Configuram-se, dessa forma, processos de (dês)ressimbolização que podem produzir bloqueios e obstáculos à afirmação de formas mais avançadas e autônomas de apropriação e condução de oportunidades. Ou seja: “estas paisagens piratas que percorrem o cenário comunicativo urbano focalizam o processo de dessimbolização que caracteriza toda a cultura contemporânea ‘avançada’, produz o colapso dos símbolos e a proliferação paralela dos signos” (CANEVACCI, 1997:45).
É preciso, portanto, (re)ler e desconstruir esses pseudo-simbolismos projetados na paisagem, considerando e respeitando a pluralidade cultural, expressiva de grupos sociais distintos, em busca de condições mais humanas, justas e democráticas de integração social. Daí a importância que precisa ser atribuída às conexões analíticas entre cotidiano, representações da natureza e estudos sobre o significado de paisagens na construção identitária. Nossa reflexão busca, então, estabelecer elos analíticos entre a cena urbana e imagens construídas, em sua capacidade de alterar representações sociais e a disputa de oportunidades a partir dos atuais formatos assumidos pelo planejamento, a gestão local e a ação desenvolvida por empreendedores urbanos.
Acreditamos que as paisagens manipuladas racionalmente em nome de interesses instrumentais estão, tendencial e felizmente, fadadas ao fracasso, pois os processos sociais têm em si a capacidade de criação de novas apropriações efetivas dos lugares, pois em acordo com RIBEIRO (1998b: 14, 15): “(...) a centralidade adquirida, no mundo contemporâneo, pela manipulação instrumentalizada da paisagem urbana contrasta com a força preservada pelos processos sociais profundos, estimuladores da neutralização de tentativas de atualização de marcos urbanos. Aí estão as crescentes rotinas urbanas para indicar a invisibilidade de símbolos e signos. Luzes e cores também produzem a saturação informacional e a indiferença. Afinal, a excessiva ambientação contrasta com o valor mantido pela vida espontânea, pelo simples e pelo próximo”. A modernização, a partir de inovações técnicas inscritas no espaço, é incapaz de gerar permanentemente a adesão social aos projetos dominantes. Como argumento de convencimento social, as intervenções estratégicas na paisagem urbana apresentam limitações, já que o estímulo incessante do novo avisa sobre a fugacidade que atinge, ao final, a tudo e a todos.
Esse tipo de intervenção com objetivos claros de reciclagem espacial e cultural da imagem urbana, evidenciando clara tendência à gentrificação, tem início na década de 60 nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. São inúmeros os exemplos desta tendência, como os do Battery Park em Nova York e o da clássica requalifação do SoHo, em Manhattan. Para ARANTES (2000: 32), nestas intervenções, já havia “um conjunto movido a transgressões sistemáticas da legislação com a mal disfarçada aquiescência da administração local”.
Contemporaneamente, as intervenções buscam, cada vez mais, a reciclagem imagética dos lugares. Desta forma, antes da importância conferida à transformação da paisagem física e cultural das cidades, encontra-se a intenção de gerar imagens recicladas e sinteticamente estimuladoras de oportunidades econômicas. Assim, cidades como Paris, Barcelona, Bilbao, Lisboa, Berlim e Sidney, só para citar algumas, paralelamente à realização de intervenções realizaram megaeventos, propícios à divulgação midiática de novos “produtos paisagísticos”, como exemplifica a instalação do museu Guggenheim em Bilbao.
No caso de Belo Horizonte, a própria cidade surge, curiosamente, de objetivos estratégicos, onde são buscados efeitos da imagem da nova capital, inspirada na racionalidade moderna, na representação de uma nova etapa histórica, econômica, social e cultural para o Estado de Minas Gerais. Ao longo de sua evolução, os administradores locais foram perspicazes na constante reprodução de inovações espaciais com a finalidade de requalificar a imagem urbana da cidade, como na clássica união, na década de 40, entre o então prefeito Juscelino Kubitschek e o arquiteto Oscar Niemeyer, com seus arrojados projetos para o Complexo Arquitetônico e Paisagístico da Pampulha4 e, mais atualmente, e dentro de uma proposta clara de gentrificação estratégica, temos, na década de 70, a criação da Savassi como um novo lócus do consumo e da sofisticação paisagística e cultural.


5. TURISMO, INTERNACIONALIZAÇÃO E CITY MARKETING: FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO SISTEMA TÉCNICO E PRODUÇÃO SOCIAL DAS IMAGENS URBANAS
A internacionalização da imagem de Belo Horizonte e sua promoção tursítica ocorrem mediante o entendimento correspondente na ampliação dos negócios através de “parcerias” econômicas. Neste sentido, e fundamentando-se também estrategicamente em modernizações espaciais, econômicas e culturais, a própria cidade é transformada no principal produto a ser promovido: “(...) a política urbana atual utiliza poderosos aparatos de comunicación tanto a nivel local como en redes internacionales para conseguir sus objetivos de revitalización o, para utilizar um término menos contagiado del discurso hegemónico, de reestruturación económico-espacial. Em este sentido, presentarse como ciudades competitivas en el mercado mundial de localizaciones requiere, también, disponer de una presentación que sea muy atractiva, capaz de transmitir las virtudes del producto ofrecido que, en este caso, es la misma ciudad” (BENACH e SÁNCHEZ, 1999: 42)5.
Neste entendimento, nada mais eficiente, como recurso, do que a cultura, apropriada como um atrativo virtuoso e diferencial num contexto econômico internacional, onde determinantes espaciais são, cada vez mais, homogeneizáveis a partir da assimilação rápida de práticas de modernização espacial. Assim, a referência ao city marketing que fundamenta esta análise, além de representar a promoção da cidade e de seus “produtos” (ASHWORTH,G. e VOOGD, H., 1990; KEARS, G. e PHILO, C., 1993), significa a opção econômica estratégica priorizada pelo planejamento urbano contemporâneo.
Fica patente o forte peso atribuído ao setor cultural para a reconstrução da imagem da cidade, na sua capacidade de gerar novas atividades e investimentos. Trata-se da desejada projeção estratégica de Belo Horizonte em circuitos econômicos transnacionais, nos quais o turismo relaciona-se ao desenvolvimento do setor cultural, como tradução imediata da própria imagem requerida para a cidade.
Essa vinculação da produção cultural à imagem/ representação da cidade pode ser verificada no Primeiro Diagnóstico do Setor Cultural, produzido pela Prefeitura de Belo Horizonte, no qual se indica, como reivindicação para a organização e o incentivo à área cultural, a associação entre artistas, produtores e poder público, expressa na criação de um certificado de qualidade para a produção cultural de Belo Horizonte: “(...) sugere-se à Prefeitura a iniciativa de certificar os artistas que participam do mercado cultural belo-horizontino, como existe hoje em vários setores econômicos com o ISO. Essa iniciativa consistiria numa medida protecionista, com o objetivo de preservar a qualidade da produção cultural em Belo Horizonte e inibir a entrada de oportunistas, contribuindo, assim, para a profissionalização do setor” (BELO HORIZONTE, 1996: 103).

Paralelamente, o fortalecimento da Agência Municipal de Turismo (BELOTUR) e a criação do Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau (BHCVB) visam firmar a importância do turismo pela cidade, legitimado, além disso nas novas propostas do Plano Diretor de Belo Horizonte, aprovadas na Conferência Municipal de Política Urbana (1999):


(...) incentivo ao desenvolvimento do turismo receptivo, tanto no que se refere à implantação de equipamentos turísticos, como à criação de programas que visem o incremento do turismo de negócios, de eventos e de lazer no município”. (BELO HORIZONTE, 1999: 74).
desenvolver o turismo de eventos e negócios” (id ibidem: 74).
Criar e manter sistema de informações e de publicações turísticas, nos moldes e nos parâmetros internacionais”. (id ibidem: 74).
Promover os recursos turísticos de Belo Horizonte nos mercados estadual, nacional e internacional” (id ibidem: 75).
Construção e promoção da imagem de Belo Horizonte como pólo de negócios, comércio e serviço, indústrias de alta tecnologia, distritos industriais não poluentes, centro de excelência em educação e demais aspectos em que já é referência” (id ibidem: 75).
Dessa forma, atributos da vida urbana têm sido relidos e otimizados na construção da imagem pretendida, buscando-se a inscrição de Belo Horizonte no conjunto de grandes centros internacionais com capacidade de atração estratégica de fluxos de pessoas, de novos negócios e investimentos. Com este propósito têm sido produzidas, por estas agências (BELOTUR e BHC&VB, 1999), também estrategicamente, “sínteses imagéticas” acionadas na construção da imagem da cidade. A seguir mostraremos como diversas modalidades de usos culturais se associam em grande proporção ao discurso que fundamenta a imagem urbana de Belo Horizonte e refletiremos criticamente sobre suas contribuições ao turismo cultural da cidade.

5.1 Cidade- Espetáculo: Festivais Internacionais

Com as comemorações do centenário de inauguração de Belo Horizonte, a administração municipal entende que se oportuniza, historicamente, a possibilidade para consolidação da pretensa vocação da cidade como pólo cultural no Brasil. Partindo deste entendimento, a administração municipal organiza a realização de importantes eventos que visam a promoção espetacular da cultura, envolvendo a imagem da própria cidade. São exemplos: FIT (Festival Internacional de Teatro), FID (Festival Internacional de Dança), FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), Encontro Mundial de Artes Cênicas, Mostra Internacional do Cinema Latino Americano, Panorama Mundial do Cinema Independente, Festival Internacional de Curtas-Metragens, Bienal Internacional de Poesia, Encontro de Literatura e Letras dos Países de Língua Portuguesa, dentre outros que, dinamicamente, são incorporados à lógica peródica do circuito. O principal objetivo destes eventos é movimentar a cena urbana através de projetos organizados cronologicamente segundo uma estratégia de oferta constante de produtos culturais – nacionais e internacionais – à população local, possibilitando também que visitantes, artistas e produtores externos conheçam a cidade e seus serviços.



5.2 A Moda na Cidade ou a Cidade da Moda?


Com crescente importância na atividade econômica, a moda, enquanto circuito econômico integrado, já representa importente setor econômico no país. Em Belo Horizonte, a importância atribuída à moda na vida econômica da cidade e o seu tratamento como setor estratégico podem ser observados no próprio Plano Diretor, em seus ajustes atuais: “(...) transformar BH em um pólo nacional de moda por ser uma cena privilegiada com as manifestações mais premiadas da atualidade brasileira”. (BELO HORIZONTE, 1999: 74)


Essas recomendações se materializam no incentivo à criação de um pólo de moda e confecção na região do Barro Preto, bairro localizado na área central no município que, após anos de declínio imobiliário, passou a abrigar um grande número de pequenas fábricas, shoppings e galerias de lojas atacadistas e show rooms. Além disso, a administração pública, através de acordos com o governo italiano, sobretudo com a cidade de Milão, tem procurado qualificar a mão-de-obra local e inserir a cidade no circuito internacional da moda.
5.3 A Música como Imagem: rock’cidade
Belo Horizonte é hoje um dos maiores pólos de produção musical no Brasil e ao longo de sua trajetória urbana estes movimentos apresetaram importantes nomes, como o reconhecido Clube da Esquina, encabeçado por Mílton Nascimento, Flávio Venturini, Beto Guedes e Lô Borges, dentre outros, que, inspirados na produção de rock internacional da década de 60, sobretudo nos Beatles, personalizaram um boom da produção musical local, comparado ao da Bossa Nova e ao da Tropicália. Após o sucesso internacional do Grupo de Heavy Metal Sepultura e a visibilidade no país das bandas Skank, Pato Fu, Jota Quest, Mary’s Band, DIESEL, Omeriah, Tianastácia e Elétrica tem-se diversificado a produção deste gênero na cidade: “BH é uma cidade musical. Alguns bairros são famosos pelos sons que brotam de cada esquina. De Santa Teresa, por exemplo, saíram as músicas do Clube da Esquina,comandado por Milton Nascimento, e o rock pesado do Sepultura. A cidade orgulha-se ainda dos sons, diversificados e harmoniosos, do Uakti, Ars Nova, Skank, Pato Fu e Virna Lisi”(Belo Horizonte, 1997: 13).
Além de deter rica produção musical e ter sido o placo de importantes movimentos musicais, a cidade tem sediado eventos patrocinados pela Secretaria Municipal de Cultura, sob a forma de shows privados, como os anuais BH Pop Rock, Festival de Hip Hop e Festival de Música Eletrônica. A ampliação destes eventos, otimizando espaços públicos e privados da cidade, tem sido pensada em direção à organização futura de de outros estilos e gêneros musicais (Festival de MPB e de Música Caipira), também presentes no diagnóstico cultural da cidade: “(...) aos espaços públicos, existentes e pouco aproveitados para a divulgação musical – Parque das Mangabeiras, Praça da estação – fica o entendimento de que são bons locais para espetáculos”. (id ibidem: 103).
5.4. Eventos Culturais, Moda, Música: análise crítica de sua “utilização” como ícones para o turismo cultural
Com base nessas associações entre produção cultural e imagem urbana, podemos afirmar que se houve ampliação do que conta como experiência e competência “cultural”, abriram-se também oportunidades para a “capitalização” e o “apaziguamento” da cultura popular. A “cultura” se expandiu, não por causa de algum aumento real de oportunidades, mas em função do aumento da diversificação das formas pelas quais a experiência cultural é acessada. Lembrando Fredric Jameson, podemos dizer que a produção musical atual, como expressão midiatizada da cultura nas sociedades pós-modernas, inscreve-se na aceleração dos ciclos do estilo e da moda, no crescente poder da publicidade e da mídia eletrônica e no advento da padronização universal do “pastiche esquizóide da cultura pós moderna [sic]”, perdendo rapidamente a sua capacidade de propiciar a vivência do passado em direção a um futuro melhor (JAMESON, apud CONNOR, 1996: 43).
6. NOVAS PAISAGENS CULTURAIS DA BELO HORIZONTE DO SÉCULO XXI: MODERNIZAÇÕES ESPACIAIS E RACIONALIZAÇÃO DA CULTURA
O planejamento urbano como uma das esferas da vida moderna reflete complexas mutações da vida sócio-cultural e econômica, apesar de parecer criá-las de forma autônoma. Assim, intenções administrativas e intervenções urbanas correspondem a múltiplas e dinâmicas determinações, expressando racionalizações do espaço e da vida social motivadas por uma multiplicidade de interesses, igualmente complexos.
A valorização de mecanismos de comunicação como uma eficiente e atraente possibilidade de gerar adesões sociais a projetos específicos deve ser relativizada pela consideração de que a vida social é mais do que a mera condução de indivíduos à adoção de determinados estilos de vida. Afinal, se a racionalização da vida social é capaz de criar e moldar a realidade para a satisfação dos interesses de determinados segmentos, deve-se reconhecer sempre a possibilidade da resistência, mesmo que esta seja inconsciente.
O que se observa em Belo Horizonte, Brasil, é que a incorporação de um conjunto de racionalidades na relação entre planejamento urbano e produção de imagens urbanas, ao privilegiarem a dimensão cultural, como potencialidade para desenvolvimento e ampliação do turismo, favoreu fortes desencontros entre representações sociais legítimas do espaço da cidade e práticas difusamente “culturais” calcadas no virtualidade e na reificação da política. As imagens urbanas são fruto de uma complexa interação social e cultural do homem com o ambiente, indo além da simples produção reducionista e estratégica de imagens sintéticas, que podem conduzir a um sério afastamento entre habitante e habitat sendo assim produzidas novas exclusões sociais.
Ou seja, a crença de que “tudo é cultura” e, portando, legitimável para o desenvolvimento de novas oportunidades econômicas envolve o fato de que, na verdade, não foi a cultura enquanto possibilidade de enriquecimento da experiência urbana que foi ampliada, mas sim as formas abertas para a sua “capitalização” e validação, nos diferentes ângulos e circuitos do turismo cultural.
Evocando essa reflexão, podemos dizer que o “turismo cultural” se expandiu, não por causa de algum aumento real de oportunidades e/ ou de estímulo à diversidade cultural, mas sim em função de uma expansão e de uma diversificação das formas pelas quais a capitalização da cultura e sua espetacularização se racionalizou por estratégias modernizadoras do espaço.
O turismo cultural como potencialidade historicamente configuranda na rica trajetória de Belo Horizonte deve organizar-se em torno das constantes reinvenções de possibilidades do existir coletivo e das paisagens culturais decorrentes dessa experiência sócio-espacial.
A verdadeira paisagem da cidade, no entanto, não se deixa apreender por estratégias modernizadoras ou por racionalizações da cultura. Ela é própria, imediata, calcada no dia-a-dia e, ainda, expressiva da vida social. É nesta paisagem que acreditamos existirem possibilidades e oportunidades para todos, fundadas na vivência coletiva e expressivas, potencialmente, de múltiplas e dinâmicas escolhas.

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1 Sob direção do engenheiro-chefe Aarão Reis, a Comissão Construtora era organizada em seis seções com cinco engenheiros, um médico higienista, um auxiliar administrativo e um desenhista. O apoio político decisivo foi dado pelo Presidente do Estado à época, Crispim Bias Fortes.

2 Na atualidade, o setor de serviços já representa mais de 80% do PIB municipal (BELOTUR, 2000). A idéia da administração municipal é de fortalecer este setor, diversificando-o e qualificando-o.

3 Em Shadows and Fog “I was in a warm bed, and suddenly I’m part of a plan“. “Eu estava em uma cama quente, e de repente eu sou parte de um plano” (Mintzberg, 1994: 6, tradução nossa), Woody Allen, brilhantemente, ilustra a problemática do sujeito absorvido na idéia de interesse público. Esta mesma problemática foi refletida por Hannah ARENDT (1958) em “As Esferas Pública e Privada” ao confrontar as diferenças no sentido e apropriação, pela sociedade contemporânea, de público x privado e individual x social e refletir o dinâmico processo de individuação no contexto urbano a partir da primeira metade do século XX.

4 Projeto no qual também participaram o pintor Cândido Portinari, o escultor Alfredo Ceschiatti e o paisagista Roberto Burle Marx.

5 Este texto encontra-se em catalão.




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