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Título
O rádio entre o local e o global: fluxo, contrafluxo e identidade cultural na Internet
Autor
Fernando Kuhn – UMESP / São Paulo-Brasil
Resumo
A pesquisa tem o intuito de aferir se o advento da transmissão radiofônica através da Internet exerce alguma influência sobre o sentido dos fluxos internacionais de comunicação, e de acompanhar como se dá a inserção das webrádios na dinâmica que envolve as instâncias global e local. Trata-se especificamente de saber em que medida esta nova configuração do meio pode interferir no estabelecimento de uma realidade comunicacional internacional mais dialógica.

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Amplas são as perspectivas para o rádio ao início do novo milênio. Com a primeira veiculação de conteúdo radiofônico através da Internet em 19951, um veio muito promissor começou a ser explorado por emissoras dos mais variados matizes, atraídas especialmente pela possibilidade de sua programação alcançar qualquer localidade do globo que esteja conectada à rede, e pela viabilidade da incorporação de recursos visuais como texto, fotos e imagens em movimento, apenas com a mediação de três softwares e a um custo relativamente baixo (KUHN,2000)2.
A expansão do sistema conduziu a situações impensáveis até poucos anos atrás, desde o surgimento de estações não convencionais, despojadas de antenas e transmissores, até a criação de mecanismos portáteis compatíveis com a nova tecnologia, culminando com a disponibilização ao ouvinte de mais de cinco mil emissoras3 audíveis no rádio de seu carro (HANSON, 2000)4.
O fenômeno inegavelmente traz implicações ao contexto da radiodifusão internacional, que durante décadas limitou-se à transmissão através de ondas curtas eletromagnéticas. Impulsionado pela Guerra Fria, o sistema conheceu seu auge na década de 70, época em que a maioria das nações mantinha, com recursos públicos, potentes estações voltadas à propaganda político-ideológica, transmitindo para o exterior programas em uma série de idiomas estrangeiros, que iam ao ar em determinados horários do dia e traziam também informações científicas, culturais, turísticas e esportivas, e até um pouco de música (MAYO, 19805; BROWNE, 19826; ROMAIS, 19977; KUHN & LABIGALINI, 19978).
Com o advento das antenas parabólicas no início da década de 90, as grandes emissoras internacionais passaram a enviar sua programação para o satélite e gradualmente começaram a diminuir sua presença nas ondas curtas, que só não foram abandonadas devido ao extremo subdesenvolvimento de algumas regiões do globo.
O satélite passou a possibilitar aos ouvintes em primeiro lugar uma garantia de recepção. Até então, os sinais de rádio propagavam-se aos saltos: eram enviados para a ionosfera, que os refletia para a terra, que os remetia de volta... Como as condições ionosféricas são extremamente variáveis, muitas vezes a programação que se destinava a uma determinada região acabava sendo recebida em outro lugar. Além disso, tratava-se de um sinal muito sujeito a interferências e a oscilações em sua qualidade. O satélite veio solucionar estes problemas: para obter um som limpo e forte, bastava possuir uma antena parabólica acoplada ao rádio ou televisão e ajustá-la para uma posição específica ao canal que se desejava sintonizar.
Porém, com raras exceções9, as emissoras que aderiam ao novo sistema eram basicamente aquelas que já possuíam a ambição de transmitir para grandes distâncias, e portanto já utilizavam-se das ondas curtas. Com isso, o universo das emissoras de alcance internacional manteve-se basicamente como era, ainda limitado pelos altos custos.
Antes até de uma maior exploração de tal tecnologia, entraram em cena os softwares Real Producer, Real Server e Real Player. O primeiro convertia os sinais de rádio em sinais digitais, o segundo os disponibilizava na rede e o terceiro os capturava. Surgia o rádio via Internet, o “webrádio”: um convincente convite à internacionalização de qualquer emissora.

1. Comunicação internacional e comunicação intercultural

Para que se possa melhor avaliar os efeitos do rádio via Internet sobre a comunicação internacional, convém previamente discutir alguns conceitos – em especial no que tange a esta modalidade comunicacional.


Historicamente, há uma inequívoca dimensão política na comunicação radiofônica internacional, que embora já bastante diluída permeia o espectro das ondas curtas até hoje. Com efeito, as descrições de tal universo por MAYO (1980), BROWNE (1982), ROMAIS (1995) e KUHN & LABIGALINI (1997) autorizam que se lhe aplique a definição formulada por DAVISON & GEORGE (1952-3)10 para "comunicação política internacional", entendida como "o uso da comunicação por estados nacionais a fim de influenciar o comportamento politicamente relevante do povo em outros estados nacionais. Incluímos assim atividades de propaganda e de informação da maioria dos órgãos oficiais – especialmente os Departamentos de Estado e de Defesa – e certos aspectos da comunicação diplomática, mas excluímos as atividades das associações de imprensa e órgãos que se interessam principalmente pela educação internacional ou por atividades religiosas missionárias. Por 'comunicação' referimo-nos à transferência de sentido, escrito, falado ou por símbolos pictóricos, ou por vários tipos de ação. A 'comunicação política internacional' é assim um termo sumário que inclui muitas das atividades subentendidas nos termos 'negociação', 'propaganda', 'estado de guerra política' e 'estado de guerra psicológica'".
Há, porém, um outro aspecto relevante. Como assinala MALETZKE (1970)11, "enquanto a comunicação intercultural é um intercâmbio de significação entre culturas, a combinação internacional ocorre entre países ou nações, o que quer dizer que vai além-fronteiras. Isso quer dizer: a comunicação intercultural e a internacional podem, ocasionalmente, ser idênticas, mas nem sempre o são. Muitas vezes, pessoas que pertencem a uma cultura comum são separadas por uma fronteira estatal, resultando daí que uma comunicação internacional está sendo realizada dentro de uma única cultura. E, caso contrário, pessoas de culturas muito diferentes podem estar reunidas no mesmo estado, de modo que pode ocorrer a comunicação intercultural dentro desse único estado. É assim que se verifica a tendência de se usar a palavra internacional, quando se fala de comunicação ao nível puramente político, enquanto o conceito de comunicação intercultural corresponde mais a realidades sociológicas e antropológicas".
O desvanecimento das tensões ideológicas após a queda do Muro de Berlim e o advento da globalização econômica e midiática, a qual ensejou a intensificação do fluxo internacional de programação televisiva e a constituição de grandes conglomerados internacionais de mídia (FADUL,1998)12, acabaram retirando da radiodifusão internacional boa parte de sua urgência e, portanto, de seus investimentos, período que coincidiu com a adoção dos satélites e culminou com a supressão de vários serviços em línguas estrangeiras por parte das emissoras internacionais de ondas curtas13.
Embora tenha-se mostrado um argumento insuficiente para garantir ao setor o mesmo volume de investimentos registrado à época da Guerra Fria por conta das disputas ideológicas de então, é justamente este componente cultural que viabiliza o resgate da radiofonia internacional, agora num plano distinto e com custos muito inferiores.
A Internet assegura ao rádio condições de manter seus atrativos peculiares e a eles acrescentar recursos de apoio através do site. Tratam-se de instrumentos que tendem a enriquecer em muito o diálogo entre culturas. A audição de uma canção folclórica de um remoto país estrangeiro pode vir acompanhada de fotos da indumentária utilizada para a dança daquele ritmo, por exemplo. Em fevereiro de 2000, a foto de um alaúde recepcionava o visitante do site da rádio Cairo, enquanto a rádio Casablanca oferecia aos internautas a possibilidade de enviar cartões eletrônicos com paisagens marroquinas14.
Em seis anos, o número de webrádios catalogadas por empresas que monitoram o novo segmento saltou de 56 para 513515. A grande expansão suscitou uma intensa discussão nos Estados Unidos sobre publicidade nas webrádios (desde as vantagens e oportunidades até o formato ideal para os anúncios)16, e o impacto da nova tecnologia sobre o rádio convencional foi comparado à avalanche das rádios FM sobre as AM nos anos 70. Na esteira deste sucesso surgiram mecanismos de aferição de audiência das webrádios, como o Arbitron17 e o MeasureCast18.
Mas nem tudo é otimismo. A aprovação do Digital Millenium Copyright Act em 1998 nos Estados Unidos acabou por estabelecer severas limitações para as webrádios19. De acordo com a lei, para a veiculação de música através da Internet torna-se necessária uma licença especial, negociada caso a caso com a indústria fonográfica num processo que pode durar anos. Há a alternativa de uma licença simplificada, que entre outras determinações20 proíbe que sejam executadas mais de três obras de um mesmo artista no intervalo de quatro horas e que sejam anunciadas as canções que tocarão a seguir.
Efetivamente, o ano de 2001 não foi bom para o setor. A redução da atividade econômica dos Estados Unidos acarretando o fechamento de várias empresas ligadas à tecnologia (rádios virtuais21, inclusive), combinada a uma crise envolvendo anunciantes e agências de propaganda22, contiveram um pouco a euforia inicial. Isso sem falar nos atentados de 11 de setembro de 2001, que afetaram a economia como um todo23.
A despeito de tais problemas, porém, os boletins da MeasureCast informam que a audiência não parou de crescer: a empresa registra que o número de webouvintes praticamente triplicou de janeiro a outubro de 200124, e experimentou aumentos consecutivos nas quatro últimas semanas.
A rigor, as questões legais parecem o último empecilho para o pleno êxito do novo meio. A questão publicitária tende a se resolver, mediante negociações ou através da sumária substituição dos próximos anúncios. Por outro lado, há gestões em curso no sentido de atenuar os termos do DMCA – que, ademais, vigora apenas nos Estados Unidos25.
2. Os fluxos da comunicação globalizada
Apesar de ser utilizada por menos de 5% da população mundial (e da eletricidade não chegar às casas de cerca de dois bilhões de pessoas espalhadas pelo planeta26), o potencial de crescimento da Internet parece inquestionável: por motivos estratégicos, sua expansão vem sendo estimulada inclusive em países pouco desenvolvidos economicamente (FARAH, 2000)27. De acordo com LAUNET (2000)28, estudos recentes do United States Internet Council – USIC29 mostram que o próprio predomínio do idioma inglês na rede, flagrado em pesquisas citadas por EVAGORA (1998)30 e KUHN (2000), vem recuando, e gradualmente a Internet se torna “multicultural, multilíngüe e multipolar”.

O crescimento da Internet fora dos Estados Unidos atualiza a discussão sobre os fluxos midiáticos identificados por NORDENSTRENG & VARIS (1974)31, a sincronização cultural da qual ocupou-se HAMELINK (1983)32, o contra-fluxo da informação percebido por STRAUBHAAR (1983)33 e BOYD-BARRETT & THUSSU (1992)34, a tensão dinâmica entre global e local apontada por SREBERNY-MOHAMMADI (1996)35 e a glocalização de que fala ROBERTSON (1995)36.


Se HAMELINK (1993) já chamava a atenção para o uso de meios (à época) modernos pelas culturas ameaçadas37, constata HALL (1992) que “as evidências sugerem que a globalização está tendo efeitos em toda parte, incluindo o Ocidente, e a ‘periferia’ também está vivendo seu efeito pluralizador, embora num ritmo mais lento e desigual”38. Na análise de CASTELLS (1997), “juntamente com a revolução tecnológica, a transformação do capitalismo e a derrocada do estatismo, vivenciamos no último quarto de século o avanço de expressões poderosas de identidade coletiva que desafiam a globalização e o cosmopolitismo em função da singularidade cultural e do controle das pessoas sobre suas próprias vidas e ambientes. Essas expressões encerram acepções múltiplas, são altamente diversificadas e seguem os contornos pertinentes a cada cultura, bem como às fontes históricas da formação de cada identidade. Incorporam movimentos de tendência ativa voltados à transformação das relações humanas em seu nível mais básico, como, por exemplo, o feminismo e o ambientalismo. Mas incluem também ampla gama de movimentos reativos que cavam suas trincheiras de resistência em defesa de Deus, da nação, da etnia, da família, da região, enfim, das categorias fundamentais da existência humana milenar ora ameaçada pelo ataque combinado e contraditório das forças tecnoeconômicas e movimentos sociais transformacionais. Apanhada pelo turbilhão dessas tendências opostas, a existência do Estado-Nação é questionada, arrastando para o epicentro da crise a própria noção de democracia política, postulado para a construção histórica de um Estado-Nação soberano e representativo. Com certa freqüência, a nova e poderosa mídia tecnológica, tal como as redes mundiais de telecomunicação interativa, é utilizada pelos contendores, ampliando e acirrando o conflito em casos em que, por exemplo, a Internet se torna um instrumento de ambientalistas internacionais, zapatistas mexicanos ou, ainda, milícias norte-americanas, respondendo na mesma moeda às investidas da globalização computadorizada dos mercados financeiros e de processamento de dados”39.
3. A inclusão digital e a informação de proximidade
Para LEE (1996)40, no entanto, a idéia de que a Internet se configure em instrumento capaz de equilibrar o fluxo da comunicação globalizada encontra dois grandes obstáculos: a posse dos meios – lembra que os EUA detinham 64% dos "computadores anfitriões" (controladores de rede), e que os principais softwares utilizados na rede foram desenvolvidos no país – e o emprego do inglês como língua prioritária para a troca de informações. No seu entender, embora os países em desenvolvimento também devam se preocupar em ampliar o acesso de suas populações à Internet, é prioritário que eles ofereçam globalmente conteúdos que contenham os seus pontos de vista.
O exemplo dos “telecentros”41 responde em parte às preocupações de LEE (1996). Tratam-se de centros de acesso comunitário à Internet, que oferecem orientação sobre o uso da rede, criação e manutenção de websites, e que podem ser encontrados em vários países da América Latina. Efetivamente, as iniciativas de ampliação de acesso multiplicam-se através do mundo. Na Malásia, instrutores chegam a alguns povoados mais pobres num ônibus com 20 computadores pessoais (a “unidade de Internet móvel”), passam um dia inteiro ensinando crianças a usar a Internet, deixam ali um computador para uso local e retornam a cada duas semanas para outros ensinamentos42; em Gana, uma parceria entre empresários locais e a firma norte-americana BusyInternet projeta a criação de um centro de desenvolvimento de alta tecnologia, com estações de trabalho com acesso barato à Internet, salas de ensino e treinamento, escritórios e cibercafé43; na Tailândia, um programa tenta transformar meninas prostitutas em internautas44; na Austrália, comunidades indígenas preservam conhecimentos sagrados dentro de formatos digitais45; e no Brasil, onde também começam a surgir telecentros, o governo providencia a produção de computadores populares para a integração das escolas públicas à Internet46.
A veiculação de conteúdos locais tende a ser uma decorrência natural do conhecimento das técnicas da Internet. Antonia Stone, fundadora da Community Technology Center Network (Rede de Centros Tecnológicos Comunitários)47, criada em 1989 e que reúne cerca de 500 CTCs nos Estados Unidos, afirma que "infelizmente parece haver um impressão entre algumas pessoas de que conectar-se à Internet significa desistir de parte de sua cultura. Na realidade, pode-se usar a rede com criatividade para preservar e estender a comunidade e a cultura. É portanto vital para os centros comunitários focalizar o conteúdo neles produzido e proporcionar ferramentas e interfaces acessíveis para gerenciamento e acesso de conteúdo local relevante em línguas locais"48.
Uma demonstração de como tal situação pode realmente se concretizar é o trabalho realizado pela organização não-governamental Sampa.org no bairro Capão Redondo, um dos mais violentos de São Paulo. Ali foram criados 20 cibercafés com acesso e cursos gratuitos, que acabaram dando origem a inúmeras home pages criadas pelos próprios usuários para divulgar os serviços que realizam. Mais do que isso: a iniciativa fez surgir a Capão Online, uma agência de notícias dedicada a assuntos locais49.
O site da agência informa que ela tem por objetivo alterar a idéia que o público externo faz da região, influenciado pelas informações divulgadas na mídia convencional. “Estou achando essa idéia da agência ótima, pois é a oportunidade de mostrar para o mundo que o Capão não é só violência e que há muita gente boa aqui”, declara ao site a moradora Edmê Peixoto50.
Embora situadas em uma outra escala, tais palavras corroboram a avaliação de FISHER (1979) com relação aos efeitos do fluxo internacional de informações: “As más notícias de desastres ou ações incompetentes que atraem a atenção dos todo-poderosos canais de noticiário internacional chegam fora de perspectiva, especialmente quando o leitor ou telespectador tem poucos outros meios para formar impressões sobre o país de Terceiro Mundo em questão. A frustração é maior porque as boas notícias do Terceiro Mundo não vendem no Primeiro Mundo. Além disso, sente-se que a maioria dos repórteres ocidentais é culturalmente insensível, ignorante, ou ambos...“51.
Nos dois casos, verifica-se em localidades periféricas uma desaprovação para com a visão irradiada a partir do centro – uma visão que FISCHER (1979) compreende e até justifica à luz dos imperativos jornalísticos, mas que, reconhece, leva a uma crescente contestação52.
É um cenário em que cresce a relevância do que GARCÍA (2000)53 denomina "informação de proximidade". Observando que "a singularidade cultural tem desafiado os intentos de estandardização que alguns buscam impor a partir da costura entre o tecnológico e o econômico", e que "cada vez há mais atores recorrendo aos novos e poderosos meios para colocar em rede manifestações de multiculturalismo e da diversidade que enriquece a sociedade do século XX", antevê que na sociedade do terceiro milênio as relações primárias dos cidadãos permanecerão no âmbito das pessoas próximas, aquelas que compartilham um mesmo idioma e uma mesma realidade e identidade local. A importância da informação de proximidade aumenta a partir da defesa de tal identidade, que CASTELLS (1997) define como "a fonte de significado e experiência de um povo"54 e que, explica COLLIER (1997), emerge quando mensagens são trocadas entre pessoas55.
A quem poderia interessar esta informação de proximidade senão à própria comunidade envolvida, especialmente se disponível apenas em idiomas de menor expressão internacional? Como oferecer ao mundo uma versão própria dos acontecimentos, como sugere LEE (1996), sem fazer uso das línguas dominantes?
4. Migração e interesse pela alteridade
A solução do dilema, ou pelo menos sua transferência para uma ulterior instância em que se dê a mediação interidiomática envolve dois fatores fundamentais. O primeiro deles é o crescimento das migrações externas, numa escala sem precedentes. De acordo com HARA (1985)56, "entre o fim dos anos 80 e 1994, o número de refugiados dobrou, atingindo 20 milhões, aos quais é preciso acrescentar 25 milhões de pessoas deslocadas no interior do seu próprio país, fugindo das violências generalizadas, dos conflitos ou dos atentados aos direitos humanos"57. Já em 1982, 17% dos habitantes de Paris não eram franceses58. Em 1990, a Austrália contabilizava 20,8% de estrangeiros, enquanto na Suíça a proporção atingia 15,5%59. Os Estados Unidos registraram em 2000 o número recorde de 28,4 milhões de imigrantes, que equivale a 10,4% da população do país e representa um crescimento de 43% desde 199060.
“Esta formação de ‘enclaves’ étnicos minoritários no interior dos Estados-Nação do Ocidente levou a uma ‘pluralização’ de culturas nacionais e de identidades nacionais”, afirma HALL (1992)61. Pode-se por exemplo indagar o que são cultura e identidade locais num estado como a Califórnia, onde mais de um quarto da população é formada por imigrantes62, e onde são faladas em torno de 120 línguas63.
Entende HALL (1992), que a globalização tem o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e "fechadas" de uma cultura nacional, um efeito pluralizante sobre as identidades, engendrando possibilidades diversas e também novas posições de identificação, e tornando as identidades mais posicionais, políticas, plurais e diversas: menos fixas, unificadas ou trans-históricas. "Entretanto, seu efeito geral permanece contraditório. Algumas identidades gravitam ao redor daquilo que Robins chama de 'tradição', tentando recuperar sua pureza anterior e recobrir as unidades e certezas que são sentidas como tendo sido perdidas. Outras aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da história, da política, da representação e da diferença e, assim, é improvável que elas sejam outra vez unitárias ou 'puras'; e essas, conseqüentemente, gravitam ao redor daquilo que Robins (seguindo Homi Bhabha) chama de 'tradução'"64.
Uma outra dimensão do aspecto migratório pode ser inferida do relato de MITRA (1997)65 sobre os imigrantes que exercem atividades similares entre si mas não compartilham dos mesmos espaços geográficos, caso de muitos profissionais asiáticos vivendo nos Estados Unidos. Ele avalia que a Internet (ao lado de publicações e canais de televisão étnicos) pode substituir a proximidade física como elemento aglutinador destas pessoas66 a ponto de gerar comunidades “virtuais”67.
O segundo fator envolvido na resposta ao dilema de LEE (1996) diz respeito ao que HALL (1992) diagnostica como um fascínio pela diferença e pela mercantilização da etnia e da "alteridade", uma tendência que corre paralela à homogeneização global. "A globalização (na forma da especialização flexível e da estratégia de criação de ‘nichos’ de mercado), na verdade, explora a diferenciação local"68, explica.
Assim, nas culturas globalizadas também há lugar para o exótico. Pessoas que não têm como viajar até outros países podem experimentá-los à distância, freqüentando restaurantes típicos, lendo sobre eles, assistindo a vídeos, ouvindo músicas... Não necessitam ler jornais ou escutar noticiários de tais lugares, conhecer a língua para adquirir uma idéia melhor sobre o país (embora haja instrumentos para isso também), a curiosidade pode ser saciada através do simples entretenimento – e lembra HAMELINK (1983), citando NORDENSTRENG & VARIS (1974), que os programas de entretenimento predominam no tráfego unilateral de programas televisivos no mundo, levando a uma disseminação global dos valores culturais que impregnam as séries e telenovelas produzidas nas nações metropolitanas69.
Sob esse aspecto, o rádio via Internet oferece amplas possibilidades de contemplar o interesse de imigrantes, turistas e curiosos. Existem webrádios de todos os tipos. É possível deparar-se com emissoras de municípios do interior cuja transmissão convencional não atinge a capital; captar notícias da cidade onde permanece uma parte da família, mesmo que ela esteja situada do outro lado do mundo; familiarizar-se previamente com os sotaques do lugar para onde já se tem marcada uma viagem; acompanhar o cotidiano de um país mesmo sem conhecer seu idioma, através das transmissões em múltiplas línguas que as emissoras internacionais estão transferindo das ondas curtas para a Internet; ouvir músicas, muitas músicas, dos mais variados lugares, do Alasca70 às ilhas Maurício71, da Tailândia72 à Guatemala73. Sem falar na quantidade de recursos que podem ser incorporados aos sites.
Um bom exemplo de tal valorização do exótico pode ser encontrado nas dicas sobre webrádios preparadas por MAGNE, WALLCUT & JONES (2000)74, onde figuram emissoras especializadas em música brasileira, africana, vietnamita, indígena norte-americana, havaiana, mexicana, grega, entre outras. Também McNATT (2000)75 e VALETTA (2001)76 demonstram entusiasmo diante da possibilidade do contato com diferentes culturas através das webrádios.
Se na maioria das cidades do mundo a quantidade de aficcionados por determinados gêneros musicais é tão pequena que não garantiria a sobrevivência de uma rádio que a eles se voltasse, na escala planetária isso se torna bem menos utópico. O princípio, válido para o rádio por assinatura, aplica-se também ao rádio via Internet. COMPAINE & SMITH (2001)77 atestam que o último representa um significativo incremento na diversidade dos gêneros musicais que são oferecidos ao ouvinte do rádio convencional.
Dificilmente um apreciador de tangos encontraria no Brasil alguma estação de rádio que dedicasse ao gênero um espaço regular. Pois a Internet oferece-lhe a chance de sintonizar emissoras como a La 2x4, de Buenos Aires78, ou a FM Gardel 91.1, de Montevideo79. A variedade ampliar-se-ia ainda mais se fossem levadas em conta as rádios virtuais80.
Outra questão pertinente à inserção das webrádios na dinâmica dos fluxos diz respeito a emissoras cuja programação está voltada para comunidades de imigrantes e é apresentada nos idiomas destes. Entre outras, é o caso da CIRV, de Toronto, e da KIGS81, de Hanford (Califórnia), que transmitem em português de Portugal82; a KBLA, de Los Angeles, que tem emissões em coreano83; a WRLZ Radio Luz, de Orlando, em espanhol84; e a WPSO, de Miami, em grego85. Tratam-se de rádios instaladas na América do Norte que promovem culturas estrangeiras e podem ser escutadas no mundo inteiro. Que papel estariam desempenhando nas relações entre global e local, fluxos e contra-fluxos? Possivelmente todos, mas de qualquer forma a indagação demonstra a complexidade do tema, e talvez só possa ser enfrentada a partir de uma cuidadosa análise da programação, caso a caso.

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