Poemas antigos 1967-19681 Luciano Zadsznajder



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POEMAS ANTIGOS


1967-19681

Luciano Zadsznajder


Texto estabelecido por Miro Figueiredo

e por Luiza Lobo



Rio de Janeiro

litcultnet Editora

2013

SUMÁRIO




PARTE I

1 animais interiores

2 À espera de um noivo

3 Duas frutas

4 Um coração adormecido

5

6 Ressurreição



7 nossa alcova nas ribanceiras (1)

8 nossa alcova nas ribanceiras (2)

9 Onze anos de sangue

10 fome das gentes comuns

11 - 19 março

12

13



14

15

16



17 – 18 de dezembro

18

19 – 22 de fevereiro – Lições de fim de ano



20

21 – 23 dezembro

22 – 13 janeiro [1967?] – Crônicas

23 – 15 janeiro [1968?] (1)

24 – 15 janeiro [1968?] (2)

25 – 15 janeiro [1968?] (3)

26 – 22 janeiro

PARTE II

27 – Síndrome do abandono

28 – Nós, os fominhas

29 – Geológica

30 – lágrimas que somos

31

32

33



34 – De como quero os Queirós

35

36 – Pai herói



37 – Obscuro despertar

38 – Registro civil

39 – Gente de rua

40 – Analgésico



PARTE I


POEMAS ANTIGOS


1967-1968

Luciano Zadsznajder


1
animais interiores2


a minha mão esquerda é uma aranha perfeita

temida pela candura de minha mão direita


fisgo meu modo na beira da sombra

o modo do peixe luta nas ondas

meu centro conquisto quando fisgo sem isca

2
À espera de um noivo


perto das estrelas um louco soluço

perto de constelações mortas um soluço

e sei que não estou na solidão sem ecos
universo, universo

tenho e sou um escudo de tremores

com fios de cadentes dores

este céu de pães amanhecidos

teme concorrentes leais e argutos

colunas que sustentam meus soluços

sobre regiões da escuridão
somos mortos da alegria

tendo assim tumbas de flores

pétalas pela manhã e orvalhos leitosos

à noite ao meio-dia na morte tardia

beijam-se lábios de segredo e olhos secos

compreende-se como


Tenho Estados tenho armado meus exércitos

meus barões arrotam em seus castelos

meus vilões banham-se em meus prantos

sou a dama das melhores horas


ajo por pendores

natimortos armam os braços de meus varões

tenham por lanças tramas apenas

cordoarias vãs e tecidos em trapo

Rainha de vegetais sem viço

teço à tarde meus sabores

meus braços são mudos meu regaço

teme as pedras e vidros coloridos

3
Duas frutas3
esta fruta em meus dedos maçã de pedra

de perdas sei como dirigir

meu espaço de cheiros meu jarro sem fundo

fruta de um só cheiro meus dedos de pedra

dormem na mão de criança
pelo fel envolve a casca nêspera,

fruta de penhascos no céu da boca

os anjos esperam na doçura e na semente

o caroço presente – o filete da origem

esta fruta de caroço – nêspera que engasgo

e vejo a eternidade sufocado

4
Um coração adormecido
rosas são medalhas de vinho

borras de velhos vinhos

altos mares adivinho assombros

nos caules das rosas – mastros

de meu coração adormecido
roses are medals of wine

drags of old wines

high seas I divine wonders

in the stalks of rose – masts

of my sleeping heart

5
dois ou três brancos fios entre seus cabelos castanhos

por que zelos tamanhos por sonhos tão bravios
me dê de novo a mão e descanse no meu ombro

seus olhos de assombro seu livre coração


folia tão intensa tão únicos ardores

assim são seus amores assim sua presença


ali na quinta avenida bem sério lhe li Bandeira

mas como pensei besteira quando foi da despedida

6
Ressurreição
trago do show-business

sermões da montanha

anedotas étnicas e obscenas

poeta e palhaço eu renasço

renasço na cidade do rio

renasço para monstros familiares


aos seus olhos eu renasço

que veio com a frota de seu marinheiro

a cobrir esta baía tão rasa

viagens astrolábios

a eternidade humana

de detritos camadas de homens mortos

este envelhecido horizonte

cansa


este planeta envelhecido

não tem senso


seu marinheiro parte

afogado em tesouros em oceanos

fica comigo você e o meu nome
dou-lhe a mão

você acena ao marinheiro

saímos de casa bem tarde

lembrando vidas anteriores


gerações começamos a criar

um feto único adormecido

é risonha esta carne

geramos isaac josé david

geramos faraós e nossos inimigos

legiões romanas legiões americanas

então eu adormeço em seus braços

você recolhe seu sentir

nestes meus braços
7
nossa alcova nas ribanceiras (1)
cai em mãos de areia

um muro em escombros

parto da vida com o peito ao vento
descansam no ar na solidão

em minhas mãos seus cabelos

que lavo com cerveja

na pia batismal


ó meu amor tão rapace

parto da vida com o peito aberto

meu coração minha vísceras

perdem-se nas fressuras de molhos

e somos um quente prato de saudade
subo a costa marítima

catando nos sambaquis de Niterói

ouço o seu amor nas ondas

na terra sem gente ouço a perdição

corto morros com ligeireza

e você desconta suas emoções

sem esperar pelo futuro

pelos juros pela pureza de meus juros


no altar meu amor

seria pouco comercial e magro

uma arroba a menos

perdida na fome e na corrida

agora sou tão magro

que posso viajar com sossego

no céu de sua boca
meu amor me sorria

com o meio de seu olho

vamos de alfarrábios

à mansão de sua mãe

quimeras nos doces de coco nos vinhos de França
sofás trazidos do Oriente ou da Bahia

um discurso lixado em curvas de caminho

estrias de ciúme

um riso agudo me desbota

que esqueço o que não sei

e meu pouco siso desfalece


deixamos a mesa sem esperar

licores sobremesas

e a mãe cativa arcanjos

e verte seus olhos purpurinos

em assuntos e vultos

8
nossa alcova nas ribanceiras (2)


amor

a catedral é de ossos

desconcerta

mas meu peito encerra

um coração já amansado

amo já amo

descobertas de verão
na encosta de Santa Tereza

entrevejo um choque de carros

o carro-chefe de meu peito

dorme na ribanceira

descansa de seu passado

enorme
que minha vida

fosse mais longa

que minha memória

mas temo que não.

9
Onze anos de sangue4


Minha namorada onze anos de sangue

cobrem o quarto onze anos de terror

vestem os seus olhos e no perfil de pedra

onde pousar a nossa sombra e movimento

sucumbe a minha vida de viúvo
exulte amor, eu envelheço

nos jardins da retaguarda enterro meu viço

Não consigo amar senão vegetais

que entes de movimento próprio me aterrorizaram.

Exulte amor vou mandar-me para a sua pirâmide
Amado corpo gélido de onze anos

este fumo de meus olhos entorno pelo espaço

na parede insetos egípcios recordam

o tempo de carnificinas e o andar do faraó


ancestrais ouviram o vento do deserto

que marca o meu rosto de bexigas mapas

de caravanas e traficantes de ouro armas brancas

ancestrais eu vejo no espelho pela manhã

antes de embarcar para a pirâmide
Pelos lençóis roxos mortalhas de linho

toco o seu corpo os braços mesopotâmicos

uma carícia no seu ventre e minha mão

rija nos seus seios o véu destroça

e desfio meu rosto ante seu rosto

10
fome das gentes comuns


entorna

na esquina das capitanias

uma garganta de avidez

círculos de mazelas tortas


gentes de obras civis

casas de alvenaria, cemitérios

ministérios de pompa constróem

e na horas do meio-dia almoçam

migalhas

emigrantes grãos de feijão


a marmita tem gosto de eternidade

fere de morte os seus lábios

coça garfos e sangrentos talheres
são tão fotográficos
meu olho

não é fotográfico

vesgo de fome

inventa detalhes cheiros

vai inventa como se come

da beirada ao centro

como se morde
como as gentes comuns

a fome


morde margem ao centro

meu dente é meu olho

11
19 março
Somos

como douradas pedras

dispostas esparsas

quebram-se cristais

um chão de martírios

somos


pedras de sal, esparramadas

para a dor de outras pedras

pontos de granito e brilhos

círculos de seixos

rolados seixos, macios

convivência com águas, cachoeiras

outras pedras outrora ígneas

dias de blocos regulares

edifícios e templos

lugares sagrados

pedras que são marcos

cortadas por coriscos

ventos que sorvem

pedras que são cheias

incontáveis seixos, músculos

para um olhar que petrifica

Somos

olhos endurecidos



corações imóveis

um círculo de tumbas ampliando

pedras de sepultura

Lágrimas somos


dos olhos secos

partem rios

fontes nascem entre pedras
Somos

corações que batem sem descanso

seixos agitados na mão

batidas cardíacas

batidas

chãos batidos



12
assalto com os olhos

assalto seus cabelos

fortaleza de desejos fortaleza de sorrisos

assalto com meus dentes

um lábio me diz onde nasci

assalto seus abraços

seus passos como monge

seus méritos de navegante

assalto guarda-roupas e trapos e turbantes

lançados pela rua

onde o oriente, onde a calmaria

sob o sopro voejam insetos

pó de lábios e árvores definhantes

o corpo de meu irmão

voeja entre postes iluminados a petróleo

seus braços balançam sem fazer sombra

estrelas de uma hora da manhã

guiam seus olhos além das fronteiras

de uma cidade que jamais as luzes apaga
o meu irmão diz adeus

a milhares de postes

um circuito de trevas sem semitons

que vivem de sua boca e hálito

13
Como ter um irmão cadáver

entre os cadáveres da mãe e do pai

a relva emudece de orvalho

os passos que damos entre os corpos

não há sangue nem rostos endurecidos

pássaros que aprendem a voar

dão saltitos sem coragem e piam

meu pai não fechou seus olhos

e mesmo morto tem um olhar sonolento

minha mãe tem uma expressão histérica

que a morte levou para as trevas seu calor

meu irmão é duplo

tem duas cabeças e nem soube recostar-se

para morrer com honra

vou deixá-los sem sepultura

que não há perigo de abutres

e dos vermes que tenho em viveiro

eu cuido


ó mãe

ouve a oração de um morto-vivo

as minhas mãos apodrecem quando tocadas

de seu útero provenho

e sou de peçonha e pus e sou dos vermes

mãe de intenções nebulosas

pai de mãos que mal lambidas

gemem que nem cães em carne viva

toco sua mão de macho aniquilado

enterro em sua carne

dentes outrora madrepérolas

outrora de metais entresourados


você é uma coisa de perna

que lambo suado e sem fôlego

coisa de seios agressivos e luzentes

coisa de calores herdados

você não fala

nem ouve


apenas dorme sua beleza

sem voz sem palavras agudas

você dorme

seu corpo de gozos inteiriços

dorme seus olhos e sua voz

nunca ouço nem jamais ouvi

você dorme

olho seu corpo que devoro

suas pernas que chamuscam sóis

e luzes da lua e olhos e a nudez

eu quero lhe falar

mas encontro apenas seu corpo

que devoro

devoro seus braços, suas mãos eu como

em posições da invenção

lamento com olhos encardidos

conversas que nem se iniciam

seu corpo sem palavras devoro


coisa de ser possuída

de dono de domador de cercado

sem qualquer voz que possa ser ouvida

a dor que sente

não se ouve nem se tem
Dói ter uma coisa

ao meu lado –

uma coisa de olhos bem ativos

uma voz que é de planetas opacos

não tenho outros sentimentos

que de propriedade

ter um curral de uma vaca de raça

seus belos olhos

sem nenhum ar terrível

sem qualquer movimento além da terra

e do cercado e do estrume

sem qualquer


uma forma existe

de chegar e ter –

como edifícios de mármore

como jóias e brilhantes solitários

propriedade de papal passado

mas de donos anteriores

que nem deixam qualquer mácula

como em íntegros brilhantes


este automóvel eu possuo

tem quatro portas e acende

automaticamente meu desejo

de velocidade

este toca-disco japonês

eu possuo –

sou seu primeiro dono

de você sou o segundo dono

Não devia me apegar à propriedade
este par de almofadas

possuo


e possuo garfos e talheres

ternos e camisas e pares de sapatos

e possuo um gramado e

possuo livros


seu corpo é minha propriedade provisória

corpo de passagem que freqüento

sem dizer qualquer palavra
minha colorida vaquinha

como você é bela

adoro seus seios suas pernas

adoro seus calores internos

vaquinha de jogos sonoros

sem ares sombrios

sua carne é pujante, seu pelo liso
oh, quantos querem possuir

esta vaquinha

que vive hoje em um cercado

e carrega seu badalo

além dos trovões do cotidiano

adoro seu leite que não esgota

seus lábios tão de carne, tão de sabor
posse provisória

minha perfeita reprodutora

primeiro prêmio de exposições

nacionais.

14
os cavalos são alados e seu desprezo

tem para os rostos que encaram

um olhar de bichos sem destino
onde vai encontrar seu amor

assim entre touceiras de grama

entre arrozais secos e sem reflexo

este morador de arrozais secos

não tem onde ir até a próxima década

onde andar sem paradeiro


morador de anzóis secos

onde os rios deságuam sem ardor

morador de arrozais sua fome

é ouvida nas cidades


um caminho entre arrozais

por onde navegam os moradores

os seus filhos cobertos de feridas

de chicotadas e pedras e espinhos


Avó de pedreiras e touceiras

o seu leito mede os temores

de milhas navegadas e coração em sangue

o sol entre seus olhos sem piscar

onde se deita um ardor e

seu corpo míngua a cada erro

sem fim na direção do pó

sem fim na direção da lágrima

avó, que navega em olhos secos

sou morador de arrozais em abandono

um passo em alagados

afundando sem tocar raízes

15
I
três jovens de cor roxa

três jovens sem sinais distintos

caminham pelas minhas costas

correm em busca da entrada

como entrar em meu corpo

olhos cerrados por escombros

um templo que desabou em agosto

ao avistar um cometa morto

os narizes que desmaiam de dor

e fecham seu amor ao mundo

a boca calou-se ao encher-se de terra

um barro branco de louças em pedaços

e os outros furos sem ouvir

sem nada receber ou entregar


II
três jovens de cor amarela

entram pela minha boca que suspira

e vivem no coração em sobressaltos

rostos amarelos rezam sem parar

ajoelhados em meu sangue

sem saber navegar, sem mapas de viagem

querem voltar aos meus lábios

mas não tenho a palavra justa

para trazê-los ao pós da cidade

III
jovens de púrpura nem sabendo

se sua cor ou a roupagem

ou a plumagem de corpos alados

voejam sobre a minha cabeça

cantando um hino

o verão enrosca na pele e nos olhos

praias como tatuagens

e a ponta dos pés

16
Mastros que decaem e sorrindo

em ondas de passado que descansa

que descansa e movimenta

sem movimento e sem amparo

Mastros de nervos circulares

que arrastam suas vozes como lastro

entornam seus produtos de rancor

que desacusa e desvela rotas mortas
rancor de movimentos

tomando seu rumo antecipado

e corsários tratam de amparo

17
18 de dezembro


um ato de perder medidas

um ato de salvar amigos

do fogo das frias noites da amizade

um ato tão antigo


ouço como atos não sorriem

não tenho mais melodias

como ouvir as roupas ao vento

com bambus assassinos

sem samurais irônicos
não tenho melodias maiores que a voz

um tom de agrados e abraços

um tom eu tenho que repito

que respeito em seus lábios

e toco meus cordões umbilicais

um tom de cegos cantadores

não tenho melodias descansadas
não tenho menopausas

pausas de um cantor sincopado

sonho, a minha voz em corpo inteiro,

que danço e atravesso os carnavais


um som que não se ouve

que não se quer

18
esta casa abriga um morto

e um crime veste suas portas

sendo um crime a expulsão de um homem

que a posse teve.


sobre o chão entre mil faces

senta-se a dor de ter expulsado5

os dois abutres caminham pela areia
dois abutres de roxa cauda

marcham sem lágrimas

seus mortos esperam com paciência

e discursos vazios dizem um ao outro

que sou abutre abandonado

sem plumas e de bico indeciso

que sou de venenos olvidados

e tenho um terror em minhas asas

que és abutre desplumado

sem voos altivos mas vôos rastejantes

à procura de um pouso e iguarias

em busca de carcassas já sem nome

e aulas primeiras de canto e solfejo

que és abutre com seus treinos

de gestos do society

19
22 de fevereiro - Lições de fim de ano


a dor tem nas faces da pedra

caminhos horizontais e cruzamentos

a dor corre em regatos

buscando as fendas e fraquezas


você aprende na dor

o que não ensino nem quero

você sabe na dor o que sou

o que tenho você inventa na dor

o que dou você recebe na dor
morda os lábios atrás dos sangues

de pequenos riachos encalhados

da profecia de melhores dias

na dor você descobre suas feridas

a parte do infinito, a parte da sombra

na dor você inventa seu rosto

e seu futuro desenha para sempre
não se ajuntam dois corpos sem dor

nem sem ela bastem ou separem


II
Ter um olho que não sabe

ter outro que sabe e a cegueira

fala pelos sonos pelos bocejos

o olho que vê assinala

o outro olho aprende no silêncio

as palavras do corpo

aqui o sono aqui a voz que apaga

aqui a voz que acaba


você acorda na madrugada

busca abajures e fios elétricos

você fala em sonhos o que não vela

quando a vigília debruça sobre à morte


III
em mortos caminhamos

em mortos sem sepulcro nos amamos

em mortos beijo seus cabelos

em mortos você toca os meus olhos


um ano conclui

o que tomamos de seus meses

devolva um ato inteiro

vidros partidos espelhos desfeitos

um ano volta ao seu sepulcro

eu beijo você na hora da morte

você sorri como um ar de leigo

que da morte não entende e nem pensa


a morte retoma seu trabalho

no corpo trago o que sinto no seu corpo

um ato e desespero

IV

Abra a boca

para entrar a manhã

ventos do leste são seu hálito

chuvas de verão seus atos de ternura
seus braços são do verão

que se prende à pele e nem esquecemos

que verões jamais se perdem

entre ações do inverno saltos da meia-estação


o amor no verão

não salva olhares recatados

nem guarda os tímidos

o amor no verão tem gostos

de um fermento em pó que gera eternidades
V
Dou a quem dá

nem tiro o que retiro


Só mãos vazias

recebem


que não têm porque deixaram

nas outras mãos

o que tiveram desfazendo-se
Dou o que não tenho

e quem recebe

não tira nem retira

que você realmente dará estes passos

20
O coração é eleito entre mortais

sem a verdade, sem a altivez

de outras peças do corpo

o coração experimenta dias

em que as cores são escuras
Todo coração não sabendo

se sucumbirá à dor

instala-se nela

para aprender vozes sufocada


uma sala de mágicas

como os ventrículos

sabem dos aurículos

uma sala de segredos

como o coração

que6 bate por dois amores


o ouvido como parece ouvir

a voz do coração

o olho como parece ver

vapores do coração

o coração ouvimos

sem ouvido

21
23 de dezembro
um andrajo veste e despe

como insônia em cama estranha

um andrajo menosprezo

um andrajo veste anjos

veste seus olhos suas intenções
andrajo de melhores dias

sua leveza perde à morte

a leveza mais inteira

tumbas de Paris

são andrajos

22
13 de janeiro [1967?]


Crônicas
martírio de pontes elevadas

martírio de melodramas

Ilha de mansões

23
15 de janeiro [1968?] (1)


tem Joana sua roupa nova

onde pôs os cestos de pedrarias

andrajos ela possui

como possui mansões em escombros


tem Joana seus amores

como recebe maus-tratos

com chicote de pontas de cobre

com ferros em brasa e esporas de prata


ela sorri de amores claros

sem olhares de viés e gestos rancorosos

ela sorri dos corpos sem feridas

sem marcas roxas sem arranhões


moradora de um penhasco

sobe descalça entre pedras

carregando nos braços anjos sangrentos
Joana recita da manhã à noite

a palavra amor

canta em sua voz fina

um fio de luz solar

24
15 de janeiro [1968?] (2)
Prisca vive só entre seus muros

como a voz de um homem

ela entende o jardim
cultiva flores roxas

e tem no hálito cheiros vegetais


passa a noite entre os capinzais

em busca de elfos e serpentes


pela manhã estende as costas

entre lagartos e ratos silvestres

sua mão direita tem escamas

que se camuflam


sonha com a civilização

os carros e seus rumores

arranha-céus elevadores automáticos

e pensa todos os dias

nas maravilhas do fogão elétrico
o lagarto azul prometeu

dar-lhe uma passagem de avião

na noite de Ano Bom
Prisca quer visitar Nova Iorque

25
15 de janeiro [1968?] (3)


Verbena tem amantes de cor

deita com eles ao entardecer

que sua pele clara espera da noite

um vigor de músicas do Oriente


dentes de Verbena, lábios de outros

sobre o chão seus cabelos oxigenados

nas cadeiras de veludo suas unhas

e cílios postiços boiando na banheira

seus dedos espalhados na copa

copos quebrados contendo bicos de seio


Verbena se parte

seus pedaços são colados a pedaços

a perna da cadeira tem seus dedos

o copo tem seus lábios

nas estrias da taça seus cabelos
o olho recebe na porta

visitas esperadas e desconhecidas


a mão no certo de roupa suja

tem a textura de rendas baratas

Graça senta no banco da praça

fala com mendigos e bêbados

espera na Praça Saenz Peña o noivo

que é fiscal do bonde 33


escreve nomes ilustres no chão

inventa o rosto do noivo

nem consegue esquecer que a morte

está a metros


seu vestido apertado na cintura

tem cores da lama

sem colar de pérolas falsas

dança ao vento


na poça d’água do meio-fio

ela lava o rosto e gargareja

pois quer um hálito puro

para os beijos de seu noivo ardente


na lata de sardinha portuguesa

ela guarda três cruzeiros

que pagará ao noivo

em troca de uma noite de luxúria


o noivo perde a perna

na Praça da Bandeira

e ela espera sem pressa

até 8 horas da noite

quando vai de táxi para casa
Sofia tece de repente

o que espera usar a vida inteira

seus fios tinge com suor ardente

esperando um negro noivo e abraços


tece um xale sem sabê-lo

que cobre ombros de tristes cicatrizes

desenhos de dentes e sinais de unhas
voejando com asas de bananeira

ela descobre quintais no Méier

onde amores castos ainda vivem

e de amor irmãs matam irmãos


Sofia voa e tece o destino

de suas mentiras inúteis

que o noivo é morto e inexistente
de um machado de dois gumes

sem a morte do irmão-noivo

ela tece em fios elétricos

para encobrir de nuvens aquele dia


sepultada

ela se casará

sem testemunhas de olhos abertos

que dois corpos mortos

não se juntam

sem um coveiro pago e avisado

26
22 de janeiro
o céu tem caminhos

que deixam passar o corpo

estas mãos de despedidas

acenam em busca de dor




PARTE II

27
Síndrome do abandono


Diga se é mesmo um tipo de até logo

o que sei tratar-se de adeus

um olhar despede de vez

apesar dos gestos amáveis

das mãos calorosas e de um abraço

que não terei mais.


Esse modo de escapar-me

conheço muito bem

por que volta depois

prometendo tudo

para de novo escapar quando penso

que prendi em meus braços

tudo o que você é ou representa

não sei bem


Ao abrir a porta não terei forças

quando seu rosto

encostar-se ao meu e você instalar-se

em minha casa com ares de esposa

dando ordens à empregada e tratando

o porteiro como a madame mais digna

e estável de todo o prédio

Pela tarde depois de me ligar para o escritório

falando de saudades, você levará meus filhos

a chamá-la de mamãe e irá com a sua

eterna sogra ao supermercado

como se fosse mais um dia comum

de um casamento tranqüilo e feliz.

Partindo pela noite

para encontrá-la em sua casa

que balança ao passar o ônibus

sei que face a face

poderei tornar-me mudo

aos beijos perderão

o que resta da saliva


Ela volta a recusar

o casamento

dizendo que quer ficar só

e apenas ver-me

quando sentir-se à vontade
Vamos a um bar

onde em silêncio

ficamos no escuro abraçados

até o garção avisa

que está fechando
Levo-a para casa

e outra vez

ela não me deixa subir

Meio chorando

desço a ladeira a perguntar

o que estou fazendo

nesta vida.
28
Nós, os fominhas
A espera não resiste ao tempo

No balcão da lanchonete, mordo um sanduíche

que se desfaz na mão.

Mal sinto o gosto do queijo derretido

enquanto me puxam pelo braço

dois garotos que ficariam felizes

com o sanduíche segundo me dizem

alguns conhecidos sociólogos

Já vi os garotos catando pedaços

de sanduíches nas cestas de lixo do Bob’s

e não vi felicidade em seus rostos
Não é a comida

mas o samba que muda seus rostos

Esta África no Brasil,

cravada em nós e entre nós

seu rosto muito marcado

quase sempre voltado para o chão

É bom vê-los de longe

no desfile das escolas,

mas frente a frente?

com sua roupa surrada e a bolsa de verniz quebrado

o sapato que esteve na moda

cinco anos atrás e a camiseta com o nome

do candidato derrotado
Já ouvi suas conversas

e não falavam de samba ou de futebol

Daquele monte de cana;

quando? há cinco meses

e fora servido num angu sem tamanho

Ou então dos oito engradados de cerveja

que o dono da padaria serviu

no dia em que partiu para Portugal


Às vezes me dão a impressão

de nunca terem saído de outro país

Talvez a África

e onde estão o Lula o Dr. Getúlio

o Jango – objetos de alguma devoção

mas que são esquecidos com todo enevoamento


Canto os dentes obturados sem anestesia7

os partos normais

os sorrisos ginecológicos e o check-up normal

Canto as férias que se iniciam

as segundas-feiras ensolaradas

depois de um week-end empesteado

sem sol ou praia

e uma briga conjugal que estraçalhou

o jornal de domingo espalhando

pedaços de pizza pela sala


Canto uma mistura e éter e de tétano

as vitaminas miraculosas e a calvície vencida

Canto a impotência, a precoce ejaculação

os músculos vaginais flácidos

a cama manchada de menstruo e o sêmen

inutilmente derramado

Canto a miséria dos boias-frias

e da calça de veludo importada

que não cabe mais pelos quilos ganhos

com as mousses e os patês

29
Geológica
pedras douradas

somos


um chão de martírios

pedras de sal esparramadas

para a dor de outras pedras

pontos de granito e brilhos


círculos de seixos

rolados seixos macios

convivência nas águas cachoeiras

outras pedras outrora ígneas

dias de blocos regulares

edifícios e templos

lugares sagrados
pedras que são marcos

cortadas por coriscos

pedras que são areias

incontáveis seixos minúsculos

para um olhar que petrifica
somos

olhos endurecidos

corações imóveis

um círculo de tumbas ampliando

pedras de sepultura

30
lágrimas que somos


dos olhos

partem rios

fontes nascem entre pedras
somos coração que bate sem descanso

seixos agitados

batidas cardíacas

batidas


chãos batidos
31
Amor de madrugada

Sob o viaduto


entre alguns mendigos embriagados

outros mortos ou adormecidos

apertei a sua mão
Beijei o seu rosto

quando avançamos o sinal

Ali horas antes

uma criança com feridas no braço

e dentes pobres

venderam-me chicletes


Quando entramos no prédio

onde você pela primeira vez

chegava quase em alvoroço

o porteiro avisou-me

que o apartamento 301 tinha sido roubado
No meu colo

com a rádio FM tocando baixinho

você mordiscava o meu rosto

lambuzando de batom e dando abraços

que pareciam desesperados
Pronto a arrancar a roupa

ouvi o batuque sufocado

da festa na favela

No prédio em frente

uma mulher de sutiã fumava à janela

Nem direito sei

como terminamos ou se dançamos

segundo os ritmos que estavam por lá

O frescor daquela hora

perdeu-se em nossos suores


Você se recostou para fumar

à luz meio cinzenta do dia

comecei a ler o jornal de ontem.

O ensaio e o erro

acumulados dias que se sucedem

como pedras de dominó perfiladas


Num instante o pequeno empurrão

desapercebido

faz cair a última pedra

e com ela todas as outras

32
Antes de dormir o ataque de fome

a lata de sardinhas portuguesas

que é aberta sem cuidado e o óleo respinga.

O garfo escarafuncha sem requinte

o fundo da alta.

Na cama recordo-me quando

comprei as latinhas para uma ocasião

que nunca chegou – um outro ataque de fome

num com a mulher deliciosa depois de mil abraços
A tentação de transformar a fome

em um grande símbolo de outra fome,

forte e invisível e senhora de nossos passos.

Trazer a comida para a textura da palavra poética

para as minúcias da sonoridade e devorar

palavras com palavras


Mas é fome mesmo e o estômago nosso

que raramente ronca e o dos outros

cujo ronco não é mais ouvido

perde-se entre tantos outros

o trânsito que massacra

a gritaria das crianças também com fome

ou o ronco dos porcos entre os barrancos

que tem mais sorte de encontrar o que comer

que os seus próprios donos
Você sabe o que é o fedor

de uma favela de casas desabantes por onde

passam a gente e a correnteza de chuva

e um esgoto meio intermitente

Nunca tive a coragem de perguntar

se eles sentiam aquele cheiro

E foi numa delas que me regalei

numa brilhante tarde de sábado

o angu fervendo para depois ser maculado

com o marrom do molho de frescuras

O batuque do pagode nos levava

a tomar outra e outra batida de limão

Não, eu não sentia mais o cheiro do esgoto

e tomado da alegria mais completa

sambava sem parar

com a prima de minha empregada

que deve ter ficado de molho a manhã inteira

em um tonel de leite de rosas


Há um método que o leitor avisado

já deve ter percebido que se trata

de uma associação livre que parece desvairada.

Há um método.

Das delícias parte-se para o horror

e depois a liberdade de escolher

e finalmente achar o falso equilíbrio.
A lista de fomes que conheço

não é interminável e são umas poucas

a agredir-me quase sempre

Como o que estiver à minha frente sem escolha

Discutia ontem em um restaurante chique do Leblon

se aquele cristal que nos separava da rua

também nos afastava da fome que ali grassava

Quando vi alguns mendigos comer arroz em latas de goiabada

e um outro que pousava elegantemente no chão

o pedacinho de carne

enquanto mastigava deveres.

O bebê que conseguia achar fartura

no seio que aflorava entre farrapos

A discussão perdeu-se no rumor

da chegada do garção e dos pratos de ostras

cercadas de vivos pedaços de limão8

e não há realmente nada

que seja retido

depois dos churrascos que ao povo ofereciam

Jango e Getúlio e outros chefes políticos

Ao lado dos quartos de boi

os altos ralos de lingüiça

e as cestas de pão cestas de pão
Na tevê a repetição dos anúncios

da pílula de alcachofra que me fará

emagrecer sem notar e sem esforços.

O apetite que às vezes dispara

e devoro incontido pedaços de Mr. Pizza,

bolinhos de carne, sanduíches de pernil

e os insossos hambúrgueres do McDonald’s,

sacos de pipoca, chocolates sem nobreza

que os camelôs empilham em seus tabuleiros
À noite estou bem sentado

em um restaurante chique da Gávea

diante de molhos um pouco misteriosos

e disposto a liquidar a conta

com o tiro certeiro do Credicard.

Voltando de madrugada,

o porteiro da noite

um português que por si só

mereceria um longo poema

pergunta-me sobre roupas velhas

e me acossa a vontade de dar-lhe comida

aquele queijo prato que deixei de comer

por causa do colesterol ou as bananas

que trouxe do sítio da minha amiga natureba

Às 6:30

minha mãe telefona e quer saber



se jantei o que jantei como jantei

com quem jantei e fica tristalegre

ao saber que estou bem alimentado

33
Minha namorada onze anos de sangue

cobrem o quarto onze anos de terror

vestem os seus olhos e no perfil da pedra

onde pousar a nossa sombra e movimento

sucumbe a minha vida de viúvo


exulte amor, eu envelheço

nos jardins da retaguarda enterro o meu viço

não consigo amar senão vegetais

que os entes de movimento próprio me aterrorizam

exulte amor, vou mudar-me para a sua pirâmide
amado corpo gélido de onze anos

este fumo de meus olhos entorno pelo espaço

na parede insetos aegypti recordam

o tempo de carnificinas e o andar do faraó


ancestrais ouviram o vento do deserto

que marca o meu rosto de bexigas e mapas

de caravanas e traficantes de ouro armas brancas

ancestrais eu vejo no espelho pela manhã

antes de embarcar para a sua pirâmide
pelos lençóis roxos mortalhas de cetim

toco o seu corpo os braços mesopotâmicos

uma carícia no seu ventre a minha mão

rigor nos seus seios o véu destroça

e desfio o meu rosto ante o seu rosto

34
Fazem agora cento e cinquenta e sete anos

que nossas mães criaram neste continente

uma doença nova, concebida em liberdade

e dedicada à proposição

de que todos os lobos são cordiais


Hoje estamos empenhados num grande tratamento

Pondo à prova se uma doença, qualquer doença,

assim concebida e assim dedicada

pode durar muito. Aqui nos reunimos

Num grande campo de batalha deste tratamento
Viemos consagrar uma parte deste

hospital como um descanso final

daqueles que deram sua vida

para que esta doença possa sobreviver


É perfeitamente próprio e razoável

que o venhamos a fazer

Mas num sentido mais amplo.
Não podemos dedicar – não podemos consagrar – não podemos santificar este chão. Os bravos, vivos e mortos, que ali lutaram o consagraram muito acima de nosso fraco poder de aumentar ou subtrair. O mundo pouco notará, nem por muito lembrará o que aqui dissermos, mas nunca esquecerá o que eles fizeram.

Melhor seria que nós, os vivos, aqui nos dedicássemos à tarefa inacabada que aqueles que lutaram desta nobre forma iniciaram. Melhor seria que nos dedicássemos à grande missão que temos pela frente – tomar destes queridos mortos maior devoção à causa pela qual eles dera a sua última medida de devoção. Que aqui resolvamos, solenemente, que estes mortos não morreram em vão e que esta doença, sob Deus, tenha um novo nascimento de liberdade. E que o governo do lobo pelo lobo, para o lobo, da terra não pereça.

35
De como quero os Queiroz
Devagar se conheceram

quando em um hotel de luxo

em plena riqueza cearense

ele viu um facho no hall

e descobriu aquela luminosidade

em uma mulher que desperta todos os apetites e energia


Depois foi a mãe que se revelou


em um domingo de sol na Bahia

uma conversa que até hoje prossegue

de relatos que não concluem

descrições perfeitas de caracteres e juízos morais

sem autossuficiência e uma perfeita compreensão

de onde o mundo está firme e onde se desfaz


A seguir a gordura mais que perfeita

do irmão grandioso e roliço o seu ser

de alto-falante sua arte e aventuras

de riso violência e confusão


Então apareceu o lorde seu pai

o fidalgo em mais completo casamento

com uma elegantíssima falta de grana
Finalmente o irmão poeta

e compositor a testa clara

de baianice civilizada

com o seu esforço maior para compreender

aquele remoinho de loucura e amor

que às vezes é sua família e então a Bahia


36
Pai Herói9
Ouço passos na varanda

Talvez um ladrão de livros

que veio buscar tudo o que escrevi:

as tiras soltas dos pensamentos,

os róis de roupa – os bilhetes de amor

para a vizinha que estava se divorciando

e um pequeno livro

em que cantei o suor do verão


Morto de medo,

acendo a luz

e quem encontro

é minha filha seminua

aos beijos com o primo Rafael

Ela grita: Papai, apaga a luz

Faço isto. Corro pro quarto

e continuo a ler os Cantos de Ezra Pound

enquanto minha esposa ressona levemente

empapando de suor sua camisola escarlate

37
Obscuro despertar
Mata-se um dia como olhar parado, o horizonte já desaparecido, antes que a escuridão compareça. Mata-se um dia no atropelo da manhã, no instante em que se acorda com vontade de enfunar-se na parede como se fosse um cobertor. Mata-se um dia, quando o coração desperta, ferido de ódio, nem acreditando que terá sucesso em suas tentativas de vingança.
Ruídos da vida10
Ouvir a clareza de um som de flauta, o rumor bem fino de uma mosca que está rondando o bife sangrento no prato ou quase indo mergulhar no copo de cerveja. Ouvir os ruídos de uma hidrelétrica, que gera na cabeça com os fluidos que não param de escorrer, meio sangue, meio gosma não identificável e lenta. Ouvir o estalar de um beijo dado no quarto, onde estão o seu melhor amigo e sua esposa, que, depois de muitas vodcas, pediram licença e foram para dentro meio cambaleantes. Ouvir um toque de telefone e atender sem que digam qualquer coisa do outro lado. Ficar gritando alô até que os próprios tímpanos arrebentem de saudade de uma doença mental chamada a espera da voz amada que não chega nunca.
Incontinência
De que adianta ir à feira e comprar os quiabos mais maduros e apertar os tomates se, em casa, as pessoas estão jejuando ou quase. Até a empregada parece querer matar-se. Recusa o prato de feijão que lhe é devido. A esposa vive do próprio leite que sobra das mamadas sem apetite do pequeno bebê. Um leite feito de amor e de um prato diário de arroz integral.

Carregando o bebê no braço, enfurno-me no escritório alegando que está na hora de escrever um poema. Logo que fecho a porta, abro uma lata de sardinhas que como com os dedos, ensinando a meu rebento, agora amparado por volumes da Britannica, o espírito da revolta da raça.

Depois de esperar a tarde inteira, sentado à beira da cama, o médico enfim apareceu. Trazia nas mãos o resultado dos exames e nenhuma boa notícia. Só valia a pena agora referir-se à morte como uma estação próxima. Em cima da cabeceira, a Bíblia ao lado do vidro de remédio.

8
Registro civil


Há muito tempo

desejava mudar de nome

Apresentar-se como Alfredo

ou Amaral ou Garcia.

Só não sabia muito bem

se adotaria um definitivo

ou ficaria mudando quando desse vontade

39
Gente de rua11


Quando chega perto de você

pedindo que complete a passagem para Austin

um louco – mas doido mesmo

e não se sabe se no próximo instante ele irá

correr gritando e apresentar-se como deus

ou cortar o rosto com uma gilete

neste momento tudo treme um pouco

como andar pela rua sem achar

alguém como este – o quê?

você deseja encontrar o pessoal que posa

para a coluna do Zózimo ou Caetano Veloso

olhando para as revistas na banca de jornal

meio indeciso se compra uma

ou guarda o dinheiro para aquela camisa roxa da Fiorucci?

40
Analgésico12
Doa a quem doer

disse à sua amada

indo embora com uma dor no coração
Para ver se cicatrizava logo

a ferida verdadeiro rombo torturante

foi à gafieira e dançou

com quem aparecesse


Dormiu tão exausto

que nem sentiu a metade da cama vazia.



1 O poema no 22, de 13 janeiro [1967?], intitulado “Crônicas”, indica talvez a data da escrita destes poemas manuscritos em caderno espiral grande. Assim, supõe-se que a partir do poema nº 23, de 15 janeiro, o texto deva ser datado de [1968]. O título Poemas antigos foi dado por Luiza Lobo.



2 Consta também da versão definitiva de Tons do dia e da noite.

3 Consta também da versão definitiva de Tons do dia e da noite.


4 Este poema também está incluído em um cadernos onde se acha uma obra intitulada Diversos.

5 No original, expulso.

6 Acrescentado a caneta preta pelo Autor.

7 Em Ruídos da vida, essas duas últimas estrofes consistem também o poema em prosa “Desfiladeiros”: Os dentes obturados sem anestesia, os partos normais, os sorrisos ginecológicos, o check-up normal. As férias que se iniciam, as segundas-feiras ensolaradas depois de um week-end empesteado. Uma briga conjugal que estraçalhou o jornal de domingo e espalhou pedaços de pizza pela sala. Também. Mistura de éter e de tétano. Vitaminas miraculosas, a calvície vencida, a impotência, a ejaculação precoce, os músculos vaginais flácidos. A cama manchada. A miséria falada dos boias-frias e a calça de veludo importada, que não cabe mais, pelos quilos ganhos com as mousses e os patês.



8 Foi riscado o verso “que toma conta de suas cabeças”.

9 Encontra-se, também, em Ruídos da vida. A partir deste poema, há repetições nos outros livros.

10 Há, em Ruídos da vida, uma versão deste trecho em versos, com título homônimo.

11 Encontra-se, também, em Ruídos da vida.

12 Encontra-se, também, em Ruídos da vida.






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