Pontifícia universidade católica de minas gerais



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FACULDADE JESUÍTA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA
JULIANA HERMONT DE MELO

O CORPO PERDIDO: UMA ANÁLISE BIOÉTICA, ANTROPOLÓGICA CRISTÃS SOBRE A SOCIEDADE SOMÁTICA ESPETACULAR

BELO HORIZONTE

2007

JULIANA HERMONT DE MELO




O CORPO PERDIDO: UMA ANÁLISE BIOÉTICA, ANTROPOLÓGICA CRISTÃS SOBRE A SOCIEDADE SOMÁTICA ESPETACULAR

Dissertação apresentada ao Departamento de Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, como requisição parcial à obtenção do título de Mestre em Teologia.


Área de concentração: Teologia da Práxis Cristã
Orientador: Prof. Dr. Nilo Ribeiro Junior

BELO HORIZONTE

2007

Agradeço a Deus por me sempre orientar a confecção deste trabalho.



À CAPES que financiou parte desta pesquisa.

A meus pais, Elisa e Eustáquio, por sempre acreditarem em mim.

A minha irmã, Fefê, por seu apoio e incentivo constantes.

Ao meu orientador que fez expandir meus limites pessoais e intelectuais.

Dedico ao meu marido, Lucas, por acreditar sempre em minha capacidade.

“Carregamos nossos tesouros em vasos de barros”.

São Paulo

RESUMO


O corpo apresenta-se atualmente como filtro da toda a realidade humana. O estudo da corporeidade e seus rumos dentro da sociedade somática espetacularizada engloba nossa proposta. A glorificação e dignificação do corpo a partir do Evento Cristo coloca em xeque os valores da sociedade do espetáculo. Assim, cabe a teologia cristã dialogar com esta realidade. O fio condutor desse dialogo será a promoção do humano através da justa valorização da corporeidade. A bioética, por sua vez, é a ciência dedicada ao estudo do impacto da utilização das biotecnociências e suas repercussões na vida. Desta feita, compete a bioética cristã interpretar e ressignificar a corporeidade, fornecendo ferramentas e alternativas para a humanização do humano ante a cultura somática espetacularizada.

Palavras-chave: Corporeidade; Antropologia Cristã; Bioética; Práxis; Ética Teológica.

ABSTRACT


Nowadays, body intermediates all human realities. Studying corporeity and its ways in a somatic and show business related society is our proposal. Body’s glorification and dignityfication from the Christ Event (calls into question) (challenges) the show business related society. So, Christian theology shall dialog with this reality. The leading idea in this dialog will be the promotion of human through a fair appraise of corporeity. Bioethics is the science that studies the impact of using biotechnosciences and their effects in life. So, the rule of Christian Bioethics is to interpret and give new meanings to corporeity, providing tools and alternatives to humanize human in view of a somatic, show business related culture.

Key-words: Corporeity; Christian Anthropology; Bioethics; Praxis; Theological Ethics.

sumário


RESUMO 6

ABSTRACT 7

sumário 8

INTRODUÇÃO 10

CAPÍTULO 1 - A CULTURA SOMÁTICA 14

1.1 Cultura somática: estado da questão 18

1.1.1 Contribuições da cultura somática para a compreensão da corporeidade 20

1.1.2 A corporeidade “ferida” pela deturpação da sociedade somática espetacular 24

1.2 Antropologia subjacente à cultura somática e à cultura somática espetacularizada 32

CAPÍTULO 2 - Antropologia Bíblica: uma simbólica unitária da corporeidade humana 38

2.1 O corpo na concepção do Antigo Testamento 39

2.1.1 Basar 40

2.1.2 Ruah 42

2.1.3 Nefes 44

2.2 O corpo na concepção do Novo Testamento 45

2.2.1 O corpo na antropologia paulina 46

2.2.2 Soma 48

2.2.3 Psyque 50

2.2.4 Pneuma 51

2.3 A antropologia cristã contemporânea do corpo 53

2.4 Antropologia teológica versus a libertação da corporeidade somática espetacularizada 56



CAPÍTULO 3 - O CORPO E A BIOÉTICA: DE UMA ÉTICA APLICADA A UMA ÉTICA DAS RELAÇÕES 64

3.1 Bioética: breve histórico de seu desenvolvimento 66

3.1.1 Movimentos sociais motivadores do pensar bioético na modernidade 66

3.1.2 A pesquisa clínica e sua interface com os movimentos formadores da bioética 70

3.1.2.1 O Código de Nurembergue 71

3.1.2.2 A Declaração de Helsinque 73

3.1.3 As denúncias de Henry Beecher e o Relatório de Belmont 76

3.1.4 A dupla paternidade da bioética 78

3.1.4.1 Van Rensselaer Potter 79

3.1.4.2 André Hellegers 81

3.2 O status quo da bioética atual 83

3.2.1 Desenvolvimento da bioética 83

3.2.2 As correntes da bioética 87

3.2.2.1 O principialismo de Tom Beauchamp e James Childress 88

3.2.2.2 O enfoque latino-americano 88

3.2.2.3 Bioética feminista 89

3.3 Bioética e ética cristã: por uma conceituação relacional e unitária de corporeidade 90

3.3.1 O espaço da Teologia dentro da Bioética 92

3.3.2 As contribuições da Bioética para a Teologia no ambiente da cultura somática espetacularizada 94

CONCLUSÃO 97

Referências 100




INTRODUÇÃO


O presente trabalho tem como referência maior a problemática da corporeidade1. Especificamente se constata que a contemporânea sociedade do espetáculo corroeu a compreensão da corporeidade/corpo trazida à baila no inicio da década de 1990 pela cultura somática. Entende-se ser fundamental compreender as modificações e implicações da corporeidade, pois se defende a hipótese de que a corporeidade é condição de possibilidade para o diálogo da teologia com a bioética e com a sociedade contemporânea. Dessa forma, o objeto desta pesquisa concentra-se na investigação do fenômeno conhecido como cultura somática, especialmente no que tange à consciência da corporeidade humana. Por revelar-se área de domínio comum, o corpo interessa tanto a Teologia quanto a Bioética. Assim, propõe-se contemplar a corporeidade/corpo na contemporaneidade sob a óptica da Teologia e da Bioética cristãs.

O interesse pela temática foi despertado pela constatação de uma superatenção dada ao corpo na contemporaneidade, numa cultura marcada pela crescente sensação de infelicidade e desumanização. Intui-se que as pessoas são escravas da sociedade do espetáculo, não vivem, mas assistem e consomem tudo o que a mídia apresenta como “bom e belo”. Vivencia-se algo como uma era de culto ao corpo, em que os valores éticos equiparam-se ou são substituídos pelo imagético, numa redução mesma da estética. Dessa feita, observa-se que a corporeidade/corpo encontra-se encapsulada sobre si mesma, pois quando o humano elege, por força da mídia, seu corpo como começo e fim de todas as suas preocupações, ganha o corpo; mas, em contrapartida, perde a si mesmo e ao outro, e, por conseqüência, o sentido de sua vida, a significação de sua finitude, contingência e padecimento.

A visão e o relacionamento do ser humano com a sua corporeidade na atualidade estão corrompidos, pois, sob as luzes do espetáculo sem fim, o ser humano passa a ter um corpo e não mais a ser corpo. Sob esta nova óptica, o corpo torna-se a mercadoria da vez da sociedade espetacular, hedonista e consumista. E, para alcançar o ideal de beleza pré-estabelecido pela sociedade, toda a sorte de intervenção sob a corporalidade é permitida para que se resista à sua vulnerabilidade e finitude. Nesse intuito, os esforços desta pesquisa residiram em dar primazia ao resgate na corporeidade através de uma abordagem sociológica, teológica cristã e bioética.

Na efetivação dessa empreitada, o primeiro capítulo buscará traçar o panorama do status quo da corporalidade na contemporaneidade. Para tanto, elencam-se dados para caracterizar o que se denomina cultura somática. Porque segundo os aportes sociológicos estudados, na atualidade o corpo é o filtro de todas as realidades. Tudo passa pelo crivo da corporeidade. Ciente do risco de se apresentar visão tendenciosa, demonizando ou acriticamente assumindo o fenômeno social conhecido como cultura somática, optou-se por apresentá-la tanto em seus aspectos positivos, como a valorização do bem-estar físico, quanto em seus aspectos negativos, como a perda da alteridade devido ao encapsulamento do humano sobre si mesmo. Para tanto, serão utilizados os esforços teóricos de Guy Debord, Jurandir Freire Costa e David Le Breton, por possibilitarem a compreensão do fenômeno social supramencionado e indicarem, como resgate da corporeidade perdida, o retorno ao entendimento integral e unitário do ser humano. Visão que se afina bastante com as concepções teológicas e bioéticas adotadas neste trabalho.

No segundo capítulo, a ênfase da análise recai sobre a teologia cristã. À luz da antropologia cristã, objetivar-se-á identificar uma antropologia bíblico-teológica que se apresente como contradiscurso à antropologia vigente na cultura somática espetacular. Optou-se pelo caminho da antropologia teológica, sem qualquer crítica ao caminho mais usual que é o da Teologia da Criação, pela ênfase na corporeidade. Assim, a argumentação fundamentar-se-á no pensamento de Juan Luiz Ruiz de La Pena, Alfonso Garcia Rubio, Luis F. Ladaria, Bernard Sesboüe, John Robinson, James Dunn e Robert Jewett, este dois últimos dentro da antropologia paulina, e de Luiz Carlos Susin. Almeja-se resgatar as categorias de corpo fundamentais tanto na antropologia bíblica vetero e neotestamentária quanto na antropologia teológica moderna produzida pelo Concilio Vaticano II. No que tange ao contradiscurso, busca-se demonstrar que a antropologia cristã somente pode-se falar em humano à luz de sua realidade primeira e última, qual seja, da criatura humana como filhos e filhas de Deus, criados à sua imagem e semelhança, redimidos e santificados pela paixão e morte de Jesus Cristo.

Ressalta-se que não se objetiva, em momento algum desta pesquisa, fazer revisão do percurso histórico da antropologia cristã, visto não ser esta a temática do trabalho. Destarte, opta-se por uma sucinta e não exaustiva abordagem de teologia bíblica, apenas para a identificação de categorias que auxiliem na compreensão da integralidade do humano e a relevância da corporeidade para a teologia cristã. Para tal, utiliza-se a antropologia bíblico-teológica unitária e integral do humano.

Por fim, no terceiro capítulo, trabalhar-se-á a bioética e sua relação com a corporeidade ao longo de sua breve história de existência2. Almeja-se, neste terço final da pesquisa, realizar o encontro entre a reflexão ético-teológica desenvolvida no segundo capítulo do trabalho, a bioética e o lugar do corpo na sociedade contemporânea, desenvolvido no primeiro capítulo. Discutir-se-á, para tanto, como a reflexão bioética é plural e se designa em prol da dignidade humana, e como tal reflexão tem a acrescentar à compreensão do uso e do abuso do corpo humano dentro da cultura somática espetacular. Toda a discussão pauta-se dentro de uma bioética inspirada pela antropologia teológica cristã, pois, a concepção originária do entendimento da bioética sobre a criatura humana remete ao conceito de dignidade humana como espelho da dignidade de Deus. Este capítulo desempenhará tríplice função: a primeira revela-se na amplificação do conceito de bioética à luz da antropologia cristã. A segunda e a terceira, por sua vez, alojam-se na contribuição mútua do profícuo encontro entre a Teologia e Bioética e vice-versa.

Destarte, conclui-se que o ponto de encontro entre as três abordagens envolvidas nesta pesquisa (teologia, bioética e antropologia) constrói-se no corpo, pois, a corporeidade revela-se como tema transversal entre essas áreas do conhecimento. Por isso, é o corpo o caminho para o encontro do humano consigo mesmo e chave de leitura de para crítica e superação da cultura espetacularizada. O futuro da humanização da humanidade no contexto da cultura somática espetacular depende do resgate da corporeidade integral, defendida tanto pela Teologia quanto pela Bioética.

Ressalta-se que esta pesquisa representa apenas uma primeira abordagem sobre a questão e outras temáticas exigem atenção e pesquisas, tais como o significado do fármaco para uma sociedade que não suporta a dor ou ressignificar a morte. São temáticas em aberto, em cujo debate, em pesquisas futuras, esta pesquisadora espera ter contribuído e ainda contribuir, naquilo que lhe for possível.

No espaço específico desta dissertação de mestrado, está-se ciente do arriscado caminho interdisciplinar escolhido. Afinal, trata-se de uma graduada em Direito, especializada em Bioética, que depois de um processo propedêutico em Teologia, propõe-se a discutir em viés teológico as relações entre Bioética, cultura e Teologia. Nas fraquezas e possíveis limitações dessa empreitada encontrem-se também suas maiores virtudes. É campo novo e se mira corajosamente para a transdisciplinaridade. De novo, é mister registrar que ainda os elementos teóricos para o almejado fórum transdiciplinar está em construção. Dessa forma, o que se realizou de fato pode ser resumido na tentativa de superação das contingências epistemológicas e metodológicas de três áreas do saber, aproximando-as. Vale aqui o processo, o caminho que se fez ao caminhar. Vale aqui a experiência da pesquisadora e a abertura da academia para tal discussão. A corporeidade da pesquisadora, dos autores e autoras pesquisados, dos inúmeros homens e mulheres envolvidos como exemplo e como alvo último esta discussão está presente em todas as páginas deste trabalho, em vida, contingência e finitude, também.

Com tais restrições e indicações, passa-se ao primeiro elemento desse jogo de relações interdisciplinares para se compreender a cultura somática e a cultura somática espetacularizada.



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