Pontifícia universidade católica do paraná



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5Resultados das pesquisas

5.1Expectativas com Relação à Utilização da TI pelo Governo


Conforme relatado no capítulo 4 - Metodologia, foi investigada a existência de expectativas de uso da TI pelo governo, por parte de um grupo potencialmente info-excluído12. A observação foi feita na interação durante o desenvolvimento dos treinamentos realizados, em entrevistas individuais e em entrevistas coletivas.

A pesquisa foi realizada no programa de alfabetização digital, o CELEPAR na Comunidade, caracterizado e descrito neste capítulo. Para fins de contextualização da pesquisa, cabe antecipar alguns registros acerca do programa:



  • O programa visa oferecer um primeiro contato com o computador e com a Internet a pessoas que nunca o tenham tido.

  • O programa é desenvolvido pela CELEPAR – Cia de Informática do Paraná, também caracterizada neste capítulo, em parceria com as prefeituras dos municípios e outras entidades locais, como, por exemplo, escolas e associação de pais e mestres.

  • O programa é realizado em laboratórios com computadores, sempre que possível, conectados à Internet.

  • Cada treinamento é de aproximadamente 4 horas e são feitos normalmente três turmas por dia, uma pela manhã, outra pela tarde e a última no período noturno.

  • O programa é desenvolvido em todas as regiões do Estado do Paraná. Em cada município o programa é realizado durante uma semana. Algumas vezes em mais de um local do município, permitindo turmas simultâneas ao longo da semana.

  • A participação das pessoas é pré-agendada pelos organizadores do evento.

  • Uma equipe da CELEPAR acompanha a execução do programa no município, sendo responsável por conduzir as aulas, contando com apoio de pessoas da comunidade local para suporte, na condição de monitores.

  • Uma apostila é distribuída aos participantes, que também recebem um certificado de participação.

  • Durante o curso são dadas noções básicas de uso do computador, oferecendo um primeiro contato da maioria das pessoas com o computador e fazendo com que elas superem o medo e a resistência inicial de utilizá-lo.

A pesquisa foi realizada entre os dias 18 e 22 de novembro de 2002, nos municípios de Sarandi, Mandaguari e Mandaguaçu, da região de Maringá, estado do Paraná. Alguns dados adicionais sobre os municípios são apresentados com o objetivo de contextualização.

Sarandi é um município com 71.422 habitantes, com 97,29% desta população residente na área urbana, segundo dados de 2000 do IBGE13. Registra um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal IDH-M14 de 0,768 , segundo dados de 2001, ocupando a 96a posição entre os 399 municípios do Paraná e a 1294a posição entre os 5561 municípios brasileiros. Apresenta, ainda segundo dados do IBGE de 2000, uma taxa de alfabetização de 90,80% entre as pessoas com idade igual ou superior a 10 anos.

Mandaguari, segundo as mesmas fontes, é um município com 31.395 habitantes, com 90,08% da população residente na área urbana. Registrou em 2001 um IDH-M de 0,791, ocupando a 37a posição entre os municípios do Paraná e a 774a entre os municípios brasileiros. Apresenta uma taxa de alfabetização de 89,40% entre as pessoas com idade igual ou superior a 10 anos.

Mandaguaçu, ainda segundo as mesmas fontes, é um município com 16.828 habitantes, com 83,87% da população residente na área urbana. Registrou em 2001 um IDH-M de 0,762, ocupando a 118a posição entre os municípios do Paraná e 1527a posição entre os municípios brasileiros. Apresenta uma taxa de alfabetização de 90,10% entre as pessoas com idade igual ou superior a 10 anos.

O pesquisador compôs a equipe do programa durante a semana, atuando como instrutor ou como monitor em todas as turmas, contando com mais uma pessoa da equipe da CELEPAR nos treinamentos.

5.1.1Observação participante e interação durante o desenvolvimento dos treinamentos


Resgatando os registros do capítulo 4 – Metodologia, este procedimento foi adotado em 15 turmas, sendo 12 na localidade de Sarandi, 2 em Mandaguari e 1 em Mandaguaçu, municípios da região de Maringá, estado do Paraná, envolvendo 297 participantes.

A forma definida foi a participação do pesquisador no programa, como instrutor ou como monitor, buscando o estabelecimento de um diálogo com os participantes, visando obter uma primeira percepção deles acerca do tema pesquisado.

Esta técnica de participação e interação teve três fases ao longo da semana.

Nas três primeiras turmas, no município de Sarandi, o objetivo foi de aproximação, visando obter uma primeira percepção sobre a reação das pessoas à pesquisa e a existência ou não de expectativas com relação ao objeto pesquisado.

Nas doze turmas seguintes, na segunda fase, foram feitas as entrevistas individuais e, em paralelo ao processo de entrevista, foram feitas validações com os grupos para, num universo maior de participantes, confirmar os resultados que estavam sendo obtidos nas entrevistas. Foi utilizada uma abordagem não explícita, tentando não induzir as respostas e nem influenciar as pessoas que ainda poderiam ser entrevistadas. As interações eram feitas de forma integrada ao curso, sendo às vezes feita junto à turma toda, às vezes junto a grupos menores, usando também espaços mais informais, como o intervalo, as conversas com pequenos grupos, o encerramento e a despedida das pessoas.

Nas seis últimas turmas, a terceira fase, buscou-se, adicionalmente às entrevistas e à interação com o grupo (ou grupos), a identificação de novos aspectos a serem explorados, que ainda não tivessem aparecido nos diálogos anteriores ou nas entrevistas já realizadas.


5.1.2Observação participante e interação – Resultados


As interações, já nas três primeiras turmas, indicaram que os participantes tinham expectativa com relação à utilização da TI tanto no âmbito pessoal, quanto, e principalmente, pelo governo. Também indicaram que podiam priorizar a sua expectativa de utilização da TI pelo governo tendo como referência os três aspectos que hoje sustentam os projetos de Governo Eletrônico: serviços ao cidadão, governança e E-democracia, nos termos já definidos no item 3.4 – Governo Eletrônico.

Os perfis dos resultados das pesquisas individuais, à medida que iam se formando, conforme apresentado no item abaixo, foram também validados de forma coletiva. A preocupação maior com “uso do computador” na busca de melhor capacitação para o trabalho e a percepção de que o governo deveria promover esta capacitação, sempre esteve presente. Também os demais aspectos tabulados como prioritários eram sempre citados, como os usos na saúde e no combate à miséria e fome.

Há uma percepção pelos participantes da melhoria de outras atividades a partir do uso da TI, foram citadas diversas vezes as questões dos bancos “que mudou muito” e também dos supermercados: “agora é tudo diferente”. Embora não tenham sido feitos registros quantitativos, a maioria que se referia aos bancos, o fazia em virtude da sua relação com estas instituições decorrentes dos seus benefícios da previdência social, ou do acompanhamento de outras pessoas que iam aos bancos buscar a sua aposentadoria ou pensão. Alguns chegavam a citar que o governo “já está começando a usar (a TI)”, mas falta muito.

Uma única citação espontânea, com relação ao uso da TI na esfera pública, foi feita por um senhor que estava fazendo o supletivo e sabia que o “o exame supletivo agora é feito usando o computador”.




5.1.3Entrevistas individuais e coletivas


Foram entrevistadas 95 pessoas, destas, 30 entrevistas individuais e 65 em entrevistas coletivas.

Nas entrevistas individuais o pesquisador e, em alguns casos, o segundo instrutor que participava do programa, conversava com a pessoa para levantar as informações buscadas.

O pesquisador conduzia o treinamento desde o começo, fazendo as observações para validação e estabelecendo o contato e a relação com os participantes. Por uma questão de ética, era dito que junto com o programa estava sendo feita a pesquisa, que esta se daria naturalmente durante o curso, e que observações seriam feitas e registradas, sem identificação pessoal.

Estando o treinamento em curso normal e as relações já estabelecidas, o pesquisador colocava nas conversas os questionamentos e voltava a interagir a partir das respostas dadas, visando observar o entendimento das questões e a consistência das respostas. Enquanto isto, o segundo instrutor assumia o comando do curso, sem interrupção. Muitas vezes as próprias informações sobre idade, escolaridade e profissão eram obtidas de forma natural nas conversas, sem dar a conotação de uma entrevista. Algumas anotações essenciais eram feitas durante a conversa e outras eram feitas imediatamente após, fora da área de visão dos participantes.

O processo não se mostrou favorável à gravação, nem à busca de informações sobre a renda familiar, que poderia completar o perfil dos entrevistados, mas intimidaria e constrangeria as pessoas.

As entrevistas coletivas foram feitas em turmas pequenas, com não mais de 10 pessoas. Nesta modalidade era distribuída uma folha com as questões a serem pesquisadas. Cada questão era comentada e discutida, o pesquisador apresentava o tema, fazia comentários e estabelecia diálogo com os participantes. Só então era solicitado que eles registrassem as suas respostas para cada item. Muitas vezes, dada a dificuldade de escrever de muitos participantes, o pesquisador e o instrutor ajudavam as pessoas no registro das suas opiniões. Além dos registros dos participantes, outros eram feitos pelo pesquisador, que diziam respeito a opiniões relevantes, ou depoimentos, manifestados durante as conversas.



5.1.4Entrevistas - Resultados


Os dados abaixo apresentados consolidam as respostas obtidas nas duas modalidades de entrevista.

As informações buscadas foram: sexo, idade, escolaridade, atividade profissional, experiência anterior na utilização da TI, expectativa de uso da TI no âmbito pessoal, expectativa com relação à prioridade de uso da TI pelo governo e percepção de nível de prioridade no uso da TI pelo governo entre as questões: serviços, governança e e-democracia, nos conceitos já definidos.


5.1.4.1Perfil dos entrevistados


Quanto ao sexo:

Tabela 4 - Perfil dos entrevistados: sexo

Sexo

Qtd

%

Masculino

42

44,2

Feminino

53

55,8

Total

95

100

Quanto à escolaridade:



Tabela 5 - Perfil dos entrevistados: escolaridade

Escolaridade

Qtd

%

Não estudou ou estudou apenas um ano

6

6,3

Até os quatro ou cinco primeiros anos (antigo primário)

40

42,0

Até os oito anos do ensino básico (antigo ginásio)

19

20,0

Até o segundo grau (incompleto)

14

14,7

Segundo grau completo

9

9,5

Superior completo

2

2,1

Pós-graduação

1

1,1

Não informado

4

4,2

Total

95

100

Estes dados mostram uma predominância de pessoas com baixa escolaridade. Apesar do registro de pessoas sem estudo ou com apenas um ano de estudo ser de 6 pessoas, representando 6,3%, a quantidade de pessoas que, na prática, tinha grande dificuldade de ler e escrever era significativa. A presença de pessoas com curso superior, duas pessoas representando 2,1%, e pós-graduação, uma pessoa, representando 1,1%, deve-se à presença de professoras e coordenadoras que estavam acompanhando grupos de participantes.

Quanto ao acesso anterior ao computador:

Tabela 6 - Perfil dos entrevistados: acesso anterior à TI


Acesso anterior ao computador

Qtd

%

Já tem experiência e acesso ao computador

2

2,1

Já tinha contato anterior, mas não tem domínio e nem prática

14

14,8

Utiliza como usuário de algum sistema

3

3,2

Nunca usou ou teve contato com o computador

76

80,0

Total

95

100

O dados demonstram quase a totalidade de pessoal sem nenhuma experiência na utilização do computador, totalizando 93 pessoas e representando 97,9%. As pessoas que já tinham experiência estavam acompanhando familiares ou amigos.

Quanto à idade:



Tabela 7 - Perfil dos entrevistados: faixa etária

Faixa etária

Qtd

%

Entre 15 e 20 anos

11

11,6

Entre 21 e 30 anos

15

15,7

Entre 31 e 40 anos

18

18,9

Entre 41 e 50 anos

14

14,8

Entre 51 e 60 anos

25

26,3

Entre 61 e 70 anos

7

7,4

Mais de 70 anos

5

5,3

Total

95

100

Quanto à ocupação:



Tabela 8 - Perfil dos entrevistados: profissão

Ocupação principal

Qtd

%

Serviços gerais (lixeiro, coveiro, manutenção básica, zelador e afins)

21

22,1

Pedreiro, marceneiro, encanador, jardineiro

14

14,7

Aposentado e/ou pensionista

11

11,5

Do lar

11

11,5

Auxiliar administrativo (serviços de escritório, secretária)

7

7,4

Costureira, artesão

6

6,3

Educador, professora

5

5,3

Estudante

5

5,3

Desempregado

4

4,2

Supervisor de serviços gerais

3

3,2

Mecânico

3

3,2

Outros

4

4,2

Não informado

1

1,1

Total

95

100

A maioria dos participantes exerce atividades simples e sem especialização. Apenas quatro pessoas, representando 4,2% dos participantes, estavam desempregadas.


5.1.4.2Expectativa de uso da TI no âmbito pessoal


Foram buscadas as expectativas dos participantes quanto à utilização da tecnologia na vida deles, caso tivessem acesso mais fácil aos recursos de TI, na linguagem apresentada: “se tivesse computador em casa ou facilidade de uso em algum lugar”. Eram questões abertas, como as demais, sem lista prévia de opções. Devido ao fato de uma parcela expressiva citar mais do que uma atividade, foram consideradas as primeiras e segundas alternativas apresentadas, representadas na tabela abaixo nas colunas Principal e Secundária, respectivamente. Trinta e três pessoas, representando 34,7% dos participantes, não registraram uma segunda opção.

A análise mostra a existência de uma expectativa prioritária por parte de todos os participantes. Aspectos relacionados à capacitação para o mercado de trabalho foram as de maior freqüência. Quarenta e quatro pessoas, representando 46,3 %, responderam itens relacionados a esta capacitação.

Por exemplo, um pedreiro, de 35 anos, percebe o potencial de uso no seu trabalho, dizendo que poderia ter um “site” na Internet e concorrer como os engenheiros e empreiteiros, pois “os engenheiros pegam as obras e subcontratam os empreiteiros, que subcontratam os pedreiros, nós ganhamos muito pouco, a parte boa fica com eles.” Poderia usar também para fazer orçamentos, projetos, etc.

Um carteiro, de 53 anos, declarou: “Tenho trinta anos de correio, sou carteiro, se tivesse mais conhecimento do computador poderia melhorar na minha função”.

O uso da Internet apresentou também uma boa expectativa, inclusive na utilização para compras, mas a pesquisa aponta que isto é uma segunda prioridade dos entrevistados.

Apenas uma pessoa respondeu que utilizaria a TI para se relacionar com o governo, apresentado o termo “Comunicar-se com o Governo”.


Tabela 9 - Expectativa de uso da TI no âmbito pessoal

Descrição

Principal

Secundária

Qtd

%

Qtd

%

Capacitação pessoal para ter melhores condições de trabalho. Conseguir um emprego, ou um emprego melhor ou ainda evoluir no emprego onde está.

22

23,1

3

3,2

Melhorar os negócios/atividades profissionais já desempenhadas

18

18,8

-

-

Aprender coisas novas, independente da questão de emprego

16

16,8

4

4,2

Controles domésticos, orçamento, acompanhamento das despesas, receitas de culinária etc.

7

7,4

6

6,3

Atividades escolares próprias (trabalhos, pesquisas etc.)

5

5,3

-

-

Atividades escolares dos familiares (filhos, netos)

5

5,3

1

1,1

Acessar a Internet

5

5,3

20

21,0

Capacitar familiares para o mercado de trabalho

4

4,2

12

12,6

Comunicar-se com parentes ou amigos

4

4,2

5

5,3

Comprar pela Internet

4

4,2

3

3,2

Diversão, lazer, jogos, música (pessoal e para familiares)

3

3,2

3

3,2

Comunicar-se com o Governo

1

1,1

-

-

Usaria mas não sabe para quê

1

1,1

-

-

Desenvolvimento de atividades profissionais no próprio computador (digitação, trabalhos, pesquisas)

-

-

5

5,3

Não informado

-

-

33

34,6

Total

95

100

95

100

5.1.4.3Expectativa de uso da TI pelo Governo

Não foi apresentada uma grade de possibilidades de respostas, os dados abaixo são produtos da tabulação feita após o processo das entrevistas. Este item da entrevista procura identificar duas questões: se existe a percepção que a TI é realmente importante nas questões do governo e, sendo, em que áreas, segmentos ou atividades.



Tabela 10 - Expectativa de uso da TI pelo Governo

Descrição

Qtd

%

Capacitar as pessoas no uso do computador, visando melhores oportunidades de emprego, novos empregos ou evolução no emprego atual

38

40,0

Melhorar e agilizar o atendimento e serviços da saúde

15

15,8

Auxiliar os mais necessitados, atender os miseráveis, eliminar a fome

11

11,6

Melhorar a educação em geral, permitir que os estudantes tomem contato com o computador desde os primeiros anos de estudo

10

10,4

Citadas prioridades governamentais, mas o claro entendimento que a TI não seria relevante nestes casos

8

8,4

Melhorar as condições de emprego (não é capacitação e também não se sabe como)

3

3,2

Diminuir a violência, aumentar a segurança

2

2,1

No seu controle interno, controlando melhor os funcionários e os serviços em geral, acabar com a corrupção

2

2,1

Agilizar o serviço da justiça

1

1,1

Incentivar e controlar melhor as empresas para que elas possam dar mais emprego

1

1,1

Não informado e/ou não entendida a questão

4

4,2

Total

95

100

Oito pessoas falaram de forma clara que o uso da TI não seria relevante nas questões do governo. Estas pessoas percebem problemas e áreas prioritárias mas não associam a TI à solução destes problemas. Quatro pessoas não souberam informar e/ou não entenderam bem do que se estava falando. Os demais, 83 entrevistados que representam 87,4% dos entrevistados, apresentaram expectativas de utilização da TI pelo governo. Nas conversas era buscada uma validação das expectativas, pois julgava-se que as pessoas poderiam falar das áreas de governo que sempre são apresentadas como críticas, como saúde, segurança, trabalho, mas sem ter uma percepção do uso da TI nestas áreas. Eram feitas perguntas do tipo: mas como o computador15 poderia ajudar nisto?

Os resultados apontam uma grande expectativa na questão do emprego. Quarenta e uma respostas, representando 44,3%, abordam o aspecto emprego. Trinta e oito delas, 40%, apontam para a expectativa de que o governo capacite as pessoas, em TI, para que elas possam ter mais condições no mercado de trabalho. Muitos chegaram a comentar que até existem cursos de computação no mercado, “mas nós não podemos pagar, então o governo deveria fazer”. Registravam ainda mais esta preocupação com o custo destes cursos, pois “a família toda” precisava fazer.

“O Governo tem que se preocupar em levar a tecnologia para o povo. O país precisa disto, o Japão usa mais a tecnologia no trabalho, o povo sabe usar, e lá as coisas são melhores”. (carteiro, 55 anos)

A segunda prioridade, com 15 indicações, representando 15,8%, foi a saúde. Neste setor os exemplos foram muito claros.

Uma senhora de 74 anos argumentou a sua escolha: “A prioridade de uso de computador pelo governo deveria ser a saúde. O governo pode melhorar muito o uso do computador, como aconteceu com os bancos. O computador poderia controlar mais as consultas, agilizar o atendimento e também fazer o controle dos remédios e das consultas: a gente vai no posto e eles não sabem o que a gente tem que tomar”.

Este também era o entendimento de uma outra mulher de 65 anos, que comentou com muita clareza a falta de agilidade na saúde, citando exemplos de pessoas que na espera de uma consulta/exame tiveram muitos problemas. O computador também poderia ser usado para controlar os remédios que eles (os médicos dos serviços públicos) passam para a gente: “A gente vai lá e eles nem sabem que o remédio já acabou ou qual que tem que tomar agora”.

Um pedreiro de 45 anos foi também claro: “a saúde é um caso sério, se precisa de um médico, fica mais doente ainda – Ninguém controla nada, o computador poderia ajudar”.

Outra mulher de 55 anos comentou exemplos de pessoas que morreram na dependência de marcação de exames e/ou consultas, e de casos de outras conhecidas que tiveram que “fazer um empréstimo para pagar o tratamento particular, ainda estão pagando” a doença era grave e teriam que esperar muito tempo, “iam morrer antes, mas ainda tiveram a sorte de poder fazer um empréstimo”, ao dar este exemplo, comentou ter o entendimento que o uso do computador poderia ajudar a identificar os casos mais prioritários e agilizar o atendimento destes.

Ainda no aspecto saúde, as conversas apontavam uma necessidade de maior controle do preço dos remédios e que para isto “o computador pode ajudar”.

Auxiliar os que passam mais necessidade também teve prioridade, aparecendo em terceiro lugar, com 11 citações, representando 11,6% dos entrevistados. Foram declarações marcantes, vindas de pessoas muito simples, com baixíssimo poder aquisitivo, que declararam: “nós ainda temos alguma coisa, mas tem gente que passa necessidade mesmo, passa fome, é miséria mesmo”. Associando o uso da TI a esta questão, citações foram feitas sobre a falta de controle dos programas de ajuda feitos pelo governo, “as coisas acabam indo para quem não precisa”.

O quarto aspecto mais citado, com dez ocorrências, representando 10,5%, foi a educação. A expectativa apresentada é do acesso ao computador nas escolas já a partir dos primeiros anos, e acompanhando todo o período de estudo. Foram citadas expectativas de que as escolas deveriam ser meios de difusão de uso do computador, não só para os estudantes, mas também para as pessoas da comunidade.

A pessoa que apresentou a expectativa com a agilidade da justiça, uma mulher de 62 anos, citou o caso da mulher que foi morta pelo marido (na região e no dia anterior ao da entrevista, assunto do dia na imprensa local): “ela já havia procurado a justiça, mas a audiência era só daqui a seis meses”, afirmando de forma objetiva que o computador poderia ajudar muito estas coisas, era só o governo “querer usar”.

Além destas prioridades acima, apresentadas de forma espontânea pelos entrevistados, uma última questão procurou identificar qual a percepção de prioridade com relação às três linhas que estão se consolidando como pilares de um programa de Governo Eletrônico, conforme abordado e conceituado no item 3.4 – Governo Eletrônico: serviços ao cidadão, governança e e-democracia.

Estes conceitos eram explicados com outras palavras, buscando uma linguagem acessível aos participantes e através de exemplos de possibilidades de uso da TI nas diversas frentes.

O pilar de serviços ao cidadão foi apresentado como a criação de mais serviços, mais agilidade nos serviços, menos burocracia quando precisa-se de alguma coisa do Estado, melhor atendimento.

O pilar de governança foi apresentado associado a aspectos de mais controle interno, mais eficiência, melhor gestão dos recursos, melhor definição do que fazer, do que priorizar, racionalização dos gastos.

O pilar de e-democracia foi apresentado associado a formas de participação, a prestação de contas pelo governo, a facilidade de comunicação entre Estado e cidadão.



A solicitação era que os entrevistados escolhessem: a) o foco prioritário; b) uma segunda prioridade, se for o caso; ou c) a indicação de que NÃO é prioritário, se for o caso. O item também poderia ser deixado em branco, indicando que não era prioritário mas também não era não prioritário. A tabulação apresentou os dados abaixo.

Tabela 11 - Expectativa em relação a serviços ao cidadão

Percepção

Qtd

%

É a prioridade maior

43

45,3

É uma prioridade menor

9

9,5

Não é prioritário

2

2,1

Não comentado

41

43,2

Total

95

100


Tabela 12 - Expectativa em relação à governança

Percepção

Qtd.

%

É a prioridade maior

45

47,4

É uma prioridade menor

15

15,8

Não é prioritário

6

6,3

Não comentado

29

30,5

Total

95

100

Tabela 13 - Expectativa em relação à e-democracia

Percepção

Qtd.

%

É a prioridade maior

2

2,1

É uma prioridade menor

9

9,5

Não é prioritário

15

15,8

Não comentado

69

72,6

Total

95

100

As respostas mostram haver uma expectativa expressiva e equilibrada entre os itens serviços ao cidadão e governança. Conforme mostram as tabelas abaixo, 90 pessoas escolheram uma das linhas como prioritária, destas, 45 optaram por governança, representando 50%, enquanto 43 optaram pelo item serviços ao cidadão, representando 47,8%. Apenas duas escolheram e-democracia, representando 2,2%.

Quanto a uma segunda prioridade, apenas 33 pessoas escolheram. Havendo uma preferência por governança, com 15 indicações, seguida por serviços e e-democracia como segunda prioridade, com 9 indicações cada.

Quanto à explicitação de que o item não é prioritário, foram 23 indicações, representando a indicação de 23 pessoas, visto que a opção era única. Quinze delas, representando 65,2% dos que se manifestaram, indicaram a e-democracia como um item não prioritário, seguido de seis indicações, 26,1%, para o item governança, e duas para serviços ao cidadão, com 8,7% dos que escolheram.


Tabela 14 - Prioridade principal por componentes do e-gov

É a prioridade maior

Qtd.

%

Serviços ao cidadão

43

47,8

Governança

45

50,0

E-democracia

2

2,2

Total

90

100


Tabela 15 - Segunda prioridade por componentes do e-gov

É uma prioridade menor

Qtd.

%

Serviços ao cidadão

9

27,3

Governança

15

45,4

E-democracia

9

27,3

Total

33

100


Tabela 16 - Não prioridade por componentes do e-gov

Não é prioritário

Qtd.

%

Serviços ao cidadão

2

8,7

Governança

6

26,1

E-democracia

15

65,2

Total

23

100

Algumas observações adicionais, bem como comentários e considerações feitas pelos entrevistados, merecem destaque. Com relação à baixa prioridade atribuída à questão de e-democracia:



  • Este foi o item que menos entendimento apresentou por parte dos entrevistados, 69 dos participantes, 72,6% não se pronunciaram a respeito do tema. Dos 26 que tiveram um entendimento, 15 foram claros ao dizer que este item não depende da TI para ter um avanço, 9 disseram que depende pouco e apenas 2 viram como prioritária a utilização da TI.

  • Um pedreiro, de 35 anos, comentou: “ O computador não vai na favela ver o que é passar fome de verdade, também não consegue saber quem precisa e quem não precisa, no fundo da vila o computador não chega. Quem engorda o boi é o olho do dono”, seguindo a conversa expôs perceber que existiriam muitos outros mecanismos de aproximação, que são até buscados pelas comunidades mais carentes, mas que parecem não “chegar” no governo. E isto não acontece pela falta do computador, é “pela falta de vontade do governo”.

  • Um zelador, de 50 anos, comentou que conhecer mais o que o povo quer também é importante e o computador pode ajudar, mas já tem outras formas e ele já tem um monte de informação. Ele usa mais as informações para cobrar do que para fazer alguma coisa.

  • Uma educadora, de 41 anos, comentou que quanto ao seu uso para uma maior participação, acha que não é o foco. Existem outras formas, como o caso do projeto em que está envolvida. Não precisa do computador para saber a necessidade do pessoal, é só querer ir lá e ver.

  • Quanto à participação, já existem mecanismos que, mesmo sem o uso do computador, não são buscados pelo governo. (rapaz, 15 anos, estudante)

  • Não é o computador que vai fazer a diferença, mas a vontade de chegar mais próximo de quem está necessitado. (mulher, 30 anos, do lar)

  • Quanto à questão da cidadania/participação, já existem outras formas, não dependem do computador, é só usar. (mulher, 74 anos, aposentada).

As respostas priorizando serviços ao cidadão e governança foram comentadas com questões próximas às registradas no item anterior, expectativa de uso independente destes três aspectos. Em serviços, eram citados aspectos relacionados à saúde e à morosidade de qualquer serviço público.

As pessoas entrevistadas citaram ter percebido o efeito do uso da TI nos serviços de outros setores, e que estes ainda não chegaram no governo. Foram feitas diversas referências aos serviços bancários e aos supermercados, que tiveram mudanças, para melhor, a partir do uso da TI. No governo isto ainda não chegou, segundo comentários dos entrevistados.

Três pessoas citaram que na questão de eficiência interna, ligada à governança, a TI não adianta, pois são situações que não mudam mais. É uma falta de crença na possibilidade de mudança no setor público.

Três pessoas também citaram que no âmbito interno do governo a TI não deveria ser muito usada para não gerar mais desemprego.

Uma última referência ainda merece destaque, a de um pedreiro, de 55 anos, que disse que o governo deveria usar mais a TI na parte de controle. Melhores serviços não estão sendo deixados de ser prestados por falta do computador, mas por falta de mais controle interno. O pouco que o governo usa, tanto interno como para fiscalizar as empresas, de pouco adianta, pois o pessoal acha a forma de burlar os controles. (citou como exemplo conhecer repartições que trabalham com “ponto eletrônico”, mas que é fraudado da mesma forma).

Finalmente, as análises obtidas a partir deste instrumento de pesquisa, indicam que os participantes são detentores de expectativa em relação à utilização da TI pelo governo. Estas respostas serão usadas nos próximos tópicos deste capítulo, compondo com os demais dados obtidos pelos outros levantamentos, aqui relatados, a resposta para a pergunta de pesquisa e a análise das hipóteses formuladas.





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