Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE LETRAS

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

O leitor, esse conhecido:

Monteiro Lobato e a formação de leitores

Eliane Santana Dias Debus

Tese apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Letras, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como requisito parcial e último para obtenção do título de Doutor em Letras. Área de concentração: Teoria Literária

Profa. Dr. Regina Zilberman

Orientadora

Data de defesa: 18/01/2001

Instituição depositária:

Biblioteca Central Irmão José Otão

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Ao Zeca, companheiro da minha história, e

à Maria Herta, gestada desse amor.

AGRADECIMENTOS

Às generosas famílias Santos e Silva: Mafalda e Daia, tios, que pela compreensão abriram a porta de sua casa para minha hospedagem; e aos primos, amigos e compadres Eliete e Beto, também filhos da PUC, pela afetividade, carinho e compreensão com que me abrigaram em terras gaúchas.

Aos meus pais, Maria Santana Dias e José Dias, que me impregnaram do desejo pela leitura.

Ao mestre Lauro Junkes, pelo incentivo na continuidade de minha vida acadêmica.

À professora Regina Zilberman, pelo estímulo e confiança que antecedeu esta pesquisa, bem como pela orientação criteriosa no desenvolvimento do trabalho.

Às professoras Vera Teixeira Aguiar e Maria da Glória Bordini, pela relevância das disciplinas ministradas durante o curso, e aos demais professores e funcionários do curso de Letras.

A Cláudia Antônia de Losangeles Silveira, Mara Rejane Martins Nascimento e Maria Isabel Daudt Giulian, funcionárias da Pós-Graduação, que muitas vezes resolveram problemas que excediam as suas funções.

À colega e amiga Claudete Amália Andrade, companheira das viagens entre Florianópolis e Porto Alegre, interlocutora não só das leituras, como também das angústias durante o curso.

As entrevistados Alarico Silveira Júnior, Gilson Maurity Santos, Cordélia Fontainha Seta, Nicean Serrano Telles, Lucy Mesquita, Hilda Junqueira Villela Merz e Joyce Campos Kornbluh.

Às instituições Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, em especial ao Museu Monteiro Lobato, que faz parte dessa instituição, e ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.



À CAPES, através de seu programa de apoio à capacitação docente, pela concessão da bolsa (Programa Demanda Social) que permitiu a dedicação exclusiva ao curso.

SUMÁRIO
Introdução 6
Capítulo 1: Percalços e acasos: causos do percurso 11
Capítulo 2: Todos os caminhos levam à leitura 24

2.1 Lobato: um homem faminto por leitura 25

2.2 Contemplando o leitor 35

2.3 Livro para quem tem fome de leitura 44

2.4 “É hora gente!” ... Lá vem a história 55

2.5 A biblioteca e a escola: uma relação de camaradagem 70
Capítulo 3: Entre apupos e tapinhas nas costas: a recepção crítica 80

3.1 Caça às bruxas: Lobato na mira da censura 81

3.2 Os discursos da crítica: ontem 93

3.3 Os discursos da crítica: hoje 102

3.4 A permanência da literatura infantil de Lobato 109

    1. Lobato pelo olhar do leitor 115

3.5.1 Monteiro Lobato: perfis 115

3.5.2 Penas de pato, teclas e linotipos 119

3.5.3 O escritor e o homem de ação:

duas faces da mesma moeda 121
Capítulo 4: Marcas da leitura 124

4.1 E por falar em leitor... 125

4.2 Os leitores des(a) fiam a memória 131

4.3 Da leitura à escritura: livros que se contam 144

4.4 Livros que contam Lobato 152

Capítulo 5: O leitor, esse conhecido 157


5.1 A invenção do leitor 158

5.2 Leitor histórico: carne, osso e sentimento 162

5.3 As cartas: prêmios do grande milionário 175

5.3.1 A surpresa da resposta 179

5.3.2 Leitura e escola 182

5.3.3 Pequenos escritores 188

5.3.4 Interferindo e questionando a palavra escrita 190

5.3.5 A materialidade do impresso 192

5.3.6 Outras leituras 193

5.3.7 O que escreve os pais e as mães 195

5.3.8 O reconhecimento do eu 197

5.3.9 Da doença à saudade 200

    1. De volta ao remetente 203

5.4.1 Meu amigo íntimo 204

5.4.2 Mestre Gilson 208

5.4.3 A menina das balas de cacau 215

5.4.4 Graciosa mineirinha 218

5.4.5 Linda criança 221

5.4.6 Miss Joyce 222

5.4.7 Menina corajosa 223

    1. Entre a lembrança e o esquecimento 227

    2. Vozes seladas 232



Conclusão 236

Referência Bibliográfica 241

Anexo 1: Cronologia bibliográfica 250

Anexo 2: Reportagem sensacional 253


Anexo 3: Cartas recebidas 257

Anexo 4: Cartas inéditas de Monteiro Lobato 273

Anexo 5: Entrevistas 294
Curriculum Vitae 317


INTRODUÇÃO

Isso de começar não é fácil. Muito mais simples é acabar. Pinga-se um ponto final e pronto; ou então escreve-se um latinzinho: FINIS. Mas começar é terrível.1

As dificuldades do começo levantadas pela boneca Emília, mais do que pretexto, insinuam-se, no contexto deste trabalho, com as suas verdadeiras nuances: as dificuldades do processo de elaboração da escrita. Difícil pela multiplicidade de caminhos que se pode tomar ao escrever sobre si (no caso da boneca) e ao ler o outro (no caso deste trabalho, a obra de Monteiro Lobato).

Este trabalho busca investigar o papel desempenhado por Monteiro Lobato (1882 – 1948) na formação de leitores, em especial aqueles que tiveram sua infância nas décadas de 20, 30 e 40, período em que o escritor se encontrava em plena atividade literária.

José Renato Monteiro Lobato nasceu no tempo da Monarquia, da escravidão e da agricultura do café, no entanto, a sua primeira consciência como indivíduo deu-se ainda na infância, quando troca o nome por causa de uma bengala, que herdaria de seu pai com as iniciais J.B.M.L. Nascia ali, por causa de um capricho e do fascínio pelo unicórnio incrustado na bengala, José Bento Monteiro Lobato.

A abolição da escravatura não mudou a relação do menino Juca com as crias da casa, e a República o encontrou fazendo bonecos de espigas de milho, pescando no ribeirão e divertindo-se na biblioteca do avô. O diploma de advogado o fez conhecer as cidades mortas, quando era promotor em Areias. No início da I Guerra ele lidava com as oscilações do preço do café e com uma velha praga agrícola.

Colaborador de diversos jornais estudantis na juventude, é através desse veículo que Monteiro Lobato vê seu nome despontar quando em 1914, exercendo a atividade agrícola, envia à seção de “Queixas e reclamações” d’O Estado de S. Paulo o artigo “Velha praga”. Em 1917 promove nesse mesmo periódico um inquérito sobre a figura folclórica do Saci Pererê que se torna livro em 1918, mesmo ano da publicação de Urupês. A surpreendente recepção do inquérito, publicado na gráfica do jornal, leva Lobato à segunda tentativa editorial, agora pela Revista do Brasil, periódico que lhe pertencia.

Em 1920, quando traz a público o seu primeiro livro direcionado para as crianças, já possuía em seu currículo a publicação de outros quatro títulos: dois de contos e dois de reuniões de artigos,2 publicações viabilizadas pelo próprio escritor, que se tornara também editor em 1919 com a criação da editora Monteiro Lobato & Cia. Embora tenha incursionado por vários gêneros é na literatura infantil que seu nome vai repercutir mais alto. Aos poucos Lobato vai deixando de lado a sua literatura “para adultos” e construindo um universo ficcional especial para as crianças,3 que só vai ter fim quando deixa a vida, já que pouco tempo antes de morrer ainda fazia planos para seus próximos textos infantis.

Leitor costumaz, Monteiro Lobato já na tenra infância descobriu nos livros o prazer da leitura e, quando envereda pelo mundo da escrita, traz em seus textos o interesse constante pelo outro, o leitor. No seu discurso, quer seja o ficcional, quer seja o teórico, se assim podemos denominar os seus artigos e cartas, observa-se preocupação constante com o papel do leitor, da leitura e do livro. É uma preocupação que vai ganhando força e se consolida na sua literatura infantil, resultando no que consideramos um projeto de leitura desenvolvido pelo escritor. Por esse viés, a sua literatura infantil não é considerada um mero “acidente” ou “imprevisto” na sua caminhada literária, mas, sim, resultado de uma longa reflexão. Bem antes de ouvir a famosa narrativa de seu amigo José Maria Toledo Malta sobre o peixinho que morreu afogado, Lobato já havia se decidido pelo mundo da infância, embora não tivesse encontrado ainda o fio condutor que surgiu naquela partida de xadrez.

Não constitui nenhuma originalidade afirmar que Monteiro Lobato desempenhou uma função crucial na construção da literatura infantil brasileira. Entretanto, partimos da hipótese de que ele, como fomentador da produção, difusão e circulação do livro, exerceu um papel fundamental na formação de um público leitor que referendasse o estatuto desse novo gênero que se anunciava.

Sua produção literária está definitivamente marcada pelo seu pragmatismo, e a sua literatura infantil não pode deixar de ser analisada, também, como uma forma prática de garantir um público leitor não só no sentido utópico e futuro, mas também como consumidor concreto no momento presente da publicação de seus textos. Acreditamos que, mais do que influência, a leitura de sua literatura infantil, nas décadas de 20, 30 e 40, colaborou para a construção de uma certa sensibilidade leitora.

Figura polêmica, Monteiro Lobato vem nos últimos vinte anos recebendo uma maior atenção de pesquisadores, quer seja daqueles que se debruçam sobre sua vida, quer seja dos que visitam sua produção literária, em especial aquela produzida para crianças, como pode ser observado no capítulo 3 deste trabalho, quando fazemos o levantamento de alguns estudos contemporâneos sobre o escritor e o seu papel literário. No entanto, não encontramos em nenhuma dessas pesquisas uma investigação que desse conta de dois pontos que consideramos primordiais: o papel desempenhado pelo escritor para a formação de leitores e as reais condições de recepção da literatura infantil lobatiana.

Partindo dessa constatação, dedicamo-nos a verificar no discurso de Lobato (teórico e ficcional) e nas suas atividades práticas o seu posicionamento como formador de leitores. Já a recepção de seus livros no período estudado será analisada a partir do discurso mediador das instituições (Estado e Igreja) e da crítica literária, e também de depoimentos posteriores à leitura realizada na infância e do testemunho da leitura no seu momento de apreensão através das cartas das crianças, leitoras de Lobato.

O contato epistolar de Lobato com seus leitores talvez seja o mais profícuo e original encaminhamento de recepção mirim de que se tem notícias, pois acreditamos que a atuação dos leitores contribuiu de forma efetiva para o desenvolvimento da sua literatura infantil. Por isso, neste trabalho, dedicamos particular atenção aos registros testemunhais de leituras oriundos das cartas dos leitores.

As cartas são exemplos da presença concreta de manifestação da leitura e apresentam subsídios para refletir sobre a conduta e as reações dos leitores, bem como se tornam testemunhos, já que estas vozes acabarão nos fornecendo informações importantes para refletirmos sobre a recepção da literatura lobatiana e averiguarmos o quanto o seu projeto para a formação de um público leitor foi efetivado.

Marisa Lajolo observa que tanto para os biógrafos como para os pesquisadores “as cartas são as cartas sobre as quais cada um banca o seu jogo”,4 revelando a importância da correspondência de Monteiro Lobato. As cartas também farão parte deste trabalho, só que, além das cartas de Lobato, encontramos nas cartas dos leitores outro olhar sobre o mesmo discurso. Isto é, Lobato diz o que pretendia; os leitores dizem o que ele realizou.

Para concretizar nosso objetivo, tomamos como referencial teórico os pressupostos da estética da recepção, por considerá-los condizentes com uma pesquisa que se volta para a reflexão sobre a maneira e as condições da produção e da recepção da obra literária. Paralelamente aos depoimentos posteriores de leitura, temos em mãos um discurso sobre a prática de leitura no seu momento de apreensão, o que possibilita reconstituir a reação e atuação do leitor. No entanto, não nos centraremos na aplicação prática dessa teoria, mas a tomaremos como contribuição necessária e válida.

O trabalho está estruturado em cinco capítulos. No primeiro apresentamos os caminhos trilhados para chegarmos até a presente pesquisa, o encontro com a correspondência infantil emitida nas década de 30 e 40 e o contato com alguns desses mesmo leitores, muitos anos depois.

No capítulo dois, mapeamos a trajetória leitora de Monteiro Lobato – seu repertório de leituras da infância à fase adulta –, buscando também evidenciar a valorização que o escritor dá à figura do leitor e a sua concepção de leitura e literatura infantil, bem como a importância de seu desempenho como editor na construção de um público leitor.

No capítulo três, destacamos a recepção dos textos infantis de Lobato por um grupo específico de leitores que se tornam intermediários no acesso à leitura: primeiro, o discurso institucional do Estado e da Igreja que “proíbe” a utilização dessa literatura; segundo, a reconstituição do discurso da crítica entre 1921 e 1944; e finalmente a palavra da crítica contemporânea. São discursos múltiplos sobre o mesmo material.

No capítulo quatro, debruçamo-nos sobre depoimentos posteriores a leituras realizadas na infância e sobre textos ficcionais que se reportam a essas mesmas leituras e que também se tornam testemunho da permanência da leitura no período infantil. No capítulo cinco, recolhemos das narrativas infantis de Monteiro Lobato a representação ficcionalizada de um público leitor e desvelamos nessa mesma produção a inserção de leitores reais, de carne e osso. Esse levantamento só foi possível a partir das cartas e é pelas mesmas cartas que sistematizamos a recepção das narrativas e a expectativa desses leitores. Para finalizar, reencontramos sete desses leitores, que testemunham a importância dessa leitura na infância.

Constituem partes integrantes desta tese cinco anexos. O anexo 1 apresenta um quadro cronológico das publicações de Monteiro Lobato. Embora ele tenha sistematizado sua produção literária e organizado-a em duas grandes coleções – a literatura geral, com dezessete títulos, em 1946, e a literatura infantil, com 23 títulos, em 1947 – ela reúne um número maior de títulos, principalmente se tomarmos as publicações no seu original, sem as constantes revisões do escritor. Outro ponto a ser lembrado são as publicações póstumas e as narrativas que ele não incluiu na organização das obras completas. Observando o quadro cronológico dessa produção, vê-se que ele foi paulatinamente deixando sua literatura para adultos e adentrando no mundo da infância.

O anexo 2 traz a entrevista de Lobato concedida ao jornal A Voz da Infância, órgão da Biblioteca Municipal Infantil de São Paulo, em seu segundo número. A sua inclusão se deve a dois motivos: primeiro, porque ao conceder a entrevista a dois meninos, representantes do jornal, Lobato mostra sua adesão ao projeto da Biblioteca; segundo, porque ele apresenta em seu discurso o mesmo encaminhamento de suas narrativas, ou seja a valorização do seu interlocutor – a criança.

O anexo 3 é constituído pelas correspondências recebidas dos entrevistados entre 1996 e 2000. O anexo 4 reúne sete cartas de Lobato escritas a leitores infantis e até agora inéditas em sua íntegra. E o anexo 5 traz a resposta dos leitores Alarico Silveira Júnior e Gilson Maurity Santos e das leitoras Nicean Serrano Telles de Souza Campos, Cordélia Fontainha Seta e Lucy Mesquita Sabino de Freitas ao questionário enviado. Encontra-se ali também a transcrição da entrevista realizada com Hilda Junqueira Villela Merz e Joyce Campos Kornbluh.

As várias vozes que dialogam em nosso discurso se inter-relacionam, contribuindo para o desvendamento do caráter estético e da função social da leitura na formação de um público leitor.



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