Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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A escolha de Lobato em produzir no silêncio noturno se faz menos por opção, é quase uma obrigação, pois para ele o trabalho intelectual exigia concentração tal, que se tornava impossível criar no burburinho das atividades domésticas e com os ruídos da rua. Em carta a Rangel ele expõe sua convicção: “Se no silêncio dum gabinete só as emoções íntimas gravitam pelos bordões, sai coisa. Mas se por ele se metem guinchos de crianças, ralhos de mãe, as vozes da rua e o mais, o que nos sai é uma salgalhada de pepinos crus”.347




3.5.3 O escritor e o homem de ação: duas faces da mesma moeda



Haverá alguma coisa no mundo que não se gestasse por esse processo, primeiro o sonho, depois a realização.348


É inegável que Lobato foi um homem de ação, concomitantemente à sua atividade de escritor. Ele planejava e, muitas vezes, executava projetos mirabolantes e empreendimentos, em sua maioria, frustrados. Algumas das idealizações práticas estavam vinculadas à literatura, como o empreendimento editorial e a criação da União Jornalística Brasileira (UJB),349 outras pertenciam à esfera estritamente econômica.



O escritor esteve durante sua vida envolvido em campanhas e empreendimentos econômicos dos mais variados, grandes e pequenos, uns realizáveis, outros nunca saídos do papel; entre eles podemos citar: 1905 – fábrica de doces em vidro em sociedade com Eugênio de Paiva Azevedo; 1907 a 1911 – promotor em Areias; 1910 – sócio duma empreitada de sessenta quilômetros de estrada de ferro; 1911 – dono de um Colégio Externato em Taubaté; projeto de criação de um sanatório em São José dos Campos; 1913 – idealiza junto com o amigo Ricardo Gonçalves tornar o Viaduto do Chá habitável e explorá-lo comercialmente; 1911 a 1917 – fazendeiro em Buquira; 1918 a 1925 – dono da editora Monteiro Lobato & Cia.; 1925 vende a casa lotérica que possuía em sociedade com Octalles Marcondes Ferreira; 1925 – funda juntamente com Octalles Marcondes Ferreira a Companhia Editora Nacional; 1927 a 1931 – exerce a função de adido comercial brasileiro em Nova Iorque; 1931 a 1941 – funda a Companhia Petróleo do Brasil e mantém campanha acirrada a favor da extração do petróleo; 1938 – cria a União Jornalística Brasileira com o objetivo de redigir e distribuir notícias pelos jornais do interior do país.

A característica empreendedora e comercial de Lobato foi desvinculada da figura de escritor, como se as duas funções não pudessem coexistir no mesmo homem. Em muitos casos, as próprias afirmações de Lobato contribuíram para essa dissonância.


O artigo “Arte e Mercantilismo”,350 de Alceu Amoroso Lima, apresenta a idéia comum que gravitava sobre a cabeça dos intelectuais da época, a de que literatura não era mercadoria e seu exercício nunca poderia estar vinculado ao lucro. Talvez o próprio Lobato assim pensasse e, por isso, encontrava-se sempre envolvido com projetos econômicos, buscando formas de enriquecer para poder escrever tranqüilamente. E é ele próprio que, no fim da vida, confessa ter perseguido um caminho oposto ao resultado:
Passei a vida tentando fazer dinheiro com a indústria e não dando importância à minha literatura. no fim, que é que me deu dinheiro? A minha literatura, só ela. Em tudo mais perdi dinheiro, tempo e por algumas semanas até a liberdade.351

O depoimento de Alceu Amoroso Lima afina-se ao de muitos críticos de sua época, que viam nas atividades extraliterárias de Lobato uma barreira ao exercício da escrita. O seu amigo e confidente epistolográfico, Godofredo Rangel, expõe de forma objetiva o conflito vivido pelo escritor, que muitas vezes renegava a própria literatura em função de suas atividades práticas: “É que o segundo, o homem prático, renega o primeiro como companheiro indesejável, envergonha-se dele, diz-lhe nomes... Penso que poucos escritores falaram tanto mal dos literatos como Monteiro Lobato”.352

Cassiano Nunes, no entanto, destaca que Lobato foi antes de tudo um escritor e, mesmo estando envolvido com atividades variadas, principalmente na campanha em prol do petróleo, aqueles que conviviam com Lobato o reconheciam, acima de tudo, pelo exercício da escrita:

Mesmo freqüentemente renegando a literatura, a condição de beletrista, temos de convir que Lobato não foi outra coisa senão escritor, pois era como escritor, com a imaginação de escritor, que agia, que agitava. E acredito que os seus companheiros de empreendimentos industriais, fascinados pela sua visão fabulosa, nele só viam o escritor, nele respeitavam o escritor.353


Se tomarmos como exemplo as notícias nos jornais sobre as viagens de Monteiro Lobato pelo país em campanha pelo petróleo, vemos que o acolhimento da população às suas palavras davam-se mais pela admiração ao escritor do que pela crença no empreendedor. Eram crianças de grupos escolares que o iam saudar no aeroporto, em busca do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Até mesmo as pessoas mais ilustres das cidades – prefeitos, juízes – sempre levavam à frente a expectativa de confraternização com o escritor.

Marco Antonio Villa354 compara Monteiro Lobato a duas personagens ficcionais, primeiro ao Coronel Aureliano Buendía, de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques, que perdeu todas as 32 revoluções armadas de que participou; segundo, a Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, que também tentou desenvolver em sua fazenda uma nova raça de galinhas. De fato, como que marcado pelo destino, todas as bem mais de 32 revoluções econômicas empreendidas por Lobato foram à bancarrota. Segundo Villa: “faltou a Lobato paciência e uma visão utilitária e de longo prazo, típica do capitalismo americano, que ele tanto admirou”.355

O levantamento apresentado neste capítulo se completa com o capítulo seguinte. Se aqui destacamos a recepção crítica dos livros infantis de Lobato, lá teremos também o discurso de alguns desses estudiosos, sem o caráter avaliativo e sim memoralístico. Apoiando-se nas lembranças da infância, os depoimentos a seguir apresentam a relação do leitor com a leitura dos livros de Lobato.



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