Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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CAPÍTULO 4

AS MARCAS DA LEITURA




4.1 E por falar em leitor...

Para a análise da experiência do leitor ou da ‘sociedade de leitores’ de um tempo histórico determinado, necessita-se diferenciar, colocar e estabelecer a comunicação entre os dois lados da relação texto e leitor.356

Refletir sobre a existência de um texto ou o conjunto de uma produção literária sem levar em conta a concretização do ato da leitura parece querer condená-la ao limbo, enclausurá-la e privá-la da própria existência, na medida em que cabe ao leitor o papel de trazê-la ao mundo.

Num primeiro momento essa afirmação pode soar banal e sem força, já que desnecessária. No entanto, a figura do leitor no processo de reflexão não é um aspecto que faz parte da tradição dos estudos literários. Durante muito tempo, o interesse dos estudiosos ficou restrito à figura do autor ou à análise imanentista do texto. Escritor, texto e leitor não seriam parte integrante do mesmo processo?

Sartre, ao levantar o questionamento “Para quem se escreve?”, observa que à primeira vista a resposta é certeira: aquele que escreve se dirige a todos os homens, ao leitor universal. Contudo, por mais que almeje a permanência de sua obra à posteridade, “o escritor fala a seus contemporâneos, a seus compatriotas, a seus irmãos de raça ou de classe”.357 Nessa perspectiva, o leitor assume uma natureza dupla: o leitor universal e o leitor concreto.

Partindo desse pressuposto, o leitor não é um sujeito a-histórico; ele está inserido num contexto social e possui uma bagagem de conhecimento definido. Portanto, não é um sujeito neutro, desprovido de conhecimento, nem por isso um conhecedor da totalidade; a produção artística aproveita-se do conhecido para ensinar-lhe o desconhecido. Potencialmente, a obra literária pode ser universal, mas não é assim concebida no seu momento de feitura. O escritor histórico escreve para um leitor histórico, com o mesmo “gosto na boca”. Sartre ainda destaca que:


Escritura e leitura são as duas faces de um mesmo fato histórico, e a liberdade à qual o escritor nos incita não é uma pura consciência abstrata de ser livre. A liberdade não é, propriamente falando; ela se conquista numa situação histórica; cada livro propõe uma libertação concreta a partir de uma alienação particular.358
As idéias de Sartre, gestadas no período conturbado do pós-guerra (1947), enfatizam o papel do leitor que, no ato de ler, complementa o ato de escrever. Outros estudiosos359 trouxeram à figura do leitor os holofotes, sem, contudo, construir um gerador que lhe fornecesse luz própria e que lhe prolongasse a existência.

Coube ao professor da Universidade de Constança, Hans Robert Jauss, em sua aula inaugural do ano letivo de 1967, revitalizar o questionamento dos estudos relativos à história da literatura e consolidar o papel do leitor enquanto ser integrante da estética literária. Nesse primeiro momento, Jauss realiza um panorama crítico da história da literatura tradicional e desenvolve sete teses objetivando uma nova metodologia e forma de (re)escrever a história da literatura.

Ao fazer o levantamento crítico da pré-história da ciência literária, Jauss opõe-se aos dois modelos metodológicos adotados pelos historiadores da literatura. O primeiro modelo ordena o material literário “segundo tendências gerais, gêneros e ‘outras categorias’, para então, sob tais rubricas, abordar as obras individualmente, em seqüência cronológica”;360 o segundo modelo adota o padrão da Antigüidade Clássica, ordenando o material literário de forma unilinear, “seguindo a cronologia dos grandes autores e apreciando-os conforme o esquema ‘vida e obra’”.361

A filosofia da história do século XIX, caracterizada por sua visão progressista, legou à história da literatura uma metodologia voltada para um painel de época em que as obras anteriores seriam mero trampolim, “estágios” para as gerações posteriores; tal posicionamento pressupõe um privilégio da última em relação às obras antecedentes. Já a influência da escola positivista e da escola idealista contribuiu para o afastamento entre a estética e a história.

As teorias literárias desenvolvidas pelo marxismo e pelo formalismo, por sua vez, privam a literatura da dimensão de sua recepção e de seu efeito, pois ignoram a figura do leitor. O autor acredita ser possível, através do leitor, destinatário primeiro da obra, reatar os fios entre o “fenômeno passado à experiência presente”,362 entre os aspectos estéticos e os aspectos históricos.

Jauss propõe uma história da arte e da literatura fundada em outros princípios: as análises literárias deveriam mudar o enfoque, não mais centrando-se no texto ou no autor, e sim no que denominou de “terceiro estado”: o leitor. Tal perspectiva colocaria em foco a figura do sujeito produtor (destinador) interagindo com a do consumidor (receptor). A arte obedeceria a uma função dialética: formadora e modificadora de percepção.363

A historicidade da obra literária se consolida pela atualidade que é determinada pelo leitor, pois não depende, nesse caso, da época em que foi escrita, mas quando foi lida. Essa postura rompe com a noção da cadeia temporal, uma vez que o autor e a obra começam a fazer parte da história no momento em que são lidos, no momento em que são aceitos pelo público leitor. Em sua primeira tese, Jauss enfatiza a relação dialógica, entre o leitor e o texto, que constitui a produção literária. Desse ponto de vista, a obra nunca é monológica ou atemporal: “Ela é, antes, como uma partitura voltada para a ressonância sempre renovada da leitura, libertando o texto da matéria das palavras e conferindo-lhe existência atual”.364

Em sua segunda tese, ele argumenta que a experiência literária pressupõe um “saber prévio”. A obra não se apresenta ao leitor como novidade total, ela se reporta ao “já lido”, constitui eco de outros textos, de outros contextos da experiência leitora. Desperta e aguça no público leitor expectativas quanto ao meio e fim do tecido narrativo.

Para Jauss, somente na relação dialógica da obra com o leitor concretizam-se o caráter estético e o papel social da arte. Voltado para a experiência estética enquanto momento de prazer, formula os conceitos de fruição compreensiva e compreensão fruidora - o leitor gosta daquilo que compreende e só poderá compreender aquilo que aprecia - sendo o prazer e a compreensão processos simultâneos:365

O prazer estético que, desta forma, se realiza na oscilação entre a contemplação desinteressada e a participação experimentadora, é um modo da experiência de si mesmo na capacidade de ser outro, a capacidade a nós aberta pelo comportamento estético.366

Jauss introduz as três categorias básicas retiradas da tradição estética, que explicitariam a experiência estética da obra em relação ao seu emissor-criador e receptor, que pode tornar-se seu co-produtor: poiesis, aisthesis e katharsis. A poiesis remete ao “prazer ante a obra que nós mesmos realizamos”;367 a interação entre texto e leitor possibilita ao segundo tornar-se co-produtor da criação literária. A aisthesis se concretiza por meio do efeito, ou seja, o leitor reconhece os elementos representados e renova o seu conhecimento sobre esses elementos, no que Jauss designa de “o prazer estético da percepção reconhecedora e do reconhecimento perceptivo”.368 A katharsis designa “aquele prazer dos afetos provocados pelo discurso ou pela poesia, capaz de conduzir o ouvinte e o espectador tanto à transformação de suas convicções, quanto à liberação de sua psique”,369 isto é, por meio da identificação entre os elementos da narrativa e o leitor, processa-se a katharsis, que não se restringe somente à liberação das emoções, como também é catalisadora de ação, levando o leitor à reflexão frente à sua realidade. Correspondem essas três funções básicas aos aspectos de produção, recepção e comunicação, que conservam o seu caráter de experiência estética se mantiverem o caráter de prazer.

As pesquisas de Jauss se direcionam para a reconstrução histórica da forma como o texto foi recebido e interpretado por leitores diversos ao longo do tempo e o seu efeito atual, resultando na fusão de dois horizontes: o do autor que construiu sentido e o do público que (re)interpreta o sentido em confronto com o tempo atual. A objetivação do horizonte de expectativa é possível através daquelas obras que, adotando uma convenção (seja de gênero, estilo ou de forma), evocam um horizonte de expectativa para logo abandoná-lo ou destruí-lo, bem como em obras “historicamente menos delineadas”.370

A estética da recepção adota, como critério de determinação do valor estético da obra literária, o seu poder de decepcionar ou contrariar as expectativas leitoras no momento de sua aparição, isto é, “a distância entre o horizonte de expectativa e a obra, entre o já conhecido da experiência estética anterior e a ‘mudança de horizonte’”.371 A redução dessa distância é comum na arte ligeira ou “culinária”, pois fica dentro dos limites do conhecido e do esperado e não exige do leitor nenhuma mudança. Tal fato pode ocorrer, também, com obras literárias que, no momento de aparição, eram inovadoras e para o leitor atual se tornam óbvias.

A reconstituição do horizonte de expectativa de criação e recepção da obra literária pode propiciar indicadores de como determinada obra foi recebida pelo público leitor, permitindo que se desvende a pergunta desse mesmo público a qual a obra respondeu no momento de sua aparição. No entanto, a reconstituição da pergunta não se encontra mais no horizonte primeiro e original, ela já está contaminada pelo horizonte atual. Assim, a compreensão histórica da obra implica uma fusão de horizontes, resultando, também, numa consciência da história dos efeitos, já que a obra foi, ao longo do tempo, acumulando interpretações e recepções.

As duas possibilidade de concretização do texto literário pelo leitor são assim definidas: uma orientada para o horizonte implícito de expectativa e outra para a análise das expectativas externas à obra, relacionadas à vivência do leitor. No primeiro, de cunho intraliterário, o efeito é condicionado pela obra. O leitor implícito, criação ficcional, depende das estruturas objetivas da obra; no segundo, de cunho extraliterário, a recepção é condicionada pelo leitor. O leitor explícito depende de fatores externos à obra literária.372

Em sua última tese, Jauss aponta sobretudo para o caráter emancipatório da obra literária, que, ao apresentar o novo, desautomatiza as expectativas do leitor, apresentando-lhe um horizonte diferente do habitual:

O horizonte de expectativa da literatura distingue-se daquele da práxis histórica pelo fato de não apenas conservar as experiências vividas, mas também antecipar possibilidades não concretizadas, expandir o espaço limitado do comportamento social rumo a novos desejos, pretensões e objetivos, abrindo, assim, novos caminhos para a experiência futura.373

Wolfgang Iser vincula-se igualmente à Escola de Constança. Como Jauss, ele parte da idéia de que o texto só existe a partir da atuação do leitor. No entanto, eles possuem orientações e métodos diferentes: o primeiro necessita do testemunho da leitura, enquanto a orientação de Iser recai sobre o próprio texto, argumentando que ele possui uma estrutura apelativa que colabora para o efeito e reação do leitor frente à obra.

No prefácio à primeira edição de seu livro O ato da leitura, Iser colocava essas duas orientações como “antagônicas” e até mesmo divergentes. Já no prefácio à segunda edição percebe-se uma reformulação de sua postura:
O efeito e a recepção formam os princípios centrais da estética da recepção, que, em face de suas diversas metas orientadoras, operam com métodos histórico-sociológicos (recepção) ou teorético-textuais (efeito). A estética da recepção alcança, portanto, a sua mais ampla dimensão quando essas duas metas diversas se interligam.374
O leitor compreende a obra dentro dos limites do seu momento, inserido em seu contexto sócio-cultural. Assim, ao analisar a experiência estética do público de leitores da obra infantil de Monteiro Lobato, através de seus próprios depoimentos, busca-se evidenciar as condições históricas dessa recepção; reconstruir seu horizonte de expectativas e reconhecer se essa produção foi relevante para a formação desse grupo de leitores.

Num primeiro momento, recolhemos depoimentos de leituras de conhecimento público, divulgadas através de material impresso, que retomam a leitura na infância; em sua maioria realizadas na década de 30, 40 e 50. Num segundo momento, a fonte dos relatos circunscreve-se ao espaço da troca de cartas entre o leitor e o autor, nas décadas de 30 e 40. Pode-se, à primeira vista, acolher tal tarefa como redundante, pois as duas coletas correspondem ao mesmo tipo de seleção e quase ao mesmo período. No entanto, encontra-se uma diferença que achamos importante frisar.

O primeiro olhar voltar-se-á para um material que retoma a lembrança, quer seja de forma espontânea, quer seja de forma provocada, de uma leitura realizada em um tempo já distante. Esse fato leva-nos a certas precauções, pois, como questiona Pedro Nava: “Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança e começa a ficção?”.375 Nesse caso específico, a retomada pelo leitor do contexto histórico em que a leitura se efetivou está carregada com a vivência atual. Assim, muitos desses leitores, agora adultos, com um arsenal de leituras e experiências de vida redimensionadas pelo amadurecimento biológico, retomam a leitura de seus livros de infância com um outro olhar



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