Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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O segundo grupo de depoimentos, que será apresentado no capítulo 5, reúne a correspondência de leitores crianças e suas declarações redigidas ao calor da leitura, com os dedos ainda quentes de virar as páginas do livro ou o olhar ainda perdido em busca da imagem do Picapau Amarelo e do seu pessoalzinho.



4. 2 Os leitores des(a)fiam a memória


Ele se aproximava do leitor na hora melhor para fazer amigos. Conquistava o seu público na melhor fase da vida. E podia ficar, para sempre, na sua memória. Todo Matusalém Silva ou Silveira do futuro que um dia começasse a recordar a infância, no descer da encosta, se lembraria com ternura de Monteiro Lobato e seus personagens.376

Escolhemos para esse primeiro momento de reflexão o testemunho de vinte leitores que tiveram contato com a literatura de Monteiro Lobato na infância. Entre eles um repórter, um editor, dois psicólogos; os demais se dividem no ofício do magistério e da escrita, seja produzindo seus próprios textos, seja analisando textos alheios.

A escritora Tatiana Belinky passou sua infância em Leningrado e lá teve sua iniciação à leitura a partir dos cinco anos de idade e em dois idiomas (russo e alemão). Ao chegar no Brasil, com dez anos de idade, trazia na bagagem um vasto repertório literário que incluía os clássicos infantis (os contos de Grimm, Andersen, Perrault; as fábulas de La Fontaine e Esopo), a literatura infantil moderna (Collodi, Hauff, Ségur, Busch, Spyri, Barrie, Lewis Carrol; além dos autores russos Púchkin, Turgueniev, Tchukovsky, Marchak) e as adaptações de clássicos “para o pequeno leitor” (As viagens de Gulliver, Dom Quixote, Robinson Crusoé).

Aos onze anos de idade, familiarizada com a língua de sua nova pátria, a futura autora de livros infantis teve seu primeiro contato com a obra infantil de Lobato. Surpresa, choque e deslumbramento são os termos utilizados pela leitora, ao relembrar a leitura inicial dos livros lobatianos.

Percebe-se que, mesmo familiarizada social e literariamente com o repertório europeu, a leitora adota a leitura dos livros de Lobato como se estivesse adotando a terra, o seu novo lar: “o encontro com o mundo do Sítio do Picapau Amarelo foi uma novidade e uma maravilha: eram livros nos quais eu podia ‘morar’, como queria o próprio Lobato”.377

Lygia Bojunga Nunes, também autora de livros infantis, em artigo sobre seus seis casos de amor, apresenta a leitura de Lobato como o primeiro dos seus casos amorosos, quando, aos sete anos de idade, ganhou Reinações de Narizinho de presente de um tio. A apresentação física do livro, no primeiro momento não encorajou a leitora, que reconheceu no número excessivo de páginas daquele “livro grosso” um obstáculo sem atrativos para uma conquista.

O depoimento de Bojunga é sugestivo no que diz respeito à linguagem utilizada pelos textos infantis que circulavam na sua infância. Leitora iniciante que era, inclui em seu repertório de leituras as revistas em quadrinhos - que devorava – e os livros lidos pelos pais; em ambos encontrava nomes e termos distantes e ilegíveis à sua experiência vivencial. A leitura realizada pelos pais, segundo ela, não descomplicava aquelas narrativas: “tudo impresso em Portugal e cheio de infantas, estalagens, escopetas, arcabuzes, abadessas rezando vésperas, raparigas na roca a fiar...”.378

A leitora confessa, ainda, que a insistência do tio em saber sobre a leitura do livro presenteado a fez retomá-lo, mesmo a contragosto. Ela iniciava, sem o saber, o contato com uma literatura que rompia com a antiga barreira de distância vocabular e que lhe abria as portas da imaginação:
Mas o que a minha imaginação queria mesmo era voltar pr’aquele mundo encantado que o Lobato tinha criado, e ficar imaginando o tamanho e a cor da pedrinha que a Emília tinha engolido (e que não era pedrinha coisa nenhuma, era uma pílula falante); e ficar imaginando que jeito eu ia dar pra me encontrar com a Dona Aranha costureira, que tinha feito o vestido de casamento da Narizinho, e pedir pra, na hora do meu casamento, ela fazer o meu vestido também.379
Em 1950, aos dez anos de idade, como presente de aniversário, Zelinda Moneta recebeu, também das mãos de um tio, o livro Reinações de Narizinho. Ela se remete a esse período da infância como um dos momentos de descoberta e a leitura como parte integrante desse processo. O depoimento explicita o sabor especial que tinha para a infância de seu período a leitura dos livros de Lobato, “sem a facilidade da televisão”. Ao contrário do depoimento de Bojunga, Moneta, ao descrever o aspecto físico do livro (capa, ilustração e número de páginas), deixa transparecer um fascínio por essas características. O aspecto volumoso do livro não se apresenta como barreira, a leitora sente-se entusiasmada com a confiança em sua capacidade de leitura:
Como presente, no meu décimo aniversário, ganhei do mais querido dos tios um livro grosso (cerca de 200 páginas), de capa dura e ilustrada com cores vivas, mostrando o rostinho cismador e curioso de uma menina de narizinho arrebitado. Tratava-se da obra Reinações de Narizinho, editado pela Brasiliense.380
O crítico José Guilherme Melquior coloca entre as suas recordações de leitura o encontro com os livros de Lobato como uma das lembranças mais fortes de sua infância. Entre os muitos títulos, destaca História do mundo para as crianças, lido entre os dez e/ou onze anos de idade, por considerá-lo responsável por “uma espécie de ordenação intelectual da minha pequena cabeça infantil nesse período”.381 Utilizando-se da expressão “amamentado”, o autor resume de forma contundente a importância dos livros infantis de Lobato na sua formação.

Alfredo Bosi acredita que Monteiro Lobato foi um escritor fundamental para a sua geração. Aos doze anos incompletos, já havia lido todos os seus livros infantis e foi com tristeza que recebeu pelo rádio a notícia da sua morte: “Existia realmente uma relação afetiva das crianças e adolescentes das décadas de 40 e 50 com Lobato, e sua morte foi, para muitos, um abalo pessoal”.382

Guilhermino César, relembrando o início de sua vida leitora, evoca como ponto de encontro com a literatura de Lobato o tempo em que estudava no grupo e no ginásio “entre 22 e 23 comprei ou li de empréstimo quase todas as obras com selo editorial de Monteiro Lobato & Cia”.383 Isto quer dizer que, além dos seus próprios textos, Lobato ficou registrado nas lembranças de Guilhermino pelo seu papel como fomentador da difusão do livro, seu significativo empenho para a construção de uma sensibilidade coletiva de leitura: “Os bandeirantes caçaram índios? José Bento Monteiro Lobato, bandeirante de pena na mão, caçou leitores por todas as bibocas”.384

Provavelmente, dos títulos de Lobato lidos por Guilhermino César no período relatado, poucos foram infantis, pois nessa época havia à disposição no mercado apenas quatro livros; no entanto, seu filho será um leitor fiel das histórias do Picapau Amarelo. Através dele, na década de 40, tem seu primeiro contato pessoal com o escritor.

O menino o acompanhava em visita à cidade de São Paulo e, perguntado sobre o presente que desejava levar de recordação, responde prontamente: “eu só quero uma presente: conhecer o velho Lobato”. O pai prestimoso atende o desejo do filho, conseguindo um momento para que o escritor o atendesse. E Guilhermino César descreve o carinho com que Lobato atendeu o pequeno leitor: “A atenção que Lobato deu ao pequeno até hoje me comove. Como é que um homem daqueles pôde atender uma criança daquela maneira? Meu filho saiu dali numa glória total”.385

A história do Jeca Tatuzinho foi distribuída anualmente através de pequenos folhetos, em forma de almanaque, durante muitos anos nos balcões das farmácias brasileiras. Redimensionando a figura do Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho, garoto propaganda do Biotônico Fontoura, vence a preguiça-doença com uma bota ringideira, vermífugos e o Biotônico Fontoura.386 Essa narrativa, ao que parece, foi o primeiro contato de muitos leitores com o material escrito. Edgard Cavalheiro, Cassiano Nunes e Justino Martins são alguns dos leitores que explicitam a aproximação com os textos infantis de Lobato através da circulação desses folhetos.

Edgard Cavalheiro afirma que a descoberta do “mundo encantado dos livros” deu-se através dos livros infantis de Lobato, em especial a narrativa que circulava nos almanaques: “O exemplar do Jeca Tatuzinho distribuído pela humilde farmácia da vila, fora o meu primeiro livro de leitura, a primeira história a me embalar a despreocupada infância”.387

Na introdução de sua entrevista com Monteiro Lobato para a revista O Globo, Justino Martins depõe sobre a sua introdução ao mundo da leitura e ao mundo ficcional do criador do Sítio do Picapau Amarelo pelas mãos do Jeca Tatuzinho. O único livro ganho do pai foi recolhido, provavelmente, do balcão de alguma farmácia. Porém, esse fato não interessa ao leitor que guarda na memória o gesto paterno:


Tomei conhecimento da existência de Monteiro Lobato neste mundo, numa tarde, deitado de barriga para baixo, lendo o ‘Jeca Tatuzinho’ em desenhos coloridos, o único livro que recordo haver ganho de meu pai. Terminada a leitura, fiquei triste. Dava angústia ver os porquinhos calçando borzeguins e o Jeca Tatu, gordo como um milionário, ir embora, na última pagina do livro, a fim de apregoar a seus patrícios as vantagens curativas da erva de Santa Maria.388
A atitude corporal de conforto e relaxamento da leitura realizada de “barriga para baixo”, descrita pelo leitor, caracteriza a entrega e o recolhimento diante do material lido. Outro fato que merece destaque é o sentimento de tristeza gerado pela leitura que, no entanto, não nasce do possível término da narrativa, mas do próprio mundo ficcionalizado.

Cassiano Nunes, que se dedica à pesquisa epistolográfica do escritor taubateano, relata que o leu pela primeira vez entre os sete e oito anos de idade, quando recebeu de prêmio, no fim do primeiro ano escolar, o livro Reinações de Narizinho.389 Porém, seu contato com a literatura lobatiana efetivou-se, também, através do Jeca Tatuzinho, “personagem que nos era revelado por folhetos distribuídos nas farmácias”.390

A história de Jeca Tatuzinho ultrapassava o simples caráter propagandista de veicular os poderes curativos do Biotônico Fontoura. O folheto possuía o mérito de ser um dos materiais escritos que circulavam pelo interior do país e tornava-se, para muitas crianças, uma das possibilidades de acesso à leitura, senão o único.

O restabelecimento da saúde ou o consolo pelo tempo de recolhimento, motivados por alguma doença, são alguns dos pontos de convergência nos discursos de alguns leitores, que encontravam na leitura uma forma de alento para as enfermidades físicas, como bronquite, gripe, dor de ouvido e até mesmo intermináveis tratamentos dentários.

A escritora Ilka Brunhilde Laurito recorda, estimulada pelas ruas de Pompéia, na Itália, a impressão que lhe causaram as leituras de Lobato. Ela já havia vivenciado aquele ambiente como o de outros territórios da Antigüidade, através de História do Mundo para as Crianças. O livro lhe fora presenteado aos nove anos de idade, num período de bronquite e gripe e a sua leitura lhe possibilitava redimensionar o momento que estava vivendo: “um livro para fugir ao tédio da clausura do quarto e da imobilidade da cama”.391

A escritora Renata Pallottini, que sofreu de dores de ouvido na infância, reconhece no carinho maternal e nos livros de Lobato os companheiros que a auxiliavam no restabelecimento da doença, muito mais rápidos e eficazes que qualquer remédio. Conta-nos que sua mãe, leitora de Lobato na infância, teve acesso ao seu primeiro livro A menina do narizinho arrebitado no “lixo dos ricos”; ela, no entanto, teve mais sorte: “Eu, feliz, ganhei o meu novinho em folha. E foi o começo de uma paixão que se estendeu pela infância e adolescência. Li tudo de Lobato, entrei pelo seu mundo adentro, me familiarizei com seus personagens”.392

Marisa Lajolo encontrou Lobato aos dez anos de idade, quando recebia nas consultas dentárias os livros da turma do Sítio do Picapau Amarelo. O tratamento demorado propiciava a cada troca de um “algodãozinho de clorenfenicol” a leitura de um livro. Essa sistemática, segundo a leitora, fez com que “até concluir as obturações necessárias eu já tinha devorado todas as histórias disponíveis naqueles livros de capa dura, colorida, e com desenho das personagens”.393

Samir Curi Meserani, especialista em criatividade, natural de uma pequena vila na Serra de Botucatu, aos nove anos de idade passa a residir em São Paulo e leva consigo o “orgulho” da leitura completa da obra infantil de Lobato. Era como se a sua formação leitora lhe desse, de antemão, acesso ao novo mundo que se lhe apresentava. A leitura do Sítio do Picapau Amarelo, “patrimônio” de sua infância, ajudou-o a superar as desvantagens que encontrou pelo caminho. A leitura era resultado de uma escolha individual e prazerosa, sem cobranças escolares e qualquer outra relação cerceadora. Ler pelo simples prazer de ler: “Era ler um livro e pedir outro ao pai, espontaneamente. Em suma, usando a expressão de Bachelard, foi a minha ‘leitura feliz’”.394

A estética da recepção adota como critério de determinação do valor estético da obra literária o seu poder de decepcionar ou contrariar as expectativas leitoras no momento de sua aparição, isto é, “a distância entre o horizonte de expectativa e a obra, entre o já conhecido da experiência estética anterior e a ‘mudança de horizonte’”.395



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