Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Os depoimentos testemunham um momento histórico em que era dado à criança pouca oportunidade de manifestação, a ela cabia acatar pacienciosamente as proibições e legitimações do mundo adulto. O mundo do livro, contudo, ao apresentar um mundo distinto do real, abria a possibilidade de outra forma de convivência entre o adulto e a criança, como analisa Ilka Brunhilde Laurito:

Ler Lobato era acreditar no mundo da fantasia. Mas era também aceitar o da realidade, questionando-o daquela maneira democrática de crescer, que era o diálogo. Crianças e adultos, na literatura infantil de Lobato, coexistiam integrados, falavam de igual para igual, respeitavam-se. Mesmo quando havia mentirinhas, fanfarronadas, travessuras e tempestades de parta à parte.396



A identificação dos leitores com as personagens e/ou ações das narrativas são ambivalentes. Quer seja para o leitor do meio urbano, quer seja para o leitor do meio rural, o Sítio do Picapau Amarelo desponta como projeção ou idealização de um espaço especial, regido pela liberdade.


Segundo Tatiana Belinky, a natureza tropical em oposição à vida urbana, as férias perpétuas e a liberdade que gozavam as personagens eram motivos suficientes para ela solidarizar-se com aquele mundo imaginário:
(...) Eu me imaginava na pele de Narizinho, e era gostoso; na de Pedrinho – por que não querer ser menino de vez em quando? – e era bom. Mas delicioso mesmo era me imaginar na pele de pano da Emília, livre e solta, podendo falar ‘asneirinhas’, ‘agredir’ os amigos, ser respondona, egocêntrica, às vezes malcriada, outras vezes prepotente (em especial com o empertigado Visconde de Sabugosa); (...) Ah, o senso de justiça da Emília, a franca autenticidade, a ‘fidelidade a si mesma’, tão ‘nietzscheanamente’ lobatiana.397
Lygia Bojunga Nunes confessa que, aos poucos, aquelas personagens começaram a virar a sua gente, em especial a boneca Emília. O relato sobre a identificação com a boneca Emília aproxima-se ao de seus colegas leitores. Cabia àquela boneca de pano, que aos poucos foi virando gente, a representação de um modelo diferente do habitual: “A Emília me deslumbrava! Nossa, como é que ela teve coragem pra dizer isso? Ah, eu vou fazer isso também!”398

A representação de uma personagem corajosa, capaz de realizar ações internalizadas pelos leitores, faz com que a apreensão do mundo ficcional se desloque para uma relação de identificação e incorporação das atitudes da personagem.

Ilka Laurito expõe, de forma mais aguda, o rompimento com as normas incutidas nos livros infantis. A representação de uma personagem questionadora como Emília trazia à tona um desejo interior de cada criança leitora, resultando numa relação de cumplicidade entre leitor e a personagem:
Emília era assim, como eu gostaria de ser: desbocada, perguntona, respondeira, atrevida, matreira. Era a criança revolucionária que morava em cada um de nós, abafados pelos ambientes repressores de uma geração que nos queria premoldar. Emília não era nenhuma das “meninas exemplares” importadas. Era a independência interior, a curiosidade permanente, a inquietação diante da vida, o mergulho no mistério.399
O “nós” remete ao reconhecimento, por parte da leitora, de uma comunidade de leitores que compartilhavam as mesmas preferências literárias.

O testemunho do editor Marcos Amazonas aponta, também, para a representação da boneca Emília enquanto um modelo que quebrava a expectativa da sociedade da época, em que restava à criança o papel servil da obediência:


Emília, na disparada, a favorita... Ela mantém a sua irreverência durante a obra inteira. Ela é o desafio. Tem uma autoconfiança que é cativante... Tinha muito do que a gente procurava: ela não arredava pé daquilo que acreditava, e a gente era educado exatamente para desistir... Ela não: cismava e ia em frente.400
Emerge do depoimento de Amazonas a idéias de que o diálogo da obra com o público leitor era tecido pela fratura da percepção usual do leitor.

Tatiana Belinky destaca a característica de boneca de pano como um dos motivos de Emília ser a representante da irreverência, da contestação, sem com isso receber reprimendas. À boneca cabia desfiar “todos os ‘pecados’ infantis: a malcriação, o natural egoísmo, a rebeldia, a birra, a esperteza marota e até uma certa maldade ingênua – tudo imediatamente esquecido, sem maiores conseqüências nem sentimentos de culpa”.401

Ofélia Boisson Cardoso em seu trabalho de três volumes sobre a fantasia, violência e medo na literatura infantil -, focalizando especialmente os contos tradicionais, destaca a valiosa contribuição de Lobato e afirma que “as qualidades negativas ele as atribui a irracionais e a objetos: Emília é uma boneca de pano asneirenta; Rabicó, um porco fátuo e cheio de si; o major um sapo comilão”. Já Narizinho e Pedrinho, aos quais as crianças se identificam, segundo a autora, são apresentados como modelos sadios.402

Ora, parece-nos que, independente da personagem escolhida, racional ou irracional, o estímulo provocador foi gestado ao abalar as “certezas” e “costumes” impostos socialmente, desautorizando as regras vigentes ao expor condutas não valorizadas pela sociedade, como as da boneca Emília. A ruptura com esquemas preestabelecidos provoca um confronto com os valores e normas sociais em que o leitor está inserido. Ao leitor é apresentada uma nova possibilidade totalmente diversa e esse distanciamento entre o mundo representado e a sua realidade vivida resulta numa possível visão de mundo reformulada.

Quando a identificação recai sobre as personagens Pedrinho e Narizinho, crianças como o leitor, pesa aí uma relação de complementaridade estabelecida pela representação de seus pares. Ambas as personagens são descritas como crianças comuns, com características similares as dos leitores: curiosas, criativas e sem enfrentamento grave com a normalidade das relações do mundo concreto.

Para Zelinda Moneta, a sedução da leitura lobatiana residia nessa familiaridade com as personagens crianças: Narizinho e Pedrinho, “crianças como eu, sadias e arteiras, mas singularmente agraciadas pela possibilidade de desfrutar as delícias do Sítio do Picapau Amarelo”.403 Segundo ela, aquele lugar marcado pela imprevisibilidade e encantamento seduziu e fez parte do sonho de muitos meninos e meninas de sua época.

Nas lembranças da psicóloga Maria Helena Patto, o contato pessoal com o escritor precedeu a leitura de seus livros, “Um dia, ele foi visitar a escola em que eu estudava: sua presença forte, sobrancelhuda e bigoduda é a imagem mais forte que guardo dele...”.404 Ao encontrar-se no mundo da leitura, diz que se identificava com Narizinho e vivia com a personagem menina as suas aventuras “principalmente as românticas”. O modelo rebelde e irreverente, como o de Emília, não encontrava receptividade junto à leitora, já que “ela (Narizinho) me facilitava uma maior identificação, na medida em que eu era uma menina bem comportada”.405



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