Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



Baixar 1.11 Mb.
Página14/27
Encontro29.11.2017
Tamanho1.11 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   27

O boneco João Faz-de-Conta, o irmão brasileiro de Pinóquio, personagem secundário no universo lobatiano, foi para Júlio Gouveia o objeto de identificação “riquíssimo como possibilidades e acaba tão cedo ... é a imagem do herói romântico... João é tão apaixonado por Narizinho que perde literalmente a cabeça para salvá-la”.406


A escritora catarinense Maria de Lourdes Krieger diz que os livros de Lobato lhe fizeram ver que a representação das personagens poderia ultrapassar a esfera do maravilhoso, com suas fadas e princesas e trazer crianças comuns, próximas a seu universo real. A representação da boneca Emília “com o corpo igual a das bonecas que podíamos ter – mas tão, ah! Tão mais gente”. A escritora e seus oito irmãos liam muito. Os pais funcionários públicos, para suprir as necessidades culturais dos filhos e buscar mais uma fonte de renda, abriram uma pequena livraria na cidade de Brusque (SC). Sua vida leitora era intensa e voraz; para ela e seus irmãos, Lobato foi importante porque “ele nos fez gostar mais ainda de ler”.407

A leitura de um determinado livro pode marcar a vida leitora de uma criança? Pode despertar no leitor um desejo que ultrapasse os limites da leitura e se torne escrita? Alguns testemunhos apresentam o quanto foi importante a leitura no período infantil, em especial, a produção literária lobatiana.

Justino Martins destaca a possibilidade de ter sido a leitura das obras de Lobato, em especial a narrativa de Jeca Tatuzinho, a responsável pelo seu encaminhamento literário:
Mas Lobato pode bem ter sido um dos culpados da minha investida pela literatura, porque a verdade é que muitas vezes, depois, deixei de ir nadar com a molecada no regato do arrebalde para me debruçar de novo sobre aquela historia maravilhosa do fraco que se tornou forte.408
João Carlos Marinho confessa que a leitura do pessoalzinho do Sítio foi, das lembranças da infância, a mais marcante e emocionante e inesquecível. Morar no Sítio, no mundo imaginário criado por Lobato, deixou-lhe marcas profundas que ainda ecoam em sua memória afetiva: “Os livros de Lobato são inesquecíveis. Nunca mais deparei com um gomo de bambu ou um redemoinho de folha sem lembrar do Saci”.409

Zelinda Moneta, depois de ler toda a coleção completa de Lobato para a infância, “numa bela encadernação verde e prata, cujo conteúdo foi intensamente lido, relido e assimilado, por um tempo muito longo, nos anos seguintes”, destaca como fundamental a leitura dos livros de Lobato à sua formação:


Dela foram conseqüências naturais o desenvolvimento da linguagem e da expressão oral e escrita, assim como o hábito e o gosto da leitura ou o exercício da imaginação e da atividade mental. Além disso, a obra de Lobato funde ficção e transmissão de informações numa didática só possível àqueles capazes de sentir e compreender em toda sua plenitude a psicologia da infância.410
A consagrada escritora para a infância Ruth Rocha, que na juventude com freqüência passava pela rua onde se localizava o prédio da Brasiliense só para ver o escritor, diz que leu tantas vezes os livros de Lobato que já perdeu a conta. A Lobato deve a sua propensão de escrever para as crianças: “se resolvi escrever só para crianças foi só por causa dele, tamanha a influência que teve na minha infância”.411

O escritor João Antônio, ao comentar sobre os estímulos recebidos para despertar sua vocação literária, cita a revista infanto-juvenil O Crisol, as leituras dos livros de Viriato Correia, Jerônimo Monteiro e Monteiro Lobato. A presença de Lobato em suas lembranças está consolidada também por outro tipo de narrativa: as histórias em quadrinhos, divulgadas através de álbuns pelo Café Jardim: “Saíam álbuns e os garotos os enchiam com figurinhas tiradas do pó do café. O primeiro álbum que eu enchi era uma história chamada O homem das cavernas, escrita por Monteiro Lobato”.412

A narrativa, na verdade Um sonho na caverna, foi uma das muitas escritas por Lobato para circular nos álbuns distribuídos gratuitamente pelo Café Jardim, na década de 40. No pacote desse café vinha uma quantidade de figurinhas com desenhos coloridos e numeradas, que deveriam ser coladas no álbum onde o texto estava impresso, em forma de história em quadrinhos. Aquele que completasse o álbum recebia como prêmio um livro da Coleção Terramarear.413

A representação da leitura através do testemunho dos leitores apresenta, mesmo que parcialmente, uma dimensão singular e particularizada da história pessoal de cada indivíduo. Percebe-se, por esse viés, que a experiência iniciática da leitura não se dá de forma linear e idêntica para todos; fatores históricos-sociais, culturais e, por que não, econômicos interferem e delimitam o acesso ao texto impresso.

As lembranças sobre o aspecto externo do livro, como capa, ilustração, materializadas nos relatos, contribuem para confirmar a revolução estética operada por Lobato, enquanto comerciante do livro e escritor preocupado com o aspecto físico e estético do material impresso destinado às crianças. O número de páginas dos livros, em especial Reinações de Narizinho, exerce no leitor opiniões diferentes. Para alguns, o número de páginas funcionava como obstáculo, um entrave à leitura; para outros, contudo, exercia uma função estimuladora.

O contato com a literatura de Lobato não se deu somente através de seus livros infantis. As suas narrativas construídas para fim publicitários, como Jeca Tatuzinho, para o Laboratório Fontoura, e Um sonho na caverna, para o Café Jardim, também chegavam às crianças como fonte de leitura e fixaram-se nas suas lembranças leitoras.

Os ambientes de leituras e seus protocolos, quando descritos, são regidos pela informalidade. Lê-se em qualquer posição: sentado, deitado junto à natureza. E em qualquer lugar: no lar, no consultório dentista, na escola. O espaço social da leitura se propaga.

Os depoimentos sobre o aspecto interno, a questão de conteúdo e forma das narrativas, apresentam-se de modo peculiar, pois se diferenciavam dos livros anteriores que circulavam no Brasil. Os leitores têm uma experiência de leitura que os convida a reflexões do seu cotidiano, na medida em que as narrativas perdem a imagem atemporal e a-histórica das compilações ou adaptações européias; tempo e lugar tornam-se próximos e familiares aos leitores.

A linguagem utilizada por Lobato em suas narrativas é marcada pela oralidade, distanciando-se do repertório literário costumeiro dos leitores, como explicita Lygia Bojunga Nunes. Esse tom de oralidade, aproximando a linguagem escrita da linguagem falada pelas crianças, faz com que sua literatura penetre de forma contundente no referencial de leitura.

A representação das personagens ficcionais é outro fato marcante nos depoimentos. Os leitores encontram-se com crianças de papel, que no entanto têm as suas características: crianças de carne e osso. A identificação com as personagens não se processa de maneira idêntica: se para alguns leitores a irreverência de Emília é o modelo a ser seguido, para outros a preferência recai em modelos mais comportados como os de Pedrinho e Narizinho.

A mediação da família no processo de leitura é descrito de forma harmoniosa e motivadora: tios, como os de Lygia e Zelinda, utilizam-se da data natalícia para estimular a leitura, presenteando o aniversariante com o objeto livro. Pais, como o de Justino Martins, trazem do balcão de uma farmácia a fonte de leitura para o filho. Mães, como a de Renata Pallottini, recorrem a mesma fonte bebida na infância para iniciar a filha à leitura.

A história de vida dos leitores, bem como a sua história leitora, estão imbricadas no processo de leitura; ao ler, o sujeito aproxima o texto à sua experiência. A liberdade das personagens e o convívio sem repressão com os adultos no mundo ficcionalizado tornam-se um espelho no qual os leitores gostariam de mirar-se, encontrar-se. Impossibilitados de transcender o mundo real, os leitores redimensionam pela ficção a sua relação com o outro. Porém, a percepção de mundo do leitor está vinculada ao seu momento histórico; dessa forma, o mundo ficcional encontra eco em sua experiência com o mundo real.

Com exceção de Júlio Gouveia, que teve contato com a obra infantil de Lobato aos vinte anos, aproximadamente, os depoimentos apresentam a apropriação dessa leitura entre os sete e onze anos de idade. Um período rico por excelência para a formação do gosto pela leitura.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   27


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal