Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Coincidentemente, esse grupo de escritores voltou o seu trabalho literário para o público infantil e juvenil, e seus textos biográficos, de certo modo, acabam por contemplar esse mesmo público. Tal afirmação se faz verdadeira na medida que esses textos são elaborados de forma dinâmica, introduzindo estratégias de narrativa que quebram com a estrutura rígida e documental do gênero biográfico; alguns ainda se utilizam de estratégias semelhantes às de Lobato na construção de seus textos.


O escritor português Sidônio Muralha, que viveu no Brasil durante vinte anos (1962-1982), constrói a biografia de Lobato utilizando-se da personagem Pedrinho como interlocutor. Num diálogo entretecido da imagem romanticizada do escritor, o narrador apresenta à personagem o seu criador, com sua natureza polêmica e contraditória. A boneca Emília também é requisitada, mesmo de forma breve, para expor a Pedrinho algumas facetas de Lobato.

Nelly Novaes Coelho destaca esse livro biográfico entre as obras de Sidônio Muralha para crianças, porém, enfatiza que o escritor “traçou um retrato de Monteiro Lobato que leitores meninos ou adultos ganhariam em ler, para terem uma idéia de quem foi esse homem, escritor e cidadão...”433 Deixando de lado a delimitação do leitor, a autora amplia o foco de recepção do livro.

O livro Presença de Lobato, de Paulo Dantas,434 é um registro biográfico de Monteiro Lobato que merece destaque pela sua escrita em primeira pessoa, como se o próprio escritor estivesse a dialogar com o leitor. Para dar maior verossimilhança a essa característica, Dantas incorpora ao discurso narrativo falas do próprio Lobato, pinceladas de sua vasta produção literária.

O livro está dividido em duas partes: “No vale nasce um homem” e “Minha luta acima de tudo”. A personagem Emília aparece na segunda parte da narrativa e dialoga com o seu criador. A boneca recrimina o abatimento de Lobato, provocado pela perda dos dois filhos, e o encoraja para a vida:


_ Pai, o senhor anda muito abatido e neurastênico. Não se agaste com mais nada. O senhor já fez muito por nós. Narizinho anda querendo um vestido novo, o malandro do Rabicó quer uma casaca nova e solene, e o Quindim uma outra casca mais grossa, paquidérmica para sentar, tapando numa imitação do governo, o poço do Caramingoá número 1. O Pedrinho quer um cavalo alado e o Saci, a sua outra perna.435

De forma nada comum, a biografia de Monteiro Lobato é tecida por uma multiplicidade de vozes que têm como objetivo comum: dar vez ao próprio discurso de Monteiro Lobato.

O texto de Ruth Rocha “Era uma Vez”436 (1981) compõe a parte introdutória do livro de literatura comentada sobre a obra do escritor. Deslocando seu ponto de vista do senso comum, que consiste em narrar de forma cronológica os fatos mais marcantes da vida do biografado, a autora utiliza-se da própria arquitetura lobatiana para construir a sua imagem, tecendo um diálogo criativo sobre Lobato entre as personagens do Sítio do Picapau Amarelo. A pedido dos próprios netos, Dona Benta narra mais uma história à sua moda, só que o foco principal é Monteiro Lobato. Com a comum e conhecida interferência das narrativas lobatianas, Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília auxiliam na própria narrativa da trajetória do escritor.


No livro Minha memórias de Lobato,437 Luciana Sandroni dialoga de forma primorosa com o livro de Lobato Memórias de Emília. Como se fosse uma re-edição do livro, a boneca de pano e o sabugo de milho se unem para compor um livro de memórias, só que agora a do escritor que os originou.

Como em Memórias da Emília, a boneca constrói, paralelamente ao discurso do Visconde, uma “memória fantástica” sobre Lobato, esfacelando a fronteira entre a vida vivida, pesquisada pelo sabugo e a vida inventada, criada por ela, objetivando apresentar: “tudo o que nunca aconteceu mas era o que devia ter acontecido”.438

Utilizando-se de recursos tipográficos, a autora destaca em itálico os trechos informativos, isso é, aqueles que estão colados à realidade vivida pelo escritor, destacando as informações especificamente biográficas. A capacidade inventiva e (re)criadora da autora contribui para que o pequeno leitor conheça, nas entrelinhas, o papel desempenhado por Monteiro Lobato nas letras brasileiras.

No livro de Lino Albergaria, A boneca e o saci, 439 a voz narrativa é concedida ao moleque Saci Pererê, que narra a sua inusitada visita à Fazenda São José do Buquira. A curiosidade faz com que o moleque percorra as dependências do casarão, em busca de um som insuspeitado: o ronco de Lobato. No entanto, o narrador depara-se com a boneca Emília e, junto com ela e através do artifício do pó de pirlimpimpim, viajam no tempo, no sono e no sonho de Lobato, desvendando os passos da conturbada vida do escritor.

O passeio pelo sonho de Lobato segue uma ordem cronológica inversa, apresentando o escritor em campanha pelo petróleo, a sua prisão no Estado Novo, o seu envolvimento com o projeto editorial. São passagens de sua vida, metaforizadas em sonhos agitados, que começam a serenar quando o escritor relembra a paz do Sítio do Picapau Amarelo, o casamento com Pureza, a vida universitária, até chegar à infância. Assim, quando a boneca e o Saci abandonam o seu sonho, já “era um sonho tranqüilo, um sonho de menino”.

O livro une duas figuras que povoaram a infância de gerações: uma folclórica, desvendada por Lobato já no início de sua carreira, quando promoveu um inquérito; outra ficcionalmente livresca, debochada, dadeira de nomes e criadora de línguas...uma simples boneca de pano que virou gentinha. Mais do que homenagem, o livro se presta a revelar ao pequeno leitor a face do Lobato sonhador.

As cinco biografias não se furtam de expor os elementos informativos essenciais do itinerário de Monteiro Lobato: suas campanhas, andanças e errâncias em prol de tantos empreendimentos, ora objetivando fins particulares, ora coletivos. O que merece destaque é a forma como esses textos foram estruturados, instaurando na composição narrativa elementos constitutivos da escrita lobatiana, quer seja acolhendo suas personagens como interlocutores, quer seja aderindo à técnica narrativa, como fez Luciana Sandroni em suas memórias.

Os vinte depoimentos de leituras, os quatro livros ficcionais e os cinco textos biográficos aqui selecionados testemunham, por caminhos diferentes, a recepção da literatura infantil de Lobato. Embora essas fontes se encontrem filtradas pela visão do presente, na tentativa de dar sentido a uma experiência do passado, não deixam de ilustrar a recepção. No próximo capítulo, no entanto, os depoimentos emergiram do momento presente da leitura, através de pequenos bilhetes, cartas, fotografias dirigidas ao escritor pelo leitor criança.



CAPÍTULO 5

O LEITOR, ESSE CONHECIDO

5.1 A invenção do leitor

Monteiro Lobato adota em sua produção literária para crianças vários procedimentos narrativos como proposta de interlocução com o leitor. Ao término de algumas histórias antecipa os acontecimentos da próxima aventura, outras vezes retoma fatos de narrativas anteriores. O que mais chama a atenção é a representação de um leitor construído pela projeção idealizada do escritor, que entra em cena simulando reações e situações de leitura.

Antecipando a recepção de seus livros, Lobato representa e “inventa” em suas narrativas o leitor em plena atividade leitora ou exercendo os poderes facultados pela leitura. Já a fama de suas personagens, conhecidas e reconhecidas pelos leitores, extrapola os limites territoriais, e os livros de sua lavra são lidos por crianças e por adultos, independente da nacionalidade e do espaço geográfico.

Em Geografia de Dona Benta (1935), o pessoalzinho do Sítio viaja pelo mundo no navio imaginário “Terror dos Mares”; entre os vários lugares visitados pelo grupo está Macau, na China. Lá as personagens lobatianas se deparam com crianças, filhos de portugueses, que as reconhecem de imediato, por terem acesso e serem leitoras dos livros que narram as suas histórias:


– Tu não és a tal Narizinho, neta da senhora Dona Benta? – perguntou o guri aproximando-se.

– Sim, sou... Como sabe?

– Ah, é que temos aqui uma livraria que recebe os livros do Brasil e lá comprei a história das tuas reinações, e as “Caçadas de Pedrinho” e a Aritmética da Senhora Emilinha... Sei tudo de cor...”.440
Na continuidade da viagem, Emília resolve dar “uma espiada na África” através de uma luneta e vai descrevendo com minúcias ao grupo o que encontra na pequena cidade de Lourenço Marques. Também ali existem leitores das narrativas lobatianas, em especial um menino português que lê atentamente Emília no país da gramática. A boneca descreve ainda os vários títulos do Sítio na sua estante, entre eles: Reinações de Narizinho, As caçadas de Pedrinho, Viagem ao céu... Como que para confirmar a veracidade da sua descrição a boneca argumenta: “Estou vendo o nome da livraria que lhe vende esses livros. Chama-se Livraria Minerva...”441

O relato poderia passar desapercebido e ficar só no campo da textualização do leitor, se não fosse a informação de que, em 20 de fevereiro de 1937, o menino português Manuel Pedro Oliveira Marques, residente na África, escreveu a Lobato. Na carta, ele confidencia que gostaria muito de conhecer o escritor pessoalmente, mas, impossibilitado pela distância geográfica, solicita-lhe uma foto. Ele informa ser proprietário de quinze volumes da coleção infantil e observa que: “Quando vou a Minerva Central com minha mãe sempre lhe peço para me comprar livros de Vossa Excelência”.442

Ao colocar na narrativa, juntamente com leitores supostamente inventados, informações concretas de um leitor real, Lobato abre o precedente para pensarmos que seus livros possam ter realmente atingido o espaço geográfico das colônias portuguesas; possibilidade que mereceria maior atenção e pesquisa para ser comprovada.

No livro Aritmética da Emília (1935), a personagem Narizinho deixa transparecer em sua fala, a respeito da loucura de Emília, o quanto a criançada, leitora das histórias do Picapau Amarelo, admirava a boneca: “– Louca, nada, vovó! – respondeu a menina. Emília está assim por causa da ganja que lhe dão. No Brasil inteiro as meninas que lêem estas histórias só querem saber dela – e Emília não ignora isso. É ganja demais”.443

Em Dom Quixote das crianças (1936), a feitura dos livros de Lobato torna-se tema das reflexões de Narizinho, que acredita que o escritor esteja concedendo regalias a Emília. Como em Aritmética, a menina deixa vir à tona o seu ciúme pela posição privilegiada da boneca no imaginário do leitor. Por que querer Cervantes para contar suas histórias, se Emília já tem Lobato?
– Exigente! Você já anda bem famosinha no Brasil inteiro, Emília, de tanto o Lobato contar as suas asneiras. Ele é um enjoado muito grande. Parece que gosta mais de você do que de nós – conta tudo de jeito que as crianças acabam gostando mais de você do que de nós. É só Emília pra cá, Emília pra lá, porque a Emília disse, porque a Emília aconteceu. Fedorenta...”.444

N’As memórias de Emília (1936), o grupo de leitores das narrativas lobatianas é bastante heterogêneo, contemplando desde a rainha da Inglaterra, que já ouvira falar das proezas de Emília, às crianças daquele país que visitam o Sítio para conhecer o anjinho de asas quebradas, “Flor das Alturas”, que a boneca trouxera do céu.

Outra leitora inventada pertence ao universo das celebridades cinematográficas: Shirley Temple, estrelinha das fitas americanas dos anos 30, que, pela sua condição de criança, pertence ao duplo maravilhoso: o mundo da infância e o do cinema. Questionada pela menina sobre o motivo da visita, Emília conta os planos de empregar-se na Paramount. A menina atriz declara-se leitora dos livros que contam as histórias do Sítio, para espanto de Emília: “Ora, Emília! Quem não conhece a marquesa de Rabicó? Fique sabendo que em Hollywood todos sabemos de corzinho aqueles livros onde vêm contadas as suas estórias”.445

O desejo de ser conhecido em Hollywood e a admiração de Lobato pelas produções Disney estão presentes também em Geografia de Dona Benta, onde o grupo é ciceroneado por um brasileiro, funcionário da Paramount. Sabe-se que alguns brasileiros tentaram intermediar o contato do escritor brasileiro com a Walt Disney Productions, entre eles Luiz de Toledo Piza, que enviou o livro O Picapau Amarelo para o estúdio, com a proposta de adaptação para o cinema. A resposta, mesmo negativa, demonstra que os textos dele não eram desconhecidos pela empresa americana de entretenimento:


O Senhor Lobato não é desconhecido por nós pois inúmeros brasileiros, que dividem sua admiração pelos trabalhos de Lobato, nos escrevem sobre estes. Na equipe do Estúdio estão vários brasileiros e eles também mencionam o entusiasmo que as crianças brasileiras têm por “O Picapau Amarelo” e o “Saci”.446
Em O poço do Visconde (1937), Dona Benta adverte Emília sobre o seu comportamento e a sua linguagem, criticados por vários professores. Lobato apresenta em seu discurso ficcional um público leitor que não é a criança e sim aquele que funciona como mediador da leitura: o professor. “– Emília, as professoras e os pedagogos vivem condenando esse seu modo de falar, que tanto estraga os livros do Lobato. Já por vezes tenho pedido a você que seja mais educada na linguagem”.447

A fala de Dona Benta focaliza e tematiza a censura, sofrida na época pelos livros do escritor, em especial à linguagem utilizada pela personagem de pano, considerada pelos professores como inadequada à formação das crianças brasileiras.

Na mesma narrativa, logo após a descoberta de petróleo no Sítio, Pedrinho manda um novo comunicado, agora convidando aqueles que duvidavam da extração e de sua existência a “ver para crer”. A assinatura do remetente: Pedro Encerrabodes de Oliveira, poderia causar dúvidas naqueles que desconhecem as narrativas lobatianas, nunca aos seus leitores:
(...) Quem era esse tal Encerrabodes? Ninguém sabia. Só as crianças do Brasil sabiam que Pedro Encerrabodes de Oliveira não podia ser outro senão Pedrinho, o neto de Dona Benta Encerrabodes de Oliveira.

– É Pedrinho! É Pedrinho! – afirmaram as crianças de todo o país. – É o neto de Dona Benta! Ele disse que ia tirar petróleo e tirou mesmo!...

Mas as gentes grandes, marmanjões pretensiosos, riram-se das crianças, dizendo: ‘Há de ser então uma das muitas maluquices do tal sítio de Dona Benta, que o tal Lobato vive contando. Brincadeira”.448
Os leitores inventados não se restringem ao público infantil: em A reforma da natureza (1941), Dona Benta e Tia Nastácia são convidadas para representar a humanidade na Conferência, por sugestão do Rei Carol, representante da Romênia, que tece elogios à pequena república que elas governam, na América do Sul, o Sítio do Picapau Amarelo: “Proponho que a Conferência mande buscar as duas maravilhas para que nos ensinem o segredo de bem governar os povos”.449

Se a leitura do Rei Carol aparece de forma implícita no discurso, o mesmo não se dá com o representante dos ingleses, o Duque de Windsor, que apóia a iniciativa do outro com conhecimento de causa, porque a Duquesa lhe havia lido as histórias daquele “maravilhoso pequeno país”. Pela boca do inglês todos os chefes e ditadores da Europa ficam conhecendo as reinações das personagens do Sítio:


O interesse foi tanto que pouco depois todos aqueles homens estavam sentados no chão, em redor do Duque, ouvindo as histórias e lembrando-se com saudades do bom tempo em que haviam sido crianças e, em vez de matar gente com canhões e bombas, brincavam na maior alegria de ‘esconde-esconde’ e ‘chicote-queimado’”.450
Em A chave do tamanho (1942), as crianças da família do Major Apolinário, Juquinha e Candoca, apesar do tamanho diminuto em que se encontram, reconhecem, naquela pequena figura despida, a boneca personalizada que aparece nos livros que lêem: “– É a Emília mesmo, mamãe! – gritou um menino que também estava por ali e só então ela viu. – Conheço os livros que falam dela. A cara é a mesma, o jeito é o mesmo. Só falta a roupinha de xadrez”.451

Em “O centaurinho”, narrativa incluída em Histórias diversas (1959), o Sítio recebe a inesperada visita de um filósofo inglês, que retornando ao seu país informa a Bernard Shaw que a língua universal que a humanidade sonhava estava sendo gestada no Sítio do Picapau Amarelo, fazendo o dramaturgo anotar em seu caderninho: “Descobrir Emília e conversar com ela”.452 Nessa narrativa os leitores são informados de que o Visconde de Sabugosa pertence à academia de letras, porém sua candidatura sofreu ferrenha oposição, principalmente “dos imortais que não tinham em casa filhos crianças e portanto ignoravam quem fosse o tal ‘sabugo científico’”.453

A ficcionalização dos leitores e do ato da leitura introduzidas nas narrativas de Monteiro Lobato ganha novo peso quando essa representação surge de forma nomeada, com endereço e atestado de leitura, como veremos a seguir.

5.2 Leitores históricos: carne, osso e sentimento

O Mundo da Fábula não é realmente nenhum mundo de mentira, pois o que existe na imaginação de milhões e milhões de crianças é tão real como as páginas deste livro. O que se dá é que as crianças logo que se transformam em gente grande fingem não mais acreditar no que acreditavam.454

A perspectiva de mobilidade das personagens do Picapau Amarelo entre o mundo real (Sítio) e o imaginário (mundo das fábulas) não é uma característica única desse pessoalzinho, já que Monteiro Lobato insere nesse mesmo espaço-límite as personagens do mundo de verdade (crianças contemporâneas à obra) e do mundo de mentira (personagens ficcionais).

Edgard Cavalheiro,455 ao abordar a relação do leitor histórico com as obras infantis de Lobato, frisa o desejo e os pedidos constantes das crianças de participarem das aventuras maravilhosas no Sítio do Picapau Amarelo: comer os bolinhos de Tia Nastácia, ouvir as histórias de Dona Benta, fazer reinações junto com Pedrinho e Narizinho. Em algumas narrativas, o escritor contempla seus leitores dando a chance e a vez de participarem das aventuras como nos livros: O Circo de escavalinhos (1929), As caçadas de Pedrinho (1933), O Picapau Amarelo (1939) e A reforma da natureza (1941).

Em O circo de escavalinhos o pessoal do Sítio realiza um concurso para ver quem tem “a melhor idéia”. A idéia de Emília de criar um circo de cavalinhos, ou “círculo de escavalinhos”, sai vencedora. Para assistir ao espetáculo circense são convidadas as personagens do mundo maravilhoso e do Reino das Águas Claras. No entanto, os convidados não pertencem somente ao mundo encantado dos livros: Lobato insere pela primeira vez em seus livros infantis os leitores de carne e osso, trazendo à narrativa crianças pertencentes ao seu círculo de amizades e parentesco:
Pedrinho tirou várias cópias do programa para pôr dentro das cartas de convite que ia enviar aos seus amigos e às amigas de Narizinho. Ia um convite para a menina Maria da Graça Sampaio, que estava morando num país muito longe, para lá do mar. Ia outro para um amigo íntimo de Pedrinho, o Alariquinho Silveira, que morava no Rio. Outros, para o João Fernandes, o Quirino de Castro e a Therezinha Malhado, que morava em São Paulo. E finalmente outros para o Galeano de Almeida, o Rubens Carneiro e o Hélio Natividade, que morava em Taubaté.

– Você esqueceu a Lourdita Rezende, que mora no Rio, perto daquele jardim cheio de cutias – advertiu Pedrinho.456

Nesse período Lobato residia em Nova Iorque, exercendo a função de adido comercial brasileiro e, ao elaborar seu livro infantil, introduz algumas crianças reais e próximas de suas relações nas aventuras do Sítio. Essa atitude parece coerente, na medida em que ele acreditava que “é preciso que o Passado cultive relações com o Futuro próximo”.457 Deixa antever sua proposta de depositar no leitor-criança as esperanças para um novo amanhã.

Entre os ilustres convidados estava a menina Maria da Graça Sampaio, filha de Sebastião Sampaio, que exercia a função de cônsul brasileiro em Nova Iorque, por isso a expressão “morando num país muito longe”.

Alarico Silveira Júnior, filho do amigo Alarico Silveira, é informado em carta, um ano antes, sobre a sua visita ao Sítio, quando o escritor pede ao menino uma fotografia para que o ilustrador possa representá-lo. Em carta de 31 de janeiro de 1929, Lobato novamente acena com a possibilidade do menino visitar o universo do Picapau Amarelo: “Este mês tenho de escrever mais dois livros para serem publicados aí e vou botar num deles o meu amigo íntimo. Vou fazer meu amigo íntimo aparecer na casa de Narizinho e passar uma tarde inteira brincando com ela e Rabicó. Quer?”458

Finalmente, em 10 de setembro de 1929, Lobato escreve a Alariquinho, enviando um exemplar de O circo de escavalinhos, cumprindo a promessa de colocá-lo frente a frente com os netos de Dona Benta:


Junto com esta estou mandando um exemplar do Circo de Escavalinhos, onde aparece um tal Alariquinho que está com jeito de ser você. O impressor botou o retrato dele logo na segunda página, em vez de o botar no ponto em que o meu amigo íntimo aparece na história, de visita ao pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo. Creio que é esse o único erro do livro, não contando outro errinhos de revisão que o amigo certamente desculpará.459
A resposta do menino, de seis anos de idade, não demora a chegar. Alheio aos erros tipográficos, ele agradece ao escritor a sua presença na narrativa: “Muito obrigado do livro que eu gostei muito. Eu achei muito engraçado eu aparecer de aeroplano no Sítio do Picapau Amarelo”.460

Em As caçadas de Pedrinho, os netos de Dona Benta, Narizinho e Pedrinho, mais uma comitiva integrada por Visconde de Sabugosa, Emília e o Marquês de Rabicó, preparam-se para viver uma grande aventura: caçar uma onça no Capoeirão dos Taquaraçus. As armas para o embate correspondiam a uma espingarda confeccionada por Pedrinho com um cabo de guarda-chuva e gatilho puxado a elástico, a munição resumia-se a “pólvora duns pistolões sobrados da última festa de São Pedro”;461 Narizinho levou uma faca de cortar pão; o Visconde, comandante da expedição, era portador de um sabre feito de barril, e Emília ia armada com o espeto de assar frangos; a Rabicó restaram os arreios que puxavam um canhãozinho feito de um tubo de chaminé.

Apesar do despropósito das armas, o pequeno exército consegue dar cabo da onça e regressa à casa vitorioso. Na floresta, os animais assustados se reúnem e decidem atacar o Sítio. Contudo, Emília é avisada do ataque por seus espiões, um casal de besouros cascudos, oportunizando a defesa através da idéia de Pedrinho: confecção de pernas-de-pau.

Na noite que antecede o ataque, surge uma curiosa visita, a menina Cléo, filha de Octalles Marcondes Ferreira, amigo e ex-sócio de Lobato:


– Quem é você, menina? – perguntou Dona Benta, meio desconfiada.

– Não me conhecem? – tornou a desconhecidazinha com todo o espivitamento. – Pois sou a Cléo...

Foi uma alegria geral. Não havia ali quem não conhecesse de nome a famosa Cléo, que falava pelo rádio e de vez em quando escrevia cartas a Narizinho, dando idéias de novas aventuras.462
Em carta a Rangel, datada de 3 de dezembro de 1931, Lobato comenta o seu encontro com Cléo, apresentando ao amigo a sua aproximação e o efeito de sua obra junto aos pequenos leitores. A menina, num imprevisto encontro numa estação de rádio, ajudara-o a desenvolver uma conversação sobre sua produção infantil:
E ontem falei no Rádio com a filhinha do Otales, a Cleo, uma menina que é um encanto de desembaraço. Dialogamos inventadamente sobre o que nos veio a cabeça e todos gostaram. Acharam ‘uma coisa muito bem feita’. Não foi feita coisas nenhuma. Alguém me havia convidado para dizer algo ao microfone. Recusei. Nesse momento apareceu o Otales com a Cleo. Contei o caso a ela: ‘Vamos falar, Lobato!” e resolvi então aceitar o convite. ‘Sobre o que falaremos, Cleo?’ E ela: ‘Sobre o sítio de Dona Benta, sobre a Emília, o Visconde... Você pergunta e eu respondo.’

– ‘E se engasgamos, Cleo?’

– ‘Eu desengasgo você e você me desengasga...’ 463
Na narrativa, a menina descreve-se como leitora dos livros de Lobato e admiradora daquele espaço maravilhoso no qual sempre desejou morar; muito diferente de São Paulo “uma cidade muito desenxabida, com um viaduto muito feio e gente apressada, passeando pelas ruas”.464

A fama do Sítio abarca tanto o mundo de verdade como o mundo de mentira, e são as personagens destes dois mundos que o visitam em O Picapau Amarelo. O pessoalzinho recebe uma carta do Pequeno Polegar à Dona Benta, solicitando a permanência definitiva dos habitantes do Mundo da Fábula no Sítio. Dona Benta responde favoravelmente, desde que os novos moradores não ultrapassem, sem permissão, os limites das terras novas, espaço comprado e criado para a moradia das personagens maravilhosas, entre elas Pequeno Polegar, Branca de Neve e os sete anões, as princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha, o príncipe Condadade, com Aladino, a Xerazade e o pessoal todo das Mil e uma noites; Capinha Vermelha; Gata Borralheira; Peter Pan com os Meninos Perdidos do País do Nunca, mais o Capitão Gancho e toda a pirataria com o crocodilo atrás; Alice do País das Maravilhas; La Fontaine e Esopo, acompanhados de todas as fábulas; Barba Azul; o Barão de Münchausen e todas as personagens dos contos de Andersen e Grimm; além de D. Quixote e Sancho Pança.

A sábia decisão de Dona Benta dava àquelas personagens um novo alento, pois elas sempre desejaram ter um lugar só seu: “Eles sempre sonharam uma coisa assim. Nunca puderam habitar sossegados numa terra que fosse unicamente deles. Uns moravam em livros, outros na cabeça das crianças. Agora vão ser donos de um território próprio, só deles”.465

Enquanto o pessoal do Sítio e seus novos moradores estavam fora, envolvidos com as “perfídias do Pirata”, no palácio do príncipe Condadade, surge um grupo inesperado de visitantes: crianças do mundo de verdade, leitores das narrativas de Monteiro Lobato:


Dona Benta nunca deixou que os meninos dessem o seu endereço a ninguém, e isso porque milhares de crianças andavam ansiosas por passar temporadas lá – e se soubessem onde o sítio era, seriam capazes de abandonar tudo pelo gosto de conhecer a Emília e experimentar os bolinhos de tia Nastácia. Mas quem pode com certas crianças mais espertas que as outras?

Quem pode, por exemplo, com a Maria de Lourdes? Ou com a Marina Piza, ou a Maria Luísa, ou a Björnberg de Coqueiros, ou o Raimundinho de Araújo, ou Hélio Sarmento, ou a Sarinha Viegas, ou a Joyce Campos, ou a Edite Canto, ou o Gilbert Hime, ou o Ayrton, ou o Flávio Morretes, ou a Lucília Carvalho, ou o Gilson, ou a Leda Maciel ou a Maria Vitória, ou Nice Viegas, ou os três Borgesinhos (Stila, Mário e Marila), ou o Davi Appleby, ou o Joaquim Alfredo, ou a Hilda Vilela, ou o Rodriguinho Lobato e tantos e tantos outros?466


Quem seria esse bando de crianças? Nomes escolhidos aleatoriamente? Parece que não, principalmente por que o autor coloca o sobrenome para melhor identificação dessas personagens de carne e osso. O que se constatou é que, das 24 crianças citadas, duas fazem parte de suas relações familiares, os netos Joyce e Rodrigo; dos 22 nomes restantes não conseguimos identificar dois: Hélio Sarmento e Joaquim Alfredo. Os demais eram leitores que escreveram para Lobato na década de 30 e, na sua maioria, solicitavam a visita ao Sítio do Picapau Amarelo.

A líder do grupo, Maria de Lourdes, ou a Rãzinha, menina carioca de onze anos de idade, escreveu no mínimo três cartas a Lobato no ano de 1940, mas, como a referência à leitora é anterior, constata-se que ela já era correspondente do escritor. Nas cartas, a menina se dirige a ele carinhosamente como CAMON (possivelmente uma junção de Caro Monteiro). Na narrativa a menina apresenta o grupo ao Conselheiro e informa quem são:


– Somos amigos dos tais netos cujas histórias vêm nas ‘Reinações de Narizinho’ e outras obras. Muito lutamos para localizar o sítio; mas à força de indagar aqui e ali e de escrever cartas a este e àquele, conseguimos encontrá-lo.467

Marina Piza (de Souza), residente em São Paulo, escreve em 25 de novembro de 1936, agradecendo a remessa do livro Dom Quixote das crianças e sua dedicatória, que foi mostrada “com orgulho e alegria a todos da casa”. Ela solicita informações sobre o livro “Emília tira petróleo”, que seu primo, José Bonifácio de Souza Amaral, disse que Lobato estaria escrevendo: “Deve ser muito interessante, como todos os outros livros que tem escrito”.468 A leitora ainda cita um artigo publicado no Gury (Suplemento infantil do Diário da Noite) que relata o orgulho dos leitores mirins diante do seu escritor e que só depois dele elas poderiam dizer: “Qual! Lewis Carrol, Burger ou Christian Andersen são café pequeno ao lado do grande escritor patrício fulano de tal”.469

A leitora mostra-se atualizada quanto aos lançamentos do escritor e até mesmo seus planos para novos livros. Mantém-se informada através dos artigos de jornais sobre o seu escritor preferido e apresenta o nome completo do primo na tentativa de buscar um ponto de contato com o escritor.

A menina Maria Luiza (Pereira Lima), de doze anos de idade, residente na época em Pelotas (RS), escreveu no mínimo duas cartas a Lobato, datadas de 1936, a primeira endereçada ao próprio escritor, e a segunda à Dona Benta Encerrabodes de Oliveira. Filha de mãe francesa e pai brasileiro, a leitora se diz atéia, como seus pais, e acredita, pela leitura de História do mundo para as crianças, que Lobato também o seja.

Ela faz um auto-retrato de sua vida acadêmica: tendo concluído o 6o curso no Colégio Alemão, aguarda os exames para sua admissão no Ginásio Pelotense. Poliglota, fala alemão, francês e compreende “um pouco de inglês”. Proprietária de uma biblioteca de 110 volumes, aprecia sobremaneira as narrativas lobatianas. Percebe-se, pelos seus comentários, que o seu repertório literário inclui também as traduções realizadas pelo escritor, pois ela as enumera fielmente. Porém, o que deseja a menina, através de sua carta, é concretizar um de seus sonhos:
Se um dia fosse na Dona Benta no sítio do Picapau Amarelo seria capaz de fazer mil aventuras, tantas que Dona Benta e família seriam capazes de abrir os olhos maiores que ‘os grandes olhos de John Grafford’ como diz Emília de língua comprida.470
A Björnberg de Coqueiros era a menina Tagea Björnberg, de dez anos de idade, residente em Coqueiros (SP), cujas duas carta datam de 1936. Na primeira, a leitora faz um balanço dos livros de Lobato que mais aprecia: Reinações de Narizinho, Novas reinações, O saci, Viagem ao céu, História do mundo para as crianças e Peter Pan, descrevendo-os como “aventuras fantásticas cheias de seres sobrenaturais”471 que, no entanto, passam ao leitor a crença em sua existência real; a leitora ainda sugere traduções de alguns títulos que anda lendo na língua original. Na segunda, apresenta uma sugestão de aventura que envolva os netos de Dona Benta e o menino que não queria crescer, Peter Pan.472 Curiosamente nesse mesmo ano o livro Memórias da Emília, previsto há algum tempo, traz Peter Pan como uma de suas personagens visitantes.

O leitor carioca Raimundo de Araújo, de oito anos de idade, comenta com o “Caro Mestre Lobato” a leitura de seus livros e o interesse pelas suas personagens, mostrando piedade pelo Visconde e admiração especial pelo livro Memórias da Emília. O leitor informa que tem três livros escritos no “papel da cabeça” e que, quando passá-los para o rascunho do papel, enviará para Lobato opinar sobre eles.473

Sarah Viegas (da Motta Lima), de doze anos de idade, residente no Rio de Janeiro, escreve duas cartas a Lobato em 1937. Na primeira, solicita que ele escreva um livro sobre História do Brasil, assunto que está estudando e acha “muito cacete”. Critica o livro de Viriato Correia sobre o assunto, acreditando que pela estrutura da narrativa ele buscava plagiar Lobato.474 A segunda é de agradecimento pela resposta do escritor.475

Joyce Campos, filha de Marta Lobato e J. U. Campos, tinha nove anos de idade quando o avô a insere na narrativa. Aparecer como personagem em O Picapau Amarelo foi algo natural para a menina que achava aquilo normal: “Não era um negócio que eu sonhei estar lá. Eu morava lá”.476

A menina Edith Canto, residente em Botucatú (SP), escreve no mínimo seis cartas a Lobato, entre 1937 a 1943. Apresenta-se na primeira carta como filha de Francisco Pedro do Canto Jr., colega de Lobato no curso anexo à Faculdade de Direito. Edith inicia suas cartas comentando os livros infantis de Lobato, mas ao longo do período de correspondência ela enumera os livros para adultos já lidos. Em carta de 1937, coloca em evidência o desejo de participar de aventuras maravilhosas com o pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo: “Quisera eu conviver com eles todos, ao menos um dia, uma hora; devia ser tão engraçado; tão bom! É pena que eles não existam!”477

Gilbert (L. E.) Hime (Júnior) tinha doze anos, quando escreve sua primeira carta a Lobato, em 1935. No período de 1935 a 1942, dirige-se no mínimo seis vezes ao escritor. Em 1939, ele escreve agradecendo a sua visita ao Sítio do Picapau Amarelo: “Estou escrevendo esta carta para agradecê-lo de ter se lembrado de mim no seu livro O Picapau Amarelo, eu nunca esperava por tal... foi uma agradável surpresa”.478 O leitor também informa, três anos mais tarde, que ficou sabendo por sua mãe de uma incrível coincidência. Uma de suas companheiras de aventura, a menina “Björnberg de Coqueiros”, era sua prima “de segundo ou terceiro grau”.479

Ayrton (César Navarro), de oito anos de idade, residente na cidade de São Paulo, envia ao escritor a lista de livros que já leu. Há uma única carta existente no arquivo do IEB, porém, percebe-se que o leitor já havia se dirigido ao escritor anteriormente, pois ao iniciar a carta informa: “Saudações: recebi sua carta e fiquei satisfeito com suas notícias”.480

O menino Flávio (Langes) Morretes, residente em São Paulo, escreve no mínimo três cartas a Lobato. Na primeira informa ter lido o livro O saci, observando: “Que pena a gente nascer gente e não Saci”.481 Diz também que está fazendo uma coleção dos livros de Lobato. Na segunda carta apresenta sua opinião sobre o livro Histórias de Tia Nastácia.482 Na terceira, datada de outubro de 1940, agradece ao escritor a sua aparição no Sítio do Picapau Amarelo: “Isso sim, isso chama-se surpresa! Nunca tive a honra de aparecer em um livro, por isso a minha alegria foi do tamanho de um bonde ou do Quindim”.483

A menina Lucília (Alves) Carvalho, de dez anos de idade, aluna do primeiro ano de admissão do Colégio Jacobina, localizado no município do Rio de Janeiro, leitora e correspondente de Lobato em, no mínimo, três cartas, solicita ao escritor:

Peço que escreva um livro que entre não só Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde, o Rinoceronte, o Burro falante, Dona Benta, o “anjinho” e Tia Nastácia como também eu, esta última personagem eu peço para entrar num livro que conta uma viagem à China.484


A leitora se apresenta como escritora e gostaria de tê-lo como leitor de suas narrativas. Observa também que Lobato não deve esquecer da personagem Anjinho, que aparece somente em Viagem ao céu. Em outra carta destaca a legião de leitores do escritor, observando que, talvez, ele possa desconhecer a dimensão de sua abrangência entre o público infantil; por isso o convite de ir até a sua escola:
Aposto até com a teimosinha da Emília que o senhor não conhece nem a décima parte dos seus leitores. Pois aqui no Colégio Jacobina havia de conhecer um punhado deles, havia de me ver e falar:

– E aquela ali? Quem é?

E nem lhe passava na idéia que fosse eu aquela menina que já o interrompeu com duas cartas, já!485
O menino carioca Gilson (Maurity Santos) escreveu cinco cartas a Lobato no período infantil, uma em fins de 1933 e as outras em 1934; tinha então onze anos de idade. Na metade da década de 40, o leitor reata o contato epistolar com o escritor. Nas cartas escritas no período infantil, o leitor insiste em sua visita ao Sítio: “Quero agora ir para o Sítio do Picapau Amarelo me meter em Aventuras. Quero ler muitos livros onde eu estou em aventuras com Pedrinho etc. (principalmente com Emília e o Visconde)”486 ou “Quero que responda se deixas ou não deixas entrar nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo?”.487

Leda (Augusta Ribeiro) Maciel, de doze anos de idade, residente no Recife, aluna do 2o ano da Escola Normal, escreveu a Lobato em 1936. A única carta encontrada dela ao escritor sugere que era uma leitora assídua de seus livros, elencando vários títulos infantis como já lidos e admirada com a capacidade do escritor: “Como é que na sua cabeça cabe tanta coisa boa e engraçada?”488 Como as outras crianças, a leitora almeja conhecer o escritor pessoalmente, pois o conhece somente pelas fotografias de jornais.

Maria Victória, provavelmente filha de Maria Eugênia Celso, autora do livro Vicentinho, num pequeno bilhete informa que esteve com cachumba e durante a doença sua mãe leu todas as narrativas de Reinações de Narizinho. A leitora diz ter gostado muito do livro, no entanto, indaga: “mas quero saber quem é o Peninha? Mande dizer”.489

A leitora Nice Viegas começou a escrever a Lobato aos dez anos de idade e, segundo ela, “nunca o meu admirado escritor me deixou sem resposta”. Em 3 de março de 1939, da cidade de Maceió, a menina comenta com Lobato a entrevista concedida ao Vamos ler, em que falava de seu propósito de não mais escrever, e sugere-lhe que continue, pois ele não poderia deixar seus leitores “nessa tristeza de não poder mais ler as histórias que só o senhor sabe escrever”.490

Em 29 de maio de 1942, ela dirige-se ao escritor, informando que: “Pois bem: a Nice Viegas que teve a honra de aparecer no seu livro “O Sítio do Picapau Amarelo” está morando em Niterói ... E há muito tempo vem pensando em continuar a nossa correspondência”. Já com quinze anos de idade, a menina diz estar acontecendo com ela o que a turma do Sítio tem horror: virar gente grande. A leitora, contudo, acredita que para ler Monteiro Lobato não se precisa ter idade.491

Os irmãos Marila, Stila e Mário Gravenstein Borges, os “três Borgesinhos”, escreveram pela primeira vez em 1932, representados pela mais velha do grupo, Marila. A menina conta das férias recentes no Sítio Santa Henriqueta e diz terem levado consigo “as aventuras completas de Narizinho”. A leitora, de dez anos de idade, envia uma fotografia sua e de seus irmãos Mário, de oito anos, Stila, de sete, ambos estudantes do Grupo Escolar Marechal Deodoro, e Yedda, de cinco anos que “apenas ouve ler os seus livros, porque ainda não o sabe fazer”. Marila não identifica o seu ano escolar, mas enfatiza os seus estudos no Conservatório Dramático e Musical: “6º ano de piano, 1º de harmonia e 3º de solfejo cantado”. A carta termina com o pedido de que Lobato continue a escrever sobre o Picapau Amarelo e suas personagens.492

A fotografia estampava os quatro irmãos lendo os livros de Lobato “em flagrante delito de imaginação a solta os adoráveis contos daquele país”. Em carta provavelmente de 1934, a leitora agradece o telefonema de Lobato comentando a fotografia do grupo e a remessa da fotografia do escritor. Marila ainda pede a sua presença no Sítio: “Tanto tenho vivido entre seus personagens que desejaria ‘viver’ num próximo livro onde a turma de Dona Benta aparecesse. Assim uma coisa como aconteceu a Cléo”.493

Em 1935, o menino David Appleby, de dez anos de idade, residente no Rio de Janeiro, escreve duas cartas a Lobato. Filho de mãe norte–americana e aluno do 5o ano de inglês, o menino recomenda a Lobato a tradução para o português do livro Just David, de Eleanor Porter, por considerá-lo muito bom.494 Na segunda carta, escrita totalmente em inglês, o menino agradece a resposta do escritor e promete enviar o exemplar do livro sugerido para tradução, já que Monteiro Lobato o desconhecia.495

A menina Hilda Villela foi atendida em seus caprichos por seu avô e levada ao escritório de Lobato para conhecê-lo; o primeiro contato gerou uma troca de cartas, bilhetes e convites entre o autor e a leitora. Ligação afetiva que se estende até pouco tempo, pois não pode ser esquecido o trabalho de Dona Hilda, como é carinhosamente chamada pelos colegas e amigos, junto ao Museu Monteiro Lobato.

O neto Rodrigo Lobato, filho de Edgard Lobato e Gulnara, é introduzido pelo avô na narrativa com apenas um ano de idade na data de publicação da obra.

Em A reforma da natureza, a menina carioca Maria de Lourdes, a Rãzinha, novamente aparece em cena agora para auxiliar Emília que estava sozinha no Sítio, já que Dona Benta, tia Nastácia e Narizinho e Pedrinho estavam na Europa a convite de várias autoridades para contribuir na discussão sobre a paz, pois segundo o General de Gaulle: “A pequena república que elas governam sempre nadou na maior felicidade”.

Encontrando-se sozinha, Emília resolve chamar uma aliada para sua “reforma” e escreve para Rãzinha, enviando uma pitada de pó de pirlimpimpim para que a menina possa chegar ao Sítio (no desenrolar do texto descobre-se que as duas eram correspondentes há muito tempo).

Já no Sítio, a menina fica a pensar, enquanto a boneca dorme, sobre o contentamento de estar ali, participando de uma aventura com sua amiga Emília. Ela, leitora assídua de todas as peripécias da boneca, sente-se privilegiada:
A Rã adorava a Emília. Sabia de cor todas as travessuras da Emília, todas as ‘piadas’ da Emília, todas as asneirinhas da Emília, todas as más-criações da Emília, e agora considerava-se a menina mais feliz do mundo, porque entre todas as meninas do mundo só ela estava tendo o privilégio de ver a maravilha das maravilhas que era o soninho da Emília.496
A necessidade de materializar a sua visita naquele reino encantado faz com que a menina arranque um fio de cabelo da boneca e o guarde para utilizar como marcador de páginas de Reinações de Narizinho.

Interessante nas cartas da menina, datadas de 1940, são as sugestões para o livro A reforma da natureza, um ano antes de sua publicação. Provavelmente Lobato havia comentado com a leitora a sua elaboração e ela insistentemente sugeria várias mudanças na natureza, sendo que duas cartas tratam exclusivamente de idéias para esse fim:


Agora me lembrei duma boa reforma. A luz elétrica é muito bela... mas não é bem, bem, bem ótima. E se eu e a danada da Emília subíssemos té o céu (de que maneira? Ora, que pergunta ingênua ... subíamos pelas minhas tranças...) e como duas Prometeus malucas avançássemos para o sítio? Nunca mais haveria sombra! Seria a maravilha das maravilhas! Podemos também inventar uma árvore que dê sorvetes em vez de frutas.497
Edgard Cavalheiro observa que, muitas vezes, Lobato, para contemplar um pedido do leitor, coloca alguns animais, como cachorrinhos ou gatos, “que atravessam uma sala, ou passam diante das personagens. Passa e desaparece”.498 É o que acontece no livro A chave do tamanho, quando o escritor insere na narrativa o gato Manchinha como resposta ao pedido da leitora carioca Terezinha Dantas.

A menina era sobrinha de Silveira Peixoto e esteve com Lobato em princípio de 1940, quando viu realizado seu maior desejo: conhecê-lo pessoalmente. Em carta datada de 15 de janeiro de 1942, informa ao escritor que gostaria de ver seu bichano de estimação em “um livro com a turma do Picapau Amarelo”. Tentando reavivar a memória do escritor, a leitora afirma que: “O senhor me prometeu que botaria o nome de ‘Manchinha’, um gato meu, no seu livro, e espero que não se esqueça disso”.499

Na narrativa, Manchinha torna-se uma ameaça no pequeno mundo transformado pela peraltice de Emília: o gato, em seu tamanho natural, devora seus donos. Apesar do ato cruel do animal, a leitora agradece a presença de seu gato na história: “Achei-o ‘meio’ malvadinho, mas gostei bastante”.500

Observa-se, assim, que o escritor buscava a inserção real do leitor na sua obra. Se não podia trazer ao universo do Picapau Amarelo todos os seus leitores de carne e osso, ao menos selecionou uma parcela para que, com isso, cumprisse o desejo de tantas e tantas crianças que deixavam expresso em bilhetes, cartas e pedidos particulares o sentimento de morar naquele espaço imaginário.



5.3 As cartas: prêmios do grande milionário

Hoje sou um decaído: meu público é toda gente. Recebo cartas de toda parte e vou me reduzindo à epistolografia telegráfica.501

A confissão de Monteiro Lobato ao amigo Godofredo Rangel sobre a sua correspondência dá-se em 1919, período inicial de sua carreira quando é aclamado pela repercussão de seu livro Urupês. Também nesse momento os negócios editoriais estão numa fase efervescente, o que desfaz a surpresa de suas palavras, já que ele se tornara um homem assediado por todos os novos que desejavam adentrar no universo literário.

Não se deve esquecer que, desde a tenra idade, Lobato foi propenso à correspondência epistolar. Em 1895, quando vai a São Paulo prestar os exames para ingresso no curso preparatório, escreve a todos da casa, em especial à sua mãe. O conteúdo dessas cartas, como observa Edgard Cavalheiro: “são autênticos relatórios de tudo quanto faz, ou pensa fazer”.502 Em 1897, o jovem Lobato instala-se definitivamente em São Paulo, como interno no Instituto de Ciências e Letras, para concluir o curso preparatório e ingressar na Faculdade; de lá escreve à família prestando contas de seus atos e tribulações.

A atividade epistolográfica o acompanhou por toda a vida, cujo maior exemplo está no livro A barca de Gleyre,503 resultado de quarenta anos de correspondência entre o escritor e seu amigo de vida estudantil, Godofredo Rangel. O livro constitui um retrato vivo da vida literária do país ou, como o próprio escritor denominava, “um verdadeiro romance mental de duas formações literárias”.504 Adepto incondicional da correspondência selada e estando distante de sua pátria, residindo em Nova Iorque, cita o correio como “a maior invenção humana”.505

Os destinatários e remetentes de cartas a Lobato eram muitos: familiares, amigos, escritores, cientistas, pesquisadores, autoridades políticas. Porém, deter-nos-emos no conjunto de cartas que refletem a recepção leitora dos livros, em especial os de literatura infantil.

A importância dada às correspondências dos leitores pode ser presentificada na nota introdutória do livro A barca de Gleyre: um agradecimento para ficar gravado como declaração de amor em “casca de árvore”. O autor dedica o livro a três pessoas: a esposa Purezinha, companheira de uma vida; o inesquecível amigo da adolescência que se suicidou, Ricardo Gonçalves; e a pequena Marjori, “a criaturinha que simboliza todas as que lembram de mim e me escrevem”.506

O gesto afetuoso de Monteiro Lobato de dedicar o livro aos seus leitores infantis, mesmo não estando esse destinado exclusivamente para eles, demonstra o quanto significava para o ele o contato com as crianças através das cartas. E foi por meio de uma carta que a leitora Marjori Sundart, de doze anos de idade, pediu-lhe a sua inclusão no livro, poucos meses antes de seu lançamento.

A menina comunica estar a par do projeto do escritor de publicar em livro o conjunto de cartas escritas entre os dois amigos (Lobato e Rangel). “Seu Moacyr”, provavelmente alguém que pertencia ao ciclo de amizades do escritor e da leitora, expusera-lhe as dúvidas que reinavam na cabeça de Lobato sobre a publicação do material e ela, com a “sabedoria” infantil, estimula-o: “essas cartas vão nos ensinar, a todos nós pirralhos a escrever quando crescermos e aparecermos”.507 Marjori manifesta seu desejo de ser lembrada como incentivadora dessa empreitada:
Vou lhe pedir uma coisa que não pude na sua frente porque fiquei com muita vergonha: quer dizer nelas que eu, uma sua leitorinha que conhece todos os seus livros de cor e adora a Emília, insistiu para o senhor publicar as cartas? Vai por o meu nome? Oh, que bom!508
Ao contemplar, na dedicatória, o nome de um de seus leitores, Lobato agradece o interesse, não só de Marjori, mas de todas aquelas crianças que lhe escreveram e dialogaram com a sua produção literária.

Contemporaneamente as cartas são motivadas por um programa editorial. Na década de 70 até fins de 80, a Editora Brasiliense, através da coleção “Jovens do Mundo Todo”, estimulava a correspondência entre leitor e escritor, colocando o endereço particular do escritor na contracapa do livro. Atualmente, a editora Moderna adota a mesma atividade, porém o convite para correspondência vem encartado junto à “orientação de leitura” dos seus livros e o endereço se limita à própria casa editorial:


Você gostou de ler este livro? Escreva para o autor e mande sua opinião. Basta enviar uma carta para:

Fulano de tal


a/c Editora Moderna

Rua Afonso Brás, 431


CEP 04511-901 – São Paulo – SP

Caixa Postal 45.364.


Sabe-se que o desempenho positivo dessa atividade dependerá do comprometimento do escritor com o público leitor e seu interesse em facilitar esse diálogo. Dois exemplos frutíferos desse procedimento se encontram nos arquivos dos escritores para crianças e jovens Maria de Lourdes Krieger e Pedro Bandeira.

A par das diversas facetas já abordadas sobre o pioneirismo de Lobato como editor, como escritor para crianças – acreditamos que se possa levantar também aquela de ter sido o pioneiro na correspondência com os leitores. Porém, essa atividade não nasce de um programa editorial preestabelecido, como acontece nos dias de hoje. As cartas surgem primeiramente de um reflexo espontâneo dos leitores próximos do escritor – como o menino Alarico Silveira Júnior e Cléo Marcondes Ferreira. Essa fronteira íntima é ultrapassada a partir de 1934, possivelmente estimulada pelas visitas de Lobato a comunidades escolares de várias cidades, principalmente nos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O discurso dos leitores denuncia as artimanhas utilizadas para viabilizar o acesso e fazer com que as cartas chegassem até o escritor: dirigiam-se a livrarias, editoras, aos adultos que conheciam Lobato, a programas de rádio, entre outros. Todos com um único fim: aproximar-se de Lobato, e com um só desejo: ser correspondido. Assim, a Companhia Melhoramentos, a Nacional, a Brasiliense, a Rádio Globo foram alguns dos estabelecimentos que intermediaram o contato entre o leitor e o escritor.

Joyce Campos Kornbluh afirma que as pessoas que se correspondiam com seu avô não tinham a obrigação de saber o seu endereço, porque ele vivia oscilando como o seu dono, residindo ora aqui, ora ali; no entanto, “eles punham Monteiro Lobato e chegava lá, sem endereço nenhum”. Ela relembra um envelope que ficou famoso e foi guardado durante muitos anos por sua avó: ele trazia somente o desenho de uma sobrancelha, parecendo mais com uma gaivota e foi entregue prontamente à casa do escritor.509

O grupo de remetentes não se limita ao espaço geográfico brasileiro: quando Lobato vai residir na Argentina, intensifica-se a atividade epistolar com os leitores daquele país.510 A freqüência com que o escritor começa a receber cartas de crianças e professores argentinos faz com que comente o fato em cartas a amigos como Rangel e Otaviano Alves de Lima:
Ontem recebi carta de uma pedindo-me para escrever uma história da América no tipo da minha História do mundo para as crianças – e já botei isso nos meus planos. Escrever para as crianças é semear em terra roxa virgem – e não praguejada. Cérebro de adulto é solo já praguejado.511
No conjunto de documentos que diz respeito à correspondência passiva de Monteiro Lobato de remetentes infantis, localizado no IEB, encontra-se uma relação manuscrita intitulada “cartas mais interessantes”. De autoria desconhecida, e sem a comprovação de um exame grafológico, a seleção pode pertencer a Monteiro Lobato, bem como a Edgard Cavalheiro ou Marina de Andrada Procópio Carvalho. Muitas das cartas que selecionamos coincidem com esse repertório, embora ele não tenha nos orientado.

O critério que nos orientou na seleção das cartas foi marcado por questionamentos que julgávamos pertinentes à reflexão da relação comunicacional entre texto, escritor e leitor. Considerando todas as cartas como respostas diante do material lido, buscamos aquelas que fossem mais representativas, seja pela espontaneidade ou criticidade do emissor. Elas acabam por revelar a imagem que o leitor constrói do escritor; a intricada parceria entre a escola e a leitura dos livros “didáticos” de Lobato, tão questionada pela crítica e valorizada pelo leitor; as expectativas de leitura; entre outros pontos que serão aqui apresentados .


5.3.1 A surpresa da resposta
O leitor, em muitos dos casos, escreve ao escritor fazendo pedidos, expondo opiniões sobre os livros e as personagens, mas trazendo implícito no seu discurso a incerteza da efetivação desse contato. A súplica de resposta ecoa em todas as cartas; mesmo almejando-a, a surpresa é freqüente quando ela se realiza.

A menina Kermita Bruno de Almeida, aluna da 5o ano do grupo Escolar Joaquim Távora, localizado em Niterói (RJ), agradece a fotografia autografada e a carta enviada para a sala de leitura, relatando a admiração e contentamento com que o estabelecimento escolar recebeu a sua resposta:


Todos queriam ver o retrato do grande amigo das crianças, a carta, a assinatura, tudo enfim. O interesse entre meus colegas foi tamanho, que me vi obrigada a ir de classe em classe a fim de que pudessem ver tudo muito bem. Desejava que estivésseis presente para ouvirdes as interjeições, com todas as vogais.512
O leitor Ari Reginaldo Soares, de dezesseis anos de idade, residente em São Paulo, escreveu dez cartas a Lobato no período de 10 de outubro de 1943 a 10 de maio de 1945. O leitor confessa seu pouco estudo, já que o interrompera no 4o ano primário, e revela ainda as suas dificuldades financeiras. Ele fala de suas leituras que incluem Urupês e A chave do tamanho, bem como seu interesse por Guerra e Paz, de Tolstoi. O leitor comenta a sua surpresa ao receber a resposta do escritor à sua primeira carta:
Quando chegou a carta não quis acreditar fosse sua e a abri com as mãos trêmulas para ver na parte superior do papel: Monteiro Lobato; então sim acreditei; não que eu julgasse que não me respondesse, não, muito pelo contrário, é que o senhor parece uma pessoa inexistente.513
Para a leitora Alice, de doze anos de idade, aluna do 2o ano do Ginásio Campos Salles, localizado em São Paulo, uma história de Monteiro Lobato é uma “festa”, e é com alegria que recebe um livro de presente do escritor: “uma relíquia preciosa para minha biblioteca, que está agora engatinhando, ou melhor, ensaiando a sua formação”. A menina apresenta a sua surpresa ao receber a visita do carteiro com a resposta de Lobato: “Fiquei assustada, nem era para menos. Uma carta em casa de gente pobre e esquecida dá para desconfiar. Julguei que se tratasse de aviso de um novo aumento de taxa da Escola. Ai de mim!”514

O depoimento ultrapassa as informações quanto ao processo de leitura e deságua em problemas pessoais. A vida econômica acaba por permear o discurso da leitora, mostrando que as poucas cartas que ali chegam referem-se à cobranças. A carta de Lobato modifica esse quadro ao trazer para um “lar pobre” a resposta ilustre.

Sabendo da permanência de Monteiro Lobato em Buenos Aires, a leitora argentina Alicia Tayler, de oito anos de idade, escreve do interior da Argentina (Ituzaingó), desejando-lhe felicidade na nova terra e contando seu pesar em não poder levar seus livros para que o escritor os autografe, principalmente aquele que está lendo: História das invenções. Contudo, como os leitores brasileiros, a menina solicita: “pero pienso que U.d. será tan bueno de enviarme unas lineas para agregarlas como recuerdo personal”.515

Lygia Salati de Almeida, de oito anos de idade, escreve para Lobato, em 4 de setembro de 1946, solicitando a sua autorização para que a mãe e o pai, Benedito Almeida Júnior, dramatizem alguns de seus livros. A resposta do escritor é positiva, pois a leitora informa a radiofonização de Cara de coruja, numa carta permeada pela alegria de ter recebido a resposta do escritor:


Muito obrigado pela sua resposta. Se o senhor estivesse aqui eu pularia ao seu pescoço como faço sempre as pessoas de minha amizade e então não sei se o senhor sairia deste abraço com as costelas inteiras como saiu dos quinze abraços que lhe enviamos.

Mas, como eu sou muito pequena, ninguém queria acreditar que a carta era sua. É verdade que eu recebo carta de muita gente grande, mas, para as minhas colegas parecia impossível que o senhor respondesse à carta de uma criança. Eu sei que o senhor não é como muita gente grande que pensa que criança não é gente, e por isso nunca perdi a esperança, mais uma vez, deus lhe pague.516


Transparece no discurso uma confiança irrestrita e inabalável no escritor, tratado como um camarada numa relação de cumplicidade. Embora adulto, ele é capaz de respeitar e dialogar com seus leitores, independente da idade. A espontaneidade da leitora faz com que se desfaçam os laços formais, colocando o escritor no patamar das relações de amizade.

As formas de cumprimento utilizadas pelos leitores se multiplicam, desde as mais convencionais que tratam o escritor de Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Doutor, Senhor, Caro, àquelas que se mostram despidas de qualquer formalidade e chamam-no de querido, amigo. Os que se julgam futuros escritores nomeiam-no de colega e mestre. As mais espontâneas apelidam o escritor de maneira afetiva, como CAMON ou Loló.

O desejo de conhecer pessoalmente o escritor emerge em todos os discursos. A maioria dos leitores, sabendo da impossibilidade do contato pessoal com o escritor, quer uma prova concreta de sua amizade, por isso os pedidos de fotografias são muitos. Às vezes a solicitação vem especificada, como faz Gilbert Hime Jr., enfatizando que a fotografia seja integral: “não é só o busto, todo o corpo”.517 Quando as fotografias chegam ao destinatário, a resposta é sempre carregada de contentamento, descrevendo o local privilegiado de exposição da fotografia: “Logo que eu recebi o retrato, eu o pus em um quadro que coloquei no lugar mais proeminente do meu quarto”,518 diz Cordélia Fontainha Seta; “eu mandei botá-lo numa bonita moldura prateada, e botei-o entre os retratos de meus pais”,519 responde do Rio de Janeiro, Severino de Moura Carneiro.

Outro pedido constante, registrado na grande maioria das cartas, é a remessa de livros. Ora ele vem com a solicitação da fatura e a justificativa da inviabilidade de encontrar o título na livraria existente na cidade. Ora vem respaldado pela falta de condições econômicas e a vontade de ler os livros do escritor. Maria Helena Dias, filha de empregada doméstica, diz não poder comprar os livros do escritor e pede que ele lhe envie algum título de presente, e a menina agradece quando recebe A chave do tamanho.520 Marly de Camargo Ribeiro, de 14 anos, pede livros para ela e seu irmão de nove anos. Esclarece que a mãe é aposentada por invalidez e o pai possui um baixo salário o que inviabiliza a compra de livros.521

Existem ainda solicitações que ficam calcadas no plano da ficção, pedidos de pitadas de pó de pirlimpimpim, pílulas falantes e até mesmo um anjinho igual ao da Emília, como assinala o menino Osmar Castanho Madel, de seis anos e residente em São Paulo: “Que bom um anjinho com asinhas e a gente brincando com ele”.522



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