Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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5.3.2 A leitura e a escola

Das 385 cartas a que tivemos acesso, 82 se referem à criação de atividades vinculadas à leitura dentro do espaço escolar; 36 concentram-se no Estado de Minas Gerais; 22 no Estado do Rio de Janeiro; dezessete em São Paulo; três em Curitiba, Paraná; duas na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul; uma no Pará e uma na Paraíba. Do total destas cartas somente dezessete referem-se a escolas particulares, as demais pertencem à escolas públicas do Ensino Fundamental, na época denominadas de Grupo Escolar.

Desse contingente de cartas, somente duas recorrem ao escritor com pedido de remessa de livros sem estar vinculado com a titulação de Lobato como patrono. Como a carta do menino Mário Granato, aluno do Grupo Escolar Marechal Deodoro (SP), que recorre ao escritor taubateano para reconstituir o acervo da biblioteca escolar, depauperada pela “Revolução”, como explicita o aluno:
Existe uma biblioteca infantil, para uso dos alunos; mas, na última revolução, tendo sido o prédio ocupado pelos soldados, a nossa biblioteca quase desapareceu. Em nome, pois, do meu grupo venho pedir ao senhor, o favor de nos dar uns livros seus, cuja leitura é por nós muito apreciada.523
Em carta datada de 20 de novembro de 1939, a diretora Iraci Mendes do Nascimento, do Grupo Escolar “Orlinda Veiga”, localizado em Porciúncula (RJ), expõe ao escritor a escolha de seu nome, pelos alunos daquela instituição educacional, para patrono do clube de leitura. A diretora solicita ainda uma fotografia para ser afixada com destaque no clube. Em 4 de dezembro daquele mesmo ano, o diretor do clube apresenta aos leitores do jornalzinho escolar o pronto atendimento do escritor:
Num gesto de rara fidalguia atendeu-nos o grande escritor patrício, enviando-nos, além de uma obra autografada, outro livro seu que virá enriquecer a nossa biblioteca. Reconhecidíssimos ficamos, igualmente, pela fotografia que, cheios de orgulho, faremos inaugurar no Gabinete de Leitura.524
Faz-se necessário evidenciar o processo de formação e criação do espaço destinado aos livros dentro do ambiente escolar neste período. Em primeiro lugar, constata-se que, em sua grande maioria, não existia uma biblioteca comum para o conjunto da escola e sim criações de espaços individuais dentro da própria sala de aula. Daí as terminologias de “sala de leitura de classe”, “biblioteca de classe”; até mesmo os “clubes de leituras” estavam vinculados a uma sala e turma específica. Com o término do ano letivo, encerravam-se as atividades que eram retomadas no ano seguinte com uma nova turma.

No Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1934, Monteiro Lobato, juntamente com Anísio Teixeira, visita a Escola Experimental Barbará Otoni. Escolhido como patrono da biblioteca daquela escola, Lobato envia após a visita vários exemplares de livros da Coleção Terramarear e uma fotografia solicitada pelo corpo docente para figurar na biblioteca.

No final daquele mesmo mês, dezesseis cartas dos alunos daquela escola são remetidas ao escritor. O teor das missivas gira em torno de comentários sobre a visita do escritor e da palestra realizada por ele sobre as personagens do Sítio do Picapau Amarelo. Todos os alunos agradecem os livros e a fotografia que já se encontrava num lugar especial da biblioteca.

Algumas cartas se sobressaem, como a da menina Leda Petrucci que lhe deseja muita saúde física para que os seus serviços em prol dos que estudam prossigam sem sofrer interrupções525. Ou como o comentário da leitora Luiza Angélica Noronha ao descrever o encontro com o escritor:


Confesso que não fiquei acanhada de falar com o senhor, mas ao contrário, senti-me bem desembaraçada. Perto de uma pessoa tão famosa e popular, fica-se sem jeito, mais perto do senhor, apesar de seu valor, achei-me à vontade. Não gosto de gente que fala muito difícil, mas o senhor sabe falar com as crianças.526
A carta dos alunos do 3o ano do Grupo Escolar Barão de Macaúbas, localizado em Belo Horizonte (MG), traz a notícia da criação do clube de leitura de sua classe e a escolha de Lobato como patrono, justificando: “Enviamo-lhes esta notícia porque pensamos que há de ficar muito satisfeito sabendo que os meninos d’aqui são gratos ao senhor pelo prazer que lhes tem dado com as suas bonitas histórias”.527

Os alunos do 4o ano do Grupo Escolar Coronel J. J. de Souza, localizado em Bicas (MG), por meio da aluna Sônia Azevedo, informam, em 1935, que o seu clube de leitura tem como patrono o “ilustre escritor Monteiro Lobato”. Anexa à carta da menina, encontra-se a carta da professora da turma, Maria da Cruz Azevedo. A professora destaca os motivos pelos quais os livros de Lobato agradam ao público infantil: a forma pitoresca e original do escritor dirigir-se às crianças.528 Seis anos depois, os alunos do 3o ano, desse mesmo grupo escolar, convidam-no, através de uma carta dirigida à Editora Nacional, para ser patrono do “club de leitura”.529

A diretoria do clube de leitura do Grupo Escolar Dr. Avelino de Queiroz, localizado no município de Piumhy (MG), concede ao escritor o título de patrono do clube, especificando o motivo dessa escolha: “pois, sabemos que Vossa Ex. vem sendo o melhor escritor para a infância, assim cooperando grandemente para formar a mentalidade futura e para o progresso da nossa pátria”.530

Quatro meses depois, a diretoria do clube ainda não tem notícias ou resposta de Lobato, o que a leva a insistir, agora através de uma carta à editora Melhoramentos.531 Em 12 de abril de 1938, Sophia Agresta, aluna do 4o ano, do mesmo grupo escolar, agradece o envio de livros de Monteiro Lobato para a biblioteca de classe. Pressupõe-se que depois de várias tentativas os leitores conseguiram estabelecer contato com o escritor.

A menina Dely Azevedo, em nome dos alunos do 4o ano do Grupo Escolar Dr. Duarte Pimentel de Uchôa, localizado em Uberlândia (MG), comunica a Lobato, em 1941, que o clube de leitura de sua classe levará o nome do escritor e solicita uma fotografia e uma pequena biografia.532 No ano seguinte, Eumira Martins Oliveira convida Lobato para participar da festa de posse da nova diretoria do clube.533

Os três estabelecimentos escolares, todos localizados em Minas Gerais, convidam em anos distintos Lobato para patrono dos seus clubes de leitura. Como as atividades se realizam dentro da sala de aula, dependente do acompanhamento do professor, não causa surpresa o fato do convite se repetir, mesmo partindo do mesmo grupo escolar.

Em 1945, os alunos do 3o ano do Grupo Escolar Pacífico Vieira, localizado em Conselheiro Lafayete (MG), informam a criação da biblioteca de classe e contam com a colaboração do escritor para a aquisição do acervo de suas obras infantis. No mês de julho, a aluna Hilda Lourenço solicita a doação do livro O Picapau Amarelo.534 Provavelmente o escritor enviou o livro solicitado, pois no mês seguinte o aluno José Alves faz o pedido do título O poço do Visconde.535 E em setembro, a aluna Iracema Leite pede o envio de A chave do tamanho ou Peter Pan, agora para fazer uma surpresa à professora e ofertá-lo como presente.536

Silvestre Ferraz, Campestre, Caxambu, Uberaba, Juiz de Fora, Dores do Indaiá, Itajubá, Santos Dumont, Divinópolis, Itaguara, São Domingos da Prata, Extrema, Guaxupé... são outros municípios mineiros que comunicam a Lobato a criação de bibliotecas nas suas instituições educacionais. Tudo nos leva a crer que as visitas que Lobato fez no Estado, em campanha pelo petróleo, acabaram por propagar esse contato expressivo com os leitores.

Os constantes pedidos de fotografias para compor os clubes de leituras têm sua troca, como é o caso dos alunos do Grupo Escolar Otávio Rocha, localizado em Porto Alegre. Lobato recebe a fotografia de um casal de alunos, impecavelmente uniformizados, junto à fotografia enviada por ele. A imagem registra a solenidade de inauguração, na década de 30, da Biblioteca Monteiro Lobato, localizada na escola. Em 1943, a aluna Natalina Norma Casarin, em nome dos alunos desse mesmo grupo, pede que Lobato presenteie a escola com alguns de seus livros, já que a biblioteca está sendo reorganizada: “agradeço os seus mais lindos livros infantis, que virão enfeitar nossa pequena e humilde biblioteca que ainda será uma das maiores de todos os grupos escolares do Rio Grande do Sul”.537

A série escolar dos leitores que comunicam Lobato sobre as atividades de leitura com os seus livros, ou a escolha de seu nome como patrono do clube de leitura, varia do primeiro ao quinto ano escolar. Já a seleção do correspondente, para dirigir-se ao escritor em nome da turma, dá-se através da opção individual da professora de classe ou através da escolha conjunta da turma.

Como muitos dos estabelecimentos escolares desconheciam o endereço residencial de Lobato, as cartas eram remetidas às casas editoriais responsáveis pela publicação dos livros do escritor: na década de 30 à Melhoramentos, na de 40 à editora Nacional e/ou à Brasiliense.

O conjunto de cartas “escolares” abarca o período de 1934 a 1946, sendo que os anos de 1938 a 1941 foram os menos profícuos no estabelecimento desse diálogo com o público leitor. Em 1938, registra-se o recebimento de uma única carta, duas em 1939, nenhuma em 1940 e duas em 1941. Esses dados evidenciam o resultado da censura feita pelo governo em relação à circulação das obras de Lobato nas escolas.

A estreita relação de alguns títulos de livros infantis de Lobato com o currículo escolar fez com que estes fossem adotados por várias escolas, ao mesmo tempo em que a crítica desprestigiou o conjunto por seu direcionamento pedagógico. No entanto, os depoimentos dos leitores confluem num conjunto de respostas positivas em relação aos livros “didáticos” de Lobato.

Lucília Alves de Carvalho comenta, em carta provavelmente do início da década de 30, a utilização proveitosa na escola do livro Emília no país da gramática:


O senhor nem avalia, como aquele passeio que a Emília fez ao país da gramática foi bom para nós, pois nos ‘livrou’ da enjoadíssima Senhora Gramática, que é toda cheia de bobagens de verbo e não sei mais o que. Agora o caso é outro, nós aqui só estudamos pelo livro “Emília no país da gramática” em vez de gramática sem país nem Emília.538
A leitora Edith Canto refere-se à importância desse livro para a sua compreensão da língua: “Não é por dizer, mas eu aprendi e compreendi gramática, com o seu livro”.539 Já o leitor Fernando César Mergulhão, do Rio de Janeiro, sem aludir a um título específico, observa que: “talvez eu tenha aprendido mais nos seus livros do que naqueles que usam no colégio”.540

O menino Lincoln De Féo, residente na Cidade do Prata, escreve comunicando ao escritor a sua reeleição como patrono da biblioteca escolar. Tal prestígio, segundo o leitor, deve-se à freqüência com que seus livros são lidos: “O preferido por nós é Aritmética da Emília, que viajando, comendo melancias nos ensinou frações. Era este ponto detestado por nós”.541

Léa Siqueira Prazeres, de treze anos de idade, aluna da 3a série ginasial, na cidade de Maceió, agradece o muito que Lobato tem contribuído para o desenvolvimento de sua formação, em especial para enfrentar a vida escolar: “Devo dizer-vos quanto têm sido úteis os vossos livros, que me têm muitas vezes tirado de sérias dificuldades. Freqüentemente quebro a cabeça estudando lições que não há meio de assimilar”.542

Wanda Côrtes, de Juiz de Fora (MG), dirige-se ao escritor para comentar a leitura de Emília no país da gramática e o quanto ela tem sido útil para a sua aprendizagem. A leitora agradece ao escritor por esse e outros títulos de sua coleção, bem como elogia sua forma de escrever: “O senhor tem um modo tão simples de dizer as coisas difíceis que lê-las se tornam logo fáceis”. Ela solicita ainda que Dona Benta lhe ensine alguns pontos que cairão na prova de português, pois “tenho uma gramática mas infelizmente leio, leio e não entendo nada”.543

O irônico neste caso é a própria postura de Lobato que, nunca afeito aos estudos da gramática, comenta com Rangel a carta da leitora e solicita seu auxílio, em carta de 5 de março daquele ano, portanto poucos dias após o recebimento da carta da leitora:
A coitadinha, desesperada com o pedantismo dos programas oficiais, recorre a mim para que peça a Dona Benta que lhe explique o ponto. Ora, como eu não sei gramática, sou obrigado a recorrer a uma e aprender o que ela quer que Dona Benta explique, “regência dos verbos mais freqüentes”. Eu devo saber isso muito bem, mas não ligo o nome à pessoa. Antigamente você me resolvia as dúvidas gramaticais, quem sabe se ainda tem ânimo de me explicar isso? Porque se eu for ver na gramática sou até capaz de não achar, de tal modo eu me perco naquele báratro.544
Os depoimentos de leituras dos livros considerados didáticos demonstram que o leitor não fazia distinção estética entre esses e os demais títulos. Eles facilitavam o contato com a matéria escolar sem, no entanto, tirar o prazer da leitura.
5.3.3 Pequenos escritores
Existe um grupo considerável de leitores que se apresenta a Lobato como escritores e, muitas vezes, as cartas vêm acompanhadas das composições desenvolvidas fora e dentro do ambiente escolar. Eles exigem de Lobato uma leitura atenta e avaliativa, e alguns chegam a chamá-lo de colega pelos laços da profissão.

José Maria Batista, de quatorze anos de idade, residente na Barra do Piraí (RJ), escreve seis cartas ao escritor no período de 18 de maio de 1936 a 16 de janeiro de 1937. Apresenta-se como leitor assíduo dos livros de Lobato que são emprestados pela diretora do Grupo Escolar Barra do Piraí, onde cursa o 5o ano. Essas leituras proporcionam-lhe “um sotaque de escritor”; além de tirar as melhores notas em português, é solicitado pela direção sempre que se precisa de “uma prosa com sentido”. O leitor, de forma inusitada, oferece a Lobato a compra de alguns contos e prosas e aventuras para crianças “tudo isso inventado por mim mesmo”, bem como pede informações sobre possível publicação de seus textos.545

Em carta posterior, informa ter enviado alguns textos à editora Civilização Brasileira, que, na incerteza deles serem redigidos realmente por um menino de 14 anos, resolveu certificar-se. Queixa-se, no entanto, da proposta da editora, porque pagam muito pouco.546 O leitor insiste em suas cartas na venda de seus livros, remetendo ao escritor um “romancezinho simples” chamado Eu fui obrigada, papai. Essa remessa vem seguida de uma advertência nada peculiar, exigindo pagamento em dinheiro pelo texto: “Apesar de eu amar os livros, é conveniente que me mande em pagamento deste, dinheiro, e não livros, pois tenho em casa uma biblioteca de livros do senhor que ainda nem li”.547

O menino Raimundo de Araújo enumera a sua produção literária, que consta de três livros, todos escritos na cabeça: Jack e Alfred na Groelândia; Tom Water e seus irmãos na Dinamarca e O caso do bando sereia de prata. O leitor ainda enfatiza que “quando escrevê-los (no rascunho é claro) mandarei para São Paulo para o senhor corrigir e prefaciar”.548

O leitor Angelo Castro, em suas duas cartas dirigidas a Lobato, envia composições de sua autoria; a primeira, de 7 de março de 1944, tem como temática fenômenos físicos e químicos e lhe rendeu o 1o lugar num concurso promovido por sua escola. Em 15 de março do mesmo ano, envia a segunda, que traz como tema a aventura de um naufrágio.549

Vilma Pires, de oito anos de idade, escreve quatro cartas no período de setembro de 1944 a agosto de 1945, e apresenta-se na primeira carta como escritora de muitas histórias: “se o senhor quiser eu mando”.550 Provavelmente o escritor mostrou interesse pela produção literária da leitora que lhe remete no início do mês seguinte a história As duas meninas.551

Já Lucília comunica a confecção de um livro chamado “Aventura de Halley” e informa que assim que terminar a narrativa enviará ao escritor para que leia. A leitora considera uma troca justa: “porque já li todos os seus livros”.552
5.3.4 Interferindo e questionando a palavra escrita
Muitas cartas trazem sugestões para novos livros, desde a introdução de novas personagens a tematizações que os leitores consideram pertinentes. O comportamento diante da leitura não é estático e passivo, os leitores interferem e questionam informações que consideram duvidosas.

Antonieta R. Silveira, de dez anos de idade, residente em São Paulo, comenta com o escritor a sua decepção por não encontrar em seu sapato no Natal o livro História do mundo para as crianças. Seu consolo é a promessa materna de recebê-lo de presente pelo Dia dos Reis. A leitora propõe ao escritor a inclusão de uma nova personagem no Picapau Amarelo: “Eu acho que o senhor devia arranjar outro personagem no sítio de Dona Benta: um cãozinho chamado Tupy, porque só falta mesmo cachorro lá”.553

O menino Eduardo da Silveira Teixeira Leite, informado por sua mãe que o escritor aceitava opinião de seus leitores, fosse adulto ou criança, apresenta idéias para duas narrativas, uma de cunho histórico que tematize a pré-história e outra científica que introduza conhecimentos sobre o corpo humano, tendo como itinerário da visita a barriga do Coronel Teodorico. Indo além, o leitor aponta Reinações de Narizinho como o livro que mais gostou e aconselha Lobato: “desejo que o senhor continue com todos seus personagens, mas não aperfeiçoe mais a Emília porque a bonequinha já chegou ao máximo. Não faça que esse Visconde morra e apareça um outro (como já fez em muitos).554



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