Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Amarilis Rocha de Cunto, de sete anos de idade, natural de Pelotas (RS), escreve a Lobato quatro cartas entre de 17 de setembro de 1941 e 23 de setembro de 1943. Numa de suas cartas, a leitora, contrariada, reclama sobre o procedimento adotado pelo escritor: “Vou lhe pedir uma coisa: para o senhor não escrever mais livros em continuação. Porque eu fico com vontade de ler o resto mais as vezes eu não acho a continuação”.555


Mesmo que o término da história não responda às expectativas da leitora, percebe-se, por suas palavras, que o escritor conseguiu seu intento, despertando a curiosidade pela continuação da narrativa quando coloca como estratégia a referência a próxima aventura.

Márcio Carvalho Moreira Nascimento, de oito anos de idade, autor de três cartas datadas de 1943, cobra do escritor a prometida viagem das personagens do Sítio do Picapau Amarelo ao Mar dos Piratas,556 e tece comentários sobre os livros A chave do tamanho e Aritmética da Emília. Também pede uma explicação para um erro que encontrou sobre a origem do burro falante: “No livro A chave do tamanho o senhor diz que o burro falante nasceu na fazenda do Coronel Teodorico, mas em outro livro o senhor diz que o burro veio do país das fábulas. Como me explica o fenômeno?”557

O leitor carioca Severino de Moura Carneiro Júnior, de nove anos de idade, aluno do 4o ano primário do Colégio Melo de Souza, em Copacabana (RJ), envia cinco cartas a Lobato no período de 19 de fevereiro a 29 de dezembro de 1945. Com referência às personagens, o leitor reclama a ausência de Narizinho em Os doze trabalhos de Hércules, pois para ele “a história fica muito sem graça sem todo o bando”.558

Em sua primeira carta, o leitor informa sua releitura de Geografia de Dona Benta e questiona a veracidade de algumas informações expressas no livro: “Eu encontrei uma coisa que me deixou impressionado: a capital do Domínio Canadá como sendo Montreal. Ora todas as geografias dizem que a capital é Otawa. O que é que você me diz, meu mestre?”559

Se retomarmos as referências de Lobato às cartas dos leitores, veremos que, em 24 de fevereiro de 1938, ele respondia ao menino Geo David algumas indagações pertinentes ao mesmo assunto.560 Embora o ano seja diferente, pode-se considerar a possibilidade dessa carta ser uma resposta ao mesmo leitor. Em primeiro lugar, Lobato não era muito afeito a datas e o livro foi organizado postumamente, o que leva a crer num erro de ano, não mês, na carta-resposta. Outro fato importante é o anonimato ou o jogo de palavras que Lobato utiliza com alguns leitores, nesse caso o tratamento GEO, refere-se ao prefixo da palavra geografia e não ao nome do leitor.

Os questionamentos sobre as informações contidas nos livros demonstram uma atenção do leitor para a construção narrativa e até mesmo um sinal do ensinamento lobatiano de duvidar sempre, mesmo e principalmente da palavra escrita.

A introdução de temas atuais à época, como era hábito de Monteiro Lobato, é reivindicada pelo leitor Renato Vivacqua, de dez anos de idade, que sugere ao escritor uma narrativa em que a história da bomba atômica seja contada por Dona Benta.561 Arnaldo Teixeira Mendes aponta como sugestão uma aventura na Amazônia, pois acredita que “seria bem interessante”;562 por sua vez, Sylvio clama por um livro de ciências, justificando o pedido: “pois com seus livros se aprende brincando”.563
5.3.5 A materialidade do impresso
É significativa a referência dos leitores à materialidade do impresso, ou seja, eles questionam o número de páginas, as estratégias comerciais utilizadas pelo escritor na construção do livro, depõem a respeito das ilustrações e demonstram um sentido crítico ao optar por este ou aquele ilustrador.

O leitor H. E. Schroeder, de Diamantina (MG), após ler O minotauro, escreve a Lobato para criticar o erro tipográfico referente à ilustração. Segundo ele, a página 188 faz referência à representação “do tripodo da Pítia”, contudo a ilustração apresentada na página 189 não traz o prometido: “mostra uma cadeira de quatro pés”.564

A leitora Beatriz Isabel Salles Birenfeld, de Pelotas (RS), recorre ao escritor como diretor da Companhia Editora Nacional, responsável pela edição do livro Meu torrão, de Viriato Correia. Segundo a leitora, o desenho que ilustra um cacho de bananas de ouro coloca-as em posição contrária à realidade. Ela observa que tal fato foi confirmado numa visita ao mercado juntamente com seu pai. 565

Reflexões sobre as ilustrações também fazem parte dos comentários do leitor Angelo Castro que se refere positivamente às ilustrações de J. U. Campos e às de Belmonte, considerando-os os melhores ilustradores dos livros infantis de Lobato.566

Severino de Moura Carneiro Júnior apresenta suas preferências pelas ilustrações de Belmonte em oposição as de Rodolfo; a crítica ao segundo ilustrador vem justificada de forma contundente:
Para uma coisa eu quero lhe chamar a atenção: Há um desenhista chamado Rodolfo que faz verdadeiros aleijões. Ele faz Dona Benta feia, Tia Nastácia toda desajeitada, o Visconde nem parece o Visconde, Emília uma coisa horrorosa, Pedrinho e Narizinho nem se fala. Eu gosto do outro desenhista chamado Belmonte, que faz desenhos muito bonitos.567

Lucília comenta os desenhos de Belmonte, em especial no livro Viagem ao Céu. Segundo a menina o ilustrador já é seu conhecido devido ao seu trabalho na Gazeta Infantil e aconselha Lobato: “acho que o senhor deve dar todos os livros para ele ilustrar”.568


A opção por este ou aquele ilustrador, os cuidados com a qualidade, veracidade e disposição gráfica das ilustrações e as críticas à falta de atenção nas informações contidas em alguns títulos evidenciam a presença de um leitor atuante, capaz de discernir entre o que lhe agrada e o que desagrada. Mais do que isso, comprova que a materialidade do impresso, preocupação constante de Lobato, é parte integrante da leitura.



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