Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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5.3.6 Outras leituras

Sólêna Benevides Vianna Lima, de doze anos de idade, aluna do 2o ano ginasial do Instituto Lafayete, solicita a Lobato informações sobre a aquisição do livro Viagens de Marco Polo, aquele que Lobato prometeu à Narizinho traduzir em História do mundo para as crianças.569 Pelas palavras da menina na segunda carta, percebe-se que a resposta de Lobato não corresponde às suas expectativas. Primeiro porque o livro só se encontrava na língua espanhola e italiana, a primeira não fora encontrada pela leitora e a segunda língua lhe era desconhecida. Fatos que desapontam a leitora, que espera para breve uma tradução feita por Lobato.570 O mesmo pedido de tradução do livro As viagens de Marco Polo é feito pela leitora Jeannette Saraiva de Toledo, provavelmente depois da leitura do livro História do mundo para as crianças.571

Os leitores têm conhecimento da atividade de tradutor exercida por Lobato e por isso muitos são os pedidos de traduções. O leitor David Appleby, com formação inglesa, devido à origem materna, sugere a tradução do livro Just David, de Eleonor Potter. Já a menina Tagea diz estar lendo em alemão o livro inglês Green Magic, de Julie Classon Kenl, e que “gostaria muito que o senhor invertesse para o português para que todas as crianças paulistas o possam apreciar”.572

A carta da leitora “F”, anexada à correspondência de Rangel, datada de 28 de março de 1943, é um testemunho da formação feminina daquele período. A leitora confessa ter lido Reinações de Narizinho aos oito anos de idade, daí para diante leu todos os livros da série infantil e os livros para adultos. Encantada pela boneca Emília, coleciona gravuras suas penduradas na parede e possui uma boneca quase idêntica, perdida aos 13 anos pelas dentadas de um “cãozinho”.

Estudante interna num colégio de freiras, a leitora tem seus momentos de liberdade quando é solicitada para fazer trabalhos datilográficos. Em carta comenta com Lobato a sua formação autoritária e repressora:
Desejo imenso conhecê-lo, mas não acho coisa possível. Com tão ‘ferrenha’ família, tornei-me cheia de inibições e sem confiança em mim. Eles não aprovam as minhas ‘audaciosas’ idéias, como, por exemplo, querer ser apresentada a um homem.

Sou uma atormentada, cheia de curiosidades, e não podendo satisfazer nenhuma. Tudo é proibido. ‘Défendu’, como diz a Superiora. ‘Não fica bem a uma menina’.

Leio muito, mas às tontas e às escondidas. Sou duma ignorância crassa, que me revolta. Desejaria saber ao menos o papel que represento na vida. Ah, se eu tivesse quem me orientasse as leituras, para não perder tempo com inutilidades...573
A solicitação implícita da jovem leitora de que Lobato lhe forneça uma orientação de leituras “úteis”, parece estar vinculada ao conhecimento de que o autor assim procedeu com suas leituras na infância. Não sabemos qual foi a resposta de Lobato, contudo, ao analisarmos outras cartas do escritor,574 podemos auferir que, provavelmente, ele não se furtou do papel de conselheiro.
5.3.7 O que escrevem os pais e as mães
Pelo discurso dos leitores infantis, percebe-se que a família, nesse período, atua de forma efetiva na mediação da leitura, estimulando e acompanhando a vida leitora da prole. Monteiro Lobato recebia cartas também de pais e mães que pretendiam através de pequenos gestos do escritor incentivar seus filhos para a leitura: como as crianças, eles também solicitam livros e fotografias autografadas. Na tentativa de reatar as leituras da infância alguns pais oferecem títulos do escritor que foram importantes para eles.

Lúcia Vizen Laport recorre ao escritor com o firme propósito de conseguir alguns títulos autografados de literatura infantil. Ela relembra as suas leituras na infância, fazendo um paralelo com a dos seus pequenos leitores e expõe o entusiasmo manifestado por eles: “Realmente, o senhor é querido de toda petizada, e hoje em dia Monteiro Lobato é para eles como costumava ser, no meu tempo de criança, os contos de “Mil e uma noites’”.575

Zuleika Borges Pereira Celestino, leitora na infância dos livros de Monteiro Lobato, escreve pedindo ao escritor uma fotografia autografada para guardar junto dos seus livros de infância que pertencerão em breve ao filho recém-nascido, Pedro Celestino. A leitora destaca ainda a importância das leituras dos livros de Lobato na sua vida escolar: “E, quando fazia o Curso Normal, muitas vezes em resposta às questões dos professores eram perfeitas graças à História do mundo para as crianças e a Serões de Dona Benta”.576

Do Rio de Janeiro, Erasmo de Barros Correia solicita a Lobato a remessa de alguns livros autografados para serem presenteados à filha que faz anos por aqueles dias. Contudo, o pai acentua que a fatura das despesas seja enviada para outro endereço, para não decepcionar a pequena leitora, justificando o seu gesto e o pedido: “porque tudo na vida é ilusão”.577

Algumas cartas marcam profundamente Lobato, como é o caso do bilhete do senhor José Faria Ribeiro, de 1943, que vem até o escritor para agradecer a carta enviada ao filho Lindberg. O menino encontrava-se imobilizado há seis meses numa cama com “osteomilite rebelde” e, segundo o pai, a carta resposta de Lobato deu novo ânimo ao leitor doente: “(...) dou-lhe a notícia que essa missiva veio concorrer imensamente para a sua cura. Diz ele que ontem foi um dos dias mais felizes de sua vida. Muito obrigado”.578

Quixadá Felício apresenta através de uma foto seu filho de 21 meses e demonstra ao escritor seu desejo de ter um livro autografado, em especial Emília no país da gramática para ser dado ao menino quando for introduzido no mundo da leitura.579

Aos pais desconhecidos unem-se os conhecidos e colegas de profissão, como o escritor Pedro Calmon, que, em carta datada de 1941 e com o timbre da Academia Brasileira de Letras, comunica a Lobato as preferências leitoras de seu filho:
Tenho um filho de sete anos que é grande admirador seu. Hoje veio declarar-me que o seu autor predileto é Monteiro Lobato. Perguntei-lhe: e que leu já de Monteiro Lobato? Citou-me vários livros infantis. O minotauro, O garimpeiro do Rio das Garças e outros. E foi peremptório: disse-me que só lerá Monteiro Lobato.

Tomei nota desse entusiasmo e quero comunicá-lo para que sinta ainda uma vez a espontânea e viva simpatia de seus leitores de sete anos!580


Outros pais ilustres também manifestaram ao escritor as preferências leitoras de seus filhos, como João Alphonsus, filho de Alphonsus de Guimarães, que escreve acompanhado de duas cartinhas de seus filhos Liliana e João Alphonsus Guimarães Filho.581 Em artigo “O amigo das crianças”, Maria Eugênia Celso relata a amizade entre sua filha Maria Vitória e o escritor, que vem ilustrada com uma carta do escritor destinada à menina. O escritor Orígenes Lessa apresenta as preferências do filho Ivan Lessa pelas narrativas lobatianas. Luís da Câmara Cascudo, convalescendo de uma gripe, solicita à sua filha Ana Maria alguns livros seus para leitura, depara-se com vários títulos de Lobato para a infância e confessa que ficou dois dias lendo o “outro” Lobato: “duplicação do que há 24 anos conheci na Rua dos Gusmões, o pai de Jeca Tatu, tio da Negrinha, técnico do ferro e petróleo, padrinho do 22 da Marajó, animado, vivo, inteiro na bondade leal, gente de outro tempo, acolhedor como uma rede de tapuarana”.582
5.3.8 O reconhecimento do eu
As cartas apresentam reflexões sobre o processo de leitura e suas implicações no desenvolvimento intelectual, emocional e até mesmo moral de seus leitores. A história prévia de cada criança, esteja ela relacionada a sua vida social ou leitora, repercute no ler e muitas vezes é estilhaçada por uma nova visão que colabora para a inserção de outra postura frente às coisas da vida e do mundo da leitura.

O menino Haroldo Leite comenta a sua admiração pela produção infantil de Lobato. Na qualidade de criança, público específico a que a obra é destinada, ele acredita poder avaliar a importância e “supremacia” do escritor no cenário da literatura infantil nacional e estrangeira. O leitor traça um perfil dos livros e do processo de leitura como renovadores e importantes para a formação daqueles que se aventuram nas malhas do ler:


O senhor pode orgulhar-se do que digo, pois estou certo de que correspondo aos mesmos pensamentos de seus milhares de leitores desse nosso caro Brasil. O Brasil é pobre em autores infantis, mas só o senhor vale por muitos. Quem lê seus livros guarda sempre uma agradável impressão sobre eles, porque não são como muitos cuja leitura é fastidiosa a gente, principalmente quando estamos nos primeiros passos da leitura.583
A leitora Maria Josefina Franco de Souza, aluna do 4o ano do Grupo Escolar Tiradentes, localizado em Curitiba (PR), avalia a recreação e o conhecimento como fatores indissociáveis ao processo de leitura: “Eu gosto muito de ler os seus livros que recreiam ao mesmo tempo que instruem”.584

Edith Canto, leitora desde menina dos livros infantis de Lobato, continua encontrando nessas narrativas o mesmo encanto da infância: “seus livros da biblioteca infantil são grandemente apreciados pelas crianças e ainda mais por adultos; o senhor faz livros onde há de tudo um pouco. Como eu gosto de literatura variada, encontro no senhor meu escritor número 1.585

Liliana B. V. Guimaraens, de nove anos de idade, escreve sobre suas leituras, elencando os títulos que mais lhe agradam: Reinações de Narizinho, O Picapau Amarelo, Memórias da Emília e O minotauro, todos eles lidos e relidos pela leitora que prefere os livros que “falam da vida dos meninos” (subentende-se: Narizinho e Pedrinho). Exclui de suas preferências A reforma da natureza, pois as personagens crianças estavam ausentes.586

Hamilton de Souza, de treze anos de idade, redator-chefe do jornal A Voz da Infância, escreve um artigo sobre as personagens de Monteiro Lobato. A citação integral do texto se faz válida na medida que fornece um relato primoroso sobre as personagens e traduz o desejo da maioria dos leitores infantis:


Quem não gosta das personagens de Lobato?

Quem não gosta da Emília, de Narizinho, de Pedrinho, de tia Nastácia, do Visconde e dos animais, como o velho Quindim, o guloso Rabicó, o burro falante, a vaca Mocha e outras personagens que divertem a petizada?

Mais de quem vocês gostam mais? Da Emília. berrara a maioria. E por quê? Porque a criançada gosta daquela criaturinha malcriada, que responde e bota a língua às pessoas mais respeitáveis?

É difícil responder, mas o fato é que a Emília, assim como toda a turma do Sítio, é muito querida do ‘pessoalzinho miúdo’ do Brasil.

O Sítio do Picapau Amarelo é um paraíso!

Quem não gostaria de entrar nas páginas de um livro como ‘Caçadas de Pedrinho’ ou ‘Viagem ao Céu’ e divertir-se com uma pitada de ‘pó de pirlimpimpim’, indo ‘pintar o sete’ onde bem entendesse?

Ora, isso seria a melhor coisa do mundo!

É pena que não possamos realizar esse desejo, mas nos divertimos do mesmo modo ao ler as aventuras endiabradas dos moleques do ‘Picapau’.587


A carta de Júlio Greys traz comentários sobre a leitura de Os doze trabalhos de Hércules. Nesse período a narrativa, que hoje vem em um único volume, era publicada em doze volumes, cada qual com um dos doze trabalhos do herói. Para o leitor, o título Hércules e Cérbero era o melhor dentre os doze, e a personagem favorita daquelas peripécias era Emília, “a do faz-de-conta”. Seus apontamentos assinalam uma compreensão amadurecida do ato de ler e manifesta a atmosfera emocional provocada pela leitura.
As crianças em vez de ficarem aborrecidas (como geralmente acontece) ficam tão entretidas na leitura que até torcem para que tudo finde satisfatoriamente e ficam tristonhas quando pressentem o término da leitura (o que se passou comigo) (...)

São livros que remexem com o coração da criança, fazendo-a respeitar o escritor que lhe proporcionou longos dias de prazer.588


Em 1945 Lobato nomeia um de seus correspondentes como “o menino número 1 dos últimos tempos”.589 Ele era Modesto Marques, autor de seis cartas entre 10 de dezembro de 1941 a 17 de dezembro de 1945. O leitor informa ter se alfabetizado com o auxílio materno aos cinco anos e aos seis recorda o seu primeiro “presente sério”: O saci. Aos doze anos de idade escreve sua primeira carta dirigida a “Digna Condessa de XXX”, sua “princesa Isabel” que o libertou de sua rotina mental; uma conversa de “libertado para libertador”:
No começo quando eu lia os livros que o tal Monteiro escrevia, achava muita graça e ria mesmo do que você falava. Agora, entretanto que eu sou Emíliano, medito profundamente nas suas palavras. Aquela história do faz-de-conta, por exemplo eu creio que não há nenhum absurdo nisso. Ao contrário há liberdade.590


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