Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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CAPÍTULO 1

OS PERCALÇOS E ACASOS:

CAUSOS DO PERCURSO


A escolha de um projeto de estudo (...) supõe, já, uma interpretação prévia; inspirada por nosso interesse atual.5

As palavras de Jean Starobinski, por si só, definiriam de forma breve os motivos que nos levaram a este trabalho: o “nosso interesse atual”. Porém, julgamos necessário apresentar as trilhas e atalhos da nossa caminhada, bem como as vozes e personagens interlocutores do nosso discurso. E se o presente relato não prima pela brevidade, quiçá prime pelo esclarecimento.

O gérmen desta pesquisa desenvolveu-se a partir de nossa dissertação de mestrado,6 elaborada no período de 1994 a 1996. Estávamos envolvidos com a possibilidade, logo efetivada, de reconstituir o processo de leitura pela voz do leitor. O testemunho dos leitores por meio de cartas à escritora catarinense Maria de Lourdes Krieger possibilitou verificar como se efetiva a comunicação entre autor, texto e leitor. As cartas traziam os depoimentos sobre o ato da leitura e suas implicações, respondendo, de certa forma, a algumas inquietações relativas ao processo de recepção.

A prática epistolar entre leitor e escritor, especialmente no que se refere às interpretações do primeiro sobre a produção do segundo, não se apresenta como novidade. Eugéne Sue, com seu romance Mathilde: mémoires d’une jeune femme, na França do século XIX, provocou uma onda de cartas de leitores, em especial do público feminino, ao autor, devido à identificação das mulheres com a protagonista da narrativa. O romance foi entregue ao público em pedaços diários, em notas de rodapé de jornal, e o escritor aceitava as sugestões do público para o encaminhamento da narrativa.7

Porém, no Brasil, a troca de cartas entre escritores e leitores não parece ser prática comum. Quando tal fato acontece, ocorre entre os pares, isto é, o escritor é lido por intelectuais, parceiros de letras, críticos. E são esses leitores especializados que se dirigem ao autor para expressar suas opiniões sobre o livro. A interlocução concreta com o leitor comum apresenta-se distanciada das relações cotidianas do escritor brasileiro.

O interesse por essa relação comunicacional leitor, obra e autor levou-nos à obra de Monteiro Lobato. Se, contemporaneamente, as crianças e jovens brasileiros têm acesso a escritores através da correspondência, como se daria essa relação nas décadas de 30 e 40, período em que Lobato intensifica a troca de cartas com os seus leitores? O próprio escritor, em vários momentos de sua produção literária, indicava-nos as pistas e nos instigou para a pesquisa.

No livro A barca de Gleyre são apresentados alguns depoimentos significativos de Monteiro Lobato em relação à literatura infantil e ao relacionamento com o seu público leitor através das cartas. A partir da década de 40, ele intensifica esse assunto nas correspondências com o amigo Godofredo Rangel, exemplificando com o relato do conteúdo e, até mesmo, a transcrição das cartas recebidas. Respeitando a intimidade dos remetentes, ao retirar os dados de identificação, Lobato apresenta em momentos diferentes quatro depoimentos de recepção da sua obra. Relata o depoimento de uma senhora que recorre a leitura de seus livros como “remédio” para os dissabores cotidianos e o bilhete de um pai de uma criança, agradecendo-lhe a resposta ao filho doente, revelando-lhe a sua importância diante do público leitor. De Juiz de Fora, uma menina solicita sua interferência na aprendizagem da “regência dos verbos mais freqüentes” e, com o pseudônimo de “leitora F”, o escritor transcreve a correspondência de uma adolescente que lhe comunica a importância da leitura de seus livros na infância.8

Além dos comentários do próprio escritor e suas referências sobre as cartas recebidas, no livro Cartas escolhidas, organizado por Edgard Cavalheiro, encontram-se algumas epístolas de Lobato destinadas aos leitores de suas obras infantis: ao amigo íntimo Alarico Silveira Júnior; ao menino “Geo David”, em resposta às observações sobre erros no livro Geografia de Dona Benta; carta à senhora Zuleica Celestino, leitora na infância e mãe de um futuro leitor; e às meninas cariocas Nilda, Margarida e Rute.

Essa interação intensa com o leitor não passou desapercebida aos olhos de Edgard Cavalheiro, que expõe em dois textos9 – ilustrando com pequenos trechos de cartas das crianças – essa forte relação comunicacional, que ultrapassava os limites do texto escrito e do texto lido, concretizando-se pelo ato da correspondência. O biógrafo observa que Lobato “poderia ser insensível a muitas coisas, mas era de comovente fidelidade aos leitores que cresceram e se formaram com as aventuras da Emília, Pedrinho e Narizinho”.10

Marina de Andrada Procópio de Carvalho, amiga e prefaciadora de um livro de Lobato, faz eco às palavras de Cavalheiro, enfatizando a dedicação do escritor aos pequenos leitores, em especial àqueles que lhe escrevem. “Ritual religioso”, eis a comparação de que a autora se utiliza para fornecer um parâmetro a essa relação de respeito e carinho estabelecida pelo escritor com o público infantil, ao responder, todas as manhãs, às cartas que chegavam pelo correio. “É um dever sagrado. Penso que tudo pode acontecer a Lobato, menos deixar de responder a uma cartinha de criança”.11

Além dos depoimentos contemporâneos ao escritor, pesquisadores atuais como Marisa Lajolo, Cassiano Nunes e outros estudiosos da obra de Monteiro Lobato afirmam, peremptoriamente, essa relação estabelecida entre o escritor e os leitores através das correspondências.

Na pesquisa realizada no Mestrado, as cartas dos leitores de Maria de Lourdes Krieger estavam organizadas pela escritora em quatro grandes pastas, dispostas em ordem cronológica da emissão, cabendo-nos a seleção e interpretação. Já no caso das cartas dos leitores de Lobato existia somente a informação de sua existência, sem saber, no entanto, como localizá-las de forma integral, pois supúnhamos que o conjunto de cartas abrangeria uma quantidade muito maior do que aquela publicada por Lobato ou Edgard Cavalheiro.

Iniciamos nossas primeiras investidas ao visitar o Museu Monteiro Lobato, localizado nas dependências da Biblioteca Municipal Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, em São Paulo, nos dias 12 e 13 de setembro de 1996.

Essa primeira consulta ao acervo do Museu Monteiro Lobato propiciou o contato com algumas evidências que contribuíram de maneira definitiva para que persistíssemos com a idéia. Em primeiro lugar, a constatação de que a responsável pelo Museu, a senhora Hilda Junqueira Villela Merz, correspondera-se na infância com Lobato. Era ela a famosa menina das “balas de cacau” que Cassiano Nunes apresentara ao público através de um bilhete do escritor. Além do contato pessoal com o escritor, ela foi inserida no universo maravilhoso do Picapau Amarelo, em 1939. Ainda mais significativa era a sua presença como responsável, a partir da década de 80, pelo acervo pertencente a Lobato. Em segundo lugar, encontramos no arquivo do Museu cinco cartas de leitores direcionadas a Lobato, o que viabilizava o trabalho. Além do mais, a dona Hilda nos forneceu o endereço do professor Cassiano Nunes e do escritor Enéas Athanázio, para que pudéssemos entrar em contato com outros pesquisadores, com objetivo de investigar nossa proposta.

Sabíamos que Lobato, ao partir para a Argentina, em 1946, deixou sob os cuidados de Edgard Cavalheiro seu arquivo pessoal, composto de recortes, rascunhos, ilustrações e muitas cartas. A idéia de se desfazer da imensa papelada e deixá-la nas mãos do amigo nascera meses antes e só fora efetivada poucos dias antes de sua partida, para espanto de Cavalheiro, que dava por esquecido o pedido feito pelo escritor, quando um dia: “Estaciona na porta um carro e dele começam a descarregar pacotes de papéis, acompanhados de curto bilhete: Parto mesmo para a Argentina. Tudo arrumado. Estou desfazendo a casa. Aí vai a papelada... Haverá lugar?”12

Menos de dois anos depois, Lobato falecia e, precocemente, também o amigo a quem confiara o arquivo, resultando no que poderíamos chamar de dispersão comunitária da “papelada” lobatiana.13 Talvez por esse motivo, Hilda Villela, em nosso primeiro encontro, não vislumbrava a possibilidade de encontrar as cartas dos leitores. Eram da mesma opinião os pesquisadores Cassiano Nunes e Enéas Athanázio, consultados naquele mesmo mês.

Com as informações obtidas até aquele momento, elaboramos o projeto de Doutorado e iniciamos o curso em março de 1997. No segundo semestre daquele ano, chegava às livrarias Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia,14 que curiosamente trazia no capítulo 3, “Despertador do Brasil-criança”, trechos de algumas cartas dos leitores dos livros infantis de Lobato. Até aí, não haveria surpresa, pois Edgard Cavalheiro também assim o fizera.15 O que surpreendia e alegrava era a informação dos pesquisadores de que o material coletado, as cartas, encontrava-se no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, mais precisamente fazendo parte do Arquivo Raul de Andrada e Silva.

Somadas todas as informações obtidas até aquele momento, começamos a executar o nosso itinerário de pesquisa, centrado em três linhas básicas: 1) seleção do referencial bibliográfico; 2) coleta de documentos referentes à correspondência de Lobato com os leitores; e 3) o contato e entrevista com alguns dos leitores correspondentes.

As leituras ao longo da pesquisa foram agrupadas em três grandes blocos. Em primeiro lugar, buscamos fazer a leitura da produção literária de Lobato de forma integral. Como já foi dito, em 1947, o escritor publicou, pela Brasiliense, a coleção de suas obras completas, subdivididas em duas séries: literatura geral e literatura infantil. O primeiro engloba seus três livros de contos, o único romance que escreveu, crônicas, artigos, prefácios, entrevistas e correspondências. O segundo concentra a sua produção literária para crianças, com exceção de O garimpeiro do Rio das Garças.16 Buscou-se também a leitura de depoimentos de Lobato em entrevistas espalhadas em vários órgãos impressos e cartas inéditas do escritor.

A leitura desse referencial bibliográfico teve como ponto norteador iluminar as reflexões lobatianas sobre o papel da leitura e do leitor no desenvolvimento de sua produção literária, bem como a identificação dos leitores históricos na sua obra ficcional e em depoimentos de contatos com os mesmos.

Num segundo momento, debruçamo-nos sobre a fortuna crítica: aqueles textos publicados em jornais e revistas no período de 1918 a 1948, época em que o escritor estava vivo. Outro olhar estendeu-se sobre a fortuna crítica (biografias e análises das obras de Lobato) que contemplasse o escritor e a obra após sua morte até os dias de hoje. O intento consistia em averiguar a recepção crítica dos intelectuais a respeito da importância ou não da literatura lobatiana para a formação do leitor.

O terceiro momento centrou-se na seleção de testemunhos dos leitores de Lobato. Aqui existe uma subdivisão importantíssima, pois esses depoimentos referem-se a dois tipos específicos de leitores. De um lado, o leitor profissional: críticos e escritores que têm seu testemunho de leitura registrado publicamente através de livros, revistas e jornais; de outro, o leitor leigo, os correspondentes, que expressaram de forma imediata, por meio de carta, a sua interpretação diante da leitura de determinado livro.

A coleta de documentos, no caso específico das cartas dos leitores e do escritor, foi viabilizada por pesquisas realizadas em duas instituições: Museu Monteiro Lobato e Instituto de Estudos Brasileiro da USP, ambas localizadas na cidade de São Paulo.

As consultas ao acervo do Museu Monteiro Lobato ocorreram em três momentos distintos: 12 e 13 de setembro de 1996, 14 a 16 de abril de 1998 e 20 de setembro de 1999. Como o acervo não está catalogado e sim organizado em várias pastas por assunto, fomos encontrando, ao longo da pesquisa, 38 cartas de várias procedências. Encontramos sete cartas de leitores publicadas no jornal A Voz da Infância, por sugestão de Lenyra Fraccaroli e com a autorização de Lobato, que assim se dirigia à diretoria do jornal: “Achei boa a idéia. Resta saber, agora, se vocês concordam conosco. Se concordarem e querem começar, aí vai uma das últimas cartas recebidas. Resolvam pois. E se não gostarem da idéia da Dona Lenyra, será obséquio devolverem a carta”.17 Existem ainda três cartas de grupos escolares que se encontram recortadas e coladas no Álbum de Dona Purezinha,18 quatro cartas de leitores manuscritas; dezesseis cartas de Lobato a leitores e amigos e nove bilhetes a Hilda e a Maria Elisa Villela, sendo que um deles foi publicado por Cassiano Nunes.19

A pesquisa no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB/USP) se realizou nos dias 13 a 17 de setembro de 1999. Os 347 documentos analisados referem-se exclusivamente a leitores de Lobato e encontram-se no Arquivo Raul de Andrada e Silva (ARAS), com a denominação de “Dossiê Monteiro Lobato”. Estão catalogados da seguinte forma: 245 cartas infantis – correspondência passiva de Monteiro Lobato, que engloba os anos de 1932 a 1946; 76 cartas de adultos – correspondência passiva, abrangendo o período de 1928 a 1946; onze perfis do escritor, desenvolvidos pelos alunos do Grupo Escolar Desembargador Drummond, localizado em São José da Lagoa (SP), datados de abril de 1934 e provavelmente enviados num único pacote; e quinze desenhos infantis.20

Da soma geral do acervo das duas instituições, 82 cartas correspondem a documentos enviados exclusivamente por escolas, informando Lobato sobre as atividades desenvolvidas com a leitura de seus livros, convidando-o para patrono de clubes de leituras, fazendo pedidos de cortesia e/ou agradecendo o material recebido.

Acreditávamos que, a partir de dados evidenciados, as cartas recebidas por Lobato, conseguiríamos entrar em contato com alguns dos leitores que se corresponderam ou que tiveram alguma relação de proximidade com o escritor. No entanto, a execução de tal tarefa era mais complexa e difícil do que inicialmente imaginávamos. Primeiro, devido à distância temporal de 50 a 70 anos entre o acontecimento e a pesquisa, o que dificultava, de certo modo, o contato com o endereço original desses leitores. A questão tempo, também, sugeria a hipótese de falecimento de alguns desses correspondentes. Outro fato, mais crucial, dizia respeito ao nome desses leitores: os do sexo masculino, provavelmente, como reza a tradição, estariam com seus nomes de infância; já no caso das leitoras, a situação se complicava, pois em caso de matrimônio é comum a mulher adicionar o nome do cônjuge ao de solteira.

De posse do nome e da cidade em que o leitor emitiu a carta, recorremos ao catálogo telefônico como uma das possibilidades viáveis de consulta. Muitas vezes nos deparávamos com cinco, seis identidades semelhantes, o que causava certa frustração e desânimo, porém persistíamos. Do catálogo extraímos o endereço e enviamos aproximadamente 30 correspondências pedindo informações. Nesse primeiro momento, somente um nos respondeu: Alarico Silveira Júnior.

Resolvemos então telefonar para os possíveis candidatos a leitores. A incerteza em saber se lidávamos com o destinatário pretendido gerou certo constrangimento, já que a pergunta sobre sua identidade exigia uma explicação que estava vinculada a fatos decorridos há mais de sessenta anos. Muitas vezes a resposta vinha de imediato, pois constatava-se logo que a pessoa do outro lado da linha não tinha a voz de alguém de 60, 70 anos de idade. Por outro lado, era indescritível a sensação de prazer ao receber a notícia de que estávamos falando com a pessoa procurada. Acreditávamos que, encontrado o leitor, tudo se realizaria e a adesão à proposta seria irrestrita. No entanto, não foi bem assim que ocorreu. Localizamos aproximadamente quinze leitores, mas somente sete concordaram com um possível questionamento sobre a relação com o escritor na infância.

A opção por esses depoimentos tem sua validade pela espontaneidade do leitor no seu período infantil, pela surpreendente relação que conseguia estabelecer com o escritor. Mesmo no caso daqueles em que a correspondência não foi efetivada, ficou marcada na imagem de Lobato a atuação do leitor e por isso a sua inclusão.21 Reencontrá-los, anos mais tarde, ou melhor, muitos anos mais tarde, possibilita a reflexão sobre as suas impressões daquele período de sua formação de leitor.

Gostaríamos de apresentar essas sete personagens de carne e osso que colaboraram com o nosso trabalho e que, sem dúvida, fazem parte de um momento importante da construção da história da leitura no Brasil.

Alarico Silveira Júnior, filho de Alarico Silveira, grande amigo de Lobato, talvez tenha sido uma das primeiras crianças a se corresponder com o escritor. O ano é 1928 e Lobato está distante de sua terra, residindo em Nova Iorque, onde as cartas do menino chegam sempre trazendo impressões de suas leituras, ou melhor, as leituras ouvidas, pois ele estava em fase de alfabetização. O escritor insere o pequeno leitor na narrativa O circo de escavalinho (1929).

Gilson Maurity Santos nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1922. Suas primeiras cartas a Lobato datam de 1934, cinco no total. Em 1943 e 1945, quando era estudante de medicina, entra novamente em contato com o escritor através de cartas. Em 1939, Lobato insere o menino como personagem na narrativa O Picapau Amarelo.

Hilda Junqueira Villela (Merz) nasceu em São Paulo, em 1º de setembro de 1923. Leitora assídua dos livros infantis de Lobato, teve contato pessoal com ele a partir dos dez anos de idade até a sua morte. A leitora é inserida como personagem na narrativa O Picapau Amarelo.

Joyce Campos (Kornbluh) nasceu em Nova Iorque (E.U.A), em 24 de fevereiro de 1930, filha de Marta Lobato e Jurandir Campos. Tem sua infância cercada pelas narrativas do avô escritor. Em 1939, visita com Hilda e Gilson o Sítio do Picapau Amarelo.

Lucy Mesquita (Sabino de Freitas) nasceu em Conquista (MG), em 3 de abril de 1921. Seu caminho se cruza com Lobato em julho de 1937, quando discursa para o escritor no pátio do Colégio Nossa Senhora das Dores, localizado em Uberaba.

Nicean Serrano Telles de Souza (Campos), nascida em 3 de outubro de 1932, na cidade de Manaus (AM), escreveu uma única carta a Lobato, em 1941, período de sua prisão.

Cordélia Fontainha Seta nasceu em Juiz de Fora (MG), no dia 16 de agosto de 1929. A leitora além de corresponder-se com Lobato a partir de 1944 até a sua morte desfrutou da amizade pessoal do escritor e de seus familiares. Encontramos o total de nove cartas da menina ao escritor.

O procedimento para a realização das entrevistas não foi padronizado. Lidamos, por razões diversas, com dois tipos de entrevistas: uma de caráter pessoal e outra por correspondência. As entrevistas pessoais ocorreram na cidade de São Paulo, com Hilda Villela e Joyce Campos Kornbluh.

A entrevista com Hilda Junqueira Villela Merz foi realizada em 13 e 14 de abril de 1998 no Museu Monteiro Lobato, em São Paulo. Dona Hilda, como carinhosamente é chamada, prontamente concordou com o diálogo sobre Lobato, contudo foi irredutível quanto à utilização do gravador, pois o aparelho a desgosta. As lembranças e depoimentos foram sendo registrados a tinta. Durante as conversas, ela lembrou-se de que perguntas semelhantes lhe haviam sido feitas e registradas, em dezembro de 1994, por uma pesquisadora que, no início de 1998, remeteu à Biblioteca uma cópia de sua dissertação com essa entrevista em anexo.22 Assim, utilizamo-nos das informações da entrevista anterior, da entrevista atual e de anotações que Hilda havia realizado, como por exemplo a preferência pela personagem Pedrinho. Dessa forma, fomos costurando o texto, sempre levando em conta que o fio principal desse tecido é o leitor, nesse caso D. Hilda, através de seu testemunho.

Em 13 de setembro de 1999, fomos acolhidos pela tão famosa hospitalidade lobatiana: Joyce Campos Kornbluh, neta do escritor, abriu-nos a sua residência e concedeu-nos uma entrevista. O dia não era dos melhores, a família estava envolvida com uma “inundação doméstica”, alguns canos haviam vazado e a casa, fechada durante o fim de semana, estava literalmente alagada. Na sala, ao esperá-la, deparamo-nos com algumas aquarelas pintadas por Lobato e, muitas, muitas telas de J. U. Campos, pai de Joyce. A entrevistada levou-nos a um local, segundo ela mais aconselhável, onde não seríamos importunadas pelo alagamento: o andar superior da casa, sala anexa ao quarto do casal. Cordial, alegre e brincalhona, Joyce respondeu-nos os questionamentos previamente conhecidos e utilizamo-nos do gravador.

Com os outros cinco leitores, as entrevistas foram obtidas por correspondência, dentro do seguinte cronograma: O primeiro contato com Alarico Silveira Júnior deu-se através de correspondência, remetida em 1o de outubro de 1996, quando lhe questionamos se era ele o menino das cartas. Nesse período, estávamos desenvolvendo o projeto para prestarmos o exame de seleção para o Doutorado; a informação foi de grande importância, pois vimos que seria possível encontrar alguns dos leitores de Lobato. Em 23 de abril de 1998, recebemos, através do correio, as respostas ao questionário remetido no dia 3 daquele mesmo mês.

Gilson Maurity Santos, residente desde a infância no Rio de Janeiro, foi localizado por telefone em 17 de agosto de 1999 e enviou-nos as respostas ao questionário em 30 de agosto de 1999.

A ligação com Lucy Mesquita (Sabino de Freitas) foi estabelecida em setembro de 1999 através do Colégio Nossa Senhora das Dores, de Uberaba, Minas Gerais, na pessoa da coordenadora de Língua Portuguesa, Maria da Graça Soares da Silva, que a localizou residindo na cidade de Ribeirão Preto, São Paulo. Na segunda quinzena de outubro de 1999, Lucy Mesquita enviou-nos pelo correio o questionário devidamente respondido.

Descobrimos que a senhora Nicean Serrano Telles de Souza (Campos) residia em Goiânia, Goiás, através de um artigo em jornal da cidade, datado de 1998, que comentava o relacionamento entre Monteiro Lobato e a leitora.23 A informação do nome de seu esposo, o senhor Ciro Campos, facilitou-nos a procura no catálogo telefônico. A leitora, contatada por telefone em 26 de outubro de 1999, enviou-nos o questionário pelo correio em 11 de novembro do mesmo ano.

O primeiro contato com Cordélia Fontainha Seta deu-se por telefone em outubro de 1999. No entanto, houve alguns problemas de extravio das respostas pela agência de correios e só então reatamos a correspondência e recebemos a resposta do questionário em 21 de fevereiro de 2000.

O repertório de perguntas, que não foi o mesmo para todos os entrevistados, buscava de certa maneira reconstituir o momento histórico-social em que estavam inseridos os entrevistados, suas leituras na infância, a relação com os livros de Lobato e com o próprio escritor, através das cartas. Enfim, “tomávamos pelas mãos” os participantes diretos do processo de leitura e questionávamos sobre a possível importância de Lobato em sua formação como leitores.

Através desses leitores, recebemos cópias de sete cartas inéditas de Lobato: cinco enviadas por Gilson Maurity Santos, uma por Nicean Serrano Telles de Sousa Campos e uma por Hilda Villela Junqueira Merz. O ineditismo desse material ganha relevância pelo seu teor, pois apresenta-nos um Lobato de “mangas de camisa” a dialogar com o seu público leitor, de igual para igual.

Resta-nos ainda ressaltar a importância que teve para a fase inicial deste trabalho a leitura de três autores que apresentam, cada um à sua maneira, a validade de percorrer o caminho da leitura pelo olhar do leitor das obras infantis de Monteiro Lobato: Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos, Ligia Cademartori Magalhães e J. Roberto Whitaker Penteado.

Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos,24 ao redigir sua dissertação de mestrado, tem dois objetivos: o primeiro concentra-se em desenvolver e analisar os aspectos ideológicos inseridos na obra infantil de Monteiro Lobato; e o segundo, em determinar a recepção da obra lobatiana, buscando averiguar até que ponto houve influência na formação do pensamento de seus leitores. Se o primeiro objetivo foi contemplado plenamente pela autora, o segundo deixou muito a desejar. Esta constatação é aferida pela própria autora que explica, nas “considerações preliminares” de seu trabalho, a necessidade e importância de uma pesquisa que contemplasse a recepção da obra de Lobato pelo olhar de diferentes gerações, para poder averiguar detidamente a influência das suas leituras na formação do pensamento crítico de seus leitores.

Em 1982, ano da publicação do livro de Zinda, Ligia Cademartori Magalhães, no artigo “O Brasil levado a sério”,25 aborda a ausência de análises da obra de Monteiro Lobato que leve em conta a recepção de sua literatura infantil. Incorporando as idéias de Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, a autora destaca o papel criador do leitor e o caráter emancipatório da produção literária de Lobato.

Partindo da hipótese de que a obra infantil de Monteiro Lobato teve grande influência na formação da ideologia de seus leitores na vida adulta, J. Roberto Whitaker Penteado, em sua tese de doutorado, apresentada em 1996,26 traz a público uma minuciosa pesquisa quantitativa (comprovando através de evidências estatísticas a sua hipótese) e qualitativa (entrevista com nove leitores de Lobato na infância). O pesquisador antevê a influência ideológica da leitura lobatiana na geração que hoje se encontra entre os 48 e 61 anos de idade, denominada pelo autor de “filhos de Lobato”.

A idéia geradora dos três pesquisadores, sem dúvida, evidencia o papel do leitor e o coloca como protagonista central da trama da escritura. Cademartori levanta as possibilidades da recepção dentro do próprio texto, enquanto Vasconcellos e Whitaker apontam para a leitura da obra e o testemunho a posteriori do leitor, o que implica um distanciamento temporal entre o ato da leitura e o seu relato.

O presente trabalho, por sua vez, busca o testemunho dos leitores sobre a recepção da obra infantil de Lobato, focalizando dois momentos distintos: as impressões descritas na infância, dirigidas nas cartas ao escritor, contrapostas aos depoimentos atuais. A singularidade deste trabalho encontra-se nesse ponto, pois estamos diante de um registro próximo do ato da leitura, no seu momento de apreensão. E as reflexões posteriores desses mesmos leitores sobre sua prática de leitura possibilitam evidenciar o papel desempenhado pelo autor e sua obra na formação de tais leitores.



CAPÍTULO 2

TODOS OS CAMINHOS LEVAM À LEITURA

2.1 Lobato: um homem faminto por leitura

(...) temos de ser imãs; e passar de galopadas pelos livros, com casco de ferro imantado, para irmos atraindo o que nas leituras nos aproveite, por força de misteriosa afinidade com o mistério que somos. Ler não para amontoar coisas, mas para atrair coisas. Não coisas escolhidas conscientemente, mais coisas afins, que nos aumentam sem o percebermos.27

A reflexão de Monteiro Lobato sobre o ato da leitura assinala o seu permanente diálogo com a apropriação do material lido. Mais do que mera assimilação, a leitura é uma forma de conquista, em que o leitor sai enriquecido, mesmo que inconscientemente. Ler revela-se um poderosos artifício quando seu exercício se descola da idéia de obrigação – obrigação de apoderar-se do saber “amontoando” conhecimento. A aquisição do saber nasce espontaneamente quando o leitor é despertado por leituras sem fins pedagógicos.

Acreditamos que a relação de Lobato com o livro deve ser pensada como algo anterior ao seu ofício de escritor e editor, pois antes de tudo ele foi leitor, e ao exercer esse papel, refletiu sobre a partilha e a comunhão entre quem lê e o objeto lido. Pressente-se, assim, do seu testemunho sobre o ato da leitura, muito do que ele realizou como homem das letras e empresário do livro.

Selecionar as leituras de Lobato a serem focalizadas é uma tarefa difícil, já que seu itinerário de leitor reúne uma quantidade extensa de obras estrangeiras e nacionais, em áreas muitas vezes diversas como: literária, sociológica, filosófica. As leituras realizadas por Lobato de autores como Spencer, Comte, Le Bon e Nietzsche, por exemplo, já foram retratadas em outros trabalhos como influenciadoras no seu período de formação ideológica e, por conseqüência, refletidas na sua obra, em especial a infantil.28

Nosso intento, contudo, detém-se ao Lobato “leitor comum” que se encanta com algumas leituras: os “sumos”; ao mesmo tempo que se engasga com os livros “palhas”.29 Ao menino, que teve acesso à literatura infantil da sua época: os contos de Perrault, dos irmãos Grimm e ao livro João Felpudo, entre outros; ao adolescente, que descobre o mundo de aventuras nos livros de Júlio Verne e no Robinson Crusoé; ao jovem, que se delicia com a leitura de autores franceses; ao homem já feito, que descobre os livros de língua portuguesa; ao homem maduro, seletivo em suas leituras.

Gulnara Lobato Pereira, ao narrar alguns fatos acontecidos na infância do menino Juca, como era chamado Lobato quando menino, apresenta o título João Felpudo como o seu primeiro livro de leitura. Presente da sua mãe, D. Olímpia, quando o escritor tinha cinco anos de idade, o livro fora escolhido pelo seu caráter de exemplaridade: “A mãe o tinha escolhido de propósito, por causa de uma história, ‘Simplício olha para o ar’, pois Juca era muito distraído e costumava andar olhando para cima, e com isso vivia dando topadas e levando tombos um atrás do outro”.30 Edgard Cavalheiro informa que Lobato foi alfabetizado por D. Olímpia entre os quatro ou cinco anos de idade;31 pode-se aferir que, possivelmente, esse foi um dos primeiros livros que o aproximou das letras, o que não descarta a possibilidade da leitura materna em voz alta. Apropriando-se do conhecimento necessário para efetivar a leitura, eis o menino Lobato, de livro aberto, a contar histórias às irmãs e às crianças que habitavam na fazenda: “mostrando-lhes as figuras e lendo-lhes os dizeres”.32

Rememorando o seu passado de leitor, Lobato faz um balanço das leituras possíveis em sua infância, em contraste com as leituras dos meninos contemporâneos à década de 40. À meninada de sua época era destinada uma leitura intensiva, pois o máximo que se podia reunir no mercado e se podia ter em mãos era: “três livros de Laemmert, adaptados por um Jansen Müller, e dois álbuns de cenas coloridas – O menino verde e João Felpudo”.33 As mudanças são significativas para o leitor infantil, que tem à sua escolha várias opções de títulos, propiciando uma leitura extensiva. Lobato fica feliz com esse crescimento e saúda a publicação de Mário Donato34 para o público infantil: “Hoje os pais já tonteiam na escolha, e agora contam com mais um produtor de primeira classe e seguríssimo na pontaria. E eu sinto-me felicíssimo porque fui quem loteou e abriu para o público os terrenos da Cidade Infantil do Picapau Amarelo”.35

No período colegial, Lobato destaca dois caminhos de sua formação leitora, ambos de aventura: os livros de Júlio Verne e Robinson Crusoé. Dedicava boa parte de seu tempo à leitura dos livros, tornando-os, muitas vezes, seus companheiros noturnos: “Lia até chegar o sono e então enfiava os livros debaixo do colchão, até que um dia, como se queixasse de dores nas costas, descobriram que o colchão estava todo cheio de alto e baixos por causa dos livros amontoados debaixo dele”.36 O livro Robinson Crusoé, recebido de presente no Natal, foi lido e relido “com um deleite inenarrável”,37 possivelmente entre os onze e doze anos de idade.

Para Lobato, tais livros imaginativos tinham o poder de despertar no leitor a curiosidade, o instinto à pesquisa, o desejo de apossar-se do desconhecido. Se a vida escolar com seus saberes e mestres pouco influenciou na sua formação, aos livros, no entanto, deve a sua aprendizagem para a vida: “A Júlio Verne todo um mundo de coisas eu devo! E a Robinson? Falaram-me à imaginação, despertaram-me a curiosidade – e o resto se fez por si”.38

Na biblioteca particular do avô, o Visconde de Tremembé, Lobato tem acesso a um conjunto expressivo de obras: de história antiga à coleção de revistas; de fotografias de mulheres nuas às obras de Spencer. A multiplicidade e a diversidade desse acervo foi construída, em sua grande parte, por um filho do Visconde que viajou pelo mundo; morto em Nápoles seus pertences retornaram para Taubaté, “com os mais preciosos e curiosos livros comprados aqui e ali”.39 E é em meio à convivência com esse acervo eclético que Lobato se vê despontando para o fascínio da leitura. Uma leitura extensiva que, por certo, deixou marcas na sua formação.

A biblioteca “tremendamente histórica e científica” do avô exercia um fascínio sobre o menino que encontrava naquele espaço a liberdade para o exercício da vivência leitora, como registrou no seu depoimento sobre a leitura dos romances de aventura de Gustave Aimard e Mayne Reid. A leitura aguça-lhe os órgãos dos sentidos. O leitor Lobato transpõe-se ao fato narrado: ouvindo e vendo e, porque não, vivendo o lido:


Eu ouvia os gritos... E coisas horrorosas da Índia. Viúvas na fogueira. Elefantes esmagando sob as patas a cabeça de condenados. E tigres agarrados à tromba de elefantes. E índios da Terra do Fogo, horríveis, a comerem lagartixas vivas. E eu via a lagartixa bulir...E tragédias do centro da Ásia e lá das Guianas. O rio Orinoco me impressionava muito.40
Aos 21 anos de idade, de férias em Taubaté, comunica ao amigo Godofredo Rangel as preferências familiares pelo escritor português Eça de Queiroz. Descreve a família unida pela leitura do escritor: “Meu avô lê a Cidade e as Serras, minha irmã lê a Ilustre Casa dos Ramirez, eu leio suas histórias de santos – e como somos só três neste imenso casarão, não erro dizendo que a casa inteira lê Eça”.41 A leitura individual de cada membro familiar acaba por irmaná-los pela escolha do mesmo autor; contudo, não existe uma orientação prévia no sentido de obrigatoriedade.

Lobato se descreve como leitor libérrimo na escolha e no tempo despendido para a leitura: “Só leio o que me agrada e só o quando estou com apetite”.42 Porém, sua experiência leitora está enraizada no contato estreito com a literatura francesa, já que “até depois dos 25 anos” conseguia enumerar nos dedos os livros de língua portuguesa que havia lido: “um pouco de Eça, uns cinco volumes de Camilo, meio Machado de Assis. E Euclides e jornais”.43

Ao longo de sua correspondência com Rangel, Lobato vai listando suas leituras e suas impressões sobre os livros e seus autores. Nota-se a presença, quase que absoluta, de escritores estrangeiros, em especial os franceses. Entre eles: Alphonse Daudet, com quem tinha uma forte ligação sentimental, foi lido no tempo de faculdade e influenciou a nomeação dos membros do cenáculo, que optaram pelos nomes dos heróis do romance Tartarin de Tarascon, para se autodenominarem.

As leituras de Lamartine, Émile Zola e Michelet são intercaladas com as leituras de Ernest Renan, “o sereno evocador da verdade”.44 Sobre Stendhal e seu livro O vermelho e o negro, Lobato tece elogios: “é sempre original, quase sempre sincero e poucas vezes atraente (à moda dos fáceis)”.45 Considera Pierre Loté “uma besta. Afeta simplicidade”.46 Sobre Gustave Flaubert deposita um olhar severo: “me desagrada, me maça seriamente, e que me tem sido uma pura corvée a leitura de seus livros”.47 Já o livro Roman Brésilien, de Adrien Delpech, considera “bem bom”.48

Inicia o ano de 1906 enjoado da leitura dos escritores franceses, mas elenca em sua correspondência as leituras de: Mirabeau, Balzac, Alphonse Karr, Fontenelle; George Sand e Voltaire. Em 1907, debruça-se sobre os livros de Anatole France, Le Bon, Tristan Bernard, Rabelais, Verhaeren, Marcel Prèvost, Victor Hugo, Molière, Abel Hermant, Paul Hervieu, Henri Lavedan, Henry Bernstein, Maurice Barrès, Leon Frapié. Em 1908, Lobato lê os poetas Verlaine e Baudelaire. Ainda podemos citar as leituras de Maupassant, Chateaubriand, Michel de Montaigne, Marquês de Sade, Banville, Hall Caine, Goncourt (os irmãos Edmond e Jules), Huysmans, entre outros.

Da literatura russa despontam Dostoiewsky, Tolstoi, Gogol, Gorki e Turgueniev. Na literatura de língua inglesa surgem William Shakespeare, Byron, Walter Scott, o filósofo evolucionista Herbert Spencer, Oscar Wilde, Edgard Alan Poe, H.G. Wells, Dickens, Maucalay, Oliver Goldsmith, Mark Twain, Rudyard Kipling, Conan Doyle e Fenimore Cooper. Lê os escritores alemães Nietzsche, o filosofo Immanuel Kant e Goethe. Impressionado com a leitura do livro Crime e castigo, de Dostoiewsky, Lobato faz o seguinte comentário comparativo entre essas literaturas:


Dum livro francês sai-se como dum salão galante onde todos fazem filosofia amável e se chocam adultérios. Dum livro inglês sai-se como dum garden-party onde há misses vestidas de branco, zero peito e olhos volubilis da bem azul. Dum livro alemão (alemão moderno, porque nos grandes antigos não é assim) sai-se contente – o inconsciente contentamento do latino vicioso (...) Mas sair dum livro russo é sair dum pesadelo!49
Até 1908, Lobato lê ainda os clássicos da Antigüidade: Ilíada e Odisséia, de Homero; Eneida, de Virgílio; e Esopo; Ésquilo, Horácio e Petrônio. Em 1909, ele começa a se dedicar mais efetivamente à leitura dos escritores de língua portuguesa, confessando a Rangel: “parei com as minhas leituras de língua estrangeira. Não quero que nada estrague minha lua de mel com a língua lusíada”.50 Lê nesse período Paixão de Maria do Céu, de Malheiro Dias, Lendas e narrativas, de Alexandre Herculano, Anais de D. João III, de Frei Luís de Sousa, e Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco.

Fascinado por Camilo Castelo Branco, censura a sua formação sedimentada na leitura de autores franceses. E destaca que a leitura de obras estrangeiras só deveria acontecer “aos que perlustraram a fundo as províncias da literatura pátria.51 Para suprir sua deficiência em relação aos autores portugueses, Lobato faz encomendas às livrarias lusitanas e informa o seu interesse pelos livros de Camilo: “Fiz vir um fardel de 50 volumes, que trago (tragar, engolir) em parcelas de meio por dia”.52 Além dos autores citados, são nomeadas as leituras de Luís de Camões, Bocage, Antônio Feliciano Castilho, Almeida Garrett, Carolina Michaelis, Francisco Manuel e Fialho de Almeida.

Apesar de seguirmos uma linha cronológica – a correspondência com Rangel – para descrever as leituras de Lobato, elas não se dão de forma estanque, pois, vez ou outra, ele está relendo as obras ou outros títulos de autores já conhecidos. A leitura comparada à bebedeira, sorvida em pequenos goles ou tragada aos borbotões, destila com freqüência nos seus depoimentos. Em Taubaté (1904), afirma estar sofrendo de delirium legens “espécie de delirium tremens dos bêbados”;53 em Areias lê para embriagar-se “como o bêbado bebe para esquecer”. Essa metáfora etílica é utilizada, também, para comparar a leitura de algumas obras. Senão vejamos:
Camilo é estilo entalhudo. Dá porradas geniais! Kipling é o estilo White Label. Inebria depressa. Gorki é vodka. Derruba. E nós? Alencar é capilé com água Flórida, bebido em ‘copo de leite’. Macedo é capilé com canela, bebido em caneca de folha. Bernardo Guimarães é capilé com arruda, bebido em cuia. Coelho Neto é capilé da Grécia, bebido em ânfora de cabaça. Machado de Assis é capilé refinado, filtrado, puríssimo, bebido pela taça da cicuta de Sócrates. Afrânio é capilé com ácido fênico. Ruy é ... Mentira! Ruy não é capilé. Euclides também não é – mas se o fosse, seria capilé com geodesia.54
Destaca-se, em seus depoimentos, a leitura de outros livros de autores brasileiros, como: Canãa, de Graça Aranha; Religiões do Rio, de João do Rio; Os sertões, de Euclides da Cunha; Memórias de um sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Inocência, de Visconde de Taunay; A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo; D. Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva; Turbilhão, de Coelho Neto; os contos de Júlia Lopes de Almeida; e cita várias obras de Machado de Assis, que ele considera o melhor escritor brasileiro. Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, foi lido várias vezes como descreve a Rangel: “Creio que já li, espaçadamente ou de uma assentada, oito ou dez vezes, e sempre com o mesmo encanto”.55

As leituras dos livros são intercaladas com as leituras cotidianas de jornais e revistas. Lobato cita a assinatura de duas revistas estrangeiras: Revue Philosophique, de França, e The Studio, de Londres; ainda lê alguns números de Wide World Magazine. A assinatura do jornal Weekly Times, de Londres, é feita no período em que reside em Areias. Nos anos em que reside em Nova Iorque, lê matinalmente os jornais Times e Sun; a revista preferida é American Mercury. Na revista portuguesa Águia lê dois contos de Lima Barreto e fica impressionado, prometendo ler o romance Triste fim de Policarpo Quaresma.

A leitura dos periódicos brasileiros mistura-se com as suas publicações. De alguns impressos foi simples leitor, como das revistas A ilustração; Revista Brasileira ou dos jornais: Jornal do Comércio (RJ); Diário Popular e O Dia. De outros foi fiel colaborador. Não podemos esquecer que, aos quinze anos incompletos, Lobato escreve seu primeiro artigo nas páginas do órgão estudantil O Guarany; colabora ainda em O Patriota e A Pátria, criando mais tarde o seu próprio jornal, o H2O. Ainda na vida estudantil, só que na faculdade, publica n’Arcádia Acadêmica e n’O Onze de Agosto.

O Minarete (1903-1907), de Benjamim Pinheiro, localizado em Pindamonhangaba, foi o primeiro jornal, fora do meio acadêmico, em que publicou artigos. Do jornal A Tribuna, de Santos, dirigido por Valdomiro Silveira, pela primeira vez recebe remuneração pelos artigos publicados. N’O Correio Paulistano publicou “a primeira coisa na vida que assinei com meu nome inteiro”.56 Colabora também com O Jornal de Taubaté; O Povo, de Caçapava; O Estado de S. Paulo, Correio da Manhã, A Manhã (RJ) e La Prensa (Buenos Aires). Publica nas revistas A Cigarra, O Pirralho, O Queixoso, Vida Moderna e Revista do Brasil, entre outras.

Nas cartas datadas até a década de 20, encontram-se vários depoimentos de Lobato sobre sua freqüência nas livrarias e até mesmo em “sebos”, em busca de bons livros e as novidades de mercado, todos, na maioria das vezes, na língua de origem. Em carta de 1907, confessa que estava no Gazeau, São Paulo, e parara para folhear alguns livros velhos, entre eles um volume de Nietzsche.57 De Mário Quintana vem a confirmação das visitas de Lobato as lojas de livros usados. Ao ser perguntado sobre o significado de seus livros infantis no conjunto de sua obra, o escritor gaúcho acaba por relembrar seu encontro com Lobato, na década de 20, num sebo famoso, no Largo da Sé.58

Residindo em Areias ou Taubaté, Lobato aproveita suas estadas em São Paulo para visitar livrarias, entre elas a Casa Garraux e a Livraria Alves. Ao amigo Rangel, que residia em Minas Gerais, comunicava suas novas aquisições, os valores das obras e muitas vezes intermediava a compra de títulos para ele.59 O escritor taubateano recebia livros de empréstimos, como também oferecia o empréstimo dos livros adquiridos.60

Sem apego demasiado por parte de Lobato, os livros cumprem uma viagem de ida e volta; contudo, critica o desmantelo e o descuido de Rangel com o material impresso:


O pobre do Paul de Saint-Victor chegou bem ‘doente’, apesar de ser todo super-homens e deuses. O filho pródigo do Hall Caine fez como o filho pródigo da Bíblia: chegou tão escalavrado e perrengue que lá baixou à enfermaria do encadernador. Ao que parece, você só tem amor à substância do livro. Despreza-lhe o corpo – a vil matéria.61
Dedicado à vida agrícola, Lobato entra na livraria Alves, em 1913, para comprar um tratado sobre criações de porcos na América do Norte e retorna com 200$000 gastos com livros de literatura: “E mergulhei, literalmente chafurdei no vício antigo, para grande escândalo dos meus canastrões, caracus e Leghorns”.62

A leitura como ato solitário e individual adquire novos contornos na atitude de Lobato de plasmar sua recepção dos livros lidos com o correspondente mineiro. A troca de impressões, por vezes discordantes, é um exercício contínuo de interpretação do material lido, como a leitura de Flaubert que encanta a Rangel e não o seduz ou a comparação que o amigo faz entre Memórias Póstumas de Brás Cubas e Memórias de um sargento de milícias, com a qual Lobato não concorda.63

A partir de 1919, os depoimentos de Lobato sobre suas leituras começam a rarear, devido à atividade editorial que lhe ocupa todo o tempo disponível: “Tanto que eu gostava de ler – e já não leio, não tenho tempo. Meu tempo não é meu, é duma porção de porcarias – negócios, ‘socialidades’”.64 Os livros comentados a partir desta data fazem parte, em sua grande maioria, do material publicado por sua editora e divulgados na Revista do Brasil.65

Em entrevista com Mário da Silva Brito para o Jornal de S. Paulo, Lobato fala de suas preferências leitoras na idade madura, colocando em evidência uma leitura seletiva e criteriosa, diversa do seu tempo de mocidade:


Com a idade perde-se a vontade de ler. O velho fica exigente. Só se interessa por coisas ótimas. Porque o livro é como mulher. Quando se é moço, qualquer criatura de saia impressiona. A mocidade gasta carinhos com prodigialidade. É aquela exuberância das glândulas... Mas na velhice, época em que se faz rigorosas seleções, só as damas indiscutivelmente belas merecem atenção. Assim com livro: na juventude, qualquer um serve; lê-se, nesse tempo, confusamente, a torto e a direito. Porém, quando os anos chegam, só mesmo coisa papafina.66
Em 1948, “véspera de S. João”, pouco antes de sua morte, sofrendo com a deficiência visual, provocada pela doença, o escritor escreve ao amigo Rangel o mal que lhe faz a ausência do hábito de ler: “A civilização me fez um ‘animal que lê’, como o porco é um animal que come – e dois meses já sem leitura me v[ê]m deixando estranhamente faminto. Imagine Rabicó sem cascas de abóbora por 30 dias!”.67

Assim, o agravamento da doença subtrai de Lobato um dos seus maiores prazeres: a leitura. Em sua última carta, dirigida ao neto Rodrigo, retoma o assunto confidenciando: “Continuo sem poder ler correntemente, o que me deixa a vida muito vazia. Pois, que pode um velho como eu, se não ler?”.68

Vê-se desse modo que o universo cultural familiar propiciou a Lobato, na infância, uma relação privilegiada com o material escrito. Ele foi criado num ambiente burguês e culto, rodeado de livros e estímulos. O livro João Felpudo, escolhido por sua mãe para introduzi-lo no mundo da leitura, não foge à regra das narrativas destinadas à criança da época, apresentando ao leitor defeitos a serem corrigidos e virtudes a serem preservadas ou adquiridas. O livre acesso à biblioteca familiar proporcionou-lhe uma prática leitora com livros os mais variados.

Sua história de leitor está marcada profundamente pelo momento histórico-social em que viveu, daí o interesse quase que exclusivo, durante um período, pela literatura francesa. Todavia, ele se volta contra essa leitura legitimada pela elite e busca nos autores de língua portuguesa o seu referencial.

A partir do exercício reflexivo das suas leituras individuais, Lobato retira do ostracismo a figura do leitor e, de forma crítica, irônica e/ou apaixonada, constrói uma produção literária em que ele é a personagem principal, pois depende de sua leitura a existência concreta do livro. Lobato assume um pacto com a leitura e com o leitor que só vai ser rompido com os primeiros sinais da morte.




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