Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



Baixar 1.11 Mb.
Página20/27
Encontro29.11.2017
Tamanho1.11 Mb.
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   27

Três anos depois, o leitor confessa que os livros de Lobato influíram de forma decisiva na sua vida, até mesmo interferindo na opção religiosa. Conta que era protestante e, embora duvidasse da criação de Adão, “um símbolo usado pela Bíblia”, não ousava questionar, com medo do fogo do inferno. Segundo ele, através da leitura “aprendi a duvidar de tudo que não me parecesse lógico e a investigar a verdade nos próprios absurdos”.591

Aos dezesseis anos o leitor demonstra uma compreensão rara sobre a literatura de Monteiro Lobato. A carta tem como destinatário Dona Benta, denominada por ele como “pedagoga revolucionária utópica possível”. O jovem diz que o termo pedagoga não exige explicação, já que foi a própria senhora que lhe explicou; revolucionária pelo “método de camaradagem” empregado na divulgação dos conhecimentos; utópica porque rompe com a forma “sisuda” e “obrigatória” utilizada pela “mentalidade dos tais adultos” na educação. Possível sim, mas somente no dia em que a geração formada por esse método possa divulgá-lo.592

5.3.9 Da doença à saudade

Em setembro de 1945, Lobato sofre uma intervenção cirúrgica para a retirada de um cisto no pulmão. Os meses que precederam a cirurgia foram envolvidos pelo sofrimento da doença: o desgaste físico e o peito arfando eram os sinais evidentes de que o escritor não estava nos melhores dias. Esse clima envolveu também seus leitores infantis que recorrem as cartas, indagando sobre o seu estado de saúde.

Humberto Pires sugere ao escritor que, caso “não ficar bom com o remédio do Visconde”, tome o remédio de seu tio farmacêutico que reside no norte do país.593 Antônio Henrique Abreu Amaral, de nove anos de idade, escreve ao seu escritor preferido também para lhe desejar um pronto restabelecimento.594 A carta de Severino de M.C. Júnior é carregada de otimismo e desejo de melhora, vindo acompanhada de um abaixo-assinado de intenção com 24 assinaturas, inclusive a da professora, estimulando o escritor para a vida.595

Um conjunto de cartas sobressaem-se dos demais pelo tom de tristeza que carregam em suas linhas: os discursos sobre a morte de Lobato.

Ana Maria Cerqueira Leite, de doze anos de idade, dá seu testemunho sobre a presença marcante de Lobato e seus livros na sua vida leitora. Inicia seu depoimento relembrando a tristeza do pai e da mãe e o convite para irem a biblioteca municipal e, só lá, ela e o irmão souberam o motivo: dar adeus a Monteiro Lobato. O texto foi publicado de imediato no jornal A Voz da Infância e sua transcrição de forma integral possibilita entender o grau de maturidade dessa leitora:
A princípio nos assustamos, pois ver uma pessoa morta não é nada agradável. Tínhamos, mesmo, medo. Entretanto, obedecemos a papai, e entramos no edifício. Ao vermos o cadáver de nosso amigo, pareceu-nos que ele estava dormindo. Perdemos o receio.

Com certeza, como acontece conosco algumas vezes, ele também, no seu sono eterno, sonhava com o ‘Sítio do Picapau Amarelo’...

Várias vezes temos sonhado com o Sítio. Nele, brincamos com a Emília, e Pedrinho, Narizinho, Visconde e respeitamos Dona Benta, assim como nos deliciamos com os doces de tia Nastácia.

Se Monteiro Lobato, como nós pensamos, entrou em sonho no Sítio encantado que criou para o nosso deleite, para ele a morte foi a conquista da felicidade que na terra não pode encontrar.596


Acostumados a escrever ao escritor, extrapolando muitas vezes assuntos sobre o comportamento de leitura e compartilhando problemas íntimos, a quem recorreriam as crianças naquele momento de ausência e vazio? Três irmãos cariocas, Maria Heloísa, Regina Oliva e José Inácio da Rocha Werneck escrevem, no mês de morte de Lobato, uma carta endereçada à Dona Purezinha, relatando a perda do escritor:
Logo que nos contaram que Monteiro Lobato tinha falecido, ficamos tão tristes que houve até silêncio dentro de casa, apesar de estarmos de férias.

Fomos para nosso armário de livros e imediatamente a Emília, Narizinho e Pedrinho, D, Benta, Tia Nastácia, quindim, Rabicó e o Conselheiro, Tio Barnabé e o Visconde saíram lá de dentro chorando, chorando tanto que nem vimos que a sala estava toda fechada apesar de serem oito e tanto da manhã. Contemplamos pesarosos aqueles livros, ou por outra, aquela gentinha toda criada por Lobato para viver eternamente na imaginação das crianças brasileiras. – Não chores, Emília! Narizinho, Pedrinho e Rabicó, não gritem tanto! Visconde, Conselheiro e Tio Barnabé levantem-se do chão, não fiquem apalermados! Monteiro Lobato não morreu, não pode morrer para o Brasil, porque a infância é eterna, uma geração sucede à outra, e vocês, criados por ele, serão os inseparáveis companheiros da criançada brasileira, desta que brota nas ruas e vilas, nas roças e sertões deste imenso Brasil.597


Além do depoimentos espontâneos da leitora Ana Maria e da carta dos três irmãos cariocas encontra-se outro registro que, apesar da oficialidade do momento, merece ser lembrado: o “discurso” proferido pelo menino Renê Sena à beira do túmulo de Lobato. Suas palavras eram o último recado dos leitores ao escritor, em especial aqueles freqüentadores da Biblioteca Infantil de São Paulo:
É este um dia vazio e de luto para nós, Monteiro Lobato. Um dia em que despertamos sabendo, sabendo que você se foi, levando pedacinhos de nossos corações, uma saudade de cada criança deste país. A mesma dor que sentimos, sentem os adultos, que já foram crianças, que já foram seus leitores e seus discípulos.

(...)


Adeus. Adeus, não, porque nossa despedida não é assim tão final. Você viverá através dos tempos graças ao que seu talento criou. Cada vez que abrirmos um livro seu, será um novo encontro entre nós.

Deus o abençoe, Monteiro Lobato; e se a carga não lhe for pesada, leve consigo estes milhares de corações de crianças (entre eles os das crianças da Biblioteca Infantil), eles lhe farão companhia, como você sempre nos fez...598


Alguns meses antes de sua morte, Lobato, como no início da carreira, confessa o acolhimento diário de cartas. Cartas de leitores chegavam de diversas partes do país e da Argentina e eram consideradas por ele o seu melhor prêmio: “Ninguém jamais recebeu mais prêmios do que eu. As cartinhas de crianças que tenho, vindas de toda parte (ontem recebi uma de Santa Fé, na Argentina), fazem-me o homem mais rico do Brasil – o Grande Milionário....”599

5.4 De volta ao remetente

Sou eu mesmo o menino que, num passado já muito distante, correspondeu-se com Monteiro Lobato. Um “menino” que está hoje com 72 anos.600


Daqui, da altura dos meus quase 80 anos eu me comovi lendo essas cartas, muito bem escritas, com propósitos claros e interpretações espertas.601
É uma volta ao tempo e já vão 62 anos!602

O testemunho de leituras se faz mais acessível quando o leitor é uma personalidade de conhecimento público. No entanto, quando iniciamos nossa pesquisa, almejávamos buscar o depoimento daqueles leitores, crianças comuns, hoje homens e mulheres (a)crescidos pelo tempo, que tiveram na sua infância o contato com os livros de Lobato e com o escritor. Como destacamos no capítulo 1, contatamos, por meios diversos, sete leitores: Alarico, Gilson, Hilda, Lucy, Nicean, Joyce e Cordélia.

Por que a escolha restrita desse pequeno grupo de leitores? Por que não tantos outros leitores que circulam em cidades brasileiras? Primeiramente porque eles e elas tiveram um relacionamento de proximidade com o escritor, alguns foram correspondentes e, excepcionalmente, quatro aparecem inseridos no universo maravilhoso e ficcional do Picapau Amarelo.

Reunimos aqui três discursos distintos: o primeiro está carregado pelas impressões de leitura colhidas no momento da recepção, o segundo se restringe a resposta do escritor a esses leitores, ambos redigidos na década de 30 e 40. O terceiro é o testemunho da leitura realizada na infância reconstituído mais de sessenta anos depois, relatos construídos pela memória. Se a primeira impressão de leitura registrada através da carta traz consigo a premência em narrar sobre o lido, a leitura recordada resvala no irremediável hiato entre o momento da apreensão e a distância dos fatos vividos.

Expressões como “não me lembro”, “mas acredito que”, “não tenho qualquer lembrança”, “posso quase lhe garantir” permeiam o discurso desses leitores que, solicitados para o diálogo, entregaram-se ao exercício do recordar de forma generosa. Aguçar a memória e reavivar imagens esfumaçadas pelo tempo, “uma volta ao tempo”, como observa Lucy Mesquita. Porém, esse retorno não faz parte de uma narrativa de ficção científica, sendo assim, muito do que passou, ficou retido, esquecido num espaço inenarrável. No recordar nem tudo são certezas como nos aponta Gilson Maurity dos Santos: “mas duvido um pouco de minha memória pois já lá se vão mais de 60 anos”.603

Ecléa Bosi, ao refletir sobre o exercício do relembrar, coloca essa prática como reconstrução. O lembrar seria uma atividade vinculada ao presente daquele que recorda:


A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor.604
Por esse viés, pretendemos atar os escritos de ontem e as falas de hoje, numa tentativa de reconstituir a recepção dos leitores e suas reações de leitura na infância; aproximar o mais possível da postura de Monteiro Lobato diante desse público leitor e refletir, com esse grupo de crianças, agora adultos, sobre as marcas daquela leitura da infância.
5.4.1 Meu amigo íntimo
Alarico Silveira Júnior, diplomata aposentado residente no Rio de Janeiro, talvez seja o correspondente infantil número 1, na vasta lista de crianças que escreveram para Monteiro Lobato. Encontramos apenas duas cartas do leitor no período infantil, uma provavelmente de fim de 29 ou início de 1930 e outra de 1934. Mas pelos depoimentos do próprio escritor concluí-se que anteriormente ele já havia recebido cartas do menino.605

Precede esse relacionamento entre o escritor e o leitor a convivência de amizade mantida durante muito tempo entre Lobato e o pai do menino, Alarico Silveira, homem que esteve ligado a dois momentos cruciais na vida de Lobato: quando em 1921, Secretário de Educação de São Paulo, no governo de Washington Luiz, auxilia no escoamento de A menina do Narizinho Arrebitado; e, em 1927, quando, acreditamos, intercede na nomeação do escritor como adido comercial brasileiro nos Estados Unidos da América.

A relação de Alarico Silveira Júnior com os livros infantis de Lobato começa muito antes de que fosse leitor fluente ou conseguisse decifrar os códigos de leitura, pois sua mãe e suas irmãs liam para ele as “histórias mais antigas”, entre elas Narizinho arrebitado e O marquês de Rabicó. O primeiro livro de Monteiro Lobato que leu efetivamente, “certamente com a ajuda de algum adulto”, pois tinha entre cinco e seis anos de idade, foi O circo de escavalinho, aquele em que aparece como convidado no Sítio.606

Alarico acredita que seu contato pessoal com o escritor ocorreu na casa dos seus pais, antes de sua ida para os Estados Unidos. O distanciamento temporal de setenta anos faz com que algumas lembranças fiquem embotadas, dando uma sensação diluída do ocorrido: “Tenho uma vaga lembrança daquele homem de sobrancelhas enormes, que gostava de conversar comigo, um fedelho de cinco anos”.607

Dos Estados Unidos, Lobato escreve freqüentemente ao amigo Alarico Silveira, descrevendo a sua vida naquele país e relatando suas atividades e empreitadas econômicas. E, assim, é provável que, juntamente com as respostas do amigo, cheguem as cartas de Alariquinho. A letra do menino, em desalinho e trêmula, denuncia as mãos de quem principia nas manhas e artimanhas da escrita e torna-se mote para uma pequena narrativa de Lobato:
Gostei muito da sua letrinha. Está muito mais bonita que a de uma baratinha que escreveu uma carta à Rute. Não sabe como foi a história? Pois a burrinha tanto fez que caiu de ponta cabeça no seu tinteiro e por um triz não morreu da pior das mortes: afogada em tinta preta, sem poder enxergar coisa nenhuma desta vida. Mas a Rute veio e a salvou com um pauzinho. Ela então ficou toda tonta e catacega, a passear sobre um papel que estava perto do tinteiro, e deixou escrita nele uma carta que ninguém na casa pode ler porque ninguém aqui sabe a língua das baratas. Mas a Rute adivinhou que eram agradecimentos por ter sido salva da tal morte preta. Pois a letra do meu caro amigo íntimo é muito melhor que a da tal baratinha, apesar de ser ela uma das baratinhas mais sabidas deste país de gente sabidíssima. Meus parabéns, pois.608
A resposta de Lobato, certamente, ultrapassava os laços de amizade. Já não era somente uma resposta ao filho de um grande amigo, mas ao leitor que lhe apresentava resultados concretos de recepção: “Fico muito satisfeito da opinião do amigo íntimo a respeito dos livros do Monteiro Lobato. Vou publicar num jornal daqui essa opinião para mostrar aos americanos que eu sou um sujeito regularmente importante na minha terra”.609

Seria uma conclusão demasiadamente apressada e ingênua crer que uma criança de seis anos poderia construir uma opinião própria sobre o material lido, sem a interferência de algum adulto. Ciente desse processo e sem ferir o leitor, Lobato estimula-o para a manutenção do diálogo, despido de outras vozes: “Faço questão de receber outras cartas do amigo íntimo, dando-me idéias para os meus livros, mas cartas inteirinhas escritas por ele, sem que papai nem mamãe metam o bedelho ou consertem as idéias” .610

A expressão “amigo íntimo”, doravante utilizada por Lobato sempre que se referir ao menino, até mesmo na narrativa ficcional, quando lhe apresenta como “amigo íntimo” de Pedrinho, é recolhida do discurso do próprio leitor que, ao cumprimentar o escritor, dela se utilizava.

Na tentativa de avivar a memória, Alarico deixou registrado recentemente “algumas velhas histórias de família”, para o conhecimento futuro de seus netos. Nessas anotações Lobato é relembrado e, apesar do tempo passado, o leitor detalha com nitidez o exato momento em que recebe das mãos de seu pai o livro no qual está representado nas peripécias do Sítio:


Vejo meus pais, risonhos, entregando-me um livro, O circo de escavalinho, no qual eu aparecia como convidado de honra, assistindo a um espetáculo encenado por Pedrinho no Sítio de dona Benta. A bem da verdade, havia outros homenageados, que dividiam comigo aquele momento supremo. Mas não importava. Ali estava eu, conversando com Narizinho e a Emília, gritando coisas, reclamando do atraso da sessão, dizendo gracinhas, o diabo.611
A carta de agradecimento pela participação na narrativa vem carregada de comentários sobre o livro. As ilustrações, preocupação de Lobato principalmente na representação do menino, agradaram em cheio o leitor, principalmente aquelas que ilustram os convites para a festa: “cartinhas correndo com perninhas e tudo”. Por outro lado, ele critica a ausência inesperada do Visconde, o palhaço do circo, não achando correta aquela situação de sumiço do sabugo.612

O leitor comunica ao escritor que soubera por intermédio de Edgard, filho de Lobato, que a empregada havia jogado Emília no lixo, mas descobrira ser uma “peta” e estava feliz. Feliz, porque das personagens daquele mundo ficcional, a boneca ocupava um lugar de destaque: “Emília é a mais engraçada de todos e eu não gosto do livro que não tenha a Emília”.613

O leitor também agradece a lanterninha enviada pelo escritor como presente, possivelmente pelas mãos de Edgard: “Muito obrigado daquela lanterninha que você me mandou, mas eu ainda não cacei nenhum saci. Eu procurei até a meia noite e não achei nada”.614 Sem dúvida, a informação sobre a lanterna mágica era uma resposta à carta de Lobato, que questionava sobre o presente enviado e sua utilização: “Já pegou muitos sacis com a lanterna mágica? Fique sabendo que essa lanterna me foi dada pelo Aladino da lâmpada maravilhosa. Não é maravilhosa como a dele, mas a ilumina muito bem e para pegar sacis é uma danada. Se pegar dois, veja se me manda um”.615

A segunda carta do leitor é datada de 26 de junho de 1934. Nesse período Lobato já retornou ao Brasil e recebe com certa freqüência cartas de leitores de diversos estados brasileiros. Alarico agradece o presente que o escritor lhe enviou: Emília no país da gramática. O livro, segundo ele, chegou em boa hora, pois nas aulas de gramática, consideradas “a coisa mais cacete do mundo”,616 estava com a difícil tarefa de decorar os verbos, no entanto, com a ajuda de Emília aprendeu tudo.

Não encontramos outros indícios de correspondência entre ambos; porém, em 1936, ano de publicação de Memórias da Emília, o menino solicita ao pai, através de um bilhete, a sua compra informando: “custa 8$000 e está à venda na banca de jornais da Praça do Patriarca”.617 O que comprova que o leitor prosseguiu em suas leituras do universo literário lobatiano.

O último registro que encontramos de referência ao menino foi pelo falecimento de Alarico Silveira, em 1943, quando o escritor envia uma carta de pêsames à esposa do amigo, Elisa Silveira. Ao fim dessa carta, ele não deixa de saudar o seu antigo leitor: “Mando um apertado abraço ao Alariquinho – que já foi meu amigo íntimo”.618

Quando enviamos ao remetente as duas cartas encontradas no arquivo do IEB, ele nos contou que há alguns meses (1998) levou um grande susto ao visitar uma exposição sobre a obra de Lobato, organizada no Museu Histórico Nacional, e encontrou esta segunda carta numa enorme ampliação.619 Da primeira ele diz que não tinha lembrança e dividiu com a família o contentamento de recebê-la:
Todos da família demos boas risadas com meus comentários ao Circo de escavalinhos. Divertimo-nos também com o agradecimento a Lobato pela lanterninha (...). Devo acrescentar, cara Eliane, que 70 anos depois, ainda não consegui pegar um único saci. Mas continuo tentando.620
5.4.2 Mestre Gilson
Gilson Maurity Santos é médico aposentado e reside no Rio de Janeiro; escreveu para Lobato em dois momentos de sua vida, primeiro na infância, aos onze e doze anos de idade e depois, na fase adulta, quando estudante de medicina. Na primeira fase, 1933/1934, o leitor enviou cinco cartas; dez anos depois, registra-se a remessa de duas cartas.

O discurso de Gilson sobre a lembrança dos acontecimentos da infância é cauteloso, pois sente que alguns dados não podem ser restaurados com a precisão do momento. Ao ser questionado sobre a maneira como obteve o endereço do escritor, o leitor acredita que tenha enviado para a Editora Brasiliense (Rua Barão de Itapetininga, 93). Tal possibilidade pode ser aventada no caso das cartas datadas na década de 40, mas não as emitidas nos anos 30.621 Embora duvide um pouco de sua memória, Gilson observa que tomou sozinho a iniciativa de escrever ao criador dos livros que ele tanto gostava de ler.

É provável que a leitura do primeiro livro de Lobato, o que aconteceu na sua segunda infância (entre os seis e onze anos de idade), foi estimulada por familiares através de presente natalício: “Daí em diante eu pedia à minha mãe ou meu pai para comprar os que iam sendo publicados”.622 O leitor confessa que provavelmente leu todos os livros de literatura infantil de Monteiro Lobato, desde Reinações de Narizinho até A reforma da natureza.

Em sua primeira carta a Lobato o menino apresenta-se como admirador incondicional das aventuras do Picapau Amarelo e informa estar sempre atento às novas publicações: logo que algum título saí no mercado solicita à sua mãe que o compre. Destaca As caçadas de Pedrinho como o livro preferido e pergunta ao escritor sobre o paradeiro da pele da onça da Toca Fria.

Embora resida no Rio de Janeiro, o leitor declara gostar muito de São Paulo e que toda a sua família torceu pela cidade durante a Revolução. A carta é concluída com um pedido insistentemente repetido nas posteriores: a sua introdução no universo das narrativas do Picapau Amarelo, participando de aventuras com as personagens Pedrinho, Emília e o Visconde.623

A resposta de Lobato é imediata, datada de 20 de dezembro de 1933, o que demonstra o comprometimento do escritor com as crianças que lhe escreviam, redigindo-lhes a resposta o mais breve possível. Quem responde e assina a primeira carta a Gilson é a personagem Visconde de Sabugosa: “Estou escrevendo esta carta em nome de Monteiro Lobato, que me emprestou a sua máquina. Eu sou o Visconde, sabe?”.624

Esta missiva reúne assuntos diversos, a maioria relacionados ao Sítio do Picapau Amarelo. Através do Visconde, o escritor dá notícias de todos no Sítio: Rabicó come abóboras, Emília amola o Visconde junto à máquina batendo o ponto de interrogação; Tia Nastácia na noite anterior cozinhou chuchus recheados ... Quanto à pergunta do leitor sobre a pele da onça da Toca Fria, o escritor informa que Dona Benta a enviou à cidade para ser curtida.

O desejo do leitor de participar concretamente da narrativa é questionado pelo Sabugo, quando informa que ele mora muito longe, o que dificultaria a visita. Contudo, sugere a sua mudança definitiva para o Sítio: “peça licença a seu pai e venha...”. O leitor é avisado que em breve, “daqui uns dois meses”, o encontrará em uma nova aventura que poderá ser lida em Emília no país da gramática; e que Emília batizou o rinoceronte de Quindim.

Porém, o mais surpreendente da resposta ao leitor fica por conta da ironia com que Lobato trata os desmandos do governo Getúlio Vargas:
Então você torceu por São Paulo na revolução? Fez muito bem. Nós aqui também torcemos muito, menos Emília que é da ditadura. Ela anda com planos de fazer uma revolução para botar o Getúlio abaixo e ficar no lugar dele. Nesse caso tia Nastácia irá ocupar a pasta da Fazenda e Rabicó o ministério da Educação. Eu serei Ministro do Exterior – e você vai ver que nós endireitamos este país. Emília é uma danada!625
Passados dois meses, o leitor reata a sua correspondência com o escritor. Sem constrangimentos, o menino diz que seu pai, Dr. Maurity Santos, presidente da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, estará fazendo uma conferência na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e que Lobato deveria ir vê-lo: “Pega uma folga e vai lá ver meu pai”.626 O menino pergunta sobre a veracidade do lançamento de Emília no país da gramática e exige uma resposta precisa e contundente sobre a sua aparição no Sítio: “Quero que respondas se deixas ou não deixas entrar nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo?”.627

Em carta assinada pelo próprio punho, Lobato acalenta o sonho do leitor de figurar como personagem em suas narrativas, dizendo que havia respondido na carta anterior e que o menino participará, sim, de aventuras com os netos de Dona Benta. O escritor observa ainda que esses pedidos são constantes por parte das crianças leitoras: “Há tantos meninos e meninas que querem entrar nessas aventuras que a pobre da dona Benta está tonta – e anda pensando em comprar um novo sítio para aumentar o que já tem”.628

O plano de Dona Benta, comentado por Lobato em tom de brincadeira, é executado cinco anos depois, ao escrever o livro O Picapau Amarelo. Nessa narrativa a matriarca do Sítio expande os seus limites, adquirindo terras novas para acolher as personagens do mundo maravilhoso e, por extensão, as crianças do mundo real que aparecem em visita, entre elas o menino Gilson. Lobato explica-lhe que o lançamento de Emília no país da Gramática sofreu contratempos e sairá somente no mês de abril: “Demorou por causa do homem que ia fazer os desenhos e que ficou atrapalhado”.629

O livro Emília no país da Gramática é tema da próxima carta do menino que está curioso em saber as asneiras que a Emília dirá da gramática e insistentemente retorna ao velho assunto de sua participação, agora como integrante dessa narrativa: “o meu nome sairá em Emília no país da gramática?”.630

No mês seguinte, o leitor relata o término da leitura de História do mundo para as crianças, que ficara por último na sua predileção devido ao extenso volume de páginas. Aponta seu encantamento por todas as personagens do Picapau Amarelo, caracterizando-as individualmente: “Emília com suas asneiras, Narizinho com suas perguntas, Pedrinho com sua valentia, Tia Nastácia com seus quitutes, Dona Benta com suas maravilhosas histórias, o Visconde com sua sabedoria, o Marquês com sua gulodice e finalmente o rinoceronte com sua mansidão”.631

Na infância, Gilson identifica-se com o Visconde e o considera a mais camarada das personagens lobatianas; e comenta suas tristezas e alegrias, ao longo de suas peripécias, primeiro, por saber da morte do sabugo, depois por sua ressurreição, tristeza redobrada por vê-lo como doutor Livingstone e alegria pelo retorno do velho e conhecido Visconde.

O leitor quer manter-se atualizado a respeito do poço fundo que Lobato disse estar cavando e pede que Emília não brigue mais com Tia Nastácia, pedido já feito em carta anterior: “Diz a Emília para brigar menos com Tia Nastácia porque senão ela morre (ouvi dizer que Emília é de pano mas é forte como quê)”.632

Lobato, que não respondera a carta de março, justifica a ausência de resposta devido ao seu envolvimento na confecção de Emília no país da gramática. O livro com “quase cem desenhos do Belmonte” exigia revisões tipográficas para que não saísse com erros. Conta ao leitor que Emília está com idéia de escrever suas memórias e informa que o poço já está com 800 metros, faltando 200 para o necessário: “se sair petróleo, vai ser uma beleza. O Visconde irá montar uma refinaria de fazer gasolina e Emília vai comprar uma dúzia de automóveis para gastar a gasolina que o Visconde fizer”.633

Lobato conclui a última carta, escrita ao leitor no período infantil, estimulando-o à leitura e saudando-o de uma forma no mínimo surpreendente, como se os papéis de repente se invertessem: “Adeus, mestre Gilson. Parabéns por ter lido a História do mundo. É lendo que os meninos aprendem, por isso não perca a gramática da Emília”.634

Remetente: Gilson Maurity Santos. Endereço: Rua das Laranjeiras, 433, Rio de Janeiro. Os dados no envelope são os mesmos das outras cinco cartas, a diferença reside na data da emissão. Quem escreve não é mais um menino que treina boxe no Colégio e vive a sonhar com a turma do Sítio; por trás daquela letra quem se apresenta é um jovem de 21 anos, estudante de Medicina, mas fremente por reavivar o velho diálogo com o escritor que lhe marcara a infância.

Motivado pelos sentimentos de gratidão, amizade e admiração, o jovem Gilson (re)apresenta-se a Lobato relembrando a troca de correspondência na infância: “E mais, para lembrar que daquela meninada cheia de entusiasmo pelos seus escritos pelo menos uma (tenho certeza que existem outras como eu) nunca o esqueceu e guarda com carinho a lembrança do Lobato”.635

O leitor confessa que os livros infantis de Monteiro Lobato lidos na infância lhe estimularam a vontade e o entusiasmo pela leitura, bem como o “carinho” com que trata o material lido; diz ainda que: “Com os seus livros na cabeça, quase decorados, eu fiz os meus primeiros alicerces literários”. A loucura pelo ato da escrita e o poder imaginativo que o leitor diz possuir deve-os a influência de Lobato na sua formação leitora.

A carta traz ainda um registro curioso da expectativa do leitor diante do livro O escândalo do Petróleo, pois acreditava que encontraria ali seus velhos conhecidos do Sítio do Picapau Amarelo, já que era de autoria Monteiro Lobato. Descreve o prazer da compra sem restrições, o trajeto para casa dentro do bonde com o livro entre os braços “como se tivesse a proteger dos outros” e a persistência com que manteve a curiosidade em alerta, não abrindo o pacote até chegar em casa. Porém, declara que a primeira leitura o decepcionou e entre “tropeços” nada entendeu; afirmando que “só há pouco tempo vim a lê-lo todo e com entusiasmo e revolta”.636

Provavelmente Lobato não lembrou de imediato do seu antigo correspondente e, para certificar-se, recorreu à canastra onde acolhia as cartas dos leitores, pois ao responder ao jovem leitor comunica que ainda tem arquivado as suas cartas de menino. E destaca o prazer que as suas palavras provocaram: “Você não imagina, Gilson, que prazer me deu com o que disse. Prazer de pai que descobre um filho ignorado. E que filharada imensa eu tenho! Só eu sei...”637

Gilson em sua carta expõe a sua disposição para a produção escrita, no entanto, achava-se muito imaturo para publicar-se, por outro lado alguns íntimos o incentivavam. O escritor, seguindo a sua própria experiência, aconselha-o em nome de Dona Benta:
Não tenha pressa em aparecer diante do público. Inúmeras vocações se perdem por precipitação. A pressa em publicar-se traz decepções e desânimo. O certo é ir-se formando de modo que ao aparecer surja com uma obra que se imponha de maneira absoluta. O gênio é uma longa paciência – e por melhor que seja a qualidade duma laranja, ela só é saborosa e doce quando madura. Aperfeiçoe-se incessantemente. Decore a fábula dos Filhos da coruja e duvide sempre da beleza dos teus produtos literários. E decore também a fábula do Menino, do Velho Aldeão e do Burrinho. Com isto você ficará uma excelente laranja bem cheia de qualidades – quando amadurecer. Antes disso, será o que nós todos, homens e laranjas, somos antes da maturação – imaturos, verdes...638
Em carta de 1º de abril de 1943, o leitor confessa que interrompeu a leitura da resposta por três vezes, contagiado que estava pelo sentimento de emoção em recebê-la e pela expectativa da reação de Lobato ao deparar-se com um leitor há muito esquecido: “Começava a imaginar, você escrevendo, você lendo a minha carta, você rindo, você sentindo-se contente, como eu esperava, de não se saber esquecido em mais um coração”.639

O conselho de Dona Benta, segundo o leitor, tinha a validade de trinta cartas. A dúvida entre o editar ou não seus textos freqüentemente persistia em sua mente, no entanto, sentia-se tímido em pedir opinião alheia e Lobato o fizera, como que adivinhando o seu desejo. As palavras do escritor tocaram forte no leitor que continuou escrevendo, sem contudo publicar seus textos que ficaram restritos à suas próprias leituras e a de alguns amigos íntimos. Somente no início de 1999, já aposentado e participando de grupos de intelectuais e escritores, Gilson trouxe a público alguns de seus textos escritos nas décadas de 60 e 70: Poemas de ontem, de anteontem e prosa onírica.640

A última correspondência entre o escritor e o leitor dá-se em dezembro de 1945, quando Lobato lhe escreve felicitando pela conclusão do curso de Medicina. A carta não tem o tom formal e aproxima-se de uma despedida, como se o leitor, agora homem feito, tivesse outro caminho a seguir, contudo, restava ao escritor os novos leitores que lhe continuavam a escrever, como outrora Gilson o fizera:
Você começou comigo, mas cometeu a asneira de crescer e hoje já está longe, e só com os olhos da saudade revê o sítio onde ‘morou’. Mas o afluxo de Gilsons é constante. Escrevem-me de todos os lados e às vezes aparecem alguns excepcionais. Ontem recebi uma cartinha dum Modesto Marques, de Tatuí, que tive de classificar como o menino número 1 destes últimos tempos.641

5.4.3 A menina das balas de cacau642
A paulistana Hilda Junqueira Villela Merz exerceu durante dezenove anos o cargo de instrutora cultural junto à Prefeitura Municipal de São Paulo, na Biblioteca Municipal Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, sendo responsável pelo Museu Monteiro Lobato, função da qual se desligou em 1999, quando se aposentou.

A aproximação da leitora com os livros infantis de Monteiro Lobato ocorreu entre os dez ou onze anos de idade, mais especificamente através do livro A caçada da onça. Ela recorda que não havia muitos livros interessantes nesse período e refaz seu repertório de leitura que incluía os contos de fadas, dos quais não era muito fã, e algumas traduções de livros alemãs e ingleses. “Minha irmã adorava ler as histórias melosas de M. Delly, mas eu não suportava a mesmice do enredo, por isso não gostava de lê-las. Quando descobri Lobato, fiquei fascinada, encantada com as aventuras no Sítio do Picapau Amarelo”.643

Em 1937, por insistência da leitora, o avô levou-a até o escritório de Lobato, que na época se localizava na Praça da Sé. A emoção foi demais para a menina que, ao ver o seu escritor predileto em carne e osso, ali na sua frente, perdeu a voz. Sobre esse momento, ela confidencia que a emoção foi tamanha que: “Respondia apenas por monossílabos às perguntas que ele me fazia. Meu avô não se conformava: ‘Ela não fala. Veio aqui só para conhecê-lo e agora não fala’. Então Lobato disse: ‘Deixa. Ela é igual ao papagaio de Taubaté: pensa muito e fala pouco’”.644

O encontro gerou uma relação de amizades entre o escritor e a menina e seus familiares e por várias vezes o escritor foi almoçar ou jantar na casa de seu avô. Nas constantes conversas com o escritor, a leitora solicitava, sempre que possível, a sua presença nas aventuras de seus livros e as recordações que traz do momento em que se viu inserida naquele mundo ficcional são no mínimo curiosas e permeadas de contradição, entre a felicidade de ver seu desejo realizado e a tristeza de não ser atendida no pedido de exclusividade que julgava justa ser atendida:


Pode parecer estranho, mas eu fiquei radiante e ao mesmo tempo com ciúmes. Ciúmes, sim! Pois o meu desejo era ir sozinha e participar de uma aventura junto com Pedrinho e Narizinho. No entanto, Lobato me colocou com um bando de crianças, entre eles seu neto Rodrigo e a neta Joyce.645
O diálogo ficcional de Hilda com o Conselheiro demonstra, sem dúvida, o quanto Lobato conhecia a sua pequena leitora, que solicitava a sua visita ao reino maravilhoso sozinha, sem outras companhias infantis. “Ciumenta”, eis o termo que o escritor se utilizava para descrever a menina e, entre seus leitores, segundo Dona Purezinha, somente um menino argentino comportava-se de forma tão possessiva em relação ao escritor.

Diante do grupo de visitantes mirins, o Conselheiro percebe e questiona o ar tristonho de Hilda, uma das meninas do grupo. Sem constrangimentos, ela justifica seu comportamento: “É que sempre quis vir aqui sozinha, e afinal vim num bando. Não gosto de bando. Mas deixe estar que hei de aparecer eu só, agora que já aprendi o caminho”.646

A estreita relação de amizade e o convívio pessoal da leitora com o escritor talvez sejam o motivo de não encontrarmos registro escrito de Hilda nesse período. Porém, Lobato deixou marcado de forma mecânica ou manuscrita o seu relacionamento com a leitora. Através de pequenos bilhetes, dedicatórias em livros, mensagem em álbum de recordação, entre outros; muitos enviados à menina e à sua irmã, Maria Elisa, “as duas mais galantes e fidalgas de São Paulo”.647

Religiosamente o escritor recebia pela passagem de seu aniversário ou Natal um “pacotão” de balas de cacau enviado pelas meninas Villela. Não é possível fazer uma cronologia exata já que muitos dos bilhetes não possuem datas, mas conclui-se que os anos vividos pelo escritor na década de 40 foram adoçados pelas “famosas e divinas balas marca “Villela”.

O bilhete do escritor, datado de 28 de dezembro de 1947, às meninas é uma demonstração da permanência da amizade entre o trio: Hilda já está casada, “já é Hilda Merz”, como esclarece o próprio escritor: “Os anos se passam e o trio Hilda-Maria Elisa-Lobato não se dissolve. Elas crescem, “adultam-se” e já começam a multiplicar-se, e ele vai afundando na velhice – mas o trio não se dissolve; e todos os anos, pelo Natal, é recordado pelo cartãozinho e as balas de Hilda e Maria Elisa”.648

As dedicatórias em livros são muitas, entre elas a de Contos pesados, quando a leitora está com dezessete anos e é introduzida na leitura dos livros de contos de Lobato: “Espero que a Hilda Vilela, que já deu a honra de visitar o Sítio de Dona Benta, passe agora pelos Contos pesados e não desaponte como desapontou lá. Se no sítio não encontrou ninguém, aqui encontrará o maior dos seus admiradores”.649

Merece destaque nesses escritos, que trazem a voz de Lobato, a mensagem registrada por ele no álbum de recordações da leitora. O ano é 1937, mas a narrativa, denominada “Cena Futura”, é ambientada em 1987. Ele constrói uma cena em que a menina, já mulher madura, rodeada por seus netos, perpetuaria as leituras da infância contando-as às novas gerações:
A venerável matrona, dona Hilda Villela, está contando histórias aos seus quatro netinhos.

– Conte, vovó, diz a Hildinha, de sete anos, conte outra vez a história da Emília, marquesa de Rabicó.

Dona Hilda fica pensativa e com os olhos voltados para o passado diz:

– Sabem vocês que eu, quando era menina, conheci o autor dessa e de tantas outras histórias?

As crianças ficaram assanhadíssimas por saber como era o autor de tais histórias.

– Lembro-me muito bem, disse a vovó, do dia em que levei ao escritório dele um pequeno álbum de autógrafo que eu possuía; esse álbum...onde andará ele agora? Sumiu...

– Mas como era o tal autor das histórias? Um homem bonito, louro, alto?

– Nada disso! Feinho, pequenininho, pretinho, de bigodinho implicante. Chama-se Monteiro Lobato e tinha a mania do petróleo... Lembro-me muito bem um dia em que o convidaram para almoçar em nossa casa. Tínhamos então uma cozinheira muito melhor que a Tia Nastácia...

– E ele foi?

– Foi sim, e comeu tanto que até se engasgou.

– Engasgou? Coitado! E não morreu?

– Não. Morreu vinte anos mais tarde, afogado num poço de petróleo.650


O álbum não sumiu como previu o escritor. Guardado com carinho pela leitora, ele faz parte concreta das recordações queridas da infância. Quanto à previsão de Lobato, Hilda considera-se honrando-as à medida em que, embora não tenha netos, incentivou suas filhas na infância à leitura lobatiana. E acredita que seu trabalho, realizado até maio de 1999, na Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato, atendendo as crianças e pesquisadores que vieram em busca de informações sobre o escritor, tenha contribuído para a perpetuação de seus livros e “as lembranças do nosso relacionamento”.

Os laços de afetividade com a família Lobato não foram desfeitos com a morte do escritor. Hilda continuou a freqüentar a casa e a manter contato com D. Purezinha, depois com a filha Marta e com a neta Joyce. Na década de setenta a leitora sentiu curiosidade em visitar o acervo do Museu para ver se encontrava seu nome entre os cadernos de endereços de Lobato, encontrou-o e também recebeu o convite para retornar outras vezes, tornando-se freqüentadora assídua daquele espaço.

Em 1982, quando das comemorações do centenário de nascimento do escritor, ela foi convidada para colaborar na organização do evento e, a partir dessa data, tornou-se prata da casa. Curioso é que até essa data, Hilda nunca havia trabalhado fora de casa, muito menos como pesquisadora. E, no entanto, no período em que foi responsável pelo Museu, organizou três trabalhos sobre Monteiro Lobato.651
5.4.4 Graciosa mineirinha
Lucy Mesquita, a “graciosa mineirinha”, que aos dezesseis anos encantou Monteiro Lobato com um discurso sobre o seu papel em divulgar o sonho do petróleo, é professora aposentada e reside na cidade de Riberão Preto (SP).

A leitora não faz parte do grupo de crianças que manteve relação com Monteiro Lobato através de cartas e curiosamente os livros desse autor não fazem parte do seu repertório de leituras infantis. Nascida em Conquista, “pequena cidade do triângulo mineiro”, as lembranças que guarda das leituras realizadas na infância se voltam para o jornal O Tico-Tico, “que nos apresentava temas nacionais patrióticos e folclóricos, desenvolvendo o gosto pela leitura”.652 A assinatura do jornal, presenteada pelo pai como estímulo à leitura, era aguardada com ansiedade por ela e seus seis irmãos.

Com onze anos de idade, ao concluir o ensino primário no Grupo Escolar de Conquista, a menina é encaminhada como interna ao Colégio Nossa Senhora das Dores, educandário exclusivamente feminino regido por irmãs dominicanas, localizado em Uberaba. Instituição que faz parte do histórico educacional das mulheres da família, lá estudara sua avó materna, sua mãe, tias e irmãs.

A leitora rememora que o Colégio possuía uma boa biblioteca e desenvolvia várias atividades na área de leitura, mas os livros de Monteiro Lobato, quer seja os destinados aos adultos, quer seja os destinados às crianças, não faziam parte do acervo: “A obra deste escritor sofria restrições políticas e religiosas. Não que as Irmãs tivessem uma linha política a seguir, mas religiosa, sim, era respeitadíssima”.653

A literatura infantil de Lobato começa a ser lida paralela à adulta aos treze anos de idade, quando a biblioteca escolar já dispunha dos livros do escritor, entre eles: Urupês, Na antevéspera, A barca de Gleyre, Cidades mortas, Mr. Slang e o Brasil. O livro O escândalo do Petróleo, por sua vez, foi comprado pela própria leitora “para me inteirar do assunto que estava a sacudir o Brasil”.654

Em 1937, Lobato viajou por várias cidades mineiras na sua cruzada em favor do petróleo nacional. Em 21 e 22 de julho esteve na cidade de Uberaba, onde foi acolhido por uma grande multidão composta de membros destacados da sociedade e estudantes das escolas públicas e particulares. Seu tempo foi dividido entre duas entrevistas na Rádio Triângulo Mineiro, uma conferência no Cine-Teatro São Luiz e visitas ao Grupo Escolar Brasil, à Escola Normal e ao Colégio Nossa Senhora das Dores.655

Lucy Mesquita cursava o terceiro ano normal e foi escolhida para saudar Monteiro Lobato em nome do Colégio Nossa Senhora das Dores, fato que lhe provocou susto e honra. A leitora acredita tê-lo tocado pelo enfoque dado ao seu discurso voltado para o homem Lobato, o “embaixador do petróleo”, e não na figura do escritor, fato abordado pelos alunos da Escola Normal.

No pátio São José, as alunas impecavelmente uniformizadas, esperavam Monteiro Lobato, que chegou acompanhado da Irmã Superiora e da Vice-Superiora. Burburinhos, alvoroço ... Silêncio. Eis a cena reconstituída mais de sessenta anos depois:

Nesta rápida passagem, Lobato deixou forte marca pela grande personalidade que era, pela história de sua vida e pela bandeira do monopólio do petróleo que defendia. Não era sempre que aparecia uma personalidade tão ilustre no colégio. Pode-se imaginar como ficamos em polvorosa! Foi uma referência digna de registro. Nem imaginava que ele pedisse o discurso, não fiz cópia e não tenho.656
O discurso de Lucy Mesquita, recolhido pelo escritor após questionar a autoria e elogiar a maturidade, a sua clareza e a consciência política da aluna, marcou-o profundamente a ponto de citá-lo em várias conferências no interior mineiro. Publicado de forma parcial entrecortado com o pronunciamento do escritor, o texto da menina vem a público em 1959, no livro Conferências, artigos e crônicas:
O vosso sacrifício da carreira literária para se dedicar inteiramente ao serviço da propaganda duma companhia de petróleo é dos mais nobres que conheço.

(...)


Compreendo que pela palavra falada conseguireis mais do que pela palavra escrita, enveredastes pelo Brasil afora para chamar a atenção dos brasileiros para a grande campanha do petróleo. Mas porque não escreveis um livro sobre o petróleo, no gênero de ‘Emília no país da gramática’ para cativar os meninos de hoje, pois que esses meninos de hoje vão ser os homens de amanhã? (...).657
Ao despedir-se da população de Uberaba pela rádio local, o escritor pede desculpas aos seus leitores infantis pelo pouco tempo dispendido com eles, mas convida-os para uma visita ao Sítio de Dona Benta, “onde a Emília, Narizinho, Pedrinho e o Visconde os esperam para uma formidável festa. Tia Nastácia as receberá com bandejas e mais bandejas daqueles seus célebres bolinhos de frigideira”.658

Somente alguns anos depois, por intermédio de seu irmão Hely, Lucy Mesquita ficou sabendo das referências da visita de Lobato a Uberaba nos jornais locais; anos depois, mais uma surpresa o professor Pepe, amigo da família, levou-lhe o livro Conferências, Artigos e crônicas onde ela era citada, e, em 1981, finalmente a leitora adquiriu, num sebo em Brasília, um exemplar do livro, que guarda com carinho.




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   16   17   18   19   20   21   22   23   ...   27


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal