Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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5.4.5 Linda criança

Nicean Serrano Telles de Sousa (Campos) nasceu em Manaus onde passou sua infância; atualmente reside em Goiânia onde é médica pediatra e professora aposentada do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Goiás.

Nicean começou a ler os livros infantis de Lobato aos sete anos de idade, por sugestão de sua mãe que era professora de Português. Embora fosse aluna de uma escola pública desprovida de biblioteca, a leitora observa que era, como os demais alunos, estimulada pelas professoras à leitura de livros para crianças. De suas lembranças emergem a leitura de dois autores brasileiros: Monteiro Lobato e Erico Verissimo.

Autora de uma única carta para Lobato, Nicean foi motivada a escrever para o escritor por ocasião de sua prisão, em 1941: “No dia que soube que ele havia sido preso, chorei muito e indaguei de minha mãe se poderia escrever para ele e assim o fiz”.659 Lobato havia sido absolvido em primeira instância pelo Tribunal de Segurança, e a leitora, em 14 de abril de 1941, escreve: “Venho por meio desta cartinha congratular-me com o senhor pela liberdade que acaba de obter. Quando li o telegrama mandando prendê-lo, não imagina como fiquei triste! É que, embora pequenina, pois tenho oito anos, gosto imensamente de ler, e o senhor é meu autor predileto”.660

Apesar da absolvição, Lobato tem sua prisão prorrogada e é atrás das grades da prisão que responde a carta de sua pequena leitora:
Linda criança

Recebi na Cadeia sua cartinha de oito páginas minúsculas, vinda de Manaus e com parabéns pela minha absolvição pelo Tribunal de Segurança. Você é muito pequena para interessar-se pela causa da minha prisão – mas quando ler O poço do Visconde compreenderá alguma coisa. O crime deste seu amiguinho distante é sempre o mesmo: querer dar petróleo ao Brasil.

Mas como tudo tem suas compensações, estou com idéia de fazer este ano um livrinho novo com o nome A prisão da Emília. A polícia prende a diabinha – e ela pinta o diabo na cadeia, faz reformas, solta os inocentes, melhora tudo, transforma a vida dos presos, que era um inferno, numa verdadeira delicia. Que tal a idéia?

Adeus – e queira sempre bem a este amigo das crianças que não tem medo de ir para a cadei[r]a, quando é para bem de sua terra.661


Nicean relata a surpresa com que encontrou, em 1998, no suplemento da Folha de S. Paulo a cópia de sua carta dirigida a Lobato:662 Ela observa que “Era muito menina e inclusive não tenho o original da carta que a ele escrevi”.663 Contudo, a leitora guarda, há mais de cinquenta anos, a lembrança viva desse encontro epistolar: a resposta do escritor.
5.4.6 Miss Joyce
“Miss Joyce” é a expressão utilizada por Lobato ao comentar com Anísio Teixeira o nascimento de sua neta: “uma americanazinha nascida a 29 de fevereiro deste ano, no Woman’s Hospital, que me pregou a peça de me fazer grandfather quando menos o esperei”.664

Filha de Martha Lobato e Jurandyr Campos (pintor conhecido como J. U. Campos), Joyce nasceu em Nova Iorque, em 24 de fevereiro de 1930. Sua primeira língua foi o inglês e estudou até 1942, na Escola Americana de São Paulo, onde a língua portuguesa não fazia parte do currículo escolar, pois seus pais tinham o firme propósito de retornar para os Estados Unidos da América.

Aos seis anos, a menina já sabia ler, exercício desenvolvido nas páginas do livro Histórias de Tia Nastácia. No período escolar, o contato com os livros do avô acontecia nos intervalos das aulas ou em casa, já que a escola não propiciava essa aproximação. Porém, alguns títulos nunca chegaram a serem lidos, pois Lobato contava a narrativa à menina à medida que ia escrevendo. Muitas vezes quando o livro ficava pronto, a história já era antiga conhecida.

Falando de sua rica experiência de leitura, Joyce conta-nos que, além dos livros que o avô escrevia, tinha à sua disposição uma infinidade de títulos, a maioria na língua de origem, já que a família era “maníaca’ por ler na língua original. A biblioteca da escola também era uma fonte de alimentação e, com freqüência, lia um livro por semana, por exigência escolar, no terceiro ano primário.

A infância, dividida entre a casa dos avós e dos pais, foi vivida intensamente. Descreve com certo ciúme a relação de Lobato com as crianças leitoras. Conta-nos que ele não paparicava as crianças e tem poucas recordações de demonstrações de afeto, como pegá-la no colo, embora a protegesse quando apanhava por suas traquinices. As outras crianças, no entanto, chegavam e “pulavam em cima dele”, faziam-lhe carinhos, aos quais ela não estava acostumada.

Quando Guilherme, filho de Lobato, ficou doente, a menina foi com os avós morar em Campos do Jordão. Lembra com carinhos as excursões junto com o avô pela floresta, em busca de borboletas e besouros para a coleção de Guilherme. Nessas ocasiões, Lobato aproveitava para ir ensinando-lhe sobre a natureza, nomeando as árvores, explicando sobre os animais venenosos, etc.

Para mantê-la longe do escritório e afastada de peraltices com seus escritos, Lobato improvisava histórias de medo e quebranto. Uma delas diz respeito a um saci que habitava em seu escritório, dentro de uma garrafa; caso a menina entrasse sem permissão, o saci iria fugir. Joyce diz que “ficava dando tratos à bola” como pegar o Saci. O encanto se desfez quando finalmente, a menina conseguiu pegar a garrafa e descobriu que seu conteúdo era nada mais, nada menos que pinga.665

5.4.7 Menina corajosa

Filha única, Cordélia Fontainha Seta nasceu na cidade mineira de Juiz de Fora, mas aos quatro anos fixou residência em Belo Horizonte, cidade onde passou toda a sua vida estreitamente vinculada a movimentos artísticos e culturais. Aos onze anos de idade era uma ferrenha colaboradora da revista infantil Era uma vez, dirigida por Vicente Guimarães. Entre as muitas atividades exercidas, pode-se incluir: jornalista, escritora, poeta, compositora, fotógrafa, crítica de Performing Arts, lingüista, radialista e professora de música e línguas.

A relação prematura da leitora com a literatura de Monteiro Lobato deu-se aos quatro anos de idade, quando recebeu de presente de sua mãe um exemplar de Reinações de Narizinho. Ela iniciou sua correspondência com Monteiro Lobato aos quinze anos de idade, totalizando nove cartas, escritas entre 25 de janeiro de 1944 a 28 de novembro de 1945.

Infelizmente, não poderemos fazer o contraponto das cartas da leitora com as respostas do escritor, já que não conseguimos ter acesso a estas, nem saber o seu destino. De qualquer maneira, as cartas da leitora, com impressões de leitura e o seu discurso posterior, dão-nos uma dimensão de quão forte foi a relação entre Cordélia e Monteiro Lobato.

A primeira carta da leitora foi enviada à Cia Editora Nacional, mas, quando a relação se acentua, envolvendo os pais da menina, que também se tornam amigos do escritor, as cartas são dirigidas ao endereço residencial de Lobato, na época “Rua Alabastro, bairro Consolação”.

Na primeira carta, a leitora apresenta-se a Lobato com informações sobre a sua vida escolar e cultural: era, então, aluna da 4ª série ginasial e do 7o ano de piano no conservatório musical. O objetivo principal de sua carta é conseguir do escritor uma retrato autografado para deixar afixado na sua biblioteca particular, descrita, sem cerimônias, como composta “de diversas coleções que por serem muito variadas até se parecem com o célebre museu da Emília (...) pois eu acho que nas minhas coleções, só faltam um retrato e uma carta escrita por Monteiro Lobato, dirigida a mim”.666

Os pedidos da menina Cordélia são concretizados e, como não poderia deixar de ser, sua próxima carta tem como intento agradecer ao escritor a resposta e o retrato autografado. Porém, o teor da correspondência muda o foco e a leitora questiona algumas modificações no material impresso de suas narrativas preferidas: o novo formato dos livros, como a quinta edição de As caçadas de Pedrinho (18 x 24,5), não lhe agrada; sua predileção recai sobre os livros de formato antigo (15,5 x 21,5). Também faz parte do relato suas dificuldades e decepções em adquirir dois títulos da coleção infantil: “Passados alguns dias quis comprar As aventuras de Hans Staden e Peter Pan, entretanto, percorri todas as livrarias da cidade e disseram-me que estes livros estão esgotados”.667

O ano de 1944 é marcado pela freqüente troca de cartas entre a leitora e o escritor. Os assuntos são os mais variados possíveis, mas um não esquece de congratular o outro pela passagem do aniversário. Cinco dias antes do aniversário de Lobato (18 de abril) chega-lhe um cartãozinho de Cordélia e no mês de agosto é ela que recebe felicitações.

Cuidadosa com os livros, Cordélia apresenta a fórmula adotada para organizar a sua biblioteca, catalogando-os com as seguintes informações: título, autor, o número do volume na prateleira, o número das prateleiras na estante e o preço do volume; ela demonstra curiosidade e especial interesse em conhecer a biblioteca de Lobato: “Tenho muita vontade de ir conhecer a sua biblioteca. Assim como a Narizinho acha que a Emília é “espirro de gente”, eu acho que a minha biblioteca deve ser “espirro de biblioteca” (será espirro da sua biblioteca?)”.668

O interesse pela literatura infantil de Lobato faz com que a leitora solicite uma relação completa dos títulos, contudo ela está interada da produção geral do escritor e informa que: “Mais tarde comprarei os para “bigodudos”, como diz Pedrinho”.669

Cordélia, desde os onze anos assídua colaboradora da revista infantil Era uma Vez, dirigida por Vicente Guimarães, na cidade de Belo Horizonte, em carta de 30 de outubro de 1944, conta que criou uma nova seção denominada: “Prosadores e poetas Brasileiros, série de 24 biografias, cujo número 4 será dedicada a um tal Monteiro Lobato. O senhor por acaso o conhece? É um sujeito que escreve uns livros que não existem outros iguais no mundo de tão enjoados”.670

A leitora pede para ser incluída no rol das personagens do próximo livro. “Não precisa ficar com medo de me pôr ao lado da Emília, porque sou a aluna número 1 dela”. Ela relata suas travessuras e pede notícias de todas as personagens do Sítio e, por último, convida Monteiro Lobato para a sua formatura no Colégio Santa Maria. “Mas não venha sozinho: traga todo o pessoal do Sítio, mais a Branca de Neve, Peter Pan, Belerofonte, etc”.671

Em dezembro, a leitora comunica ao escritor a decepção provocada pela impossibilidade de adquirir os livros da série Os doze trabalhos de Hércules, expostos na vitrine de uma livraria de Belo Horizonte: “Já era noite, a livraria estava fechada, e eu fiquei com vontade de quebrar a vitrine para poder ler os seus livros”. Informa ainda que está resolvida a encomendar os livros do próprio escritor, pelo correio, em porte registrado e de acréscimo solicita que venham “com seu autógrafo (mas sou mais exigente do que a Emília e quero UM autógrafo EM CADA livro)”. A leitora comenta que já recebeu o certificado da 4a série e vai tirar uma foto de beca, que enviará a Lobato: “Para o Senhor colocar na sua escrivaninha, como sendo da sua maior admiradora”.672

Em fevereiro do ano seguinte, a leitora expõe sua opinião sobre Os doze trabalhos de Hércules. A carta aparece aqui transcrita de forma integral pela sua relevante representação do diálogo entre obra, leitor e autor:


Caro Senhor Lobato

Aqui esta a cartinha que o Senhor pediu que eu escrevesse, isto é, uma cartinha com mais “Comprimento”, a respeito das façanhas dos “picapaus” na Grécia.

Achei os livros ótimos. Mas ótimos de verdade, pois eu sou das tais meninas que o Sr. aprecia; isto é, “das meninas bastante corajosas para dizerem o que pensam” (como o Sr. disse em uma das cartas).

Os doze trabalhos de Hércules, são destes livros (como aliás são todos os que o Sr. escreve) que a gente (não é agente da Estação) lê, lê, lê, nunca enjoa de estar lendo, e fica com pena de ter que acabar de ler.

Eu acho que os livros do Sr. podem ser divididos em duas classes: à primeira, pertencem os livros que contam fatos passados no Sítio, e à segunda pertencem os que contam causos passados fora do Sítio, como por exemplo, os “Hércules”. Gosto de ambas as classes, mas acho que não há nada como o Sítio... ele é a melhor coisa que já se imaginou no mundo. Acho que não existe nenhuma criança que não gostaria de morar lá. É mesmo o ‘suco dos sucos”, como dizem os “picapaus”.673


Em 1945, a leitora vai a São Paulo e visita o escritor, conhece sua família e, no retorno, escreve contando de sua viagem e comenta que no percurso de volta veio lendo o livro Peter Pan.674 Em outra carta envia a foto do casal Lobato tirada por ocasião de sua visita; fala ainda sobre a entrevista dada para o jornal Estado de Minas que, no entanto, “por causa da política a entrevista ainda não foi publicada, mas deve sair até o próximo Domingo. Quando for publicada eu lhe enviarei um exemplar do jornal”.675

Cordélia visitava com freqüência a família Lobato, em São Paulo, mesmo depois da morte do escritor. E foi numa destas visitas, na década de 60, quando estava hospedada na casa de Jurandyr Campos, que recebeu o convite de Caio Gracco Prado para compilar, anotar e prefaciar o livro Cartas de amor, correspondência entre Lobato e Dona Purezinha.676






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