Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Sem dúvida, Lobato antecipou-se no tempo e viveu experiências com o público leitor que ainda hoje são consideradas utópicas: a interação dialógica entre leitor, leitura e escritor.

CONCLUSÃO


A dificuldade levantada no parágrafo introdutório deste trabalho se refere ao volume de artigos, pesquisas e trabalhos acadêmicos que envolvem Monteiro Lobato e seu fazer literário. É como se nos perguntássemos o que mais poderia ser dito sobre o assunto. Ao mesmo tempo, a sensação de inesgotabilidade ronda a pesquisa. Porque nos parece que, como a fada que aguarda as palmas da infância para reaparecer, a obra de Lobato estará sempre aberta a novas leituras.

O que tentamos apresentar neste trabalho é que Monteiro Lobato, ao longo de sua carreira literária refletiu sobre um projeto de leitura voltado para a formação de um público leitor e efetivamente colocou em prática tal projeto. Para realizarmos essa tarefa, contamos com o discurso do escritor (teórico e ficcional) e a análise de suas atividades práticas, bem como reconstituímos a recepção de sua literatura infantil, quer seja pelo discurso da crítica, quer seja pelo depoimento do leitor comum. Algumas constatações e/ou conclusões já foram explicitadas ao longo do trabalho, mas pretendemos aqui retomar algumas.

A partir de seu discurso teórico (artigos, correspondências e entrevistas), Monteiro Lobato foi construindo uma concepção leitora (leitura e leitor) que abarca uma postura conhecida hoje, mas inovadora nas quatro primeiras décadas do século XX: a importância do leitor, a função da leitura e o livro como objeto mediador do ato de ler.

Para Lobato, o livro não possui existência própria. Ele só ganha vida quando é concretizado pela leitura, daí a necessidade da formação de um público. A leitura tem como função despertar a curiosidade e a capacidade imaginativa, e o seu exercício deve ser cercado de alegria e prazer, nunca de obrigação. Já que o aspecto físico do livro é entendido como parte integrante da leitura, há, por parte de Lobato, uma preocupação quase sistemática com o material impresso, desde a qualidade do papel até a ilustração, enfim todos os componentes materiais do objeto que podem contribuir para aproximar o leitor do ato de ler.

Na sua produção ficcional, desde as suas primeiras composições, quando ainda era um estudante mais afeito ao triângulo da Paulicéia do que à vida acadêmica, destaca-se a análise da função do leitor. No entanto, as idéias sobre o livro, a leitura e o leitor vão ganhando maior peso e é na sua literatura para crianças que são sistematizadas.

Três tipos de leitores habitam esse universo narrativo: o leitor implícito, o leitor representado e o leitor concreto. O primeiro tipo refere-se à imagem construída do leitor ao qual Lobato se dirigia. O segundo, à representação de personagens leitores como estímulo à leitura dos leitores concretos. E os leitores concretos são os que acabam saindo da vida real e entrando nas páginas ficcionais.

O leitor implícito na literatura de Lobato está estreitamente vinculado, como não poderia deixar de ser, a sua visão de infância. A infância é para ele o período por excelência para estimular o “gosto”, “o amor” pela leitura, muito antes dos resultados de pesquisas desenvolvidas pela UNESCO que, nas décadas de 80, revelam que “o hábito de leitura só se implanta até os doze anos”. Por isso a importância de uma literatura que desperte na criança o prazer e o “gosto” pela leitura.679

As suas primeiras reflexões não provêm de teoria, e sim de sua vivência. Toma como exemplo a sua própria formação leitora, na infância e juventude, depois a de seus filhos e filhos dos amigos. Pragmático como era, sugere ao amigo Rangel, em 1912, os cuidados com as criações do Nelo, filho deste. Ora, mais do que constatação da ausência da literatura infantil, é a intenção de uma presença. É o escritor já instaurando a possibilidade viável de uma literatura para a infância.

Para ele, os estímulos socioculturais contribuem para o processo de desenvolvimento intelectual, sendo exemplo disso a inventividade da linguagem infantil refletida pela experiência vivida com os filhos: Ruth, que tem a “cabecinha povoada de seres fantásticos”680 e quer a criação de um pé-galo, influenciada pela propaganda de remédio de calo; Edgard, que adquire um medo súbito de luvas depois das ameaças da empregada de que elas pertencessem à cuca;681 Guilherme, que, seguindo o movimento da pena sobre o papel, solicita o desenho de um trem e imagina nele toda uma bicharada. Assim, a imaginação e a criatividade são inerentes ao homem, mas a infância é o período por excelência de sua manifestação: “A criancinha que destrói objetos, não destrói, cria. Toma um boneco e o faz em pedaços: desdobra um em vários, cria”.682

A concepção de infância que se manifesta na posição teórica e nos textos literários de Lobato dialoga com a promulgada pelas novas teorias de educação no início do século no Brasil, como a da Escola Nova: o fim da infância reside na própria infância. A criança deixa de ser pensada como um ser cognitivamente inferior e começa a ser valorizada pelos seus interesses e necessidades intrínsecas. Lobato fala à criança no seu tempo presente e busca incentivá-la nesse momento com todas as nuances que a rodeiam.

Para isso, o respeito à individualidade da criança e um agudo senso perceptivo das especificidades desse público, enquanto leitor, levam Lobato a produzir uma literatura sui generis para a época. Primeiro, porque ele inverte as situações cotidianas vivenciadas pela criança no universo familiar. Não existe cerceamento das idéias no universo ficcional, e os adultos que ali estão representados colaboram para o desenvolvimento intelectual das personagens, mesmo quando isso significa questionar as palavras desse mesmo adulto, como se vê no caso das narrativas contadas por Tia Nastácia.

Em Memórias da Emília,683 por exemplo, ao tematizar o ato da escrita, com seus caprichos, Lobato revela e desvela o registro das memórias como um universo inventivo, construído por quem escreve. Ao minar a ordem da narrativa memorialística, pela desconfiança quanto à sua elaboração, ele delineia um caminho pelo qual a escrita possa assumir-se como ato de liberdade e espaço de imaginação. O exercício de desautomatizar a imagem de certeza que cerca a palavra escrita e, por conseqüência, o seu autor é freqüente na produção literária de Monteiro Lobato. Por esse viés ele desperta no leitor o sentido da dúvida, o caminho do questionamento.

O espaço de sonho do Sítio do Picapau Amarelo, onde “brincar e aprender” não são palavras contraditórias, mas ações partilhadas, põe em evidência o próprio processo de criação literária do autor em relação a si e ao outro. Lobato brinca com as palavras e dissemina no texto uma nova postura diante do leitor. Assim, o pacto de leitura estabelecido entre o eu (escritor) e o outro (leitor) conflui para o desmoronamento de uma visão de criança como ser passivo, incapaz de interagir com o lido. O sujeito do ato da leitura adquire novos contornos e é convidado pelo texto a manifestar sua potencialidade leitora.

Como Platão, Monteiro Lobato cria uma cidade ideal, a República do Picapau Amarelo. Só que, na contramão do filósofo grego, que bane a poesia do espaço criado, o escritor brasileiro penetra no mundo da linguagem para com ela poetizar a sua criação. Mundo da linguagem este que não descarta o coloquial, as gírias, os provérbios, etc. As várias possibilidades de manifestação da língua se cruzam no tecido da narrativa, contribuem para silenciar a voz autoritária do escritor e propiciam o estabelecimento do diálogo com o leitor.

A representação de personagens leitores em situações de leituras e os seus envolvimentos constantes com os livros e textos literários são estímulos para o leitor, que ganha através daquelas experiências outros caminhos possíveis para a sua própria vivência leitora – (des)fazendo-se de si no outro. Por sua vez, a pluralidade de vozes inseridas em suas narrativas, com discussões e posições das personagens, assinala uma diversidade de concepções de mundo, o que apresenta ao leitor um horizonte diverso do habitual, oferecendo-lhe outros pontos de vista.

A inserção do leitor concreto na narrativa ficcional é uma maneira utilizada por Lobato para confraternizar-se com os seus leitores: meninos e meninas que descobriram nas páginas ficcionais o prazer da leitura. Os nomes não são colocados aleatoriamente, mas escolhidos da vida real, daquele grupo de crianças que lhe escreve ou, por um motivo ou outro, trava com o escritor um contato direto.

Esse contato direto muitas vezes é proporcionado pelas atividades práticas adotadas por Lobato para atingir seus leitores, ao priorizar os espaços mediadores da leitura das crianças: o ambiente familiar, a instituição escolar e a biblioteca. Se no primeiro espaço sua interferência não pode ultrapassar a esfera da sugestão, nos dois seguintes ele desenvolve uma campanha sistemática, apresentando estratégias inovadoras para a época: o discurso em prol de uma biblioteca específica para o público infantil e a sua atuação concreta nesse espaço quando ele se efetiva, visita a escolas divulgando sua obra, distribuição de livros de cortesia para os leitores, estímulo à criação de clubes de leituras e grêmios literários.

As cartas dos leitores demonstram, como analisamos no capítulo 5, que Lobato foi certeiro em sua postura: os leitores sentem-se respeitados como indivíduos, já que são tratados como interlocutores ativos. Sem constrangimento, eles fazem críticas e intervenções nas narrativas e nas ações das personagens; valorizam os livros de “conteúdo didático”, exatamente pelo seu rompimento com a seriedade e o caráter de obrigatoriedade que ronda estes conteúdos, como aritmética e gramática; demonstram interesse pela feição material do livro.

As cartas apresentam a recepção de leitores comuns no momento da apreensão do texto literário, o que marca a originalidade desta pesquisa, pois nos trabalhos até aqui realizados as constatações sobre a leitura da obra lobatiana faziam-se em cima de depoimentos posteriores e, na maioria dos casos, de pessoas reconhecidas publicamente. Reconstituir esse momento de leitura possibilitou vislumbrar a importância que Lobato teve na formação desses leitores e o efeito que essas respostas leitoras tiveram na sua produção literária.

Parece possível, então, afirmar que o criador de Emília atinge sua proposta numa relação dialética, em que escrita e atitude se confrontam, atuam e interagem em prol de uma comunicação viva e dinâmica com o outro. Esta comunicação dá-se pela importância à figura do leitor tanto na construção do texto (leitor implícito) como nas atividades desenvolvidas em proveito da leitura (leitor concreto).

Sem pretensões de encerrar o assunto, fechamos este trabalho com a sugestão de Emília, em suas memórias, mais por afinidade com a idéia da facilidade dessa estratégia do que pela intenção de acabamento: FINIS.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMO, Cláudio. No ventre da história. Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 abr. 1982.

_____. Nós e os outros. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 1984.

_____. Mowgly, Tarzan e Kaspar Hauser. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 out. 1983.

ABRAMOVICH, Fanny: Lobato de Todos nós. In: Dantas, Paulo. Vozes do tempo de Lobato. São Paulo: Traço, 1982.



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