Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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2.2 Contemplando o leitor

O povo não lê porque não pode ler, porque está impedido, proibido de ler. A viçosa reação, assim como o impediu de espernear sob as torturas, também lhe vedou o acesso ao livro. Para que livro? Não vivia os nosso avós tupinambás tão bem sem ele? Acaso souberam jamais os pretos do Congo o que isso é? Povo que ainda apanha bolos lá tem direito de pensar em livro? Cultura... Isso é bolchevismo. A felicidade dos povos reside no culto da santa Estupidez.69

Dentro do panorama sócio-cultural do final do século XIX e das primeiras décadas deste século, podemos considerar Lobato como um privilegiado. Membro de um família ligada à oligarquia do café, neto de Visconde, recebeu uma educação condizente com a classe a que pertencia. Alfabetizado em tenra idade, estudou em boas escolas, apesar de suas permutas promovidas pela inconstância dos estabelecimentos escolares, principalmente em cidade interiorana como Taubaté.70 Fez o ensino preparatório interno em São Paulo e bacharelou-se em Direito. Seguiu, em regra, os passos da educação brasileira da classe socialmente aquinhoada.

Porém, esse perfil elitista não condiz com a realidade cultural do país. Na primeira década do século, 80% da população era analfabeta e o problema persiste na esteira da década de 20, totalizando um contigente de 75% de analfabetos.71 Um quadro nada promissor para quem desejava, como Lobato, incursionar pelo mundo das letras.

Para a existência efetiva da produção de livros, é necessário que exista um público leitor e que ele seja sensibilizado para a leitura. Mas como sensibilizá-lo se paira entre o desejo e a concretização a tão execrada taxa de analfabetismo que imperava no Brasil? Por outro lado, os poucos afortunados, que estavam aptos para o exercício da leitura e a ela tinham acesso, cultuavam, movidos por sua formação, a literatura estrangeira. Dessa forma, para Lobato o analfabetismo da classe popular e o culto à cultura estrangeira, em especial à francesa, pela elite, eram fatores determinantes para o estrangulamento de uma cultura leitora e a não valorização de uma literatura nacional.

Nesse quadro de matizes pouco reveladoras, Lobato vai direcionar seu discurso, desdobrando, sempre que viável, o pano que (en)cobre a tela e revelando a intricada e complexa convivência entre o não-leitor e o leitor; entre uma classe abastada e outra popular.

Em 1925, em entrevista a Brito Broca, o escritor fala sobre o problema editorial no país e detém-se ao principal motivo que inviabiliza o crescimento desse mercado: o analfabetismo que assola o país, evidentemente, uma questão de cultura. O público consumidor representado pela elite e pelo povo recebe de Lobato, nesse momento, um olhar de editor, arguto e comercial. O primeiro grupo de leitores, além de ser restrito populacionalmente, volta-se para a leitura de livros estrangeiros, na maioria das vezes adquiridos na “biblioteca dos amigos”; para essa classe de “filantes”, a venda comercial do livro é inexpressiva e quase inviável. O segundo grupo de leitores, no entanto, é que colabora para o andamento das vendas, buscando na leitura o divertimento.72

A dicotomia entre as duas classes sociais já era citada no ensaio “Os livros fundamentais”, de 1920. Nele Lobato critica os inquéritos literários como “deficientes e velhacos”, pois eles não provam o que realmente se lê, e sim o que se compra. Indo além, o escritor distingue a leitura de uma elite e a do povo, caracterizando como desigual a posse e o acesso ao livro pelas diferentes classes sociais. A escola, por sua vez, não cumpre seu papel de sensibilizar para a leitura; no ambiente escolar ela é sempre tratada como um “instrumento de suplício”, por meio de leituras didáticas que buscam incutir “patriotices” e “sornices cívicas”. Dessa forma, sai-se da escola com a idéias de que “a leitura é um mal, o livro, um inimigo, não ler coisa alguma é o maior encanto da existência”.73

No seu discurso Lobato apresenta alguns livros que fazem parte da formação cultural e que podem ser encontrados na casa de pessoas simples, são eles: Tereza, a filosofa, livro proibido que aguça a libido; Carlos Magno e os doze pares de França, livro formador que desperta o instinto guerreiro; o livro de poesias Primaveras, de Casimiro de Abreu, lido pelos meninos quando das primeiras paixões. Para a sensibilidade feminina é destinada a leitura dos livros de Escrich. Livros que trazem as marcas da leitura nas páginas puídas, dobradas, marcadas. Livro lido, livro usado! Porém, dos títulos citados, apesar de poucos, somente um é de autor brasileiro, fato que leva Lobato a concluir que: “só nacionalizamos o amor”.

Essa preocupação com o leitor, no entanto, precede o seu exercício como editor e a sua popularidade como escritor. Em 1909, bem antes de Lobato pensar em reunir o seu conjunto de contos em livro, Rangel lhe indaga a possibilidade da produção de um livro de contos escrito a quatro mãos. Lobato não descarta a idéia, mas acredita que esse intento só alcançará méritos se cativar o leitor. Assim, esses contos devem seguir uma risca: “contos que façam o leitor interromper a leitura e olhar para uma mosca invisível, com olhos grandes, parados”.74

Como contista, Lobato mostra-se atento às nuances do público leitor, quer seja o de livro, quer seja o de revista. Ao escrever o conto O bocatorta, comunica a Rangel, em 1909, sua intenção de “criar uma impressão fortíssima no espírito do leitor”.75 Já em carta datada de 30 de junho de 1916, confessa ao cunhado Heitor de Moraes as modificações necessárias que realizaria no conto para tornar-se “apresentável” ao público da Revista do Brasil.76

A crítica ao acesso à leitura e ao descaso com a educação feminina aparece no conto A colcha de retalhos (1915). Para a menina Maria das Dores, vulgo Pingo d’Água, que tinha até os quatorze anos ido somente uma vez à vila, no dia de seu batizado, a leitura é descrita como algo desnecessário na formação da personagem. Tal fato não se deve tão somente à sua condição de menina do interior e pobre, mas também à sua condição de mulher. “Ler? Escrever? Patacoadas, falta de serviço, dizia a mãe. Que lhe valeu a ela ler e escrever que nem uma professora, se des’que casou nunca mais teve jeito de abrir um livro?”77

No conto O fisco (1918), o objeto livro aparece incluído, junto com outros bens de consumo, aos sonhos do menino Pedrinho, que almeja, com um arremedo de caixa de engraxate, solucionar os problemas financeiros da família. O sonho de ascensão social da personagem contempla a aquisição do objeto livro: “Aumentaria as rendas! Enriqueceria! Compraria bicicletas, automóvel, doces todas as tardes na confeitaria, livros de figura, uma casa, um palácio, outro palácio para os pais. Depois...”78

Já no conto A vida em Oblivion, o autor retrata a vida cultural, em especial, a educação literária do povo da pequena cidade de Oblivion, que gira em torno de três livros: La mare dÁuteuil, de Paulo de Kock, restrito aos que dominam a língua francesa; para o público feminino, em especial, “uns volumes truncados do Rocambole” e para os apreciadores da literatura nacional o livro Ilha Maldita, de Bernardo Guimarães. Livros que circulam de mão em mão e que trazem impressas em suas folhas as marcas da leitura de cada usuário: “(...) encardidos pelo uso, com as capas sujas, consteladas de pingos de vela – lidos e relidos que foram em longos serões familiares por sucessivas gerações”.79 O objeto livro acaba por se tornar portador de uma história, ou melhor, várias histórias de leitura. Testemunho concreto do ato pelas páginas marcadas pelo manuseio do leitor.

Muitos outros exemplos poderiam vir à tona para exemplificar a reflexão existente nos contos de Lobato sobre papel da leitura e do seu destinatário. Contudo, é na produção literária infantil que o veremos voltado completamente para a figura do leitor, um leitor específico: a criança.

Em 1919, Lobato comunica ao amigo Godofredo Rangel a idéia de revestir com um novo colorido as fábulas de La Fontaine, colocando à disposição no mercado um livro destinado ao público infantil escolar. O livro de fábulas existente, de João Kopke, escrito em versos, era, segundo Correia, provido de versos “insulsos” e de difícil “compreensão por cérebros ainda tenros”.80 Ao solicitar ao amigo uma leitura crítica do material, ele demonstra uma preocupação com a adaptação e a forma dos textos para crianças, isto é, com a especificidade do leitor.

Contudo, tal idéia já germinava em 1916,81 motivada pela inexistência de uma produção brasileira para crianças, sentida na própria pele através da reflexão sobre as futuras leituras de seus filhos, que se aventurarão pelos caminhos da leitura, possivelmente, pela mão de livros estrangeiros: “É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. Só poderei dar-lhes o Coração de Amicis – um livro tendente a formar italianinhos”.82

O projeto de uma literatura para o público infantil, idealizado pelo “habilidoso” e preocupado pai Lobato, é concretizado pelo escritor-editor em 1920, quando traz a público as aventuras d’A menina do narizinho arrebitado, em fragmentos na Revista do Brasil.83

Partindo, possivelmente, de sua própria experiência leitora,84 Lobato conclui que “ler é um vício que a gente adquire em criança”.85 E começa a direcionar a sua produção literária, até então voltada a “marmanjos”, à criança brasileira. Para o autor, as primeiras leituras são fundamentais à formação ou não de um público adulto consumidor de literatura. Por isso eram necessários livros que se voltassem à imaginação dos leitores na idade infantil, como salienta no artigo “A criança é a humanidade de amanhã”:
Há homens que passaram a vida sem ler um livro, fora dos escolares, justamente por não terem tido em criança o ensejo de ler um só livro que lhe falasse à imaginação. Já os que têm a felicidade de na idade própria entrarem em contato com livros que ‘interessam’, esses se tornam grandes ledores e por meio da leitura prolongam até o fim da vida o progresso auto-educativo. Quem começa pela menina da capinha vermelha pode acabar nos Diálogos de Platão, mas quem sofre na infância a ravage dos livros instrutivos e cívicos, não chega até lá nunca. Não adquire o amor da leitura.86
É interessante notar que, em nenhum momento de suas colocações, Lobato se refere à leitura como um hábito a ser desenvolvido na criança. Leitura é, sim, algo mais forte e avassalador que se carrega pela vida toda. Leitura é vício enraizado, é gosto adquirido, é amor conquistado.

No mesmo artigo, o autor empenha-se em refletir sobre a visão de criança, propagada pelas duas correntes pedagógicas em voga na época: uma que vê a criança como um homem em miniatura: “adulto reduzido em idade e estatura e com a mesma psicologia”; e outra que contempla a criança nas suas especificidades, “como um ser especialíssimo, do qual o homem vai sair, mas que ainda tem muito pouco de homem”. Lobato comunga com a visão estabelecida pela segunda concepção: a criança será o homem de amanhã, portanto cumpre investir na sua formação.87

Essa visão da criança como um vir-a-ser leva Lobato a criar várias metáforas e comparações desenhando uma idéia de promissão configurada no adulto futuro. Levantamos algumas dessas colocações erigidas nas décadas de 20, 30 e 40, para ilustrar quão forte era o seu ideal de depositar no leitor infantil as esperanças do amanhã.

Em 1923, ao comentar o livro de Belisário Pena, Saneamento do Brasil, argumenta que a higienização, com seu poder salvador e curativo, deve arregimentar para suas fileiras os pequenos, pois deles é o futuro: “Nas crianças está o futuro e prepará-las para o grande combate é dar alicerces de pedra à vitória”.88 Em 12 de janeiro de 1936, agradece ao amigo e colega mineiro Vicente Guimarães (1906-1981), conhecido pela criançada como Vovô Felício, os números recebidos da revista infantil Caretinha, destacando a sua importância: “A criança não passa da nossa projeção para o futuro. E assim como é de cedo que se torce o pepino, também é trabalhando a criança que se consegue boa safra de adultos”.89 Na cerimônia inaugural do novo espaço da Biblioteca Infantil de São Paulo, em 1945, o seu discurso reverencia o espaço para o público infantil: “As crianças são o futuro da raça – palito da palmeira, como diz a Emília, o broto da árvore da raça”.90 Enfim, as crianças são “crisálidas donde vão sair os homens de amanhã”.91

Reconhecida a especificidade do leitor infantil, Lobato se volta para a concretização de uma literatura com características próprias. Apesar de dizer que não poderia dar receita da reeditabilidade de sua obra, já que “entram em cena imponderáveis, inapreensíveis”,92 acaba por destacar na composição da literatura infantil três aspectos principais para a sua aceitação e sucesso junto ao leitor mirim: o vocabulário, o estilo e a linguagem.

Os textos destinados às crianças deveriam primar pela simplicidade vocabular, com “ausência de termos de complexa significação”. No entanto, essa postura não significa menosprezo da capacidade do leitor, mas uma adaptabilidade aos cérebros “ainda tenros” das crianças. Em carta a Vicente Guimarães, o escritor taubateano deixa claro a sua visão: “Pouca gente acerta com a arte de escrever para as crianças. Muitos forçam a nota da simplicidade, só conseguindo vulgaridade e pieguice”.93 O estilo, por sua vez, deve ser o mais direto possível, “ultradireto”. Ele argumenta que o escritor para infância deve utilizar em sua escrita o estilo “clara de ovo, bem transparentinho”94 como recomenda a boneca Emília. A linguagem deve ser acessível, desprovida de todo artificialismo, isto é, desliterarizada, aproximando-se o mais possível da língua falada pelas crianças, numa linguagem do Brasil. A narrativa, enfim, deve vir “a galope” e, para isso, um dos modelos a serem seguidos, por aqueles que querem se aventurar na literatura infantil, está na narrativa de “Capinha Vermelha”, pois um estudo profundo descortinará a essência dessa narrativa que “foi composta pelas próprias crianças por intermédio de suas mães e avós”.95

A relação assimétrica na literatura infantil entre aquele que escreve – o adulto e aquele que lê – a criança – exige uma postura cuidadosa, pois emissor e receptor não estão no mesmo plano de igualdade. Lobato, em 1919, afirmava ao escritor Thales de Andrade que “literatura infantil ideal seria a que fosse escrita pelas próprias crianças, o que é irrealizável”.96

Nesse jogo incerto de um discurso não realizado “pela” criança, mas “para” a criança, Lobato assume a sua visão de infância, tentando se aproximar o mais possível de seus leitores. E justifica a conseqüente adesão das crianças à leitura de seus livros:


Talvez pelo fato de serem escritos por elas mesmas através de mim. Como as coitadinhas não sabem escrever, admito que me pedem que o faça. Mas não que o faça como quero e sim como querem elas. Há de ser assim, assim, assim – e humildemente anulo-me para dar a minha clientelazinha um produto que não lhe desagrade.97
Consciente de seu papel de mediador da leitura, Lobato não se afasta, e nem pode, de sua condição de adulto. Mas procura respeitar o leitor em sua individualidade. Esse fato aparece de forma marcante na sua crítica aos adultos – pais, professores e escritores – que tratam confusamente algo tão díspar como educação e obediência. Os dois termos não podem ser vistos como sinônimos; uma criança bem comportada não significa que seja bem educada e vice-versa. Essa visão distorcida faz com que a criança seja encarada ou como um “aborrecimento” por sua insubmissão às ordens, ou como um bibelô, um “enfeite da casa” que a tudo obedece passiva e pacificamente.98

A representação ficcional da personagem Coronel Teodorico, afirmando que “criança a gente doma, como os potros!”,99 retrata uma situação comum à época. Por isso, as produções literárias para a criança acabam por privilegiar o caráter “formatador”, buscando impingir normas de civilidade ao leitor. As narrativas ficam calcadas em moldes conservadores, tornando a leitura obrigação e nunca prazer.

Lobato, no entanto, opondo-se a esta tese, questiona, em 1920, o livro de leitura suplementar nas escolas primárias Pequenos trechos, de Otaviano de Melo que, seguindo as exigências do programa oficial, tornou-se árido. Para ele, o livro para crianças deveria ser “um recreio de ledos atrativos, que não, propriamente, uma disciplina”.100

Em 1934, Lobato assume uma postura mais contundente, ao comentar o interesse das crianças por Emília no país da gramática. Um livro que, mesmo voltado para o ensino de uma matéria escolar, conseguiu receptividade das crianças. E afirma categoricamente: “Todos os livros podiam tornar-se uma pândega, uma farra infantil”.101

Sendo assim, Monteiro Lobato, ao direcionar sua produção literária para crianças, tem em vista um projeto que prioriza, em igual medida, o campo estético e o ideológico: o primeiro, no sentido de revisar a linguagem dos textos para crianças, e o segundo ligado a uma nova percepção e compreensão do leitor infantil que entra em dissonância com a visão de criança da época e, por conseqüência, com os discursos a ela destinados.

No período em que Lobato começa a escrever para as crianças, a literatura infantil é pouco difundida e a produção brasileira escassa. No império das traduções e adaptações em um português castiço, o mais próximo da língua culta (a língua culta de Portugal), Monteiro Lobato surge com uma literatura despojada de “literatices”, disposto a raspar os enfeites literários e retirar o último grânulo de literatura. “Não imaginas a minha luta para extirpar a literatura dos meus livros infantis. A cada revisão nova, nas novas edições, mato, como quem mata pulgas, todas as ‘literaturas’ que ainda as estragam”.102

Ao elaborar o registro da linguagem escrita pela incorporação da oralidade, apaga as marcas de infantilismo e pieguice inerentes à produção literária para crianças de seu tempo, do mesmo modo que ofusca o brilho da “língua culta” promulgada por seus antecessores.103 Rompe, assim, com a dependência dos valores transmitidos pelas traduções estrangeiras do além-mar e instaura o coloquialismo em confronto aos textos “empoleirados”.104

A linguagem desempenha um papel fundamental no fazer literário lobatiano, não se restringindo somente à questão estética, mas também à ideológica, na medida em que, através da língua, a ideologia também se manifesta. Como observa Bakhtin: “cada gênero literário, nos limites de uma época e de um movimento, se caracteriza por sua concepção particular do destinatário da obra literária, por uma percepção e uma compreensão particulares do leitor”.105

Desta forma, Lobato não confirma a visão de criança dos textos literários em circulação na época, para quem era reservado um espaço restrito e passivo. Ao contrário, seus textos se reportam a um leitor dinâmico, arguto e apto a interagir com o dito e o não-dito do texto literário.

2.3 Livro para quem tem fome de leitura

Um país se faz com homens e livros.106

O historiador Roger Chartier distingue dois conjuntos de dispositivos utilizados na feitura do livro, que não podem ser confundidos: os procedimentos de produção de texto e os procedimentos de produção do livro. O primeiro, puramente textual, é aplicado pelo escritor na confecção do texto, com o objetivo de produzir efeitos que garantam a boa leitura e a compreensão desejada. O segundo, de feição tipográfica, corresponde às estratégias utilizadas pelo editor-livreiro para seduzir o público-leitor: tipografia, ilustração, a disposição e a divisão do texto, entre outras.107

Gostaríamos de refletir sobre os procedimentos adotados por Lobato para cativar e seduzir o público leitor. Porém, ultrapassando os critérios que se detenham na qualidade estética e nos dispositivos textuais, busca-se focalizar as condições externas que determinaram a obra lobatiana, especialmente a infantil, e contribuíram para o seu desenvolvimento.

Um tênue fio separa o Lobato-escritor, produtor de textos, do Lobato-editor, produtor de livros, e, muitas vezes, tal fio se rompe e percebemos a interferência do editor na produção do escritor. Mais do que interferência, talvez possamos dizer que ambos os olhares do mesmo homem sobre o objeto livro e o público leitor se completam.

No início do século XX, o escritor brasileiro, na maioria dos casos, vivia subordinado ao “mecenato” do governo, através de empregos públicos; se conseguia escapar desse destino caía nas malhas da imprensa ou no exercício do magistério.108 O trabalho intelectual era, quando acontecia, mal remunerado. O desejo de profissionalização e remuneração do trabalho intelectual aparece sistematicamente no discurso de Lobato, no período que precede à sua popularidade. Ele vive o eterno impasse do escritor brasileiro: como sobreviver do exercício literário.

Em 1909, Lobato queixa-se ao cunhado Heitor de Morais sobre a calamitosa situação do escritor brasileiro: “É pena que a literatura não seja mercadoria aqui entre nós, porque nós que não sabemos cavar com a enxada, nem temos balcão, vemos a única produção de que somos capaz, dar menos resultado pecuniário do que o arroz, o milho, o toucinho”.109

Nesse mesmo período, em suas cartas ao amigo Godofredo Rangel, Lobato conta que faz algumas colaborações no jornal O Estado de S. Paulo, traduções de artigos em inglês do jornal Weekly Times, que lhe renderam no mês de dezembro de 1908, 800$000.110 Escreve também para A Tribuna, a 10 mil réis o artigo, mas considera o negócio pequeno, pois são apenas cinco artigos por mês. No entanto, algumas afirmações são desditas pelo próprio escritor, que, ao reler em 1943 a sua correspondência com o amigo, diz que teria provavelmente exagerado nos valores para causar inveja: “tenho uma vaga idéia de que realmente só me pagavam 5”.111

Em 1911, Lobato não se encontra otimista em relação à publicação de livros no país. A impossibilidade de vir a público reside no aspecto comercial da empreitada que não oferece retorno monetário. Tomando como exemplo a produção literária de Machado de Assis, prestigiada intelectualmente e ao mesmo tempo execrada pelos livreiros, ele observa que “tão divorciados andam entre nós a Glória e o Valor Comercial”.112

Na mesma medida que se mostra decepcionado com o comércio do livro, apresenta rompantes de euforia; observa ao amigo que um dos caminhos para conquistar leitores é trazer o nome sempre impresso através de publicações nos jornais. Propaganda barata e efetiva. Por esse processo, quando aparecer com um livro não será mais desconhecido do público.113 Lobato insiste ainda na publicação do romance Vida Ociosa: “Queres negociar comigo a publicação da Vida Ociosa? O Monteiro Lobato editor do Godofredo Rangel – que maravilha!”114 Na época a proposta poderia não passar de pura pilhéria, mas cinco anos depois o livro vem a público pelas mãos do Lobato editor.

De promotor em Areias a fazendeiro em Taubaté, Lobato abandona a vida pacata do interior em 1917 para residir com a família na Paulicéia e, com o dinheiro da venda da fazenda Buquira, compra por dez contos a Revista do Brasil, gérmen de um empreendimento editorial que renovaria a indústria do livro no Brasil.

Nelson Palma Travassos observa que “a história da indústria do livro no Brasil pode ser dividida em dois períodos: antes de Monteiro Lobato e depois de Monteiro Lobato”.115 Tal afirmação não parece exagerada, pois ao se estabelecer oficialmente como editor, através da firma registrada na Junta Comercial como “Monteiro Lobato & Cia”,116 em 1919, Lobato vem dar um novo rumo à vida editorial do País. Mesmo antes de oficializado o exercício de editor com firma registrada, Lobato publica, em 1918, O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito e Urupês, livros que tiveram uma ótima recepção e, no caso do segundo, um número de edições formidáveis para a época. No entanto, Lobato não se restringiu a publicar suas obras e as de meia dúzia de eleitos; assume sua função de mercador das letras e acaba por mudar o quadro editorial.

Viriato Corrêa, em artigo de 1932, faz um balanço da vida editorial do país, nomeando Lobato “o bandeirante do livro”, devido à sua responsabilidade nas mudanças ocorridas em relação ao objeto livro e o seu comércio, já que “há dez anos passados, o Brasil não somente era um país que não lia, era um país que não comprava livros”.117 Até então, as edições se resumiam, quando muito, à cota de dois mil exemplares, consideradas formidáveis; as livrarias eram os “sarcófagos” do livro. Com Lobato, as edições ultrapassaram o número de tiragens e o livro foi levado à rua, conquistando novos espaços.

As casas editoriais no país, até então, eram, segundo Lobato, “galinhas velhas” que botavam de vez em quando um livro. A Francisco Alves, especializada em obras didáticas, a Garnier e a Briguiet, editoras francesas, realizavam a impressão dos livros em Paris e se detinham na publicação de intelectuais já consagrados no meio literário. A distribuição dos livros ficava a encargo das poucas livrarias existentes. Lobato interfere nesses dois setores.

Primeiro, adota um novo critério: deixa de lado a publicação dos ‘medalhões’ e edita obras e autores inéditos: “Creio que a nossa firma soltou toda a produção literária do Brasil que estivera encalhada ou se conservara inédita durante muito tempo. Foi depois da minha ‘ousadia’ que a produção se normalizou e os editores começaram a editar o que ia aparecendo”.118

Ousadia que muitas vezes resultou em encalhe da mercadoria, como a do livro Vida ociosa, de Godofredo Rangel. O público não foi receptivo à obra, contudo o editor em carta ao amigo insistia na publicação do livro de contos Andorinhas, declarando: “não te incomodes com a parte econômica do negócio – se dá ou não dá lucro para casa. É coisa que não tem a mínima importância. O importante é que você vá se imprimindo e imprimindo todo – nem que o editor leve a breca”.119 O depoimento é contraditório, pois, ao mesmo tempo que procura lançar outro livro do mesmo autor como estratégia para desencalhar o primeiro, apresenta-se despreocupado com o lucro e não submetido às exigências mercadológicas.

Obedecendo à produção de mercado, Lobato se vê subordinado, num curto período de tempo, à demanda preexistente e ao consumo previsível do livro didático. Assim escreve ao amigo Rangel, em 1924, sobre a demora da publicação do seu livro: “Teu livro já está impresso e dobrado. Se demora, é porque a proximidade da abertura das aulas põe a mercadoria didática à frente de tudo mais”.120 O depoimento já encontra traços premonitórios em carta de 1923, em que Lobato comunica a opção pelas edições escolares em detrimento das literárias: “O bom negócio é o didático. Todos os editores começam com a literatura geral e por fim se fecham na didática: veja o Alves”.121

Os mecanismos de distribuição do livro e a sua circulação ficavam restritos a poucas livrarias existentes no país, nas duas primeiras décadas deste século. Nesse ponto, Lobato dá uma nova forma ao agir do mercado livreiro – se é que assim se pode chamar essa ínfima circulação –, ao buscar alternativas de escoamento por meio de pontos de vendas com livros consignados. Uma circular, que nas suas palavras “marcou a virada de esquina de nossa cultura”, pipocou pelos recantos do país, oferecendo a mercadoria livro a todos os estabelecimentos comerciais, da quitanda ao açougue. Obrigar o país a ler à força, eis o lema do empreendedor e idealizador Lobato. Assim escreve ao amigo Godofredo Rangel, em 8 de dezembro de 1921: “O nosso sistema não é esperar que o leitor venha. Vamos onde ele está, como o caçador. Perseguimos a caça. Fazemos o livro cair no nariz de todos os possíveis leitores desta terra”.122

Os recursos editoriais adotados por Lobato, no entanto, não foram aceitos com unanimidade pela crítica. O livro de contos Negrinha, por exemplo, em sua primeira edição, recebeu o formato de “um verdadeiro filhote de livro”. O escritor encarava aquela publicação como uma tentativa comercial com o objetivo de possibilitar o barateamento do livro, isto é, “para fazer uma experiência se vale mais a pena lançar ‘livros inteiros’ a 4 mil réis, ou ‘meios livros’ a 2$500. A simples lógica do raciocínio não vale em casos desses; temos de experimentar”.123

Alceu Amoroso Lima, no artigo “Arte e mercantilismo”, de 1921, expõe sua crítica ao livro Negrinha. Sem deixar de reverenciar o estilo do escritor taubateano e o seu “talento literário”, o estudioso questiona o escritor sobre o caráter mercantil do livro, motivado por duas razões: “o fato de seu nome figurar como firma editora e o aspecto material e número de contos de seu recente volume”.124

As duas razões estão entrelaçadas em sua origem, já que, para Alceu Amoroso Lima, o número reduzido de contos publicados, inadmissível para um artista que já conquistou notoriedade, está vinculado aos interesses do editor. E os interesses do artista e do editor, segundo o crítico, nunca podem ser os mesmos. E aconselha:
Coíba-se quanto antes o Sr. Monteiro Lobato de mercantilizar a sua arte, refreando uma pressa inadmissível de publicidade, sem o necessário carinho pela sua obra. Retire o seu nome consagrado de artista da vulgarização editorial, conservando-o apenas, se possível, na direção da melhor revista que possuímos.125
Em 1921, o deus dos inocentes protege a ingenuidade de Lobato, que editara, numa ousada investida editorial, num país de poucos leitores e sem tradição literária voltada para as crianças, uma edição monstro de nada mais, nada menos que 50 mil e 500 exemplares de “narizes a dar com pau”, dos quais 30 mil são adquiridos providencialmente pelo governo do Estado de São Paulo. Se coube ao escritor produzir o texto, coube ao editor buscar estratégias publicitárias que viabilizassem a venda da “avalanche nasal”. Produzido para um público específico – a criança – e com um destino certo – a escola –, o livro trazia no frontispício da primeira edição o registro “literatura escolar”.126 A primeira via de publicidade para incentivar o consumo do livro foi a distribuição gratuita de 500 exemplares às escolas paulistas.

A montagem de uma potente oficina gráfica acabou por levar Lobato à falência, por fatores diversos, entre eles uma terrível seca que assolou São Paulo, pelos idos de 1924, e obrigou ao corte de fornecimento de energia elétrica, deixando debilitado um maquinário movido exclusivamente por ela; a utilização de um motor Diesel foi inválida, já que não havia água para o resfriamento do equipamento. Como se não bastasse, o governo adotou uma nova “orientação financeira”, o que levou Lobato a pedir a falência em 1925. Porém, no mesmo ano, funda, em sociedade com Octalles Marcondes, Ferreira a Companhia Editora Nacional, desligando-se somente em 1930, quando é obrigado a vender suas ações para cobrir dívidas acumuladas, provenientes da perda na bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929.

No setor editorial, bem como em sua função de escritor, Lobato atacava três pontos nevrálgicos enraizados social, cultural e politicamente na história do Brasil, que impossibilitavam a construção de um país leitor. Dois já foram referidos anteriormente: o analfabetismo e o culto à cultura estrangeira. O terceiro diz respeito ao alto custo do livro, provocado pelo preço exorbitante do papel. Para ele, o livro era um dos instrumentos que poderiam tirar os homens e o país da ignorância. Mas como adquirir um livro num país em que ele é considerado um objeto de luxo?

Os questionamentos do editor Lobato sobre o valor do papel, base material do livro, levam-no a persistir, junto aos órgãos governamentais, pelo seu barateamento. Residindo no Rio de Janeiro, Lobato escreve ao presidente Washington Luís, em carta datada de 26 de maio de l926, sobre o alto custo do livro devido às taxas de importação do papel. Para o escritor, livro é sinônimo de cultura e somente a viabilização ao seu acesso pode transformar o povo culturalmente; no entanto, o alto imposto da matéria-prima torna-o um “objeto de luxo”, restrito “às classes ricas”. Por outro lado, a proteção aos editores estrangeiros em detrimento dos nacionais era gritante, já que os livros realizados em Portugal estavam livres de impostos, bem como jornais e revistas que estavam isentos de direitos. “O Brasil convence-se de que há uma conspiração para que ele não aprenda a ler”.127

Onze anos depois (em carta de 5 de dezembro de 1937), Lobato dirige-se ao Dr. Francisco Campos, governador de São Paulo, representante político do Estado Novo, refletindo sobre a nova reforma ortográfica e sua repercussão econômica em relação ao mercado editorial, na medida em que a circulação pelo país de livros com a nova ortografia colocava os do período anterior no encalhe, provocando um prejuízo sem monta no comércio livreiro. Lobato, ao mesmo tempo que elucida o problema, sugere dois caminhos ao governo: “indenizar os editores por meio da compra do estoque didático feito na velha, ou estabelecer prazo, talvez de 2 anos, em que seja facultativo às escolas utilizarem-se desses livros”.128

A questão referente à acentuação, assunto que vai concentrar vários esforços de Lobato durante toda sua vida, é abordada do ponto de vista prático; ele envia um livro infantil de sua autoria “desacentuado”, para análise do político, porque acredita que as crianças não vão sentir as “pulguinhas suprimidas”.

O escritor solicita também a interferência de Francisco Campos nas decisões tomadas sobre as taxas de importação do papel, matéria-base para a confecção do objeto livro. Nesse período, segundo ele, as revistas e jornais, “formas auxiliares da cultura”, receberam isenção nas taxas referentes ao papel importado, enquanto o livro, “forma primacial da cultura”, não foi contemplado.129

Em 1946, então residindo em Buenos Aires, Lobato escreve ao amigo Otaviano Alves de Lima e relata os dois motivos centrais que fazem com que o campo editorial na Argentina se diferencie e leve vantagem ao brasileiro: a isenção de impostos sobre o papel e a existência de mercado exterior para o escoamento da produção literária.130

A materialidade do impresso – primeira cerimônia de apropriação da leitura pelo leitor – foi uma constante preocupação do escritor-editor Lobato.131 Suas reflexões e preocupações abrangem todas as vias de composição tipográfica, do aspecto gráfico ao título da obra. Ao comentar, na Revista do Brasil, em 1919, o livro didático Prossigamos, de Luiz Rubano, avalia como positivas as qualidades estéticas e educativas da obra, apesar da maioria da literatura didática ser um acinte ao leitor. Porém, critica a péssima qualidade do material impresso: “má impressão, mau papel, má distribuição, e sobretudo, horresco[s] referens, desenhos dos menos adequados, se é que a isso possa chamar-se desenhos”. E acrescenta: “Fazer bons livros para crianças é das coisas mais sérias, nas quais é preciso não só trabalhar com inteligência e coração, mas com uma elevada argúcia e cuidado”.132

Adotando uma psicologia comercial na venda dos livros, Lobato interfere na própria feitura, aconselhando ao amigo e escritor Rangel algumas mudanças para tornar a obra mais vendável, pois “tudo que no livro predispõe bem o público ledor e comprador é agradável a Deus”.133 No livro Vida ociosa, por exemplo, sugere que a numeração de capítulos seja substituída por títulos, seguindo a esteira do mestre Machado de Assis, e se oferece para substituí-los. Já o livro As andorinhas fatalmente cairá no gosto do público pelo título convidativo, que “lembra movimento” em oposição a Vida ociosa que “lembra lentidão”.134 Em 1927, critica novamente o título Filha, escolhido por Rangel para seu novo romance. Ilustra com sua experiência editorial a prática freqüente na “velha companhia” de mudar os títulos para torná-los mais comercializáveis: “Punha de preferência um nome feminino, porque, em cheirando a mulher lá dentro, os leitores concupiscentes compram ‘pra ver’”.135

Em carta a Lima Barreto, datada de 23 de novembro de 1919, Lobato aponta a pouca acolhida do público ao livro Vida e obra de M. J. Gonzaga ao título que não era “psicologicamente comercial”. Um bom título chama o público para a compra, explica ainda ao escritor: “Ao ler o título do teu romance toda a gente supõe que é biografia de... um ilustre desconhecido”.136

A publicidade dos livros ora em pequenas notas na imprensa, ora em página inteira divulgando os novos lançamentos, era uma estratégia que começa a ser utilizada por Lobato. O livro torna-se mercadoria anunciável. Em vários momentos de sua correspondência, o autor apregoa os gastos com propagandas na imprensa local. Na primeira edição de Narizinho arrebitado, afirma ter gasto quatro contos num anúncio de página.137

O escritor Lobato, ao produzir seus textos, idealiza-os contemplando os dispositivos tipográficos, como a constante revisão dos textos, adaptando-os conforme lhe parece mais agradáveis ao leitor. Exemplo disso é a edição do livro Reinações de Narizinho, em 1931, que reúne o conjunto de onze histórias publicadas anteriormente de forma individual pelo autor, no período de 1921 a 1930. Um livro de “trezentas páginas em corpo 10 – livro para ler, não para ver, como esses de papel grosso e mais desenhos do que texto”.138

A posição de Lobato parece contraditória, se lembrarmos que a edição do livro A menina do narizinho arrebitado (1920) apresenta exatamente as características criticadas. É claro que não era um livro só para ver, mas inovava exatamente pelo aspecto ilustrativo, ao trazer em sua página de rosto os informes: “Livro de figuras por Monteiro Lobato com desenhos de Voltolino”. A valorização da figura do ilustrador, apresentado ao leitor na página introdutória do livro, destaca o papel importante reservado para esse na confecção do livro.139

Voltolino, Belmonte, Rodolpho, J. U. Campos, Manoel Victor Filho foram alguns dos ilustradores dos livros infantis de Lobato. Apesar de serem artistas reconhecidos por seu exercício, quer seja na caricatura, quer seja na pintura, Lobato não poupava crítica aos seus trabalhos, utilizando a boneca Emília como sua porta-voz “A Emília vive se queixando dos desenhistas, que nunca pintam como ela é”.140

Em 1939 comenta a demora de Belmonte para entregar as ilustrações do livro em que as crianças viajam à Grécia, O minotauro: “Belmonte devia chamar-se Abismo. Um livro a desenhar cai ali e afunda meses. Mas estou a cutucá-lo com o telefone a ver se saem a tempo de eu dar o livro em outubro”.141 Por outro lado, estava sempre atento à futuras colaborações, sendo assim que Rodolpho começou a ilustrar seus livros. Ao receber o livro Diferença dos bichos, de Vicente Guimarães, demonstra o interesse pelo ilustrador: “Quem é esse Rodolfo? Daí mesmo? A influência de J. Carlos é patentíssima, mas é obra de grande talento. Uma pergunta: porque preço fez ele esses desenhos? Quem sabe se poderei encomendar a Rodolfo desenhos para livros meus? Informe-me a respeito”.142

A disposição das ilustrações nas páginas em desacordo com o texto era outro questionamento feito pelo escritor, que pedia ao leitor Alarico Silveira Júnior desculpas pelo acontecido: “O impressor botou o retrato dele logo na segunda página, em vez de botar no ponto em que o meu amigo íntimo aparece na história...”143

A ilustração vai aos poucos assumindo seu papel no mercado editorial. Além dos livros infantis, as capas de toda a produção literária começaram a receber os cuidados necessários. A qualidade do material também foi uma preocupação de Lobato, que, se em determinado momento via-se obrigado a deixar uma publicação com simples brochura, foi devido ao preço da percalina.

Como se observou, Lobato concretizou várias transformações no campo editorial, porém algumas idéias ficaram restritas ao campo ficcional. O livro, como suporte privilegiado da leitura, é metaforizado ao longo da produção lobatiana, adquirindo materialidade incomum e substância rarefeita. Metaforizar o livro para penetrar na misteriosa relação leitor-leitura, eis um dos artífices de Lobato.

Levantamos cinco possibilidades da materialização do livro idealizadas por Lobato, algumas práticas, outras futurísticas, todas, porém, com o reconhecível toque lobatiano: livro-casa, livro-comestível, livro-portátil, livro-fluído e livro-novelo.

A idéia do livro-casa é arquitetada por Lobato no momento em que constrói a base de sua literatura infantil e rememora as suas primeiras leituras. O escritor deseja que os leitores encontrem na leitura o acolhimento de um espaço onde residir é possível, onde o prazer é a obrigação principal. Morar, habitar, viver e conviver com e na leitura: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e n’Os filhos do Capitão Grant”.144

A leitura alimento do espírito, frase desgastada pelo tempo, é reinventada ludicamente através da criação do livro-comestível. Além de matar a fome do espírito, o livro mataria a fome do corpo. A invenção é emilianesca: “O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura; está almoçado ou jantado. Que tal?”145

O livro-portátil, similar do livro-de-bolso, é redimensionado por Lobato em suas viagens de bonde pela cidade do Rio de Janeiro. Considerando o bonde como um promotor de leitura, Lobato sugere a criação de um livro que caiba no bolso do revólver, seja distribuído pelo condutor em troca da passagem e que sua leitura e extensão de páginas acompanhe o percurso da viagem.146

O livro-novelo é tecido com os fios da leitura, cabendo ao leitor puxar os fios para desvendar toda a sua dimensão: “Um livro é uma ponta de fio que diz: ‘aqui parei; toma-me e continua, leitor’.147

À Well Lobato preconiza as novas formas de acesso à leitura e do seu invólucro, prevendo para o futuro, mais especificamente o ano de “2527”, o acesso ao livro-fluído ou em cápsulas. Comprimida em pequenos artefatos, a leitura seria dosada conforme o gosto do leitor:
Já em nosso tempo o álcool, o ópio e outras drogas produzem visões e deliciosos estados d’alma. Indeterminados, porém, sem controle possível. No futuro, não. A seriação das imagens será perfeitamente ordenada pelo jogo dos estímulos. Não se dirá como hoje: li um romance, e sim: cheirei.148
Exercendo a função de intermediário entre aquele que escreve e aquele que lê, Lobato vislumbra a literatura, também, como mercadoria. Levando em conta a sua “ciência editorial” ou “filosofia editorial”,149 não podemos esquecer que todo o seu empenho em conquistar o leitor coincide com suas idéias preconizadas bem antes de penetrar nesse mundo de homem de letras: teclas e linotipos. A profissionalização da escrita almejada na juventude concretiza-se, o livro torna-se mercadoria, e o leitor, seu consumidor. Essa postura chocou seus contemporâneos e, talvez ainda hoje, cause um certo constrangimento para aqueles que acreditam no ofício da escrita como missão redentora de um eleito.

Para Lobato, contudo, não bastavam os apupos e/ou tapinhas nas costas de seus confrades; homem pragmático, persistia na conquista do público leitor, não por vaidade, mas com fins lucrativos: “O aplauso da platéia é o feijão com arroz de todos os dias”.150



2.4 “É hora, gente!” ... Lá vem a história...

À memória da saudosa tia Esméria, e de quanta preta velha nos pôs, em criança, de cabelos arrepiados com histórias de cucas, sacis e lobisomens, tão mais interessantes que as laranchas contadas hoje aos nossos pobres filhos por uma lambisgóia de touca branca numa algaravia teuto-italo-nipônica que o diabo entenda. Vieram estas corujas civilizar-nos: mas que saudades da tia velha que em vez de civilização requentada a 70$000 réis por mês, afora, nos apavorava de graça.151

A dedicatória de Monteiro Lobato em seu livro de estréia O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito152 reflete a sua animosidade contra as influências estrangeiras. Ter como adorno, no jardim, pequenos anões europeus, em detrimento do folclórico Saci, possuía, para o escritor, o mesmo poder de desenraizamento cultural promovido pelas mestres estrangeiras, que começavam a ocupar o espaço das narradoras brasileiras – as negras amas-de-leite, as tias e avós, que transfiguravam por meio de seus relatos as coisas da terra. A reintegração da figura da contadeira de histórias como promotora dos relatos infantis é propiciada por Lobato ao criar a personagem Dona Benta, a matriarca de seu mundo infantil.

O ato de narrar e ouvir histórias por muito tempo ficou sustentado nas bases sólidas da oralidade, em narrativas que circulavam de boca em boca, distantes do material escrito. Com o impulso renovador da imprensa, a leitura propagou-se, sem contudo matar a leitura oral de narrativas entre grupos. Ela tornou-se uma forma de sociabilidade e veio arregimentar as fileira dos muitos modos de difundir a leitura, em especial no século XVIII e XIX.

Lobato introduz, nos seus textos destinados às crianças, o resgate de uma prática atemporal e comum na tradição das narrativas infantis: a figura do contador de histórias e uma prática marcadamente histórica: a troca de experiências leitoras. Tudo nos leva a crer que o autor concedeu à sua narradora ficcional a difícil e dupla tarefa de educar as personagens-leitores e os leitores da ficção para a leitura.

A tematização do ato da leitura, gestos e protocolos, frente ao material impresso, bem como a representação de personagens-leitores na obra infantil de Monteiro Lobato são uma constante e julgamos de grande importância153 para o entendimento da imagem de leitor construída pelo autor: o leitor fictício e o papel do leitor.154

No universo ficcional do Sítio do Picapau Amarelo, Dona Benta exerce a função de mediadora da leitura: a ela cabe “contar” as histórias de modo que as crianças entendam, mesmo quando a opção se faz por livros que não estão originalmente destinados a elas. Exercendo o ofício de narradora, aproxima-se da tradição dos narradores populares; no entanto, seu repertório está fundamentado no material impresso, com direito à apresentação do autor, nacionalidade e características referentes ao objeto livro a ser manuseado, como a ilustração e a formatação.

A competência cultural da “velhinha novidadeira” diz respeito ao livre acesso às informações de sua época: pelo correio, recebe todos os tipos de livros – ciências, arte e literatura; a assinatura de vários jornais lhe permite uma leitura informativa e atual e, através do rádio de ondas curtas, que divide com a vizinhança, mantém-se atualizada. Resta ainda salientar que sua biblioteca particular, cujo acervo ultrapassa duzentos exemplares, tem como característica a multiplicidade de autores e gêneros, o que lhe viabiliza o conhecimento em diversas áreas, entre elas a científica, a filosófica e a literária.

Com mais de sessenta anos de idade, Dona Benta tem uma memória prodigiosa; depois de ler e conhecer bem as histórias, conta-as do seu modo. Mostra-se afinada com a arte de narrar, ao imitar as vozes das personagens, como em O irmão do Pinóquio. Desse modo, familiarizada com a narrativa e o seu vocabulário, está apta a dar respostas aos ouvintes, quando questionada, fato que acontece com freqüência.

A representação do ato de contar histórias exerce nas narrativas de Lobato o papel de motivação e estímulo ao ato de ler, na medida em que os ouvintes são sempre alertados para o valor da leitura da obra de forma integral, mesmo que isso ocorra anos depois, quando forem leitores competentes ou souberem a língua original do texto sugerido. A leitura socializada pelo grupo não exclui, contudo, o seu exercício de forma individualizada, já que as personagens possuem um referencial de leituras individuais e solitárias.

A especificidade do público infantil leva Lobato a traçar um perfil de leituras possíveis e pertinentes ao leitor criança, referendadas ao longo do conjunto de sua obra. Estão incluídos nesse rol livros como: Viagens de Marco Polo; As aventuras de Huck, de Mark Twain; O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas; Moby Dick, de Herman Melville; The Jungle Book, de Rudyard Kipling; Coração, de Edmundo Amicis; A filha das neves, de Jack London. De Júlio Verne são citados os livros A volta ao mundo em oitenta dias, Os filhos do capitão Grant e Da terra à lua. Porém, a restrição etária não inviabiliza a construção de um repertório de livros que poderão ser lidos mais tarde, já “que há uma leitura para cada idade”. O autor elenca, assim, os poetas latinos Horácio e Virgílio; o escritor inglês William Shakespeare; o romance de Flaubert, Salambô e o romance O Nazareno, de Sholem-Asch. À criança resta, segundo Dona Benta, “crescer e aparecer” para fazer a leitura de uma literatura mais complexa,155 enquanto isso a vovó promete apresentar aos netos A fome, de Rodolfo Teófilo, e Os sertões, de Euclides da Cunha.

O convite à leitura de seus próprios livros infantis aparece sistematicamente ao longo de sua produção literária. Um exemplo desse procedimento pode ser encontrado no segundo capítulo da narrativa de Memórias da Emília (1936), quando o Visconde deixa de ser um simples anotador e passa a ocupar dupla função: fazer de conta que Emília está contado e ordenar suas próprias lembranças. Contudo, Emília delimita o andamento da narrativa entre “as coisas que aconteceram no sítio e ainda não estão nos livros”.156 Surge implicitamente a figura do leitor: os leitores das obras de Lobato que já conhecem as aventuras do “pessoalzinho” do Sítio. Àqueles que desconhecem, fica o convite por meio dos títulos que vão sendo nomeados ao longo da narrativa.

O Visconde seleciona a história do anjinho de asa quebrada e tenta dar veracidade às memórias, colocando-se como integrante do episódio vivido. Na qualidade de registro do vivido (aqui o vivido ficcional), o Visconde relata ao leitor a descrição das circunstâncias do fato narrado: “As crianças que leram as Reinações de Narizinho com certeza também leram a Viagem ao Céu, onde vêm contadas as aventuras dos netos de Dona Benta, da Emília e também as minhas no país dos astros”.157

Esse procedimento de autopromoção só não aparece nos livros O saci, As aventuras de Hans Staden e Dom Quixote das crianças, sendo que, no segundo, os netos de Dona Benta, em vários momentos, utilizam-se de fábulas para comparar as atitudes dos indígenas e dos homens brancos, o que pode sugerir uma referência ao livro de fábulas escrito por Lobato. Já em Dom Quixote das crianças, Emília é reconhecida pelas crianças do mundo porque “tudo quanto ela faz aquele sujeito conta nos livros”.158 O que nos leva a concluir que somente no livro O saci Lobato não faz propaganda explicita à sua produção literária.

A valorização do ato de ler ou as calamidades oriundas da ausência de sua prática estão presentes na própria representação das personagens lobatianas. Dona Benta e Tia Nastácia, representantes do mundo adulto, possuem diferenças culturais marcantes com origem em fatores históricos, sociais e econômico. A primeira é representante de uma cultura erudita, conhece várias línguas e apropria-se dos textos na língua original, seja ela o italiano, o inglês ou o francês; leitora experiente e competente, orquestra a cerimônia de apropriação da leitura pelas demais personagens. A segunda é portadora de uma cultura popular e ágrafa, para Tia Nastácia, “o livro não passa duma porção de folhas de papel”;159 nos serões reservados à leitura coletiva, muitas vezes, ela ocupa seu tempo com idas à cozinha.

Narizinho e Pedrinho, crianças entre os sete e dez anos de idade, apesar de não serem apresentadas como leitores fluentes, já possuem um repertório de leituras individuais. Narizinho contempla livros maravilhosos como Alice no País das Maravilhas e Peter Pan; Pedrinho é leitor assíduo dos jornais que circulam no Sítio e possui um repertório de leituras individuais que incluem Carlos Magno e os doze pares de França, Mowgli, o menino-lobo, entre outras histórias que priorizam o espírito de aventura.

A boneca de pano e o sabugo de milho possuem características leitoras bem definidas. Emília adora ouvir e contar histórias, lê jornais e possui uma biblioteca fictícia “feita de pedacinhos de papel de jornal, cortados do tamanho de palhas de cigarro e presos com alinhavo muito mal feito...”,160 porém, acreditava-se mais feliz quando não sabia ler, em especial os jornais: “Depois que aprendi a ler e comecei a ler jornais, comecei a ficar triste. Comecei a ver como é na realidade o mundo. Tanta guerra, tantos crimes, tantas perseguições, tantos desastres, tanta miséria, tanto sofrimento...”.161

O Visconde de Sabugosa, membro da academia de letras, privilegia, na maioria das vezes, leituras técnicas, como tratados de geologia, aritmética e ciências naturais. Seu próprio organismo é formado pelo mundo da leitura: em vez de tripas na barriga tinha “uma maçaroca de letras e sinais algébricos”. O nobre sábio habita entre os livros, numa moradia nada comum:


Dois grossos volumes do dicionário de Morais formavam as paredes. Servia de mesa um livro de capa de couro chamado O Banquete, escrito por um tal Platão que viveu antigamente na Grécia e devia ter sido um grande guloso. A cama era formada por um exemplar da Enciclopédia do Riso e da Galhofa, livro muito antigo e danado para dar sono.162
Até mesmo as personagens animais são contagiadas pelo mundo das letras. Rabicó, o guloso leitão, delicia-se com os livros, principalmente quando eles viram livro comestível numa variedade de sabores de fácil digestão, como em A reforma da Natureza, em que a Ilíada, de Homero e as obras completas de Shakespeare são devoradas pelo glutão. Já Quindim, o rinoceronte que ciceroneia o grupo de picapauzinhos pelo país da gramática, não deixa transparecer a origem dos seus conhecimentos: se fonte de muita leitura ou da refeição indigesta da “Gramática Histórica”, de Eduardo Carlos Pereira.

Em O marquês de Rabicó, originalmente de 1922, Lobato deixa vir à baila o seu intento de valorizar os conhecimentos oriundos da leitura. Dona Benta sabe porque lê. Apesar de não conhecer todos os mares, fez-se leitora e como leitora tem o conhecimento. Diante da afirmativa do Doutor Caramujo, de que no mar havia de tudo, Narizinho diz que sereia não havia, pois assim afirmara Dona Benta e, para testar os conhecimentos advindos da leitura, indaga ao caramujo sobre seu nome científico: “–Não sabe, não é? – continuou Narizinho vitoriosa. Pois fique sabendo que vovó sabe – e até o senhor Visconde, só porque cheirou os livros de vovó, é capaz de saber. Vamos, Visconde!”.163

Os “serões”, denominação para esse momento de troca entre o ouvir e o contar, acontecem como que seguindo um ritual; na maioria das vezes, dá-se no espaço interno da casa – algumas vezes embaixo do pé de jabuticabeira. O horário também segue uma norma: geralmente inicia às 7 horas da noite – após a sessão de audição do rádio de ondas curtas, iniciada às seis –, com término às 9 horas, quando Dona Benta encerra a atividade, alegando o adiantado da hora. Somente a narrativa de Dom Quixote ultrapassa esse horário.

Tia Nastácia cumpre a importante função de acender o lampião e reunir os ouvintes com o inconfundível chamado “É hora, gente!”, que aparece principalmente nas primeiras narrativas. Como cozinheira oficial desse mundo imaginário, ela abastece os serões com bolinhos e pipocas, “coisa que nunca faltou no sítio de Dona Benta”.164

Reunidos os participantes, Dona Benta senta-se em sua velha cadeirinha de pernas serradas, os ouvintes escolhem posições confortáveis e começa a leitura, partilhada de forma coletiva pelo grupo.

Das 23 narrativas de literatura infantil que compõem as obras completas de Monteiro Lobato, gostaríamos de destacar seis, porque incluem aqueles livros em que Lobato se deteve ao ato de “contar histórias”. São elas: O irmão do Pinóquio (1929) e Peter Pan (1930); As aventuras de Hans Staden (1927) e Dom Quixote das Crianças (1936); História do mundo para as crianças (1933) e História das Invenções (1935).

As seis narrativas trazem o discurso de outro autor, recontados por Lobato. Utilizando-se do ofício de Dona Benta e as interpolações de seus ouvintes, ele constrói uma narrativa que ultrapassa a tradução e, ousamos dizer, a adaptação, ao fornecer outras vozes que se interpõem e dialogam com o discurso primeiro, resultando em um outro que já não é mais aquele esperado.

As duas primeiras narrativas dizem respeito a histórias clássicas da literatura infantil: As aventuras de Pinóquio (1833), do escritor italiano Carlo Lorenzini (1826-1890), mais conhecido por Collodi, e Peter Pan and Wendy (1911), do escritor inglês James M. Barrie (1860-1937). Os dois livros chegam no Sítio pelo correio, enviados por um livreiro de São Paulo, do qual Dona Benta é cliente assídua.165 O livro do boneco italiano chega entre as novidades enviadas para suprir o arsenal da contadeira que já estava, de tanto contar histórias, como um bagaço de caju: “A gente espreme e não sai mais nem um pingo”. A história de Peter Pan, contudo, foi especificamente solicitada por Dona Benta, que desconhecia a história inglesa. As duas narrativas estão na língua de origem166 e, por meio desses livros, ela exercita seu ofício principal no sítio do Picapau Amarelo: narrar histórias.

No livro O irmão do Pinóquio, a narrativa tem como fio condutor a leitura da história italiana, porém, ela fica restrita aos três capítulos lidos no primeiro serão. O texto de Lobato centrar-se-á na criação de um irmão para o Pinóquio; surge o boneco João Faz-de-Conta, criado pelas mãos de Tia Nastácia, após ganhar um concurso de desenho com esse fim. Contudo, a leitura da narrativa de Collodi servirá para a apresentação, pela primeira vez na obra infantil de Lobato, dos métodos utilizados por Dona Benta para narrar as histórias de outros autores.

A prática individual e solitária da leitura silenciosa é solicitada por Pedrinho, ao perceber a chegada do livro no Sítio. No entanto, Dona Benta comunica o seu método de ler em capítulos e seus objetivos: “– Alto lá! _ interveio Dona Benta. Quem vai ler o Pinóquio para que todos ouçam, sou eu, e só lerei três capítulos por dia, de modo que o livro dure e nosso prazer se prolongue”.167

Os livros infantis, que circulavam no Brasil daquele período, com seus vocábulos descontextualizados e distantes das vivências dos leitores, fazem com que Dona Benta proceda uma “desopilação” no texto:
A moda de Dona Benta ler era boa. Lia ‘diferente’ dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua do Brasil de hoje.168
Outra característica destacada nesse livro, e que não aparece em outras narrativas, é a fórmula adotada pela narradora de imitar as falas das personagens. O livro de origem italiana recebe uma imitação própria : “Dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia pelo sítio em procura de frangos; e para o Pinóquio inventou uma vozinha de taquara rachada que era direitinho como o boneco devia falar”.169

A curiosidade do pessoalzinho do Sítio em conhecer a história de Peter Pan faz com que Dona Benta o solicite à livraria exatamente com esse fim. Após a leitura atenta do texto, em inglês, ela promete a sua narração ao grupo. No dia seguinte, às 7 horas da noite, Dona Benta entra na sala e é acolhida com alegria pelos ouvintes: “– Viva a vovó – gritaram os meninos. – Viva a história que ela vai contar! – berrou Emília”.170 Sentada em sua cadeirinha, a contadeira começa a mediação da leitura à seleta audiência composta dos netos Pedrinho e Narizinho, da Tia Nastácia e dos bonecos Emília e o Visconde de Sabugosa.

A escolha de uma narrativa moderna, contemporânea às personagens infantis, ganha comentários de Narizinho que, após o primeiro serão, diz considerá-la muito mais interessante que as narrativas tradicionais, exemplificadas pelos contos dos irmãos Grimm, Charles Perrault e Hans Christian Andersen, que possuem uma estrutura fixa e personagens semelhantes. Para a menina: “As histórias modernas variam mais. Esta promete ser muito boa. Peter Pan está com jeito de ser um diabinho levado da breca”.171

Quando Dona Benta descreve os seis meninos que moravam na Terra do Nunca, “a terra onde os meninos não crescem”, refere-se aos gêmeos que, por serem idênticos, eram tratados como um só, Emília utiliza-se da oportunidade para alfinetar os livros tradicionais, dando seguimento à observação feita anteriormente por Narizinho: “– Eu sei – berrou Emília. – Com os livros é assim. Há montes de livros tão iguais que tanto faz a gente pegar num como pegar noutro. A obra é a mesma”.172

A transposição do texto escrito para a oralidade de forma coloquial não inviabiliza a inserção de novos vocábulos. As palavras difíceis e desconhecidas como nursery, estalactites, excêntrico, cinegético, entre outras, são explicadas por Dona Benta. Ao questionamento de Pedrinho sobre a utilização dessas palavras a avó explica:

– Para você perguntar e eu ter ocasião de ensinar uma palavra nova que ninguém aqui sabe. Neste mundo, Pedrinho, precisamos conhecer a linguagem dos pedantes – se não os pedantes nos embrulham. Você já aprendeu o que é cinegético e se em qualquer tempo algum sábio da Grécia quiser tapear você com um cinegético, em vez de abrir a boca, como um bobo, você já pode dar uma risadinha de sabidão.173

Obedecendo a uma regra utilizada em todas as histórias narradas por Dona Benta, os serões são sempre terminados no ponto culminante do enredo. O retardamento de fatos tão esperados provoca reclamações de Pedrinho: “– É sempre assim. As histórias são sempre interrompidas nos pontos mais interessantes. Chega até a ser judiação...”.174

Durante seis serões Dona Benta narra as aventuras do menino que não queria crescer, eterno, mas existente só num determinado momento da vida:

Em que momento?

– No momento em que batemos palma quando alguém nos pergunta se existem fadas.

– E que momento é esse?

– É o momento em que somos do tamanhinho dele. Mas depois a idade vem e nos faz crescer ... e Peter Pan, então, nunca mais nos procura...175



As aventuras Hans Staden e Dom Quixote das crianças são livros extraídos do repertório de leituras do mundo “adulto” e recontados por Lobato à sua maneira. Cumpre a Dona Benta contá-los, também, à sua moda. No entanto, o objetivo dos dois contadores é um só: que as personagens e o leitor criança tenham acesso a leituras mais profundas, mesmo que oralmente. Sem esquecer, contudo, o público leitor – as personagens e os leitores implícitos – a narrativa busca se adequar às suas particularidades, daí as explicações vocabulares, a recomendação de leituras futuras.

Outro fato que liga as duas narrativas é a caracterização de suas personagens: mesmo provinda a primeira de um relato histórico e a segunda de um relato ficcional, ambas as personagens estão imbuídas do espírito aventureiro: o marinheiro viajante e o cavaleiro andante. Por outro lado, o objeto livro está interligado à experiência e ao resultado, favorável ou não, de suas aventuras. Para Hans Staden, “o livro de couro” é o objeto mágico que lhe dá poderes diante da tribo indígena; para Dom Quixote, a leitura de uma centena de livros de cavalaria leva-o a aventuras desmedidas e à loucura.

As aventuras do alemão Hans Staden são narradas em dois serões, o primeiro dentro de casa e o segundo à tarde no pátio, embaixo da jabuticabeira. A referência à história narrada vem destacada fora do texto em forma de cabeçalho: o leitor é informado de que se trata das aventuras de um náufrago alemão em terras brasileiras no ano de 1553 “narradas por Dona Benta aos seus netos Narizinho e Pedrinho”. Porém, ao término da história, Dona Benta conclui de onde havia retirado a narrativa: “Hans regressou à sua pátria, onde escreveu o livro em que conta estas histórias, livro precioso para nós porque foi o primeiro publicado a respeito de coisas do nosso país”.176

Ao longo da narrativa, Narizinho impressiona-se com os conhecimentos da avó, perguntando-lhe a origem de tanto saber e esta credita à leitura os méritos do seu conhecimento:

– Lendo e vivendo, minha filha. Mas o que sei é nada; parece alguma coisa para vocês, crianças que quase nada sabem; mas diante do que sabe um verdadeiro sábio, como aquele Darwin da Viagem ao redor do mundo, que eu quero que vocês leiam, minha ciência é igual a zero.177
A valorização da aquisição de novos vocábulos é destacada na narrativa quando as crianças questionam palavras desconhecidas do seu universo vocabular, como derrota, cruzar e zarpar, palavras consideradas por Pedrinho difíceis e desnecessárias. Contudo, Dona Benta observa ao neto a importância da aprendizagem desses vocábulos: “Há certas expressões que se chamam ‘técnicas’ e que vocês precisam ir aprendendo”.178

Durante os serões, a narradora tenta elucidar a distância temporal dos fatos narrados, fazendo comparações entre o ontem e o hoje, para deixar visíveis as dificuldades dos viajantes marinheiros, tais como a distância do percurso e os meios de comunicação com a terra. Outro fato a ser destacado é o respeito e a valorização da diversidade cultural que desponta a todo momento na narrativa, como a mascação do abati, retratado com interesse por Dona Benta e recebido com asco por Narizinho, que acha nojenta aquela atividade, uma “porcaria”. “ – Para nós – explicou Dona Benta; para nós, que temos outra cultura e modos de ver diferentes. Se você fosse uma indiazinha daqueles tempos havia de achar a coisa mais natural do mundo e não deixaria de comparecer a todas as mascações de abati”.179

No prefácio da segunda edição do livro, Lobato deixa explícita a sua intenção didática ao direcionar o livro para escola, como material de conhecimento histórico, disponível e viável no aprendizado das coisas do Brasil:
(...) ordenamo-la literariamente, com absoluto respeito ao original, de modo que lucrasse em clareza e facilidade de leitura, sem prejuízo do caráter documentativo, uma obra que até nas escolas devia entrar, pois nenhuma daria melhor aos nossos meninos a sensação do Brasil menino.180



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