Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



Baixar 1.11 Mb.
Página4/27
Encontro29.11.2017
Tamanho1.11 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27

Julgamos necessário ressaltar a validade desse pensamento na medida em que a apropriação do fato histórico através do relato vivenciado quebra com a visão didatizada e factualista do ensino da história. Vê-se, assim, que Lobato, bem antes de estudos que contemplam a história das mentalidades, buscou inserir em sua produção, destinada às crianças da década de 20, 30 e 40, uma fonte documental pouco utilizada ainda hoje.

As aventuras de Hans Staden são relatadas de imediato por Dona Benta, o que não acontece com a narrativa de Dom Quixote das crianças, desencadeada pela rebeldia de Emília que, encontrando-se livre da proprietária do Sítio e dos seus netos, resolve incursionar pela estante de livros. Entre tantos livros, chama-lhe a atenção o livro Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes Saavedra e ilustrado por Gustave Doré (Emília tinha predileção por livros de figuras). Após várias peripécias, ela consegue adonar-se do livro que despencara sobre o Visconde.

Emília não se importa com o destino do ilustre Visconde, importa-se sim com os “as” de Saavedra, podando-lhe com o lápis o “a” adicional. A estripulia da boneca, no entanto, garante a leitura do livro por Dona Benta, que se confronta de imediato com a rasura no livro, o que serve para uma reprimenda e orientação sobre os cuidados com o objeto livro:

– Mas você devia respeitar esta edição, que é rara e preciosa. Tenha lá as idéias que quiser, mas acate a propriedade alheia. Esta edição foi feita em Portugal há muitos anos. Nela aparece a obra de Cervantes traduzida pelo famoso Visconde de Castilho e pelo Visconde de Azevedo.181


Quando Dona Benta começa a leitura do livro, as crianças se deparam com uma linguagem rebuscada e de difícil compreensão, porém, ela soluciona o problema de forma harmoniosa, primeiro esclarecendo o valor do estilo e da forma em que a obra foi escrita para, por fim, facilitar a compreensão dos leitores: “Mas como vocês ainda não têm a necessária cultura para compreender as belezas da forma literária, em vez de ler vou contar a história com palavras minhas”.182

Dona Benta vai contando as partes principais da história, quando é interrompida por Pedrinho, que quer saber se a narrativa está “inteira” ou em “pedaços”. Ela observa que está contando somente as principais aventuras de Dom Quixote e seu fiel escudeiro, devido à extensão da narrativa “ – só os adultos, gente de cérebro bem amadurecido, podem ler a obra inteira e alcançar-lhe todas as belezas. Para vocês, miuçalhas, tenho de resumir, contando só o que divirta a imaginação infantil”.183

O resumo da história não inviabiliza a promessa de leitura da obra de forma integral quando os ouvintes estiverem aptos para a mesma: “Um dia quando vocês crescerem e tiverem a inteligência mais aberta pela cultura, havemos de ler a obra inteira nesta tradução dos dois Viscondes, que é ótima”.184

Pedrinho, que não desconhece os livros de cavalaria, por ser leitor da história de Carlos Magno e os doze pares de França, mostra-se capaz de fazer suas próprias leituras e demonstra suas preferências: “eu poderei admirar muito os escritores clássicos; mas, para ler, quero os modernos, como esse tal Machado de Assis que a senhora tanto gaba”.185

A narrativa das aventuras do cavaleiro da triste figura é relatada por Dona Benta em dois serões. O primeiro termina exatamente às 9 horas da noite, como de costume; no segundo, apesar de mandar as crianças para a cama às 9 horas, Dona Benta retoma a história após o renascimento do Visconde de Sabugosa.

Em Dom Quixote das crianças, Lobato problematiza questões que ultrapassam o momento histórico da década de 30, pois são pertinentes ainda hoje, como destaca Marisa Lajolo:


O leitor encontra material bastante rico para reflexões sobre questões de leitura, de leitura dos clássicos, da adequabilidade de certas linguagens a certos públicos, do papel a ser representado pelo adulto responsável pela iniciação dos jovens na leitura e mais miudezas.186
Os livros de cunho estritamente didático também foram alvo de Lobato, que os reorganizou dentro da esfera do Sítio com suas divisões em serões e as introduções e intromissões das personagens. História do mundo para as crianças tem sua origem no livro Child’s History of the World, do americano Virgil Mores Hillyer, e História das invenções, no livro História das invenções do homem: o fazedor de milagres, do americano Hendrick Van Loon. Nas duas narrativas, as interferências de Narizinho e Pedrinho dizem respeito a curiosidades sobre o conteúdo “ministrado” por Dona Benta; Emília, por sua vez, cumpre a função de quebrar a seriedade do relato, soltando volta e meia suas “asneirinhas”.

A distância temporal torna as duas narrativas, em vários pontos, ultrapassadas; o leitor contemporâneo, envolvido por uma parafernália tecnológica com máquinas de última geração, certamente não sentirá a mesma curiosidade e entusiasmo que Narizinho e Pedrinho em relação a descobertas como as da máquina de escrever, o fonógrafo e o cinema falado.

Dos livros infantis escritos por Lobato, História do mundo para as crianças foi o que mais críticas recebeu, principalmente em relação a questões políticas e religiosas. A narrativa que se prolonga durante trinta e quatro serões – os mais longos dos livros de Lobato – foi escolhida por Dona Benta considerar a história do mundo como “um verdadeiro romance que pode muito bem ser contado às crianças. Meninos assim da idade de Pedrinho e Narizinho estou certa de que hão de gostar e aproveitar bastante”.187 Dessa maneira, Lobato mantém-se fiel à sua prática de refletir sobre a especificidade do público, o que o leva à busca constante de narrativas que possam agradar as crianças.

A fragilidade dos limites das fronteiras entre os fatos reais e a ficção é colocada durante a narrativa. Quando Dona Benta expõe as aventuras dos reis metidos nas cruzadas e dos meninos que se reuniam a elas, Narizinho observa:


– Estou vendo, vovó, que não existe nada de mais nos contos de Grimm, Andersen e outros. Que diferença entre a História e os contos de fadas? Aqueles reis, aqueles castelos, aqueles piratas – tudo a mesma coisa. A única diferença é que a História tem coisas ainda mais fantásticas do que os contos de fadas – como essa história dos cruzadinhos, por exemplo...188
Nos esclarecimentos sobre a criação da imprensa por Gutenberg e sua importância, a narrativa desvela problemas relativos ao acesso à leitura e ao objeto livro. O desejo de ler, por si só, não garante a viabilidade do ato:
– O fato de antigamente ninguém saber ler vinha da impossibilidade de haver livros ao alcance da bolsa do povo. Se hoje, por um acaso, os livros subissem de preço, vindo a custar, digamos, dois contos de réis cada um, o povo rapidamente recairia na velha ignorância. Não basta querer ler, é preciso poder ler.

Mas então querer não é poder, vovó? – perguntou Narizinho.

– Nem sempre. Por mais que um pobre diabo queira ir à lua, não fará essa viagem antes que haja uma linha de foguetes da terra à lua. Assim também a humanidade com a leitura. Antes de aparecer a imprensa, isto é, antes de surgir a arte de produzir livros na maior quantidade e a preços baratíssimos, a pobre humanidade não podia ler – e quem não lê não se instrui, fica asno a vida inteira.189
A importância da leitura para a formação integral da criança, fomentando a sua curiosidade e ampliando os seus conhecimentos, é destacada por Lobato. Ele não descarta, porém, o papel do adulto nesse processo, pelo contrário, valoriza-o e delega a esse um papel fundamental como mediador da leitura. Tal fato pode ser ilustrado com a resposta de Dona Benta a Narizinho. A menina que se achava ignorante por desconhecer alguns fatos da história é advertida pela avó: “ – Não é ser boba, minha filha, é não saber. Uma criança não tem culpa de não saber, e para que saiba uma porção de coisas úteis é que as vovós contam estas histórias do mundo”.190

Um fevereiro chuvoso é o convite para que Dona Benta ocupe o tempo das crianças com a História das invenções. O autor americano Hendrick Van Loon é conhecido do pessoalzinho do Sítio, dele Dona Benta já lera um livro sobre “geografia”. Assim, todas as noites às 7 horas, após a audição do rádio de ondas curtas, com irradiação de Pittsburgh, a contadeira dá início à narrativa que ocupará dez serões.

O livro História do Mundo para as crianças tinha, em sua origem, a criança como público alvo, fato que não ocorre no livro História das invenções. Daí a explicação de Dona Benta, no sentido de contá-lo do seu modo peculiar para que os netos entendam: “– Este livro não é para crianças – disse ela – mas se eu ler do meu modo, vocês entenderão tudo. Não tenham receio de me interromperem com perguntas, sempre que houver qualquer coisa obscura (...)”.191

Esse conjunto de narrativas, aqui selecionadas, dá-nos uma pequena amostra do processo de escrita de Monteiro Lobato: um discurso voltado para a especificidade dos leitores crianças, empenhado em conquistá-los para o mundo da leitura. Se a interação com o leitor aparece de forma implícita nesse processo, não se pode dizer o mesmo quando Lobato extrapola o espaço do texto e entra em contato direto com o leitor infantil.




2.5 A biblioteca e a escola: uma relação de camaradagem


No dia em que todas as cidades do Brasil tiverem a sua biblioteca infantil, o Brasil estará salvo de todos os males, porque todos os males do Brasil tem uma causa única: a ignorância dos adultos, justamente porque não lhes foi despertado o amor pela leitura quando eram crianças.192


Monteiro Lobato acreditava que a experiência iniciática da leitura era de fundamental importância na formação da vida leitora do indivíduo. Disseminar o ato de ler e incentivar a leitura recreativa poderia contribuir significativamente para o desenvolvimento intelectual particularizado, bem como para o crescimento cultural da coletividade. Para isso esteve sempre ligado a duas instituições fundamentais no exercício de mediação da leitura: a biblioteca e a escola. Da primeira foi seu porta-voz ao divulgar as vantagens de um espaço específico para as crianças. A segunda, apesar de várias ressalvas, esteve no seu itinerário de conquistas do leitor. O intenso diálogo desenvolvido entre o escritor e seu público leitor foi de certa maneira viabilizado por esses dois instrumentos promotores da leitura.

Com as crianças de São Paulo o convívio é facilitado pelos encontros permanentes entre o escritor e seus leitores na Biblioteca Infantil Municipal, mostrando a sua crença na biblioteca como um dos mediadores privilegiados de leitura. Ousamos dizer que, talvez, Lobato tenha sido a primeira pessoa no Brasil a refletir sobre o espaço físico de uma biblioteca especificamente para crianças193 e, quando ela é criada em São Paulo, um dos seus principais incentivadores.

A biblioteca, como espaço destinado exclusivamente para a leitura e a consulta do público infantil, é algo recente, as primeiras iniciativas datam do final do século XIX. Os Estados Unidos da América, pioneiros nessa especialização, apresentam a primeira sala de leitura para crianças em 1890, na Biblioteca de Brookline, em Massachusetts.194 Em França, a primeira biblioteca infantil, localizada na rua Boutebrie, data de 1924; trazia em sua criação a iniciativa norte-americana – que influenciou a formação dos bibliotecários franceses; igual iniciativa já havia sido tomada em 1920 em Bruxelas. Na década de 30 são criadas em várias bibliotecas francesas seções infantis, seguidas de criações autônomas em alguns municípios.195

Muitas foram as instituições e iniciativas norte-americanas que encantaram Lobato durante o período de quatro anos em que residiu naquele país. Na biblioteca pública de Nova Iorque, o escritor encontrou o modelo privilegiado de contato com o público leitor.

A New York Public Library, já na década de 20, desenvolvia suas atividades fundamentada numa visão urbana de leitura pública, concedendo ao público leitor o livre acesso às estantes, estabelecendo o contato direto do usuário com o objeto livro, que dispunha do empréstimo gratuito. Além do acervo destinado ao grande público, a biblioteca possuía uma seção especializada que contemplava o leitor infantil. Esses dispositivos contribuíam para promover a presença do público leitor.

O espaço exclusivo e próprio às crianças por meio de uma seção especializada, que rompia com a passividade e propiciava dinâmicas de interação do leitor com o objeto livro, foi um dos fatores que fascinaram Lobato:


O prazer das crianças é ali intenso, porque podem mexer à vontade. O ‘não faça isso, não bula nisso’ não existe. Podem tirar das estantes os livros que desejarem, dois, três, quatro ao mesmo tempo, e vê-los, lê-los, cheirá-los quanto quiserem, onde e como quiserem – no chão, como os nossos dois futuros aviadores, nas mesinhas, nas cadeirinhas de balanço. E nem sequer necessitam repô-los no lugar. Nenhuma obrigação ali, além da de se regalarem com a livralhada deliciosa.196
Lobato descreve um local onde os protocolos de leitura se subvertem, não existe posição correta ou postura adequada para o ato de ler. A criança encontra um espaço de livre acesso e contato direto com o livro, podendo exercer a sua curiosidade e liberdade manuseando-o sem a intervenção do adulto. Instala-se uma nova concepção de leitura que privilegia o prazer em detrimento da obrigação.

No artigo “A criança é a humanidade de amanhã,197 Lobato novamente enfoca a Biblioteca Pública de Nova Iorque, detendo-se, agora, nas atividades dos contadores de histórias que, de modo peculiar, propiciam a socialização da leitura entre as crianças:


Há em Nova Iorque uma instituição muito curiosa. Em certo dia da semana, à tarde, na Public Library da 5a Avenida, reúnem-se centenas de crianças para ouvir histórias. Existem contadeiras especializadas, que contam como as crianças querem que contem. A instituição tem dois objetivos – recrear as crianças e estudar-lhes as reações, de modo que tudo quanto ocorre é anotado, classificado e estudado de acordo com um critério inteligentíssimo. As resultantes dessa obra se acham compendiadas num opúsculo que é vendido na Secretaria da Biblioteca. Nele vem o resultado de trinta anos de observação e a classificação por gênero das histórias que mais interessam às crianças.198
A biblioteca perde a aura ritualística de local onde a leitura deve ser austera, privada de prazer. A leitura no espaço coletivo abre a possibilidade da leitura coletiva. Mais do que isso, Lobato acredita que trabalho como aquele, desenvolvido pela Biblioteca de Nova Iorque, contribua para a orientação de novos livros para crianças; livros que satisfaçam em primeiro lugar as “exigências especialíssimas da mentalidade infantil”.199

No Brasil, a primeira biblioteca destinada exclusivamente para crianças foi organizada e inaugurada em 14 de abril de 1936, na cidade de São Paulo, sob a orientação do Departamento Municipal de Cultura, secretariado na época pelo escritor Mário de Andrade. Desde a sua fundação, Lobato vai estar envolvido nos projetos de promoção de leitura desenvolvidos pela Biblioteca Municipal Infantil de São Paulo.200

No ano de inauguração constava de sua programação a “Hora do Conto”, com o objetivo de estimular o gosto pela leitura. Desta programação participaram vários escritores, entre eles Monteiro Lobato e Thales de Andrade. No mesmo ano é criado o jornal A Voz da Infância, desenvolvido inteiramente pelas crianças, que trouxe em seu segundo número uma entrevista exclusiva de Lobato concedida aos meninos Benedito Mendes e Gastão Gorenstein.

Lenyra Fraccaroli, responsável por muitos anos pela Biblioteca Infantil, observa que: “Lobato tinha um verdadeiro xodó pela A Voz da Infância. Lia todos os trabalhos publicados e os comentava com as crianças. Escrevia aos jornalistas-mirins, incentivando-os”.201 Tal depoimento pode ser comprovado em correspondência emitida por Lobato à secretária do jornal, à menina Lígia Busch, em 14 de setembro de 1943. O autor afirma ser aquele “o único jornal decente do país” e o único que tem acesso irrestrito ao Sítio de dona Benta. “Aos jornais grandes eu os leio de nariz torcido e só por alto, mas A Voz da Infância eu leio de fio a pavio e com cara alegre”.202

A peça de teatro Museu da Emília203 foi escrita por Lobato especialmente para ser encenada nas festividades de fim de ano da Biblioteca Infantil, em 21 de dezembro de 1938. Entre o público da platéia estava o escritor que minutos antes havia distribuído prêmios concedidos aos leitores mais assíduos da biblioteca, aos colaboradores do jornal A Voz da Infância, entre outros.

Das muitas visitas freqüentes de Monteiro Lobato à Biblioteca Infantil, uma deu-se em companhia da escritora Lúcia Miguel Pereira, que deixou registrada a recepção dos livros infantis de Lobato através da demonstração de carinho de seus leitores, da algazarra e alarido que as crianças fizeram ao avistarem o seu escritor predileto:


Mal os leitores que se espalhavam pela sala abismados no que liam, avistaram Monteiro Lobato, e logo dezenas de braços o empurraram para um sofá, cruzaram-se palavras de carinho e exclamações de alegria. Sentado, quase à força, foi o escritor crivado de perguntas pela miuçalha que o cercava. Do assento, do encosto, dos braços do sofá, escorriam figuras infantis, verdadeiros cachos de meninos.

Emergindo da onda dos rostos jovens, mais marcada se fazia a fisionomia de Monteiro Lobato; mas nos seus vivos olhos de ave havia o mesmo brilho dos olhos que o miravam, entre admirativos e familiares. E o seu riso adquiria sonoridades inesperadamente frescas. A princípio só os garotos falavam:

– Como é que se vai ao sítio de D. Benta?

– Você já viu mesmo o Saci preso na garrafa?

Para responder, ele foi inventando, ali mesmo, novas aventuras de seus heróis, fazendo pilhérias, lendo nas mãozinhas que se lhe entregavam, confiantes, maravilhosas e futuras proezas; e em breve, apenas a sua voz se ouvia, um pouco velada, não sei se de fadiga ou de emoção. (...)

Tive a impressão de que o consideram coisa sua, participando da natureza dos brinquedos e das avós contadeiras de histórias. Para ficar-lhe dentro dos livros, pode-se dizer, que representa, para seus leitores, um misto de D. Benta e dos bonecos humanizados que criou”.204


Em 14 de julho de 1943 é criado, nas dependências da Biblioteca Infantil, o “Grêmio Cultural Juvenil Monteiro Lobato” que tinha o escritor como patrono. Na ata inaugural, juntamente com a assinatura da bibliotecária-chefe (Lenyra Fraccaroli), do Presidente do Grêmio Jacques Zveibil, da diretora social Dulce C. Fraccaroli, do diretor cultural Francisco Reinaldo Arruda Camargo e do secretário Bento Carlos Botelho, consta a assinatura de Monteiro Lobato, presente no ato.205

A mudança provisória, em 15 de março de 1945, da Biblioteca Infantil, da rua Major Sertório para outro prédio na rua General Jardim, contou com a inauguração de um busto em homenagem a Monteiro Lobato;206 estavam presentes à inauguração Francisco Pati, diretor do Departamento de Cultura, Sérgio Milliet, diretor da Biblioteca Municipal, os escritores Tales de Andrade, Murilo Mendes e Monteiro Lobato, entre outras autoridades. Na ocasião, o menino Artur de Moraes César, diretor do jornal A Voz da Infância, proferiu um discurso em nome dos leitores e usuários da Biblioteca. Logo depois, Lobato leu um diálogo pontuado pelas vozes de Dona Benta e Narizinho. Por mais longo que possa ser, achamos por bem reproduzi-lo para dar uma noção do quanto Lobato acreditava na necessidade desse espaço para a formação das crianças:


(...) – Mas onde está essa biblioteca, vovó? perguntou Narizinho.

Dona Benta suspirou.

– Ah, minha filha, essas bibliotecas enormes como a que vimos em Nova York, com milhões de livros, infelizmente estão muito longe daqui, nas grandes capitais do mundo. Por aqui o que temos é a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, com uns 400 mil volumes, a maior das nossas. O resto são bibliotecas-pintos, como a de S. Paulo, que não tem mais de 130 mil volumes.

– Mas por que é assim, vovó?

– Por uma razão muito simples: como as crianças deste país nunca tiveram livros para ler, iam virando adultos sem vontade de ler, porque isso de ler é um vício que a gente adquire em criança. Ora, sendo o Brasil um país de adultos sem vontade de ler, para que biblioteca? Nada mais claro...

– E por que não davam livros para as crianças? insistiu Narizinho.

– Porque o costume aqui sempre foi dar muito pouca atenção a esses bichinhos chamados crianças. Esquecem que as crianças são o futuro da raça – o palito da palmeira, como diz a Emília, o broto da árvore da raça. Outro dia o médico Maurício de Medeiros publicou um artigo na Gazeta contando que nos arredores do Rio de Janeiro, morrem 80 crianças em cada 100 que nascem. Ora, se nem da vida das crianças os nossos adultos sabem cuidar, quanto mais da cultura!207
Lobato continua seu discurso fazendo um breve histórico da Biblioteca Infantil de São Paulo e destaca a criação da Biblioteca Infantil de Taubaté:208
– Agora já há uma segunda em Taubaté, denominada poeticamente Sítio do Picapau Amarelo. Lembra alguma coisa deste nosso sítio. Em vez de porta para a rua, tem uma porteira – a porteira do meu sítio; e vão botar lá aquele casebre cupim do pasto; depois vem um jardinzinho de flores de dantes – esporinhas, damas – entre-verdes, perpétuas, sempre-vivas. Isso, fora. Dentro há redes nos cantos à disposição das crianças, e cadeirinhas de balanço, e mesas baixinhas, e esteiras pelo chão para as que gostam de ler deitadas de barriga para baixo. As crianças ficam ali como em suas próprias casas, sem o enjoado ‘não pode!’ dos adultos a lhes estragar a vida. Lêem o que querem, como querem. Esse Sítio do Picapau de Taubaté ainda não está oficialmente inaugurado. Não está acabada, embora já esteja aberto às crianças. Falta a decoração das paredes, que vai ser feita, sabe como? Com desenhos das próprias crianças!209
A biblioteca infantil de Taubaté, minuciosamente descrita por Lobato, propicia ao leitor um mobiliário adequado e um ambiente prazeroso. O livro e a leitura convivem numa relação íntima e afetiva com o local onde a leitura se efetiva. O último questionamento de Narizinho e a resposta de Dona Benta deixam-nos ver o quanto Lobato acreditava na biblioteca enquanto mediadora da leitura, mais até que o espaço escolar:
– Mas, vovó, o gosto pela leitura não vem na escola?

– Ah, não, minha filha. Os livros escolares são em geral tão sem graça com suas estopadas instrutivas, morais e cívicas, que as crianças saem da escola com horror do papel impresso, absolutamente convencidas de que todos os livros são maçadores. É justamente nas bibliotecas infantis, livremente organizada[s], que as crianças tomam gosto pela leitura ou se libertam do horror ao papel impresso que adquirem nas escolas.210


Apesar das palavras desanimadoras de Lobato quanto à difusão do livro no espaço escolar, ele, à sua maneira, contribuiu para que esse contato fosse menos penoso. Muitas foram as cartas de grêmios literários, clubes de leitura, bibliotecas escolares e bibliotecas de classes, todas vinculadas ao espaço escolar, que solicitavam a presença de Lobato como patrono. E, percebe-se, pelas correspondências, que a todos os pedidos o escritor dedicava atenção com remessa de fotografias, livros autografados e cartas atenciosas.211

Até a metade da década de 30 o contato de Monteiro Lobato com o público leitor de sua produção infantil restringe-se ao estreito círculo de parentesco e amizades. Podemos afirmar que esse fato deve-se a dois motivos: primeiro, o autor esteve afastado do Brasil durante quatro anos, o que inviabilizava o estreitamento pessoal com os leitores; o segundo motivo deve-se, talvez, ao seu desconhecimento quanto à abrangência e receptividade de seus livros junto as crianças.

Em campanha pelo petróleo, Lobato percorreu várias cidades do país propagando as idéias de desenvolvimento econômico que resultaria da extração nacional do ouro negro. No entanto, o escritor, ao mesmo tempo em que divulgava as idéias “petrolíferas”, iniciava, talvez sem perceber, uma campanha de divulgação de seus livros. Ousamos dizer que antecipava, à sua maneira, uma atividade tão em voga pelos escritores contemporâneos, em particular, os infantis e juvenis: “o escritor vai à escola”, “o autor na sala de aula”.

Em 1o de setembro de 1937, após passar por Belo Horizonte, Lobato escreve a Vicente Guimarães, solicitando informações sobre uma leitora que havia participado nas atividades do Ginásio Mineiro: “Guardei o nome das que tomaram parte ativa na festa, mas escapou-me essa menina, que é um encanto. A segunda, lembra-se? Uma de óculos”. O pedido ilustra, de certa forma, como o escritor se interessava por seus leitores, procurando-os, em especial aqueles que lhe chamavam a atenção. Na mesma carta ao colega mineiro, Lobato descreve o quanto se emocionou com a recepção do seu público leitor:


Continuo envergonhado com o meu papelão no Ginásio. Aquela choradeira. Que raiva! Não nasci para essas coisas públicas. Vou voltar à minha vida de misantropo, de bicho de concha. Chorar! Que vergonha! Que idéia os mineiros não ficariam fazendo de mim? Um petroleiro que chora... 212
Porém, nem todos os contatos travados nessa cidade mineira foram facilitados pelos leitores infantis. As crianças acreditavam na existência das personagens lobatianas, mas custavam a crer que o seu criador pudesse estar tão próximo deles, visível entre as coisas vistas e tocadas, motivo que os deixa, à primeira vista, descrentes quanto à real presença e identidade daquele homem que os visitava. Emílio Moura, o cicerone de Lobato nas escolas, insistia com a gurizada sobre a veracidade e importância da presença do escritor, quando, incrédulo, ouviu a resposta de uma das crianças: “Então o senhor pensa que nós acreditamos? O homem que escreveu Narizinho não pode estar aqui!”

Sobre tal episódio, Cavalheiro se posiciona observando que: “Tal era a magia ao redor das histórias infantis que a idéia de um homem de carne e osso, sobrancelhudo e triste como Lobato, ser o autor, e além disso estar ali, ao alcance de todos, não tinha realidade”.213

Lobato comunica, em carta datada de 20 de outubro de 1943, à senhorita Eoys Black – natural de Campinas, São Paulo, que estava lecionando em Quatá, Goiás – ter recebido várias cartas de alunos daquela cidade e acredita ser a professora a “tramadora” do gesto. Algumas dessas cartas eram remetidas por alunos de uma escola particular denominada “Monteiro Lobato”; a esse fato Lobato adverte:
Inscrevo na minha lista mais a Escola Monteiro Lobato daí – e sabe, amiga, que já deve haver mais de cem? Estou virando ‘nome bom para batizar escola’– como os nomes daqueles generais da Guerra do Paraguai ficaram ótimos para denominar ruas e praças. (...) E se vocês me fazem do nome um ‘denominador’ de escolas, eu tenho de lamber as unhas, porque uma escola é mais que uma rua.214
Residindo em Buenos Aires – desde 6 de junho de 1946 – escreve à Gulnara, em 7 de setembro de 1946, comentando a receptividade de suas obras naquele país. Naquele mesmo mês ocorrerá uma “Semana Monteiro Lobato”, com a apresentação de todos os seus livros, que se repetirá antes do Natal. De 20 de outubro a 20 de novembro seus livros em português e as traduções em espanhol e italiano também estarão presentes na Exposição do Livro Brasileiro, promovida pela embaixada brasileira. O escritor não pode queixar-se do seu sucesso naquele país, como comprovam suas palavras: “Quer dizer que teu tio Juca entrou com o pé direito e vai indo muito bem”.215

Edgar Cavalheiro comenta o contato de Lobato com os leitores argentinos, o “encantamento” que se torna aquele período em Buenos Aires. O escritor visita escolas, grêmios literários e é saudado pela imprensa que comenta a sua popularidade entre as crianças daquele país:


O escritor transforma-se numa espécie de embaixador das crianças brasileiras junto à meninada argentina. (...). Faz visitas às escolas, recebe comissão de crianças ansiosas por conhecerem de perto o ‘pai’ da Emília e de Narizinho, e, entre festas e afagos da petizada, passa dias inesquecíveis.216
Em 29 de junho de 1948, poucos dias antes de seu falecimento, Lobato compareceu ao Parque Infantil da Barra Funda para assistir a teatralização do “Jeca Tatu”. A criançada cercou o escritor envolvendo-o em “vivas” de alegrias para as quais ele respondeu: “Vocês são crianças fortes, por isso dão tantos vivas. Estou muito doente senão eu é que daria ‘vivas a vocês’”.217

O menino Joel Nascimento Pereira, de onze anos de idade, que interpretara o Visconde de Sabugosa na festa do Parque, confessa que, apesar da doença, Lobato apresentara-se alegre às comemorações e afirma: “Tenho uma lembrança de Monteiro Lobato: escrevia histórias bonitas”.218

A fotografia junto com seu público leitor, as crianças que tanto participavam de sua vida, foi provavelmente a última tirada pelo escritor em vida. Edgard Cavalheiro recorda a comparação do escritor que, melancólico, fala sobre esse carinho com e das crianças e o tempo perdido direcionado aos adultos, dizendo sentir-se como uma “velha árvore à sombra da qual, à tarde, os passarinhos vêm cantar”.219

Todos os caminhos trilhados por Lobato, quer seja na construção de sua literatura, quer seja no exercício editorial ou no seu engajamento junto à instituições fomentadoras de leitura – biblioteca e escola, levam à leitura, ou melhor, a uma concepção de leitura e a uma imagem de leitor que, por vezes, entra em choque com o tratamento institucional a eles despendidos.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   27


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal