Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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CAPÍTULO 3

ENTRE APUPOS E TAPINHAS NAS COSTAS:

A RECEPÇÃO CRÍTICA

3.1 Caça às bruxas: Lobato na mira da censura


Há no mundo o ódio à exceção – e ser si mesmo é ser exceção. Ser exceção e defendê-la contra todos os assaltos da uniformização: isto me parece a grande coisa.220

A apreciação crítica dos livros infantis de Monteiro Lobato não conta com um conjunto coeso e unânime de opiniões. O consenso, quer seja negativo, quer seja positivo, em relação à sua obra, ao que nos parece, nunca se enraizou. Acolhido como o pai da literatura infantil brasileira, é, ao mesmo tempo, recolhido das bibliotecas públicas e escolas católicas, nas décadas de 30 e 40.

Os discursos das autoridades eclesiásticas e governamentais não divergem da opinião de alguns críticos leigos do período. Porém, enquanto a crítica mediava a leitura com opiniões contrárias ou favoráveis sobre determinado livro, a Igreja e o Estado exerciam o seu poder inviabilizando-a de forma concreta. Focalizaremos primeiramente o discurso da Igreja e do Estado, que se detêm a hostilizar a obra lobatiana por fatores diversos do estético.

Para as autoridades clericais, Lobato é considerado perigoso e a leitura de seus livros infantis, condenável e nociva à formação cristã da criança católica. O escritor é acusado de produzir um discurso anticlerical e amoral, além de propagar idéias permissivas e divulgar exemplos de maus costumes, através de suas personagens. Contudo, esse aspecto está estreitamente entrelaçado com o político, à medida que sua postura ideológica (materialista dogmático e dialético), segundo os censores católicos, vai contra a ordem estabelecida.

A ordem, politicamente estabelecida, não vê com bons olhos a empreitada de Lobato em prol do petróleo brasileiro, através da criação da Companhia Petróleo do Brasil e de suas viagens por vários recantos do país, apregoando o seu crescimento econômico propiciado pela extração do ouro negro. Para agravar a situação, em 1936, Lobato publica o livro O escândalo do petróleo, denunciando as atitudes tomadas pelo poder para invalidar o progresso do Brasil.

A instituição do regime ditatorial de Getúlio Vargas, em 1937, por meio de um golpe militar, coloca sobre o país uma mordaça na liberdade política. Nesse período, intensifica-se a perseguição a Lobato, principalmente após a sua recusa em ocupar o cargo de diretor do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – ironicamente o órgão censor do período –, oferecido pelo presidente Getúlio Vargas. Nesse mesmo ano, O escândalo do petróleo é proibido de circular e recolhido das livrarias e bibliotecas públicas. Esses fatos culminam com sua prisão, por três meses,221 no ano de 1941. Lobato comemora a passagem dos seus 59 anos de idade atrás das grades do Estado Novo.

Faz-se necessário abrir um parêntese para considerar as reformas educacionais ocorridas na década de 30 e que vão entrar em choque com as idéias dos católicos conservadores, fazendo com que a Igreja saía à luta pela manutenção de seu poder. Getúlio Vargas, ao assumir o governo do país, em 1930, cria o Ministério da Educação e Saúde Pública e aproveita as idéias educacionais dos escolanovistas que, no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, apregoam o direito de todos à educação pública, fundamentados em quatro princípios básicos: gratuidade, obrigatoriedade, laicidade e co-educação.

O ensino privado, em sua maioria regido por religiosos católicos, desaprova de imediato as possíveis mudanças que poderiam ocorrer através dessa renovação educacional. Segundo Paulo Ghiraldelli Jr., Tristão de Athayde, na época porta-voz da posição católica e secretário da Liga Eleitoral Católica, “tratou de dar combate impiedoso aos liberais, escrevendo que o ‘Manifesto’, ao consagrar a escola pública obrigatória, gratuita e laica, retirava a educação das mãos da família e destruía assim os princípios de liberdade de ensino”.222

A acusação tomou rumos mais drásticos e os escolanovistas foram acusados de materialistas e comunistas. Eis o nosso ponto de ligação com Lobato. O escritor não era um educador, nem tão pouco se dizia um escolanovista, mas, sem dúvida, suas idéias de educação não estavam dissonantes dos ideais desses. Lobato era amigo de Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo e compartilhava das opiniões de ambos, no que diz respeito ao rompimento com a escola tradicional e a busca de um novo tratamento à infância.



Ao travar conhecimento com Anísio Teixeira, em Nova Iorque, no final da década de 20, Lobato procurou, de imediato, mantê-lo em contato com Fernando de Azevedo que, no período, era responsável pela direção do ensino no Distrito Federal.223 Efetivado o encontro dos dois educadores, Lobato, ainda em solo norte-americano, compraz-se com Anísio Teixeira e observa: “Quanto mais a fundo o conheceres, mais me agradecerás o ter-te revelado esse admirável irmão da grande irmandade. Prevejo que do encontro de ambos bons frutos hão de surgir”.224

Envolvido pelo sonho de grandeza econômica proveniente do petróleo, Lobato escreve a Anísio Teixeira, provavelmente na década de 30, contemplando em suas realizações futuras um novo aparelho educativo com o educador no comando: “Um gânglio novo, libérrimo, autonomíssimo, fora do governo, da religião, de tudo quanto restringe e peia”.225

Paradoxalmente, “os pioneiros da Educação Nova” e o escritor estiveram ligados ao governo getulista nos seus primeiros anos: os dois educadores à frente de cargos de destaque na educação estatal e Lobato através de negociações com o auxílio público para a extração do petróleo. Porém, as reformulações do governo getulista, a partir de 34, e a institucionalização do regime ditatorial reavivam a fogueira medieval e trazem às ruas uma verdadeira caça às bruxas.

A Igreja, com o poder sobre as instituições educacionais católicas, e o Estado, sobre as instituições públicas, movidos por questões de ordem religiosa e política, aplicaram severas retaliações aos livros infantis de Monteiro Lobato, colocando-os como livros indesejáveis e desaconselháveis para as crianças católicas e brasileiras.


Através de boletins e semanário das associações e ligas católicas, a Igreja se manifestou e fez acirrada campanha contra os livros infantis de Monteiro Lobato. O Sino de São João, semanário da Freguesia de São José, de Belo Horizonte, adverte através de suas páginas os leitores: “CUIDADO! Tornamos a avisar a todos que o livro História do Mundo para as crianças é péssimo e não pode ser lido por ninguém”.226 Em um dos seus boletins, A Liga Universitária Católica Feminina227 analisa, sob o ponto de vista moral, todos os títulos da literatura infantil de Monteiro Lobato, aferindo a cada um reservas quanto à sua leitura.

A União, semanário católico do Rio de Janeiro, provavelmente para fomentar a discussão dos professores católicos no âmbito do Distrito Federal, traz, em sua edição de 11 de outubro de 1936, transcrição de documento da Associação de Professores Católicos de Diamantina, que solicita ao Arcebispo D. Serafim Gomes Jardim a proibição, naquela arquidiocese, da leitura dos livros infantis de Monteiro Lobato, especialmente Geografia de Dona Benta, História do Mundo para as crianças e História das invenções, por carregarem em suas páginas “uma orientação que absolutamente não satisfaz à consciência cristã da juventude brasileira”.228

O documento assinado pelo presidente da Associação, padre Antônio Cecílio, e o assistente eclesiástico, padre José Avelar, destaca os motivos para tal reprimenda, deixando clara a transposição do teor pedagógico em razão do aspecto político-religioso:


Além dos defeitos de pedagogia, que assinalaram os entendidos e que não são propriamente da nossa competência, sobretudo a freqüência de palavras e expressões chulas (como: o Raio do governo, etc.) tais livros são eivados do começo ao fim do materialismo mais crasso e o que é para lastimar são destinados as criancinhas, incapazes ainda de defender a sua fé.229
O “incompetente”, no aspecto pedagógico, presidente da Associação de Professores ilustra com fartos exemplos, extraídos dos livros infantis de Lobato, o motivo das acusações feitas. A resposta, fundamentada no Código de Direito Canônico,230 do arcebispo de Diamantina, D. Serafim Gomes Jardim, em 26 de setembro de 1936, foi a aprovação irrestrita do pedido que colaborava “para a retirada das mãos das crianças de livros tão perniciosos”.231

O semanário carioca transcreve o cânon 399 do Código de Direito Canônico que corrobora o pedido dos Professores Católicos da cidade mineira e o pronto atendimento do chefe eclesiástico:


São proibidos pelo direito mesmo: 2o Os livros de quaisquer escritores, defendendo a heresia ou cisma, ou que de qualquer modo procuram destruir os fundamentos da religião. 3o Os livros que de propósito atacam a religião ou os bons costumes.232
Ainda são transcritos os termos canônicos no que se refere à prévia censura dos livros e suas proibições pela Igreja Católica Apostólica Romana:
1o A proibição dos livros faz com que um livro (proibido) não possa sem a devida licença de nenhum modo, nem ser guardado, nem ser publicado, nem ser lido, nem vendido, nem traduzido, nem passado a outros.

2o Um livro proibido, de qualquer modo que seja, não pode ser reimpresso, a não ser que, feitas as correções, aquele que o proibir dê licença.233


A igreja católica manteve, de 1571 a 1917, o Index Librorium Prohibitorium sob a responsabilidade da Congregação do Index e, depois, do Santo Ofício, até a sua extinção através de uma notificação em 14 de junho de 1966. O índice de livros proibidos, segundo a Congregação para a Doutrina da Fé, já não possuía validade de lei eclesiástica, mas apenas valor moral. Assim, o Código promulgado em 1983, no que se ocupa dos meios de comunicação social, com ênfase especial nos livros, refere-se à aprovação e reprovação, e não à proibição de livros.

Como o nosso relato se atém à década de 30 e 40, percebe-se que nesse momento a Igreja Católica ainda exerce uma liberdade vigiada em relação à leitura de seus fiéis. Dessa maneira, o exemplo da Associação dos Professores Católicos de Diamantina e a lembrança do Direito Canônico por uma diocese do interior refletiram na atuação dos professores católicos do Rio de Janeiro, capital do País. Em 1942, o pátio do colégio Sacré Coeur de Jesus, que funcionava em Laranjeiras, em forma de externato, foi palco de um processo inquisitorial, sem direito a confissões de culpa, que culminou numa fogueira improvisada do réu: Lobato e seus livros infantis.

Seguindo os preceitos canônicos, a freira mestre do colégio carioca solicitou aos seus alunos, sem maiores explicações, a presença dos livros de Lobato. E, de acordo com o depoimento de Raul de Lima, “reunidos os volumes, a Revma. Irmã e educadora fez uma fogueira, com alguns paus de bambu, e queimou-os todos”.234 Gilberto Mansur, em depoimento a Whitaker Penteado, relembra a sua experiência inquisitorial na infância, na cidade de São João del Rei, onde perdeu “uma preciosa coleção de Os doze trabalhos de Hércules”.235

O auto-de-fé contra a literatura infantil de Lobato e a sua pessoa, apregoado pela Igreja Católica, encontrou adeptos até mesmo na cidade natal do escritor – Taubaté. O nome daquele que um dia fora recebido com fogos de artifício e banda de música, ao trazer o anel de doutor estampado no dedo, foi impedido de circular até mesmo como tema de conferência, na década de 30. Tristão de Athayde, que era o conferencista, relata a inesperada visita no hotel, antes do evento, de um emissário da Ação Católica, que vinha lhe advertir sobre o “escândalo” que o fato poderia causar: “Tal era o preconceito, inclusive local, sobre suas idéias e até mesmo sobre sua coragem de revolucionar os clássicos preceitos da literatura infantil convencional”.236

O depoimento do crítico é bem posterior aos fatos narrados, o que nos leva a crer num distanciamento de olhar da sua própria postura que comungava com as idéias dos conservadores católicos. E, diante dos seus pares, provavelmente, acatou o pedido sem as ressalvas descritas.

O depoimento do Senhor Renato Betti, pai de Flávio – leitor de Lobato, dá conta do desenvolvimento mental do menino propiciado pela leitura das aventuras das personagens do Sítio. O encantamento pelas histórias lidas em voz alta pela irmã levaram-no à alfabetização precoce aos quatro anos de idade. O pai relembra o empenho de um padre em alertar para a influência malévola da leitura dos livros de Lobato: autor materialista e que não fazia referência à obra de Deus.

O pai católico conta que, juntamente com sua esposa, releu toda a coleção dos livros de Lobato “para ver se não havia passado desapercebidas idéias e sugestões que pudessem influir negativamente na formação moral e intelectual das crianças”. O casal diz não ter encontrado nenhum motivo que invalidasse o conjunto dos livros de Lobato, embora seus livros não exaltem o poder de Deus: “(...) Deixam as crianças mentalmente sadias e as fazem raciocinar, imaginar e criar são exatamente a espécie de livros que precisamos para ajudar a educação de nossos filhos”. 237

A proibição dos livros de Lobato não ficou circunscrita somente aos colégios católicos. As escolas públicas também atuaram de forma severa em relação aos seus livros infantis, chegando a queimá-los. É o próprio Lobato que se refere ao fato, em carta de 18 de novembro de 1944, quando foi interpelado por três meninas (Nilda, Margarida e Rute), alunas de escola pública do Distrito Federal, que solicitavam auxílio econômico para a aquisição de um gabinete dentário. O escritor responde com mágoa e ressentimento ao pedido de “esmolas para cuidar dos dentes” feito pelas meninas e diz não se admirar da administração municipal, “porque uma prefeitura que chegou ao ponto de mandar retirar das bibliotecas das suas escolas os meus livros infantis e queimou-os é naturalíssimo que não pense nos dentes das crianças”.

É claro que o tom mordaz e ferino dirigia-se aos adultos, no caso os professores do estabelecimento escolar, que fatalmente leriam a carta. O escritor atenua o seu discurso, convidando as meninas para brincarem no Sítio: “O Quindim virou dentista e bom dentista. Ele trata dos dentes de vocês todas, de graça...”238

Em carta a Vicente Guimarães (s.d.), Lobato acusa e agradece o recebimento do livro infantil do escritor mineiro. Faz críticas positivas ao estilo de Vicente Guimarães, achando apenas que ele ainda não encontrara uma total independência para escrever só o que quisesse. Ele acredita-se independente, livre das amarras com o poder e, por isso, alvo de ataques contra a sua pessoa e os seus livros. Novamente entra em destaque em seu discurso a queima dos seus livros infantis nas escolas do Rio de Janeiro: “Dois meses atrás todos os meus livros foram retirados das bibliotecas escolares do Distrito Federal e queimados nas fornadas da Caixa de Amortização. Imagine que desastre: o Quindim torrado, o Rabicó assado, a Emília, a Nastácia, Dona Benta, reduzidos a cinzas...Gente cruel, não?”239

A professora Elze Machado, que exercia atividade de direção de auditório e biblioteca nas escolas experimentais do Distrito Federal, depõe sobre sua experiência positiva com os livros infantis de Lobato. As atividades oferecidas às crianças como: composições, exercícios de aritmética, dramatizações, leituras em voz baixa e alta e desenhos com os livros do escritor eram bem aceitas pela criançada. No entanto, esses mesmos livros foram repentinamente retirados das escolas e bibliotecas:
O mandato estalou nos arraiais do magistério primário. A prudência aconselhou silêncio, houve apressado jogo de esconde-esconde e os livros desapareceram de fato. As alegações explicativas da súbita retirada foram: temas de excessivo regionalismo, críticas desairosas ao Brasil e autor acusado de filiação à doutrina comunista.240
A campanha contra a permanência dos livros infantis de Lobato nas escolas públicas se faz representativa no ofício, datado de 13 de novembro de 1939, da Chefia do Serviço das Instituições Auxiliares da Escola do Departamento de Educação, Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública do Estado de São Paulo, representada por Máximo Moura Santos, que informa aos diretores da Companhia Editora Nacional a impossibilidade de adoção do livro Emília no País da Gramática nos estabelecimentos escolares de São Paulo.

Através desse ofício fica-se sabendo que existia uma comissão responsável em examinar e selecionar as obras a serem utilizadas para o uso escolar e a mesma orientava quais os trechos que desqualificavam a obra. À editora restava, caso aceitasse, reformular o livro, seguindo as sugestões da comissão ou vê-lo fora das bibliotecas escolares:


Esta chefia, que subscreve os termos do referido parecer, não poderá opinar favoravelmente à autorização para que o livro em apreço possa constar em bibliotecas escolares enquanto nas edições persistirem os trechos ou palavras apontadas pela comissão.241
No mesmo ano, Lobato comenta, em carta a Fausto Alvim, estar recebendo seus “castigozinhos”. O Ministério da Justiça negara-lhe a autorização para a publicação de uma revista infantil, denominada O Sítio de Dona Benta.242 O livro Peter Pan, adaptado por Lobato dentro de sua linha de introduzir o pessoalzinho do Sítio em narrativas clássicas, também foi alvo, em 1941, de perseguição das autoridades de São Paulo, que viam nele mais um ato de subversão do escritor que inculcava na mente das crianças brasileiras idéias contrárias ao nacionalismo.243 Assim, os livros foram cassados pela polícia, com objetivo de serem recolhidos e destruídos, por ordem do presidente do Tribunal de Segurança Nacional, ministro Barros Barreto. O ministro agia sob a influência do parecer do procurador Clóvis Kruel de Morais, para quem a literatura de Lobato levava a “doutrinas perigosas e práticas deformadoras”. Se as suas atividades petrolíferas eram um ataque à economia nacional, a sua atividade literária tornava-se um atentado à defesa nacional: “Seria bom, pois, que, a par da interdição das atividades petrolíferas do homem do Jeca Tatu, se proibisse a circulação dos livros destinados à infância”.244

A imprensa leiga do Rio de Janeiro também fez ataques aos livros infantis de Lobato. O jornal Diário da Noite, em 13 de março de 1936, traz em suas páginas o artigo “O Brasil insultado por brasileiros”, onde é tecida uma ferrenha critica às idéias transmitidas por Dona Benta e, conseqüentemente a seu criador, no livro Geografia de Dona Benta. Lobato é acusado, entre outras coisas, de incutir na mente das crianças idéias de cunho separatista, contribuindo para o envenenamento de almas ingênuas.

À Companhia Editora Nacional245 são direcionadas acusações de cumplicidade ao publicar, numa coleção denominada “Biblioteca Pedagógica Escolar”, livro de caráter antinacionalista e separatista, “sintoma alarmante da desagregação subterrânea do Brasil”. O autor do artigo descarta o recurso, muitas vezes tomado por atitudes individuais de professores, de arrancar as páginas “de livros perniciosos” e aconselha uma posição firme e enérgica das autoridades em relação ao livro Geografia de Dona Benta: suprimi-lo. “Enquanto nele são elevados, exaltados, engrandecidos todos os países, só o Brasil é reprimido e achincalhado pelo espírito separatista que o inspirou”.246

Lobato defende-se do ataque em entrevista ao Radical, quando questionado a respeito das acusações expostas em artigo do jornal carioca. O escritor teria realmente insultado o Brasil? Ele nega as acusações e afirma que nada mais fez do que contar a verdade. As críticas ao livro recaem exatamente naquilo que o escritor considera mais valioso: dizer “a verdade inteira”:


Habituamo-nos de tal modo ao regime da mentira convencional que a verdade nos dói e causa indignação ao ‘patriota’. Patriota é o sujeito que mente, o que falsifica os fatos, o que esconde as mazelas, o que transmite às crianças a sórdida porcaria que recebeu de trás. É o que diz que os nossos governos são bons, que a Central presta, que somos o mais rico país do mundo, o mais inteligente, etc.247
Em outra entrevista, ao Diário da Noite, o centro da discussão é a publicação, no editorial do órgão oficial português Diário da Manhã, da proibição da venda, naquele país, do livro História do mundo para as crianças. Os motivos se restringem ao tratamento dado por Lobato ao descobrimento do Brasil por Álvares Cabral como “por acaso” e à referência às 1.600 orelhas cortadas da marinhagem árabe por Vasco da Gama. O escritor argumenta que somente citou um fato histórico. Mas como os fatos históricos, na maioria da vezes, são “torcidos” seguindo a conveniência do povo que o conta, talvez aí resida a repressão ao livro. Para ele “ou a história é história e conta o que houve, ou ajeita os fatos conforme o convém aos interesses dum grupo e passa a ser propaganda”.248

Durante sua prisão, no período de três meses em que esteve detido pelo Estado Novo, Lobato não deixou de escrever para muitos dos seus correspondentes. A professora Eoys Black era uma dessas correspondentes ativas e confessa as artimanhas adotadas pelo escritor para fraturar a censura de sua atividade epistolar que seguiu seu ritmo cotidiano: “As cartas banais vinham em porte registrado e eram violadas. As importantes, pois falavam da divulgação da cópia da carta que motivara a detenção chegavam com porte simples. Carta leal, simples, despretensiosa”.249

As palavras de Eyos podem ser comprovadas pelo próprio Lobato, quando em carta a Geraldo Serra recomenda as providências a serem tomadas para enviar uma carta a Benjamin de Garay, possivelmente na Argentina: “Copie a cartinha junta em papel aéreo e mande-a para o endereço que está nas costas, para Benjamim de Garay. E você mesmo leve-a ao correio da Panair. E debite-me a despesa. Mande ao mesmo endereço uma carta das mimeografadas, mas pelo correio comum”.250

Os ataques promovidos por integrantes da igreja católica persistiram, mesmo após a morte do escritor, em 1948. Em 1956, o Padre Sales Brasil proferiu conferência aos funcionários públicos da Bahia e que resultou no livro A literatura infantil de Monteiro Lobato ou comunismo para crianças, publicado no ano seguinte. Trechos dos livros infantis de Lobato, em especial, História do mundo para as crianças, são tomados pelo padre, para exemplificar o quanto sua obra é perniciosa para a formação cristã das crianças.

O livro está dividido em 12 capítulos, que elencam as 12 negações de Lobato: da causa superior à matéria; da divindade e existência de Deus; da superioridade do cristianismo, da espiritualidade da alma e a existência de outros espíritos; da verdade lógica e ontológica; da moralidade e do pudor; da hierarquia social; da independência da pátria, do direito à propriedade particular; da cultura clássica, do respeito aos superiores. A obra resulta, segundo o autor, num clamor:
Clamor aos responsáveis pela tranqüilidade do Brasil, para que – imitando o exemplo que, a esse respeito, nos dá o glorioso e por nós tão venerado Portugal – tenham mão nesses revolucionários de brinquedo. Nesse ‘pessoalzinho’, que dizendo-se habitar no ‘chamado mundo de mentira’, vai emigrando de verdade para tantas inteligências; pixando a inocência das crianças – o muro mais limpo, entre os que protegem e exornam a cidadela de nossas tradições.251
Para esse padre, o conjunto da obra infantil de Lobato não passa de “panfleto”, “manifesto” da ideologia comunista. Ataque à doutrina cristã.252

Com exceção do padre Sales Brasil, que se detém no conjunto da produção infantil de Lobato, todos os outros “censores” se referem aos títulos que contemplam a vida escolar e abordam conteúdos curriculares. Entre eles: Geografia de Dona Benta, História das invenções, Emília no país da gramática, História do mundo para as crianças. O livro Peter Pan é o único que foge dessa linha e é citado nos discursos de proibição.

Lobato foi censurado, mas foi lido. Tal afirmação parece contraditória, porém é confirmada nos depoimentos dos próprios leitores que, durante o mesmo período de proibições, comentam com Lobato, através de cartas, as suas leituras. O escritor também endossa esse parecer ao comentar inúmeras vezes com o amigo Rangel a venda excepcional de seus livros infantis.

Num primeiro momento, poderíamos crer que as censuras à leitura de alguns títulos infantis de Lobato não tiveram grandes repercussões e que foram retaliações de uma minoria. No entanto, vimos que nos dois grandes centros, São Paulo e Rio de Janeiro, os seus livros foram execrados tanto pelo poder religioso como pelo político. Os censores não cumpriram as suas funções?

Talvez a resposta esteja no pensamento das autoridades religiosas e políticas em crer que o espaço escolar era o único capaz de divulgar e propagar os livros de Lobato. A exclusividade da prática leitora no âmbito escolar parece não ser recorrente nesse período. As crianças tinham acesso ao livro fora da escola, encontrando-o no espaço familiar, nas mãos de uma vizinha, como nos conta Clarice Lispector em Felicidade clandestina,253 ou nas bondosas mãos de um tio, no caso de Lygia Bojunga Nunes.254


3.2 Discursos da crítica: ontem


Ao pesquisar a recepção crítica dos livros infantis de Lobato, reunimos como corpus de análise artigos publicados na imprensa entre 1921 e 1948, com exceção dos artigos de Cláudio Abramo, que têm, no entanto, sua origem nesse período. As vozes recolhidas muitas vezes são dissonantes, mas veremos que não se detêm a questões de ordem religiosa ou política, e sim, estética, contrário ao papel prescritivo cumprido pelo Estado e pela Igreja.

Os discursos da crítica podem ser divididos em três grupos: o primeiro enaltece o conjunto da produção literária de Lobato, o segundo reúne a critica aos livros de cunho didático-pedagógico, e o terceiro nega a sua literatura e o autor. No primeiro, selecionamos as falas de Alceu Amoroso Lima, Viriato Corrêa, Manuel Bandeira, Jorge Amado, Orígenes Lessa, Edgard Cavalheiro, Herman Lima, Nelson Werneck Sodré, Belmonte e Afonso Schmith. No segundo, destacamos os discursos de Sylvio Rabelo e de Antonio Candido. E, por fim, no terceiro, o discurso do inflamado e inimigo confesso do escritor, o jornalista Cláudio Abramo.

No ano de publicação do primeiro livro infantil de Monteiro Lobato, A menina do narizinho arrebitado, Alceu Amoroso Lima traça um paralelo com os livros Primeiras saudades, de Manuel Bonfim, e Os bonecos de Violeta, de João Lúcio. O livro recém-lançado tem, segundo o crítico, o mérito de “interessar” a criança na medida em que o autor coloca-se no ponto de vista do leitor infantil, tratando como ele é, e não como deveria ser, prolongando dessa forma a infância. Os outros dois livros, por sua vez, têm interesses puramente educativos, colocando-se do lado dos pais e professores, com o fim de despertar o adulto adormecido na criança.

Alceu Amoroso não deixa de tecer elogios ao livro de Lobato, mas o considera “incompleto e parcial”, por privilegiar apenas o lado recreativo da literatura para crianças. Entretanto, no que diz respeito às vantagens da sua leitura, descreve como grande benefício: “conservar às crianças a sua infância, sem forçar a natureza, sem provocar o amadurecimento artificial desse fruto delicadíssimo, que é a alma infantil”.255

Embora critique o lado puramente recreativo do livro e exija a inserção do escritor na função educativa da narrativa para crianças, Alceu Amoroso Lima enfatiza que os livros de cunho apenas educativo não se prestam a provocar no leitor o prazer da leitura. Livros como o de Lobato, segundo o autor, facultam o prazer à leitura.

Em 1932, quando o livro de Monteiro Lobato, Viagem ao céu, vem a público, recebe nas páginas do Diário de S. Paulo, a opinião de Viriato Correia. O escritor que se dedicava à literatura infantil desde 1908 e autor “de cerca de duzentas histórias para meninos”, acolhe o criador de “Emília & CIA” como o verdadeiro escritor da infância.

Segundo ele, a recepção dos livros infantis é feita por dois públicos leitores: as crianças, para os quais eles são feitos, e os pais das crianças. E esses dois segmentos têm gostos totalmente diferentes; ao adulto interessa a finalidade, à criança o caminho do entretenimento, o deslumbramento da obra. O interesse e o aplauso dos pais não valida a obra como muitos escritores acreditam, e ele próprio em determinado momento acreditou.

Viriato Correia destaca na produção de Lobato a simplicidade de suas narrativas, a construção dos textos por meio de um vocabulário reduzido e a clareza de estilo; observa ainda que o que parece “ingenuidade excessiva” para o adulto, para a criança torna-se “um bazar de brinquedos”. E nessa capacidade de aproximação com o leitor infantil reside a sua aceitação pelo mesmo: “É aí que está o maior segredo do criador de Narizinho e que nós outros ainda não adquirimos: saber com precisão o que fere e o que não fere as retinas infantis”.256

Em artigo de 1933, Manuel Bandeira comenta os livros infantis escritos por Monteiro Lobato naquele ano: As caçadas de Pedrinho, História do mundo para as criança, Alice no país das maravilhas, Pinocchio e as Aventuras do Barão de Munchhausem, todos publicados pela Companhia Editora Nacional e colocados em circulação no período das festas natalinas. Avalia a facilidade com que Lobato fala às crianças, sem contudo, deixar de criticar a linguagem utilizada: “Se a sua linguagem é às vezes por demais de gente grande, por demais gramaticalmente certa, o mesmo não há que dizer da imaginação e do espírito sempre bem perto do adorável lirismo da infância”.257

Justamente a linguagem lobatiana, tantas vezes exaltada como trunfo na aproximação com o leitor, é aqui criticada pelo seu “adultocentrismo” e correção gramatical. A mesma linguagem que recebeu puxões de orelhas dos conservadores católicos, pelo alto teor de gírias e palavras chulas, é compreendida como “gramaticalmente certa” por Manuel Bandeira.

Dos cinco livros aludidos, três são traduções da moderna literatura infantil. Já História do mundo para as crianças, como vimos, foi adaptado por Lobato inserindo as personagens do Sítio. Somente As caçadas de Pedrinho pertence ao conjunto do universo mágico e maravilhoso do Picapau Amarelo, com suas personagens novidadeiras para a época. É na representação das personagens que Manuel Bandeira destaca o êxito da literatura infantil de Monteiro Lobato:


O Sr. Monteiro Lobato vai criando um mundozinho de personagens em que a gente se sente como em família: Narizinho, Pedrinho, o Marquês de Rabicó, que é senão o leitão do Sítio de D. Benta, o Visconde de Sabugosa que não passa de um sabugo de milho. Este Visconde de Sabugosa já é criação rica de maravilhoso e digna de figurar nos países em que Alice andou pela mão de Lewis Carrol. Mas a personagem mais divertida desse mundozinho, a de mais vida, a que sempre está saltando nas páginas do livros, é Emília. As suas espevitices, os seus palpites, a sua ciganagem fazem dela o centro da ação e do interesse toda vez que aparece. No entanto Emília é ... uma boneca – a boneca de Narizinho.258
Ao fazer um balanço dos livros infantis que circulam no país em fins de 1934 e início de 1935, Jorge Amado exulta pelo crescimento significativo do acervo e número dos escritores que se dedicam ao gênero, resumido, até um tempo recente, aos Contos da Carochinha e ao Almanaque do Tico-Tico, exemplar lançado anualmente pela revista Tico-Tico, publicação infantil pela qual o escritor baiano mostra ser opositor. O livro Emília no país da gramática é considerado por ele uma obra-prima, “livro que escrito em outra língua não a portuguesa daria celebridade e fortuna ao autor”. 259

O escritor taubateano recebe elogios pela criação do conjunto de seus heróis e pela introdução de uma série de títulos que os contempla. São livros que em todas as camadas de leitores, crianças e adultos, despertam a imaginação. Embora elogie com veemência a produção literária de Lobato, Jorge Amado discorda do seu procedimento de introduzir o pó de pirlimpimpim como artifício para transpor a fronteira entre a realidade e a fantasia: “A criança pode estar no plano da realidade e passar para o da imaginação naturalmente, de olhos bem abertos, bem acordados, sem qualquer auxílio que o da sua própria imaginação”.260

Acreditamos que para o próprio Lobato o espaço fronteiriço entre o real e o imaginário era uma incógnita constantemente perseguida. Na primeira versão de Narizinho Arrebitado, a aventura vivida pela menina Lúcia no Reino das Águas Claras não passa de um sonho, despertado por uma voz que lhe diz que Dona Benta está chamando. Já a versão de 1931, a menina escuta a mesma voz e todos as personagens do reino somem por encanto, e ela, envolvida por uma ventania, retorna ao Sítio.

O recurso do pó de pirlimpimpim para penetrar no mundo da fantasia é utilizado pelo escritor pela primeira vez no livro A pena de papagaio (1930) e encontra-se presente no seu último livro para crianças Os doze trabalhos de Hércules (1944). Contudo, nesse espaço de tempo, o autor busca outros meios para transgredir o espaço real. No livro Geografia de Dona Benta (1935), as personagens viajam pelo mundo no Terror dos Mares, um navio imaginário, criado pelo poder do faz-de-conta. E é o mesmo faz-de-conta que salva as personagens da ira do pássaro Roca, quando o pó de pirlimpimpim falha na visita ao mundo das fábulas.

Orígenes Lessa, em 1939, aponta o escritor taubateano como o criador do livro para crianças no Brasil. Diverso da literatice que circulava no País com narrativas de “frases redondinhas e períodos vazios”, Lobato surge com uma literatura inovadora, pois “ele não sabe seguir os trilhos batidos. Havia uma coisa que não havia no Brasil: livros para crianças. Já que a literatura o enrodilha, esse ‘pioneer’ incomparável ruma para a literatura infantil”. 261

Edgard Cavalheiro, em 1942, faz um balanço sobre a circulação e o consumo das obras infantis de Lobato de Norte a Sul, Leste a Oeste, concluindo ser algo surpreendente para o período. Observa que o gênero merece mais atenção da crítica que, até então, tratava-o como “gênero destituído de importância literária”. O biógrafo de Lobato argumenta que a popularidade do escritor entre as crianças deve-se ao poder imaginativo e ao “espírito de suas histórias”, que são próprios da criança. Já a popularidade das personagens resulta da identificação das crianças leitoras, não se resumindo somente às brasileiras:


São criaturas que fazem parte integrante da vida de todas as crianças da América Espanhola e da América do Norte, pois grande casas editoras da Argentina e dos Estados Unidos empenham-se no lançamento das aventuras do pessoalzinho do Sítio do Picapau Amarelo.262
Em 1943, Herman Lima junta-se às comemorações do jubileu de Urupês, escolhendo a produção infantil como enfoque, destacando a capacidade de Lobato em comunicar-se com as crianças. A sensibilidade do escritor com o pequeno leitor é exemplificada na dedicatória do livro Emília no país da gramática às suas filhas Teresinha, Jane e Maria Violeta: “que vão neste livro aprender a brincar com as coisas mais graves da língua, como por exemplo, o venerando verbo ser...”. Herman Lima confessa que há 25 anos era introduzido no mundo do conto pelas mãos de Lobato e agora suas filhas descobrem pelas mesmas mãos “o mundo maravilhoso dos sacis, dos números e dos substantivos, do seu risonho fabulário brasileiro”.263

Para Nelson Werneck Sodré, Lobato tomou o rumo da literatura infantil “incidentalmente”, num período em que já estava formado como escritor “o mais perfeito e o mais fácil dos nossos contadores de histórias”. Em suas reflexões, pondera que Lobato tem a compreensão clara dos estágios psicológicos da criança, a capacidade de utilizar uma linguagem compatível com a dos leitores e a sensibilidade para detectar as suas preferências.

O artigo é datado de 1944, época em que Lobato já produzira todo o conjunto de sua literatura infantil, mas, pelas palavras do crítico, essa literatura é o prenúncio do que poderá um dia vir a ser a literatura infantil brasileira. Ele observa que a narrativa lobatiana “representa uma exceção em nosso meio, precursora, é certo, daquilo que poderá ser, algum dia entre nós, a literatura infantil”.264

Benedito Bastos Barreto, mais conhecido por Belmonte, ilustrador de várias livros de Lobato, registra sua opinião e testemunho sobre a literatura infantil, em artigo divulgado por ocasião da publicação das obras completas. Afirma que Lobato era autor e leitor de seus livros, o primeiro a se deliciar com as aventuras vividas no Sítio do Picapau Amarelo:


Ora, quem podia criar um mundo assim e viver dentro dele, vinga-se soberanamente deste outro mundo real em que nos debatemos, com inflação monetária, filas de carne e pão, câmbio negro, malandragens, piratarias, Estado Novo, ladroeiras, falta de vergonha e calamidades adjacentes. Quiseram metê-lo na Academia: Lobato estrilou. Quiseram fazê-lo deputado: Lobato recusou. Acadêmico ou deputado, ele iria mentir a si próprio e seria tão absurdo como um pássaro que fosse meter-se, voluntariamente, numa gaiola. Para que tudo isso se ele tem, para viver, aquela imensidão paradisíaca que é o ‘Sítio do Picapau Amarelo’.265
Em 1948, cinco meses após a morte de Lobato, Afonso Schmidt historiciza, através de reminiscências da sua infância, o percurso do livro infantil no Brasil. Monteiro Lobato é considerado como influenciador dos rumos tomados pela literatura infantil, tanto na produção de outros escritores, como no aspecto tipográfico e mercadológico do livro destinado à infância.

Afonso Schmidt observa que o descaso com a materialidade do impresso era freqüente, os livros caros traziam ilustrações com tintas inferiores que uniam as estampas umas as outras; os livros populares traziam na capa clichês semelhantes aos do jogo do bicho, omitiam o nome dos autores, entre outras coisas.

O autor enumera os poucos títulos que circulavam, todos de origem francesa, com tradução vinda de Portugal, “daí, uma certa indiferença de linguagem que muito atrapalhava os pequenos leitores”. A presença de escritores como Olavo Bilac, Francisca Júlia, Coelho Neto, Júlio César, João do Rio e Viriato Corrêa colaborara para aproximação da linguagem do leitor. Mas Lobato surgiu e os superou, pois “o diacho do homem contava histórias na língua da gente”. As narrativas não seguiam uma regra específica: “Umas divertidas, outras sérias, todas sérias, todas instrutivas. E tudo mudou para melhor. Daí por diante ainda há, com certeza menino que não saiba na ocasião, quem seja o Presidente da República, mas nenhum deles ignora as aventuras da Emília”.266 Lobato é apontado como o criador de uma literatura infantil brasileira, quiçá da América Latina: “Sem Monteiro Lobato a América Latina seria diferente. O Brasil seria uma terra carrancuda”.267

As críticas de Sylvio Rabelo e Antonio Candido recaem exclusivamente sobre o procedimento lobatiano de introduzir conteúdos de caráter extremamente didático nos seus livros para crianças. Os críticos não desmerecem, contudo, sua produção anterior.

Sylvio Rabelo, em 1944, aponta a intenção pedagógica explícita, da maioria dos escritores que se dedicam à literatura infantil, como o aspecto mais sofrível desse gênero. Lobato se distanciava desse grupo e conseguira romper com essa tradição nas suas primeiras narrativas. Contudo, agora, retomava-a, (re)passando através de seus livros lições escolares de gramática, geografia, aritmética. Rabelo vai além, ao afirmar que “insistindo em ser mestre de meninos, não está longe o dia em que Monteiro Lobato acabe virando uma tia velha – tia rabugenta e falando só”.268

No mesmo ano, Antonio Candido analisa a figura de Lobato sobre três aspectos: o contista, o homem de negócios e o autor para crianças. Sobre o primeiro, ele aponta no escritor um perfil literariamente passadista, tradicionalista de “traço camiliano”, longe de ser um reformador da língua como muitos o querem. Já o homem de negócios é descrito como um “anti-rotineiro”, “quase um revolucionário”. Esses termos são utilizados também para exemplificar a literatura infantil lobatiana,


campo em que realizou uma obra, cheia de graves defeitos na sua última fase, é certo, mas desbravador e útil, levando à criança brasileira desde a poesia forte desta obra prima que é O Saci até a vulgarização nem sempre feliz dos livros mais recentes.269
A “vulgarização” aludida por Antonio Candido, provavelmente, refere-se a inserção de Lobato aos desígnios educativos, primando por instruir a criança. Em 1947, ao comentar o livro Sílvia Pélica na liberdade, o crítico afirma ser “leitor assíduo” de alguns escritores clássicos para o público infantil, como os irmãos Grimm e Perrault, incluindo ainda a escritora Madame d’Aulnoy, o livro Juca e Chico. Porém, não esquece a literatura de Monteiro Lobato e recomenda os títulos pertencentes à sua primeira fase.270

Na contramão das críticas anteriores, o jornalista Cláudio Abramo invalida o conjunto da obra de Monteiro Lobato, desaconselha suas leituras, mostrando uma animosidade pessoal ao escritor. Tal rusga tem início com um artigo publicado em janeiro de 1948, no Jornal de S. Paulo, em que o jornalista denuncia a participação de Lobato como propagandeador do plano econômico de Juan Domingos Perón, através do livro infantil La Nueva Argentina. As acusações incidiam em dois aspectos: o livro estar escrito sob pseudônimo e o valor comissionado a ser recebido por cada exemplar.

Em 18 de abril de 1982, Cláudio Abramo publica na Folha de S. Paulo o artigo “No ventre da História” – um presente de mau gosto, dado no dia de aniversário natalício do escritor taubateano. Nele o jornalista rememora o fato ocorrido em 1948, afirmando que o artigo da época tinha apenas o caráter informativo e, contraditoriamente, denuncia que talvez tenha sido escrito “com irritação, resposta à ostensiva hostilidade” que Monteiro Lobato direcionava aos jornalistas.271

Assinala que Edgard Cavalheiro, ao tocar no assunto em seu livro biográfico, inseriu somente a resposta do escritor, sem levar em conta seus argumentos. Cláudio Abramo coloca-se, de certa forma, como vítima do ocorrido: “vítima do ímpeto, por ter tocado em alguém considerado um grande homem, algo imperdoável no Brasil, um país onde frei Caneca, por exemplo, não figura entre os grandes mártires e heróis da nação brasileira”.272

Lobato não ficou imune aos ataques do jornalista e, em carta de 12 de janeiro de 1948 e publicada em 18 de janeiro, remete à direção do Jornal de S. Paulo explicações sobre o fato, afirmando ser um escritor livre e não ter sido o livro feito sob encomenda do governo argentino:
Agora, se a Província de Buenos Aires fez imprimir e distribuir 100 mil exemplares desse livro, isso é coisa que Lobato não sabe. Apenas sabe, por comunicação dos editores que, espontaneamente, sem nenhuma sugestão de ninguém, o Conselho de educação daquela província, vindo casualmente a tomar conhecimento do livro, houve por bem analisá-lo e aconselhar o governo a contratar com os editores uma tiragem de 150 mil exemplares, para distribuição pelas escolas.273
O senso de oportunidade de Monteiro Lobato não deve ficar em segundo plano, ao pensarmos sobre o assunto. Quando chega na Argentina, em 1946, e é questionado sobre os seus projetos literários a serem desenvolvidos, ele responde que possivelmente escreverá livros para as crianças argentinas, baseado em assuntos daquele país.274 No caso dessa polêmica nada se efetivou, a não ser os boatos.

Em 1983, Cláudio Abramo (de Paris) comenta, nas páginas do jornal Folha de S. Paulo, a exposição promovida pelo SESC-Pompéia (SP), que trazia à visitação pública os livros da coleção Terramarear. Ele observa que “a iniciativa inteligente de editores cuja identidade ignoro” fomentou toda uma geração de leitores. Para ele esses livros, em sua maioria traduções de autores americanos, italianos e ingleses, eram “um substituto saudável à chatice monocórdia e piegas da literatura de Monteiro Lobato, responsável, como penso, – mas sei que poucos concordarão comigo – por um achatamento das aspirações dos brasileiros”.275

Talvez na infância e juventude não fosse relevante, mas profissionalmente, para realizar aquele tipo de crítica, ele deveria ter conhecimento de que a coleção Terramarear fazia parte de um projeto editorial da Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato e Octalles Marcondes Ferreira. E, principalmente, que o tradutor da maioria desses livros era ninguém mais, ninguém menos que Monteiro Lobato; em especial dos livros citados, como Caninos brancos, de Jack London, os livros Mowgli, o menino lobo e Kim, de Rudyard Kipling, e Tarzan, de Edgar Rice Burroughs.

Em 1984, o jornalista volta à cena, reforçando a sua aversão declarada ao escritor e, acreditamos, ao homem Lobato. No artigo “Nós e os outros”, ele faz um balanço da recepção de uma lista de livros que publicara como indicação de leitura para os jornalistas profissionais e os estudantes da área. Ao leitor que o critica por não incluir as obras de Monteiro Lobato no rol das leituras, Cláudio Abramo escreve: “Não incluí Monteiro Lobato porque não incluí. É uma questão de escolha, de afetividade. Talvez o meu colega tenha razão, mas gosto é gosto”.276

Algumas de suas argumentações parecem contraditórias. Quando fala de gosto e afetividade, pressupõe-se que a leitura lobatiana o tenha desagradado, mas em artigo anterior diz que Monteiro Lobato era autor de livros infantis e nunca o havia lido.277 Fica-nos a indagação: Cláudio Abramo tinha ojeriza ao conjunto da produção literária lobatiana ou somente aos textos dirigidos às crianças? Ou o embate prorrogado por anos era dirigido ao escritor reconhecido que polemizara com o jovem jornalista em início de carreira?

Podemos constatar que, no mesmo período em que os discursos da Igreja e do Estado se empenham em justificar o sistema de proibições aos livros infantis de Lobato, o discurso crítico da intelectualidade buscava referendar a legitimidade dessa produção. Monteiro Lobato é apontado como um “não-rotineiro”, revolucionário, pioneiro; capaz de compreender a alma infantil, dono de um discurso inovador para o leitor infantil... Enfim, o criador da literatura infantil brasileira, mesmo com as ressalvas aos seus livros voltados exclusivamente para questões didática-pedagógicas.



3.3 Discursos da crítica: hoje

O percurso literário de Monteiro Lobato tem ao longo dos anos, e acentuadamente nas últimas duas décadas, recebido merecida atenção de pesquisadores. Os estudos existentes contemplam várias linhas de análise sobre o escritor e sua obra, quer seja dentro do panorama da literatura brasileira, quer seja dentro da história da literatura infantil.

Nesse elenco, destacamos História concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, que enquadra Monteiro Lobato no grupo de escritores de intenções regionalistas do Pré-Modernismo, como Afonso Arinos, Valdomiro Silveira, Simões Lopes Neto, Alcides Maia e Hugo de Carvalho Ramos. O autor faz uma breve menção à “literatura juvenil” lobatiana como “fusão de fantasia e pedagogia”.278 Nelson Werneck Sodré reafirma, sem, contudo, inseri-lo no Pré-Modernismo, o regionalismo de Monteiro Lobato.279

A literatura no Brasil, organizada por Afrânio Coutinho, desconsidera o nome de Monteiro Lobato e de sua literatura; nessa coleção coube a Alceu Amoroso Lima expor os escritores das primeiras décadas do século e ele se ateve ao que denomina de “A reação espiritualista”. O Pré-Modernismo também é citado, mas não se inclui a figura do escritor taubateano.280 Em outro volume da mesma coleção, em que o foco de atenção recai sobre o Modernismo, Monteiro Lobato é citado pelo seu artigo “A propósito da exposição Malfatti”, publicado no suplemento “O Estadinho” d’O Estado de S. Paulo em que critica a exposição de Anita Malfati (1917).281 Por fim, no último volume dessa coleção, encontra-se um ensaio de Renato Almeida sobre a literatura infantil, nele Lobato é considerado como o grande escritor “na obra de ficção para as crianças” devido ao seu estilo, com ressalvas para a linguagem que apresenta um “palavreado desagradável, quando não grosseiro”.282

Sem dúvida, a intricada polêmica gerada pelo artigo sobre a pintura de Anita Malfati resultou num afastamento de estudos sobre a importância e participação de Lobato na construção da literatura brasileira nas primeira décadas do século; porém, trabalhos recentes como o de Vasda B. Landers e Tadeu Chiarelli (re)aproximam-no das transformações estéticas ocorridas nesse período. A tese de doutoramento de Landers defendida na New York University busca, segundo a autora, restabelecer a justiça e corrigir o ‘erro’ que colocou Lobato no limbo da história do Modernismo. Ela evidencia o papel valioso do escritor dentro do pensamento modernista, focalizando os trabalhos anteriores à semana de 22, bem como a semelhança de suas idéias com a dos modernistas, afirmando que: “toda a ideologia do Modernismo contra a arte academizante européia vai ser coincidente com a sua pelo adiantamento e originalidade dos seus postulados”.283 Chiarelli, por sua vez, em Um Jeca nos Vernissages, justifica a postura de Lobato como própria a alguém que desejava uma arte voltada para as coisas nacionais, e não uma cópia dos postulados europeus; além do mais, foi um dos poucos intelectuais que ousaram fazer crítica de arte em São Paulo: Lobato “era o mais capacitado e original dos críticos”.284

O papel desempenhado por Monteiro Lobato no desenvolvimento editorial do país é abordado por Alice M. Koshiyma285 que examina a sua atuação como empresário (editor e gráfico), escritor e tradutor, contextualizando-o na história da comunicação do Brasil. Marisa Lajolo e Regina Zilberman, em A formação da leitura no Brasil, destacam a sua importância no campo editorial para o desenvolvimento e difusão do livro em terras brasileiras.286 Em trabalho anterior, Marisa Lajolo apontava a filosofia editorial de Lobato como uma das marcas de sua modernidade.287

Fábio Lucas e, em especial, Cassiano Nunes refletem sobre a importância da correspondência de Monteiro Lobato para o entendimento da sua literatura. O primeiro se concentra nas cartas publicadas em A barca de Gleyre, analisando-as enquanto expressão literária do seu criador.288 O segundo, por sua vez, vem insistentemente debruçando-se sobre a correspondência, resultando em vários trabalhos que focalizam a criatividade do missivista Lobato.289 Além do mais, as pesquisas de Cassiano Nunes trouxeram a público cartas até então inéditas que demonstram que Lobato tinha como destinatário pessoas dos mais diversos segmentos sociais




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