Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Ora, se o texto literário traz as marcas do contexto histórico e social em que foi gerado, o mesmo ocorre com a leitura crítica. Como vimos, a manifestação sobre a produção literária para crianças de Monteiro Lobato, nas décadas de 20, 30 e 40, ocorriam nos periódicos, quer o jornal, quer a revista. O único livro listado nas críticas é o do padre Salles Brasil, que corresponde à metade da década de 50. Esse fato ocorre primeiramente porque os periódicos eram uma das poucas alternativas para a divulgação dos textos infantis recém-lançados, por outro lado eram raros os trabalhos teóricos e acadêmicos sobre literatura infantil e, por conseqüência, livros sobre este assunto.


A partir do final da década de 70, a crítica literária se volta com mais atenção para o gênero e nos jornais e revistas surgem seções especializadas para divulgá-lo. Os discursos críticos deixam de focalizar o lado formativo da literatura infantil brasileira e buscam contribuições para as reflexões na teoria literária, preocupando-se com questões estéticas e ideológicas. Essa transformação fica visível no número crescente de títulos que tematizam a literatura infantil na década de 80.

A produção literária para crianças de Monteiro Lobato foi abordada sob diversos aspectos; entre eles, destacam-se as contribuições de estudiosos como Leonardo Arroyo,290 Marisa Lajolo e Regina Zilberman291 que refletem sobre ela dentro da contextualização histórica dos livros infantis brasileiros. O trabalho das duas autoras se sobressai pela leitura da literatura infantil dentro da história da literatura brasileira e seu vínculo com os aspectos sócio-culturais do período estudado.

Entre todas as características da literatura infantil de Monteiro Lobato, a que tem merecido mais destaque pela crítica é a sua sensibilidade de delegar à criança o papel como leitor ativo e atuante, sem os reveses impetrados pelo mundo adulto. A inserção de protagonistas crianças que participam de forma atuante das decisões e ações da narrativa possibilita ao leitor uma nova visão do mundo e de si mesmo. Essa valorização do leitor é resultante da confiança do autor no papel social da criança. Como observa Laura Sandroni: “Monteiro Lobato foi o primeiro escritor brasileiro a acreditar na inteligência da criança, na sua curiosidade intelectual e capacidade de compreensão”.292

Laura Sandroni293 tece reflexões paralelas sobre o caráter estético da literatura infantil de Monteiro Lobato e Lygia Bojunga Nunes, aproximando-os pela visão questionadora dos valores sociais de cada autor em sua época. Aspectos como a linguagem, a construção das personagens, entre outros, são abordados no sentido de aproximar os dois escritores.



Na mesma esteira, Sueli de Souza Cagneti294 elabora um trabalho comparativo entre os dois escritores, no sentido de confrontar os aspectos transgressivos e inovadores de suas obras. Ambos os estudos demonstram um desejo de suas autoras de estabelecerem uma ligação entre a literatura infantil de Monteiro Lobato e os livros contemporâneos, que se destacam pela renovação, pelo afastamento das narrativas conservadoras e modelares.

Nelly Novaes Coelho295 desenvolve um dos primeiros trabalhos no Brasil sobre literatura infantil, que focaliza aspectos conceituais relativos ao gênero, matéria e forma e insere também o panorama histórico do gênero. Nesse quadro, Monteiro Lobato é apresentado como um marco, um divisor de águas entre a literatura de ontem e a literatura de hoje. Ela aponta como um dos grandes “achados” do escritor a capacidade de fundir o real com o maravilhoso.

Entretanto, algumas características da literatura de Lobato, que no seu tempo eram novidades e apresentavam-se como renovadoras para os leitores, hoje são ultrapassadas devido às transformações sociais e culturais. Uma dessas modificações estaria na identificação catártica dos leitores de ontem ao comportamento irrequieto da boneca Emília, numa sociedade altamente disciplinadora. Hoje as crianças vivem no que a autora chama de “liberação disciplinar” e a irreverência e indisciplina representadas pela boneca de pano, bem como o seu “individualismo audaz” não serviriam de “modelo” para os leitores contemporâneos.296

As características da personagem Emília passam por uma constante revisão e leituras. O individualismo exacerbado e o comportamento “amoral” da boneca ora são tratados como o que poderíamos chamar de transgressor e emancipatório para a época, ora recebem críticas quanto à sua receptividade atual, já que existe um grande distanciamento do leitor de hoje com aquele mundo de ontem. Mirna Pinsky,297 em 1978, sugere repensar a obra lobatiana em aspectos que hoje são difíceis de aceitar, como o “autoritarismo” de Dona Benta e o servilismo de Tia Nastácia, que não recebe remuneração pelos trabalhos prestados. Pinsky acredita que Lobato deveria ter-se utilizado de Emília para refletir a situação de Tia Nastácia e, no entanto, o escritor procedeu de forma inversa.

Para Marisa Lajolo, a obra infantil de Lobato apresenta e representa traços eivados de modernidade: a fusão do Brasil arcaico com o Brasil moderno; a linguagem coloquial que rompe com a voz de um narrador modelar; a oralidade, o despojamento sintático e a criação vocabular; a constituição do livro em série, que repete o mesmo espaço e personagens e o ritmo de produção moderna marcado pela regularidade dos lançamentos (ano letivo e data natalina).298


Otávio Frias Filho levanta os quatro fundamentos que, ao seu ver, possibilitaram a acomodação pedagógica na literatura infantil de Lobato “sob embalagem tão distraidamente ficcional”: a eliminação de qualquer vínculo de parentesco direto (pai/mãe/filho), a estruturação polifônica de suas narrativas; a experimentação formal e a criação da boneca Emília.299

João Carlos Marinho distingue os traços mais marcantes da obra infantil de Lobato: o humor, o realismo e a mania de ensinar. O primeiro item, segundo o autor, deveria merecer maior atenção da crítica, por ser um dos aspectos mais inovadores na literatura lobatiana. O realismo aflui nas narrativas em perfeita comunhão com o maravilhoso. Já a “mania de ensinar” repercute negativamente na sua obra. “Lobato não percebeu que a própria irreverência, atrevimento e anticonvencionalismo das histórias livres que narra já era por si só uma revolução suficiente para a cultura infantil”.300




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