Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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A pesquisadora norte-americana Rose Lee Hayden, debruçando-se sobre a literatura de Lobato, traça o caminho percorrido por ele dentro de suas narrativas para romper com os valores morais e educacionais da literatura tradicional. Segundo a autora, a produção literária desse escritor é radicalmente diferente da pedagogia tradicional, discordando da representação do núcleo familiar, a religião e a escola. A experiência intelectual e de aprendizagem se dá com liberdade. A autora defende que Lobato instaura através de sua literatura infantil “uma pedagogia para o progresso”.301


Os dezessete volumes que compõem a série de literatura geral, mesmo contendo uma variedade de gêneros, não têm gerado da crítica e dos estudiosos comentários, nem mesmo subdivisões. Os livros da série de literatura infantil, no entanto, foram, ao longo dos anos, redimensionados e subdivididos em áreas de interesses.

Analisando a subdivisão realizada por três estudiosos brasileiros: João Carlos Marinho, Márcia Kupstas e Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos, e pela norte-americana Rose Lee Hayden, percebe-se que os títulos são divididos em três grupos, pelo teor do seu conteúdo. No primeiro estão os livros “puramente ficcionais”, que têm o interesse de divertir; no segundo grupo são incluídos os títulos de caráter (para)didático, e no terceiro grupo estão os títulos que pertencem a obras adaptadas ou fora do Sítio, para os estudiosos brasileiros. A pesquisadora americana nomeia esse grupo como livros que apresentam o interesse pelo folclore nacional.

João Carlos Marinho302 divide a obra em três grupos, denominados de A, B e C. No primeiro grupo estariam as histórias livres ou aquelas em que o didático está bem ‘acasalado”. São elas Reinações de Narizinho, O Saci, As caçadas de Pedrinho, Viagem ao céu, O minotauro, Os doze trabalhos de Hércules, A reforma da natureza, A chave do tamanho, Memórias da Emília e O Picapau Amarelo. No grupo “B” insere as histórias puramente didáticas: O poço do Visconde, Aritmética da Emília, Emília no país da gramática, Geografia de Dona Benta, História das invenções, História do mundo para as crianças e Serões de Dona Benta. No grupo “C” arrola as histórias “fora do Sítio”: Histórias diversas, Fábulas, Dom Quixote das crianças, As aventuras de Hans Staden, Peter Pan e Histórias de Tia Nastácia.

A classificação de Marcia Kupstas303 apresenta as seguintes distinções da anterior. Nos livros “que privilegiam a diversão” inclui, além dos já citados, o título Histórias diversas. A lista dos didáticos se apresenta de forma idêntica, e nas adaptações a diferença se encontra no título Peter Pan, incluído na categoria diversão.

Já a classificação realizada por Zinda Maria Carvalho de Vasconcellos é idêntica à de João Carlos Marinho, no que se refere às adaptações; nos livros de caráter didático e ficcional, a discordância encontra-se no título O poço do Visconde, que Vasconcellos denomina como ficcional, e João Carlos Marinho nomeia como didático

A classificação de Rose Lee Hayden se afasta das anteriores ao inserir uma seleção de títulos com enfoque no folclore: os livro de caráter didáticos são História do mundo para as crianças, Emília no país da gramática, Aritmética da Emília, Geografia de Dona Benta, Serões de Dona Benta, História das invenções, O poço do Visconde, O minotauro e Os doze trabalhos de Hércules; os títulos de interesse pelo folclore nacional: O Saci, As aventuras de Hans Staden, Histórias de Tia Nastácia e Fábulas. E os livros de natureza fantástica ou de pura aventura: Reinações de Narizinho, Viagem ao céu, As caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, Peter Pan, Dom Quixote das crianças, O Picapau Amarelo, A reforma da natureza e A chave do tamanho.304

A pesquisadora americana não elenca Histórias diversas, porque adota como referência a coleção completa da série de literatura infantil datada de 1959, ano em que o livro começa a fazer parte da coleção. Márcia Kupstas, por sua vez, não arrola os livros O Saci e Peter Pan. Embora existam divergências na listagem de alguns títulos, os trabalhos tomam a mesma direção ao dividir a produção literária de Monteiro Lobato em livros de intenção didática e em livros sem outro fim que a própria criação ficcional.

Esse tipo de divisão, ao nosso ver, serve somente para fim pragmático, pois acreditamos que em todos os livros de Lobato há uma forte carga de intencionalidade, jamais negada pelo escritor. Mas constata-se que, embora os tempos sejam outros, os estudiosos continuam e insistem em dividir e fragmentar a literatura infantil de Lobato, pensando sobretudo no seu vínculo com a escola.

A necessidade de estudos voltados à recepção da literatura infantil de Monteiro Lobato é aventada em artigo por Ligia Cadermatori Magalhães305 e sistematizada em trabalho acadêmico por Zinda Maria Carvalho Vasconcellos,306 que analisa a influência ideológica da obra de Lobato, através da leitura de seus livros para crianças. Por sua vez, J. Roberto Whitaker Penteado307 retoma a possibilidade dessa influência, comprovando-a por meio de entrevistas com leitores do escritor na infância.

A relação concreta de Monteiro Lobato com os leitores infantis foi evidenciada em textos por Edgard Cavalheiro que destaca as cartas infantis recebidas pelo escritor;308 por Lúcia Miguel Pereira que dá seu testemunho da relação direta travada entre Lobato e seu público nas dependências da Biblioteca Infantil de São Paulo;309 recentemente, na biografia Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia, os autores focalizam as cartas infantis recebidas pelo escritor.310




3.4 A permanência da obra de Lobato


Os discursos críticos de hoje sobre a literatura infantil de Lobato passam por uma reflexão, vinculada, como não poderia deixar de ser, ao contexto histórico e social de quem escreve, provocando um sentido para a obra que se modifica com o distanciamento temporal. Já os discursos sobre a permanência da obra de Lobato adquirem uma multiplicidade de visões: algumas com caráter premonitório, outras centradas em análises do momento presente da declaração. Vejamos algumas delas.

Sérgio Milliet, em seu Diário Crítico, não é nada condescendente com a figura de Monteiro Lobato; embora o apresente como um “grande escritor”, questiona a sua presença como inovador ou escritor essencial, ligando sua posição nas letras nacionais a dois fatores: ao discurso de Rui Barbosa e à prisão no período ditatorial.311 Porém, em 30 de setembro de 1944, observa que a produção literária de Lobato, em especial a infantil, permanecerá: “Passará pelo crivo das revisões impiedosas e ainda encontrará entusiasmos alucinados. Do barulho sairá para as antologias uma dúzia de contos modelares. E mais boa parte de sua literatura infantil, que só encontra paralelo nas grandes literaturas infantis internacionais”.312

Nelson Palma Travassos, por sua vez, considera difícil responder sobre a permanência da obra de Lobato, mas acredita ser quase impossível a constância da leitura de sua obra, em especial a infantil, pois o leitor está sempre inserido dentro de seu tempo e, hoje (1982), com o arsenal e progresso científico, as necessidades são diferentes dos leitores contemporâneos a Lobato. Travassos observa que: “a literatura infantil de Monteiro Lobato, toda temperada com o aroma da terra, não subsistirá. Surgirá, por certo, um outro Monteiro Lobato de ficção-científica, senhor de uma poesia que descubra sonhos terrestres nos espaços siderais”.313




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