Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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Em 1943, pelas comemorações dos 25 anos de Urupês, Oswald de Andrade publica carta endereçada a Monteiro Lobato, fazendo breve retrospecto da carreira do escritor. Oswald assinala sua relação com o público infantil e o afastamento gradual desse mesmo público, conquistado pelo rádio, cinema e, em especial, os gibis. Descreve uma rivalidade entre a literatura infantil e as histórias em quadrinhos:

Mas em torno de você, entrou a subir a atoarda mecânica de trilos e buzinas da cidade moderna, começou o cinema a passar, a pisca-piscar o anúncio luminoso, o rádio a esgoelar reencontros e gols. E a meninada pouco a pouco se distraiu. Um foi ver os Esquadrões da Madrugada. Outro o Império Submarino, um terceiro, com os dentinhos em mudança, abriu a boca porque o Leônidas tinha machucado o dedão do pé esquerdo. E quando Tarzan passou, ali perto, pelo porto de Santos, maior era o mundo de adultos que rodeava a sua ilustrada carochinha que o de crianças, ocupadas a dar tiro de canhão com a boca, andar de quatro, roncar como avião, grunhir de chimpanzé e imitar a marcha truncada e fantasmal do Homem de Aço. Sinais dos tempos!314


Mesmo acreditando na possibilidade de retorno das crianças à leitura dos livros infantis, Oswald de Andrade termina sua carta de forma pessimista em relação à permanência da literatura infantil lobatiana e a invasão dos meios de comunicação de massa ao observar que “o super-homem de Nietzsche não pode com o super-homem do gibi”.315

Lobato, no entanto, não se mostra adverso a qualquer manifestação dos meios de comunicação de massa como o cinema, o rádio e a revista em quadrinhos. Em suas narrativas insere personagens desse mundo, como o Gato Félix, Tom Mix, Popeye e Shirley Temple. Em carta a Rangel, datada de 8 de julho de 1926, tece elogios à série Tarzan: “Conheces a série Tarzan? Curiosa e bem infantil. Anda em milhões”.316

Outro fato que se faz importante destacar é a utilização de adaptações de seus livros infantis para programas radiofônicos. Em maio de 1943, Edgard Cavalheiro e Carlos Lacerda criam o programa “No Sítio do Picapau Amarelo”, que vai ao ar pela Rádio Gazeta, em São Paulo.317 Em maio de 1945, no Rio de Janeiro, a Rádio Globo transmite “A menina do Narizinho Arrebitado”.318 Em novembro de 1946, uma rádio de Piracicaba transmite “Cara de Coruja”, adaptada por Benedito Almeida Júnior, pai de uma leitora do escritor.319

Uma pesquisa mais atenta evidenciaria um número bem maior de adaptações de seus livros infantis para transmissões radiofônicas. Porém, os exemplos tomados dimensionam o uso do veículo na propagação dos seus livros e, por conseqüência, da sua leitura. Não podemos esquecer que, provavelmente, essas adaptações para o rádio não foram realizadas à revelia do escritor. Em carta de 14 de novembro de 1947 à amiga Marina de Andrada Procópio de Carvalho, Lobato avaliza esse procedimento, oficializando o “entendimento verbal” e concedia com exclusividade “o direito de utilização no rádio, para teatralização e radiofonização, os meus livros infantis, constantes nas edições da Companhia Editora Nacional. Prazo três anos”.320

Tatiana Belinky e seu esposo Júlio Gouveia, que realizavam um projeto teatral junto à Prefeitura Municipal de São Paulo, foram convidados, em 1951, a realizar trabalho semelhante no espaço da televisão, recém introduzida no país. O casal optou pelos narrativas lobatianas, adaptadas por ela e produzidas e dirigidas por ele. O programa, sem recursos contemporâneos como o vídeo-tape, foi apresentado durante, aproximadamente, catorze anos pela TV Tupi. Segundo a escritora, a série televisiva, menos do que afastamento, servia de estímulo à leitura das obras de Lobato: “os programas do Sítio do Picapau Amarelo na TV Tupi remetiam os telespectadores mirins aos livros originais, promovendo assumidamente o hábito de ler. E com todo o sucesso: as crianças que assistiam os nossos programas liam mesmo os livros de Monteiro Lobato”.321

Entre 1978 e 1988, O Sítio do Picapau Amarelo retorna ao vídeo da televisão brasileira, em capítulos diários pela Rede Globo, com apoio da TV Educativa. Na metade da década de 90, o programa foi reprisado pela TV Cultura. Enéas Athanázio, ao analisar a adaptação do Sítio do Picapau Amarelo, realizada por Marcos Rey para a Rede Globo, avalia as críticas ao “modernismo tecnológico” da série como infundadas. Athanázio acredita que Lobato, como homem de seu tempo, não se surpreenderia em ver a personagem Pedrinho “numa asa delta”.322

Apesar das discussões relevantes sobre as transformações ocorridas da transposição do livro para a tela, Sérgio Caparelli observa que:
Monteiro Lobato continuou a existir em seus livros, mas foi a televisão que lhe deu uma dimensão massiva, quer pelo Sítio dos anos 50 que divulgou seus personagens, quer pelo Sítio dos anos 70 e 80 que o pôs ao alcance da maioria dos brasileiros alfabetizados ou não.323
Os depoimentos esboçados desenham um quadro múltiplo de recepções, bem como as previsões em relação à continuidade da leitura dos livros infantis de Lobato. Alguns trabalhos e depoimentos recentes abrem um hiato maior sobre a questão da permanência da leitura dos livros do escritor taubateano.

Vera Teixeira Aguiar cita três pesquisas realizadas na década de 80 entre professores de 1o grau, contemplando o trabalho com a literatura infantil. No Rio Grande do Sul e Minas Gerais, Monteiro Lobato despontava entre os autores mais indicados para leitura escolar, perdendo no Sul somente para Érico Veríssimo e em Minas para o livro didático de Terezinha da Costa Val Araújo. Já no Rio Grande do Norte, Lobato não aparece entre os vinte autores mais indicados. Focalizando o “trânsito social do livro entre o público e o leitor”, Aguiar destaca geograficamente o Centro-Sul do Brasil como a área de maior recepção da obra de Lobato.324

Diana Noronha Werkmeister, em seu trabalho de doutoramento em que reflete sobre a formação do leitor de literatura, entrevistou dez adultos, cuja vida profissional estava relacionada com a leitura, confrontando as obras e os autores que marcaram a vida leitora dos entrevistados. Dos dez entrevistados, oito destacaram Monteiro Lobato ou a sua obra, entre aquelas que resistem na memória e contribuíram para a sua formação leitora.325

Com o intuito de levar ao público adolescente algumas sugestões de leitura, Silvia Ruiz,326 em reportagem para o jornal Folha de S. Paulo, levantou o depoimento de dez escritores e professores de literatura e suas indicações sobre os dez títulos indispensáveis na estante daqueles que têm até 20 anos de idade, ou seja, uma biblioteca básica para aqueles que querem incursionar pelo mundo da leitura.

Monteiro Lobato aparece na lista dos autores citados três vezes, juntamente com Homero, Jonathan Swift, Lewis Carrol e William Shakespeare. A sua produção literária faz parte da biblioteca básica de três dos entrevistados. O professor de História da Arte da Unicamp, Jorge Coli, indica a “Série do Sítio do Picapau Amarelo”, observando: “esqueça a série de TV. Monteiro Lobato é uma iniciação ao prazer do conhecimento”. A professora de teoria literária e literatura comparada da USP, Walnice Nogueira Galvão, destaca dois títulos de livros infantis de Lobato: Reinações de Narizinho e A reforma da natureza. Afirma ainda que: “quem passa a vida sem ler fica com um patamar de imaginação muito baixo, facilmente satisfeito com as novelas da Globo”. Já a escritora Zulmira Ribeiro Tavares não faz referência a uma obra específica, mas indica o livro biográfico Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia que desperta no leitor a curiosidade de conhecer e ler Lobato.

No livro Os filhos de Lobato, J. Roberto Whitaker Penteado327 apresenta o resultado de uma pesquisa realizada pelo IBOPE em 1986, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, revelando que 70% dos entrevistados acima de quarenta anos e com nível superior haviam lido Lobato na infância. O livro, citado no primeiro capítulo deste trabalho, focaliza uma geração de leitores que não viveu sob a influência da televisão, daí uma dedicação maior à leitura.

Whitaker Penteado mostra-se descrente quanto à receptividade do leitor atual à leitura lobatiana, principalmente aqueles que estão entre os seis e sete anos de idade, como acontecia na década de 50, por exemplo. Considera ainda que “lido fora do contexto, Lobato é extremamente chato, embora seja bom do ponto de vista literário”. Para ele, somente uma mudança no texto poderia tornar a sua literatura infantil novamente aceita pelas crianças. Perguntado sobre o que se poderia fazer para incentivar a leitura dos livros de Lobato, o pesquisador diz não acreditar em incentivo à leitura e que, “se Monteiro Lobato estivesse vivo, jogaria seus livros pela janela e faria CD-ROM e páginas na Internet. O livro está se tornando obsoleto. A leitura vai acabar ou, pelo menos, vai sofrer uma mudança profunda”.328

Os meios de comunicação de massa são constantemente condenados como antagonistas à recepção da literatura infantil lobatiana. Num primeiro momento as histórias em quadrinhos, o rádio e o cinema, depois a televisão e agora a Internet são apresentados como meios que interferem no acesso à leitura de seus livros.

Se lembrarmos as idéias que Lobato desenvolveu sobre a possibilidade de transformação do objeto livro, citadas no capítulo 2, o discurso de Whitaker Penteado não soa radical. O escritor estava constantemente refletindo sobre as futuras mudanças no suporte de leitura e até mesmo nas possibilidades de sua efetivação, porém em seu discurso nunca vislumbrou o fim do processo leitor.



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