Pontifícia universidade católica do rio grande do sul faculdade de letras



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3.5 Lobato pelo olhar do leitor


A aura que reveste a feitura da escrita faz com que habitem no imaginário do leitor curiosidades e interesses sobre particularidades da vida do escritor. Qual seria a fisionomia e os aspectos físicos mais marcantes daquele que convive com o leitor através da sua literatura, mas ao mesmo tempo se faz invisível? Qual o processo e os métodos utilizados na criação literária? De que outras atividades sobrevive o escritor? Interferem elas no processo de criação? São indagações que refletem o desejo do leitor de aproximar-se, de trazer para seu mundo real a figura idealizada e, muitas vezes, mitificada do escritor.

Selecionamos alguns depoimentos que, ao nosso ver, contribuem para desvendar algumas características de Monteiro Lobato e de sua produção literária. Alguns aspectos, como o físico e a maneira como escrevia, popularizaram-se e passaram a conviver consagradamente na memória coletiva. Já a sua constante visitação ao mundo dos negócios acolhe discursos contraditórios e que se tornaram polêmicos pela multiplicidade de pontos de vista.

As várias vozes, tomadas de empréstimo para auxiliar nessa narrativa, pertencem a tempos distintos. Os primeiros dizem respeito a pessoas que conviveram pessoalmente ou estavam presentes no momento de vida do escritor; os segundos são de estudiosos que se debruçaram sobre a obra de Lobato contemporaneamente. A distância temporal das falas, porém, não desfaz a intenção desses leitores que, motivados por situações distintas, colocaram no papel pontos importantes sobre a figura e a produção literária de Monteiro Lobato.



3.5.1 Monteiro Lobato: Perfis

Duas sobrancelhas enormes definitivas, monumentais, chinesas, duas brochadas de nanquim arcuais, sem solução de continuidade, riscando num quadrado de rosto moreno um enorme 3 capiloso e deitado. Emboscados sob essa macega negra vivem, vivos, afuroantes, dois miúdos e irrequietos.329


O aspecto físico de Monteiro Lobato parece ter marcado a todos que conviveram de forma mais próxima com ele. A imagem do homem de ação, enérgico e determinado, contrastava com o físico miúdo. Uma das particularidades mais evidenciadas nos depoimentos são as suas sobrancelhas que se tornaram a marca registrada de sua fisionomia.

Mário Donato tinha entre oito e nove anos de idade (1923/1924), quando seu pai, funcionário da editora Monteiro Lobato & Cia, levou-o à rua Brigadeiro Machado para conhecer Lobato. O escritor jogava uma partida de xadrez, interrompida com um aperto de mão e um autógrafo no exemplar novo de A menina do narizinho arrebitado. Ao descrever o “seu” Lobato, Donato mostra a sua surpresa:


O que me impressionou mais foi que ele, tão célebre, fosse tão pequenino, mirrado mesmo. Ora, então os grandes homens não são de fato grandes? Tinha uma pele crestada, apergaminhada e pasmem, meninos! – suas sobrancelhas, como duas grossas taturanas, uniam-se sobre seu nariz. Fiquei impressionadíssimo com aquilo. Creio que o disse a meu pai. Não me lembro se fez algum comentário. Talvez não tenha gostado, pois Monteiro Lobato, para ele, era todo uma perfeição e decerto os demais seres humanos que não tinham sobrancelhas ligadas é que eram aleijões.330
Surpresa é a palavra chave para caracterizar o sentimento desse leitor que, na presença do escritor, encontrou uma imagem totalmente diferente da esperada. O tamanho da celebridade de Lobato não corresponde à sua figura diminuta e, embora estivesse com 41/42 anos de idade, os traços da velhice na pele “apergaminhada” rompem com a possível imagem de juventude criada pelo leitor.

Nelson Palma Travassos, que não guardou mágoa do seu primeiro encontro com Monteiro Lobato,331 deixou registrada a sua visão dos muitos Monteiros Lobatos que habitavam num único homem. A apresentação física do escritor taubateano não se opõe aos demais testemunhos: “baixo, pequeno de corpo, rosto bem conformado, moreno pálido, possuía uma única particularidade – as sobrancelhas – largas, grossas, unidas sobre a base do nariz”.332 Ultrapassando o mero registro físico, Travassos sublinha as características psicológicas do escritor, descrevendo-o como “modesto, informal, socialmente displicente, despido de toda e qualquer atitude convencional”.333

Ribeiro Couto comenta o impacto causado pelo contraste entre a figura física do escritor e o seu poder de ação, como se fosse difícil de acreditar que características tão diversas pertencessem ao mesmo homem. Essa impressão de incredulidade se desfaz com a aproximação efetiva:
Lobato é um homenzinho formidável. Choca o contraste entre a sua pessoa baixota e amarela, com um vago ar enjoado, sob a sua mataria de cabelo preto, e a sua poderosíssima força de ação. De José Bento Monteiro Lobato (quarenta anos, casado, não-leitor, bacharel em direito, escritor, editor) provém uma impressão de fadiga, de peso arrastado, de ancilostomose, essa ancilostomose que ele tanto combate. Somente depois de um quarto de hora, caso esteja de veia, se percebe que debaixo daquela pele de caboclo japonês da beira do Paraíba (Taubaté, Estado de São Paulo) se esconde e irradia uma admirável inteligência e ação.334
Alberto Conte faz o retrato físico de Lobato, apresentando todos os detalhes característicos de sua pessoa, desde a altura ao seu modo de andar, concluindo que o escritor não pode ser considerado nem feio, nem bonito. Mas é com certeza simpático e “não há quem não sinta, logo ao conhecê-lo, um forte desejo de tornar-se seu amigo, de conversá-lo com assiduidade e fazer-se íntimo”.335

Ao leitor que não o conhecia pessoalmente, restava a construção idealizada pela imaginação fértil. O exercício criativo do imaginário do leitor em relação à figura do escritor encontra-se no resultado de uma enquete realizada em 1934 por um grupo de crianças, entre oito e nove anos de idade, estudantes da escola Desembargador Drumond, de São José da Lagoa. A professora desenvolveu com esses alunos uma atividade que tinha como tema a realização do “perfil de Monteiro Lobato”. As respostas constituem uma amostra significativa do processo ideativo da imagem do escritor por parte do leitor.

Um menino de oito anos de idade desenvolve, num discurso fragmentado e de orações curtíssimas – sinal da fase inicial do processo de alfabetização, um perfil romântico e culturalmente intelectualizado do escritor:
Monteiro Lobato é muito bonito. Ele é muito careca. Eu acho que ele fica com a mão na cabeça. Eu acho que ele usa calça comprida. Eu acho que ele fica com o livro na mão. Eu acho que ele fica assentado na pedra. Monteiro Lobato é muito trabalhador. Eu acho que ele tem renda no punho.336
A descrição assemelha-se a uma gravura que vai se revelando em fragmentos, a um quebra-cabeça em fase de montagem. O saber intelectual está representado pela mão na cabeça e o livro na mão; como num eco à imagem do “Pensador”, o escritor está sentado na pedra. A “renda no punho”, sinal de elegância; as calças compridas tornam-se símbolo de maturidade, dispensando o registro de idade.

Uma menina compõe, de forma sintética, a imagem de Lobato, sem deixar de frisar o seu desejo em conhecê-lo: “Monteiro Lobato é bonito e tem bigode. Eu achei que ele tem 20 anos. Eu tenho vontade de conhecer e ele tem cabelo curto e tem os olhos amarelos”.337

A menina Zélia Gonçalves associa a freqüência de publicações e a quantidade de livros editados pelo escritor a uma possível fortuna econômica: “Eu acho que Monteiro Lobato é um homem muito bom: muito agradável. Eu acho que ele é dos cabelos corrido, olhos pretos. Ele não é alto e nem baixo. Ele deve ser muito rico, porque faz muitos livros. Ele tem 30 anos”.338

O que se percebe é que, quando o desejo permanece no plano do imaginário, a descrição do escritor continua romantizada, dono de uma eterna juventude. Quanto alcança a sua concretude, muitas vezes, o desejo torna-se decepção.


3.5.2 Penas de pato, teclas e linotipos

Quero papel cor do céu com todas as suas estrelinhas. Também a tinta não serve. Quero tinta cor do mar com todos os seus peixinhos. E quero pena de pato, com todos os seus patinhos.339

A irreverência das palavras da boneca Emília às exigências dos suportes necessários para a confecção das suas memórias constitui uma crítica às trivialidades que muitas vezes rodeiam o imaginário da escrita. E é o mesmo recurso do chiste, da blague de que o escritor se utiliza quando importunado com curiosidade sobre particularidades da atividade literária, como a do ato da escrita.

Ao rememorar os inconvenientes provocados por um fã que confundira a si e a sua produção com a de Menotti del Picchia, Lobato transcreve a sua resposta, quando questionado sobre os recursos materiais utilizados na escrita: “– Escrevo com pena de avestruz, meu velho, aparada com aquela faca de matar mulher que o Barba Azul trazia à cinta. E escrevo com tinta simpática, invisível para enganar algum espírito que me esteja espiando pelas costas”. 340

Monteiro Lobato era aberto a todos os elementos da modernidade tecnológica de seu tempo. E era na máquina de escrever, do qual era adepto incondicional, que redigia toda a sua produção literária. Não podemos precisar exatamente o momento que começou a utilizá-la, mas em 1910 já apontava ao amigo Rangel as facilidades que a escrita mecânica proporcionaria na comunicação entre eles, em especial, pela horrível caligrafia que Lobato dizia ter o amigo: “Compra-se hoje uma Oliver por cento e tantos mil réis (...) Ando com idéia de realizar essa proeza – uma Oliver!”.341

Dos muitos anúncios que autofinanciaram a publicação do livro O Sacy-pererê: resultado de um inquérito, encontra-se propaganda da máquina de escrever Remington sob os auspícios do negrinho: “o Sacy-pererê não admite outra máquina”.342 Essa foi a marca preferida também por Lobato que a utilizava quando de sua morte.

Nelson Palma Travassos afirma que “era à máquina, e de pijama, que Lobato escrevia”,343 observando que a utilização sistemática da máquina de escrever, até mesmo na redação dos originais, fez com que os escritos de Lobato perdessem muito do valor pessoal, já que “o original redigido à máquina, despersonaliza-se, torna-se igual a todos os outros, e com isso perde muito do seu valor, deixa de ser um autógrafo”.344

O depoimento da filha do escritor, Rute Monteiro Lobato, apresenta-nos um lado muitas vezes esquecido ou, às vezes, maquiado de forma harmônica: a relação do escritor com a sua produção literária e a sua vida familiar. Rute descreve o exercício literário do pai considerando a privacidade da esfera doméstica:


Em casa levava vida frugal e quase espartana. Nunca o via sem estar a escrever, a traduzir ou a rever provas. Dormia e comia pouco. No meio da noite costumava acordar e se por a rever provas – para desgosto de minha mãe que com isso nunca se acostumou.345
Segundo a neta de Lobato, Joyce Campos Kornbluh, que com freqüência passava na infância as noites na casa do avós, Lobato dormia pouco, mais ou menos até a meia-noite, depois ia trabalhar. Ela dormia num quarto contíguo ao dos avós e, quando acordava no meio da noite, “ele estava lá escrevendo a máquina com os dois dedos, toc-toc. Por isso que ele estava sempre de pijama, porque ele levantava, depois voltava para a cama e dormia até as oito”.346


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