Por entre pobres, doentes e desvalidos



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O Pobre é Nossa Riqueza”: A Atuação da Sociedade São Vicente de Paulo na Província de Goiás (1885-1888)1
Rildo Bento de Souza2
Resumo:

A primeira Conferência Vicentina em solo goiano foi fundada em 1885 na Cidade de Goiás. Posteriormente, fundaram-se outras, sempre pautadas no ideal da caridade aos pobres. A estes eram dedicados todos os esforços para ampará-los material e espiritualmente. O apogeu dessa rede de assistência foi a construção do Asilo São Vicente de Paulo, cuja inauguração ocorreu em 1909. Entretanto, o objetivo deste ensaio é compreender o processo de instalação e a atuação da Sociedade São Vicente de Paulo na Província de Goiás.

Palavras-Chave: Sociedade São Vicente de Paulo, Conferências Vicentinas, Sociabilidade.


1. INTRODUÇÃO
Os confrades leigos da Sociedade São Vicente de Paulo atuam no Estado de Goiás desde 1885, em diversas obras de caridade. A construção do Asilo São Vicente de Paulo e a sua inauguração em 1909, com o objetivo de abrigar os pobres que se aglomeravam pelas ruas da antiga capital, e posteriormente a construção da Santa Casa de Misericórdia de Goiânia – só para ficar nestes dois exemplos – demonstram o ideal da sociedade leiga criada por Frederico de Ozanam, qual seja, a caridade.

Mas como essa Sociedade, ou melhor, o ideal desta Sociedade chegou a Goiás? Porque este ideal foi tão bem recebido pelos vilaboenses? Que objetivos se escondiam por trás deste ideal? Por fim, como funcionou esta Sociedade nos seus primeiros anos de atuação em Goiás e principalmente na sua capital?

Para responder a tais inquietações tivemos que traçar um caminho próprio, pois não conhecemos nenhum trabalho acadêmico sobre este objeto, e deste modo, as fontes se revelaram muito importantes. Basicamente, nosso trabalho centra-se em três personagens históricos, a saber, São Vicente de Paulo, Frederico de Ozanam e Dom Claudio. Através deles procuraremos discutir o processo de instalação da Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás.
2. A CARIDADE COMO IDEAL: DE SÃO VICENTE DE PAULO A FREDERICO DE OZANAM
Neste tópico aprofundaremos na atuação de São Vicente de Paulo e de Frederico de Ozanam, fundador da Sociedade batizada com o nome do santo francês. Apesar de possuir a semelhança no nome, 173 anos separa a morte do primeiro e o surgimento da segunda. Destarte, São Vicente de Paulo3 viveu entre 1581 a 1660, sendo canonizado pelo papa Clemente XII (1652-1740) em 1737. Filho de camponeses, São Vicente nasceu em Pouy, na França. Tinha um tio que administrava um hospício local que atendia os viajantes e peregrinos pobres. Foi ordenado diácono em 1598 e sacerdote em 1600. Terminou os estudos em Toulouse em 1604.

Na sua biografia algumas passagens tornaram-se conhecidas, a exemplo de quando em um domingo, antes da missa, alguém pediu a São Vicente para convidar pessoas benevolentes com o intuito de ajudar uma família pobre e doente que pertencia à paróquia. Feito o pedido, a resposta das senhoras foi surpreendente, dando origem ao grupo das Damas da Caridade, que atualmente constituem a Associação Internacional das Caridades (AIC).

Outro fato, e talvez um dos mais importantes da sua vida, foi quando, em 1625, Madame de Gondi convenceu São Vicente a formar uma congregação de padres com o objetivo de pregar o Evangelho aos pobres. São Vicente acolheu a idéia prontamente e logo se pôs a levantar fundos para viabilizar a fundação. Estava criada a Congregação da Missão, como se sabe, também conhecida como Lazaristas, por que a primeira casa da Congregação em Paris se chamava Casa de São Lázaro, ou ainda Padres e Irmãos Vicentinos (que nada tem a ver com a sociedade leiga criada por Frederico de Ozanam) é uma congregação religiosa masculina católica. A congregação teve a aprovação episcopal em 1626. A aprovação pontifícia ocorreu em 1634, por meio da bula Salvatoris Nostri do Papa Urbano VIII (1568-1644)4.

Portanto, a origem da Congregação da Missão remonta às missões realizadas por São Vicente de Paulo e cinco outros padres, tendo como principal objetivo a evangelização dos pobres. Entretanto, houve períodos em que o socorro espiritual aos pobres teve que ser transformado em socorro material, como bem mostra CHÂTELLIER a respeito da miséria:



Vicente de Paulo fora um dos primeiros a senti-la em toda a sua dimensão. Por isso nunca abandonava um lugar sem que nele estabelecesse previamente uma confraria de caridade destinada simultaneamente ao socorro dos pobres e à manutenção do espirito da missão. Aliás, esta, considerada stricto sensu, foi substituída, no tempo das grandes misérias dos meados do século XVII, por obras puramente caritativas que, de algum modo, constituíam missões transformadas em actos. Foi particularmente o caso de Lorena, devastada pela Guerra dos Trinta Anos. Cinqüenta anos depois, os padres da sua companhia, os Lazaristas, estabelecidos na diocese de Montauban, agiam do mesmo modo. Durante o terrível ano de 1693, eles eram obrigados a substituir grande numero de exercícios espirituais por distribuições de “pão e sopa aos mais pobres”. (1995, p. 156).

Do final do século XVI e início XVII saltamos para o início do século XIX, onde, por sua vez, a Sociedade São Vicente de Paulo, foi fundada nos idos de 1833, pelo jovem estudante Frederico Ozanam (1813-1853), beatificado em 22 de Agosto, em Paris, pelo Papa João Paulo II (1920-2005). Segundo a sua biografia disponível no site do Vaticano5, Ozanam nasceu na cidade de Milão, na Itália, filho de um médico prestigioso “cuja fama profissional não o impedia de assistir doentes indigentes, com o mesmo cuidado e afabilidade reservados aos pacientes da alta condição social”; sua mãe também era “dedicada à assistência dos pobres e enfermos”.

Em 1831, Ozanam chega a Paris com o objetivo de estudar em Sorbone, e torna-se freqüentador assíduo dos ambientes intelectuais, chegando até mesmo a colaborar com jornais e revistas. Em 1833, com apenas 20 anos, ele “anuncia a um amigo a intenção de realizar finalmente um projecto, que há tempo lhe era muito querido: uma ‘Conferência de caridade’, uma associação de beneficência para a assistência dos pobres”6. Em um documento encontramos o porquê da mudança do nome de “Conferência de caridade”, para Sociedade São Vicente de Paulo:

A 04 de fevereiro de 1834, um dos companheiros de Ozanam (Lião Le Prévost) sugere a adoção do patrocínio de São Vicente de Paulo e o nome de Conferência de caridade é mudado para o de Conferência de São Vicente de Paulo. Por proposta de Ozanam, é invocada a proteção de Nossa Senhora à Conferencia (...)7

Pelo exposto, tudo leva a crer que não foi a biografia de São Vicente de Paulo que inspirou Frederico de Ozanam a fundar as Conferências, e que a própria sugestão do nome partiu de um amigo, que possivelmente conhecia a história do santo francês, e que ligou o que havia de comum ao objetivo de ambos, qual seja, a assistência aos pobres.

Portanto, de São Vicente de Paulo a Frederico de Ozanam o ideal foi sempre o mesmo: o auxilio aos pobres, embora com algumas diferenças práticas. Como ressaltamos anteriormente, o objetivo de São Vicente era o conforto espiritual dos pobres, através da pregação do Evangelho. Por se tratar de uma sociedade leiga, o ideal de Frederico de Ozanam é de criar Conferencias da Caridade, ou seja, reunir esforços e canalizá-los em prol dos pobres, seja através de visitas, de donativos, etc. Os objetivos de São Vicente e Frederico de Ozanam, deste modo, possuem ênfases diferentes acerca de um objetivo comum aos dois, qual seja a caridade, uma vez que para o primeiro o principal era o conforto espiritual, tendo o auxilio material somente em períodos de muita carestia; já o segundo pregava indiscriminadamente a prática da caridade, como condutor das ações, tendo o auxilio espiritual como segundo plano.
3. DE PARIS À GOIAS: O PROCESSO DE INSTALAÇÃO DA SOCIEDADE SÃO VICENTE
Todavia, o que resultou da criação de Ozanam foi uma rede mundial de auxílio aos pobres, por intermédio das Conferências Vicentinas8. Então, da França ao Brasil, do Rio de Janeiro a Goiás, as Conferências da Sociedade São Vicente de Paulo se proliferaram sustentando este pensamento, qual seja, o da caridade. No que se refere a implantação dessa Sociedade em Goiás, poucos foram os documentos que encontramos, e estes, infelizmente, nos fornecem uma visão parcial do episódio.

A Sociedade de S. Vicente de Paulo ennunciou-se em nossa Província pela fundação da 1ª Conferencia que foi installada no dia 29 de Abril de 85 com desesete sócios; a 8 de Dezembro de 869 com grande contentamento de todos os membros foi fundada a Conferencia da Imaculada Conceição creando se nesse acto o Conselho Particular que começou a funcionar desde essa data mais tarde foi creada a Conferencia de S. José de Mossamedes que funciona na freguesia do mesmo nome, distante dessa Capital oito léguas; depois foi creada a Conferencia de S. Luiz Gonsaga (...), finalmente fundou-se em Meia-Ponte a Conferencia de Nossa Senhora do Rosario que já conta com seis seis doze socios activos e doze contribuintes10.

O documento exposto acima, apresenta de forma sucinta a estruturação da Sociedade São Vicente de Paulo, ainda na Província de Goiás; entretanto, dever-se-á considerar alguns aspectos que nessa tentativa de tessitura dos fios que integram a história da referida sociedade ficaram dispersos. A primeira questão que ora levantamos centra-se basicamente no seguinte trecho do documento: “ennunciou-se em nossa Província”. A nossa inquietação, é, portanto, compreender como esse modelo de sociedade chegou a Goiás, ou melhor, quem o trouxe para Goiás.

Encontramos noutro documento o que pode ser o ponto de partida para tentarmos responder à inquietação; trata-se de uma Carta Pastoral11, do início da década de 1880, escrita por Dom Claudio José Gonçalves Ponce de Leão (1841-1924), conhecido como o “Bispo Missionário”. Ao descrever as iniciativas tomadas para “santificar os fieis”, tais como a fundação de casas de missionários, em diversos pontos da província, relata que para “o mesmo fim tanto nos temos empenhado para plantar nesta diocese a sociedade de São Vicente de Paulo (...)” (LEÃO, apud SILVA, 2006, p. 301).

A partir do exposto podemos aventar que a Sociedade São Vicente de Paulo foi introduzida na Província de Goiás pelo então Bispo Diocesano Dom Claudio. Porém, para que houvesse o empenho do bispo para a criação das Conferências, pressupõe uma ligação anterior do mesmo com a referida Sociedade. Partindo deste pressuposto procuramos na biografia de Dom Claudio12 algo que o unisse direta ao indiretamente tanto a São Vicente de Paulo, como a Frederico de Ozanam.

Destarte, Dom Claudio nasceu na cidade de Salvador em 21 de Fevereiro de 1841. Filho do bacharel Domingos José Gonçalves Ponce de Leão e Dona Getrudes Gonçalves de Araújo. Realizou os primeiros estudos de humanidades em sua cidade natal. “Manifestando desejo de se tornar um grande engenheiro, com o que o pai muito concordou, aos 16 anos viaja para a Europa. Em Paris termina seu curso de humanidades para ingressar imediatamente na Escola de Engenharia de Cannes” (SILVA, 2006, p. 284).

Neste primeiro momento dois de nossos importantes personagens históricos – Frederico de Ozanam e Dom Claudio – compartilham o mesmo ambiente, qual seja, a Paris da primeira metade do século XIX. Com base no parágrafo anterior podemos concluir que Dom Claudio viajou para a Europa em 1852. Havia, portanto, apenas 19 anos que Frederico de Ozanam criou a Sociedade São Vicente de Paulo, fato que ocorreu em 1833, como afirmamos anteriormente. No ano em que Dom Claudio chegou a Paris é bem provável que Ozanam ainda residisse lá, por que, embora já doente, ele só retorna a seu país natal, a Itália, no ano seguinte, em 1853, quando falece.

Neste período, embora curto, de 19 anos de instalação da Sociedade São Vicente de Paulo, Dom Claudio possivelmente presenciou a repercussão da obra de Frederico de Ozanam, não somente junto a sociedade parisiense, como ao clero. “Após a fundação da primeira Conferência, começaram a se multiplicar em toda Paris, e logo se instalando em quase todas as províncias da França”13. Entretanto, não foi este episodio que selou os destinos de Dom Claudio com os ideais de São Vicente de Paulo, que aconteceu antes de ter concluído o curso de Engenharia. Cônego Trindade narra este fato da seguinte maneira:

Filho de pais católicos, jamais abandonara as suas práticas de piedade, embora vivesse naquele meio parisiense de muita liberdade e licenciosidade contra a moral cristã. Dom Claudio torna-se conhecedor das virtudes do Cura de Ars. Desce a Ars e se confessa com o santo vigário. Nesta oportunidade, o Padre Vianney lhe dissera que ele não seria mais um engenheiro dos homens, mas sim, um grande engenheiro da salvação das almas. Abandona o resto de seu curso e procura os Padres da Missão de São Vicente de Paulo, os Lazaristas, e se faz religioso em Agosto de 1863, para 1867 ordenar-se presbítero e seguir imediatamente para o Brasil (SILVA, 2006, p. 284).

A propósito de Dom Claudio ter se ordenado junto a Congregação da Missão, aventamos estar aí a explicação do empenho do bispo em fundar a Sociedade São Vicente de Paulo na Província de Goiás. Ademais, é oportuno ressaltar a ausência de Dom Claudio na documentação arrolada para a escrita deste trabalho. Em dois, dos três documentos que procuram fazer um histórico sobre a Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás não há menção ao nome do referido Bispo. O primeiro documento é o já citado relatório datado de 1888, onde há um interessante trecho que ora destacamos:



Conquanto não possamos contar a mesma concurrencia no mesmo fervor de outrora, contudo, não nos é desanimador o estado das nossas Conferencias, pois, desapparecido o enthusiasmo e os effeitos da novidade entre a mocidade ficou o verdadeiro espirito da caridade que é a alma das nossas Conferencias14.

Ao que parece, apenas três anos após a fundação da primeira Conferência em solo goiano, o tom da citação acima é desanimador. Em três anos apenas já havia “desapparecido o enthusiasmo e os effeitos da novidade entre a mocidade”, que era o alvo principal da obra de Ozanam, pois o mesmo tinha 20 anos quando fundou a Sociedade São Vicente de Paulo. Outrossim, vale ressaltar que neste período o Bispo da Diocese de Goiás, ainda era Dom Claudio, que permaneceu no cargo entre 1881 a 1890. Embora desanimador, baixado a poeira da novidade, o que restou foi o “espirito da caridade”, ou seja, a síntese das obras de São Vicente e de Frederico de Ozanam.

Noutro documento, datado de 1975, datilografado pelas irmãs dominicanas, e que possivelmente se embasou no documento citado acima, faz um histórico das Conferências, que também destacamos anteriormente. Até 1888, nestes três primeiros anos de implantação da sociedade, havia na Cidade de Goiás a Conferência da Imaculada Conceição, e a Conferência de São José, ambas com sede na Igreja de São Francisco; a Conferência de Sant’Ana, e a Conferência de São Luis Gonzaga, cujas reuniões se davam no interior da Catedral; a Conferência de Nossa Senhora do Rosário, com sede na igreja de mesmo nome; e a Conferência de São Prudêncio, sede do Conselho Geral e Particular, na Igreja do Carmo15.

A propósito da Sociedade São Vicente de Paulo, ainda nos resta explicar a diferença entre um Conselho Particular e um Conselho Central. Como é sabido, as Conferências são grupos, com numero pré-determinado de homens, que se reúnem com regularidade e freqüência. As Conferências de determinada cidade estão unidas entre si pelos Conselhos Particulares. Estes, por sua vez, estão vinculados aos Conselhos Centrais, de caráter executivo, que responde por determinada circunscrição16. A Cidade de Goiás, neste periodo que abordamos, era a sede destes dois Conselhos. Ademais, o Conselho Particular foi criado em 08 de Dezembro de 1886, tendo como primeiro presidente o Comendador Joaquim Rufino Ramos Jubé.

Por conseguinte, cada Conferência funcionava com um número específico de Confrades, que variava de dez a vinte e quatro17. Ainda com base no referido documento, encontramos um forte indício a respeito do desaparecimento do enthusiasmo da sociedade vilaboense com a Sociedade São Vicente de Paulo: “Ainda neste ano de 1888 deu-se a Agregação das Conferências São Luis de Gonzaga, N. Senhora da Conceição desta Capital”18. Podemos aventar que a agregação das Conferências foi uma resposta à falta de enthusiasmo que, para não desaparecerem, por não atingir certo numero de confrades, se uniram.

Por fim, o único documento que cita Dom Claudio, como o precursor da Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás, não tem data, e assim como o documento citado acima, foi fruto de uma pesquisa das irmãs dominicanas para traçar um histórico tanto da instituição, quanto da Sociedade que a construiu. Isso fica evidente na última frase do documento: “Dados retirados do Arquivo do Azilo São Vicente de Paulo de Goiáz”19. O interessante é que não encontramos os documentos originais onde esses dados foram retirados20. O trecho que cita o bispo é o seguinte: “A Sociedade de S. Vicente de Paulo iniciou-se em nossa Província pela fundação da 1ª Conferencia que foi instalada por D Claudio Ponce de Leão no dia 29 de abril de 1885 com 17 sócios”21.

Embora praticamente ausente da documentação arrolada a sociedade vilaboense recebeu o sucessor de D. Joaquim Gonçalves de Azevedo, e futuro responsável pela Diocese de Goiás22, Dom Claudio, com muito ânimo. No dia 30 de Setembro de 1881, quando ocorreu a festa da chegada do Bispo na capital da Província, o mesmo foi saudado com um discurso inflamado do Monsenhor Joaquim Vicente de Azevedo23 que em parte transcrevemos:

O decano dos sacerdotes do Bispado, seus irmãos em Jesus Christo e todos os cidadãos presentes, vêm hoje demonstrar o jubilo pela entrada do Exmo. Sr. Bispo na Cathedral de sua Diocese, dedicando amor e profundo respeito para com a sagrada pessoa de V. Excia. Revma., vulto eminente, designado pelo pastor dos pastores, pae dos orphãos e amigo dos desvalidos, para dignamente resplandecer no augusto solio (AZEVEDO, apud SILVA, 2006, p. 286-287).

Com efeito, embora recém chegado à província de Goiás, o discurso de Monsenhor Joaquim Azevedo delineia a personalidade de Dom Claudio. Ao se referir ao bispo como “pae dos orphãos e amigo dos desvalidos”, podemos aventar que, mesmo o Monsenhor Joaquim não o conhecendo pessoalmente, pois antes de ser transferido para Goiás, o Bispo passou pelas províncias do Ceará, Bahia e Rio de Janeiro, a sua ordenação junto a Congregação da Missão já pressupõe esses adjetivos. Possivelmente, por se preocupar com os pobres, Dom Claudio plantará esse ideal na província de Goiás, por intermédio da Sociedade São Vicente de Paulo.

Doravante, Dom Claudio, após ficar nove anos à frente da Diocese goiana é transferido para Porto Alegre, e posteriormente torna-se Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro e falece em 26 de maio de 1924, “como um humilde filho de S. Vicente de Paulo” (SILVA, 2006, p. 314). A remoção de D. Claudio causou “consternação, uma vez que aquele chefe da Igreja goiana era geralmente estimado em toda a Província”; sendo ele, por exemplo, quem levou a Roma, “para ser oferecida a Leão XIII, uma imagem do Menino Deus, valioso trabalho do grande escultor goiano Veiga Vale” (FERREIRA, 1980, p. 61).

Até o momento tentamos reconstituir a história da Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás. Para isso centramos a nossa análise em três personagens, qual seja, São Vicente de Paulo, Frederico de Ozanam e Dom Claudio. Sobre estes três ainda resta discutir um ponto que ficou disperso páginas atrás, quando afirmamos que os objetivos de São Vicente de Paulo e Frederico de Ozanam possuem ênfases diferentes em torno de um mesmo objetivo: a caridade. Poder-se-ia afirmar que tanto os objetivos de um, quanto de outro, encontram na figura de Dom Claudio uma ligação. O bispo se ordenou na Congregação fundada por São Vicente, ou seja, o seu epíteto de “Bispo Missionário” não foi por acaso, pois isto foi o que fez São Vicente a vida toda, criou Missões com o intuito de evangelizar, principalmente os mais pobres. Em Paris, conheceu a obra de Frederico de Ozanam e viu aí um complemento para os seus objetivos, uma vez que as Conferências eram compostas de leigos, que poderiam ajudá-lo no repasse dos ensinamentos do Evangelho e o melhor de tudo, ajudar materialmente os pobres. Criada a Sociedade em Goiás, plantada essa semente, Dom Claudio ainda assistiu aos primeiros atos do que se seria a maior obra de assistência aos pobres das Conferências Vicentinas até então: o Asilo São Vicente de Paulo.


4. A CARIDADE COMO MISSÃO: OS PRIMEIROS ANOS DA SOCIEDADE SÃO VICENTE DE PAULO NA CIDADE DE GOIÁS
A partir de agora iremos aprofundar na atuação das Conferências Vicentinas na Cidade de Goiás no período de 1885 a 1888, ou seja, anterior a idéia da construção do asilo, que se deu em 1889. Este período de três anos, embora curto, é interessante para procurarmos compreender como foi o início dos trabalhos das conferências em solo goiano. Neste sentido, um dos principais indícios é o documento supra citado, qual seja, o relatório de 1888, cujo teor do mesmo centra-se no trabalho da Sociedade São Vicente de Paulo que era voltado para quatro principais obras: a Escola Noturna, Obra dos Enterros, a Doutrina Cristã e as Visitas às prisões e hospitais. Quanto a primeira, essa era uma obra dedicada:

(...) a instrucção dos pobres foi mantida pelo Conselho Particular por espaço de um anno, vencendo a Sociedade grandes obstáculos para poder manter uma obra com que não fazia pequena despesa; a Providencia porém, que tudo vê e tudo sabe, lembrando se dos ardentes desejos da Sociedade fez com que o Governo Prov.al fundasse uma escola nocturna em mesmo predio em que funccionava a nossa, as mesmas horas e com os mesmos regulamentos, o que foi para nós de grande contentamento, pois vemos assim a obra de Deus com mais força e mais estabilidade, permitta Deus que essa instituição tenha sempre em sua frente um Director de uma moral capaz de produzir bons cidadãos24.

A propósito do referido documento, podemos observar que o Governo Provincial instituiu uma escola noturna onde funcionava a escola mantida pela Sociedade São Vicente de Paulo. Ademais, nota-se que quando se transferiu a responsabilidade para o governo, conservou-se o prédio, o horário e o mais importante, o regulamento. Isso evidencia que, o objetivo dos vicentinos, qual seja, a instrução dos pobres, se manteve com a mudança de administração. Entretanto, não encontramos nos relatórios dos presidentes de província, qualquer menção sobre a criação desta escola noturna. O único fragmento sobre a mesma foi localizado no relatório do Sr. Dr. Fulgêncio Firmino Simões datado de 1888, quando se aborda a questão da nomeação de professores: “para a noturna da capital o cidadão José Gomes dos Santos (...)”25.

A segunda obra é a respeito dos enterros, que a Sociedade São Vicente de Paulo realizava junto aos pobres, como bem mostra outro trecho do relatório de 1888:

Depois de grande difficuldade vimos concluido o carro funebre, obra que acha começada a um anno e tanto, dependendo ainda da construcção de uma casa para seo deposito e acquisição de animaes para o seu costeio. Nem por isso esmorecemos ainda, pois é mais fácil termos encontrado difficuldades com acquisição de operarios do que com os meios para levar a effeito tão importantes obras26.

A função de enterrar gratuitamente os indigentes era desempenhada pelo Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara (MAGALHÃES, 2004, p. 19). Aventamos, que depois de 1885 as conferências da Sociedade São Vicente de Paulo cuidariam deste trabalho. Em 09 de setembro de 1888, por exemplo, a Conferência da Imaculada Conceição pagou “hum mil e duzentos réis” ao senhor Manoel da Costa Leite, “proveniente de um caixão de anjinho feito pelo referido”27.

Noutro passo, a Doutrina Cristã, a terceira obra na qual se dedicou a Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás era inicialmente de responsabilidade do confrade José Ignácio da Luz e Azevedo, e posteriormente:

(...) passou a sê-lo pelos Padres Dominicanos, obra que a elles declinamos de muito bom gosto, pois, infelismente, podemos com franqueza dizer que mais serviamos para discípulos que para mestres de doutrina, pois nesse ponto é geral a indolencia dos pais de familias que tudo deixam aos cuidados dos mestres que lhes ensinam a bôa ou má moral28.

Os primeiros padres dominicanos chegaram ao Brasil em 1878 no Rio de Janeiro. Em 1881, assim que assumiu a Diocese de Goiás, Dom Claudio convidou os frades dominicanos para serem seus colaboradores “na consolidação da Igreja em Goiás”. Ademais, Dom Claudio, era um “dos mais ardorosos defensores da romanização da igreja” (SANTOS, 1996, p. 76).

Portanto, sendo Dom Claudio um Bispo que tinha por objetivo romanizar a Igreja, tornando-a mais próxima do catolicismo europeu – onde ele estudou – solicitou a ajuda de frades dominicanos que vieram da França. Este processo de romanização é a aplicação das determinações do Concílio de Trento, ou seja, do Movimento Tridentino no Brasil. O Concílio de Trento foi realizado pela Igreja Católica entre 1542-1562, e só trezentos anos depois suas resoluções foram aplicadas no Brasil, por que até então o país vivia sob o regime do Padroado Régio, onde a Igreja não possuía fortes vínculos com a Santa Sé e sim com o Reino Português.

Outrossim, uma das primeiras medidas impostas foi a substituição do leigo, ou seja, o leigo perde, deste modo, a sua autonomia religiosa, que passaria a ter validade com a aprovação do clero. Assim, as Irmandades religiosas fundadas e dirigidas por leigos sob a proteção de um orago tradicional, como Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, São Benedito, etc., foram substituídas por associações leigas voltadas para os outros santos em voga na Europa (SANTOS, 1996, p. 70).

Em Goiás isso fica evidente por meio da Sociedade São Vicente de Paulo, que foi fundada por um Bispo reformador, que instituiu a devoção a outros santos, até então desconhecidos, como São Vicente de Paulo, cuja festa era, neste período, realizada com um tríduo; ou por meio dos nomes das Conferências Vicentinas, dedicadas a outros santos, como São Prudêncio, São Luis Gonzaga e Imaculada Conceição, etc.

Por conseguinte, a pregação da Doutrina Cristã, em plena sintonia com os mandamentos da Santa Sé era um dos principais objetivos da Reforma Ultramontana, como também era conhecida. Portanto, tal empresa não poderia ser feita pelos leigos e sim por pessoas capacitadas como os frades dominicanos. Enquanto a Igreja cuidava do aporte espiritual, aos vicentinos caberia angariar fundos e canaliza-los em prol dos pobres. Deste modo, novamente se descortina os objetivos, ou os ideais, de São Vicente de Paulo e Frederico de Ozanam, que a nosso entender, como afirmamos páginas atrás, estão simetricamente opostos.

Finalmente, as visitas às prisões e aos hospitais compreendiam uma das mais importantes obras para os vicentinos, porque traziam “grandes resultados e muitas consolações”. Contudo, nem todos os vicentinos se dispunham a realizar tais visitas, por que não se podia “contar com alguns piedosos confrades que a exemplo das Conferencias do Rio de Janeiro e outros pontos do Brasil” se dirigiam tanto as cadeias, quanto aos hospitais29. Ademais, o documento traça um quadro perturbador desses dois estabelecimentos:

(...) às cadeias onde encontrarião os presos entregues a um meio horrível onde só encontram meios de maior perdição que verdadeira correcção; aos hospitaes onde os enfermos illudidos a uma triste esperança de viver sempre enganados por levianas animações, nunca se lembrão do verdadeiro caminho á seguir; é assim que vimos duas classes de desgraçados, bem pobres e que não encontram quem lhes leve uma esmola para alimentar o seu espirito, por aqui vemos bem claramente que nem sempre é grande esmola atirarmos simplesmente a sacola do pobre um punhado de ouro, ao passo que seria de grande virtude aquelle que não tendo ouro e que desejando ser util a nossa cara Sociedade se dirigisse a casa do pobre e alli lhe consolasse em sua dôr, que se dirigisse ao cárcere e mostrasse ao criminoso o caminho do arrependimento que se dirigisse finalmente ao hospital e ahi de leito em leito consolasse esses pobres enfermos mostrando-lhes Deus, o medico do corpo e da alma30.

A visita aos pobres constituía uma das principais bandeiras de São Vicente de Paulo, de Frederico de Ozanam e da sua Sociedade. No referido documento encontramos dois pólos onde se concentravam essas visitas, qual seja, a cadeia e o hospital. A respeito dos mesmos o relatório centra-se em duras criticas, quanto a correção e a cura dessas “duas classes de desgraçados”. Tanto em relação a cadeia, como ao hospital, os apontamentos dos confrades Vicentinos encontram eco nos relatórios dos presidentes de província. Em 1881, por exemplo, o então Presidente da Província, Dr. Aristides de Souza Spinola detectava, em relação as cadeias:



É pessimo em geral, o estado das cadêas da provincia. (...) A provincia despende annualmente não pequena quantia com os presos relhidos na cadêa desta cidade, onde vivem em damnosa ociosidade. São intuitivas as vantagens que resultarião de sujeital-os ao trabalho, visando dous fins: a correcção do delinqüente e a economia para os cofres provinciaes. As despezas com os presos devem ser tanto quanto possível, pagas por elles proprios. (...) O trabalho é também necessário para a hygienne da prizão. Muito conviria crear-se tambem na cadêa uma escola nocturna para a instrucção dos sentenciados e dar-lhes igualmente o ensino religioso. (...) Fundadas as officinas, o prezo, em lugar de custar á provincia 400 r.º diarios, E, então, a prizão, hoje morada de ociosos corrompidos, que vivem a custa do imposto pago pelas classes trabalhadoras e moralisadas, será transformada em centro de trabalho, em casa de moralidade, de onde sahirão muitos productos para o consumo da sociedade, e onde se poderá, pelo trabalho, pela religião, conseguir a regeneração do delinqüente31.

Neste mesmo sentido, o relatório de Fulgêncio Firmino Simões, datado de 1887, revela o estado desses dois estabelecimentos. É oportuno ressaltar que o citado presidente não era de Goiás, e assim que assumiu a administração andou em todos os prédios para conhecer a realidade dos mesmos, como era de praxe, apesar “dos poucos dias que tenho na administração e do muito trabalho e fadigas de uma viagem longa e em penoso meio de transporte”32. Suas considerações quanto a cadeia são as seguintes:



Não são boas as condições da cadêa desta capital, sendo para lamentar que o estado da provincia não permitta que decreteis qualquer medida no sentido de melhoral-a, augmentando-a de maneira que possa comportar o numero de presos, que ali se achão actualmente muito accumulados, pois que para ella são remettidos de toda a provincia, visto ser a única que offerece verdadeira segurança33.

Um dos principais problemas detectados pelo então presidente foi o acumulo de presos, ou seja, a superlotação da cadeia. O prédio da cadeia, como se sabe, foi construído em 1761, e está localizado no largo do Chafariz34. Com base no relatório da Sociedade São Vicente de Paulo e nestes dois, uma questão emerge: por que havia tantos pobres na cadeia? Durante o Império, aqueles que “praticavam a mendicância, mas eram reconhecidos como vadios, havia a repressão da lei e da polícia e o confinamento correcional na Cadeia Pública” (RABELO, 1997, p. 69).

Ou seja, a mendicância está relacionada com o aumento de prisões, e a cadeia, naturalmente, se transformou em um lócus de atuação da Sociedade São Vicente de Paulo. Como evidencia o primeiro relatório, há uma preocupação do presidente em relação a disciplinar o preso ao trabalho, como condição de higiene para a prisão35. O segundo, por sua vez, concentra-se na falta de espaço físico para abrigar os presos, reclamando o aumento da cadeia. Entretanto, nestes dois relatórios emerge o problema da mendicância na capital de Goiás. Em 10 de fevereiro de 1881, por exemplo, o Dr. Theodoro Rodrigues de Moraes, 1° Vice Presidente, declarava que por “muitas vezes homens robustos e mulheres ainda capazes do trabalho, têm apparecido no meu gabinete, pedindo esmolas!”36.

Por conseguinte, o segundo estabelecimento é o Hospital de Caridade São Pedro de Alcântara, fundado em 1825, tendo a proteção de D. Pedro I, por meio de Carta Imperial datada de 25 de janeiro, com o objetivo de abrigar os enfermos pobres37. Sobre esta instituição, um relatório de 1887 faz as seguintes considerações:



De visita que fiz ao Hospital de Caridade de S. Pedro de Alcântara, a cargo da Santa Casa de Mizericordia, e que a provincia auxilia parcamente, si attender-se aos seus recursos, trouxe uma impressão desagradavel. Essa instituição, com quanto dirigida com zelo e pode-se mesmo dizer com escrupulosa economia, funcciona em um edificio a todos os respeitos inconveniente, e seria para desejar que, correspondendo aos sacrificios da provincia, tão importante instituição, para onde estão voltados os olhares dos ricos e dos pobres, porque é de uns e outros que tira os meios de manutenção, mudasse as condições precárias de seu hospital, tornando-o capaz de o ser e procurando satisfazer o seu fim, que é enchugar as lagrimas dos que soffrem, praticando a mais sublime das virtudes – a Charidade38.

Como podemos observar, as condições de salubridade desses dois estabelecimentos, nomeadamente, a cadeia e o hospital, onde se encontravam essas “duas classes de desgraçados”, era péssimo. E talvez por isso, tornar-se-ia o lócus ideal para a atuação dos vicentinos. O relatório da Sociedade São Vicente de Paulo de 1888, tece duras criticas tanto ao sistema prisional, quanto ao sistema de saúde, entretanto, o seu objetivo não é mudar aquela dada realidade, e sim mostrar “ao criminoso o caminho do arrependimento”, e consolar o doente “mostrando-lhes Deus, o medico do corpo e da alma”.

À parte essa questão, às Conferências cabia cuidar de certo de numero de pobres, provendo-os do auxilio material. A título de exemplo, por meio do “1º Livro de recibos das quantias pagas pelo thezoureiro da Conferencia da Immaculada Conceição” é possível identificar como funcionava essa rede de auxílio aos pobres da Sociedade São Vicente de Paulo em Goiás. Neste livro, os confrades escreviam a quantia recebida pelo tesoureiro e onde haviam gasto o dinheiro, seguindo o modelo abaixo:

Recebi do Snr. Josino do Nascimento Marques Fogaça, thezoureiro da Conferencia da Immaculada Conceição, a quantia de doze mil e quinhetos importancia de 15 vales q forneci a tres pobres da mesma Conferencia e por ser verdade passa o presente em que firmo. Goyaz 1º de Setembro de 1888. Lourenço Alves Costa39.

O documento evidencia que primeiramente eles forneciam os vales em dinheiro, ou gêneros, roupas, etc., e depois recebiam o dinheiro do tesoureiro da Conferência. A relação dos vicentinos com os pobres era muito próxima, neste mesmo documento, por exemplo, o confrade Francisco [...] de Sá, requereu no dia 28 de novembro de 1888, treze mil e quinhentos réis proveniente da compra de roupa para “meu pobre”40. Ou seja, cada confrade vicentino era responsável por determinado número de pobres. Sobre essa relação íntima com os pobres, MOLLAT constatou na Idade Média, que o “interesse não era apenas moral – também era espiritual”. Por que ter seus pobres, tal como se tinha seus mansos e seus criados, também significava ter seus intercessores, com o objetivo de redimir seus pecados e ter sua salvação garantida” (1989, p. 149)41.



Não obstante, para visualizarmos as minudências dessa rede de auxílios da Conferência da Imaculada Conceição, elegemos quaro vicentinos, a saber, Lourenço Alves Costa, Manoel Pinheiro Lemos, Antonio Ribeiro da Silva e João Augusto Marques Fogaça, e os acompanhamos em suas movimentações durante o período de setembro a dezembro de 1888.



Lourenço Alves Costa

Data

Com o que gastou

Quanto gastou

Para quantos pobres

01/09/1888

15 vales

12:500 réis

3 pobres

04/10/1888

12 vales

10:000 réis

3 pobres

12/11/1888

12 vales

10:000 réis

3 pobres

01/12/1888

16 vales

17:500 réis

4 pobres




Manoel Pinheiro Lemos

Data

Com o que gastou

Quanto gastou

Para quantos pobres

01/09/1888

10 vales

7:500 réis

2 pobres

03/10/1888

Gêneros

6:000 réis

2 pobres

03/11/1888

8 vales

6:000 réis

2 pobres

02/12/1888

10 vales

7:500 réis

2 pobres




Antonio Ribeiro da Silva

Data

Com o que gastou

Quanto gastou

Para quantos pobres

01/09/1888

10 vales

7:500 réis

2 pobres

03/10/1888

Gêneros e 8 vales

6:000 réis

2 pobres

03/11/1888

8 vales

6:000 réis

2 pobres

05/12/1888

10 vales

7:500 réis

2 pobres




João Augusto Marques Fogaça

Data

Com o que gastou

Quanto gastou

Para quantos pobres

01/09/1888

35 vales

26:250 réis

7 pobres

04/10/1888

26 vales

19:500 réis

7 pobres

12/11/1888

23 vales

17:200 réis

7 pobres

03/12/1888

25 vales

19:350 réis

7 pobres

Considerando que cada confrade cuidava de determinado número de pobres, chegamos ao total de 14 pobres ajudados pelos quatro vicentinos nos meses de setembro a novembro e 15 pobres no mês de dezembro. Dever-se-á considerar que os quatro representam parcela pequena dos membros da Conferência da Imaculada Conceição. O mesmo ocorria na Conferência de São Luiz Gonzaga, “que é composta de jovens estudantes que muito dão a esperar”42, que em 1888 possuía 10 sócios assíduos, 2 remissos, 1 que não compareceu por justo motivo, 2 ausentes, e 2 que foram eliminados, totalizando 13 sócios ativos. Estes, por sua vez, socorreram 18 pobres, distribuindo para os mesmos 138 vales de janeiro a julho de 188843. Ademais:



Quanto aos socios, têm cumprido com escrupuloso cuidado, os preceitos que prescreve o nosso Regulamento, relativamente a visita das familias pobres. Destas não ha um só membro que não seja Catholico, e todos satisfazem os mandamentos da Igreja. A Conferencia continua a patrocinar o casamento de donselhas pobres e de amansebados44.

Esse documento é interessante por descortinar um outro viés de interpretação da atuação da Sociedade São Vicente de Paulo. Por meio dele é possível perceber a junção dos ideais de São Vicente de Paulo e Frederico de Ozanam. Por que, para serem assistidos pelos confrades, os pobres deveriam ser católicos e praticar os mandamentos da Igreja. Uma vez cumprindo esses requisitos receberiam para além do conforto espiritual, como ressaltamos páginas atrás, o conforto material, com recebimento de vales, de roupas, aluguel de casas, de comida, patrocínio de casamentos – principalmente dos amancebados – fornecimento de caixões, etc. Talvez, o não cumprimento desses requisitos – o ser católico – fez com que a Conferência de São Luiz Gonzaga suspendesse o auxilio a dois pobres45.

Mas à parte essa questão, como funcionava o financeiro dessa rede de assistência? O dinheiro era oriundo da coleta entre os confrades, da contribuição da sociedade, e de eventos promovidos para arrecadar dinheiro, como leilões, espetáculos teatrais, etc. Anna Joaquina da Silva Marques, autora de um memorial que vai de 1881 até 1930, presenciou o esforço da Sociedade São Vicente de Paulo em angariar recursos. No dia 19 de julho de 1885, por exemplo, um domingo “Hove leilão da irmand.e de S. Vicente de Paulo; mto concorrido p.lo jovens Goyano”46. Na noite de 1° fevereiro de 1886 “(...) hove Theatro em em beneficio de S. Vicente de Paula. (Vingaça de 1 escravo, e a comedia o morto embargado) esteve mto concorrido nós não fomos”47. No dia 23 de julho de de 1886, eu Nhola e Lili fomos a novena de S. Vicente de Paula. Houve Leilão”48. Mais adiante, no dia 21 de julho de 1889 “houve leilão de S. Vicente de Paula houve mtas prendas q’ forão arrematadas”49. Por fim, em 8 de dezembro de 1889 teve lailão de S. Vincente de Paula p.a q’ o rezultado fosse o din.o distribuido com os pobres. Nhola Lili e Eu offerecemos objectos, p.a esse fim”50.

Nestas passagens retiradas do Memorial de Lembranças de Anna Joaquina há uma frase muito interessante, a saber, “Hove leilão da irmand.e de S. Vicente de Paulo; mto concorrido p.lo jovens Goyano”. Iremos partir a análise do último trecho, quando afirma que o evento promovido pela Sociedade São Vicente de Paulo foi muito concorrido pelos jovens. Isso aconteceu em 19 de julho de 1885, ou seja, apenas três meses depois de fundada. Isso vem corroborar com aquele outro documento citado páginas atrás que fala que o entusiasmo – isso em 1888 – já não era o mesmo de outrora, devido principalmente por que baixou a poeira da novidade.

Noutro passo, a forma como Anna Joaquina se referiu à Sociedade São Vicente de Paulo – como uma irmandade, é um interessante indício sobre o modo como a sociedade vilaboense lidava com a Reforma Ultramontana. Mesmo após a substituição das Irmandades por novas associações, como a Sociedade São Vicente de Paulo, a população ainda os via como uma Irmandade. A semelhança entre essas duas associações leigas permite tal comparação.

Concluindo a questão da rede de assistência aos pobres, se levarmos em consideração o número de Conferências, em torno de seis, podemos estimar que o número de confrades fosse de no mínimo sessenta. Outrossim, se cada vicentino assistia no mínimo um pobre – há casos de um só atender sete – é notório que essa rede de assistência entraria em colapso; por que, de um lado temos a diminuição do número de vicentinos, e de outro o aumento no número de pobres, como evidencia o caso de Lourenço Alves Costa, que em dezembro de 1888, como mostra a tabela acima, aumentou de 3 para 4 o numero de pobres que assistia. Todos esses indícios são apontados como os principais fatores para a construção do asilo.

A Sociedade S. Vicente de Paulo em Goiás, tendo em vista a avultada quantia que mensalmente despendia com alugueis de casas para os seus pobres e a dificuldade de alimenta-l los, concebeu a idéia de adquirir um prédio com as necessarias acomodações afim de melhor tratá-los em conjunto51.

Para além da economia financeira que para a Sociedade São Vicente de Paulo a construção do asilo representaria, este objetivo também evidencia a questão do asilamento desses indivíduos, ou seja, retirá-los das ruas, praças, becos e vielas e encarcerá-los dentro de um lugar, onde o discurso da caridade, também esconde uma questão mal resolvida historicamente, qual seja, o problema dos mendigos, doentes, velhos, alienados mentais que punham em risco a salubridade da Cidade de Goiás. Entretanto a idéia para construção do asilo nasceu pouco tempo depois das Conferências Vicentinas se instalarem em Goiás, o que evidencia que a preocupação ao problema da mendicidade era constante.



Esta idéia nasceu em 1886, mas não foi aceita pela maioria dos sócios e permaneceu adormecida por dois anos sendo então renovada em 1888 e aprovada por grande maioria, mas não teve a devida execução. Em 1889 a Conferência de N. S. do Rosário da Capital a adotou alugando para esse fim dois prédios contíguos na rua Passo da Pátria, nos quais reuniu diversos pobres por ela socorridos52.

Esta preocupação, por sua vez, emerge a questão da salubridade, que mencionamos rapidamente páginas atrás. O medo das infecções e das epidemias fez a classe dominante agir nas residências. O asilo, neste sentido, seria um depósito onde se colocaria os indesejados da sociedade. Na primeira metade dos oitocentos, por exemplo, a solução encontrada para a circulação do ar na Cidade de Goiás foi a construção de sobrados “para anexar dependências indispensáveis à vida ou ao trabalho de seus moradores e, principalmente, para resolver o problema da aeração” (MORAES, 1999, p. 132). Por outro lado, o pobre não possuía este recurso; morava, mais comumente, nas praças da cidade, exalando seu odor característico53; ou seja, era preciso “acuar a infecção no interior da casa do miserável” (CORBIN, 1987, p. 184). Mas se ele não as tinha era necessário provê-lo, e o aluguel de casas para os miseráveis vilaboenses onerava as Conferências54. Será que por trás do discurso da caridade a respeito da construção do asilo existem intenções puramente de auto defesa contra a proliferação das doenças que esses pobres atrairiam?

Pois bem, consoante o fato da idéia para construir o asilo ter surgido no ano de 1886, somente em 1899 ela irá se concretizar. Entretanto, algumas Conferências, como a de N. S. do Rosário da Capital não esperou pelo Conselho Particular, alugou, ainda em 1888, dois prédios onde reuniu os pobres por ela assistidos. Esse argumento corrobora com a hipótese do asilo ter sido construído para abrigar os negros recém libertos da escravidão. Havia urgência para abrigar os indigentes!

A idéia da construção do asilo foi aprovada em sessão do dia 16 de setembro, sob proposta do confrade João Cardoso D’Avila. De acordo com a proposta, o objetivo era “edificar um grande estabelecimento com cômodos necessários e higiênicos” 55. Foi nomeada uma comissão para elaborar o plano de trabalho e a planta do edifício, que foram aprovados no dia 23 de setembro. É oportuno ressaltar a rapidez com que a obra, nesta primeira etapa foi conduzida, em apenas sete dias, a comissão realizou tanto o estudo, quanto a planta do futuro asilo. Nesta mesma data foi nomeada nova comissão, esta, por sua vez, com a missão de realizar a construção, e na oportunidade o Conselho Particular concedeu a importância de cem mil réis para as primeiras despesas.

A planta do edifício foi elaborada por João Cardoso D’Avila, o mesmo que o propôs, e teria, segundo esse projeto, a forma quadrangular medindo 80 metros cada lado. Encontramos esta planta nos arquivos do asilo, e a comparando com o prédio atualmente vemos que pouco dela se aproveitou. Uma das primeiras modificações foi feita pelo Prof. Henrique Peclat, que alterou a parte da frente, a fim de se construir “dois salões separados por um corredor, sendo um para a Capela e outro de reunião da comissão administrativa do edifício”56. Ademais, para executar a empreitada o Conselho Particular:

Requereu ao Conselho Municipal o terreno preciso, medindo 14.400 metros quadrados que lhe foi concedido pelo Prefeito José Neto Carneiro Leão com a lei n° 67 de 30 de novembro de 1899 e medido e demarcado o mesmo ao logradouro público, em local aprazível e higiênico. Foi lhe passada a respectiva provisão em 07 de fevereiro de 190057.

A falta de uma higiene adequada pode estar por trás da mal sucedida intenção de comprar uma casa para servir de asilo, em 18 de abril de 1900. Na oportunidade as obras foram interrompidas e o Confrade Jesus, propôs “a compra da casa da herança de [...] Ferreira da Costa para servir de Azylo; o que é approvada e [...] a quantia de 5:000 no maximo pª. a dita compra. Sendo nomeada uma Commissão composta dos Confr. [...]”58. Esta Comissão teria a missão de apresentar um relatório sobre o estado e a higiene da casa.



Em sessão do dia 16 de maio a Commissão apresentou o seu relatorio declarando que a casa não se prestava ao fim que se tinha em vista e que a Sociede. devia prosseguir na construcção do novo Azylo; pareceu esta que foi app.59

A documentação arrolada não esclarece o motivo principal, mas o não enquadramento da casa dentro das condições de higiene ideais, pode ter influenciado na desistência da compra, que seria muito mais viável para a Sociedade São Vicente de Paulo. Segundo o documento citado anteriormente o terreno onde seria construído o asilo, se localizava em local “aprazível e higiênico”.

Primeiramente, há que se considerar que antes mesmo de sair o relatório da comissão que ficou encarregada de analisar a possibilidade da compra de uma casa para instalar o asilo, que ocorreu em 16 de maio de 1900, o Conselho Particular da Sociedade São Vicente de Paulo, em 25 de abril do mesmo ano, nomeou outra comissão denominada de “Comissão angariadoura de donativos pª. a construcção do Azylo (...)”60. Esta comissão teve curta duração, pois como atesta o mesmo documento, ela é dissolvida em 4 de julho de 1900. Entretanto, o fato de se instituir uma Comissão que tinha como objetivo angariar recursos não deve ser relegado, pois ela evidencia o grau de organização da Sociedade São Vicente de Paulo.

No decorrer da construção do edifício, os vicentinos tiveram “como auxilios: - Dadivas particulares – Espectaculos publicos – Leilões – Subvenção do Municipio e do Estado, e quotas de loterias”61. Outrossim, de acordo com Francisco Azevedo:



A quantia despendida até a sua inauguração attinge a cifra de 39 contos, assim discriminada: esmolas, 14 contos; auxilio da União por meio de loterias, 12 contos de réis; auxilio do governo estadual, 8 contos de réis; auxilio municipal, 5 contos de réis62.

Noutro passo, podemos aventar, a partir do exposto, que a questão do medo do contágio, e principalmente, da proliferação de epidemias na Cidade de Goiás, criada na encosta de duas serras, o que dificulta a passagem do ar, e facilita a disseminação de doenças, foi canalizada na figura do indigente, do mendigo, do pobre, etc. A partir, principalmente, dos trabalhos de MORAES (1995) e RABELO (1997), que discutem o modo como o poder público tratou esses indivíduos desde o segundo quartel do século XIX até o fim do Império, demonstram que este problema ficou mal resolvido. Mesmo a Sociedade São Vicente de Paulo, revestida do discurso da Caridade Cristã, esforçou-se para abrigar, alimentar, vestir, casar, velar esses indivíduos, mas o trabalho resultou inútil. Nesta perspectiva, o Asilo, criado neste contexto, tornou-se um marco para os vilaboenses, prometendo resolver o problema da mendicidade que se arrastava há séculos.



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