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Evolução portuguesa do jornalismo cultural
Teresa Maia e Carmo*
Janus 2006

Falar de jornalismo cultural em Portugal começa pela constatação da enorme falta de estudos e dados sobre o assunto.

A própria definição do que é “jornalismo cultural” é ambígua e discutida em colóquios restritos sem que se chegue a conclusões consensuais. A cultura e os espaços que a imprensa lhe dedica sofreram grandes transformações nos anos recentes e o máximo a que ambicionamos nesta breve reflexão é traçar alguns dos caminhos e tendências actuais do género.

Para encurtar razões, usemos como mero delimitador conceptual a definição que a wikipedia apresenta (Hyperlink

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jornalismo_Cultural). «Chama-se Jornalismo Cultural à especialização da profissão jornalística nos factos relacionados com a Cultura, local, nacional e internacional, nas suas diversas manifestações, como Música, Cinema, Teatro, Artes Plásticas, Televisão, Folclore e afins. As primeiras coberturas de Cultura surgiram por volta do século XVIII em França, com os panfletos literários e revistas dirigidas especificamente para o público feminino».

Em Portugal, e em consequência do 25 de Abril de 1974, dá-se a explosão das manifestações culturais até aí reprimidas, naquilo que configurou o nascimento das indústrias culturais no país. Havia um teatro em cada esquina e uma corrida ávida aos cinemas, que agora passavam tudo o que até aí se via apenas lá fora.

Nos intranquilos anos pós-revolução muitos foram os títulos nascidos e/ou desaparecidos em combate (República, Jornal Novo, A Luta, O Tempo, O Jornal) observando-se uma tendência de segmentação e especialização cada vez maiores que fará com que, na década de 80, comecem a aparecer jornais e revistas especificamente dedicados à cultura. Portugal entrava no mapa das iniciativas graúdas do marketing cultural global, com os primeiros grandes espectáculos a aparecerem.
Autonomização
São desta altura os dois únicos semanários exclusivamente dedicados à área da cultura e espectáculos: o Se7e, que marcou de forma decisiva a geração que tem hoje entre 40 e 50 anos, e o Blitz, resistente até ao ano transacto.

Ambos iam bem para lá do jornalismo cultural, sendo responsáveis por uma vivificação da cena artística portuguesa, não só porque a acompanhavam exaustivamente como também porque criavam tendências e vanguardas, premiadas todos os anos nas sessões dos Se7es de Ouro e Prémios Blitz.

O Se7e fazia o primeiro cartaz exaustivo de tudo o que se passava a nível cultural no país – o pioneiro “Roteiro” – e dava a uma camada jovem ávida de informação especializada linhas de leitura e acompanhamento da actualidade, enquanto o Blitz acompanhava com fervor underground a cena alternativa que ia nascendo, sobretudo a nível musical, de que as jovens redacções dos dois jornais eram o olhar mais atento.

O desenvolvimento das indústrias culturais gerou novas audiências e esta nova fatia de espaço público rapidamente foi apropriada pelos media. A informação cultural alargou--se aos jornais generalistas, que criaram editorias de Cultura, como as de Economia e Desporto, na linha de segmentação que caracteriza o campo dos media a partir dos anos 80. Aí começam a desenhar-se profundas alterações, com a privatização, comercialização e crescente concentração de propriedade, que fará de 90 uma década já portadora das tendências que hoje se observam.


Hegemonia televisiva
A televisão afirmou a sua hegemonia como principal socializador dos tempos modernos, com efeitos devastadores na imprensa, em virtude de uma política inicial de dumping nos preços da publicidade que veio a inviabilizar muitos títulos. De um panorama equilibrado de matutinos e vespertinos, não ficou um único vespertino (Diário de Lisboa, Diário Popular, República ou A Capital, entretanto várias vezes ressuscitada e defunta). Temos hoje apenas três diários de referência: Diário de Notícias, Público e Jornal de Notícias.

Ao mesmo tempo, o fenómeno televisivo deu lastro à multiplicação de revistas de “vida social”, as chamadas revistas “cor-de-rosa”, que passam a referir acontecimentos da esfera cultural, pois as “celebridades” – muitas delas, de resto, forjadas pelas próprias televisões, com a sua enxurrada de novelas e reality shows a produzir estrelas de consumo rápido – fazem questão de frequentar as vernissages que funcionam como indispensáveis canais de promoção.

Actualmente, os principais diários têm suplementos de natureza cultural com periodicidade semanal, na esteira da precursora “Revista” do semanário Expresso. O Público tem os suplementos “Y” (cultura pop urbana, cinema, teatro) e “Mil Folhas” (livros, música clássica, arquitectura) e o DN publica o DNA (um misto, com incorporação do antigo suplemento musical).

O Jornal de Letras, Artes e Ideias resiste desde 1981 como único jornal temático dedicado à cultura, agora com uma tiragem residual e periodicidade quinzenal. Há ainda a referir o importante papel da revista trimestral Colóquio Letras editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e o suplemento “Actual” do Expresso, significativamente patrocinado por um banco.

Uma das tendências mais recentes é a aposta que os jornais, ameaçados pela crise económica geral, fizeram no lançamento promocional de colecções de livros, filmes e discos, bem pensadas e de boa qualidade, que vêm criando um nicho de mercado interessante.
Marketing
Com este panorama instalou-se, contudo, um jornalismo cultural pobre e pouco entusiasmante. A especialização é um facto, necessário, mas assistimos a uma promiscuidade crescente entre os espaços de puro jornalismo – informação, opinião – e da promoção.

O agressivo marketing das indústrias culturais (grandes distribuidoras de cinema, editoras de discos e livros, promotores de espectáculos) marca as secções de cultura, muito transformadas em canais de divulgação da sua agenda, conferindo um espaço progressivamente menor à crítica especializada e ao ensaio. O declínio do estatuto do crítico, cuja perda de legitimidade é um fenómeno observável noutros países, começou entre nós com a afirmação do semanário O Independente, com o seu estilo iconoclasta, a trazer à imprensa uma leveza interpretativa em que uns poucos que não sabiam nada de nada escreviam tudo sobre tudo.

Num país que já de si dá pouca atenção à cultura (ver caixa), a única agência noticiosa, a LUSA, não tem editoria de Cultura, tal como as televisões, com excepção recente da SIC. Os programas culturais rareiam e o desaparecimento polémico do magazine diário “Acontece” do canal 2 da RTP deu lugar a um substituto sem alma que se concentra sobretudo na missão de “cartaz”, limitando--se a divulgar o que acontece, à semelhança do que se passa nas estações privadas, que o fazem de forma breve nas franjas das suas grelhas, mercê do insólito pacote de “serviço público” imposto por lei.

Bons espaços como o “Laboratório” na SIC Notícias (cabo) ou o “Palco TSF”, na rádio, desaparecem, em consequência da restrição orçamental que o próprio Ministério da Cultura (patrocinador de alguns destes programas) tem vindo a sofrer.

De entre os escassos estudos sobre o assunto, merece destaque o do brasileiro Sérgio Luiz Gadini, que analisou exaustivamente as páginas culturais dos principais diários portugueses entre Outubro de 2001 e Fevereiro de 2002 (Tematização e Agendamento Cultural nas Páginas dos Diários Portugueses, www.bocc.ubi.pt). Conclui que aí se dá prioridade a um olhar de divulgação e agendamento em detrimento do confronto com uma pluralidade de fontes, como acontece noutras secções dos mesmos periódicos. Traça o retrato de um jornalismo fortemente interpretativo, apaixonado pelos seus monólogos adjectivados que alternam entre um registo de “encantamento” ou de sulfuroso desdém pelos protagonistas que refere.
Normalização
Se considerarmos todo o jornalismo como um acto de cultura construtor da realidade e os jornalistas como gestores do acesso ao espaço público, no caso vertente, com a missão de criar pontes entre os criadores e o público, os últimos anos são algo desoladores. O caso recente do filme “O Herói”, do angolano Zezé Gamboa, produzido pelo português Fernando Vendrell, é exemplar do que o nosso jornalismo cultural deixa de fora: após uma passagem meteórica pelas salas de cinema, com escassa atenção mediática e fraca bilheteira, o filme ganhou em 2005 o prémio de Melhor Filme Estrangeiro no prestigiado festival americano de Sundance (criado por Robert Redford). A notícia caiu como uma surpresa nas redacções que, então sim, se desdobraram em conversas com o realizador. Estes maus sinais não significam, contudo, o apocalipse do jornalismo cultural, como crêem os mais pessimistas. Assistiu-se à qualificação progressiva dos profissionais do sector e à sua internacionalização – é já vulgar termos jornalistas portugueses nos grandes eventos mundiais de cinema, teatro, artes plásticas e performativas.

A mistura entre promoção e jornalismo é um dado dos tempos: o especialista de marketing e o jornalista cultural estudam nas mesmas universidades.

Resistir ao contágio é sem dúvida um imperativo deontológico, que preferimos colocar como o “mínimo ético” de que fala Mário Mesquita a propósito da questão da responsabilidade social do jornalista (Mesquita, Mário, O Quarto Equívoco, Minerva, Coimbra, 2003: 275).

A velocidade crescente da overdose informativa que marca os nossos dias contribui para esta normalização dos espaços da cultura nos media. Sem estes a indústria cultural não existe. Mas ao mesmo tempo a cultura vai encontrando novas instâncias de legitimação, de que a democrática web, com a sua explosão anárquica de sítios e blogues, é uma via. Tal como são as publicações alternativas que conseguem fidelizar públicos com propostas estimulantes fora do mainstream. Será bizarra a circunstância de o melhor jornalismo cultural acontecer nas páginas de uma revista publicada por um casino (Estoril, a Egoísta), por um punhado de entusiastas da aldeia transmontana de Vilarelho (Periférica, hyperlink “http://www.periferica.org”) ou pelos organizadores de um festival de artes performativas (Número Magazine)? Talvez não. Apenas um sinal dos tempos, felizmente vivíssimos.



Informação Complementar

Ir ao cinema não depende dos media
«Uma fatia significativa (33,7%) dos portugueses nunca vai ao cinema e uma fatia ainda mais significativa dos portugueses nunca aluga (53,1%) nem compra (63,6%) filmes para ver em casa. Os dados, que o presidente do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimedia (ICAM), Elísio de Oliveira, considera ‘preocupantes’, resultam do primeiro estudo de opinião sobre o Impacto Público da Classificação Etária e Hábitos de Consumo de Filmes encomendado pela Comissão de Classificação de Espectáculos e pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais à empresa Euroexpansão, em 2004 e agora divulgado (...) A maioria do público em geral (39,5%) com 18 ou mais anos afirma que nunca vai ao cinema. (....) ‘Os portugueses passam em média 3h20 por ano no cinema. As mesmas 3h20 que passam em média, mas por dia, a ver televisão. É absolutamente aterrador’, afirma o realizador António Pedro Vasconcelos (...) O factor mais determinante na escolha de um filme parece ser o argumento/tema (53,6%), seguido de perto pelo elenco (52,9%). O nome do realizador (15,4%), as recomendações dos amigos (12,1%) e a comunicação social (9,4%) desempenham um papel secundário nessa decisão».
Fonte: «Um terço dos portugueses nunca vai ao cinema», artigo de Inês Nadais in Público de 10.08.2005.

História de um género
As primeiras coberturas de cultura surgiram por volta do século XVIII em França, com os panfletos literários e revistas dirigidas especificamente ao público feminino. É no século das Luzes que os modos de comunicar sofrem uma mudança histórica, quando nascem os conceitos modernos de público e privado. Habermas coloca a génese do espaço público tal como o conhecemos até meados do século passado nos salons de Londres e Paris onde, em torno de fumegantes chávenas de chá, café ou chocolate se trocavam opiniões sobre a produção literária ou a intriga política contemporânea, marcas da ascensão de uma burguesia a intelectualizar-se e a subir na aristocrática sociedade de então.

Ler romances torna-se um hábito e a primeira livraria pública é fundada em 1742. «Aparecem clubes do livro, círculos de leitura e edições por subscrição. Estas novas actividades criam um público emancipado das formas antigas de reunião, agora mediadas pela imprensa e pela crítica profissional», precisa Rogério Santos (Santos, R., Os Novos Media e o Espaço Público, Gradiva, 2003). O desenvolvimento do capitalismo industrial e concomitante inscrição da imprensa como fórum de mediação privilegiado na passagem do século XIX para o XX dão origem às primeiras publicações especializadas na área cultural. Numa resenha muito breve, cabe lembrar, a nível internacional, o nascimento da revista New Yorker, em 1925, um marco que se mantém como referência até hoje, com o lastro de enormes escritores que revelou e a criatividade editorial que continua a demonstrar. Mais tarde, nas décadas de 60 e 70, revistas como a Interview, a Playboy com os seus ensaios sobre cultura contemporânea em ambiente gráfico inédito ou a inglesa Spectator, que queria tirar a filosofia das escolas, marcaram a explosão de novas formas de cultura e suas figurações nos media, associadas ao movimento de emancipação juvenil daqueles anos.

Em Portugal, a primeira referência a uma revista de carácter cultural é a deliciosa Gazeta Literária ou Notícias Exactas dos Principais Escritos Modernos, editada em 1761, no Porto. Os séculos XIX e XX foram abundantes em revistas de cultura e pensamento, de vida efémera mas significativa.

Manifestos de movimentos artísticos dos modernos das primeiras décadas do século e correntes conceptuais avulsas fervilhavam numa miríade de publicações que são uma das mais preciosas fontes da história cultural e política do século XX.

Durante a ditadura, no que hoje pode parecer um paradoxo, floresceram tertúlias, cineclubes e movimentos literários cuidadosamente veiculados em publicações que marcaram gerações como O Tempo e o Modo ou a Vértice. Nos jornais, as páginas de cultura eram um importante refúgio do combate político, com prosas lapidares assinadas por vultos da literatura portuguesa.

Durante este período, a oferta existente no âmbito das revistas generalistas centrava-se na Flama, que fidelizou um público de qualidade, e no Século Ilustrado, publicação insuficientemente estudada para o papel, que teve, de espelho do Portugal entre as décadas de 40 e 80. Fundada a 1 de Janeiro de 1938, era o suplemento semanal d’O Século e durou até 1977, com um estilo popular (não sensacionalista) que agradava a um público numeroso.



Nos anos 60, o Século Ilustrado contribuiu para o movimento de renovação que varreu a imprensa portuguesa, até aí dominada pelos jornais diários, quando na Europa estes já cediam espaço às revistas semanais. Com uma tiragem média de 18 mil exemplares, inovou em termos gráficos, fazendo um uso entusiástico da fotografia e as suas capas marcaram época. Após o desaparecimento do Cinéfilo, era porventura a publicação que mais espaço dava à cultura e espectáculos. A quantidade de depoimentos que, no número extraordinário de 1982, registaram a desolação pelo seu desaparecimento é bem expressiva da sua importância na cena nacional. Maria Antónia Palla, Fernando Lopes, Namora ou Piteira Santos referiam “o decano dos semanários portugueses” que “procurou sempre actualizar-se e acompanhar os tempos” como uma “necessidade cultural popular”.


* Teresa Maia e Carmo




Licenciada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Mestre em Comunicação Educacional Multimédia pela Universidade Aberta. Doutoranda em Comunicação na Universidade Complutense de Madrid. Docente na UAL. Jornalista.






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