Por um Natal mais grávido de esperança Maria Clara Lucchetti Bingemer



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Encontro25.05.2018
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Por um Natal mais grávido de esperança

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Natal é um tempo de gravidez.  Gravidez de esperança pelo novo que vem em forma de menino, humano e indefeso, nascido de mulher.  E é a esse mistério tão singelo e despretensioso, mistério pelo qual o mundo é mundo e a cadeia da humanidade segue adiante por séculos e milênios que atribuímos a salvação do mundo.  É nesse mistério de esperança frágil e desprotegida, exposta a todas as intempéries que a revelação afirma que chegou a plenitude dos tempos. 

            O que acontece no ventre de Maria e que aconteceu, acontecia, acontecera e acontecerá nas entranhas de todas as Marias, Ednas, Joanas, Cristinas e Anas que povoaram, povoam e povoarão a terra é o atestado de que a esperança é o que move o mundo e que quando parece já não haver mais nada a esperar a convicção de que em algum lugar, em alguma parte, uma mulher grávida dará à luz um filho.  E a esperança recomeçará a brotar da aparente esterilidade que ameaça assolar e ressecar a face da terra. 

            O Natal, portanto, é tempo de gravidez e gestação.  Neste menino pequeno e recém-nascido ao frio e ao calor, à fome e á sede, à saciedade e ao carinho, à dor e à alegria se encarnou a Palavra que vinha germinando nos sulcos do mundo, nas veias da história, e nas entranhas maternais de todo instante, desde o começo dos tempos.   Quando o Pai contraiu suas entranhas paterno-maternais para dar lugar ao que não era divino e criar o cosmos já habitou o fundo da terra a esperança de um dia a criação voltar a ser semelhante ao criador.

            Na plenitude dos tempos, desde as entranhas da terra e da humanidade, nasceu Jesus, do ventre de Maria de Nazaré.  Não desceu do alto, dos espaços siderais em algum vôo de emergência.  Brotou de baixo, do humano, da carne vulnerável e mortal.  Deus se fez carne em Jesus de Nazaré herdando em seu peito o sangue e o pranto, as alegrias e os desejos das gerações humanas que o haviam precedido e todos os futuros e mistérios desconhecidos e desejados. 

            Este é o mistério que hoje celebramos.  A justiça e a paz vêm de baixo e vem dos que estão abaixo.  Se a nossa justiça não abarcar esses que estão abaixo e à margem das benesses do progresso e da sociedade em que vivemos será como a palha que queima e se transforma em cinza.  Olhar para baixo: esta é a diretriz que nos é dada neste Natal assim como em todos. 

            Portanto que não se abra a terra para semear minas que explodirão vidas humanas em mil pedaços.  Que não se abra tampouco a terra para enterrar os cadáveres dos justos e o pranto das viúvas e dos órfãos.  Que não se abra jamais para fazer desaparecer os torturados, plantar as sementes envenenadas da cobiça e sepultar os sonhos irrealizados. 

            Que se abra, sim, a terra para que brote hoje e sempre, com sabor e aroma de novo, frágil e indefesa, a epifania, a manifestação de Deus que se faz criança na carne frágil de Jesus de Nazaré.  Que se abra a terra para que a gravidez universal da criação se torne parto infinito e constante.  Que a nova criação seja parida na caridade vivida, nos gestos humildes de amor aprendidos no Deus que desce e se encarna no mais estreito e frágil da Criação da qual é Senhor. 

            Que a nossa humanidade se abra para acolher o outro que sofre, que chora, que é infeliz.  O outro faminto, sedento, cativo e nu.  Que o coração seja de carne e não de pedra neste Natal onde Deus uma vez mais se encarna fragilmente para ensinar que o amor é uma flor frágil mas preciosa; bela mas indefesa; deslumbrante mas ameaçada.  E que é preciso cuidá-la com carinho para que ilumine e encha de beleza o mundo tão cheio de ameaças , guerras e morte.



            Feliz Natal a todos.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

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