Por uma política nacional de desenvolvimento regional (*)



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POR UMA POLÍTICA NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL (*)




TÂNIA BACELAR DE ARAÚJO

Economista,

Professora do Departamento de Economia da UFPE

APRESENTAÇÃO

O presente artigo tem como objetivo contribuir para a discussão sobre a necessidade , a possibilidade e a pertinência de se formular e implementar uma Política Nacional De Desenvolvimento Regional no Brasil. Um tema que desapareceu da pauta de discussão nacional nesses tempos de hegemonia das idéias liberais onde se prefere defender que o mercado será capaz de comandar a vida do país , inclusive sua dinâmica regional.


As idéias nele expostas não resultam de reflexão recente e isolada, mas vêm sendo amadurecidas há alguns anos e partilhadas com outros estudiosos da questão regional brasileira que, como eu, insistem em discordar da proposta liberal e teimam em reafirmar que sua implementação só fará ampliar as já gritantes e inaceitáveis desigualdades regionais do Brasil . Em textos anteriores avançamos nas análises e proposições aqui apresentadas (*)
Após examinar a herança da dinâmica regional brasileira , tentar ressaltar as novas tendências de comportamento da economia brasileira e seu rebatimento na dinâmica espacial das atividades econômicas, busca-se especular sobre uma provável redefinição da dinâmica regional num contexto de globalização e de opção por priorizar a chamada “integração competitiva” comandada pelo mercado .
Trabalha-se com a hipótese da fragmentação espacial do país em tempos de inserção competitiva mas sobretudo de inserção passiva do Brasil nos mercados em globalização. Possibilidade de fragmentação aqui chamada de “desintegração competitiva” . Tendência que pode ser contrabalançada por uma nova política nacional de desenvolvimento regional. Política que exige a negação de teses neo - liberalizantes tão em voga , que requer presença ativa e articuladora do Estado na cena nacional, inclusive do Governo Federal ( mas não apenas dele) . Política praticada, contemporaneamente, em outros países e até por Blocos Econômicos, como é o caso da União Européia.
Contrapondo-se à visão dominante atual, esse artigo procura argumentar que a inserção de um país como o Brasil no novo ambiente mundial pode se dar sem ampliar ainda mais as fraturas (especialmente as sociais e regionais ) herdadas do passado . E que se pode combinar inserção econômica no mercado global com busca de integração das diversas regiões do país na dinâmica do desenvolvimento nacional.
Defende-se aqui que o controle social da economia é tarefa do Estado, como afirma Alain Touraine (TOURAINE,1997) e ele deve se impor aos ventos liberalizantes que sopram atualmente, em meio à exaustão do nacional desenvolvimentismo , hegemônico no Brasil do século XX . Subordinar a dinâmica econômica regional ao objetivo da consolidação da integração nacional é tarefa do Estado - não apenas do Governo.
A dinâmica regional entregue apenas às próprias decisões do mercado tende a exacerbar seu caráter seletivo, ampliando fraturas herdadas. Tende a desintegrar o país. A proposta aqui exposta se contrapõe à desintegração competitiva , excludente, seletiva e em curso. Supõe uma nova abordagem da questão regional brasileira e propõe a formulação e implementação de uma Política Nacional De Desenvolvimento Regional.



  1. A DINÂMICA REGIONAL HERDADA

Ao longo de quatro séculos ,desde seu descobrimento pelo capital mercantil em busca de internacionalização, até o século atual, o Brasil se constituiu como um país rural , escravocrata e primário – exportador. Só no século XX é que emerge o Brasil urbano - industrial e de relações de trabalho tipicamente capitalistas. As antigas bases primário – exportadoras, embora montadas no amplo litoral do país, eram dispersas em diversas regiões , tendo associadas a elas, as indústrias tradicionais. A imagem proposta por Francisco de Oliveira é a de um “arquipélago” de regiões que quase não se ligavam umas com as outras por se articularem predominantemente com o mercado externo.


A moderna e ampla base industrial , montada no atual século, ao contrário, tendeu a concentrar - se, fortemente, em uma região , o Sudeste. Com 11% do território brasileiro, o Sudeste respondia, em 1970 , por 81 % da atividade industrial do país, sendo que São Paulo, sozinho, gerava 58% da produção da indústria existente.
No entanto, nas décadas recentes, começava a se verificar, no Brasil, um modesto movimento de desconcentração espacial da produção nacional . Esse movimento se inicia ( anos 40 e 50) via ocupação da fronteira agropecuária, primeiro no sentido do Sul e depois na direção do Centro – Oeste , Norte e parte oeste do Nordeste. A partir dos anos 70 ele se estende à indústria. Na medida em que o mercado nacional se integrava, a indústria buscava novas localizações , desenvolvendo-se em vários locais das regiões menos desenvolvidas do país, especialmente nas suas áreas metropolitanas. Em 1990, o Sudeste caíra para 69% seu peso na indústria do Brasil, São Paulo recuara sua importância relativa para 49%, enquanto o Nordeste passava de 5,7% para 8,4% seu peso na produção industrial brasileira, entre 1970 e 1990. O mesmo movimento de ganho de posição relativa acontecia com o Sul, Norte e Centro - Oeste. Os efeitos da desconcentração das atividades agrícolas, pecuárias e industriais afetaram o terciário, que também tendeu à desconcentração .
O resultado é que, embora a produção do país ainda apresente um padrão de localização fortemente concentrado , em 1990 a concentração era menor que nos anos 70. Entre 1970 e 1990, o Sudeste cai de 65% para 60 % seu peso no PIB brasileiro, enquanto o Sul permanece estável, respondendo por cerca de 17% da produção nacional, mas o Nordeste, Norte e Centro - Oeste ganham importância relativa (essas três juntas, passam de 18 % para 23 % sua participação no PIB do Brasil).
Ao mesmo tempo em que constatavam a tendência a desconcentrar a dinâmica econômica no espaço territorial do país nas últimas décadas, diversos estudos enfatizam a crescente diferenciação interna das macroregiões brasileiras. Carlos Américo PACHECO, por exemplo , chama atenção para o aumento da heterogeneidade intra - regional que acompanhou o processo recente de desconcentração e que legou uma configuração ao país bastante distinta da que possuía em 1970 . Constata ele que o desenvolvimento da agricultura e da indústria “periférica” não apenas modificou a dimensão dos fluxos de comércio mas transformou as estruturas produtivas de diversas regiões, resultando em maior diferenciação do espaço nacional, com aumento da heterogeneidade interna e reforço de certas “especializações”, gerando o surgimento de “ilhas” de prosperidade, mesmo em contextos de estagnação (PACHECO, 1998). No Nordeste e no Norte, por exemplo, essa diferenciação interna se amplia muito nas últimas décadas, como fica claro no artigo em que analisei a crescente complexidade e heterogeneidade da realidade nordestina (ARAÚJO, 1995) e no trabalho onde Sérgio BUARQUE identifica profundas diferenciações na organização do espaço econômico da região Norte (BUARQUE, 1995) .

Essa crescente diferenciação regional em diversas macroregiões brasileiras teria sido a contrapartida do processo de integração do mercado nacional, comandado a partir de São Paulo, segundo Wilson CANO. Para esse autor, bloqueando as possibilidades de “industrializações autônomas”, como sonhara o GTDN para o Nordeste, no final dos anos 50, o movimento de integração do mercado nacional forçava o surgimento de “complementaridades” inter-regionais e fazia desenvolverem-se “especializações” regionais importantes (CANO, 1985) . Servem como exemplos, o desenvolvimento de pólos como os de eletro-eletrônicos na Zona Franca de Manaus, mineração no Pará, bens intermediários químicos no Nordeste oriental, têxteis no Ceará e Rio Grande do Norte, entre outros.


Embora a lógica da acumulação fosse a mesma no imenso território do país, como bem destaca Francisco de OLIVEIRA e estivéssemos construindo uma “economia nacional, regionalmente localizada” em substituição às “ilhas regionais” da fase primário – exportadora (OLIVEIRA, 1990), as heterogeneidades internas às macroregiões não diminuíram. Muito ao contrário, tenderam a se ampliar, nos anos setenta e oitenta. A prioridade principal era a da integração do mercado interno nacional e a da consolidação da integração físico - territorial do país - objetivo importante dos Governos Militares. E nesse contexto, da mera articulação comercial entre as regiões passa-se à integração produtiva comandada pelo grande capital industrial e pelo Estado Nacional, como mostra Leonardo Guimarães Neto (GUIMARÃES NETO, 1989) . Com ela, as regiões se integram à mesma lógica da acumulação enquanto ficam mais complexas e diferenciadas internamente.


2. A DINÂMICA ATUAL

Num contexto mundial marcado por transformações importantes, o ambiente econômico brasileiro sofre grandes mudanças nos anos noventa. Dentre as principais destacam-se uma política de abertura comercial intensa e rápida, a priorização à integração competitiva , reformas profundas na ação do Estado e finalmente a implementação de um programa de estabilização que já dura vários anos ( 1994 até o presente) . Paralelamente, o setor privado promove uma reestruturação produtiva também intensa e muito rápida.


Nesse novo contexto, novas forças atuam, umas concentradoras, outras não. Dentre as que atuam no sentido de induzir à desconcentração espacial destacam-se : a abertura comercial podendo favorecer “focos exportadores”, mudanças tecnológicas que reduzem custos de investimento, crescente papel da logística nas decisões de localização dos estabelecimentos, importância da proximidade do cliente final para diversas atividades, ação ativa de Governos locais oferecendo incentivos, entre outros. Enquanto isso, outras forças atuam no sentido da concentração de investimentos na áreas já mais dinâmicas e competitivas do país . Atuam nesse sentido, em especial, os novos requisitos locacionais da acumulação flexível, como : melhor oferta de recursos humanos qualificados, maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia, maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica, proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda.
Autores com PACHECO chamam a atenção também para os condicionantes da reestruturação produtiva e em especial para a forma como vem se dando a inserção internacional do Brasil, especialmente no que diz respeito às estratégias das grandes empresas frente ao cenário da globalização da economia mundial. E constatam que, ao contrário do que se poderia esperar, a globalização reforça as estratégias de especialização regional (OMAN, 1994) . A nova organização dos espaços nacionais tendem a resultar de uma lado, da dinâmica da produção regionalizada das grandes empresas (atores globais) e da resposta dos Estados Nacionais para enfrentar os impactos regionais seletivos da globalização.
Tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas , onde a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no espaço nacional - embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais - e que ia lentamente desconcentrando atividades em espaços periféricos do país. O Estado Nacional jogava um papel ativo nesse processo, tanto por suas políticas explicitamente regionais , como por suas políticas ditas de corte setorial/nacional, como pela ação de suas Estatais.


2.1. Tendências de Localização da Produção
No presente, as decisões dominantes tendem a ser as do mercado, dada a crise do Estado e as novas orientações governamentais, ao lado da evidente indefinição e atomização que tem marcado a política de desenvolvimento regional no Brasil. Embora as tendências ainda sejam muito recentes, estudos têm convergido para sinalizarem, no mínimo, para a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas
Alguns autores chegam a falar em reconcentração, como é o caso de Clélio CAMPOLINA DINIZ, da UFMG . No caso da indústria, estudos recentes permitem falar de tendência a concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. Também identificando uma forte tendência à concentração espacial do dinamismo industrial recente, trabalho elaborado pelo mesmo Clélio Campolina , localizou os atuais centros urbanos dinâmicos do país, em termos de crescimento industrial. Constatou que a grande maioria deles se encontra num polígono que começa em Belo -Horizonte, vai a Uberlândia (MG), desce na direção de Maringá ( PR) até Porto-Alegre (RS) e retorna a Belo - Horizonte via Florianópolis (SC), Curitiba (PR), e São José dos Campos (SP). Das 68 aglomerações urbanas com intenso dinamismo industrial recente, 79 % estão situadas nas regiões Sul /Sudeste, 15% no Nordeste e apenas 6% no Norte e Centro - Oeste (CAMPOLINA DINIZ, 1996). Na sua maioria, são capitais ou cidades de porte médio, muitas delas bases dinâmicas recentes, como Sete Lagoas, Divinópolis, Pouso Alegre e Ubá, em Minas Gerais; Araçatuba Pirassununga, Jau e Tatui, em São Paulo ; ou Pato Branco e Ponta Grossa, no Paraná; entre outras.

As deseconomias de aglomeração tiram as maiores Regiões Metropolitanas , Rio e São Paulo, desse foco dinâmico industrial, mas essa última concentra cada vez mais o comando financeiro da economia nacional.

É certo que as conseqüências espaciais de políticas importantes como a de abertura comercial e a de integração competitiva comandada pelo mercado, aliadas a aspectos importantes da política de estabilização (como câmbio valorizado, juros elevados e prazos curtos de financiamento) têm impactaram negativamente em vários segmentos da indústria instalada no Brasil e afetaram especialmente São Paulo ).

É certo também que algumas empresas de gêneros industriais mais intensivos em mão-de-obra ( calçados, confecções, por exemplo) têm buscado se relocalizar no interior do Nordeste, para competir com concorrentes externos (principalmente com os países asiáticos), atraídos pela super oferta de mão-de-obra e baixos salários, e pela possibilidade de flexibilizar as relações de trabalho (adotando subcontratação, por exemplo), ao se mudarem .

Mas esses fatos não alteram significativamente as tendências e as preferências locacionais identificadas pelos estudos de Campolina Diniz . Tendências e preferências que beneficiam as regiões mais ricas e industrializadas do país (o Sudeste e o Sul). Por sua vez, o Prof. Paulo HADDAD tem chamado a atenção para o reforço dado pelo Mercosul a essa tendência de arrastar o crescimento industrial para o espaço que fica abaixo de Belo-Horizonte ( HADDAD, 1996).

No que se refere às atividades do setor primário, constatava-se que, em décadas anteriores, a fronteira agrícola avançara na direção do Norte e sobretudo o Centro - Oeste. Essa última região passara de 11% ,em 1968/70, para 23% em 1989/91, seu peso na produção nacional, face ao dinamismo intenso da produção de grãos (especialmente soja). No período mais recente ( 1991/94) , a agricultura ganha presença na região Sul, que passa a responder por 52% da produção brasileira de grãos, contra 48% observados no triênio 1989/91. Vale destacar que, sozinho, o Rio Grande do Sul produz ¼ do total nacional, quantidade que representa quatro vezes a produção de grãos de todo o Nordeste e 10% a mais do que toda a produção da região Centro - Oeste (CAMPOLINA DINIZ, 1994).


Por sua vez, a fronteira mineral, no seu dinamismo recente buscou áreas como o Pará, que já disputa com Minas Gerais o primeiro lugar como produtor brasileiro de minérios, Goiás (rico em amianto, estanho, fosfato e nióbio) e Bahia ( com ocorrências diversificadas). No Nordeste, começa-se a investir na construção de gasodutos, aparecendo com reservas importantes de gás natural Estados como Bahia, Alagoas e Rio Grande do Norte. Sua tendência espacial recente foi, portanto, descentralizadora. Mas, as explorações recentes não foram industrializantes , como em Minas Gerais , onde se desenvolveu, associado à mineração, um complexo siderúrgico-metalúrgico- mecânico e de produção de material de transportes. Isso porque as novas áreas de exploração mineral ( como Carajás) tenderam a especializar-se na produção para exportação, tendendo a constituir modelo tipo enclave .
No que se refere à agroindústria, a atividade açucareira tem ampliado presença no Centro-Oeste e Sul . A agroindústria de processamento de produtos da agricultura irrigada avança também no Nordeste, mas a de suco de laranja continua mais dinâmica no Sudeste( São Paulo) e de processamento de produtos da avicultura e suinocultura permanece mais forte no Sul.
Percebem-se, assim, a dinamização de diversos focos dinâmicos em diferentes sub-espaços das macro-regiões, contrabalançando a tendência à concentração do dinamismo industrial. Vale lembrar, no entanto, que a agricultura, a extração mineral e a agro-industria não têm peso dominante na composição do PIB brasileiro .
2.2 Preferências Locacionais Dos Investimentos Privados

As informações disponíveis sobre os investimentos futuros não permitem mais que esboçar algumas tendências referentes à futura distribuição espacial da atividade no país. Em relatório recentemente elaborado para o IPEA, GUIMARÃES NETO ( GUIMARÃES NETO, 1996) examina algumas informações, notadamente o levantamento do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo sobre as intenções de investimentos industriais, prevalentemente da iniciativa privada, além de indicadores da ação de alguns bancos oficiais no que se refere ao financiamento dos investimentos.



Através do exame de parte relevante dessas informações não se pode descartar o caráter espacialmente seletivo dos investimentos industriais, que privilegiam alguns espaços específicos nas diversas regiões, tornando-as extremamente heterogêneas, na medida em que não se difundem pelo resto dos espaços regionais. Os dados ainda mostram, claramente, uma divisão de trabalho entre as regiões brasileiras, uma vez que parcela importante dos segmentos produtivos que definem a dinâmica da economia nacional tende, mais uma vez, a se concentrar nas regiões onde teve início e se consolidou a indústria moderna brasileira. Enquanto que os segmentos mais leves da indústria, de menor densidade de capital, procuram as regiões de menor nível de desenvolvimento e, seguramente, de custo de mão-de-obra menor.
Em termos macroregionais, os dados do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo antes referidos, revelam que dos investimentos - que podem ser regionalizados e identificados os investidores potenciais, até o ano 2000 - cerca de 64,3% deverão concentrar-se no Sudeste (sendo 28,2% em São Paulo), 17,6% no Nordeste e 9,4% no Sul. Embora com representatividade menor, na região Norte deve ser investido o equivalente a 7,5% do total dos investimentos previstos para o país . No Centro-Oeste, seriam investidos não mais que 1,2% do total
Dois aspectos chamam a atenção quando se desce ao exame pormenorizado dos investimentos segundo sua localização por unidade da Federação e por segmentos produtivos do setor industrial. No que se refere ao primeiro aspecto, quanto se considera, por exemplo, um patamar mínimo de 10% da participação dos Estados no investimento total, observa-se que as intenções de investimentos se concentram em basicamente três unidades da Federação: São Paulo (28,2%), Rio de Janeiro (19,3%) e Minas Gerais (14%), todos no Sudeste, que somados abrangem mais de 60% dos investimentos previstos para a indústria até o ano 2000. Reduzindo mais o patamar mínimo considerado na participação nos investimentos, o que se observa é o surgimento de outras macroregiões, que se fazem representar por um número muito reduzido de Unidades Federadas. Considerando-se o patamar de 4%, destacam-se, na região Norte, o Estado do Pará (4,2%); no Nordeste, a Bahia (9,4%) e na região Sul, o Rio Grande do Sul (4,6%).
São esses os Estados para os quais deverá, no futuro imediato, dirigir-se a parte mais significativa dos investimentos industriais. Se aos Estados antes referidos somar-se o do Paraná, com 3,2% dos investimentos, nos sete estados referidos deverão concentrar-se cerca de 83%, aproximadamente, do total dos investimentos previstos pelo Ministério da Indústria, Comércio e Turismo e cujos valores podem ser regionalizados e identificados os grupos investidores .
Relativamente à distribuição regional dos investimentos segundo os segmentos produtivos mais importantes, o que se destaca, de mais relevante, é o seguinte:
a) quando se observa o peso dos segmentos produtivos mais importantes destacam-se os seguintes percentuais: no total dos investimentos previstos, a indústria de fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e carrocerias participa com 11,8%; a de extração mineral com 15,4%; a de metalúrgica básica com 12,9%; a indústria de minerais não-metálicos 3,4%; a indústria de produtos alimentícios e de bebidas cerca de 7,8%; a de papel e celulose, aproximadamente 13%; a de química, cerca de 16,7%; a têxtil, 4,6% e a eletrônica e de material de comunicações, cerca de 3%; ou seja, esse conjunto de segmentos produtivos compreendem quase 89% do total dos investimentos aqui considerados;
b) quando se examina a localização regional do segmento da indústria de fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e carrocerias, o que conclui é por sua enorme concentração no Sudeste, segundo dados do MICT. De fato, cerca de 85,2% do total dos investimentos deste segmento deverá se concentrar nesta região, fundamentalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo;
c) no que se refere à indústria extrativa mineral, notadamente a partir da exploração de petróleo no Rio de Janeiro e das demais atividades minerais em Minas Gerais, cerca de 94,8% dos investimentos estão concentrados no Sudeste. Fora desta região, apenas se pode marcar a presença da região Norte, com os investimentos previstos para o Estado do Pará, que alcançam cerca de 4,5%;
d) também fortemente concentrados no Sudeste, estão os investimentos previstos para a indústria metalúrgica básica, cujos investimentos deverão, em cerca de 68,1% localizarem-se naquela região e em cerca de 25,2% no Norte. Na primeira região, deve-se considerar o peso dos investimentos em Minas, Rio e São Paulo, e, na região Norte, no Pará.
e) a indústria química, registra um peso importante no Sudeste, que com a contribuição de São Paulo e Rio de Janeiro, deverá, no futuro imediato, atrair cerca de 66,4% dos investimentos; no entanto, neste segmento já se nota a presença da região Sul (notadamente do Rio Grande do Sul) e do Nordeste (Bahia), com respectivamente 17,2% e 16,1% do total;
f) nos demais segmentos reduz-se o peso do Sudeste, aparecendo alguns estados isolados nas demais regiões; assim,

(i) em minerais não-metálicos, embora o Sudeste com seus 51,4% tenha uma representatividade maior que o Nordeste, esta última região registra uma participação de 41%, com destaque para o Estado Bahia e bem menos para Pernambuco;



(ii) no que se refere à industria de produtos alimentares e bebida deve-se fazer referência novamente ao Nordeste (e em particular à Bahia) com uma participação de 22,9%, menor que a do Sudeste (61,5%) mas bastante representativa no total;

  1. o Nordeste também aparece, através da Bahia, sobretudo, mas também do Maranhão, na indústria de papel e celulose, com 40,6%, segmento que registra uma distribuição de sua atividade em praticamente todas as regiões, a exceção do Centro-Oeste;

  2. no que se refere à têxtil, o Nordeste, novamente, marca sua presença através da participação de 69,2% do total dos investimentos, concentrados, na região, nos estados do Ceará, Paraíba e, numa participação bem menor, em Pernambuco;

(v) finalmente, cabe registrar, no que se refere à indústria eletro-eletrônica e de material de comunicação a presença marcante da região Norte, em particular do Estado do Amazonas; nesta região os investimentos alcançam 42,5%, marca somente superada pela participação do Sudeste, com 55,4%; enquanto a totalidade dos investimentos previstos para a região Norte concentram-se no Estado do Amazonas, no Sudeste, eles se voltam, preferencialmente para São Paulo, com uma participação muito reduzida do Rio.
Há, sem dúvida, uma divisão espacial de trabalho que induz os investimentos do grupo metal-mecânica, automobilística e química, os segmentos básicos da chamada indústria pesada, para o Sudeste e, simultaneamente, possibilita à industria de minerais não-metálicos, geralmente de um padrão de localização mais desconcentrado, e da industria têxtil, produtos alimentares e bebidas, e papel e celulose, além da indústria eletro-eletrônica e material de comunicações, por razões muito específicas (Zona Franca de Manaus), para as demais regiões.
No entanto, o que se deve ressaltar é que a divisão do território brasileiro em macro-regiões esconde mais que revela o fato de que há, da parte do grande investimento industrial, uma grande seletividade espacial, notadamente quando orientado para as demais regiões, que não o Sudeste. Neste particular, ressalta-se a presença, no Nordeste, do Estado da Bahia, em grande parte dos segmentos; no Norte, o Estado do Amazonas, quando se trata do segmentos eletro-eletrônico e de material de comunicação, e o Estado do Pará no tocante à metalúrgica básica; e no caso da região Sul, o Rio Grande do Sul, no que se refere à química e o Paraná, quando se trata de da indústria de produtos alimentícios e bebidas.
A tendência parece ser, com base nos dados do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo, de um lado, o avanço, no futuro imediato, na consolidação dos segmentos básicos e estratégicos no Sudeste, com uma participação provavelmente maior do Rio de Janeiro, de um lado. De outro lado, a consolidação de especializações em outros estados que, embora fora da região industrial tradicional, conseguiram, através de fatores os mais diferentes (recursos naturais, fortes incentivos regionais, condições de infra-estrutura) atrair segmentos específicos que definem sub-áreas dinâmicas e modernas em contextos nos quais prevalecem, ainda, sub-áreas tradicionais e estagnadas. Vale o registro, neste particular, para a quase ausência da região Centro-Oeste na previsão dos investimentos industriais para o futuro imediato. O destaque para sua participação fica no tocante à indústria de produtos alimentícios e bebidas, concentrada em Goiás.


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